segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Cheer up!

Blasfémia pela altura do Carnaval

A canonização e a República

Noticiam hoje os principais periódicos portugueses que o Papa Bento VI (anteriormente o Yoda na Guerra das estrelas) canonizou o Cidadão Português Nuno Alvares Pereira. Até aqui uma notícia pouco “contestável”, mesmo considerando que a base para a decisão final é, e passo a citar o DN de hoje: “uma sexagenária natural de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo, por ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe”.


Igualmente humorísticos, mas já mais “contestáveis” foram os comentários do Cidadão Engº Duarte de Bragança sobre a suposta pressão dos malvados espanhóis no atraso da canonização uma vez que "A partir da restauração da independência de Portugal os espanhóis passaram a ver D. Nuno Álvares Pereira com maus olhos. E esta foi a grande razão pela qual o processo de canonização nunca foi para a frente”.

Tudo estaria dentro do normal folclore que se esperava decorrer de uma notícia destas, incluindo o júbilo do Cidadão Paulo Portas, quando vejo no DN uma fotografia do Presidente da República Portuguesa com uma citação em que este se congratulava por esta canonização.

É a minha opinião que, tratando-se de uma especie de distinção puramente religiosa e não de um qualquer prémio Nobel da estratégia militar, não é adequado que a República Portuguesa secular e laica, pelo seu presidente, se congratule ou sequer releve este tema.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Pírrico

Neste artigo, cuja análise se confirmou, algumas notas sobre a forma como a vitória dos centristas do Kadima pode ter provocado o efeito inverso da radicalização à direita do próximo governo de Israel.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Amanhã mais de Cabo Verde

Valores republicanos

Vital Moreira coloca o dedo na ferida a propósito da deterioração das garantias republicanas na Venezuela. Rotation in office e não eternização no poder são indispensáveis à saúde das instituições. Sobre o mesmo assunto, que tem vindo a assumir idêntico peso nalguns sistemas políticos africanos, aqui se encontra um relato da situação no Uganda.

Em stereo, aqui.

Very good!

Roubado daqui, que roubou daqui. 100 anos de perdão para mim.

Em noite de prós e contras....

... lembrei-me deste texto do blog da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago.

Um cheirinho:

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Regresso ao serviço

De volta ao trabalho, numa Boina com a cara algo modificada.

E ainda, em breve, novas contratações...

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Anedota inofensiva

"An Israeli arrives in London Airport .
The official helps him to fill the arrivals customs card:
- Your name?
- Moshe.
- Family name?
- Mizrakhi.
- Citizenship?
- Israeli.
- Occupation?
- No, NO!!! Not occupation!! Just visiting!!!"

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

30 anos de SNS

A Boina não podia deixar de assinalar o 30º aniversário do Serviço Nacional de Saúde. Trata-se de uma das peças fundamentais da nossa República que garante efectivas condições de igualdade no acesso aos cuidados de saúde.

Cometo aqui a empáfia de dizer que, se a criação de um acesso universal e tendencialmente gratuito à saúde é uma das maiores conquistas de Abril em Portugal, como conceito amplamente divulgado no nosso Continente esta é uma das vitórias de uma Europa assente no chão firme dos ideais d'A Revolução (a consultar no cabeçalho deste blog).

Sabemos que os EUA de Obama podem estar bem lançados para trilhar este caminho, mas não deixa de ser uma surpresa o que já se anda a fazer na China.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Padres hindus, por exemplo

Este artigo explica muito bem a nova proposta de lei sobre a assistência religiosa nas Forças Armadas. É um tema complicado que evoca o debate clássico sobre a laicidade do Estado. Mas ficamos a saber a seguinte boa notícia:
"A actual proposta relativamente às Forças Armadas tem em conta a possibilidade de outras confissões religiosas exercerem ali actividades pastorais."
Cá está um exemplo de como, em Portugal, se começa lentamente a perceber que "religião" e "catolicismo" não são sinónimos e que a ICAR não pode continuar a usufruir de uma posição hegemónica nas instituições da República.
O que nos leva à frase que se segue: "Neste sentido, é admitida a contratação de padres e de leigos oriundos de qualquer igreja e comunidade religiosa inscrita no registo de pessoas colectivas religiosas..."
Hmmm, cheira-me a vocabulário hegemónico...
A República já percebeu que há mais confissões religiosas para além da católica. Agora só falta os jornalistas do DN aprenderem que nem todas as religiões têm padres.

sábado, janeiro 24, 2009

Parem de falar mal do Cristianismo

Acabo de ver o Daily Show do dia 20 de Janeiro. Jon Stewart entrevistou o primeiro bispo episcopaliano abertamente gay - Gene Robinson do New Hampshire. O bispo explicou que acompanhou a campanha de Barack Obama desde o princípio e que o "tem aconselhado sobre questões de LGBT". Um bispo. Sobre questões LGBT. Ainda bem. É que Gene Robinson pelo menos sabe do que fala.

Vão ver.

A exuberância da espiritualidade New Age

Aprendi ontem que existe "astrologia kármica". E diz que funciona.

"Será que com Obama vai mudar alguma coisa?"

Só passaram três dias e já mudou tudo. Mais uma.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Péricles, Cícero, Maquiavel, Condorcet, Jefferson, Hugo... Obama

Vital Moreira tem razão. O discurso da tomada de posse de Obama evocou uma série de ideias e símbolos do republicanismo. Até lhe perdoo a misturada entre religião e a 'coisa pública'!

Mas... A pompa, a música ("Hail to the Chief!"), os uniformes militares, a carga simbólica do neoclassicismo do Capitólio, a multidão, o discurso recheado de referências universalistas (tanto em termos de valores, como no que diz respeito ao papel dos EUA no mundo) - terei sido o único a ficar com a sensação de estar a assistir a uma cerimónia quasi-imperial, a um ritual de sacralização do Líder democrático, à confirmação por aclamação do Líder carismático (que adquire assim mais uma camada de legitimidade)? Tipo cruzamento entre Rousseau, Montesquieu e Bonaparte. Mas no século XXI e numa Democracia.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Change has come to America

Do NYTimes:

Whatever the feeling was about Mr. Obama’s politics, most agreed that this one-hour ceremony marked a kind of new phase in a the country’s 233-year history. Few would know about that better than Florence Beatrice Stevens Smith, 104, who lives at the Heartland Health Care Center in Kendall, Fla.

The community room was already packed, with residents peeking behind walkers, when Ms. Smith entered, a red white and blue lei around her neck. The ceremony had begun. Though several in the room dozed peacefully, the set was turned up loud enough for people down the hall to hear it from their beds.

Ms. Smith did not say much. But an employee at the home confirmed what feature stories in the newspaper had said: Ms. Smith had been a typing teacher at Tuskegee University in Alabama and her father, a former slave, had served in the Union Army.

When Mr. Obama appeared on screen and began his oath, she moved forward in her wheelchair and adjusted her glasses.

“He is really president,” Ms. Smith whispered, as others in the room applauded. “That’s nice.”

Presidente Obama

Quando o novo Presidente dos EUA diz no seu primeiro discurso que decidiu "restore science to its rightful place" qualquer coisa andou a correr mesmo mal... E que bom ouvir a denúncia da "false choice between safety and ideals"!

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Anti-sionismo e anti-semitismo não têm nada a ver um com o outro III

Encontrei esta pérola do Frei Bento Rodrigues na Edição Impressa do Público de 4 de Janeiro.

"Depois de oito anos a acreditar nas trapaças de George Bush e da sua pandilha, assim como nos negócios vergonhosos da Wall Street, procura-se fazer de Barack Obama o salvador da superpotência para que ela seja a salvação do mundo. É normal que cada grupo procure atrair o Presidente para o seu campo. Foram, sem dúvida, os menos poderosos que o elegeram. Serão, no entanto, os mais poderosos que, em nome das virtualidades da economia de mercado e do seu dinamismo, desviarão a atenção de Obama dos mais pobres das Américas, da África e da Palestina. Israel já fez o suficiente para mostrar que, mesmo com o fariseu Madoff na cadeia, os EUA devem continuar com fé em Israel, mesmo depois de todos os crimes contra a humanidade. Não duvido de que todas as tentativas serão destinadas a arranjar oxigénio para o capitalismo, mesmo através das indesejadas intervenções do Estado. É opinião corrente que o próximo ano vai ser mau para os que mais precisam e que ainda não será o último. Depois, julga-se, pela lei dos ciclos económicos, que a prosperidade regressará."


Eu sei que o Frei Bento Rodrigues é leitor assíduo deste e doutros blogs laicos e republicanos, portanto cá vão umas perguntinhas: explique lá o que é que tem a ver um criminoso (que para além de muitos atributos interessantes também é judeu) e as suas falcatruas monumentais, com Israel e os seus "crimes contra a humanidade"?! O que é que tem a ver o destino deste escroque com a política externa dos EUA?! O que é que tem isto tudo a ver com os pobres, os oprimidos e os esquecidos "das Américas, das Áfricas e da Palestina" (honra especial para a Palestina, único país que merece ser mencionado à parte)?!

Ah, deixe-me adivinhar, eu ajudo: judeus=poder=dinheiro. Mais, se eu entendi bem o que se insinua aqui, aparentemente 5 ou 6 milhões de tipos mandam numa hiperpotência democrática com 300 milhões de habitantes. Eu cá parece-me que isto é uma conspiração. E se "eles" mandam na política externa dos EUA devem mandar no mundo! Espera lá, isto então é uma conspiração mundial! É pá, ó Frei Bento, ainda bem que você nos chama a atenção para isto, senão ainda podíamos cometer a imprudência de pensar que o destino do "fariseu Madoff" e a escolha de aliados dos EUA não tinham qualquer relação. Sugiro que o senhor se sente com o jornalista João Paulo Guerra, que também atribui a responsabilidade dos "crimes" de Israel ao "poder do dinheiro de Israel". Juntos poderão então gizar uma estratégia para nos salvar a todos das garras destes fariseus.

Porque toda a gente sabe que estes fariseus só fazem judiarias. São uns meninos rabinos. Primeiro limpam o sebo a nosso (Vosso) senhor (que felizmente se recompôs do choque), e depois, não contentes com isso, impedem que os EUA ajudem os oprimidos e impõem-lhes uma aliança chata.

À antiga, senhor padre, à antiga: um colega seu do século XVIII não tinha posto as coisas mais claramente. Azar para si, senhor padre, os "fariseus" aprenderam a defender-se.



P.S: Adivinhem a foto que acompanha este texto que versa sobre o capitalismo em geral: uma calculadora? Um banco? Uma nota de $? Um quadro de Adam Smith a jogar monopólio? Não: dois judeus ultra-ortodoxos. Enfim, judiarias.




Últimos argumentos de um anti-americano primário

A um dia da tomada de posse de Barack Obama, não resisto à tentação de partilhar este excelente artigo do Economist de balanço de oito anos de mediocridade agressiva e triunfante na Casa Branca.
A minha passagem preferida: "the three most notable characteristics of the Bush presidency: partisanship, politicisation and incompetence." (Eu acrescentava: "ódio pela Razão". Ou como dizia o Stephen Colbert: o triunfo da "truthiness" sobre a "truth". Do "gut feeling" sobre a reflexão.)
Há quem tenha precisado de mais de um mandato Bush, de um número infindável de notícias sobre o marasmo iraquiano e da maior crise financeira desde 1929 para chegar a esta conclusão - é o caso da rapaziada do Economist que fez parte do coro belicista em 2003.
Mas muitos de nós, modéstia à parte, sentiram muito depressa depois da chegada ao poder do gang Bush-Cheney-Rumsfeld que o que vinha aí metia medo. E foi por isso que não lhes demos o benefício da dúvida em 2003.
Esta administração representou tudo o que de pior têm os EUA. É como se em Portugal Alberto João Jardim se tornasse Presidente da República, Santana Lopes Primeiro-ministro e Paulo Portas Ministro da Defesa. Enfim, o triunfo da mediocridade. Impensável, claro.
Mas o pior de tudo foi assistir ao seguidismo desta lado do atlântico. Foi ouvir as lições sobre o que são os "verdadeiros EUA" por parte daqueles que hoje, completamente ultrapassados pelos acontecimentos e amargurados com a derrota épica de tudo o que representa o neo-conservadorismo americano, ficam reduzidos ao desespero do wishful thinking: "vão ver que o Obama não muda nada". Já mudou. Já sabemos que a competência voltou aos gabinetes em Washington.
Para aqueles entre nós que nunca acreditaram que Bush e a sua equipa mereciam ser defendidos só porque os rapazes do outro lado da barricada eram ainda piores; para aqueles entre nós que acham que a Europa e os EUA estão condenados a colaborar, mas não a qualquer preço; para aqueles entre nós que odiaram a era Bush com a mesma intensidade com que agora "amamos" Obama (e pelas mesmas razões); para nós, amanhã começa um novo capítulo de esperança. É piroso mas é assim mesmo.

Para mim, Obama tem o benefício da dúvida.
P.S: E mais, a última conferência de imprensa de Bush chocou-me tanto como a primeira. E eu a pensar que um gajo às tantas ganha calo contra a mediocridade arrogante. Mas não.