segunda-feira, novembro 19, 2007

Eufemismos & Manipulações


Na secção de crítica televisiva do Avante, o colunista Correia da Fonseca critica um documentário do canal História, por reproduzir uma visão "da História escrita pelos vencedores" (relatado no DN de hoje e no Arrastão). Curiosamente, a versão da história que o próprio autor do texto oferece é no mínimo fascinante.

Primeiro, uma abertura com um formidável exercício de reescrita da história da II Guerra Mundial: "No início da década de 60, as coisas não corriam tão bem para o «Ocidente atlântico e democrático» quanto este desejaria. Tratava-se, de resto, de uma frustração antiga, remontando pelo menos ao tempo em que os exércitos nazis falharam a destruição da União Soviética enquanto Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros prosseguiam aquilo a que Churchill, num acesso de franqueza, chamou um dia «a guerra inútil». Entende-se: inútil porque na sua óptica «guerra útil» teria sido a que unisse todas as potências capitalistas para o esmagamento da URSS, esse susto que resistira às invasões imediatamente posteriores à Revolução de Outubro e ao cerco económico e propagandístico das décadas de 20 e 30, que até conseguira um milagre de industrialização obtido pelo preço de grande dureza interna e muitos sacrifícios de diversa ordem, que não dera sinais de capitular em 45-50 perante a ameaça atómica/nuclear, que conseguia êxitos na corrida para o espaço e, com tudo isto e muito mais, se confirmava como uma das duas superpotências mundiais. Churchill, velho anticomunista militante que lançara no seu discurso de Fulton a fórmula «Cortina de Ferro» para designar o conjunto de providências não apenas militares com que o Bloco Socialista impedia o avanço capitalista para o Leste, tinha, pois, as suas razões para lamentar que a Grã-Bretanha tivesse feito a guerra errada." Digerido esta interminável última frase, que consegue encaixar trinta anos de propaganda soviética antes do ponto final, cumpre perguntar se, neste cenário histórico alternativo, o Pacto Ribbentrop-Molotov exisitiu mesmo ou se foi também uma fabricação de propaganda ocidental?

Correia da Fonseca prossegue: Neste quadro, Berlim, cidade quadripartida em zonas de ocupação, funcionava simultaneamente como porta de entrada nos territórios socialistas e como montra das maravilhas ocidentais aos olhos de quem vivia do lado de lá e não tinha acesso a grandes carros, a «jeans», a aparelhagem sofisticada, a Barbies. Que apenas tinha coisas de pouco valor ou pelo menos pouco valorizadas: emprego, serviços de saúde, apoios na área cultural, educação." Ironicamente para esta leitura da História, as coisas não poderiam ser mais ao contrário. Aliás, eram exactamente ao contrário. Emprego, serviços de saúde, apoios na área cultural e educação eram, em 1961, direitos fundamentais assegurados pela Lei Fundamental da República Federal da Alemanha, conquistas do Estado Social de Direito. Para além disso, havia também carros, aparelhagens, Barbies e jeans. Na RDA por seu turno, não só faltavam estes items como ainda faltava uma outra insignificância, o Estado de Direito.

Voltando ao texto, "Berlim era, pois, a um tempo, canal de hemorragia e via de livre infecção, e isto em plena situação do que se chamou Guerra Fria. Para estancar a hemorragia e travar a infecção foi erguida uma barreira que permitisse controlar entradas e saídas." Presumo que a infecção seja o referido Estado de Direito democrático numa cidade governada por perigosos revisionistas (Willy Brandt era na altura presidente da edilidade). Assim sendo, é lógico que de seguida se entre nas críticas ao documentário, por não ter sequer abordado a tese de "que o Muro de Berlim foi o recurso possível para que um Estado internacionalmente reconhecido, a República Democrática Alemã, pudesse defender-se de uma permanente invasão 'branca' e de um constante fluxo de emigração ilegal" O recurso ao eufemismo atinge aqui o seu zénite: em vez de refugiados e de dissidentes políticos, temos "emigração ilegal"; em vez de circulação de ideias, temos a "permanente invasão branca"

Mas ainda há mais: "Recorde-se que aquele não era o tempo da livre circulação através das fronteiras, como hoje acontece em grande parte da Europa: quem quisesse passar ilegalmente a fronteira entre a Itália e a Áustria, ou entre Portugal e Espanha, ou entre Espanha e França, corria o risco imediato de ser alvejado a tiro. Como se sabe." Eu claramente não sei. Não conheço casos de imigrantes ilegais serem recebidos brutalmente a tiro nas fronteiras da Europa Ocidental. Até mesmo no caso da emigração portuguesa através de Espanha, dois regimes ditatoriais, os dados recentemente analisados (o documentário da RTP, a título de exemplo) revelam precisamente o inverso, a existência de permissividade e de um fechar dos olhos institucional ao fenómeno.

Não vi o doumentário em questão, pelo que não me pronuncio sobre o seu conteúdo. Aliás, até aproveito para afirmar que considero que grande parte da produção de documentários americanos transmitida no canal História é superficial e redutora, perdendo aos pontos para o vizinho Odisseia ou para os canais da National Geographic. Contudo, se as críticas apontadas são apenas estas, elas limitam-se a revelar o crescente autismo da actual liderança do PCP, expurgados os impuros revisionistas.

1 comentário:

João Gato disse...

Um Estado que se preocupa com emigração ilegal, não com imigração ilegal, hã? Those were the days...