domingo, janeiro 18, 2009

A Intemporalidade

Assisti hoje a um bom concerto na Gulbenkian de um excelente pianista, Murray Perahia, que fez desfilar obras de Bach, Mozart, Beethoven e Brahms perante uma plateia deleitada que lhe exigiu dois belíssimos encore executados na perfeição.
Um pensamento recorrente pôs-me a tentar encontrar paralelos candidatos a intemporais nos artistas meus contemporâneos... Nada me surge que se vislumbre com a mesma longevidade.
Então lembrei-me pensar se esta aparente tendência para o esquecimento se aplicaria também aos acontecimentos que nos rodeiam. Desde os anos oitenta até hoje não encontrei nada que não ameace desaparecer na curva do tempo, ou que não se perca neste enorme turbilhão de novidades que é a produção artística e noticiosa destes anos.
Fazendo um balanço dos últimos 30 anos em que vivi não encontro nada que me pareça que permaneça. Nenhum 14 de Julho ou 5 de Outubro ou 25 de Abril. Duvido que resulte algum novo dia feriado para festejar algo que tenha acontecido neste período ou que tenha surgido algum artista que vá ser tocado nos próximos 300 anos para plateias deleitadas.
Nem sei valorizar tudo isto. Não sei se é bom ou mau, se há génio ou não, se é necessário ou não seres e criações intemporais. Parece-me apenas que não é propício o aparecimento dessas criações ou pessoas numa época em que os ideais possíveis são a sustentabilidade financeira e ambiental e um sentimento difuso de necessidade de aprofundamento dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade mas sem vislumbre de qualquer força para uma real alteração de paradigma, por ventura desnecessária.
Apenas alguns pensamentos moles, vagos e despretensiosos dignos de um fim de dia destes Domingos.

O jornal diário português de referência VIII

Este é menos grave, mas igualmente divertido. Nesta notícia, a Delegada-Geral da Autoridade Palestiniana em Portugal é identificada uma vez como "Randa Nabulsi" e outra como "Randa Nabuldi". O nome dela é Randa Nablusi ("de Nablus").
Toda a gente merece ver o seu nome escrito como deve ser. Lá por a senhora não se chamar Silva, ou Andrade, ou Lopes, não quer dizer que não se faça um esforço.

sábado, janeiro 17, 2009

O jornal diário português de referência VII

O Público não sabe que os territórios de Gaza e da Cisjordânia não são adjacentes. E o Público não sabe fazer contas.
Na edição de ontem, na página 2, ficámos a saber que a UNWRA (United Nations Relief and Works Agency)"é responsável por cerca de 4 milhões de palestinianos na Faixa [de Gaza]."
Vamos por partes. Gaza tem uma população de 1,5 milhões de pessoas. A Cisjordânia, de 2,4 milhões, sem contar com os colonos judeus (que estão lá a mais...). O que perfaz um total de quase 4 milhões de palestinianos a viver nos Territórios Ocupados.
Portanto, será que o pessoal do Público queria dizer que a UNWRA é responsável "por cerca de 4 milhões de palestinianos nos Territórios Ocupados"?
Não. O mandato da UNWRA: "The current mandate runs till 30 June, 2011, wherein the UN General Assembly has expressed its awareness of the "continuing needs of Palestine refugees throughout the occupied Palestinian territory and in other fields of operation" and noted that the "functioning of the Agency remains essential in all fields of operation". UNRWA looks forward to the time when the question of the refugees it serves is resolved and its operations are no longer necessary."
Numa palavra: refugiados.
De acordo com os dados de 2007 da UNWRA, há 722,000 refugiados palestinianos na Cisjordânia e cerca de 1 milhão em Gaza, o que perfaz 1,722,000 refugiados palestinianos nos Territórios Ocupados.
Resumindo, o número de refugiados ao cuidado da UNWRA na Faixa de Gaza inventado pelo Público parece ser completamente aleatório. Como sempre, este jornal compensa em creatividade o que lhe falta em seriedade.
Repito. NYC. Ha'aretz. Por favor vão lá.

O jornal diário português de referência VI

A cobertura do conflito em Gaza é perigosa para o jornal Público.

Página 12 da Edição Impressa de hoje:

"Israel propôs entretanto estabelecer um hospital de campanha numa zona na linha de fronteira que divide Gaza da Cisjordânia."

Não faço a menor ideia do que diz realmente o teor da proposta israelita. Só sei que vou continuar a ler a imprensa internacional para me informar sobre este conflito. Aconselho a todos o mesmo. Sugiro o melhor jornal do mundo, o NYT, e o melhor jornal israelita com vocação internacional, o Ha'aretz.

P.S: Gaza e a Cisjordânia não têm "linha de fronteira". Os dois territórios estão separados pelo território de Israel.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Ainda a patriarcada

Para mim, foi a adrenalina da plateia que inebria o artista-vedeta e o faz pensar-se um super-homem que levou ao disparate. Note-se como o cardeal estava colocado em palco: de pé, com a mão na anca, uma conceituada jornalista do mainstream ao lado a fazer-lhe perguntas (daquele tipo de perguntas que habitualmente faz), e uma plateia submissa de importantes frequentadores de um casino rindo às gargalhadas. Como não se achar o maior? Como não descambar para a graçola?
O cardeal ouviu a primeira gargalhada, não esperava, mas gostou. Ouviu a segunda, sentiu que tinha público. A partir daí foi gozar o seu imprevisto estatuto de artista de variedades. O cardeal parecia um actor de stand-up comedy, e o cenário o de um Levanta-te e Ri - ou, mais propriamente, de um Levanta-te e Reza. Isto explica o que terá levado o cardeal a descambar para a vulgaridade da forma como o fez, alienando muito do seu capital de simpatia enquanto figura tolerante e merecedora de confiança.
Mas há na substância das suas declarações um erro fundamental e recorrente quanto à forma de se ser cristão nos dias de hoje, e que também é comum aos sectores mais retrógrados do Islão aos quais o cardeal teve a insensibilidade de generalizar todo o praticante: o de se pensar que qualquer pessoa que professe uma religião defenderá integral e escrupolosamente tudo o que o clero define como doutrina, e que por essa razão se tornará um militante e um soldado ao serviço dos seus interesses, até às últimas consequências.
Felizmente, e mesmo apesar do carácter reaccionário dos "regiménes" que impropriamente foram chamados à colação, ser muçulmano não implica aquilo que o cardeal referiu. E ser católico também não implica pensar como o senhor cardeal queira que se pense.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Um experiente conselheiro matrimonial

(Legenda: o Papa com um "deles")

Acho que já toda a gente leu estas declarações desagradáveis.

Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam.”
Não sei se me choca mais o racismo transparente desta afirmação, ou o tom naïf-paternalista, ou o remate humorístico-tontinho.

Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai para o país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá
O país "deles"?! A Muçulmânia?! "O regime" das mulheres muçulmanas?! Qual regime?! O regime turco das mulheres muçulmanas?! Ou o sírio?! Ou o saudita?! Ou o marroquino?! Alguém explica a Sua Majestade Patriarcal que não estamos no século XVII e que os turcos não estão prestes a invadir Viena? Já agora, "jovem europeia de formação cristã": trata-se de um desabafo ecuménico!!

Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil
Curiosamente eu tenho ouvido avaliações bem mais positivas do diálogo entre a comunidade muçulmana em Portugal e outras confissões. Talvez não seja o caso com a ICAR. E, pela imprensa, fica-se com uma impressão de harmonia nas relações entre a comunidade muçulmana portuguesa e as autoridades da República. Mas Sua Santidade Patriarcal refere-se a quê afinal?

Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?”, inquiriu. “Se queremos dialogar com muçulmanos, temos de saber o bê-a-bá da sua compreensão da vida, da sua fé. Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar
Tem muita razão, Sua Senhoria Patriarcal! Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?! Ninguém! E querem dialogar com os muçulmanos! O que virá a seguir?! Quererem dialogar com os judeus sem terem lido a Torá?! Ou mesmo, imagine-se, dialogar com os católicos sem ler o Evangelho!! Se queremos dialogar com os muçulmanos, temos que perceber como é que aquela gente pensa, e isso tá tudo no Corão. Porque o muçulmano, no fundo, é uma espécie de encarnação orgânica do Corão. Por isso é que o diálogo entre a ICAR e os que não têm religião foi tão difícil ao longo dos séculos: os pobres diabos não tinham Livro.

"A primeira coisa é conhecer melhor, respeitar".
Sua Alteza Patriarcal tem razão. Evidentemente já leu o Corão, porque as suas afirmações demonstram um grande respeito pelo Islão e pelos muçulmanos.

sábado, janeiro 10, 2009

Ainda Gaza

Encontrei estes dois vídeos. O primeiro mostra soldados israelitas na Faixa de Gaza há poucos dias. O segundo, não sei o que mostra exactamente. O vídeo tem a data de Janeiro de 2007, pelo que não pode ser desta ofensiva. Parece-me ser claramente uma cena numa rua palestiniana. Onde e quando não sei. Mas sei o que se passa na cena.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A voz da razão

Como em Julho de 2006, a resposta militar israelita era inevitável, legítima e urgente. Como em Julho de 2006, o mundo começou por dar a Israel o benefício da dúvida. Como em Julho de 2006, a utilidade dos meios militares descresce rapidamente e à medida que se vai esgotando a lista de alvos legítimos, Israel vê-se a braços com um inimigo invisível e, por isso, imbatível.

E como em Julho de 2006, Israel perdeu a oportunidade de parar a ofensiva a tempo. Não há vantagem militar ou política que compense as consequências negativas da invasão terrestre de Gaza: aumento exponencial das baixas civis palestinianas, aumento das baixas militares israelitas e, sobretudo, a erosão da capacidade dissuasora israelita perante a evidência da incapacidade da Tsahal de pôr fim aos disparos de mísseis para dentro de Israel (esta última consequência com implicações políticas graves).

Chega. E David Grossman explica muito melhor do que eu porquê.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Saúde por um Fio... Condutor

Li recentemente o "Reformas da Saúde - O Fio Condutor" do nosso último Ministro da Saúde, António Correia de Campos.

Este livro apresenta uma visão necessariamente pessoal e apologética, mas também clara, directa e documentada sobre o que foi feito e o que ainda há a fazer na Saúde em Portugal.

É um livro que explica cabalmente, livre dos filtros da comunicação social, a necessidade e urgência das reformas iniciadas (muitas delas concluídas).
Na minha opinião, António Correia de Campos demonstrou ao longo dos seus mandatos ser um dos melhores Ministros da Saúde que Portugal teve, pela compreensão profunda e conhecimento sustentado deste sector, pela abertura a novas ideias e modelos de gestão, pela escolha das equipas de apoio e pela sua capacidade de acção e concretização.
Não tenho qualquer declaração de interesses a fazer e partilho convosco a minha opinião enquanto Cidadão que viu na acção deste Ministro acções concretas que promoveram a sustentabilidade e universalidade do nosso Serviço Nacional de Saúde.
Ver na acção global e no "fio condutor" da estratégia de Correia de Campos um ataque ao SNS é, na minha opinião, um exercício de uma visão parcelar de realidades regionais apoiado na insustentável ligeireza de alguma comunicação social muito fracamente documentada e preparada.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Santa Aliança

Qual é o tema que une os EUA (os que foram derrotados nas eleições em Novembro), a Rússia, a China, a Santa Sé e a Organização da Conferência Islâmica, qual é? Descubram aqui!

Adenda
Israel e os paises arabes: mais uma vez de lados diferentes da barricada...

terça-feira, novembro 25, 2008

Viagem a Paris - Le Panthéon IV

Mosaico de Cristo na ábside por cima da escultura da Convenção Republicana de 1792, que por sua fez aparece nesta foto flanqueada por dois monumentos: aos Generais da Revolução de um lado e aos Líderes da Restauração do outro. No meio, o Pêndulo a ilustrar a eternidade das regras da física.

Viagem a Paris - Le Panthéon III


Monumento aos restauradores da monarquia de 1815 (note-se as flores de lis) - há espaço para toda a gente no Panthéon. A célebre experiência do pêndulo de Foucault em primeiro plano (o original está no Musée des Arts et Métiers)

Viagem a Paris - Le Panthéon II

Monumento "À Glória dos Generais da Revolução Francesa"

Viagem a Paris - Le Panthéon

Escultura evocativa da Convenção Nacional de 1792, mãe da primeira Constituição Republicana francesa

domingo, novembro 16, 2008

Humanitas

Não sei se tiveram tod@s a oportunidade de ver isto. Muito obrigado à Fernanda Câncio e ao Jugular.

O melhor jornalismo do mundo VI

Os horrores do Congo. Capítulo XIII do Leviatã (1651) de Hobbes.

"Hereby it is manifest that during the time men live without a common power to keep them all in awe, they are in that condition which is called war; and such a war as is of every man against every man. For war consisteth not in battle only, or the act of fighting, but in a tract of time, wherein the will to contend by battle is sufficiently known: and therefore the notion of time is to be considered in the nature of war, as it is in the nature of weather. For as the nature of foul weather lieth not in a shower or two of rain, but in an inclination thereto of many days together: so the nature of war consisteth not in actual fighting, but in the known disposition thereto during all the time there is no assurance to the contrary. All other time is peace.
Whatsoever therefore is consequent to a time of war, where every man is enemy to every man, the same consequent to the time wherein men live without other security than what their own strength and their own invention shall furnish them withal. In such condition there is no place for industry, because the fruit thereof is uncertain: and consequently no culture of the earth; no navigation, nor use of the commodities that may be imported by sea; no commodious building; no instruments of moving and removing such things as require much force; no knowledge of the face of the earth; no account of time; no arts; no letters; no society; and which is worst of all, continual fear, and danger of violent death;
and the life of man, solitary, poor, nasty, brutish, and short."

sexta-feira, novembro 14, 2008

O bas-fond da internet

Eu sobre o Público já me queixei muitas vezes neste blog: sobre os erros históricos, as confusões nas traduções e, em geral, sobre a falta de qualidade de algum jornalismo que por lá se faz. Mas o que me deixa mesmo estupefacto são alguns dos comentários que são colocados na versão online do jornal.

Parece que algumas pessoas não conseguem resistir à oportunidade de destilar boçalidade, ódio e ignorânica publicamente - no conforto do lar e escudados pelo anonimato.

Vejam o anti-semitismo e a islamofobia gritantes dos comentários a este artigo. Ainda há dias li um comentário de um sujeito que dizia que os judeus não são flor que se cheire: "se fossem, não os tínhamos expulsado há 500 anos..."Alguns destes comentários demonstram que o anti-sionismo e o anti-semitismo não são sempre dissociáveis.

Enfim, bem sei que é um pouco naïf escrever um post a dizer "ó da guarda, ó da guarda, há gente racista e anti-semita online!" Mas também não me quero conformar e aceitar que é "normal".

quarta-feira, novembro 05, 2008

44

O povo americano viu nele o melhor de si, o mundo procurou nele o que de melhor a América tem para dar.
Hoje aconteceu no mundo uma coisa bonita.

terça-feira, novembro 04, 2008

No ar ao vivo


De volta ao ar para comentar o acto eleitoral da década.
Aqui na Boina e em liveblogging em Cercant na Maria per sa Cuina

domingo, novembro 02, 2008

Lição de decência para o Partido Comunista Português

Lembrei-me disto quando li a seguinte passagem dos Cahiers de Formation du Parti Communiste Français de 2005 (artigo sobre "Communisme"):

"Malheureusement, dans les pays dits du "socialisme réel", la dictature du prolétariat devint rapidement celle du seul Parti communiste, voire d'un homme ou d'une burocratie, la socialisation des moyens de production et d'échange se transforma en étatisation. Lors de la période stalinienne, une répressions de masse s'abatit sur la société soviétique: déportations, anéantissement par le travail et la famine de populations entières, tueries, exécutions sommaires après des procès truqués (...). La disparition de Staline mit un terme aux aspects les plus sanglants du régime. Mais jusqu'à l'arrivée de Gorbatchev à la tête de l'URSS, la démocratie "socialiste" continua d'être réduite à un simulacre et les libertés les plus élémentaires furent bafouées."

(citação retirada de Les Guerres de Mémoires - La France et son Histoire, Éditions La Découverte, Paris, 2008, p.124)

quinta-feira, outubro 30, 2008

O Economist apoia Obama

Será que os "liberais" da blogosfera portuguesa são capazes de seguir a bíblia do liberalismo?

sexta-feira, outubro 24, 2008

O melhor jornalismo do mundo V

It's official!

A religião, o mercado e a natureza


Hoje li uma coisa extraordinária. Mesmo engraçada.
Fez-me lembrar o debate sobre a guerra no Iraque. À medida que nos Estados Unidos a opinião pública se ia afastando do entusiasmo inicial, e comentadores e imprensa iam expondo o enredo de mentiras, exageros e manipulações que esteve na base da invasão, em Portugal José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira e outros não conseguiam fazer o mea culpa que se impunha. Aliás, era fuga para a frente, disparando acusações de anti-americanismo a torto e a direito. Também há a variante Durão Barroso, que é dizer que se foi vítima de uma campanha de desinformação dos serviços de intelligence, quando as decisões sobre a guerra e a paz de um político eleito devem precisamente ser informadas - mas não sobre-determinadas - pelos dados apresentados pelos serviços de informação. Senão para quê eleger gente.

Enfim, este devaneio serve para exemplificar a tendência de alguns comentadores - cegados por algum excesso de zelo ideológico (neste caso, de fidelidade transatlântica) - em manter a mesma linha independentemente da realidade. São os adeptos daquilo que Stephen Colbert chama truthiness: é uma verdade intuitiva, nossa, orgânica, que facilmente se liberta da pérfida tirania dos "factos". Enfim, uma espécie de religião.

Ora vamos lá ver o que César das Neves aparentemente disse sobre a crise financeira num encontro da Associação Cristã (!) de Empresários e Gestores de Empresas (ACEGE):

As crises “não podem ser uma coisa rara e estranha, até porque a ganância a estupidez são frequentes”. A crise é, na verdade, “normal e banal como os furacões”. Claro que a ganância e a estupidez são atributos da humanidade pecadora. Talvez se esta admitisse as suas fraquezas, visse a Luz, seguisse o Verbo e se dedicasse a fazer o Bem, as crises acabassem? Não! Esclarece (sort of) César das Neves: "A explicação canónica [que dizer da escolha desta palavra?!] para a crise é a ganância e a estupidez, mas não era preciso ganância a estupidez para a crise acontecer”.

Ficamos esclarecidos: a humanidade, escumalha gananciosa e estúpida, está impotente perante o fenómeno orgânico, natural, da crise. É uma espécie de milagre. Inevitável, imparável, inexplicável.
Perceberam?
Agora Alan Greenspan, que teve as rédeas deste milagre nas mãos. Pode-se dizer que foi o Papa do sistema financeiro num período importante de desregulação. Página 34 do Público de hoje:

" "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", afirmou o homem que esteve 18 anos ao comando da Fed. "Há 40 anos ou mais que tinha uma evidência muito clara de que o mercado livre funcionava muito bem", reconheceu Greenspan. Admitiu, depois, o grave erro em que incorreu quando se opôs à regulação do mercado de derivados. "Presumi, erradamente, que o interesse próprio das organizações, nomeadamente dos bancos, era suficiente para que eles protegessem os seus accionistas."
[Greenspan] reconheceu que deveria ter avançado com a regulação dos mercados onde se transaccionavam os chamados produtos tóxicos que estão na origem da actual crise - a mistura explosiva de hipotecas com títulos de dívida que eram depois vendidos a outros investidores. "

Em César das Neves encontram-se três tipos de fanatismo: o Catolicismo pré-Vaticano II obscurantista, homofóbico, cheio de ódio pela perfídia da humanidade pecadora e conspurcada pela carne; o liberalismo naturalista tipo Manchester dos 1830s; e, finalmente, o resultado do cruzamento dos dois - uma fé numa ordem natural das coisas, imutável, sã, imune em relação às variações do tempo e do espaço.
Nesta ordem das coisas, os destinos individuais, as pessoas, não contam nada.
Explica César das Neves, também no Público (desta feita online) "que a actual crise financeira internacional deveria afectar Portugal “com mais violência”, para estimular a economia.“Era importante ter uma coisinha um bocadinho mais violenta em Portugal para ver se a economia acorda, embora os custos sejam grandes”, salienta o economista. Para César das Neves, o problema da economia portuguesa dos últimos sete anos é [sic] a crise anterior nunca é muito forte, “pelo que não crescemos, não caímos, não demos em nada".

É preciso que a natureza continue com o seu trabalho purificador, lançando a crise sobre a cabeça dos portugueses, fustigando este país de pecadores.
Nos EUA e na Europa e em todo o mundo vai-se tentando combater esta crise que César das Neves quer conjurar, qual mensageiro de um deus irado.
E nos EUA, Greenspan discorda e acredita que podia ter alterado o rumo dos acontecimentos. Porquê? Acho que César das Neves diria que não se pode confiar em Greenspan até porque gente da laia dele confundiu a vinda do Messias com um mero desacato entre facções religiosas, com romanos à mistura...

quarta-feira, outubro 22, 2008

For all you Liberals out there

O Martin Wolf sempre foi dos colunistas mais razoáveis do FT. E agora põe o dedo na ferida:

"Yet, in current conditions, monetary policy will be insufficient. This is a Keynesian situation that requires Keynesian remedies. Budget deficits will end up at levels previously considered unimaginable. So be it."

A função intrínseca do combate sem tréguas por défices orçamentais baixos é a de criar uma margem de manobra para políticas fiscais contra-cíclicas em situações de crise. Estamos numa dessas situações. É verdade que o Pacto de Estabilidade do Euro impõe um tecto de 3% aos défices orçamentais dos Estados da Zona Euro. E é verdade também que não pode haver uma união monetária sem um alinhamento das políticas orçamentais (e do endividamento público): o Euro não sobreviveria se os membros da Zona Euro ignorassem completamente a letra, mas acima de tudo o espírito, do Pacto de Estabilidade.
(Enfim, na verdade a Zona Euro só ficaria em perigo se a Alemanha e/ou a França e/ou a Itália - ou talvez a Espanha - desrespeitassem totalmente os limites do Pacto de Estabilidade. Em termos da credibilidade do Euro, um país como Portugal dificilmente faz a diferença. Mas politicamente seria insustentável entrar em free riding, com toda a gente a apertar o cinto e depois uns tipos com défices orçamentais gigantescos.)
Mas agora o Euro não está em perigo e o fantasma da inflação foi substituído pelo espectro da deflação. E comparando com o Japão ou com os EUA, as contas públicas europeias estão um brinco.

Portanto, toca a abrir os cordões à bolsa. Keynes continua válido. Especialmente para limpar a economia dos escombros deixados por Milton Friedman e a supply-side economics.

sexta-feira, outubro 17, 2008

O candidato socialista?


No filme Bullworth, Warren Beatty faz o papel de um político democrata que renega os seus princípios ideológicos e começa a promover a sua carreira em troca de favores políticosaté que, farto da falsidade da vida que leva, tem um acesso de honestidade e começa partir a loiça toda. Há uma cena do filme em que, apropósito não sei bem do quê, grita bem alto «SOCIALISMO!» como se o termo estivesse preso na garganta por ser uma obscenidade, e como se dizê-lo causasse o alívio que normalmente provoca dizer um palavrão.
E o episódio Joe The Plumber parece demonstrar ser essa a estratégia de John McCain para ganhar a eleição: pintar Obama de socialista, o supremo anátema da política americana, pegando nas palavras do democrata, que disse ao canalizador que queria espalhar (distribuir?) a riqueza. Chamar alguém de socialista é coisa para garantidamente instilar no americano médio o terror vermelho.

Veja-se este texto. Repare-se na consistência do argumento apresentado: fulana tem uma empresa; há um cliente rico que lhe quer fazer uma encomenda; fulana ganha menos de 250.000 dólares, e por isso beneficia do corte fiscal de Obama; mas o cliente ganha mais do que isso e, como os seus impostos vão subir, não vai poder gastar dinheiro na encomenda que queria fazer; logo, fulana perde a encomenda; logo o plano de Obama é mau; logo temos de continuar a cortar nos impostos dos mais ricos. Tcharan!

Veja-se ainda o que anda a fazer o TechnoMetrica Institute of Policy and Politics. Esta instituição é apresentada como aquela cujas sondagens mais se aproximaram do resultado das eleições de 2004. A sua sondagem diária para este ano dá Obama "apenas" 3 pontos acima de McCain.
O TIPP fez esta sondagem, sobre o que os americanos pensam do socialismo, e como acham que os candidatos se posicionam perante as ideias socialistas.
Em 2000, John McCain ia à frente de George W. Bush nas primárias republicanas, e as sondagens davam-lhe vantagem também no estado da Carolina do Sul. Dias antes das eleições, a campanha de Bush fez uma sondagem onde faziam uma pergunta falsa: o que achariam os eleitores se John McCain tivesse uma filha negra fora do casamento. McCain tinha adoptado uma criança no Bangladesh. Os eleitores a quem foi feita a sondagem associaram uma coisa à outra. Bush ganhou a Carolina do Sul e corrida deu uma reviravolta. As voltas que as coisas dão. Ou muito me engano, ou Obam ainda vai ter água pelas barbas.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Meet Joe The Plumber




Joe The Plumber foi o herói inesperado do debate de ontem, mas parece que havia alguém já à espera para ouvir os seus comentários sobre o debate.
Joe The Plumber marca uma conferência de imprensa para a porta de sua casa e diz isto.
Joe The Plumber tem um discurso tão bem articulado que parece que leu aquilo em algum lado.
Joe The Plumber tem um muito conveniente receio de Obama.
A mim parece-me que, se não existisse, Joe The Plumber teria de ser inventado. Até me parece que Joe The Plumber é bom de mais para não ser inventado.

Nuances


Esteve melhor, fez um bom serviço, mas não chegou. Começou por atacar Obama na economia de forma eficaz e com alguma surpresa ficou por cima quando introduziu a personagem de Joe The Plumber - Obama explicou-se bem, mas é McCain quem fará os cabeçalhos das notícias com o assunto.

Até que Bob Schieffer (o melhor moderador de todos os debates) lhe deu a dica para falar dos "amigos terroristas" de Obama. McCain nada disse à primeira oportunidade, hesitou à segunda, e só quando o moderador, parecia ir mudar de assunto é que o interrompeu para falar no que toda a gente estava à espera.

Mc Cain terá percebido que, para onde quer que se virasse, a coisa só podia correr mal: se não falasse no assunto, saía como cobarde por não ter coragem de confrontar o adversário como prometeu fazer e toda a gente na sua campanha pedia; se falasse daria a Obama uma excelente oportunidade para se explicar, referir que quem os juntou foi um milionário republicano amigo de Reagan, e enterrar um assunto cada vez menos interessante para os eleitores. «O facto de o senador McCain se preocupar tanto com o assunto diz mais sobre a sua campanha do que da minha» é uma excelente forma de rematar a questão.

McCain teve os melhores soundbites, mas Obama é cada vez mais presidenciável, sereno, e confiável. McCain continua nervoso, temperamental e condescendente.

McCain pode ter ganho a debater, mas Obama é que saiu a ganhar do debate.

segunda-feira, outubro 06, 2008

O melhor jornalismo do mundo IV

Maureen Dowd. Vou sentir falta do sarcasmo certeiro quando Bush e a sua equipa de medíocres militantes ("the bushies", como Dowd lhes chama) forem substitudos por pessoas que sabem articular frases com sujeito e predicado.

Viva a República!


Com um dia de atraso, cá vai.
Parabéns República Portuguesa!
98 anos depois das jornadas de Outubro de 1910, o país já mudou muito e indiscutivelmente para melhor. Claro que as promessas de Outubro foram principalmente cumpridas por Abril. Outras permanecem por cumprir. Ainda assim, a República lançou as bases ideológicas e constitucionais de um Portugal laico, livre, moderno e socialmente justo.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Holy Cow!

O plano do governo dos Estados Unidos para salvar o sistema financeiro prevê a injecção de $ 700.000.000.000 (setecentos mil milhões de dólares) de dinheiro dos contribuintes. A revista Time fez as contas ao que se podia fazer com esse dinheiro:
- Dar a cada residente nos Estados Unidos $ 2.300 (€ 1.655,50)
- Pagar o IRS de todos os americanos que ganham menos de $ 500.000 por ano (€ 360.000)
- Financiar por completo a NASA e os Ministérios da Defesa, Finanças, Educação, Negócios Estrangeiros, Assuntos Internos e dos Veteranos de Guerra
- Abastecer de gasolina para todos os carros nos Estados Unidos durante 16 meses
- Comprar todas as equipas da primeira divisão de basquetebol, basebol e futebol americano, construir um novo estádio para cada uma e pagar a cada jogador 191 milhões de euros durante um ano
- Criar a 17.ª maior economia do mundo, equivalente à da Holanda

Se há muita gente no Congresso a engolir sapos ao aprovar o plano para evitar um mal maior, imagine-se que mal seria esse.

Second in Command

É hoje o debate vice-presidencial.
O que tem de fazer Joe Biden para ganhar? Abrir a boca e ser gracioso, para não ser acusado de ser um porco machista.
O que tem de fazer Sarah Palin para ganhar? Fazer um ar super queriducho de cada vez que não souber o que dizer. Mas talvez seja boa ideia arranjar um teleponto, muito pequenininho, para que ninguém dê pela fraude.


quarta-feira, outubro 01, 2008

Um balanço possível...

Não há duas sem três - uma obsessão de Vasco Graça Moura

Para além de voltar a invocar o pesadelo dantesco que emergirá do Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura volta a insistir (antecedentes aqui e aqui) na repetição de um erro sobre o segundo protocolo adicional, erro esse que Vital Moreira até já esclareceu mais de uma vez no seu blogue e na imprensa (aqui e aqui, por exemplo).


O protocolo limita-se a alterar, e apenas para quem o ratificar, os termos de entrada em vigor do Acordo. O que vem dizer é que os três que se querem já vincular não ficam obrigados a aguardar pelos restantes cinco (e não quatro, porque entretanto Timor também se tornou parte). Quem ainda não ratificou nem o Acordo, nem o protocolo adicional, continua sem estar vinculado.
Não volto aqui à questão de fundo, remetendo para o que aqui escrevi. Mas faço a mesma observação de então: Este post foi escrito usando as novas regras, as que ainda não entraram em vigor. Repararam nas diferenças? O mundo acabou?

Já agora sejam coerentes em todo o plágio...

Na sua sofreguidão em copiar a xenofobia dos outros, os meninos do PNR esqueceram um detalhe. Se a ovelhinha suiça é branquinha e corre com as ovelhas imigrantes negras, então a ovelhinha portuguesa devia também ser da cor daquelas que são pontapeadas pela ovelha helvética, uma vez que os Portugueses emigrados na Suíça estão entre os principais destinatários dos mimos do senhor Blocher.

terça-feira, setembro 30, 2008

Afinal a pirataria mais grave não é no e-mule

O regresso da pirataria é sempre simpático, traz um ar romântico aos mares tropicais. A história aventureira desta semana não fica atrás de qualquer relato do capitão Jack Sparrow: cargueiro carregado de tanques ucranianos destinados ao Quénia é tomado por navio pirata, que exige resgate de 20 milhões de dólares. Entretanto, vasos de guerra que por ali passavam (um americano, um russo e um por identificar) cercaram o navio para evitar que a carga caia em mãos erradas. No meio da coisa descobre-se que, aparentemente, os tanquezitos não se destinavam ao Quénia, mas parece que iriam fazer viagem em diante até ao Sudão, zona pacata e desprovida de tensão militar - seguramente serviriam para acções de policiamento e nada mais.

Enredo manhoso de série B, à espera de Chuck Norris ou Steven Segall? Nada disso, apenas o produto de muitos e bons anos de alimentação de conflitos em África por comerciantes de armas e mercenários, salpicado do desinteresse pela situação dramática na Somália.


Gilbert & Sullivan - "I am the Pirate King" from The Pirates of Penzance

Nunca é tarde

Na sequência da Lei da Memória Histórica aprovada o ano passado, o governo espanhol prepara-se para alterar a legislação sobre nacionalidade para permitir aos descendentes dos exilados da Guerra Civil aceder à cidadania espanhola. Uma outra iniciativa preve ainda a possibilidade, hoje quase meramente simbólica, dos combatentes nas Brigadas Internacionais poderem também aceder à nacionalidade do país pela liberdade do qual estiveram dispostos a dar as suas vidas.


E por cá, o condomínio privado na António Maria Cardoso continua lindo...

A modos que me lembrei desta melodia recentemente


Milú - A minha casinha

segunda-feira, setembro 29, 2008

Machado de Assis (1839-1908)


CÍRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Ouch....

How to be elected president - Kennedy 1960

O clássico.

How to be elected president - Carter 1976

Nem só de política externa e de economia se alimenta um debate...

How to be elected president - Clinton 1992


É, de facto, a economia....

Eleições em alemão (do Sul) - II


Um pouco mais a sul, o resultado eleitoral foi um pouco mais deprimente. Para quem pensava que a extrema-direita austríaca tinha chegado ao seu pico em 1999, com os 26% de Haider, os resultados das eleições de ontem são um significativo balde de água fria.

Os social-democratas do SPÖ, com liderança refrescada com Werner Faymann e com um ensaio eurocéptico soft, conseguiram manter o primeiro lugar conquistado surpreendentente há um ano e meio. Contudo, com 29%, registam o pior resultado da sua história. Os conservadores do ÖVP, com 25,6%, conseguem também o seu pior resultado de sempre, ganham distância para os social-democratas e preparam-se para uma provável nova liderança.

Perante este cenário de castigo à grande coligação, as vencedoras da noite são as formações de extrema-direita: em primeiro lugar, o FPÖ, o "clássico" partido de extrema-direita, que sobe 7 pontos e chega aos 18%; logo de seguida, a BZÖ, a cisão organizada pelo antigo patrão da FPÖ, Jörg Haider, que chegou aos 11%, subindo também 7 pontos percentuais e roubando o quarto lugar aos Verdes, que se ficaram pelos 9%. Dividida, marcada por questiúnculas pessoais herdadas do tempo da cisão no rescaldo dos governos de coligação com a ÖVP de Schüssel, e caracterizada pelo discurso xenófobo e eurocéptico do costume, a extrema-direita austríaca chega aos 29% e ultrapassa a sua melhor marca, a de 1999, em que ainda unificada com FPÖ chegou aos 26%.

Mas há mais. Em Viena, a maior circunscrição eleitoral e maior centro urbano, a FPÖ foi a segunda força mais votada. E entre os jovens, a votação na extrema-direita foi percentualmente mais elevada do que no cômputo geral. Dois resultados que não auguram nada de bom. (Mais resultados, por região, aqui)

E o que se segue? O SPÖ anunciou que vai começar a preparar Governo. Ou se coliga outra vez com os conservadores, reeditando a coligação que foi sancionada nas urnas, esperando uma nova liderança do ÖVP menos revanchista, capaz de engolir a derrota de 2006, ou apenas lhe resta tentar um governo minoritário: com FPÖ já disse que não quer conversa (apesar de formar maioria aritmética), com os Verdes não há votos suficientes. Uma alternativa "à la 1999" seria a formação de um tripartido de direita, com conservadores e os dois partidos extremistas. O líder da FPÖ, Heinz-Christian Strache, não só acha a ideia interessante como até acha que tem potencial para ser o seu líder, invocando precisamente o precedente de 1999 em que foi Schüssel, o líder do terceiro partido mais votado, a chegar a chanceler...

Tudo somado e dividido, o mais provável será mais uma grande coligação. Contudo, se alguma coisa fica claro depois deste domingo é o efeito potencialmente nefasto destas soluções de centrão para as democracias. Lições a aprender a norte, na Alemanha, e por outros locais, à beira-mar plantados...

domingo, setembro 28, 2008

Eleições em alemão (do Sul) - I


Na Baviera, confirmando os cenários mais dantescos, a CSU regista uma queda histórica, perdendo 17% e a maioria absoluta, aterrando nos 43%. (O sr. Stoiber está seguramente a rir...) Conforme as sondagens o indicavam, os beneficiários são os Liberais, que regressam ao parlamento de Munique com 8,1 % (subindo 5,5%) e particularmente os eleitores livres que chegam aos 10% (crescendo 6%). O SPD não só não capitaliza, como ainda perde 1% globalmente. Contudo, os 4,7% da Linke vêm provavelmente em grande parte do eleitorado do SPD, pelo que os social-democratas podem ter compensado ao centro o que perderam à esquerda. E ainda é cedo para apurar os efeitos da nova liderança do SPD nos resultados.


Mais interessantes estão as coisas mais a Sul, mas já lá vamos...

Paul Newman (1925-2008)

sexta-feira, setembro 26, 2008

Por falar em temíveis lobbys judaicos...

... sinistros sindicatos de voto e esforços de mobilização da base eleitoral num dos mais badalados e polémicos battleground states:



The Great Schlep from The Great Schlep on Vimeo.

O "lóbi judaico de direita nos EUA"

Se tudo dependesse deste temível lóbi teríamos tido Democratas no poder desde 1945...

quinta-feira, setembro 25, 2008

Gravíssimo

Infelizmente são Liberais...

... mas neste caso têm razão...



E juntem-se à campanha, por favor.

Those were the days...



Não sei o que me choca mais neste artigo aterrador: será o vocabulário marxista-leninista completamente anacrónico (e em particular a insistência risível no determinismo do materialismo histórico)? Será a incapacidade de aceitar a derrota material e intelectual do 'socialismo científico' como modelo alternativo de sociedade? Será o ódio figadal (e, aliás, clássico) à "ideologia social-democrata", elencada como uma das razões para o colapso da União Soviética, juntamente com "o abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo ... a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, [e] a traição de altos responsáveis do partido e do Estado"? Será a referência elogiosa a países como Cuba, China, Vietname, Laos e RDP da Coreia, pelo "seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista"? Ou será o facto de estas teses terem sido aprovadas por unanimidade no Comité Central do PC?

Não, a mim o que me choca mais é que o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética que teve lugar em 1956 demonstrou uma maior capacidade de auto-crítica em relação aos crimes do estalinismo do que o XVIII Congresso do Partido Comunista Português, que terá lugar este ano.

O PC já foi um partido que, para além do seu papel na política nacional, agregava forças intelectualmente interessantes e albergava elementos progressistas em várias áreas, como o da emancipação das mulheres, por exemplo.

Neste momento não passa de um partido político amargurado, vazio de conteúdo, desfazado da realidade, intelectualmente estéril e preso na nostalgia de um passado dourado que nunca existiu.
Um bocadinho como o movimento monárquico.

À consideração do Spin Doctor que há em nós


John McCain decidiu suspender a campanha, pedindo igualmente o adiamento do primeiro debate presidencial previsto para amanhã, até que o Congresso delibere sobre o plano da administração Bush para fazer face à crise económica. Como é que eleitor americano reagirá?

Hipótese A: McCain é um verdadeiro patriota que põe o país à frente da política, reconhecendo que o sofrimento do povo americano é mais importante do que a sua campanha eleitoral. Demonstra que está apostado em retirar a política de Washington [seja lá isso o que fôr, mas tem sido o seu mantra na últimas semanas] o que só lhe fica bem, porque os politicos são todos iguais, menos ele. Estou comovido, vou entregar-lhe o meu voto e pedir um beijinho à Sarah Palin.

Hipótese B: Are you kidding me? É só uma jogada, quem é que ele pensa que engana?

Hipótese C: Como ele próprio reconheceu que não pesca nada de economia, deve ser para ter explicações durante o fim-de-semana, antes de se atrapalhar em frente ao Obama. Está apresentado.

A acompanhar o dsenvolvimento nas próximas sondagens.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Até Jason Bourne está com medo

... e não é para menos.


Série "Tom, the token gay friend" III

"Daqui a pouco ele ainda vai querer que a gente vá com ele à gay parade..."


Série "Tom, the token gay friend" II

O quê?! Gay e ainda por cima sério?!

Série "Tom, the token gay friend" I

Lá ser gay está bem. Mas agora militâncias é que não.

A selecção de documentários de Sarah Palin

Ora Zuma na caneca!



Para que não restem dúvidas, Jacob Zuma veio para ficar. Conquistado o ANC e ilibado das acusações que lhe eram imputadas, a saída de cena de Mbeki coroa o percurso imparável do provável futuro presidente da África do Sul. Longe de uma saída graciosa, pacífica e institucionalmente impecável como a de Mandela, a segunda mudança de poder no pós-apartheid traz consigo um potencial de instabilidade que pode ser preocupante. Contudo, poderá também servir para clarificar as águas no amplo bloco político que o ANC representa e permitir o aparecimento de uma formação política alterantiva, com possibilidade de disputar eleições - o que poderá ser uma refrescante novidade para a jovem democracia sul-africana. Veremos.


(Já agora, desculpem o trocadilho, mas há muito que aguardava uma oportunidade para homenagear a Tonicha de forma totalmente despropositada.)

My president


A partir do 31 da Armada descobri isto: Bartlet aconselha Obama. Deixo o meu bocadinho favorito.


OBAMA The problem is we can’t appear angry. Bush called us the angry left. Did you see anyone in Denver who was angry?

BARTLET Well ... let me think. ...We went to war against the wrong country, Osama bin Laden just celebrated his seventh anniversary of not being caught either dead or alive, my family’s less safe than it was eight years ago, we’ve lost trillions of dollars, millions of jobs, thousands of lives and we lost an entire city due to bad weather. So, you know ... I’m a little angry.

OBAMA What would you do?
BARTLET GET ANGRIER! Call them liars, because that’s what they are. Sarah Palin didn’t say “thanks but no thanks” to the Bridge to Nowhere. She just said “Thanks.” You were raised by a single mother on food stamps — where does a guy with eight houses who was legacied into Annapolis get off calling you an elitist? And by the way, if you do nothing else, take that word back. Elite is a good word, it means well above average. I’d ask them what their problem is with excellence. While you’re at it, I want the word “patriot” back. McCain can say that the transcendent issue of our time is the spread of Islamic fanaticism or he can choose a running mate who doesn’t know the Bush doctrine from the Monroe Doctrine, but he can’t do both at the same time and call it patriotic. They have to lie — the truth isn’t their friend right now. Get angry. Mock them mercilessly; they’ve earned it. McCain decried agents of intolerance, then chose a running mate who had to ask if she was allowed to ban books from a public library. It’s not bad enough she thinks the planet Earth was created in six days 6,000 years ago complete with a man, a woman and a talking snake, she wants schools to teach the rest of our kids to deny geology, anthropology, archaeology and common sense too? It’s not bad enough she’s forcing her own daughter into a loveless marriage to a teenage hood, she wants the rest of us to guide our daughters in that direction too? It’s not enough that a woman shouldn’t have the right to choose, it should be the law of the land that she has to carry and deliver her rapist’s baby too? I don’t know whether or not Governor Palin has the tenacity of a pit bull, but I know for sure she’s got the qualifications of one. And you’re worried about seeming angry? You could eat their lunch, make them cry and tell their mamas about it and God himself would call it restrained. There are times when you are simply required to be impolite. There are times when condescension is called for!

segunda-feira, setembro 22, 2008

Não há pachorra.

O David começa a investir contra o Público e eu penso para comigo "bora lá dar uma oportunidade ao DN". Começa-se a ler a coisa, abre-se na página do JCN às segundas-feiras e parece que estamos a ler o boletim paroquial de S. Lucrécia de Algeriz. Esta semana parece que "Deve ser horrível ser Deus".
Deve é ser horrível ser o revisor do DN...
Alguém quer fundar um jornal?

sexta-feira, setembro 19, 2008

E eu a pensar que nesta legislatura não havia mais...

Se eu percebi bem a história, parece que vai um grande sururu na bancada parlamentar socialista a propósito dos projectos de lei possibilitando o casamento entre pessoas do mesmo sexo a ser apresentados pelos "Verdes" e pelo BE no dia 10 de Outubro.

As opiniões dividem-se. Uns querem que se vote contra os dois projectos e defendem a imposição de disciplina de voto nesse sentido ao grupo parlamentar. Outros querem liberdade de voto.

Parece-me que este debate no PS está a assumir contornos fracturantes.

Novidades do Sul da Alemanha

Da Alemanha, mais precisamente da Baviera, notícias menos simpáticas para os conservadores: a CSU pode estar à beira de ficar abaixo dos 50% (pela primeira vez desde 1970) e ainda não está excluída a hipótese de não conseguir renovar a maioria absoluta e ter de se coligar com outro partido (pela primeira vez desde 1962). Segundo a mesma sondagem, apenas 38% dos eleitores preferiria um governo maioritário da CSU.



E o SPD? Ainda pior. O SPD anda pelos 21%. O mais deprimente nem é o facto de isso representar uma subida de dois pontos em relação às ultimas eleições, mas sim o facto de continuar a perder votos para a esquerda (neste caso os Verdes, mais do que a Linke) e para o centro, onde a sensação da última sondagem é representada pela possibilidade de entrada no parlamento bávaro da coligação de grupos de cidadãos eleitores (Freie Wähler) que apresentam entre 7 e 8% nas sondagens. Para já, a estratégia de viragem ao centro não parece colher frutos...

quinta-feira, setembro 18, 2008

O jornal diário português de referência V

Eu vou parar de ler o Público de hoje, porque senão não paro de escrever posts.
Página 16. Título do artigo: "Tzipi Livni reclama vitória na eleição do Kadima, o partido no poder em Israel." Primeiro parágrafo:

"Sondagens feitas pelas estações de televisão israelitas davam ontem à noite a vitória nas eleições do Kadima à ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni, com resultados entre os 43 e os 47 por cento, contra 37-38 para o seu rival, o ministro da defesa, Shaul Mofaz."

Shaul Mofaz é Ministro dos Transportes desde Maio de 2006. Ehud Barak é Ministro da Defesa desde Junho de 2007. Sem palavras.


[O título deste mesmo artigo na versão online do Público de hoje é "Projecções dão vitória a Livni nas eleições do Kadima", portanto diferente do título da versão impressa. Não percebo porquê. Não excluo portanto que algum do conteúdo do artigo também seja diferente na versão impressa. Com muita sorte, só a versão online é que tem o erro.]

O jornal diário português de referência IV

Depois de isto, isto e isto, o Público volta a fazer das suas. Edição de hoje. Página 13 (segunda página da secção "Mundo", o verdadeiro tendão de Aquiles deste jornal). Título do artigo: "Novo ataque americano faz cinco mortos no Paquistão".

O artigo explica:

"No Afeganistão, a violência continua em crescendo. Ontem morreram quatro soldados estrangeiros, mas foram as mortes de civis provocadas nos últimos meses por ataques dos EUA e da NATO que motivaram uma visita do secretário de Estado americano. "Amplio as minhas condolências sinceras e desculpas pessoais sobre a recente perda de vidas inocentes como resultado de ataques da coligação", disse Robert Gates depois de um encontro com o Presidente afegão, Hamid Karzai."

Robert Gates é Secretário da Defesa. Condi Rice é Secretária de Estado. Um detalhe, dirão. Um lapso, talvez. Mas eles são tantos e tão frequentes...

Pontos nos is



Se a intenção é criticar o Partido Socialista por uma posição errada e contrária ao seu próprio ideário, nada tenho a apontar. Agora penso que o Daniel sabe que está ser injusto ao dirigir a crítica a quem dentro do Partido Socialista a não merece, a quem dentro do Partido Socialista e junto da sociedade civil tem vindo a acompanhar a questão e a bater-se por ela, com convicção e não apenas como um flirt ideológico para mostrar modernidade.


O cartaz e a iniciativa que ilustram o post são, aliás, exemplos de eventos de discussão da temática do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com académicos e activistas nacionais e estrangeiros e com representantes do movimento LGBT, precisamente com o intuito de alterar a lei e eliminar a discriminação. Ilustram ainda uma linha de orientação programática já por duas vezes sufragada pelo Congresso Nacional da JS e pelos seus dirigentes nacionais, quase sempre contra a vontade do próprio partido em manter o assunto adormecido até momento a definir.
Críticas ao PS? Força, todas merecidas. Agora ignorar e desconsiderar o que se tem feito de positivo para assegurar igualdade de direitos a todo é que me parece deselegante e manipulador.

Livni


Com 47 a 49 % dos votos, Tzipi Livni é a nova líder do Kadima. Sem manchas de corrupção que a enfraqueçam politicamente e determinada a chegar a um acordo que viabilize a co-existência de dois Estados, poderá ser que represente a mudança necessária para relançar o processo de paz.
Admito algum wishful thinking da minha parte, mas mesmo para isso é que haja algo de novo e isso, pelo menos, Livni consegue representar.

Dias melhores virão

Joan Baez - We shall overcome

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ao cuidado de João Miranda

Para quem acha que mais regulação é o novo socialismo, eis o que diz Joseph Stiglitz (perigoso redactor de planos quinquenais) sobre como melhorar a regulação e evitar o caminho que levou à crise. (toda a história aqui)

1. We need first to correct incentives for executives, reducing the scope for conflicts of interest and improving shareholder information about dilution in share value as a result of stock options. We should mitigate the incentives for excessive risk-taking and the short-term focus that has so long prevailed, for instance, by requiring bonuses to be paid on the basis of, say, five-year returns, rather than annual returns.

2. Secondly, we need to create a financial product safety commission, to make sure that products bought and sold by banks, pension funds, etc. are safe for "human consumption." Consenting adults should be given great freedom to do whatever they want, but that does not mean they should gamble with other people's money. Some may worry that this may stifle innovation. But that may be a good thing considering the kind of innovation we had -- attempting to subvert accounting and regulations. What we need is more innovation addressing the needs of ordinary Americans, so they can stay in their homes when economic conditions change.

3. We need to create a financial systems stability commission to take an overview of the entire financial system, recognizing the interrelations among the various parts, and to prevent the excessive systemic leveraging that we have just experienced.

4. We need to impose other regulations to improve the safety and soundness of our financial system, such as "speed bumps" to limit borrowing. Historically, rapid expansion of lending has been responsible for a large fraction of crises and this crisis is no exception.
5. We need better consumer protection laws, including laws that prevent predatory lending.

6. We need better competition laws. The financial institutions have been able to prey on consumers through credit cards partly because of the absence of competition. But even more importantly, we should not be in situations where a firm is "too big to fail." If it is that big, it should be broken up.


Claramente estamos a um passinho do kolkhoze...

Le meilleur des mondes possibles



... não, caro Henrique-Pangloss, decididamente não vivemos no melhor dos mundos possíveis. E o mundo acabou para muita gente em 1929, sim senhor. Em '29, em '33, em '39 e em muitos anos entre 1929 e 1945. E a implosão do capitalismo ajudou. E não foi pouco. Portanto, vamos a tentar construir um capitalismo sustentável? Vamos? Então vá.

Nunca pensei dizer isto...

...mas o Público tem um excelente artigo sobre Israel.

terça-feira, setembro 16, 2008

Silva Carvalho e os 175 anos do STJ

Aproveitando os 175 anos da instalação do Supremo Tribunal de Justiça, aproveito para deixar uma notazinha sobre o seu primeiro presidente, provavelmente o mais esquecido dos principais estadistas da fase inicial do liberalismo português, José da Silva Carvalho.
Da aura revolucionária de fundador do Sinédrio e membro da Junta Provisória de Supremo Governo do Reino depois da Revolução de 1820, a ministro da Fazenda e Justiça por diversas vezes (Regência de 1821, D. João VI, Regência de Isabel Maria, Governos do Devorismo), passando pela participação nas principais operações militares das guerras liberais (incluindo a expedição naval ao Algarve que, partindo do Porto, inverteu o curso da guerra civil), ao seu papel como Grão-Mestre do GOL, por largos anos (e depois da cisão, do Grande Oriente do Rito Escocês), a pouca exposição dada à figura de Silva Carvalho é, acima de tudo, difícil de explicar face ao seu influente papel no período crítico da consolidação do liberalismo entre nós.

Longe de estar a defender que o seu legado seja consensual ou que mereça particular homenagem pública associada ao dia de hoje, apenas realço a necessidade de a historiografia portuguesa continuar a apostar ainda mais na tarefa de construção de estudos biográficos dos actores decisivos da história contemporânea.

Quizz

4 pistas:

Um avolumar de tensão no governo.
Um chefe de executivo contestado.
Uma demissão que fragiliza a coesão governativa.
Não é a Ucrânia.


Resposta aqui.

Só não vê quem não quer

Isilda Pegado veio-nos recordar hoje no Público aquilo que parece escapar às evidências dos Portugueses: o claro nexo causal entre assaltos a bombas de gasolina e o número de divórcios. Bem-hajam estes faróis da sociedade. Fica um excerto:

A destruição sistemática da família e do seu papel constitui mais um factor para a insegurança e criminalidade que vivenciamos.

[...]

Ora, lei como a do divórcio (recentemente vetada) são o sinal político dado à sociedade da precariedade das relações da família (casamento) e do desprezo pelo seu papel de interesse público.

[...]

Persisitir numa política que elege a irresponsabilidade, a precariedade e a insegurança na família é negar a realidade, esquecer o cidadão comum e fomentar franjas de delinquência.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Onde andas?


Consta que o da imagem anda mais enérgico que o original...

Fingers crossed

Não estou lá muito optimista, mas...
Benefício da dúvida, pelo menos.

Um cheirinho de Weimar


A esquecida turbulência eleitoral no Estado do Hesse promete regressar em Outubro e dar uma primeira dor de cabeça à provável liderança bicéfala do SPD (Steinmeyer e Müntefering). Quando se mostra desejoso de voltar ao centro, eis que o SPD se depara com a possibilidade de uma coligação com os Verdes, tolerada pelo Partido da Esquerda (Die Linke). Ainda pode tudo naufragar, perante a necessidade de conferências partidárias de homologação das decisões e negociações quer da coligação, quer dos termos em que o executivo minoritário seria "tolerado" pela Linke, mas que a liderança nacional não vai ter dias felizes tão cedo disso podemos ficar certos...



O endereço postal de um indivíduo por vezes explica-se assim

José Saramago iniciou um blog associado ao site da sua Fundação (que aproveito para juntar aos links). Para além de uma notícia no site da Agência Lusa, quantos órgãos de comunicação social o noticiaram até agora? Que eu tenha dado conta, só o El País...

Ó Henrique! Estás-te a meter num 31...

Já sei que gostas do McCain, mas chega de defender a Palin. Ela acredita que o mundo foi feito em seis dias. E isso é ridículo. Até o Vacas sabe que essa historieta é uma metáfora. Vá, juizínho e menos entusiasmo forçado, senão, um dia, quando o McCain tiver caído da tripeça e a Palin decidir bombardear um país "cause they are, like, such atheists and communists and stuff", vais-te arrepender. Conselho de amigo.

O que me vai faltar mais depois de dia 4 de Novembro...

...são os momentos de comédia associados às eleições americanas. Mas não faz mal. Talvez aconteça como nos últimos oito anos, em que depois das noites eleitorais eu continuei com a impressão de que estava perante uma espécie de piada de mau gosto sem fim. Literalmente. Sem punch line.

(As minhas desculpas pela publicidade a produtos de beleza que precede o vídeo...)

domingo, setembro 14, 2008

Sarah Palin: "We will not repeat a Cold War"

In fact, this time we're skipping a Cold War altogether and moving directly to the hot version.
Tirem-lhe o microfone da mão, por favor, senão antes de acabar a campanha eleitoral americana já os russos chegaram aos Pirinéus.

sexta-feira, setembro 12, 2008

O melhor jornalismo do mundo III

Mais uma vez, o NYT a dar cartas. Impressionante este artigo sobre Jenin. Impressionante também a capacidade das pessoas em Israel/Palestina acreditarem na paz, nem que seja à escala local, apesar de Ocupação, terrorismo e ódios viscerais.

A passagem mais interessante parece ser esta, de um líder de uma estrutura do poder local israelita:

“There are two kinds of peace,” Mr. Atar said one recent afternoon in his office with Mr. Salem at his side. “There is the one on a piece of paper that doesn’t stand up to any test and there is the one built from the bottom up. That is the one we are hoping to build. It is increasingly clear that if Israeli Jews cannot figure out how to have good relations with Israeli Arabs, there won’t be peace beyond the borders, either. We have a choice in Israel of making peace or living in a bunker.”

O que é mais triste é que os pontos de contacto entre israelitas e palestinianos, isto é, os alicerces dessa paz 'bottom up' começaram a escassear depois da Primeira Intifada, para desaparecerem quase completamente depois da Segunda. Ironicamente, entre 1967 e o fim dos anos 80, a Palestina ocupada assistiu a um boom económico, oleado pelo consumo israelita e pelos salários ganhos em Israel. A Palestina tinha uma classe média próspera, um nível de educação formal invejável na região, mulheres emancipadas, um debate político e uma imprensa pujantes etc. Também ironicamente, a Ocupação e a tutela israelita impediram que se instalasse no poder uma daquelas ditaduras autoritárias que dominam na região e que eternizam a mediocridade no Mundo Árabe.

Mas o que a Primeira Intifada demonstrou é que não há prosperidade que compense a falta de liberdade, e a incapacidade de decidir o próprio destino. Era uma prosperidade constantemente relativizada pelos rituais administrativos e repressivos da Ocupação. E o rebentar da Primeira Intifada é uma lição muito útil: ter um estômago cheio, ter um salário e saber ler e escrever não chega. É preciso ser livre.

O que é triste é que olhando à volta na região, para sítios onde soldados israelitas nunca puseram os pés, a liberdade não é propriamente um dado adquirido. Quando Arafat voltou à Palestina no contexto do processo de Oslo, instaurou uma ditadurazinha paternalista e corrupta, e mostrou que o relaxamento da Ocupação não restaurava automática e miraculosamente um utópico passado de liberdade e felicidade na Palestina.

Mas isso na verdade não diz respeito a Israel. Cabe aos palestinianos escolherem o seu próprio destino, mesmo se isso incluir enfiar o mesmo barrete que os vizinhos egípcios ou jordanos. E talvez um dia, quando os israelitas retirarem os colonatos e houver fronteiras claras entre estes dois povos que têm que ser separados de uma vez por todas, talvez um dia, quando as feridas tiverem começado a sarar, os israelitas possam a voltar a ir fazer as compras de fim-de-semana à Palestina (parece que o houmous de Tulkarm é particularmente delicioso) e os palestinianos possam vir ganhar a vida em Israel.

Anseio por ler um artigo do NYT sobre este novo mundo.

quarta-feira, setembro 10, 2008

segunda-feira, setembro 08, 2008

Restabelecendo a verdade

Aparentemente esta foto é falsa. Mea culpa e muitas desculpas. Muito obrigado ao nosso leitor Miguel Lopes por ter chamado a atenção para este artigo, e por ter estragado a brincadeira a toda a gente. Isto é claramente um daqueles exemplos em que não se devia deixar a "verdade" interferir com a folgança.

The good news: agora já podemos questionar o patriotismo da Sarah Palin!

Reunião informal de MNEs europeus em Avignon (5/6 Setembro)

Digam lá que o projecto europeu não produz imagens bonitas.

O melhor jornalismo do mundo II

Mais excelência no jornalismo: impressionante este artigo do New York Times sobre um incidente em que aparentemente dezenas de civis foram mortos pela força aérea americana. Independentemente do debate sobre a exactidão do relatório das Nações Unidas e dos testemunhos dos aldeãos afegãos, continua a ser absolutamente incompreensível o uso de meios aéreos em aglomerados habitacionais por parte das forças americanas e da NATO (das missões Enduring Freedom e ISAF) no Afeganistão.

Recentemente, após uma série de incidentes parecidos, oficiais americanos e da NATO reduziram drasticamente o uso de meios aéreos e o resultado foi uma queda das vítimas civis. O problema é que com a rotação de oficiais do teatro de guerra afegão, aparentemente desaparece a "memória de doutrina" que devia ser acumulada com o passar do tempo. Mesmo se deixássemos de lado o respeito pelo Direito Internacional e considerações éticas básicas, a aplicação (de utilidade sempre limitada) de uma pura lógica militar devia chegar para se pôr fim a este tipo de acções: bem sei que é do mais banal senso comum dizer isto, mas num caso clássico de contra-insurgência em que, mais decisivo do que destruir militarmente o inimigo, importa isolá-lo nas comunidades que o sustentam, cada erro destes representa uma vitória estrondosa para os Taliban.

É verdade que o novo manual americano de contra-insurgência elaborado pelo General Petraeus (que se baseia nas lições do Iraque) já exprime esta preocupação de mudar o ênfase das acções militares da destruição material do inimigo para a criação de espaços seguros para a população civil onde reconstrução económica e estabilidade política permitam a redução da presença militar estrangeira.

O que eu não percebo é o tempo que leva esta gente a aplicar lições - que não são novas.

Parece que mesmo depois da Argélia, da Malásia, da Palestina, do Iraque e de outros exemplos de confrontos entre forças convencionais por um lado e forças irregulares mergulhadas na população civil por outro, de cada vez se tem que reaprender as mesmas lições...


Adenda

Últimos desenvolvimentos.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O melhor jornal do mundo

Um episódio da vida no Iraque. A importância de um aperto de mão em público. Um retrato de relações humanas a reflectir a complexidade do país. A importância da informalidade, dos rituais (masculinos) e das armas. Enfim, uma reportagem que, mais do que descrever um momento na vida política iraquiana, é um verdadeiro exercício de jornalismo antropológico.

New York Times.

Sarah Palin: Pelo menos não podem acusá-la de falta de patriotismo


terça-feira, setembro 02, 2008

Acho que vale a pena ler na íntegra...

... as conclusões do Conselho Europeu extraordinário que teve lugar ontem em Bruxelas (sobre a guerra entre a Geórgia e a Rússia). Em três palavras: tough on Russia.