quinta-feira, outubro 30, 2008
O Economist apoia Obama
Será que os "liberais" da blogosfera portuguesa são capazes de seguir a bíblia do liberalismo?
sexta-feira, outubro 24, 2008
A religião, o mercado e a natureza

Hoje li uma coisa extraordinária. Mesmo engraçada.
Fez-me lembrar o debate sobre a guerra no Iraque. À medida que nos Estados Unidos a opinião pública se ia afastando do entusiasmo inicial, e comentadores e imprensa iam expondo o enredo de mentiras, exageros e manipulações que esteve na base da invasão, em Portugal José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira e outros não conseguiam fazer o mea culpa que se impunha. Aliás, era fuga para a frente, disparando acusações de anti-americanismo a torto e a direito. Também há a variante Durão Barroso, que é dizer que se foi vítima de uma campanha de desinformação dos serviços de intelligence, quando as decisões sobre a guerra e a paz de um político eleito devem precisamente ser informadas - mas não sobre-determinadas - pelos dados apresentados pelos serviços de informação. Senão para quê eleger gente.
Enfim, este devaneio serve para exemplificar a tendência de alguns comentadores - cegados por algum excesso de zelo ideológico (neste caso, de fidelidade transatlântica) - em manter a mesma linha independentemente da realidade. São os adeptos daquilo que Stephen Colbert chama truthiness: é uma verdade intuitiva, nossa, orgânica, que facilmente se liberta da pérfida tirania dos "factos". Enfim, uma espécie de religião.
Ora vamos lá ver o que César das Neves aparentemente disse sobre a crise financeira num encontro da Associação Cristã (!) de Empresários e Gestores de Empresas (ACEGE):
As crises “não podem ser uma coisa rara e estranha, até porque a ganância a estupidez são frequentes”. A crise é, na verdade, “normal e banal como os furacões”. Claro que a ganância e a estupidez são atributos da humanidade pecadora. Talvez se esta admitisse as suas fraquezas, visse a Luz, seguisse o Verbo e se dedicasse a fazer o Bem, as crises acabassem? Não! Esclarece (sort of) César das Neves: "A explicação canónica [que dizer da escolha desta palavra?!] para a crise é a ganância e a estupidez, mas não era preciso ganância a estupidez para a crise acontecer”.
Ficamos esclarecidos: a humanidade, escumalha gananciosa e estúpida, está impotente perante o fenómeno orgânico, natural, da crise. É uma espécie de milagre. Inevitável, imparável, inexplicável.
Perceberam?
Agora Alan Greenspan, que teve as rédeas deste milagre nas mãos. Pode-se dizer que foi o Papa do sistema financeiro num período importante de desregulação. Página 34 do Público de hoje:
" "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", afirmou o homem que esteve 18 anos ao comando da Fed. "Há 40 anos ou mais que tinha uma evidência muito clara de que o mercado livre funcionava muito bem", reconheceu Greenspan. Admitiu, depois, o grave erro em que incorreu quando se opôs à regulação do mercado de derivados. "Presumi, erradamente, que o interesse próprio das organizações, nomeadamente dos bancos, era suficiente para que eles protegessem os seus accionistas."
[Greenspan] reconheceu que deveria ter avançado com a regulação dos mercados onde se transaccionavam os chamados produtos tóxicos que estão na origem da actual crise - a mistura explosiva de hipotecas com títulos de dívida que eram depois vendidos a outros investidores. "
Em César das Neves encontram-se três tipos de fanatismo: o Catolicismo pré-Vaticano II obscurantista, homofóbico, cheio de ódio pela perfídia da humanidade pecadora e conspurcada pela carne; o liberalismo naturalista tipo Manchester dos 1830s; e, finalmente, o resultado do cruzamento dos dois - uma fé numa ordem natural das coisas, imutável, sã, imune em relação às variações do tempo e do espaço.
Nesta ordem das coisas, os destinos individuais, as pessoas, não contam nada.
Explica César das Neves, também no Público (desta feita online) "que a actual crise financeira internacional deveria afectar Portugal “com mais violência”, para estimular a economia.“Era importante ter uma coisinha um bocadinho mais violenta em Portugal para ver se a economia acorda, embora os custos sejam grandes”, salienta o economista. Para César das Neves, o problema da economia portuguesa dos últimos sete anos é [sic] a crise anterior nunca é muito forte, “pelo que não crescemos, não caímos, não demos em nada".
É preciso que a natureza continue com o seu trabalho purificador, lançando a crise sobre a cabeça dos portugueses, fustigando este país de pecadores.
Nos EUA e na Europa e em todo o mundo vai-se tentando combater esta crise que César das Neves quer conjurar, qual mensageiro de um deus irado.
E nos EUA, Greenspan discorda e acredita que podia ter alterado o rumo dos acontecimentos. Porquê? Acho que César das Neves diria que não se pode confiar em Greenspan até porque gente da laia dele confundiu a vinda do Messias com um mero desacato entre facções religiosas, com romanos à mistura...
Enfim, este devaneio serve para exemplificar a tendência de alguns comentadores - cegados por algum excesso de zelo ideológico (neste caso, de fidelidade transatlântica) - em manter a mesma linha independentemente da realidade. São os adeptos daquilo que Stephen Colbert chama truthiness: é uma verdade intuitiva, nossa, orgânica, que facilmente se liberta da pérfida tirania dos "factos". Enfim, uma espécie de religião.
Ora vamos lá ver o que César das Neves aparentemente disse sobre a crise financeira num encontro da Associação Cristã (!) de Empresários e Gestores de Empresas (ACEGE):
As crises “não podem ser uma coisa rara e estranha, até porque a ganância a estupidez são frequentes”. A crise é, na verdade, “normal e banal como os furacões”. Claro que a ganância e a estupidez são atributos da humanidade pecadora. Talvez se esta admitisse as suas fraquezas, visse a Luz, seguisse o Verbo e se dedicasse a fazer o Bem, as crises acabassem? Não! Esclarece (sort of) César das Neves: "A explicação canónica [que dizer da escolha desta palavra?!] para a crise é a ganância e a estupidez, mas não era preciso ganância a estupidez para a crise acontecer”.
Ficamos esclarecidos: a humanidade, escumalha gananciosa e estúpida, está impotente perante o fenómeno orgânico, natural, da crise. É uma espécie de milagre. Inevitável, imparável, inexplicável.
Perceberam?
Agora Alan Greenspan, que teve as rédeas deste milagre nas mãos. Pode-se dizer que foi o Papa do sistema financeiro num período importante de desregulação. Página 34 do Público de hoje:
" "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", afirmou o homem que esteve 18 anos ao comando da Fed. "Há 40 anos ou mais que tinha uma evidência muito clara de que o mercado livre funcionava muito bem", reconheceu Greenspan. Admitiu, depois, o grave erro em que incorreu quando se opôs à regulação do mercado de derivados. "Presumi, erradamente, que o interesse próprio das organizações, nomeadamente dos bancos, era suficiente para que eles protegessem os seus accionistas."
[Greenspan] reconheceu que deveria ter avançado com a regulação dos mercados onde se transaccionavam os chamados produtos tóxicos que estão na origem da actual crise - a mistura explosiva de hipotecas com títulos de dívida que eram depois vendidos a outros investidores. "
Em César das Neves encontram-se três tipos de fanatismo: o Catolicismo pré-Vaticano II obscurantista, homofóbico, cheio de ódio pela perfídia da humanidade pecadora e conspurcada pela carne; o liberalismo naturalista tipo Manchester dos 1830s; e, finalmente, o resultado do cruzamento dos dois - uma fé numa ordem natural das coisas, imutável, sã, imune em relação às variações do tempo e do espaço.
Nesta ordem das coisas, os destinos individuais, as pessoas, não contam nada.
Explica César das Neves, também no Público (desta feita online) "que a actual crise financeira internacional deveria afectar Portugal “com mais violência”, para estimular a economia.“Era importante ter uma coisinha um bocadinho mais violenta em Portugal para ver se a economia acorda, embora os custos sejam grandes”, salienta o economista. Para César das Neves, o problema da economia portuguesa dos últimos sete anos é [sic] a crise anterior nunca é muito forte, “pelo que não crescemos, não caímos, não demos em nada".
É preciso que a natureza continue com o seu trabalho purificador, lançando a crise sobre a cabeça dos portugueses, fustigando este país de pecadores.
Nos EUA e na Europa e em todo o mundo vai-se tentando combater esta crise que César das Neves quer conjurar, qual mensageiro de um deus irado.
E nos EUA, Greenspan discorda e acredita que podia ter alterado o rumo dos acontecimentos. Porquê? Acho que César das Neves diria que não se pode confiar em Greenspan até porque gente da laia dele confundiu a vinda do Messias com um mero desacato entre facções religiosas, com romanos à mistura...
quinta-feira, outubro 23, 2008
quarta-feira, outubro 22, 2008
For all you Liberals out there
O Martin Wolf sempre foi dos colunistas mais razoáveis do FT. E agora põe o dedo na ferida:"Yet, in current conditions, monetary policy will be insufficient. This is a Keynesian situation that requires Keynesian remedies. Budget deficits will end up at levels previously considered unimaginable. So be it."
A função intrínseca do combate sem tréguas por défices orçamentais baixos é a de criar uma margem de manobra para políticas fiscais contra-cíclicas em situações de crise. Estamos numa dessas situações. É verdade que o Pacto de Estabilidade do Euro impõe um tecto de 3% aos défices orçamentais dos Estados da Zona Euro. E é verdade também que não pode haver uma união monetária sem um alinhamento das políticas orçamentais (e do endividamento público): o Euro não sobreviveria se os membros da Zona Euro ignorassem completamente a letra, mas acima de tudo o espírito, do Pacto de Estabilidade.
(Enfim, na verdade a Zona Euro só ficaria em perigo se a Alemanha e/ou a França e/ou a Itália - ou talvez a Espanha - desrespeitassem totalmente os limites do Pacto de Estabilidade. Em termos da credibilidade do Euro, um país como Portugal dificilmente faz a diferença. Mas politicamente seria insustentável entrar em free riding, com toda a gente a apertar o cinto e depois uns tipos com défices orçamentais gigantescos.)
Mas agora o Euro não está em perigo e o fantasma da inflação foi substituído pelo espectro da deflação. E comparando com o Japão ou com os EUA, as contas públicas europeias estão um brinco.
Portanto, toca a abrir os cordões à bolsa. Keynes continua válido. Especialmente para limpar a economia dos escombros deixados por Milton Friedman e a supply-side economics.
(Enfim, na verdade a Zona Euro só ficaria em perigo se a Alemanha e/ou a França e/ou a Itália - ou talvez a Espanha - desrespeitassem totalmente os limites do Pacto de Estabilidade. Em termos da credibilidade do Euro, um país como Portugal dificilmente faz a diferença. Mas politicamente seria insustentável entrar em free riding, com toda a gente a apertar o cinto e depois uns tipos com défices orçamentais gigantescos.)
Mas agora o Euro não está em perigo e o fantasma da inflação foi substituído pelo espectro da deflação. E comparando com o Japão ou com os EUA, as contas públicas europeias estão um brinco.
Portanto, toca a abrir os cordões à bolsa. Keynes continua válido. Especialmente para limpar a economia dos escombros deixados por Milton Friedman e a supply-side economics.
sexta-feira, outubro 17, 2008
O candidato socialista?

No filme Bullworth, Warren Beatty faz o papel de um político democrata que renega os seus princípios ideológicos e começa a promover a sua carreira em troca de favores políticosaté que, farto da falsidade da vida que leva, tem um acesso de honestidade e começa partir a loiça toda. Há uma cena do filme em que, apropósito não sei bem do quê, grita bem alto «SOCIALISMO!» como se o termo estivesse preso na garganta por ser uma obscenidade, e como se dizê-lo causasse o alívio que normalmente provoca dizer um palavrão.
E o episódio Joe The Plumber parece demonstrar ser essa a estratégia de John McCain para ganhar a eleição: pintar Obama de socialista, o supremo anátema da política americana, pegando nas palavras do democrata, que disse ao canalizador que queria espalhar (distribuir?) a riqueza. Chamar alguém de socialista é coisa para garantidamente instilar no americano médio o terror vermelho.
Veja-se este texto. Repare-se na consistência do argumento apresentado: fulana tem uma empresa; há um cliente rico que lhe quer fazer uma encomenda; fulana ganha menos de 250.000 dólares, e por isso beneficia do corte fiscal de Obama; mas o cliente ganha mais do que isso e, como os seus impostos vão subir, não vai poder gastar dinheiro na encomenda que queria fazer; logo, fulana perde a encomenda; logo o plano de Obama é mau; logo temos de continuar a cortar nos impostos dos mais ricos. Tcharan!
Veja-se ainda o que anda a fazer o TechnoMetrica Institute of Policy and Politics. Esta instituição é apresentada como aquela cujas sondagens mais se aproximaram do resultado das eleições de 2004. A sua sondagem diária para este ano dá Obama "apenas" 3 pontos acima de McCain.
O TIPP fez esta sondagem, sobre o que os americanos pensam do socialismo, e como acham que os candidatos se posicionam perante as ideias socialistas.
Em 2000, John McCain ia à frente de George W. Bush nas primárias republicanas, e as sondagens davam-lhe vantagem também no estado da Carolina do Sul. Dias antes das eleições, a campanha de Bush fez uma sondagem onde faziam uma pergunta falsa: o que achariam os eleitores se John McCain tivesse uma filha negra fora do casamento. McCain tinha adoptado uma criança no Bangladesh. Os eleitores a quem foi feita a sondagem associaram uma coisa à outra. Bush ganhou a Carolina do Sul e corrida deu uma reviravolta. As voltas que as coisas dão. Ou muito me engano, ou Obam ainda vai ter água pelas barbas.
quinta-feira, outubro 16, 2008
Meet Joe The Plumber
Joe The Plumber foi o herói inesperado do debate de ontem, mas parece que havia alguém já à espera para ouvir os seus comentários sobre o debate.
Joe The Plumber marca uma conferência de imprensa para a porta de sua casa e diz isto.
Joe The Plumber tem um discurso tão bem articulado que parece que leu aquilo em algum lado.
Joe The Plumber tem um muito conveniente receio de Obama.
A mim parece-me que, se não existisse, Joe The Plumber teria de ser inventado. Até me parece que Joe The Plumber é bom de mais para não ser inventado.
Joe The Plumber marca uma conferência de imprensa para a porta de sua casa e diz isto.
Joe The Plumber tem um discurso tão bem articulado que parece que leu aquilo em algum lado.
Joe The Plumber tem um muito conveniente receio de Obama.
A mim parece-me que, se não existisse, Joe The Plumber teria de ser inventado. Até me parece que Joe The Plumber é bom de mais para não ser inventado.
Nuances

Esteve melhor, fez um bom serviço, mas não chegou. Começou por atacar Obama na economia de forma eficaz e com alguma surpresa ficou por cima quando introduziu a personagem de Joe The Plumber - Obama explicou-se bem, mas é McCain quem fará os cabeçalhos das notícias com o assunto.
Até que Bob Schieffer (o melhor moderador de todos os debates) lhe deu a dica para falar dos "amigos terroristas" de Obama. McCain nada disse à primeira oportunidade, hesitou à segunda, e só quando o moderador, parecia ir mudar de assunto é que o interrompeu para falar no que toda a gente estava à espera.
Mc Cain terá percebido que, para onde quer que se virasse, a coisa só podia correr mal: se não falasse no assunto, saía como cobarde por não ter coragem de confrontar o adversário como prometeu fazer e toda a gente na sua campanha pedia; se falasse daria a Obama uma excelente oportunidade para se explicar, referir que quem os juntou foi um milionário republicano amigo de Reagan, e enterrar um assunto cada vez menos interessante para os eleitores. «O facto de o senador McCain se preocupar tanto com o assunto diz mais sobre a sua campanha do que da minha» é uma excelente forma de rematar a questão.
McCain teve os melhores soundbites, mas Obama é cada vez mais presidenciável, sereno, e confiável. McCain continua nervoso, temperamental e condescendente.
McCain pode ter ganho a debater, mas Obama é que saiu a ganhar do debate.
segunda-feira, outubro 06, 2008
O melhor jornalismo do mundo IV
Maureen Dowd. Vou sentir falta do sarcasmo certeiro quando Bush e a sua equipa de medíocres militantes ("the bushies", como Dowd lhes chama) forem substitudos por pessoas que sabem articular frases com sujeito e predicado.
Viva a República!

Parabéns República Portuguesa!
98 anos depois das jornadas de Outubro de 1910, o país já mudou muito e indiscutivelmente para melhor. Claro que as promessas de Outubro foram principalmente cumpridas por Abril. Outras permanecem por cumprir. Ainda assim, a República lançou as bases ideológicas e constitucionais de um Portugal laico, livre, moderno e socialmente justo.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Holy Cow!
O plano do governo dos Estados Unidos para salvar o sistema financeiro prevê a injecção de $ 700.000.000.000 (setecentos mil milhões de dólares) de dinheiro dos contribuintes. A revista Time fez as contas ao que se podia fazer com esse dinheiro:
- Dar a cada residente nos Estados Unidos $ 2.300 (€ 1.655,50)
- Pagar o IRS de todos os americanos que ganham menos de $ 500.000 por ano (€ 360.000)
- Financiar por completo a NASA e os Ministérios da Defesa, Finanças, Educação, Negócios Estrangeiros, Assuntos Internos e dos Veteranos de Guerra
- Abastecer de gasolina para todos os carros nos Estados Unidos durante 16 meses
- Comprar todas as equipas da primeira divisão de basquetebol, basebol e futebol americano, construir um novo estádio para cada uma e pagar a cada jogador 191 milhões de euros durante um ano
- Criar a 17.ª maior economia do mundo, equivalente à da Holanda
Se há muita gente no Congresso a engolir sapos ao aprovar o plano para evitar um mal maior, imagine-se que mal seria esse.
Second in Command
É hoje o debate vice-presidencial.
O que tem de fazer Joe Biden para ganhar? Abrir a boca e ser gracioso, para não ser acusado de ser um porco machista.
O que tem de fazer Sarah Palin para ganhar? Fazer um ar super queriducho de cada vez que não souber o que dizer. Mas talvez seja boa ideia arranjar um teleponto, muito pequenininho, para que ninguém dê pela fraude.
O que tem de fazer Joe Biden para ganhar? Abrir a boca e ser gracioso, para não ser acusado de ser um porco machista.
O que tem de fazer Sarah Palin para ganhar? Fazer um ar super queriducho de cada vez que não souber o que dizer. Mas talvez seja boa ideia arranjar um teleponto, muito pequenininho, para que ninguém dê pela fraude.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Não há duas sem três - uma obsessão de Vasco Graça Moura
Para além de voltar a invocar o pesadelo dantesco que emergirá do Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura volta a insistir (antecedentes aqui e aqui) na repetição de um erro sobre o segundo protocolo adicional, erro esse que Vital Moreira até já esclareceu mais de uma vez no seu blogue e na imprensa (aqui e aqui, por exemplo).
O protocolo limita-se a alterar, e apenas para quem o ratificar, os termos de entrada em vigor do Acordo. O que vem dizer é que os três que se querem já vincular não ficam obrigados a aguardar pelos restantes cinco (e não quatro, porque entretanto Timor também se tornou parte). Quem ainda não ratificou nem o Acordo, nem o protocolo adicional, continua sem estar vinculado.
Não volto aqui à questão de fundo, remetendo para o que aqui escrevi. Mas faço a mesma observação de então: Este post foi escrito usando as novas regras, as que ainda não entraram em vigor. Repararam nas diferenças? O mundo acabou?
Já agora sejam coerentes em todo o plágio...
Na sua sofreguidão em copiar a xenofobia dos outros, os meninos do PNR esqueceram um detalhe. Se a ovelhinha suiça é branquinha e corre com as ovelhas imigrantes negras, então a ovelhinha portuguesa devia também ser da cor daquelas que são pontapeadas pela ovelha helvética, uma vez que os Portugueses emigrados na Suíça estão entre os principais destinatários dos mimos do senhor Blocher.

terça-feira, setembro 30, 2008
Afinal a pirataria mais grave não é no e-mule
O regresso da pirataria é sempre simpático, traz um ar romântico aos mares tropicais. A história aventureira desta semana não fica atrás de qualquer relato do capitão Jack Sparrow: cargueiro carregado de tanques ucranianos destinados ao Quénia é tomado por navio pirata, que exige resgate de 20 milhões de dólares. Entretanto, vasos de guerra que por ali passavam (um americano, um russo e um por identificar) cercaram o navio para evitar que a carga caia em mãos erradas. No meio da coisa descobre-se que, aparentemente, os tanquezitos não se destinavam ao Quénia, mas parece que iriam fazer viagem em diante até ao Sudão, zona pacata e desprovida de tensão militar - seguramente serviriam para acções de policiamento e nada mais.
Enredo manhoso de série B, à espera de Chuck Norris ou Steven Segall? Nada disso, apenas o produto de muitos e bons anos de alimentação de conflitos em África por comerciantes de armas e mercenários, salpicado do desinteresse pela situação dramática na Somália.
Gilbert & Sullivan - "I am the Pirate King" from The Pirates of Penzance
Nunca é tarde
Na sequência da Lei da Memória Histórica aprovada o ano passado, o governo espanhol prepara-se para alterar a legislação sobre nacionalidade para permitir aos descendentes dos exilados da Guerra Civil aceder à cidadania espanhola. Uma outra iniciativa preve ainda a possibilidade, hoje quase meramente simbólica, dos combatentes nas Brigadas Internacionais poderem também aceder à nacionalidade do país pela liberdade do qual estiveram dispostos a dar as suas vidas.
E por cá, o condomínio privado na António Maria Cardoso continua lindo...
segunda-feira, setembro 29, 2008
Machado de Assis (1839-1908)

CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Subscrever:
Mensagens (Atom)

