segunda-feira, abril 30, 2007

Daqui não saio, daqui ninguém me tira

Paul Wolfowitz
Presidente do Banco Mundial

Carmona Rodrigues
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Tens aqui a tua gente

A Lusa noticiava há pouco o aparecimento de um novo blogue de apoio a Carmona Rodrigues. Intitula-se, contra-intuitivamente, O blog dos que querem que Carmona fique. Espreitem, porque demonstra que:
a) A imaginação humana não tem limites;
b) Enterrar a cabeça na areia não é privativo das avestruzes;
c) "Ele nem é de cá, só veio ver a bola"

Reparem ainda o quão plural e em busca do diálogo o novo vizinho se propõe ser. No post inaugural afirma-se que "dada a natureza e o objectivo deste blog, a publicação dos comentários aqui colocados dependerá da adequação a esta linha editorial."

Ainda o 25 (para rematar o ciclo bloggicioso)

Após o desfile da Avenida, na quarta-feira passada, os elementos do grupo de bloggers já aqui aludido anteriormente reflectiam, na Rua António Maria Cardoso, que, se vivessem há mais de 60 anos, seriam provavelmente militantes do Partido Comunista, mesmo que para mais cedo ou mais tarde se demitirem ou serem expulsos. Não havia, de facto, alternativa para desenvolver uma acção política consequente, desmobilizada e desorganizada que estava a oposição democrática, e perante o desânimo da primeira república.

Se foi assim na esquerda, pior foi na direita. Durante 48 anos, qual eucalipto, o regime reaccionário que existiu secou tudo à sua volta, não deixando espaço para o desenvolvimento de uma direita crítica e consistente, como a que se desenvolveu em França em torno do General de Gaulle. Essa atitude ajuda a explicar um certo alheamento da direita em relação ao 25 de Abril: de facto, a direita mais representativa no plano político português ou está demasiado presa às pouco recomendáveis referências cívicas do antigo regime, ou é composta por militantes que se identificam mais por reacção do que por afirmação positiva, ou por serem contra o deboche activista da esquerda (e eu debochado me confesso), ou por permanecerem amargurados com as consequências pessoais do PREC ou da descolonização.

O 25 de Abril é, entre outras coisas, um momento de libertação do obscurantismo que não é património exclusivo de qualquer família política. Esse património de liberdade é pertença de quem se reveja nos valores nucleares do regime, e pode ser acolhido por uma direita, liberal ou conservadora, europeia (que não necessariamente europeísta) ou não, em suma, por uma direita que não viva voltada para si própria, disposta a aceitar o compromisso democrático, e que se possa constituir como verdadeiro contraponto ideológico e não como uma mera agremiação dedicada à exploração política de determinados tópicos de uma agenda política maleável à vontade dos interesses do momento.

P.S.: O cravo na lapela também não tem dono. É um símbolo e um ícone. Não caiem os parentes na lama a ninguém por o usar.

Associativismo

Uma amiga chamou-me a atenção para o facto de hoje se comemorar o dia do Associativismo. Segundo o e-mail que me enviou, remetido pelo Académico de Torres Vedras, o dia 30 de Abril foi escolhido para comemorar "O Dia do Associativismo" por ter sido neste dia do ano de 1974 que a Junta de Salvação Nacional criou pelo Decreto-Lei nº179/74, o Fundo de apoio aos Organismos Juvenis, organismo com o qual se abriu espaço e caminho para uma Politica de Juventude em Portugal. A todos os que se dedicam à construção da cidadania por esta via de participação, feliz dia do Associativismo!

Pior do que o esperado


Saiu hoje o relatório Winograd sobre a condução da guerra no Líbano (na íntegra em inglês, aqui). Ninguém sai bem na fotografia, sendo o relatório pior do que o esperado para os actuais governantes: a principal responsabilidade pelo falhanço reparte-se entre o PM Olmert (falhou seriamente no exercício das suas funções no que respeita a capacidade de avaliação e sentido de responsabilidade e de prudência), o Ministro da Defesa Peretz (falhou no exercício das suas funções e revelou inexperiência) e o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas Dan Halutz (revelou não estar preparado e demonstrou falta de profissionalismo).


Más notícias para quem espera o relançar das iniciativas pela paz, uma vez que as já fracas credibilidade e confiança no Governo devem esfumar-se no rescaldo do relatório. Mesmo entre deputados do Kadima, partido de Olmert, já há quem diga que o PM se tem de perguntar se tem capacidade para continuar a liderar o Governo. Sendo o líder do segundo maior partido outro dos principais visados no relatório, o quadro não augura nada de bom para cenários de eleições antecipadas ou de crise política, uma vez que só o Likud pode capitalizar destas conclusões.

O relatório é demonstrativo, porém, de que há um mundo de diferença entre um Estado de Direito democrático que identifica os responsáveis pela gestão da coisa pública e que lhes pede contas pelos seus erros e insuficiências, e aqueles que, imbuídos de radicalismo e sem vontade séria de resolver o conflito e de progredir para a paz continuam a prometer a sua destruição e a minar as esperanças daqueles que em Israel e na Palestina esperam por uma nova oportunidade para negociar. Desta feita, contudo, a falta de peso político e a impreparação da actual liderança é terreno fértil para a estratégia de confrontação permanente e receita para o sucesso estratégico do Hezbollah.

A propósito de Polónia



O governo polaco lideardo pelo(s) Kaczinsky(s) tem um Ministro da Educação chamado Roman Giertych, que pertence a um partido de nome Liga das Famílias Polacas - um grupúsculo de xenófobos, homofóbicos e anti-semitas. Os irmãos Kaczinsky lá acharam que o líder de um partido como este merecia a pasta da Educação.

Mas isso é lá com eles.

Mas infelizmente o pai desse rapaz foi enviado para Bruxelas como Deputado Europeu. Entre organizar exposições em que compara o aborto ao holocausto e pronunciar discursos na Plenária a defender Salazar e Franco como bastiões da Civilização Ocidental contra as hordas comunistas, este amável senhor ainda encontra tempo para partilhar connosco uns panfletos com títulos como 'Civilizations at War in Europe' e 'European Values'. A primeira publicação defende que o mundo está dividido em civilizações (Civilização Judaica, Civilização Árabe etc), entre as quais há uma clara hierarquia . A civilização superior, de acordo com este iluminado, é a Civilização Latina, que se distingue das outras por ter a Igreja Católica - mãe da Europa - como fonte de inspiração. A mensagem principal do nosso amigo Giertych é que estas civilizaçãoes não se podem misturar, porque são tipo, género, buéda diferentes. O primeiro panfleto é, pois, um cocktail explosivo de racismo, etnocentrismo, paleo-catolicismo, anti-semitismo: enfim, um Best Of dos Greatest Hits do Top 10 da ideologia da extrema-direita polaca.

Já o segundo panfleto é mais a atacar o aborto e a homossexualidade numa tour de force
católico-obscurantista que causaria inveja a qualquer aprendiz de César das Naves, perdão, das Neves. Fica aqui um resumo escrito por uma amiga minha que teve a infelicidade de ler o segundo panfleto na íntegra e que trabalha na Comissão de Liberdades e Garantias do Parlamento Europeu (conhecida como LIBE).

Welcome to the Middle Ages.

Please find attached a new publication of MEP Maciej Giertych. It was delivered to the Member's mailboxes last week in Strasbourg.

Values

The author defines his concept of "values". He considers for example that peace, freedom, democracy, the rule of law, prosperity, justice and solidarity are not values- but rather "conditions" which depend on political circumstances.

Criticism of EP restricting Giertych's rights to "freedom of speech"

The text criticises the European Parliament which "restricted" him on several occasions to his "right to freedom of speech". He uses the following examples:

1) The recent publication of his book "Civilisations at War in Europe".
2) His anti-abortion exhibition in the EP in Strasbourg (November 2005) where abortion was compared to nazism.
3) His "anti-war display" in October 2004, asking the EP President to commemorate the victims of World War II by a minute of silence for the 1st September 1939.
4) His defence of Franco "in guaranteeing traditional values" in his speech in plenary on the 70th anniversary of the Spanish Civil War.

Abortion

Giertych explains that "unfortunately, in Poland we still have access to abortion in a few restricted situations: when the foetus is disabled, when the pregnancy is a consequence of a crime and when it endangers the life of the mother or seriously the health of the mother". He then proceeds to explain why abortion should be banned in those cases:

1) "Defective" babies. He asks "Are disabled babies not human?" He claims that the argument for "killing disabled babies stems from eugenic considerations", promoting the "Darwinian philosophy of the survival of the fittest". In some parts of the EU, "stopping from extending born babies to disabled adults" is to "what Nazi Germany was referred to as life not worth living (lebensunwertes) that justified the extermination program for the mentally ill".
2) Pregnancy from criminal intercourse. Giertych asks "why penalize the pre-born child? He is not guilty of rape". He adds that "the abortion itself will be another trauma that will add on to the one already suffered because of the rape. These may be accompanied by other traumas such as loss of virginity or venereal disease...However, if the child that arose is allowed to live, be born and grow up, it will be eventually recognised as a positive consequence of a very bad experience".
3) When the mother's health or life is at stake. "It is normal for mothers to risk their health, even life, just to protect their child. This lies in the maternal instinct, common to all species. Why should we treasure the health of the mother more than the life of the child.."

The author then calls for the banning of utero embryo production and criticises the European Parliament's work on funding stem-cell research. He also criticises the use of contraceptives.

"Promotion of homosexuality"

This part of the text is virulently homophobic. The author states:

"Homosexuals are in the same category as adulterers. I disapprove of adultery but am tolerant of adulterers.However, once they start bragging about their sexual conquests, showing pride in them and advocating free love, they become a problem, at least in some professions".
"Homosexuals acts are disordered by the very nature of them.The sexual impulse has a biological purpose, and this biological purpose is to perpetrate the species. No reproduction arises from homosexual activity. Thus it is biologically useless".
"Homosexuality is not an inborn condition. Here I speak as a geneticist....Homosexuality is an upbringing effect...Being an upbringing effect is a condition that can be reversed-but this would require cooperation with therapists, desire to become heterosexual and spiritual motivation to shed the disordered condition.It is as easy/difficult as shedding inclination to fornication, pornography, self abuse and other misuses of the sexual instinct".
"People who claim that homosexuality is a normal condition and wish to advertise this view....should be kept at a distance from jobs in which they could influence the opinions of minors".
"Needless to say, such public demonstrations of support for homosexuality as "gay parades" should obviously be forbidden".
"My position is exactly the same as that of the Catholic Church. I am tolerant of the sinner, intolerant of sin. Every sexual activity outside marriage is a sin, and marriage is understood as being composed of a husband and a wife".
Maciej Giertych also refers to the LIBE committee of the 20th March 2007, when the Liberals, Socialists and Greens called to examine if recent Polish declarations calling to forbid "homosexual propaganda" complies with EU laws and respect for fundamental rights. He says: "Does that mean that the EP considers itself competent to tell Poland that we must allow homosexual propaganda in schools? Cui bono?In who's interest?"

Outro 25 de Abril

Na passada quarta-feira, a Coreia do Norte comemorou desta forma o 75.º Aniversário do Exército, em favor do qual é escoado cerca de um quarto dos recursos do país. «Parece um tapete», diz o meu pai. Bem observado: parece um tapete prestes a ser pisado pelo augusto pé do Querido Líder.

sábado, abril 28, 2007

A Lei Kaczinsky


Em 1935, Agostinho da Silva foi demitido do Liceu José Estevão, em Aveiro, por se recusar a acatar a Lei Cabral, que impunha a obrigação de declarar por escrito e sob compromisso de honra não se pertencer a qualquer sociedade secreta - partido comunista e maçonaria especialmente visados.
Em 2007 os ultra-zelotas irmãos Kaczinsky que governam a Polónia (alguma ligação ao Unabomber?), fazem aprovar uma lei de "descomunização", segundo a qual qualquer responsável político, jornalista, professor universitário, advogado ou director de escola com mais de 35 anos deve dizer se colaborou ou não com a polícia secreta comunista.

Tadeusz Mazowiecki, primeiro chefe de governo não comunista da Polónia, e Bronislaw Geremek, antigo ministro dos negócios estrangeiros e hoje eurodeputado, recusaram assinar a declaração, em nome de uma Polónia democrática e europeia. Ambos foram destacados membros do Solidarnosc e reconhecidos resistentes ao totalitarismo que não precisam de exibir credenciais a ninguém. O primeiro foi demitido da comissão para a atribuição da mais alta condecoração polaca; o segundo tem em risco o seu mandato como eurodeputado, ou pelo menos assim pretende o governo.

Ambos não teriam decerto qualquer problema em assinar a declaração, não fosse ser este um acto de cobardia democrática e de perseguição totalitária, e tanto um como outro serem, como suspeito que sejam, genuínos na sua atitude de resistência à tirania, e não quererem substituir um totalitarismo por outro de sinal contrário. A sua recusa assume ainda especial relevo numa altura em que é moda ser anti-comunista e de bom tom desancar nos comunistas.

Tanto hoje como em 1935, é só um papel que se assina e poucos se importariam de o assinar (mesmo declarando falsamente). Mas em 1935, também poucos poderiam imaginar o que viria a seguir a um acto coberto de inocuidade burocrática, tanto mais que o país estava na ordem e havia alguém que mandava.
É no conforto de um estado de coisas como este que começa o comprometimento das liberdades mais elementares. Importa por isso relembrar o poema de Martin Niemöller, que nada esquecido tem estado nos últimos dias na blogosfera:

Primeiro, levaram os judeus.
Mas não falei, por não ser judeu.

Depois, perseguiram os comunistas.
Nada disse então, por não ser comunista.

Em seguida, castigaram os sindicalistas.
Decidi não falar, por não ser sindicalista.

Mais tarde, foi a vez dos católicos.
Também me calei, por ser protestante.

Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.

O que tu queres sei eu

Há uma manifestação da extrema direita em Santa Comba Dão. Outra está prevista para o 1.º de Maio. Dêem aos rapazinhos o que eles querem.

Salto geracional

Estive ontem num debate entre representantes de juventudes partidárias, no bar novo da Faculdade de Letras da UL, sobre legalização de drogas leves. Aquilo que normalmente promete ser palco para disputas ideológicas revelou-se de amplo consenso - JS, JSD e jovens do Bloco todos de acordo quanto à legalização, com mais ou menos restrições, e mesmo a representante da JP a afirmar a necessidade de despenalizar e mudar de estratégia. Cada vez menos uma questão dita fracturante, cada vez mais uma questão de dar uma solução racional para uma resposta desadequada da lei.

Dança das cadeiras

Lembram-se daqueles que achavam despropositadas as críticas ao presidente da República por este não ter seleccionado ninguém do PCP para o Conselho de Estado de forma a tornar o órgão plural e representativo? Será que também estão chocados com aqueles que sugeriram a troca no Conselho de Estado para permitir a entrada de Paulo Portas?

Boa sorte


O perfil certo para a função, com uma missão clara de contrariar os desvarios huntingtonianos de choque e apostar naquela que é a mensagem do humanismo e do racionalismo: o diálogo. Boa sorte!

Felizmente já não manda


No mesmo dia da nomeação de Jorge Sampaio para Alto Representante das Nações Unidas para o Diálogo Entre as Civilizações, José Maria Aznar (os sr. Ansar, para George W. Bush) condenou o multiculturalismo na Europa, considerando que "sociedades multiculturais são sociedades divididas", afirmando que este tipo de sociedade "é um erro e um grande fracasso" e ainda que o multiculturalismo é a "negação da sociedade democrática". Aznar exortou ainda os líderes europeus a recuperar os "nosos valores" e a "não pensar no politicamente correcto".


Parece mau demais para ser verdade, mas um líder de um dos mais importantes Estados membros da União Europeia proferiu um dos discursos mais xenófobos e reaccionários de que há memória. Apesar da ligeira subtileza na linguagem, Aznar esteve ao melhor nível de um Le Pen ou de um Haider. Agora que já não concorre a eleições e que está livre, o ex-presidente do Governo revela quem verdadeiramente é. E tendo em conta as suas origens ideológicas, acho particularmente claro que a democracia e a sociedade de que o sr. Aznar tanto gosta devem ser as que Espanha experimentou entre 1939 e 1975 - todos espanhóis, católicos e conservadores, todos a falarem a mesma língua e a lerem os mesmos livrinhos.

A finalizar lembrava só que, mesmo sem imigração, a Espanha a cujos destinos o sr. Aznar presidiu é um das sociedades mais culturalmente plurais do continente europeu. Aparentemente, este multiculturalismo não o incomodou quando dependia do apoio da Convergencia e Uniò catalã para governar no primeiro mandato - sacrifícios e concessões aos princípios que se têm de fazer...

sexta-feira, abril 27, 2007

A música calou-se



Mstislav Rostropovich
(27 de Março de 1927 - 27 de Abril de 2007)

quinta-feira, abril 26, 2007

Um anti-semita nunca vem só

Alguns na Direita portuguesa continuam a corresponder a todos os nossos preconceitos: continuam a achar que o 25 de Abril causou tanto sofrimento como libertou e elegem anti-semitas delirantes como heróis - como este.

Nós temos paciência: esperámos 48 anos pela Democracia, esperamos mais 50 para que eles aprendam a apreciá-la.

Foi há 70 anos



Para a Ana

Leonard Cohen - The Future

Eles lá sabem...

Os dados das presidenciais francesas em Portugal deram como resultados 37,2% dos votos para Ségolène, 35,6% para Sarkozy, 16,8% para Bayrou e 2,95% para Le Pen. Sim, 2,95 %, cerca de 75 pessoas. Eu sei que fica muito abaixo dos 10% obtidos em França. Mas ainda assim são 2,95% dos imigrantes franceses residentes em Portugal que votaram. 75 imigrantes escolheram Le Pen. Serão coerentes ao ponto de fazerem as malas?

Fui experimentar

Depois de ler o post que o João acabou de escrever, confesso que fiquei com remorsos. Pois é, já atravessei o famigerado túnel... (Pior, durante a tarde tentei subi-lo a pé, mas fui informado pelo polícia municipal que só se podia descer. Entende-se perfeitamente, podia chocar em contramão com um outro peão que viesse a descer).


Gostei da sensação de desacelerar até aos 40 km/hora a certo ponto, gostei da descida emocionante em escarpa e gostei particularmente da sensação de incerteza quanto a quais os testes ainda necessários e que vão levar o túnel a fechar nas noites dos próximos dias. Cheguei mais depressa à Fontes Pereira de Melo? Sem dúvida. Dizem alguns que por isso terei de estar rendido ao túnel. Não, porque a questão não é, nem nunca foi essa - continua a ficar demonstrado que traz mais trânsito ao centro da cidade, continuam a faltar as árvores que estavam na Joaquim António Aguiar e continuo a ser esquisito em relação ao facto de o metro passar já aqui ao lado, a alguns centímetros. Manias minhas, de certeza.

Salvar a memória

A minha jornada a celebrar a liberdade terminou, depois da descida da avenida, numa manifestação organizada pelo movimento Não Apaguem a Memória! junto à antida sede da PIDE/DGS, na António Maria Cardoso. No final, naquilo que acabou por ser uma ida conjunta de bloggers da Boina, do Ladrões de Bicicletas e da Loja das Ideias, tivemos a felicidade de ouvir breves depoimentos de Edmundo Pedro que se juntara ao evento e que por nós passou. Aqueles breves segundos, daquela imagem viva da resistência tornou ainda mais clara a nossa missão de guardiões da memória, a nossa missão de passar a palavra de Abril.
Era a força do pedido de preservação da memória, nas palavras do resistente, de quem sofreu as barbaridades das hienas para manter a chama da liberdade, de quem deu tudo para que tenhamos passado o dia a celebrar a democracia.
Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Cumpriremos.

O Túnel do Nibelungo da Metropolis


Inaugurou-se hoje um túnel que irá assegurar um decréscimo do trânsito no Marquês de Pombal, e permitir que os Cidadãos utentes da A5 possam poupar 5 minutos por dia em deslocações.

Este é o benefício que se espera deste investimento que deixou a Câmara de Lisboa em enormes dificuldades financeiras e sem capacidade de desenvolver projectos com real valor para a Cidade e para os seus Cidadãos. O investimento, que poderia reabilitar e apoiar a reabilitação de centenas de imóveis em Lisboa, foi “alocado” a uma obra sem intresse local mas com a projecção nacional, por pessoas que falharam à promessa de servir os interesses dos seus munícipes com o único objectivo de permitir um futuro aproveitamento político.



Contrariando a aparente irrelevância dos objectivos a que se propõe esta obra, sobretudo para a população lisboeta, hoje é, segundo o Presidente da Câmara de Lisboa, “dia de Túnel e de 25 Abril”. Para lá da absurdidade do comentário que tenta pôr ao mesmo nível o incomparável, a CML chegou mesmo a relegar o 25 de Abril para segundo plano ignorando a tradicional marcha na Avenida da Liberdade e marcando em sobreposição a abertura ao público desta obra.

quarta-feira, abril 25, 2007

Preâmbulo da Constituição da República Portuguesa


A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.


Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.

A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.

A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.

Música na Revolução: Chico

Música na Revolução: Hino

Música na Revolução: o sinal

Abril com R


Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução
r de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois
Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.
Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor
(onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.

Manuel Alegre

(Há mais imagens aqui)

terça-feira, abril 24, 2007

Arrojado demais (II)

Através do Glória Fácil, eis um excerto de uma entrevista por realizada por Fernanda Câncio a Pedro Arroja, há alguns anos. Deixo uma pérola exemplificativa, o resto está aqui.
"Trabalho infantil: diz que às vezes mais vale isso que a escola.
Com o sistema escolar vigente perdeu-se o ensinamento de comportamentos essenciais: obedecer à hierarquia, habituarmo-nos a cumprir compromissos... Agora o que quer que o menino faça chega ao final do ano e passa. Tem de chegar ao nono ano...
Acabava com a escolaridade obrigatória, portanto.
Claro. Eles tornam-se uns pequenos selvagens nessa idade crítica, que é dos seis aos quinze. Depois é muito difícil mudá-los...
Não deve existir legislação contra o trabalho infantil?
Não. Se a criança vai ou não trabalhar, é com os pais.
Não deve haver regras extra-família que definam os limites das relações entre pais e filhos? Como prevenir abusos, como precaver regimes de semi-escravatura?
É como nos casos de abuso físico: a criança vai parar ao hospital, enfim. A polícia participa.
A criança tem de ir parar ao hospital?
Não, se a criança aparece batida indevidamente, qualquer professor ou outra pessoa pode ir participar. Mas considere a alternativa, que era ao mínimo indício a polícia entrar pela casa dentro. Há com certeza vítimas, mas na alternativa haveria mais: destruia-se a civilização."

Luz ao fundo do túnel?



Eu sei que o título é previsível, mas depois de tanta história já sobra pouco...
Notícia da TSF: A Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP) defendeu que o túnel do Marquês, em Lisboa, não deve abrir ao trânsito quarta-feira, como previsto, por ainda apresentar falhas na segurança e falta de planos de emergência em casos de acidente.


Actualização:
Aparentemente, a cerimónia de inauguração do túnel está marcada para as 15h15, praticamente em simultâneo com a descida da Avenida da Liberdade em comemoração do 25 de Abril. A edilidade mostra com clareza as suas prioridades.

Arrojado demais

Desfecho do episódio: até mais.

It sounded better in the original German



Obrigado Arrastão!

A propósito de Ieltsin





segunda-feira, abril 23, 2007

Melhoras rápidas

Boris Yeltsin (1931-2007)

A chave

Não há aritmética na conversão de votos de primeiras para segundas voltas - nem Sarkozy, nem Ségolène se podem limitar a sacar das calculadoras e a juntar "esquerdas" e "direitas". Apesar de tudo, os resultados dos candidatos do seu campo ideológico são indicativos. A grande incerteza é o que fazer aos quase 19% de Bayrou. Serão para dividir entre os finalistas? Seriam só dele, Bayrou, e do seu projecto centrista, o que levará muitos dos seus eleitores a ficar em casa no dia 6 de Maio? Pronunciar-se-á o vencedor do bronze eleitoral sobre a sua escolha? Será essa pronúncia suficiente para mobilizar aqueles dos seus votos que eram de protesto contra a bipolarização tradicional?
Uma sondagem divulgada hoje dá a Sarkozy 54% na 2.ª volta, contra 46% de Ségolène, com 14% de indecisos, mas falta ainda um debate, a 2 de Maio, que gera expectativa. Pessoalmente, acho que muito passa pelo que vai na cabeça do líder da UDF. Com eleições legislativas logo a seguir, o campeonato eleitoral da segunda volta das presidenciais está longe de ser linear...

Primeiras impressões


Num breve relance, algumas ideias sobre a primeira volta:

1 - As sondagens não se afastaram do resultado real: Sarkozy confirma a vantagem e a dinâmica da campanha, Ségolène garante acesso à segunda volta com folga, Bayrou alcança o pódio. Única surpresa, a redução do score eleitoral de Le Pen. Contudo, a descida deste último pode ter-se ficado a dever, segundo alguns, à descida da abstenção, que se ficou pelos 15%. Suspeito que também se deve a alguma migração de votos para Sarko...

2 - Segundo vários analistas, o traço é o da subida da direita em comparação com escrutínios presidenciais anteriores. Contabilizando-se os votos Le Pen e de Villiers, a direita consegue 65%, ficando-se pelos 52% descontados os extremistas. Contudo, não sei se será acertado somar todo o eleitorado de Bayrou como direita, uma vez que parte da chave do seu sucesso terá estado na cartada do centrismo, "daquele que é mesmo do centro e tudo". Mesmo com incertezas quanto ao local de contabilização do voto Bayrou, a proeza de Sarkozy é a de ultrapassar a marca dos 30% na primeira volta, aproximando-se de um score de Giscard em 1974 e ficando à frente de todos os resultados de Chirac (dose adicional de satisfação para os lados da campanha de Sarko, seguramente...)

3 - A tragédia do PCF. Outrora um dos maiores partidos comunistas da Europa Ocidental, com resultados na casa dos 30%, a candidata do PCF não terá sequer conseguido ultrapassar a fasquia dos 2%. A extrema-esquerda recua dos 10% de 2002 para os 8% e, em conjunto, continua a mostrar mais vitalidade que a esquerda plural institucional, parceira dos governos Jospin.

domingo, abril 22, 2007

Bonne chance!


Não se riam

Acabei de fazer o Muppet Personality Test. Aparentemente, sou a Miss Piggy.
Divirtam-se, aqui.

Não há só um Marx

Desde que o DN noticiou o veto da JCP à intervenção de Ricardo Araújo Pereira no dia 25 de Abril (aqui e resposta do PCP aqui) que queria deixar umas ideias sobre o assunto. Estarei seguramente a repetir o que muitos já disseram (aqui, aqui e aqui, por exemplo), mas para além de ser um resultado final francamente mau para a imagem da JCP, que matou a possibilidade de intervenção jovem no comício final do desfile, apresentando-se sectária e fechada sobre os seus dogmas, é também um resultado mau para quem queria que o 25 de Abril representasse o momento de unidade de todos os que saúdam as conquistas de Abril e que desejavam, num momento em que parece importante fazê-lo, preservar a memória da ditadura e o legado da Revolução para os jovens.

Este episódio surge ainda um pouco na sequência de um post anterior do David sobre a forma de lidar com o humor na actividade política. O fair-play que encontramos em muitos dos convidados do Daily Show em sujeitarem-se em pessoa ao humor sem tréguas de Jon Stewart está muito longe da República Portuguesa e particularmente da Soeiro Pereira Gomes, sendo que alguns sorrisos amarelos perante a Contra-Informação ou sketches do Gato Fedorento ainda não fazem uma primavera. Adaptando o José Mario Branco ao caso, já era tempo de se perceber que o humor também é uma arma...

Coerência


Segundo o DN a Entidade Reguladora para a Comunicação Social vai analisar a nomeação de Pina Moura para o conselho de administração da Mediacapital. Seguir-se-á uma audição para apurar da presidência da Impresa por Francisco Pinto Balsemão?
PS - Concordo em absoluto com Ana Gomes quanto ao carácter tardio da saída das funções parlamentares - sou, neste domínio, muito céptico quanto às múltiplas excepções conferidas pela lei portuguesa à regra da exclusividade para o exercício de funções de deputado.

Tudo normal

Na conferência de imprensa de ontem, Pinto Coelho não esclareceu se os detidos pela PJ no quadro da operação junto de grupos skinheads são ou não militantes do PNR, apesar de acreditar na sua inocência. Segundo a TSF, como justificação para o silêncio sobre o assunto, o líder dos nacionalistas terá dito que a matéria está em segredo de justiça. Quantos não são os partidos em que a miltiância é matéria com relevo criminal? Como é possível que ainda encontremos pessoas que duvidem da boa fé e espírito democrático destes rapazes?

Look who's back


Pois é, noite de dupla goleada.

Depois do Benfica voltar às vitórias com um expressivo 0-3 no estádio dos Barreiros, Paulo Portas goleia Ribeiro e Castro por mais de 75% (é a minha primeira referência ao esférico-rei, mas hoje impunha-se pela comparação).

Tendo em conta a dimensão da vitória ainda fico com uma maior impressão que a sagacidade e o instinto de Paulo Portas o terão abandonado parcialmente. Havia necessidade da novela directas vs congresso, de deixar que os militantes da Juventude Popular e dos Trabalhadores Democratas-Cristãos votassem na eleições para o partido, de deixar criar um clima de golpe de Estado (que, apesar do resultado inequívoco de hoje, não desaparece)? Terá Portas receado perder o eventual congresso? Terá temido novo discurso galvanizador de Ribeiro e Castro? Ou só lhe faltou a paciência para esperar?


Já agora não posso deixar de repetir a pergunta do Daniel Oliveira: se votaram 7500 militantes num partido que afirma ter 44 mil filiados (menos militantes que a Juventude Socialista, já agora), como é que se considera a participação expressiva?

sexta-feira, abril 20, 2007

Liviu Librescu (1930-2007)


À espera de Winograd



A resposta sonolenta e frustrante de Israel às propostas de abertura de negociações de paz da Liga Árabe, da Arábia Saudita e da Síria tem uma só explicação: a Comissão Winograd. Esta Comissão foi criada para investigar o que correu mal durante a Segunda Guerra do Líbano, tanto do ponto de vista militar, como do ponto de vista da preparação do país para os ataques do Hezbollah contra civis israelitas.


A equação é simples:


1. Se os resultados da Comissão forem mesmo maus para Olmert, o governo cai, e há novas eleições. E isso explica a relutância de Olmert em entrar agora num processo de paz - ninguém em Israel (e fora de Israel, suponho) leva a sério um Primeiro Ministro que não tem a confiança da população e que pode cair a qualquer momento. Olmert não tem crédito político para abrir uma loja do cidadão, quanto mais para abrir negociações com o arqui-inimigo sírio.


2. Se os resultados forem só maus (talvez culpando apenas a liderança militar, ou até Peretz, mas deixando Olmert incólume) é possível, repito, possível, que Olmert tente uma espécie de fuga para a frente agarrando-se a um processo de paz como forma de salvar o seu governo, a sua estatura como líder e a sua carreira. É por isso que de quando em vez Olmert vai fazendo declarações que, sem serem bombásticas, deixam qualquer adepto esperançoso de um processo de paz a salivar por mais...


Neste momento está, portanto, tudo em suspenso. Mas que custa ver Israel tão paralizado perante as oportunidades que as últimas iniciativas árabes parecem oferecer, lá isso custa.


Se Israel se mostrar incapaz de responder de forma responsável a esta oportunidade histórica, estou certo que pagará um preço muito alto.



L'important c'est la rose


Para quem como eu gosta de um bom combate eleitoral e fica acordado até às seis da manhã para ver as eleições americanas na CNN (does it ring any bell, Pedro?), Domingo vai ser dia de jogo grande. Está bem que esta é só a primeira mão e não há golos fora para contar, ou, levando mais longe a linguagem futebolística, esta é a primeira parte de um jogo com 180 minutos. Mas a imprevisibilidade dos franceses aguça o interesse e promete disputa renhida.
Neste lado da blogosfera espera-se por uma Ségolène que tire a França do marasmo identitário e existencial em que mergulhou em doze anos de Chirac.
O que restará a uma França que já não é, nem será, a potência mundial que foi outrora? Amanhar-se com que tem, deixar de ter veleidades quanto a isso e fortalecer uma consciência própria de progresso social e inclusão. A diferença está toda aí: os franceses têm de começar a fazer pela vida.

Outras eleições


Com a atenção concentrada na presidenciais francesas (últimas sondagens de França aqui resumidas), tem passado discretamente a campanha eleitoral para o parlamento escocês, a realizar no mês de Maio. Diversas sondagens dão confortáveis vantagens ao Partido Nacionalista Escocês (SNP), que advoga a independência e que promete referendar a questão. Há alguns meses havia mesmo estudos de opinião que revelam apoiantes da ideia entre os ingleses. Mais informações sobre o caminho do SNP para chegar à soberania aqui.

Guns don't kill people...


Que no século XVIII, num contexto de saída do colonialismo e de ausência de forças policais e de monopólio estatal da força e em estado de "continente por desbravar" tenha sido consagrado um direito a possuir uma arma para defesa pessoal não me parece absurdo. Que se dê tratamento de sagrada escritura a um preceito que claramente está desfasado no tempo, permitindo a aquisição de armamento semi-automático por pessoas perturbadas com a mesma facilidade com que se adquirem cortadores de relva, já me parece negligência criminosa.

Por muito que os fundamentalistas defensores da fundamentalidade do segundo aditamento à Constituição dos Estados Unidos continuem a proclamar que são as pessoas e não as armas que matam, o que é facto é que pessoas não armadas têm maior dificuldade em massacrar inocentes.

quinta-feira, abril 19, 2007

Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril

Não se ouviu muito falar muito do facto, mas ela aí está, publicada anteontem no Diário da República.

Missão cumprida.

As partes e o todo

Entrevistado pela TSF sobre as detenções pela PJ, José Pinto Coelho afirmou, entre outras coisas, que o PNR tem sido injustamente colado a grupos skinheads, "como se o PNR fosse constituído exclusivamente por skinheads" (sic). Uma vez que o PNR é só composto parcialmente por skinheads há que não ter má-fé e não ter colar estas pessoas ao ideário simpático e amigo do pluralismo do sr. Pinto Coelho.

Se dúvidas houvesse

A actuação da PJ de ontem, ao deter dezenas de skinheads, simpatizantes do PNR, por posse ilegal de armas e discriminação racial, vem confirmar aquilo que já sabemos sobre as companhias e os militantes da extrema-direita nacionalista. As instituições da república não estão a dormir.

Faz o que eu digo...

No debate na RTP, Paulo Portas acusa Ribeiro e Castro de cometer um erro em manter-se como eurodeputado e como líder do partido em simultâneo. Curiosamente, o próprio Paulo Portas, eleito líder do CDS-PP em 1998, acumulou aquelas funções com as de deputado ao Parlamento Europeu, para as quais foi eleito em 1999. Há uma pequena diferença, porém. Ribeiro e Castro limita-se a levar até ao seu termo o mandato para o qual foi eleito antes de chegar à liderança do CDS, honrando o compromisso com os eleitores. Paulo Portas optou, já enquanto líder, por se candidatar ao PE. Apesar de ter cessado funções poucos meses depois de empossado, a acumulação parecia não incomodar Portas em 1999...

domingo, abril 15, 2007

Requiem

When the last living thing
has died on account of us,
how poetical it would be
if Earth could say,
in a voice floating up
perhaps
from the floor
of the Grand Canyon,
“It is done.”
People did not like it here.

Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut, Jr.

1922-2007

Li o meu primeiro livro de Vonnegut há quase dez anos, ainda nos tempos da Escola Alemã, uma escolha em relação à qual sempre ficarei grato à minha professora de inglês. Lembro-me até de que pude usar a cópia que a minha mãe tinha lido, no caso dela nos tempo da faculdade, quando os ares de Abril trouxeram outra literatura aos curricula. Slaughterhouse Five, provavelmente o mais marcante título de Vonnegut e aquele em que a sua vivência pessoal lhe dá um profundidade e uma capacidade superior de denunciar a irracionalidade da guerra, faz parte daquele conjunto de livros que me marcou de forma mais significativa.
Kurt Vonnegut, descobri há pouco, morreu esta última quarta-feira. Há duas, três semanas tinha tido na mão o seu último livro e reservei-o mentalmente para ler mais tarde. Agora que sei que Vonnegut morreu tenho uma estúpida sensação de que deveria ter comprado o livro e que já o devia ter lido, como que se tivesse tido uma oportunidade de conversar com ele antes de nos deixar e agora não posso.

Desculpem insistir...

Não quero dar tempo de antena ao senhor, mas as palavras dos próprios ajudam, e bastante, a esclarecer o que defendem. Fica um excerto da entrevista de José Pinto Coelho ao Sol, na parte em que lhe perguntam se há militantes nazis no PNR:

JPC - Quando um militante se quer inscrever no PNR, nós não perguntamos se é nazi. [...] Uma pessoa nacional socialista pode estar no partido que quiser.

Bastante claro, parece-me...

Eles ainda aí andam


Parece que os meninos do PNR estão de vigília ao novo placard na Rotunda, que convida à discussão de ideias e não ao seu apagamento. Quanto a isto gostava de reproduzir aqui a lucidez de quem disse que para discutir a xenofobia, não muito obrigado - assim como devemos dar por adquirido que a abolição da pena de morte, a liberdade e a democracia não estão em discussão, também não devemos perder tempo a dialogar com estes cidadãos. Contudo, volto a sublinhar duas coisas que já disse:
- Não se deve ignorar o fenómeno e a forma como pretende assumir-se e difundir a sua mensagem de ódio.
- Não se deve proibir a expressão de tudo aquilo que não consubstanciar ilícito penal. A melhor forma de lidar com a coisa é, sem dúvida, a combinação do método Gato Fedorento com o repúdio da mensagem, remetendo-a para as franjas radicais do discurso político, que é o seu lugar.

Our man in Moscow

Gary Kasparov foi ontem detido em Moscovo quando se preparava para se manifestar contra o estilo autoritário e as políticas de Putin. Quantos episódios destes, acrescidos aos de Anna Politokvskaya ou de envenamentos por polónio serão necessários para que se leve a sério a falta de liberdade e democracia?

Purga


A nova direcção do DN não é de meias medidas: se é para purgar, vai tudo. Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Ruben de Carvalho e Francisco Sarsfield Cabral foram todos dispensados da colaboração regular que mantinham com aquele diário. Ficam os colunistas de referência como Luís Delgado e João César das Neves.

Enquanto leitor que apreciou a melhoria significativa de qualidade do jornal no consulado de António José Teixeira, só posso lamentar-me e ter pena do destino do DN. Espero que todos os dispensados sejam aproveitados por outro periódico e até lá vou colmatando com a blogosfera a falta que deixam, acompanhando Medeiros Ferreira e Joana Amaral Dias no Bicho Carpinteiro.

Valeu a espera


Fui finalmente ver o Caimão e aproveitar um Moretti em forma e com motivação cívica adicional. Continuar a ter de esperar um ano pelo filme é que me parece de todo insustentável - até tira a expectativa de sair da sala sem saber se o filme terá o efeito político pretendido pelo autor... ~
Digam o que disserem os arautos da visão estritamente industrial da actividade cinematográfica, aqui fica um exemplo de que é preciso incentivo e apoio na distribuição, particularmente da produção europeia. Desabafos meus que agora ando nas andanças do direito da Cultura...

sábado, abril 14, 2007

República aguarda-se




Parte da minha falta de escrita na Bóina deve-se a uma estadia de alguns dias na Catalunha. De lá venho imbuído de grande solidariedade para com os republicanos espanhóis, particularmente para com aqueles que na Catalunha viram as suas aspirações nacionais atendidas precisamente pelo advento da República, faz hoje 76 anos.

Aqui ficam o assinalar da efeméride e da memória da República Espanhola e os desejos de uma futura convivência de duas repúblicas democráticas no solo peninsular, que a marcha da História tem vindo a recusar.


Viva a República!

quarta-feira, abril 11, 2007

terça-feira, abril 10, 2007

Caput Mundi



Cheguei há 48 horas de Roma e ainda estou sob o efeito da cidade: da simetria, da beleza das formas simples, da monumentalidade intemporal, da omnipresença da história.

Estive nos Museus do Vaticano que contêm uma grande parte dos maiores tesouros artísticos do Ocidente.

E depois entrei na basílica de S.Pedro. Uma palavra: poder, poder, poder. Nunca tinha visto poder incarnado em arquitectura daquela maneira. Se ainda houvesse dúvidas: a Igreja foi e é uma máquina de concentração e distribuição de poder temporal e político, de legitimidade, de salvação etc.

Poder.

Mas lindo. Que bem que a Igreja aproveitou o génio infinito da Humanidade.

sexta-feira, abril 06, 2007

Fábula da Rotunda


Reduzida a história aos seus caracteres básicos, temos o seguinte:

Digamos que existe um grupelho de delinquentes com ambições de parecer sério que decide jogar o jogo da credibilidade e afixar um cartaz político como qualquer partido político. O cartaz é um esforço inglório nesse sentido, atascado que está numa linguagem pífia e pacóvia, risível até, não fosse a promessa de rixa a rebentar latente na mensagem. O líder - ou seja, o eleito para parecer o mais sério - mal consegue disfarçar o ódio por trás dos olhos esbugalhados, como que raiados de sangue, e eu, na minha cabeça, consigo imaginar aquela personagem a dizer numa voz estridente, como o ratinho na anedota do ratinho e do elefante «Eu sou mau! Tenham medo de mim!», e quase conseguia rir, não fossem as trágicas memórias que tudo aquilo evoca.

Digamos que a isto respondem uns rapazecos com dinheiro para gastar, que de sérios não querem ter nada - o que me parece uma admirável forma de seriedade e lucidez - e que resolvem o assunto, colocando os outros no seu devido lugar.

Entra em cena a autoridade, conhecida por se distrair no momento de conceder licenças, com ânsia de zelosamente efectivar um regulamento de publicidade, dando sequência a um conjunto de acções em que o seu representante convoca a comunicação social para registar o momento em que, simbolicamente, começa a arrancar publicidade comercial das paredes de Lisboa, prometendo que nada será como antes (em boa hora). Por isso, manda arrancar o cartaz dos bons rapazes.

O cartaz dos maus está em vias de tornar-se um ex-libris de arte pública da cidade, não pela versão original, mas pelo o acto de desobediência civil que constitui a sua vandalização. O cartaz dos bons é sacrificado pela autoridade no labirinto da legalidade formal em que os maus se souberam mexer, mas o exemplo persiste.

Há vilão, herói e polícia tonto, tudo por esta ordem. Parece que temos enredo para opera buffa.

quinta-feira, abril 05, 2007