terça-feira, abril 03, 2007

Mitologia Climática


Em conversa com um estimado colega arquitecto, veio à baila o aquecimento global. Afinal, e como muito sumamente explica o iminente meteorologista/climatologista autor deste blog, parece que isso é invenção de quem não tem mais que fazer, aproveitada para dar a ganhar uns milhões em conferências a celebridades desempregadas como Al Gore. Afinal é tudo mentira, o planeta aquece sozinho e as recentes mudanças climáticas que me levam a andar agasalhado em Abril depois de andar de manga curta na passagem de ano, só para andar a derreter dentro de casa em Julho, é causada por fenómenos como as tempestades solares, a actividade vulcânica, e que outros.
Não se pode dizer que tenha havido um preocupante aumento da temperatura média, pela simples razão de que não é possível estabelecer ao longo dos anos (rectius, dos séculos) uma medição com base nos mesmos critérios e na mesma calibração de instrumentos. E isso de prever que os pólos vão derreter daqui a alguns anos é conversa fiada, pois, como se sabe, as previsões meteorológicas valem o que valem, até se pode dizer hoje que vai chover amanhã, e amanhã está um lindo dia. Pronto, há os CFC e tal, mas não é bem assim. Não se preocupem que isto há-de passar.

Os cientistas têm esta mania de nos fazerem vacilar nas nossas convicções. Quando tinha por certo que mais valia adoptar um comportamento ecologicamente responsável, lá me chega uma batelada de dados a constatar o contrário. É a ciência, estúpido!

Mas depois reparo: há cientistas de ambos os lados (nem vou, para já contar espingardas, mas já se sabe como a contagem está). E se de um lado tenho um Al Gore que não é ingénuo ao ponto de não aproveitar para benefício próprio a onda de simpatia que o documentário gerou (que para o meu colega nem vale a pena ver, tal é, afinal a dose de demagogia), e que, dizem as más línguas do Tennesse, tem um comportamento doméstico tudo menos environmental friendly, do outro lado tenho militantes cientistas como o autor do supramencionado blog, empenhados em fazer vincar um ponto de vista recorrendo ao estilo de prosa abusada de sarcasmo em vez de, quandomuito, uma tranquila, desinteressada e loquaz ironia, como é o caso dos textos do blog. O estilo faz-me desconfiar, e cientifismo militante é coisa para a qual não tenho saco, especialmente quando se começa a desmontar argumentos como um advogado a esmiuçar minudicências processuais de questionável relevância, como sejam a da calibragem dos instrumentos utilizados nas medições, ou a da falibilidade das previsões climatéricas (coisa que toda a gente sabe).

O estado da discussão hoje em dia não está tanto nas causas físicas do aquecimento, mas sim em saber se o aquecimento global não passa de um mero ajustamento à escala geológica, ou se tem uma causa humana. E enquanto isso, as calotas polares desagregam-se e andam ursos a descobrir novos mundos em blocos de gelo, até que derretam (sim a imagem do documentário é impressiva). Enquanto isso, as amendoeiras vão continuar a flrorir antes do tempo em Vila Nova de Foz Côa, os pardais chegam mais cedo, e eu não sei que roupa levo à rua amanhã.

segunda-feira, abril 02, 2007

O Público volta a fazer das suas




Em relação ao novo (antigo) plano de paz reiterado pela Liga Árabe, o Público online explica que "Israel viu 'elementos positivos' neste plano, mas rejeitou-o, principalmente devido à questão espinhosa do direito ao regresso dos refugiados palestinianos."

Se há uma coisa que Israel não fez até agora for rejeitar o plano.

Financial Times:

"The Israeli leader has indicated the document could be a basis for negotiations with Arab leaders, including those, such as Saudi Arabia, which were once regarded as hostile. Israel has treaties with only Egypt and Jordan."


International Herald Tribune:

"Olmert has spoken of 'positive elements' of the 2002 initiative, but he takes issue with certain of its elements, in particular the insistence that Palestinian refugees be allowed to return to Israel."


Haaretz:

"While generally welcoming the peace initiative endorsed by Arab leaders at a summit last week in Saudi Arabia, Israel has called several key components problematic and has been noncommital about how to proceed."

Afinal a coisa é complicada.

Fica o apelo.

Sempre que lerem notícias sobre Israel/Palestina no Público tenham o cuidado de também ler jornais civilizados. É que neste tema, o jornal tem dificuldades em ser sério. Também não se esforça muito.

A nova geração da Al Qaeda

"The jihadis returning from Iraq are far more capable than the mujahedeen who fought the Soviets ever were. They have been fighting the best military in the world, with the best technology and tactics."

Agora já há armas de destruição maciça no Iraque. Thanks a lot, George.

Pequeno detalhe




No debate sobre a necessidade (ou não) de o Hamas reconhecer o direito do Estado de Israel a exisitir, um dos argumentos principais da claque anti-Israel é: "se Israel não reconhece aos palestinianos o direito a viver num Estado porque é que os palestinianos hão-de ceder".

Dois pontos:

1. Israel é um membro das Nações Unidas desde 1948. Eu sei que custa, mas do ponto de vista legal, não reconhecer Israel é mais ou menos como não reconhecer a Espanha, ou o Luxemburgo. A Palestina existe geograficamente, mas não existe como Estado. Existe a Autoridade Palestiniana nascida dos acordos de Oslo.

2. Desde Sharon que Israel reconhece o direito do povo palestiniano a um Estado. Aliás, esse é um dos elementos principais do tal Roadmap generosamente violado por ambos os lados: no fim do Roadmap vem um Estado palestiniano. Esta posição afirmada por Sharon (contra a vontade do Likud) foi reiterada por Olmert.

Podemos discordar (como eu discordo) da maneira como Israel tem (ou não) contribuído para a criação de um Estado palestiniano. Mas o princípio de um Estado palestiniano não só já foi aceite por Israel, como deixou de ser polémico na opinião pública israelita.

Fico sem perceber como é que o Hamas quer ser levado a sério como parceiro para a paz se não consegue aceitar a realidade de Israel. Por causa da ocupação de 1967? Está bem, então fazemos assim, pedimos ao Hamas para aceitar que Israel teve o direito a existir entre 1948 e 1967. Combinado?

sexta-feira, março 30, 2007

Mais e maus sinais

Apesar de continuar minoritária e pouco consistente, a extrema-dirieta assume-se cada vez com maior clareza. O cartaz no Marquês de Pombal é apenas mais um episódio no quadro de uma estratégia de afirmação encetada pelo PNR e que tem tido vários reflexos públicos recentes – a tentativa de tomar associações de estudantes, as manifestações de apoio ao museu de Salazar em Santa Comba, a mobilização em torno da votação dos “grandes portugueses” a participação na campanha do referendo.
Contudo, o cartaz representa uma alteração qualitativa significativa – agora o PNR parte ao ataque claro às comunidades imigrantes, “convidando-os” a sair e formulando um cínico voto de boa viagem. As faces xenófobas e nacionalistas começam a revelar-se publicamente e com mais nitidez. Apesar dos esforços do seu dirigente em afirmar que a crítica é apenas à “política de imigração” e não aos imigrantes, procurando o exercício de linguagens ambíguas e de moderação aparente, é cada vez mais transparente o programa discrimintório e xenófono.

Muito se tem discutido da legalidade do cartaz. No quadro legal actual é, de facto, discutível se podemos subsumir a mensagem a um incitamento à discriminação para efeitos da ilicitude penal. Contudo, a reforma do Código Penal, actualmente em curso na AR, poderá tornar mais difícil a passagem de mensagens com conteúdo discriminatório. Ainda assim, o caminho das medidas restritivas da expressão de ideias políticas extremas tem de ser cuidado e equilibrado. Claro que a lei penal tem de estabelecer limites para aqueles que querem abusar da sua liberdade de expressão, não podendo esta ser pervertida para permitir a propagação de mensagens de ódio. Mas há também que não permitir a vitimização e a invocação de perseguição e apostar sim na denúncia do conteúdo e dos valores subjacentes às propostas do PNR

Está quase

Conforme se previa, o Presidente da República não remeteu a nova lei desepenalizadora da interrupção voluntária da gravidez para o Tribunal Constitucional. Apesar dos esforços de alguns defensores do Não em fomentar esta via para travar o resultado do referendo, procurando esquecer a clara decisão do TC nos dois acórdãos de fiscalização preventiva da constitucionalidade da pergunta do referendo (em 1998 e 2006), Cavaco Silva não se deixou pressionar politicamente no sentido de abrir uma via dee discussão jurídica que estava encerrada. A decisão agora é estritamente política e estritamente do Presidente da República e, pessoalmente, tenho muito poucas dúvidas que o resultado passe pelo veto.

Espírito reformador

Foi divulgado o projecto de reforma do funcionamento da Assembleia da República do grupo parlamentar do Partido Socialista, resultado da comissão presidida por António José Seguro (disponível aqui). O relatório é extenso (quase 100 páginas) e assenta numa análise da prática parlamentar e numa identificação das suas tensões. Destacaria alguns eixos principais:

Fiscalização
Em parte, as proposta apostam num regresso às origens do parlamentarismo, procurando reforçar os mecanismos de controlo parlamentar da actividade governativa. Quanto maiores a fiscalização e o acompanhamento, mais facilmente se poderá reforçar a legitimidade democrática da actividade governativa e contribuir para o debate e esclarecimento das políticas públicas.

Europa
Também no plano das futuras relações com as instituições europeias o relatório aposta no caminho que me parece mais indicado. O acompanhamento da actividade política e legislativa a nível europeu permite por um lado reforçar o caminho de redução do défice democrático apontado à UE e articular o trabalho entre parlamentares nacionais e europeus.

Abertura à sociedade
Neste plano, é de saudar uma dupla aposta na transparência (maior transparência na divulgação das propostas em discussão no parlamento e maior transparência no acesso às declarações de interesses dos deputados) e na participalção (através do contacto com o eleitor, através do uso de novas tecnologias e através da valorização e no tratamento parlamentar das petições apresentadas pelos cidadãos e cidadãs).

Aposta na melhoria da qualidade da legislação
Quanto à tarefa magna do parlamento, o relatório aponta para a necessidade de valorizar trabalhos e estudos preparatórios, para melhorar os mecanismos de audição da sociedade civil e para criar uma unidade específica para análise do impacto de género da legislação.

Representatividade
Finalmente, e apesar de não se pronunciar sobre a matéria, o relatório aponta, ainda que implicitamente (a interpretação é minha), para a manutenção do número actual de deputados numa futura reforma da legislação eleitoral. Quanto a este aspecto, não poderia estar mais de acordo – o número actual é indispensável para assegurar a representatividade das formações partidárias mais pequenas, tornando o parlamento um verdadeiro espelho representativo dos cidadãos e cidadãs portuguesas

quinta-feira, março 29, 2007

Coincidências

Défice público português/% PIB

2003: 2,9%
2004: 3,3%
2005: 6,0% (!)
2006: 3,9%
2007: 3,6% (previsão)

"Ah e tal, porque os ciclos económicos." Tá bem abelha.

Fonte: INE (perigosa dependência da Internacional Socialista)

O PCP aboliu o humor




Internamente. Por decisão unânime do Comité Central. Em 1930. Em resposta ao que se considerava ser a
"natureza corrosiva do sentido de humor burguês promovido pelo social-fascismo trotskista."

Se não fosse o BE (devida vénia), o que seria do humor de esquerda em Portugal?

Good morning, this is your wake up call

Quem, como eu, passa todos os dias pelo Marquês de Pombal para ir para o trabalho é desde à poucos dias brindado com um cartaz do PNR com o título “Basta de imigração, Nacionalismo é a solução” e com um subtítulo por baixo da imagem de um Avião a descolar com as palavras “façam boa viagem”.

Ainda não percebi se foi o próprio Marquês que colou os cartazes para tentar agradar à população votante no concursito da RTP ou se foi um sádico a tentar provar-me que ainda era possível fazer bem pior e muito mais estúpido do que os cartazes dos movimentos contra a despenalização da IGV.

Caso tenha mesmo sido o Clube Nacional Renovador… não se pode fazer nada contra isto? Para além de destruir e conspurcar o cartaz, que terá apenas como resultado o aumento da notoriedade e popularidade.

quarta-feira, março 28, 2007

Antes da Reuters e da CNN


Os resultados da Faculdade de Letras apontam para apenas 81 votos válidos para a lista apoiada/composta por militantes dos jovens do PNR (cerca de 9%) contra 818 da lista vencedora (quase 91%). Acrescentando brancos e nulos estamos perante um universo eleitoral de cerca de 950 pessoas. Balanço da coisa: derrota mais do que expressiva, sendo landslide e banhada termos adequados para descrever o cenário.
Apesar dos quase 10% estarem bem acima de qualquer tipo de expressão eleitoral do PNR e do seu projecto ideológico, há ainda que ter em conta que:
1) A Faculdade de Letras, enquanto universo eleitoral, não tem a mesma representatividade da realidade do país;
2) Os níveis de participação não são comparáveis aos de actos eleitorais públicos de expressão nacional ou local;
3) Tratava-se da única lista concorrente para além dos vencedores, o que pode levar a que o voto de protesto nela se concentre.
Ainda assim, a tentativa de investida deixa tema para reflexão sobre a crescente vontade de afirmação da extrema-direita pura e dura, xenófoba e nacionalista. Uma realidade a considerar nas proporções adequadas, mas seguramente a não ignorar. Caso decidam seguir o plano e tentar Direito de seguida, cá vos esperamos....
PS: Obrigado à Natasha pelos updates eleitorais!

Presidenciais francesas


Através do 3 liberdades, um site muito interessante para acompanhar as presidenciais francesas e para comparar os manifestos dos candidatos.

A não perder, aqui.

A Bóina em directo

Inaugurando um serviço noticioso na Bóina Frígia, aguardo notícias da contagem de votos na Faculdade de Letras da UL. Já contadas a mesa e o conselho fiscal, aos quais a extrema-direita do PNR não concorria, aguardo notícias dos resultados para a Direcção (nem sequer temos o conforto de poder consultar as últimas sondagens no Margens de Erro...)

Europa


Lendo um post de Ana Gomes na Causa Nossa aproveito para não me esquecer (como outros o fizeram) desta tarde nos Jerónimos e de um dos seus defensores de várias décadas.

Obrigado, Dr. Mário Soares.
Muito obrigado.

terça-feira, março 27, 2007

Iraque 2007: altura de fazer a contabilidade




Há dois argumentos dos neo-cons (os lusos e os a sério) em relação ao Iraque que eu considero particularmente repugnantes:

1. As nossas ideias eram óptimas. Só que foram mal aplicadas. Ou por outras palavras, o projecto teoricamente era óptimo: a maldita realidade é que não se vergou perante esta evidência;

2. Enfim, está feito, está feito, agora é olhar para a frente e combater o terrorismo.

Ambas estas teses são demolidas pelo Economist de 22 de Março.

1. Todo o projecto estava inquinado à partida;
2. O Iraque complicou a guerra contra o terrorismo.

Coitadinhos. O Economist quase que pede desculpa por ter apoiado a guerra em 2003.
Quando é que os nossos neo-cons vão pedir desculpa por terem tratado os opositores desta guerra como traidores à 'causa Ocidental'? Quando é que demonstrarão arrependimento por se terem arvorado em arautos do Bem e tratado quem queria salvar os EUA e o resto do mundo desta catástrofe como se fossem leprosos, cobardes, anti-americanos primários, ou porta-vozes do Quai d'Orsay, ou do Kremlin.

Onde é que eles andam todos? Os campeões da Democracia? Penitemciem-se por favor (este blog aceita manifestações de penitência em forma de comentário a este post; qualquer coisa como "vocês tinham razão em manifestar-se contra a guerra em Março de 2003, boa, mea culpa, sorry"). Os primeiros 100 levam um bilhete de avião com tudo pago para Teerão.

Kundera


A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

Milan Kundera

Resposta simples: valores e memória

Eu volto a insitir em concordar com aqueles que entendem que a eleição de Salazar tem raízes na perda de memória colectiva e num desivestimento numa educação para os valores da liberdade (claro que também tem raízes em votações organizadas por franjas radicais e no desinteresse da esmagadora maioria dos portugueses em entrar no exercício bacoco de escolher o "melhor de sempre" - o que me lembra de uma pastelaria em Campo de Ourique denominada "O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo").

A falta de percepção do que significaram a privação da liberdade por mera discordância ideológica, a proibição da expressão da opinião e do produto do pensamento livre, a selecção moraleira dos conteúdos conformes ao bem comum (competia ao Estado, na letra da Constituição de 1933, defender a opinião pública de todos os factores que a desorientem) e o recurso à guerra para manter o relógio da descolonização parado, contribui para uma menorização do carácter opressivo e castrador do período ditatorial.
Neste contexto, é depois inevitável que surjam raciocínios que querem ainda identifcar traços positivos no regime deposto, pesando o bom e o mau do Estado Novo e concluindo por balanços intermédios, axiologicamente relativizadores. Balanços intermédios, acrescente-se, que pecam sempre por sobrevalorizar as putativas vantagens do salazarismo, uma vez que desenvolvimento humano e económico sustentável não é matéria pela qual prime o regime anterior ao 25 de Abril... (para além de que está ainda por demonstrar que o eventual progresso da sociedade portuguesa só seria alcançavel com mão de ferro e com o paternalismo de Estado).

A resposta está ao nosso alcance. Está ao nosso alcance na valorização da memória pública, no reforço do ensino da História mas também, e fundamentalmente, na implementação da educação para a cidadania, para os valores da democracia e da liberdade, nos currículos escolares. Só assim conseguiremos finalmente tirar o quadro de Salazar da parede e arrumá-lo no armazém da História.

Ainda os Atenienses e os Espartanos


Para o David, depois do arrependimento, um brinde de Manuel Alegre:



Discurso de Péricles aos Atenienses

Dexai-os em treino permanente,
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício

Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo

A nossa força é a diferença

Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta

Dexai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida

Sobre os outros Valores

Acredito nos únicos valores fundamentais absolutos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que nos guiam, e que nos pariram dolorosamente para a modernidade. Acredito nestes tanto como desconfio da infusão ou mera referência a outros valores menores, como o Cristianismo, a Segurança ou a Virtude em qualquer texto fundamental da Europa ou qualquer Lei ou protocolo de Estado.

A Segurança é actualmente o ataque mais resiliente aos valores fundamentais da Liberdade e sobre este tema não me apetece dizer nada porque ainda estou à espera de ver onde vamos parar.

O Cristianismo e o Judaísmo são um lastro necessário para a nossa identidade “judaico-cristã”, mas é necessário compreender que todos os avanços significativos da Europa foram feitos muito mais “apesar de” do que com o seu contributo. A Igreja pactuou sempre com o establishment (Monarquias absolutistas e regimes ditatoriais) e tem de compreender que deve a modernidade a movimentos de cisão na Igreja ou mesmo contra a Igreja que procuraram a Igualdade

A Virtude não é essencial à vida e é para mim, como a dignidade para Jorge de Sena, apenas a “alegria de estar-se vivo, sabendo que ao mesmo tempo ninguém está menos vivo, ou sofre ou morre, para que um de só nós sobreviva um pouco mais à Morte, que é de todos e virá”. Contraponho à Virtude o exercício da Fraternidade.

Não sou um relativista porque tenho como valores absolutos os valores da Revolução e da Republica. Sou d’Ela a recorrente figura, por vezes primária e grotesca, que se eleva para a louvar. Sou filho de Danton (e neto de Epicuro) e vim ao mundo pelo mamilo esquerdo da “Liberdade guiando o povo” e bebendo apenas das minhas sensações.

Cabe-me também comunicar-vos que Deus não existe, descobri-o há pouco tempo. Eu que nunca fui “mendigo de vagos deuses ou de anjos obscuros” tenho agora a certeza que tudo isto acaba aqui e ficará pouco, muito pouco, mas algo ficará sempre (porque de tudo resta um pouco). Deus não existe porque não intervém, não promove a Liberdade, nem a Igualdade, nem a Fraternidade e não só não escreve por linhas tortas como não escreve absolutamente nada.

Todos são meus Irmãos sejam eles de que religião forem, sejam Virtuosos ou Alarves, Monárquicos ou Republicanos. Reconcilio-me com o Mundo após uma excelente refeição, uma boa garrafa de vinho, um JB de 15 anos e sensação inigualável da certeza dos que Amo. Só não me reconcilio hoje com a imagem do deus pai e omnipotente, porque essa é a imagem mais absurda que pode ser dada a alguém que, em espaços brevemente saudáveis, realmente olhe ou sinta a aleatoriedade estúpida da Natureza.

segunda-feira, março 26, 2007

Na primeira linha

No Público de hoje dá-se destaque a um facto que tem sido objecto de cuidada atenção lá pela "minha" cidade universitária: o aparecimento de uma candidatura à associação de estudantes da Faculdade de Letras apoiada e composta por membros da Juventude do Partido Nacionalista Renovador.
Assumindo-se sem rodeios e com radicalismo e apostando num alastramento à Faculdade de Direito, os "jovens nacionalistas" querem espalhar a sua "mensagem nacionalista sadia, opondo às ideologias esquerdistas da morte e da anarquia os valores da pátria, da família, do mérito e da natureza".
Para além da gravidade do aparecimento de fenómenos de extrema-direita, o caso de Letras é ainda agravado pela existência de um clima de intimidação aos colegas e pela presença de elementos estranhos à academia num embate eleitoral que devia centrar-se nos problemas e projectos dos alunos daquela instituição.
Na semana em que comemorámos os 45 anos das lutas estudantis, que me orgulham de ser "descendente" académico dos lutadores de 62, a Academia de Lisboa tem de fazer sentir o seu repúdio pelo recrudescer do radicalismo nacionalista. Não são estes os valores de universalidade e pluralismo que caracterizam a Universidade e estou certo que os alunos de letras vão responder à chamada e apagar a chama repulsiva do PNR.