quinta-feira, setembro 25, 2008

Those were the days...



Não sei o que me choca mais neste artigo aterrador: será o vocabulário marxista-leninista completamente anacrónico (e em particular a insistência risível no determinismo do materialismo histórico)? Será a incapacidade de aceitar a derrota material e intelectual do 'socialismo científico' como modelo alternativo de sociedade? Será o ódio figadal (e, aliás, clássico) à "ideologia social-democrata", elencada como uma das razões para o colapso da União Soviética, juntamente com "o abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo ... a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, [e] a traição de altos responsáveis do partido e do Estado"? Será a referência elogiosa a países como Cuba, China, Vietname, Laos e RDP da Coreia, pelo "seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista"? Ou será o facto de estas teses terem sido aprovadas por unanimidade no Comité Central do PC?

Não, a mim o que me choca mais é que o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética que teve lugar em 1956 demonstrou uma maior capacidade de auto-crítica em relação aos crimes do estalinismo do que o XVIII Congresso do Partido Comunista Português, que terá lugar este ano.

O PC já foi um partido que, para além do seu papel na política nacional, agregava forças intelectualmente interessantes e albergava elementos progressistas em várias áreas, como o da emancipação das mulheres, por exemplo.

Neste momento não passa de um partido político amargurado, vazio de conteúdo, desfazado da realidade, intelectualmente estéril e preso na nostalgia de um passado dourado que nunca existiu.
Um bocadinho como o movimento monárquico.

6 comentários:

Anónimo disse...

Ou como o liberalismo "extremista"...

Anónimo disse...

E viva a maçonaria

Anónimo disse...

Um tipo vê elogios do PS à Rússia de Putin e à Angola de Eduardo dos Santos, do mesmo partido e do PSD aquilo que governa a China, mas só se preocupam com as estúpidas políiticas de relações internacionais do PCP. Quanto ao desfasamento da realidade, e uma vez que na maior parte das coisas nem andam muito longe do BE (assim não é em termos de negócios estrangeiros), parece-me bem que quase um quarto da população portuguesa vê sentido nestes conteúdos.

Anónimo disse...

Os comunistas lembram-se de vários aspectos do governo de Staline, não apenas um.
Gosto muito do seu conceito de "derrota material e intelectual". O Sr. deve estar demasiado habituado a ver jogos de futebol. Existem críticas a ser feitas à URSS mas também existem elogios, muitos até. O Sr. parece-me demasiado dogmático para tecer qualquer tipo de juízo.

Agora pergunto-lhe. Se ainda existisse a URSS, os americanos considerariam invadir o Iraque, Afeganistão ou mesmo o Irão?

Marcos Gouveia disse...

Bom, a URSS fez um rico trabalho sozinha a invadir o Afeganistão, e essa sim pode chamar-se invasão...

Anónimo disse...

Caro senhor Oppenheimer:
Vai uma grande confusão nessa cabeça...
Eu acho a capacidade de auto-crítica uma coisa muito importante. Mas auto-crítica não consiste em criticar todo o próprio passado só porque parece bem criticar...
Obviamente, há coisas que é preciso criticar, e outras que não é... Se fosse preciso criticar tudo, não seria preciso criticar nada... É como sublinhar...
Com certeza que os situacionistas como o sr. Oppenheimer não têm uma tradição de se meter em revoluções nem outro género de "bagunças" que envolvem complicações e que envolvem saber tomar partido ("Tomar partido é irmos à raiz" - Ary), e que por isso mesmo nos custam oposições, críticas, polémicas a sério, e inimigos. Mas a realidade é que o mundo só avança quando se luta, quando se faz às pessoas verem as contradições da sociadade, quando sabemos distinguir aliados de inimigos, e sobretudo, quando sabemos distinguir a crítica legítima da crítica ilegítima, e temos capacidade de fazer a nossa auto-crítica de forma realmente útil, de uma forma que sirva a nossa práxis revolucionária, e não de uma maneira que sirva o oportunismo social-democratizante.
Se para construir uma sociedade mais justa bastasse dizer mal do staline e de todos aqueles que se mexeram para travar as lutas necessárias, então estes 60 anos a dizer mal deles já teriam sido suficientes para concretizar o ideal comunista.

Abaixo às análises anti-históricas. Pela enésima vez: as pessoas fazem a história, mas a história também faz as pessoas. O Staline, os erros da URSS, da RPDC, da China, de Cuba, têm que ser analisados À LUZ DO CONTEXTO HISTÓRICO.

Os melhores cumprimentos,
Epitácio Lemos