quinta-feira, julho 31, 2008

O jornal diário português de referência III

A página três do caderno principal do Público de hoje fala sobre o preço do petróleo. Tem um gráfico bonito. E tem um texto menos bonito que diz esta coisa fantástica.

"Tudo se tornou mais provável durante as duas últimas semanas, depois de o preço do barril de petróleo ter caído para um valor próximo de 20 dólares..."

O gráfico imediatamente por cima deste texto jocoso descreve correctamente a curva do valor do brent em dólares, que atingiu ontem os $123. Bem longe dos $20. Bem sei o que é que estão a pensar: é uma gralha, ele queria dizer "um valor próximo de 120 dólares." O problema é que se eu estivesse a ler um International Herald Tribune, um Financial Times, um Le Monde, ou mesmo um El País, isto seria claramente uma gralha. Neste caso não sei. Para mim, o Público não merece o benefício da dúvida. A frequência, diversidade e gravidade dos erros neste jornal é tal, que nada é inconcebível.

O jornal diário português de referência II

Na página 14 do caderno principal do Público de hoje, 31 de Julho, uma jornalista explica que:

"A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos promulgou ontem uma resolução a pedir desculpa aos afro-americanos pela "injustiça, brutalidade e inumanidade da escravatura e do [período das leis] Jim Crow", mais de 140 anos depois de a escravatura ter sido abolida no país."

Muito bem. A primeira tristeza vem logo no segundo parágrafo. A jornalista diz que "o jornal El Mundo notava ontem que é a primeira vez que uma entidade federal norte-americana pede perdão pela escravatura que os negros americanos sofreram no país." Desde quando é que o jornal El Mundo é uma referência em história política americana? Então o Público não encontra fontes americanas para sustentar esta importante afirmação? Não, porque para isso era preciso investigar um bocadinho no Google e não há tempo.

E depois, esta passagem deliciosa:

"Eles (a Câmara dos Representantes) têm mais autoridade neste assunto do que o Congresso norte-americano", disse Cohen [o Representante que propôs a resolução em causa] ao diário Washington Post."

A menina que escreveu este artigo não só não sabe que a Câmara dos Representantes é a câmara baixa do Congresso americano (como o Senado é câmara alta), como foi demasiado preguiçosa para tirar o nariz do El Mundo e ir ver a notícia original do Washington Post que, como é mais do que evidente, não diz nada do que ela diz que disse.

A notícia do Washington Post de dia 30 de Julho diz, isso sim, o seguinte:

"Several states, including Virginia, North Carolina, Florida and Alabama, have issued apologies for slavery. "They had a greater moral authority on this issue than the United States Congress," Cohen said."

Que miséria: o Público publica uma notícia dia 31 de Julho sobre uma história que saiu no Post de dia 30 de Julho, e ainda por cima nem sequer se dá ao trabalho de se debruçar sobre a fonte original, preferindo ir buscar a papinha feita ao El Mundo. E depois são tão medíocres que nem uma citação em espanhol conseguem reproduzir como deve ser...

O jornal diário português de referência I

O Público de dia 30 de Julho diz na página 12 ("Pessoas") da secção P2 o seguinte sobre uma nova série de televisão da BBC ("The House of Saddam"):

"O dado mais curioso é que o papel do líder iraquiano ... será interpretado por um árabe israelita. Mais: Igal Naor conseguiu escapar milagrosamente ao impacto de um dos mísseis lançados por Saddam Hussein contra Israel em plena Guerra do Golfo (1991), mal podendo imaginar que, um dia, acabaria por se converter na reencarnação televisiva do ditador. Com 50 anos e filho de uma família de emigrantes judeus iraquianos, Naor..."

Bastava ter um conhecimento elementar do judaísmo ou da história do Médio Oriente para saber que não existem árabes israelitas filhos de emigrantes judeus. Os árabes israelitas são árabes (cristãos ou muçulmanos), os judeus israelitas são judeus, uns de origem marroquina, outros de origem iraquiana, outros ainda de origem russa, outros que já vivem em Israel/Palestina desde sempre etc. Os árabes israelitas são uma minoria não-judaica em Israel (como os drusos) e em termos identitários identificam-se mais com os palestinianos do que com os judeus israelitas, com quem partilham (de forma por vezes incompleta, infelizmente) os direitos e os deveres da cidadania israelita.

Enfim,bem sei que a secção Pessoas é uma gossip column que costuma versar sobre casamentos e baptizados de sujeitos e sujeitas famos@s. Mas já agora, o cidadão responsável por este texto podia tê-lo mostrado ao colega que trata do Médio Oriente antes de o mandar para imprimir, não? Ou se calhar o pessoal da Secção Internacional do Público também não percebe nada de nada... Ora vejamos...

O jornal diário português de referência

O Público continua a ser o único jornal diário que vale a pena ler em Portugal. Apesar de faltar completamente a linha editorial que costuma dar coerência e carácter a um jornal de qualidade e de o espectro qualitativo dos artigos ser enorme (da excelência quase académica dos artigos sobre relações internacionais de Jorge Almeida Fernandes aos artigozinhos pejados de erros e de tomadas de posição de outros que não vale a pena nomear), mesmo assim gosto de me inteirar, de vez em quando, do que é a 'perspectiva portuguesa' bem informada sobre o que se passa no mundo (e claro, sobre o que se passa no país).

Mas não há dia em que no Público não se digam disparates que revelam a superficialidade dos conhecimentos dos que são incumbidos de escrever sobre temas complexos, como o Médio Oriente, a ordem constitucional americana, ou o preço do petróleo. São disparates que ofuscam e desinformam, e que muitas vezes afectam gravemente o conteúdo dos artigos.

Deixo aqui três exemplos dos últimos dois dias - que falam por si.

quinta-feira, julho 17, 2008

Sobre a negociação de Israel

Sobre o regresso dos “heróis” ao Líbano o David já aqui falou. Mas quero acrescentar que, para mim, a desproporção desta negociação reflecte a desproporção existente entre as posturas dos dois lados na consideração pelos mais básicos direitos humanos.

Inicialmente espantou-me o quanto Israel cedeu "apenas" para receber dois cadáveres. Apercebi-me depois que o respeito demonstrado pelo direito das famílias ao luto, sobretudo adquirido a um preço tão elevado, garante a vitória de Israel nesta negociação.

Assim, louvo o Povo de Israel por exigir este resultado, o Governo de Israel por aceitar a vontade do Povo e todos os Israelitas por demonstrarem que é possível não sacrificar os direitos elementares no altar da Segurança.

Entretanto, num kolkhoze perto dali...

Jerónimo de Sousa, sobre as FARC:

«Em relação às FARC, optámos por um voto muito silenciado na Assembleia da República, mas combatemos toda e qualquer ideia da criminalização da resistência. Já é conhecido que nos demarcamos dos seus métodos e não temos nenhum preconceito em assumir claramente que não os subscrevemos. Rejeitamo-los», afirmou o líder comunista português."

Somos contra. Mas não se pode criminalizar. Mas não subscrevemos.
(Da escola: é-proibido-mas-pode-se-fazer-e-o-que-é-que-acontece-nada...)

Belgium is back!

Já estavam com saudades, imagino...

Leterme démissionne, le Roi réserve sa réponse


A waste of good irony




Imparcialidade e isenção

Não quero entrar na novela da ida do Porto à Champions. Há material que chegue para livros policiais, manuais de catequese, autos de Gil Vicente e várias teses de direito administrativo. No entanto, em relação a esta pequena questão marginal, impõe-se perguntar ao JN se isto é jornalismo? É uma notícia ou uma coluna de opinião? E já agora, qual é o mal de duas partes que sustentam a mesma posição num processo terem uma estratégia processual concertada? Não é até, sei lá, adequado?

Mais um (pequenino) passo.


Pela primeira vez, na casa da democracia portuguesa, o debate sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Para além dos argumentos jurídicos, sociais e políticos, para além do exemplo espanhol, contado na primeira pessoa por um dos principais responsáveis pelo sucesso da medida, para além da mobilização significativa de activistas, deputados e cidadãos e cidadãs, a mensagem principal que fica é a da urgência em acabar com a discriminação e trazer o reconhecimento de igualdade a todos e todas, sem aspas e sem subterfúgios.
Citei aqui há uns dias a inspirada Declarção de Independência dos vizinhos do outro lado do Atlântico. Das felizes palavras que Jefferson aí verteu destacava o direito inalienável à prossecução da felicidade. Muitas famílias continuam a aguardar a sua plena realização...



Adenda:
Descobri agora no Tempos que Correm o link para o blog de Pedro Zerolo, o responável do PSOE que participou na conferência.

quarta-feira, julho 16, 2008

Samir Kuntar

Cada país tem os heróis que merece.

segunda-feira, julho 14, 2008

Bronislaw Geremek, 6.3.1932 - 13.7.2008

Sobrevivente do gueto de Varsóvia. Antigo marxista convicto. Democrata. Europeu. Um deputado que iluminava o Parlamento Europeu com a sua sabedoria e erudição. Vai-nos faltar.

Dia da Bastilha



Faz hoje 219 anos. Parabéns França!

14 de Julho de 1789


sábado, julho 12, 2008

What a wonderful world!


Dylan

Não foi um momento histórico, como o que se segue (o dia em que se ligou à corrente eléctrica ao vivo, em Newport) e não cedeu a alinhamentos históricos e revivalistas. E não era preciso. Bastou ter vindo.

sexta-feira, julho 11, 2008

Sem paninhos quentes




Lá está a imprensa portuguesa outra vez a ser facciosa e a dizer mal do pobre Cavaliere.


Malditos media de esquerda.

Deviam era proibir as campanhas de luta contra a Sida

Temos de tudo um pouco neste cocktail explosivo de reacção pavloviana a uma campanha de uma entidade pública (recomendo a leitura do post, mas também dos comentários, particularmente os do autor), mas o vencedor é mesmo este trecho:


Não, João Miranda. No limite basta uma relação sexual para transmitir o vírus. Pode ser à centésima vez, como pode ser à primeira ou segunda. Daí que talvez não seja má ideia usar o preservativo todas as vezes. E daí que também não seja má ideia passar a palavra.

Nem sim, nem não, muito antes pelo contrário


quarta-feira, julho 09, 2008

Sem palavras

Segundo o Público de hoje o Dr Mário Soares terá dito ontem, a propósito da prisão de Guantánamo:
"prender suspeitos de actividade terrorista sem provas, sem julgamento, sem tempo e trazendo-os à força dos seus seus países em aviões que fizeram escala em aeroportos europeus para uma base militar em Cuba, tem comparação com os campos de concentração nazis da Segunda Guerra Mundial." (meu ênfase)

Soares está zangado. Soares odeia Bush. Os nazis são o símbolo do mal. Ergo, toca a comparar os EUA com os nazis. É simples. Eu já ouvi isto em algum lado, a divisão do mundo em "bons" e "maus"... Para Soares há uma Axis of Evil. Só os membros é que são diferentes.

Eu já não percebo nada...

terça-feira, julho 08, 2008

Corte itinerante

O Eng.º Duarte Bragança vai fazer "monarquias abertas". Até parece que leva uma pequena corte em itinerância e que vai assinar protocolos com entidades locais. Da minha parte, estou especialmente curioso em saber qual a entidade signatária que o senhor representa, qual o conteúdo dos protocolos e, particularmente, qual o critério adoptado para a celebração de acordos com as instituições públicas referidas na notícia, a saber, a UBI, a Escola Superior Agrária de Castelo Branco, ou a Direcção Regional de Agricultura.


Enquanto cidadão com as mesmas faculdades e direitos do senhor Eng.º Bragança, sinto-me inspirado em organizar algo parecido - só ainda não me decidi se vai ser um bonapartismo aberto ou uma xogunato aberto (sonhar por sonhar, porque não ser mais exótico?).

É de facto triste...

Após a decisão preliminar do sínodo da Igreja Anglicana em admitir o acesso de mulheres à qualidade de bispo, o Vaticano afirmou ter recebido a notícia com tristeza, indicando que a opção anglicana vai dificultar a aproximação entre as duas confissões e fazer retroceder o progresso dos últimos anos. A argumentação católica em torno da questão de fundo assenta no facto de todos os apóstolos terem sido homens, o que indiciará uma vontade de Jesus Cristo em vedar o acesso das mulheres ao sacerdócio. Tendo em conta que todos os apóstolos eram também Judeus, se quisermos levar o raciocínio até às suas últimas consequêncaias, cheira-me que a Igreja Católica fica sem padres...

Compassionate society


Para quem de vez em quando se lembra de ter dúvidas sobre a existência de diferenças entre esquerda e direita, eis um friendly reminder:


Tom

Fiquei fã do Tom Lehrer. Eis mais um (este à boleia deste post da Ana Gomes).

Tom Lehrer - Who's next?

Eleições fresquinhas a caminho

A jovem grande coligação austríaca (tinha menos de dois anos) foi ao ar e cheira cada vez mais a acto eleitoral para os lados de Viena. Ao contrário da grande coligação do vizinho alemão, que parece penalizar essencialmente o SPD, as sondagens que se conhecem na Áustria dão conta de empate técnico dos social-democratas da SPÖ e dos populares ÖVP (33%) e subidas da extrema-direita FPÖ (16%) e dos Verdes (14%). E pode ser até que o chanceler Gusenbauer não se recandidate...


Isto de organizar europeus de futebol dá nisto, instabilidade e governos novos. Vejam lá se não aparece um Santana Lopes austríaco...

segunda-feira, julho 07, 2008

Alívio, por agora

Notícia de há pouco dá conta de que o incêndio que deflagrou em edifício devoluto na Avenida da Liberdade, junto ao Elevador da Glória está circunscrito. Afastado o perigo de "novo Chiado" que por momentos se temia (o fogo alastrou a alguns edifícios), impõe-se que regressemos ao debate do renascimento da Baixa e da preservação do centro histórico. Este e muitos outros alfacinhas o exigem!

Fobias

Patrícia Lança de volta, sem surpresas. Para si os homossexuais continuam a ser um lóbi sem rosto e não pessoas que pretendem ser tratadas como as demais. Continuam a ser merecedores de discriminação e aversão e quem defende as suas causas anda aos gritos de forma histérica e é feio (sic).
No seu mais recente post, Patrícia Lança teima ainda em desviar a conversa para outro lado. Ninguém a quer silenciar com qualquer criminalização do seu discurso. A sua liberdade em ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ninguém lha contesta.

Prepare-se é para ser confrontada com a justa acusação de homofobia e discriminação. Deixo-lhe uma analogia que ilustrará o argumento do Daniel Oliveira no Eixo do Mal: assim como é hoje inaceitável que alguém defenda a proibição do casamento interracial, também o dia virá em que não haverá um pingo de dúvidas em remeter para o exterior do debate civilizado quem sustenta o tratamento discriminatório de casais homossexuais.

Um desporto sem Conselhos de Justiça


Não vi, mas segundo os relatos foi histórico. Os parciais dão um claro sinal disso mesmo:

Nadal 6-4

Nadal 6-4

Federer 6-7 (5-7)

Federer 6-7 (8-10)

Nadal 9-7

domingo, julho 06, 2008

Favoritos PDA

Entre muitos outros, sei que também vai ao encontro das preferências do César e o Chico. A ambos a solidariedade destas pequenas minudências subjectivas...
The Beatles - Eleanor Rigby

The Constitution's most mysterious right

Para quem estiver para aqui virado, e depois desta decisão do Supremo Tribunal dos EUA, deixo uma análise jurídica objectiva, por Cass Sunstein, da Universidade de Chicago, que desmistifica as leituras mais radicais e sacralizantes direito à posse de armas.

A série dos grandes covers (IV)



Jim Carey - I am the Walrus

A série dos grandes covers (III)

Ella Fitzgerald - Desafinado

A série dos grandes covers (II)

Rufus Wainwright - Everybody Knows

A série dos grandes covers (I)

David Bowie & Marianne Faithful - I've got you babe

Clássicos

David Bowie - Heroes

Prestações sociais e IVG

Através de um amável convite da Maria João Pires, "vendi-me" ao 5 dias e por lá postei o texto que se segue. Mas como os deveres para com a causa dos demais "repúblicos" se impõe, cá vem ele transcrito para a Bóina:

Desde que foi publicado em Diário da República o Decreto-Lei n.º 105/2008, que não têm sido poucas as leituras deturpadas, simplistas e alarmistas do seu conteúdo, proclamando-se com pavor a descoberta de subsídios à realização de abortos, nas palavras de alguns dos mais veementes escritos sobre o assunto. Contudo, parece-me melhor política ler o diploma até ao fim e não ser selectivo nas normas que se opta por interpretar.

Em primeiro lugar, lendo o artigo 2.º percebe-se que a finalidade do diploma é a de assegurar compensação por perda de remuneração decorrente das eventualidades descritas no decreto-lei, cujo leque é variado, não sendo a IVG senão um entre vários elementos da lei.

“Artigo 2.º
Os subsídios sociais previstos no presente decreto-lei concretizam-se na atribuição de prestações pecuniárias destinadas a garantir rendimentos substitutivos da ausência ou da perda de remuneração de trabalho, em situações de carência económica, determinadas pela inexistência ou insuficiência de carreira contributiva em regime de protecção social de enquadramento obrigatório ou pela exclusão de atribuição dos correspondentes subsídios do sistema previdencial.”


Da leitura desta norma já se retira sem margem para dúvidas que invocar a existência de um incentivo à realização de aborto não corresponda à realidade e traduz má-fé interpretativa de quem o afirma. O que está em causa é apenas compensar a perda de remuneração decorrente das eventuais consequências da interrupção da gravidez, ou seja, a impossibilidade de trabalhar nos dias que se seguem à realização da intervenção. Lendo ainda mais atentamente o diploma se perceberia que o âmbito pessoal de destinatários até é bem mais limitado do que uma leitura apressada indiciaria, apenas se visando abranger quem não está coberto por qualquer regime de protecção social de enquadramento obrigatório (n.º 1 do artigo 3.º), ou quem por eles esteja enquadrado, mas não beneficie das prestações correspondentes às eventualidades previstas no novo decreto-lei (n.º 2 do artigo 3.º).

Prosseguindo a leitura e chegando aos aspectos específicos relativos à interrupção voluntária da gravidez, fica claro que o período de concessão do subsídio é temporalmente mais apertados do que nas demais prestações previstas no diploma (máximo de 30 dias, por oposição aos 150 para o subsídio de maternidade ou 100 para o subsídio de adopção) e que a atribuição do subsídio depende de demonstração de existência de período de incapacidade para o trabalho: segundo o n.º 3 do artigo 10.º, “em caso de aborto espontâneo ou de interrupção voluntária da gravidez o período de concessão varia entre 14 e 30 dias, consoante o período de incapacidade para o trabalho determinado por prescrição médica.” Não deve, pois, sobrar qualquer dúvida quanto à inexistência de incentivos ou benefícios, mas tão-somente a previsão de uma compensação para quem ainda se encontra em fase de recuperação após a realização de uma interrupção da gravidez.

Para quem analisa a questão da perspectiva dos direitos à saúde sexual e reprodutiva, o regime agora criado vem apenas assegurar que à salvaguarda da saúde da mulher se têm necessariamente de associar mecansimos que evitem causar-lhe um dano económico acrescido. Para quem insista em continuar a viver antes de 11 de Fevereiro de 2007, qualquer abordagem deste teor será sempre reveladora de uma vasta conspiração destinada a promover a prática de abortos, porque continuará a assentar o seu raciocínio numa lógica repressiva e ostracizante, não encarando a questão da principal perspectiva que releva, que é a da protecção da saúde das mulheres. Para quem sustenta esta útima abordagem, a mulher deve ser censurada pela realização da IVG e a abordagem do Estado não deve ser a da solidariedade, mas a da indiferença. Felizmente, o eleitorado optou pelo outro caminho…

Memória e critério

Em dois dias, duas questões interessantes sobre a preservação da memória e como lidar com o passado. Em primeiro lugar, a Assembleia da República aceitou e votou favoravelmente uma petição contra a construção do muito publicitado Museu Salazar, em Santa Comba Dão. Um dia depois, no primeiro dia de abertura ao público da sucursal berlinense do museu de cera da Madame Tussaud, um cidadão alemão decapitou a figura de cera de Hitler (e muito adequadamente, tendo em conta a forma com a senhora Tussaud expandiu a sua actividade no final do século XVIII....).

Em ambos os casos há um elemento comum, uma vez que ambos demonstram que a tarefa de lidar com o passado não tem o carácter linear que os promotores de ambos os espaços museológicos pretendem. O risco de transformar em panegírico ou em memorial aquilo que se pretende que tenha um conteúdo formativo é significativo, se as cautelas necessárias não forem tomadas. É pois de saudar a recusa dos deputados à AR em sancionar uma escolha desacertada da Câmara Municipal de Santa Comba Dão que, na sua ânsia de arranjar um foco de atenção turística, não foi capaz de exigir dos promotores da iniciativa um projecto estruturado e criterioso, sujeitando-se por isso a ficar associada à lógica da celebração "dos aspectos positivos do Estado Novo". Exige-se um pouco mais do que ser filho da terra com notoriedade para merecer este tipo de atenção das autoridades públicas. Relembro que não se trata de uma qualquer iniciativa de um cidadão ou de uma entidade privada, mas sim de um projecto com intervenção e financiamento públicos.

O excesso de reacção do visitante da Madame Tussaud em Berlim revela a forma como o problema está interiorizado pela população alemã. A República Federal da Alemanha é provavelmente o país do mundo com a abordagem mais exemplar e sem complexos do seu passado. Enquanto os manuais escolares japoneses continuam a lidar vergonhosamente com o expansionismo nipónico das décadas de 30 e 40 e os seus políticos de primeira linha continuam a não recusar-se em prestar homenagem a criminosos de guerra, ou enquanto em Itália ainda se compram aventais, lenços e bustos de Mussolini em barraquinhas de rua em Roma e noutras cidades, os alemães souberam olhar de frente o passado e proclamar o seu repúdio pelos valores que estão associados ao nacional-socialismo, enquanto asseguram a análise histórica rigorosa do período e a preservação da memória das vítimas. Tolerância zero e investigação máxima.

Se não queremos ficar limitados a espaços de exaltação de figuras menos recomendáveis, parece-me que a lógica alemã é aquela que devemos seguir. Como disse Fernando Rosas no hemiciclo de São Bento, a uma capelinha ao ditador com as suas pantufas, sofás e escovas de dentes, ainda por cima a expensas do erário público, devemos dizer não, muito obrigado. Um museu com enquadramento científico adequado sobre o Estado Novo e um museu que preserve a memória das vítimas e resistentes ao regime, por seu turno, é algo que se impõe há muitos anos...



PS: E já agora, actualizo os links, com o incontornável Caminhos da Memória.

Zona livre de direito

Volto a dizê-lo: para mim, o ponto mais alto da credibilização da denominada justiça desportiva é o facto de a via de resolução normal de controvérsias jurídicas num Estado de Direito, o recurso aos tribunais, acarretar como consequência imediata a punição com descida de divisão ao clube que ousar exercer esse direito.


Não têm culpa nem os jogadores, nem os adeptos. Para os homens do "dirigismo" é muito bem feito!

Música de fim-de-semana

Flashbacks...

Blur - Country House

sábado, julho 05, 2008

Momentinho jacobino

Tom Lehrer - Vatican Rag

Esta nem com acordo ortográfico lá vai

A versão portuguesa do site da Opus Dei traz uma entrevista com um recém-ordenado sacerdote em que este remata (literalmente) a conversa dizendo que Ser católico é jogar para a “Champions” todos os dias.

Consultada a versão brasileira do site, a entrevista do mesmo prelado termina com uma afirmação ligeiramente diferente: Ser católico é jogar uma Copa do Mundo diariamente.

Aparentemente, basta atravessar o Altântico para o Man United se tornar campeão do Mundo de selecções. Fé e futebol movem, de facto, montanhas....

Poder popular

A 26 de Junho de 2008, Salvador Allende completaria 100 anos.



"Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos."

Salvador Allende Gossens

sexta-feira, julho 04, 2008

Nem no Pravda nos seus dias melhores...

O resistir.info tem muitos mais criteriosas peças de isenção e contacto com a realidade:

Homenagem a Manuel Marulanda

Honra e Glória eterna ao comandante Raúl Reyes!

"O budismo tibetano, uma filosofia? Essa é para rir!"

O desmascaramento final da versão oficial do 11/Set

O mito Kennedy ascende outra vez

Novo estudo de "Pilots for 9/11 Truth": Nenhum Boeing 757 chocou com o Pentágono


Mas um dos melhores chama-se "PROMOÇÃO DO FEUDALISMO TIBETANO" e encontra-se logo na página inicial:

A promoção do feudalismo tibetano continua a desenrolar-se, sob o alto patrocínio da CIA. Os actuais protestos no Tibete, em ligação com os Jogos Olímpicos na China, haviam sido planeados e discutidos em Julho de 2007 em Nova Delhi sob a égide do embaixador estado-unidense, do sr. Jamyang Norbu que se apresenta como escritor exilado e desse bandalho do Dalai Lama que se apresenta como "líder espiritual" do Tibete. O objectivo era fazer mais uma das revoluções coloridas , ao estilo da CIA. A seguir àquela reunião a sra. Paula Dobriansky , sub-secretária de Estado dos EUA, neocon membro do PNAC, efectuou uma visita ao sr. D. Lama para coordenação. A dita sra. Dobriansky já estivera envolvida nas tais 'revoluções coloridas' na Europa do Leste. Promover revoltas com a cobertura do governo americano é uma actividade muito rentável para alguns. A estratégia delineada em N. Delhi previa uma marcha de exilados e protestos dentro do Tibete, sempre com financiamento ciático. Está tudo a ser seguido ao pé da letra. A orquestração nos media que se dizem "de referência" não podia, é claro, deixar de faltar.

Todos sabemos o que têm sofrido os povos do Leste da Europa desde as tais revoluções coloridas...

Parabéns à Revolução Americana!



"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness. — That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, — That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness."

quinta-feira, julho 03, 2008

Interlúdio musical

Para alimentar o vício à Ana:

Scarlett Johansson - Falling Down

Claramente uma conspiração nazi-zionista-americana-uribiana

Como é que não fomos capazes de ver a perfídia estampada no rosto de Ingrid Betancour, essa malévola agente da classe dominante venezuelana? A honestidade intelectual é nula, a distorção da realidade é absoluta, o asco é total.

Três mercenários estado-unidenses, 11 polícias & militares e um membro da classe dominante colombiana foram recuperados dia 2 pelo governo narco-militarista de Uribe. Daquilo que já se sabe deste episódio verifica-se:

1) Seguindo o diktat bushiano, Uribe continua a rejeitar a solução política do conflito – que deveria ter início com uma troca humanitária de prisioneiros, como propõe as FARC-EP.

2) O governo uribiano-bushiano não hesitou em por em risco a vida dos retidos.

3) Os retidos foram mantidos em boa saúde – poderá o Estado colombiano dizer o mesmo daqueles que mantem nas suas masmorras?

4) Regimes repressivos & fascistas muitas vezes obtêm êxitos em operações de comandos, como mostra a história de Israel e da Alemanha hitleriana – mas isso não leva à paz com justiça social.

5) O alarido mediático dos media corporativos volta-se selectivamente para os membros da classe dominante – mas nunca mencionam os sofrimentos dos oprimidos, como os milhões de camponeses colombianos expoliados das suas terras ou as centenas de guerrilheiros das FARC-EP que padecem nas prisões uribistas.

6) A operação ardilosa do dia 2, infelizmente, pôs a Colômbia mais distante da paz.

Retirado daqui via Blasfémias.

Sigam a luz

Cliquem para aumentar.





Simplificação

No 31 da Armada, o Rodrigo Moita de Deus desenvolve o seguinte raciocínio:


O problema é que parece que Manuela Ferreira Leite disse mais qualquer coisinha, um pouco mais do que apenas concordar com a actual lei. Até parece que foi o seguinte:


1 - Em primeiro lugar, admitiu expressamente que a orientação sexual é um factor de discriminação.

2 - Em segundo lugar, reduziu a família a uma instituição construída em torno da procriação, discriminando não só as famílias sem prole, como as famílias formadas na sequência da adopção, deixando de lado as múltiplas normas que protegem a família nas suas cada vez mais ricas e plurais manifestações.

3 - Ainda que se tivesse limitado a concordar com a manutenção em vigor da actual lei, a defesa de um regime jurídico discriminatório em relação a determinada categoria de cidadãos e cidadãs não pode ser visto como um potencial factor de identificação de um preconceito?

Mais bem dito do que estas linhas que aqui deixo, é este comunicado da ILGA, pelo que para aí remeto o que mais há a dizer.

Artigo 37.º

Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.



A recente suspensão do blogue Povoaonline revela a falta de sentido de Estado de Direito e de relevo dos direitos fundamentais que ainda sobrevive nas precisas instituições erguidas para a sua defesa.


Perguntar-se-á o telespectador mais atento se com isto não estou eu a abrir dar uma carta branca para a calúnia e injúria? Não me parece. Se o autor do blogue incorreu na prática de crime ou causou danos aos autarcas, há vias judiciais para o punir e para indemnizar os lesados. Proibir um veículo de livre expressão do pensamento e procurar apagar a história fazendo desaparecer o blogue é que implica dar aquele passozinho totalitário que não só não é necessário, como põe em risco uma das bases fundamentais do sistema democrático.

Tendo deixado passar o desaparecimento de George Carlin há uns dias, não vejo post mais oportuno para referir a necessidade de salvaguar os direitos dos inoportunos do que este:


LIBRE!


Isto promete

Se casar é só para procriar, pergunto se em breve a inversa também será verdadeira?

Para o que me havia de dar

Enfim, ando assombrado por isto há uma semana. Por isso, cá vão todas as versões imagináveis para concluir o exorcismo.

Volare - Domenico Modungo

Volare - Gipsy Kings
Volare - Dean Martin