domingo, julho 06, 2008

Memória e critério

Em dois dias, duas questões interessantes sobre a preservação da memória e como lidar com o passado. Em primeiro lugar, a Assembleia da República aceitou e votou favoravelmente uma petição contra a construção do muito publicitado Museu Salazar, em Santa Comba Dão. Um dia depois, no primeiro dia de abertura ao público da sucursal berlinense do museu de cera da Madame Tussaud, um cidadão alemão decapitou a figura de cera de Hitler (e muito adequadamente, tendo em conta a forma com a senhora Tussaud expandiu a sua actividade no final do século XVIII....).

Em ambos os casos há um elemento comum, uma vez que ambos demonstram que a tarefa de lidar com o passado não tem o carácter linear que os promotores de ambos os espaços museológicos pretendem. O risco de transformar em panegírico ou em memorial aquilo que se pretende que tenha um conteúdo formativo é significativo, se as cautelas necessárias não forem tomadas. É pois de saudar a recusa dos deputados à AR em sancionar uma escolha desacertada da Câmara Municipal de Santa Comba Dão que, na sua ânsia de arranjar um foco de atenção turística, não foi capaz de exigir dos promotores da iniciativa um projecto estruturado e criterioso, sujeitando-se por isso a ficar associada à lógica da celebração "dos aspectos positivos do Estado Novo". Exige-se um pouco mais do que ser filho da terra com notoriedade para merecer este tipo de atenção das autoridades públicas. Relembro que não se trata de uma qualquer iniciativa de um cidadão ou de uma entidade privada, mas sim de um projecto com intervenção e financiamento públicos.

O excesso de reacção do visitante da Madame Tussaud em Berlim revela a forma como o problema está interiorizado pela população alemã. A República Federal da Alemanha é provavelmente o país do mundo com a abordagem mais exemplar e sem complexos do seu passado. Enquanto os manuais escolares japoneses continuam a lidar vergonhosamente com o expansionismo nipónico das décadas de 30 e 40 e os seus políticos de primeira linha continuam a não recusar-se em prestar homenagem a criminosos de guerra, ou enquanto em Itália ainda se compram aventais, lenços e bustos de Mussolini em barraquinhas de rua em Roma e noutras cidades, os alemães souberam olhar de frente o passado e proclamar o seu repúdio pelos valores que estão associados ao nacional-socialismo, enquanto asseguram a análise histórica rigorosa do período e a preservação da memória das vítimas. Tolerância zero e investigação máxima.

Se não queremos ficar limitados a espaços de exaltação de figuras menos recomendáveis, parece-me que a lógica alemã é aquela que devemos seguir. Como disse Fernando Rosas no hemiciclo de São Bento, a uma capelinha ao ditador com as suas pantufas, sofás e escovas de dentes, ainda por cima a expensas do erário público, devemos dizer não, muito obrigado. Um museu com enquadramento científico adequado sobre o Estado Novo e um museu que preserve a memória das vítimas e resistentes ao regime, por seu turno, é algo que se impõe há muitos anos...



PS: E já agora, actualizo os links, com o incontornável Caminhos da Memória.

Zona livre de direito

Volto a dizê-lo: para mim, o ponto mais alto da credibilização da denominada justiça desportiva é o facto de a via de resolução normal de controvérsias jurídicas num Estado de Direito, o recurso aos tribunais, acarretar como consequência imediata a punição com descida de divisão ao clube que ousar exercer esse direito.


Não têm culpa nem os jogadores, nem os adeptos. Para os homens do "dirigismo" é muito bem feito!

Música de fim-de-semana

Flashbacks...

Blur - Country House

sábado, julho 05, 2008

Momentinho jacobino

Tom Lehrer - Vatican Rag

Esta nem com acordo ortográfico lá vai

A versão portuguesa do site da Opus Dei traz uma entrevista com um recém-ordenado sacerdote em que este remata (literalmente) a conversa dizendo que Ser católico é jogar para a “Champions” todos os dias.

Consultada a versão brasileira do site, a entrevista do mesmo prelado termina com uma afirmação ligeiramente diferente: Ser católico é jogar uma Copa do Mundo diariamente.

Aparentemente, basta atravessar o Altântico para o Man United se tornar campeão do Mundo de selecções. Fé e futebol movem, de facto, montanhas....

Poder popular

A 26 de Junho de 2008, Salvador Allende completaria 100 anos.



"Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos."

Salvador Allende Gossens

sexta-feira, julho 04, 2008

Nem no Pravda nos seus dias melhores...

O resistir.info tem muitos mais criteriosas peças de isenção e contacto com a realidade:

Homenagem a Manuel Marulanda

Honra e Glória eterna ao comandante Raúl Reyes!

"O budismo tibetano, uma filosofia? Essa é para rir!"

O desmascaramento final da versão oficial do 11/Set

O mito Kennedy ascende outra vez

Novo estudo de "Pilots for 9/11 Truth": Nenhum Boeing 757 chocou com o Pentágono


Mas um dos melhores chama-se "PROMOÇÃO DO FEUDALISMO TIBETANO" e encontra-se logo na página inicial:

A promoção do feudalismo tibetano continua a desenrolar-se, sob o alto patrocínio da CIA. Os actuais protestos no Tibete, em ligação com os Jogos Olímpicos na China, haviam sido planeados e discutidos em Julho de 2007 em Nova Delhi sob a égide do embaixador estado-unidense, do sr. Jamyang Norbu que se apresenta como escritor exilado e desse bandalho do Dalai Lama que se apresenta como "líder espiritual" do Tibete. O objectivo era fazer mais uma das revoluções coloridas , ao estilo da CIA. A seguir àquela reunião a sra. Paula Dobriansky , sub-secretária de Estado dos EUA, neocon membro do PNAC, efectuou uma visita ao sr. D. Lama para coordenação. A dita sra. Dobriansky já estivera envolvida nas tais 'revoluções coloridas' na Europa do Leste. Promover revoltas com a cobertura do governo americano é uma actividade muito rentável para alguns. A estratégia delineada em N. Delhi previa uma marcha de exilados e protestos dentro do Tibete, sempre com financiamento ciático. Está tudo a ser seguido ao pé da letra. A orquestração nos media que se dizem "de referência" não podia, é claro, deixar de faltar.

Todos sabemos o que têm sofrido os povos do Leste da Europa desde as tais revoluções coloridas...

Parabéns à Revolução Americana!



"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness. — That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, — That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness."

quinta-feira, julho 03, 2008

Interlúdio musical

Para alimentar o vício à Ana:

Scarlett Johansson - Falling Down

Claramente uma conspiração nazi-zionista-americana-uribiana

Como é que não fomos capazes de ver a perfídia estampada no rosto de Ingrid Betancour, essa malévola agente da classe dominante venezuelana? A honestidade intelectual é nula, a distorção da realidade é absoluta, o asco é total.

Três mercenários estado-unidenses, 11 polícias & militares e um membro da classe dominante colombiana foram recuperados dia 2 pelo governo narco-militarista de Uribe. Daquilo que já se sabe deste episódio verifica-se:

1) Seguindo o diktat bushiano, Uribe continua a rejeitar a solução política do conflito – que deveria ter início com uma troca humanitária de prisioneiros, como propõe as FARC-EP.

2) O governo uribiano-bushiano não hesitou em por em risco a vida dos retidos.

3) Os retidos foram mantidos em boa saúde – poderá o Estado colombiano dizer o mesmo daqueles que mantem nas suas masmorras?

4) Regimes repressivos & fascistas muitas vezes obtêm êxitos em operações de comandos, como mostra a história de Israel e da Alemanha hitleriana – mas isso não leva à paz com justiça social.

5) O alarido mediático dos media corporativos volta-se selectivamente para os membros da classe dominante – mas nunca mencionam os sofrimentos dos oprimidos, como os milhões de camponeses colombianos expoliados das suas terras ou as centenas de guerrilheiros das FARC-EP que padecem nas prisões uribistas.

6) A operação ardilosa do dia 2, infelizmente, pôs a Colômbia mais distante da paz.

Retirado daqui via Blasfémias.

Sigam a luz

Cliquem para aumentar.





Simplificação

No 31 da Armada, o Rodrigo Moita de Deus desenvolve o seguinte raciocínio:


O problema é que parece que Manuela Ferreira Leite disse mais qualquer coisinha, um pouco mais do que apenas concordar com a actual lei. Até parece que foi o seguinte:


1 - Em primeiro lugar, admitiu expressamente que a orientação sexual é um factor de discriminação.

2 - Em segundo lugar, reduziu a família a uma instituição construída em torno da procriação, discriminando não só as famílias sem prole, como as famílias formadas na sequência da adopção, deixando de lado as múltiplas normas que protegem a família nas suas cada vez mais ricas e plurais manifestações.

3 - Ainda que se tivesse limitado a concordar com a manutenção em vigor da actual lei, a defesa de um regime jurídico discriminatório em relação a determinada categoria de cidadãos e cidadãs não pode ser visto como um potencial factor de identificação de um preconceito?

Mais bem dito do que estas linhas que aqui deixo, é este comunicado da ILGA, pelo que para aí remeto o que mais há a dizer.

Artigo 37.º

Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.



A recente suspensão do blogue Povoaonline revela a falta de sentido de Estado de Direito e de relevo dos direitos fundamentais que ainda sobrevive nas precisas instituições erguidas para a sua defesa.


Perguntar-se-á o telespectador mais atento se com isto não estou eu a abrir dar uma carta branca para a calúnia e injúria? Não me parece. Se o autor do blogue incorreu na prática de crime ou causou danos aos autarcas, há vias judiciais para o punir e para indemnizar os lesados. Proibir um veículo de livre expressão do pensamento e procurar apagar a história fazendo desaparecer o blogue é que implica dar aquele passozinho totalitário que não só não é necessário, como põe em risco uma das bases fundamentais do sistema democrático.

Tendo deixado passar o desaparecimento de George Carlin há uns dias, não vejo post mais oportuno para referir a necessidade de salvaguar os direitos dos inoportunos do que este:


LIBRE!


Isto promete

Se casar é só para procriar, pergunto se em breve a inversa também será verdadeira?

Para o que me havia de dar

Enfim, ando assombrado por isto há uma semana. Por isso, cá vão todas as versões imagináveis para concluir o exorcismo.

Volare - Domenico Modungo

Volare - Gipsy Kings
Volare - Dean Martin

sábado, junho 28, 2008

46664

Vai com atraso quase indesculpável, mas aqui fica:

Happy Birthday Madiba!

terça-feira, junho 10, 2008

sexta-feira, junho 06, 2008

terça-feira, junho 03, 2008

Pushing the boundaries

Lá chegaremos... Espero que a JS volte a acordar para as suas responsabilidades depois das eleições de '09. Senão ainda vai ser o BE a liderar esta campanha em 2010, talvez aproveitando um PS com maioria relativa na AR...

Congresso Feminista em Lisboa (26 a 28 de Junho)




1. É interessante;

2. É importante;

3. O último congresso feminista em Portugal foi organizado em 1928.
Só não vou porque não estou em lx.


sábado, maio 31, 2008

A história da PIDE


O livro de Irene Flunser Pimentel sobre "A História da PIDE" é a obra final sobre a polícia política portuguesa. Reflecte um trabalho minucioso nos arquivos da PIDE (que no dia 25 de Abril de '74 só teve tempo para destruir o registo de informadores...) e não só. O discurso de Flunser Pimentel reflecte o equilíbrio correcto entre o distanciamento necessário por parte do cientista social em relação ao objecto de investigação, e a inevitável dose de empatia com as muitas vidas destruídas (em todos os sentidos) por uma organização cujos elementos teriam dificuldades em exercer qualquer tipo de poder ou influência numa sociedade livre e democrática.

Uma passagem particularmente interessante sobre "os dois países" que era Portugal - e que, de certa forma, talvez ainda seja (?):

"Pode-se dizer que, no continente, os locais de naturalidade do grosso dos presos políticos fica a sul, no litoral e nas zonas mais populosas - Lisboa, Setúbal, Beja, Évora, Faro, Porto, Braga e Santarém - enquanto o centro e Norte interior são as regiões privilegiadas de nascimento dos elementos da PIDE/DGS - Coimbra, Castelo Branco, Guarda, Viana do Castelo, Portalegre, Viseu, Bragança e Vila Real. Apenas o distrito de Aveiro tem aproximadamente a mesma percentagem de presos e de elementos da política daí naturais."
(P. 425)

A grande virtude do livro (a minúcia da descrição, o detalhe da narrativa) é também o seu maior defeito. O leitor (ou pelo menos, este leitor) sente que durante páginas a fio é confrontado com listas intermináveis: de agentes da PIDE, de presos, de datas, de locais, de eventos. Listas. O capítulo sobre as "modalidades da tortura", por exemplo, dedica uma atenção desproporcional a dezenas de casos individuais que, apesar de interessantes do ponto de vista dos destinos individuais das vítimas, não deviam ser o foco do discurso historiográfico. Bastava escolher alguns casos paradigmáticos para ilustrar uma tese da autora.

E é acima de tudo isso que falta. A análise histórica. Eu não espero de um trabalho desta envergadura os 'facts and figures' da história PIDE, uma espécie de resumo de toda a informação relevante glosada a partir dos arquivos e de entrevistas com vítimas e carrascos, uma narrativa corrida, tipo "em 1948 foram presos x,y,z nos sítios a,b,c pelas razões 1,2,3; já em 1949...; em 1950...".

Sinto falta, neste livro, do debate entre interpretações, teses, teorias diferentes sobre o que era a PIDE, o que a distingue de outras polícias comparáveis, se (e como) ela contribuiu para a longa vida (e agonia) da ditadura, qual era o discurso sobre a PIDE entre os "civis" nas diferentes décadas da ditadura (era ela vista como um mal necessário por uma população obcecada com a ordem nos anos '30, e como um instrumento insuportável de repressão nos anos '60?), como é que se via a própria PIDE, qual a importância da ideologia do regime nas motivações dos pides etc.

Atenção: a autora debruça-se sobre quase todos estes temas. Mas de forma insuficiente. A quantidade de 'matéria prima' historiográfica (quem? quando? onde?) é completamente desproporcional em relação ao espaço que é dedicado à análise.

O resultado é uma obra monumental no que diz respeito à recolha de informação sobre a história da PIDE, mas à qual falta um fio condutor, uma tese histórica, que ajude o leitor a navegar através de uma montanha de dados avulsos. A estrutura do livro não ajuda, já que os capítulos são organizados tematicamente, e não cronologicamente. Por exemplo, é frequente a Quarta Parte do livro (sobre "Os métodos da PIDE/DGS", páginas 308 a 412) fazer referência a acontecimentos que foram descritos na Segunda Parte (sobre "A PIDE/DGS e os seus principais adversários", páginas 132 a 218), e a autora parece esperar do leitor que este se lembre do exacto nome do indivíduo que volta a ser mencionado 100 páginas depois.

Concluindo, o livro é de leitura morosa. A autora fez um trabalho insubstituível e indispensável de recolha de informações, mas às vezes desaparece a voz da historiadora no meio do ruído dos factos. Último exemplo: o assassinato do General Delgado pela PIDE. A autora começa por descrever o debate dentro da PIDE entre aqueles que eram a favor de prender Delgado, e trazê-lo para Portugal, "onde seria submetido a julgamento" (P.401), e os que preferiam deixá-lo em liberdade para "continuar a manter o trabalho de intoxicação e controlo sobre Delgado" (P.402), levado a cabo por agentes infiltrados pela PIDE na entourage do General. Fica-se sem perceber muito bem porque é que finalmente Delgado e a sua secretária são assassinados (vários indícios apontam categoricamente para a premeditação do crime). A dada altura a autora cita uma fonte que explica que este tipo de crime não podia ter acontecido sem a luz verde de Salazar, sem entrar em grandes detalhes. Ora esta é a questão central. Saber qual dos agentes que foram a Badajoz deu os tiros é relativamente indiferente - e é nisso que a autora concentra considerável atenção!

Neste, como noutros casos, as implicações políticas dos factos assumem papel periférico perante a ânsia da autora em reconstituir minuciosamente a sequência dos acontecimentos. Ainda em relação ao exemplo de Delgado: este capítulo tem uma espécie de coda intitulada "Dúvidas, perplexidades e perguntas por responder" (P.408), em que a autora refere ao de leve várias teorias conspirativas que envolvem a CIA e uma rede europeia de extrema-direita na(s) tentativa(s) de assassinar Delgado. A frase seguinte é um bom exemplo:

"Num recente livro, onde incluiu documentação dos arquivos policiais, nomeadamente da DGS espanhola, Juán Carlos Jiménez Redondo afirmou que, apesar de ter certamente havido, no caso Delgado, uma trama complexa entre os serviços secretos portugueses e as organizações da extrema-direita europeia, o mais relevante foi a existência de uma trama de cumplicidade no interiror do regime salazarista."(P.409/410)

O problema desta frase (e de outras no mesmo capítulo) é que a autora não se pronuncia sobre a importância/veracidade/verosimilhança da tese (especulativa?) em causa. Mais uma vez o tratamento do caso Delgado por parte de Flunser Pimentel deixou este leitor perfeitamente esclarecido sobre o quem/quando/onde, mas confuso em igual medida em relação ao processo de tomada de decisão, nomeadamente no que diz respeito ao grau de envolvimento directo das mais altas esferas do regime, mas também às ramificações europeias/globais do crime.

Mas mesmo assim o livro é de leitura obrigatória para quem está interessado numa perfeita radiografia de um dos pilares do triste regime que desgovernou Portugal de 1933 a 1974. E uma coisa fica clara: a violência, a mediocridade, a boçalidade, o obscurantismo e a mesquinhez que distinguiram a ditadura portuguesa estão profundamente inscritos no ADN da PIDE.

sexta-feira, maio 30, 2008

Seja o que os deuses quiserem



A boa notícia é que há uma nova república à face da terra.
A má notícia é que foi proclamada por maoístas.

terça-feira, maio 27, 2008

Mais pobres

Sydney Pollack (1934-2008)

sábado, maio 24, 2008

Ainda em Maio

Numa altura em que ainda se discutiam coisas interesantes. No caso Truffaut, Godard e Polansky discutem se deviam parar o festival de Cannes num gesto de solidariedade para com os estudantes. Mais um documento para a posteridade, sponsored by youtube

quarta-feira, maio 21, 2008

Santa paciência

João Miranda, no Blasfémias, já tem revelado uma capacidade inultrapassável de conduzir um raciocínio num determinado rumo e tirar a conclusão oposta. Tem igualmente demonstrado uma dificuldade na apreensão do conceito de liberalismo ou, pelo menos, em acreditar que possa ter um sentido distinto daquele que lhe atribui.
Hoje ficamos a saber que, para além disso, habita uma realidade paralela.
Na sequência da licença de maternidade da Ministra da Defesa espanhola, JM escreve o seguinte:
"Costumava ser da praxe um ministro nunca entrar de baixa. Fazia parte da dignidade de um ministro demitir-se sempre que os seus problemas pessoais de saúde começavam a afectar o desempenho do cargo. Parece que já não é bem assim. O ministro que deixa os seus problemas médicos interferir com a boa governação começa a ser a norma."
Para além do machismo à décima potência do autor, ficamos ainda sabedores de dois factos relevantíssimos:
1 -Uma gravidez é um problema médico.
2 - Os ministros não podem estar de baixa.
Santa paciência...

Chiqui Chiqui

O nostálgico Daniel Oliveira que me perdoe, mas o meu voto deste ano ia para Rodolfo Chiquilicuatre:

terça-feira, maio 20, 2008

And now for something completely different...

De volta às lides bloguísticas, gostava de avançar com a seguinte questão: porque é que os estrumpfes andam todos com uma boina frígia? Mensagem republicana subliminar para as criancinhas? Pelo menos comigo funcionou.

sexta-feira, maio 16, 2008

Três em um

Ao atacar implicitamente Obama no seu discurso no Knesset, Bush é capaz de ter feito o maior favor dos últimos tempos ao candidato democrata. Em primeiro lugar, privilegia-o enquanto interlocutor - o próprio Presidente a atacar o candidato, promovendo-o a candidato democrata semi-oficial e afastando a figura de Hillary como alvo republicano privilegiado, o que só beneficia Obama na recta final da corrida do seu partido. Em segundo lugar, pelo teor desastrado da intervenção, permite a Obama dar uma resposta sólida e determinada, repudiando o contéudo da declaração, e demonstrando a inadequação da oportunidade escolhida por Bush para o atacar. Finalmente, ofusca McCain e subordina-o à linha desta presidência, permitindo a Obama capitalizar na linha que tem vindo a desenvolver de McCain como o "terceiro mandato de Bush".
Já agora, recomendo uma visita a este video, que Daniel Oliveira postou no Arrastão (lembra o Luís Delgado, mas para muitíssimo pior...)

Ainda não perceberam...

Três anos depois do resultado eleitoral que claramente sustentou a posição de Sampaio, ainda há quem sustente a tese do "golpe". Com uma estratégia assim, será cada vez mais difícil a Santana Lopes demonstrar que é candidato de futuro e que não continua preso ao passado.

Se somos a costa oeste da Europa bem podíamos seguir o exemplo da costa Oeste da América

O Supremo Tribunal da California declarou ontem que uma lei daquele estado que proibia o casamento entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional, violando o princípio da igualdade na direito a formar uma família:

Comentando a decisão, o governador não só afirmou que respeitará a decisão como não apoiará qualquer alteração constitucional que habilite a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Esperemos que no Palácio Ratton estejam atentos às notícias...

Rigoroso, rigoroso era fazer a conta toda

Noticiam hoje quase todos os jornais diários que só a partir de segunda-feira os portugueses deixarão de trabalhar para fazer face às suas obrigações fiscais e contributivas. Para que deixasse de ser uma mera atoarda demagógica e populista, sSeria no mínimo adequado fazer a conta dos serviços públicos de que os portugueses usufrem em média e descontá-lo do valor apontado.

O Oráculo de Belém


Cavaco Silva lançou o debate sobre o interesse e a participação dos jovens na política, convocando as juventudes partidárias num contexto de assumir as responsabilidades que estas têm no assunto.

Boa!

Não digo que seja a primeira ou a única, mas foi uma oportunidade de ver o Presidente da República a dizer mais do que as habituais generalidades e banalidades simpáticas e sempre superficiais sobre os assuntos, declarações daquelas em que é impossível não concordar, mas também impossível ver qualquer coisa de inspirador. É bom ver isso num Presidente que até agora só se conseguia entusiasmar com perorações alongadas de especialista em economia e com análises macro-económicas que, embora o deixassem com os olhos iluminados, constituíam momentos de interminável bocejo para os que o escutavam.


Cavaco Silva saiu-se realmente bem, porque a sua intervenção foi consistente e sumarenta, e eu fiquei satisfeito por o ver ter este tipo de iniciativa. E, confesso, senti-me satisfeito por ter algo de positivo a assinalar-lhe. Nem me parece ter causado ofuscação a polémica do não convite à jota do Bloco de Esquerda, sob o argumento (realmente muito frágil) de não ter organização de juventude autónoma, de tal maneira amuada pareceu a reacção do jovem bloquista que respondeu.
Até que o Governo revê em baixa as perspectivas de crescimento económico, e o Presidente é perguntado sobre o assunto. Ressurge então o homem dos números, brilhozinho nos olhos a dar o seu parecer de académico. Cavaco não resiste a desenvolver e a falar em economiquês, e fala, fala, referindo as suas anteriores previsões sobre o assunto e terminando a confortar os portugueses com uma mensagem de optimismo. Foi isso que os portugueses quiseram ao elegê-lo: um economista que governasse da Presidência, porque nada melhor para o estado em que o país está do que alguém que perceba de números. Mesmo que a função não tenha qualquer poder executivo ficamos mais descansadinhos por isso. Elegemos um Alan Greenspan para sabermos para onde vamos.
E é assim o nosso Presidente: governante opinativo na reserva todos os dias; líder inspirador só às vezes.

quinta-feira, maio 15, 2008

As Novas Parcerias da Saúde – PPPPP

Tem vindo a ser veiculado pela imprensa e pelo Ministério que houve apenas uma alteração ao modelo das Parcerias Público-Privadas para os novos hospitais que têm sido anunciados (exemplo: Hospital de Faro). É mentira!

O que houve foi uma inversão completa no modelo para as novas unidades que já não pode continuar a ser chamado de Parceria Público-Privada. Independentemente de concordar (e já o escrevi aqui) com uma moderação do Nº de Hospitais onde é aplicado o modelo de Parceria, a decisão de retirar a gestão clínica equivale a retirar os Privados da “Parceria”.

Neste novo paradigma que vou chamar “os 5Ps” (Pseudo-Parceria Público-Pseudo-Privado) existem apenas duas componentes asseguradas por Privados:
Ø Construção do Hospital - que eu saiba a construção dos hospitais do SNS não abrangidos pelos 5 Ps não tem sido feita por pedreiros, carpinteiros e electricistas funcionários do estado inscritos na ADSE;
Ø Gestão das instalações – trata-se apenas de um subcontrato para a manutenção do edifício que tendencialmente seria sempre subcontratada seja uma 5Ps, fosse uma PPP ou qualquer Hospital privado.

O rigor obriga a admitir que os novos Hospitais anunciados não serão de Parceria Público-Privada e que, para já, o modelo de Parceria Público-Privada irá ter apenas cinco unidades (por ordem previsível de início de actividade): São Brás de Alportel (já em exploração: GPSaúde), Cascais (em construção: HPP), Braga (Negociação Final: Mello), Vila Franca de Xira (Shortlist: Mello e GPSaúde) e Loures (aposto que ainda volta atrás). Reparem que nesta lista nunca falei (e raramente se fala) dos construtores nem das empresas que vão ficar com o subcontrato da manutenção...

Chamar Parcerias Público-Privadas aos novos hospitais (exemplo: Faro) dá-me vontade de lançar um concurso de Parceria Público-Privada para a pintura da minha sala ou para a contratação de uma mulher-a-dias.

Como sempre a Boina a pugnar por um maior rigor no tratamento dos conceitos que permita uma avaliação clara dos modelos em exploração, para os aplicar depois da forma que melhor garanta a sustentabilidade do nosso constitucionalmente ganho Sistema Nacional de Saúde.

Os mais iguais que os outros

Hoje e ontem temos assistido a algum debate sobre o fumo do nosso Primeiro Ministro e do Ministro da Economia no avião da TAP para a Venezuela. Chegou ao ponto em que até “Os Constitucionalistas” (estou a falar do Vital Moreira e Jorge Miranda e não de um novo programa de humorismo na RTP) já vieram confirmar que é ilegal e o próprio Sócrates já veio dizer que, não só pedia desculpa, como iria mesmo deixar completamente de fumar.

Eu até sou contra esta onda higiénica que nos tem varrido (já escrevi sobre isso por diversas vezes), mas enquanto responsáveis pelo acolhimento e propagação do higienismo radical, os nossos governantes deveriam ser os primeiros a aplicar uma "inverted caeser's wife" e serem, para além de parecerem, cidadãos cumpridores das leis que eles próprios criaram.

Não basta alegar o desconhecimento da Lei (uma vez que este nunca aproveita a ninguém) e muito menos é relevante a decisão de deixar de fumar ou outra qualquer informação relativa à sua vida privada.

A mim vem-me à memória uma frase batida:
ALL ANIMALS ARE EQUAL
BUT SOME ANIMALS ARE MORE EQUAL THAN OTHERS.


quarta-feira, maio 14, 2008

terça-feira, maio 13, 2008

A 13 de Maio

(entra o coro das velhas)
Aaa treeeezeeee deee Maaaaiooooo
Naaa Cooovaaaa daaa Iriiiaaaaa...
Não aconteceu absolutamente nada. Só para ficarmos claros em relação a esse evento a la Luís de Matos (para pior).

Mas o que "não aconteceu" a 13 de Maio de 1917 foi muito aproveitado para destruir o que efectivamente aconteceu a 5 de Outubro de 1910. Assim, declaro luto este dia um dia de luto Republicano.

Dois textos sobre Israel.

Posso não concordar com tudo o que escrevem Daniel Oliveira e Fernanda Câncio nestes seus textos sobre os 60 anos do Estado de Israel, mas fico muito satisfeito por saber que no debate à esquerda há quem consiga ser objectivo, recusar radicalismos e maniqueísmos e oferecer uma análise rica sobre uma questão complexa. É a trocar ideias assim que nascerá a luz.

segunda-feira, maio 12, 2008

Artes circenses

O país que abriu hoje os telejornais com a leitura em directo da convocatória da selecção para o Euro 2008, está a dedicar o Prós e contras de hoje à arbitragem. Valentim Loureiro, o Major-Sem-Medo-de-Ninguém, defronta Dias da Cunha, o anti-sistema. Fátima Campos Ferreira (ela própria um grande exemplo de arbitragem imparcial e isenta) está agora a ler as escutas de Valentim Loureiro, para que este as possa descodifica logo de seguida. Um épico!

A não perder daqui a pouco, a entrada em campo de Guilherme Aguiar e Dias Ferreira que, saídos fresquinhos do Dia Seguinte, onde estiveram em aquecimento com Fernando Seara, se vão juntar ao painel na terceira parte do programa. Um daqueles casos em que a realidade bate a ficção aos pontos:
Uma nota final para os restantes autores da Bóina: Se dois posts sobre futebol em menos de uma hora não é motivo suficiente para voltarem a escrever não sei o que é que preciso fazer.

Não durou muito

Aparentemente, o acordo entre o PPP e a Liga Muçulmana do Paquistão de Shariff, está prestes a estatelar-se e o partido deste último vai sair do Governo. Passado o choque e a unidade que se seguiram ao assassinato de Benzari Bhutto, parece que se volta ao business as usual da instabilidadde.

Fronteiras e passaportes

No regresso de dois dias no Leste da Eslovénia, atravessei a fronteira com a Croácia, para apanhar o meu vôo para Lisboa em Zagreb, num carro com matrícula da Bósnia-Herzegovina, cheio de portadores de passaportes com brasões e alfabetos diferentes.

Entre os muitos sérvios com os quais pude trocar impressões sobre o assunto, era clara a expectativa quanto ao resultado das eleições de ontem, quanto à possibilidade de chegar à União Europeia e de encerrar o capítulo do nacionalismo. O Kosovo não ajuda, é verdade. Mas acima de tudo, poder atravessar fronteiras com normalidade e, quem sabe, mais tarde poder eliminá-las com a adesão, foi isto que os Sérvios escolheram ontem. Cabe-nos a nós, os do passaporte com as estrelinhas, fazer o possível para não frustar as expectativas e ajudar a Sérvia e os seus vizinhos dos Balcãs ocidentais a fazer o resto do percurso.

Obrigado Rui Costa!


Até o clube podia estar já condenado a descer à II Liga ou às distritais. O estádio teria sempre enchido para se despedir. Não há cinismo e piadola fácil que tirem a beleza ao momento do adeus ao Maestro. Procurem que não encontrarão muitos jogadores dispostos a vir acabar a época no seu clube de sempre. Também não encontrarão muitos clubes aos quais valha a pena voltar incondicionalmente, ainda que para ficar sem ganhar títulos e experimentar resultados menos simpáticos...

Bowing gracefully

Tenho estado silencioso quanto às minhas preferências no campo democrata. Por perguiça ou por ser cobardolas, uma vez que ambas as soluções me agradariam e assim escuso de me empenhar num candidato que depois poderá ficar pelo caminho, tenho ficado à espera para ver o rumo que as primárias tomariam, tentando funcionar como o fiel da balança numa Bóina onde hillaristas e obamistas ocasionalmente trocam galhardetes.

Contudo, a minha calmaria blasée acabou, o vencedor está aí e só os irredutíveis dos irredutíveis de Clinton é que se recusam a ver o que já é evidente para os restantes: Barak Obama vai ser o candidato presidencial do Partido Democrata. A vantagem que era só em número de Estados e de delegados há uns meses, passou a sê-lo também em número absoluto de votos e em número de superdelegados. Quem consultar o simulador de delegados do NY Times verificará que, enquanto Obama apenas precisa de 13% dos superdelegados em falta caso mantenha o nível de votação médio que tem tido, Hillary só chegaria à nomeação conquistando mais de 87% dos restantes ou subindo drasticamente o número de delegados eleitos.
Depois de uma campanha, de um nível de debate e de uma mobilização históricos, seriam igualmente sem precedentes deitar tudo a perder por não saber sair a tempo. Três semanas não farão diferença, podem pensar os mais acérrimos apoiantes de Hillary. A questão não é essa, é a de saber por que raio é que se tem de perder três semanas nisto...

Nem mais

No Público:

A clareza e determinação de Ricardo Araújo Pereira em preservar o seu reduto de privacidade, impedindo a tabloidização e devassa da intimidade à inglesa, mercem o aplauso e apoio de todos os interessados em ter imprensa livre e de qualidade.

quinta-feira, maio 08, 2008

A opinião pública começa a decidir a nomeação


Capa da Time da próxima semana. Aperta-se o cerco a Clinton.

segunda-feira, maio 05, 2008

Mais vale tarde...


Ainda com a ameaça de balde água fria que poderá resultar do veredicto final às declarações de Niemeyer ao Expresso, nas quais apontou para uma não-autoria do Casino do Funchal (polémica que tem dado frutos e que pode ser acompanhada aqui), a Academia das Ciências de Lisboa, numa homenagem que já tardava, elegeu Oscar Niemeyer como sócio correspondente. Ainda que se conclua que não temos nenhuma obra de Niemeyer em Portugal, teremos pelo menos a possibilidade de reclamar o próprio Niemeyer, através da Academia das Ciências...

2 de Maio


Escapou aqui ao pessoal da Bóina (eu tenho desculpa, estava fora) os 200 anos do levantamento espanhol contra Napoleão (já o D. João VI molhava os pezinhos na baía de Guanabara), que abriria uma das mais problemáticas frentes de guerra ao cavalheiro corso e que, eventualmente, levaria às jornadas constituintes doceanistas, em Cádiz, pelas quais os nossos liberais do vintismo suspirariam até as conseguirem reproduzir em versão lusa. Aqui fica a lembrança (com manifesto copianço do Peão).


Porreiro era fechar grandes superfícies evangélicas para não causar concorrência ao culto tradicional...

Perante a possibilidade de os hipermercados voltarem a abrir aos domingos, a Igreja Católica cá do burgo, através da Liga Operária Católica e do bispo das Forças Armadas, veio manifestar a sua oposição à medida. Sobre o assunto, com os pontos todos nos iis ver o post de Teresa Ribeiro no Corta-Fitas.

domingo, maio 04, 2008

Juizinho

Agora que a recta final se aproxima, a vitória de Obama em Guam pela diferença mínima de um voto ameaça anunciar o quão renhida vai ser a convenção. Por enquanto, McCain não tem aproveitado a folga, mas não fiquem à espera que durma até Novembro...

Prioridades no sítio

E se achavam que todos os exageros sobre a futebolização da vida pública já tinham sido proferidos, eis que....


Quais 1.ºs de Dezembro e 5 de Outubros, feriados deviam era ser os dias em que fomos a finais europeias...

Notícias que não se podem inventar

Como não podia deixar de ser, também o Kentucky Derby, a corrida de cavalos mais importante dos Estados Unidos, entrou na campanha eleitoral, e ambos os candidatos democratas tornaram públicas as suas apostas. Hillary Clinton apostou numa égua chamada Eight Belles, e justificou a sua aposta por ser a única égua entre os concorrentes, declarando que este era o ano das mulheres.
Eight Belles ficou em segundo lugar, mas partiu as duas patas da frente e teve de ser abatida. O vencedor foi o Big Brown - o cavalo em que Obama apostou.

quarta-feira, abril 30, 2008

Boletins eleitorais

Há uns tempos postei aqui uma série de grandes boletins eleitorais do mundo.

Este merece seguramente entrar:

"Um boletim de voto encolhido e "simplificado":
No Porto, a Comissão Politica Alargada escolherá hoje entre "Votar em Pedro Passos Coelho, Alberto João Jardim ou APOIAR OUTRA SOLUÇÃO EM ALTERNATIVA" - assim mesmo, em letras gordas, e excluindo Santana Lopes e Ferreira Leite.

(Jornal de Notícias)"

Via Abrupto

E agora algo completamente... (já sabem o resto)

Totalmente a despropósito:

O admirável mundo da justiça desportiva


O Belém vai mesmo perder os 6 pontos. Interessa lá agora que a Liga espanhola não tenha feito constar do passaporte desportivo de Meyong os 12 minutos que jogou ao serviço do Albacete antes de ir para o Levante. Dura lex, sed lex, aplicada na letra e sem espírito algum. Para que a decisão se torne definitiva na ordem jurídica paralela do mundo do futebol só falta mesmo a publicação no diário oficial, ou seja, a alteração da classificação na tabela da Bola.

terça-feira, abril 29, 2008

O Atlântico, o Doutor Salazar e algumas décadas

Estava a trabalhar e a ouvir um CD do West Side Story que comprei há dias quando decidi fazer uma pequena pausa para circular pelos blogs habituais. Ao passar pelo Arrastão, dei conta de mais um post do Daniel Oliveira a recordar a Eurovisão, desta feita com um post da nossa canção estreante, em 1964, a Oração. Parei o Bernstein, onde os Jets cantavam ameaças aos Sharks, e pus a tocar o António Calvário.
Eloquente como só a música o pode ser, fica um retrato do fosso entre a canção nacional, sadia, devota e honesta do Festival da Canção do Doutor Salazar, e a explosão de vitalidade e ritmo das ruas de Nova York, escrita e estreada 7 anos antes da primeira lusa aventura na Eurovisão.
Com o 25 de Abril fresquinho na memória, eis a oferenda de mais um argumento para revelar as portas que Abril abriu. Oiçam, comparem e digam-me lá se preferem o Portugal do Estado Novo, mantendo o País no congelador da História e impondo uma estética musical, ou a abertura artística das sociedades livres e democráticas.
António Calvário, Oração (1964)
West Side Story, America (1957)

El comandante?


Se somos todos cubanos e Alberto João Jardim pondera candidatar-se a líder nacional, não signifícará isto que é candidato a Fidel?

sexta-feira, abril 25, 2008

quinta-feira, abril 24, 2008

Vai tudo abaixo


Isto de se interromper longamente a colaboração num blog é coisa que precisa de ser corrigida com um bom pretexto. O meu preparava-se para ser o facto de o PSD estar prestes a fechar um longo e negro período de rebaldaria e repor a dignidade no combate político ao confiar a liderança a uma mulher séria e que sempre apreciei, mesmo que politicamente se situe nos meus antípodas. Preparava-me, finalmente, para fechar um arco de discussão política numa conciliação com esse partido da direita, elogiando-o por ir elevar o combate político e dar realmente de que fazer a um primeiro-ministro cada vez mais convencional e acomodado. Até que a coisa chegou ao ponto de Alberto João Jardim e Santana Lopes serem candidatos viáveis à liderança.
O meu regresso é definitivo (pelo menos até à próxima ocasião). A minha congratulação pela redenção do PSD fica adiada.



quinta-feira, março 27, 2008

Parcerias Saúde

Assistiram-se nas últimas semanas a dois recuos claros do Governo em matéria de Parcerias Público-Privadas no sector da Saúde: Devolução do Hospital Amadora Sintra à gestão pública e equacionamento da possibilidade de trocar a gestão privada por gestão pública nos novos Hospitais previstos para Évora, Lisboa, Póvoa, Gaia, Sintra e Algarve.

A desconfiança existente face aos objectivos de maximização de resultados, inerentes à actividade dos operadores privados, é óbvia na maior parte dos sectores e especialmente acentuada na Saúde, onde todos esperamos que na hora de sermos tratados não se olhem a despesas e não se poupem esforços.

Desconheço os motivos que levaram à revisão no modelo de Parcerias e a esta tendência de recuo, mas presumo que esta desconfiança relativamente aos privados, as dificuldades de concertação sentidas no Amadora-Sintra e a natural orientação de esquerda do Governo tenham contribuído decisivamente.

Para compreendermos como funciona o modelo de contratualização Público-Privada a primeira informação que é necessário reter é que a gestão de uma Unidade de Saúde em regime de Parceria Público-Privada compreende um Contrato de Gestão negociado e assinado entre o Privado e o Ministério da Saúde que obriga o Parceiro privado a um conjunto de exigências e objectivos de monitorização, qualidade e excelência que vão muito além do que é exigido e praticado na maioria dos Hospitais Nacionais.

É também necessário assumir que esta desconfiança existente sobre os operadores privados, o rigor do Contrato de Gestão e a monitorização irrestrita e permanente das Adminsitrações Regionais de Saúde, também elas monitorizadas pelo Tribunal de Contas e outras instituições competentes, geram um ambiente que, sendo por vezes excessivo e pouco razoável na transferência de risco para o Privado, obriga efectivamente a uma Gestão realmente orientada para a excelência do serviço e contraria a eventual tendência do privado comprometer a diferenciação dos serviços prestados para obtenção de melhores resultados.

Dou-vos o exemplo daquele que é o primeiro Hospital no novo regime de contratualização Público-Privada, o Centro de Medicina de Reabilitação do Sul, e que será brevemente a única parceria Público-Privada na gestão de Hospitais em Portugal. Quero deixar aos leitores da Boina alguns esclarecimentos sobre este tema e alguns resultados da experiência (ainda curta) da gestão de um Hospital em parceria Público-Privada com ganhos efectivos para o Doente, para o SNS e para Privado (por esta ordem de importância).

Na prática para o doente a vantagem é usufruir dos equipamentos de ponta que são exigidos no contrato e cuja renovação periódica é obrigatória, o que muitas vezes não acontece na gestão pública, pagando apenas, quando aplicável, as mesmas taxas moderadoras das restantes Unidades do SNS. Por outro lado, o estatuto de “privado” e a maior cultura de cliente associada também cria melhores condições para os doentes serem mais exigentes com os vários serviços conduzindo naturalmente à sua melhoria. Embora os ganhos de saúde sejam difíceis de comparar entre instituições, uma vez que não se usam nos restantes hospitais métricas claras para avaliar os resultados clínicos, o prestador Público-Privado está obrigado por contrato a medir os seus resultados com recurso a escalas internacionais amplamente divulgadas nas que tem obtido resultados muito interessantes, que comprovam aumentos significativos e cumprimento constante de objectivos nas escalas Funcionais e Cognitivas aplicadas aos doentes que permitem “devolver os doentes ao exercício pleno da Cidadania” (frase inscrita na missão da empresa). Este Hospital tem obtido resultados muito positivos nos inquéritos à satisfação dos doentes e tem sido comparado, sempre positivamente, com outras instituições semelhantes nacionais e internacionais.

O ganhos desta Parceria para o Serviço Nacional de Saúde são bastante evidentes uma vez que já deixou de gastar mais de um milhão de euros com este hospital pela transferência dos encargos de arranque e dos custos dos primeiros trimestres de actividade para o operador Privado e, qualquer que venha a ser a produção do Hospital no futuro, o Contrato de Gestão prevê os mecanismos que garantem que os custos com o modelo Público-Privado estejam sempre bastante abaixo do Custo Público Comparável (custo que o Estado teria com a Gestão pública de um Hospital Similar). A prova disto está nos próprios preços cobrados por este hospital ao SNS (em média mais de 15% abaixo do preço da tabela do SNS).

O parceiro privado no Centro de Medicina de Reabilitação do Sul teve prejuízos no valor de um milhão de euros em 2007 mas prevê começar a libertar dinheiro já em 2008 e a obter resultados positivos a partir de 2009. Estes resultados serão obtidos através de uma gestão ágil e de uma cooperação com a ARS que garanta uma referenciação eficaz dos doentes e a correcção de alguns erros de contrato que impedem a facturação total dos serviços prestados.

Uma última palavra para uma opinião pessoal (diz que é uma espécie de disclaimer de esquerda). O papel das Parcerias no volume global da prestação de cuidados no SNS deve ser sempre moderado para garantir ao Estado uma capacidade de controlo real da actividade dos Privados na Saúde. No contexto Nacional em caso de (inevitável?) concentração dos Operadores privados de Saúde neste mercado de muito pequena dimensão, se o Estado perder a vocação de prestador maioritário de Cuidados de Saúde perderá a sua capacidade de negociar e controlar os Contratos de Gestão e perderá sobretudo, a capacidade de suspender ou não renovar um contrato que não esteja a revelar-se favorável (como aconteceu no Hospital Amadora Sintra).

A defesa, que eu subscrevo, do Estado como prestador principal de cuidados de Saúde não deve impedir a aplicação racional deste modelo de Parcerias Público-Privadas que contribui para a melhoria dos cuidados aos Utentes, para a sustentabilidade do SNS e para uma participação dos Privados dentro do contexto do SNS. Na minha opinião o caminho passa mais pela aplicação racional (e racionada) deste modelo do que pela substituição da vocação de prestador do SNS por uma função de mero pagador com a abertura (anunciada?) de cada vez mais convenções que já comprovaram ser também de difícil controlo e muito menos proveitosas para o Estado.

quarta-feira, março 12, 2008

Matemática parlamentar

Retomando o capítulo da vida eleitoral alemã, há algumas novidades. Em Hamburgo, caminha-se com cada vez mais probabilidade para uma inédita coligação CDU-Verdes a nível estadual. Depois de grande abertura negocial demonstrada pela CDU, os "realistas" nos Verdes prevaleceram e conseguirarm alcançar das bases o OK do partido à condução de negociações.

Por outro lado, em Hessen, as coisas não estão fáceis. Depois de muita discussão e tensão interna, o SPD local está disposto a avançar com uma coligação com os Verdes, tolerada parlamentarmente pela Linke. A passar, seria a primeira vez que o modelo ocorreria num Estado "ocidental". No entanto, uma deputada do SPD, por sinal detentora de mandato directo, não só se prepara para recusar a solução encontrada pelo partido, como se recusa em renunciar ao mandato.

Mudança forçada

E para quem pensava que a emoção política nos EUA se cingia à campanha eleitoral, eis que o Governador do Estado de Nova York, Eliot Sptizer, é apanhado num escândalo sexual "à antiga". Aparentemente, o ainda governador terá sido apanhado a utilizar os serviços de uma rede de prostituição e a sua demissão está iminente. Eleito expressivamente após doze anos de governação republicana e portador de um currículo impressionante enquanto advogado e promotor público a carreira de Spitzer parece estar a caminhar para o fim.

Ironicamente, para além das suas mais destacadas acções, entre as quais avultam o desmantelamento da família Gambino e uma série de casos de crimes de colarinho branco em Wall Street, a lista de vitórias de Spitzer inclui também o desmantelamento de uma rede de prostituição em Staten Island, em 2004...

O homem que aguarda o desfecho do episidónio é o Vice-Governador, David Paterson, que pode tornar-se o primeiro negro a chegar ao posto de governador do Estado de Nova York e o único invisual a tornar-se governador de um Estado americano. Apesar das causas da sua provável ascensão não serem as melhores, não deixa de ficar no ar um sinal de mudança que pode ser útil a algum candidato presidencial...


terça-feira, março 11, 2008

Cheguem-se pra lá


Como havia cá poucos, Rui Marques inventou mais um partido, que é a solução mais velha nos manuais para resolver os problemas da política. Este chama-se Movimento Esperança Portugal - não sei se estão a ver a inspiração obamista da coisa; provavelmente Rui Marques achou que "Movimento Esperança e Mudança" fosse uma indesejável cacafonia (se bem que desse uma bela sigla).
Mas preparemo-nos: com Barack Obama Presidente é inevitável que o seu exemplo frutifique em muitas imitações sem a qualidade do original.
Por paradoxal que possa parecer, esta é uma das razões por que sou admirador de Obama: o observador céptico vê o homem para ali a falar e tem-se a sensação de que aquilo pode descarrilar a qualquer momento para uma coisa sem sentido. Mas não. No fim gosta-se. O círculo completa-se, a ideia permanece. Naquele tipo de discursos, é muito difícil não resvalar para a demagogia fácil ou para uma espécie de misticismo tipo homilia religiosa.
Pelo contrário, a inspiração de Obama (não me canso do termo, ainda que esgotado pelos detractores) faz-me acreditar no regresso da política, cada vez mais substituída na acção governativa por uma espécie de messianismo tecnocrático, em que o importante é saber dissecar os assuntos até ao ínfimo pormenor, pôr as vírgulas antes das casa decimais e executar um programa político-eleitoral até ao fim levando tudo à frente, como se do caderno de encargos de uma empreitada se tratasse.
Obama não. Mesmo que haja muita gente a retirar o tipo errado de inspiração.

segunda-feira, março 10, 2008

Música para a semana

R.E.M. - Nightswimming

Até à próxima

Não costumo futebolar por estas bandas, mas hoje quero deixar uma nota para a saída de José António Camacho do Benfica. Apesar do segundo lugar e de ainda estar em disputa na Taça UEFA e na Taça de Portugal, é inequívoco que a actual época não tem corrido bem. Ciente de que não teria capacidade para dar a volta à situação, e não tentado argumentar com lesões, com a entrada depois do início da época ou com os resultados que ainda assim estão ao alcance do clube, Camacho coloca o lugar à disposição e abre a porta ao aparecimento de uma solução capaz de melhorar a qualidade dos resultados.

Enquanto entusiasta do regresso de Camacho à Luz, tenho pena que o desfecho seja este (talvez a agoirenta máxima de que não se deve voltar aos sítios onde fomos felizes...) Para além da enorme dignidade da atitude, Camacho conserva quase intocado o seu papel na história do clube e, provavelmente, o capital de simpatia que tem entre os adeptos. Boa sorte para as próximas empresas e, quem sabe, até qualquer dia, porque mesmo as máximas agoirentas conhecem excepcções...

ZP Presidente


Confirmadas as expectativas, o PSOE ganha as eleições e arranca para mais quatro anos no bom caminho. Pessoalmente, dificilmente encontro um programa político com o qual me consiga sentir mais identificado: Respeito pela memória, igualdade para todos, laicidade, educação para a cidadania, combate à discriminação, promoção da integração e inclusão dos imigrantes, política externa em sintonia com as exigência do direito internacional, reforço das autonomias, políticas sociais eficazes e orientadas para os jovens e manutenção de um papel adequado para o Estado na economia.


Apesar de não chegar à maioria absoluta, o PSOE terá conquistado pelo menos mais 5 deputados, reforça o número de senadores e mantém opções ao centro e à esquerda para recolher os apoios que faltam para a governação.

sexta-feira, março 07, 2008

Matemática Eleitoral


Mesmo com o resultado das primárias de terça-feira passada, a contagem de votos e de delegados é claramente favorável a Barack Obama. O estado do Texas tem a particularidade de fazer utilizar ambos os métodos de escolha, atribuindo 126 delegados em primárias e 67 em caucuses e, se bem que Hillary tenha ganho as primárias com 51% dos votos, a contagem de votos nos caucuses, ainda a ser processada, vai dando a Obama a vantagem com 56%. As projecções da campanha de Obama apontavam ontem para que Hillary tivesse um saldo positivo de 4 delegados face a Obama no conjunto dos quatro Estados disputados, mas na CNN falava-se mesmo que a contagem definitiva de votos no Texas poderia dar a vantagem a Obama, aumentando a diferença para Hillary.

Estranho? Complicado?

Vamos um pouco mais longe. Apliquemos os dados destas primárias a um cenário de eleição geral, supondo que Hillary e Obama concorriam um com o outro à Presidência, cedendo à tentação de imaginar uma América sem Partido Republicano. Como o sufrágio é indirecto e o Presidente eleito por um colégio eleitoral em função do peso demográfico de cada estado no cômputo geral do país, apliquemos as regras de alocação de eleitores (538 no total), tendo presente que quem ganha um estado ganha a totalidade dos eleitores a ele atribuído. Num tal cenário, Hillary teria conquistado 219 eleitores, mercê de vitórias nos Estados mais populosos, contra apenas 182 de Obama.

Este cenário deixa propositadamente de fora os estados do Michigan e da Florida, cujas primárias foram dadas sem efeito porque as direcções locais desrespeitaram o calendário definido a nível nacional por ambos os partidos (embora a penalização dos republicanos consistisse em reduzir a metade o número de delegados do estado à convenção). A direcção do Partido Democrático proíbiu os candidatos de realizarem aí acções de campanha, mas as estruturas locais insistiram na realização das eleições. À excepção de Hillary Clinton e de Dennis Kucinich, todos os outros candidatos respeitaram essa imposição. Como foi a única candidata dos três favoritos a constar do boletim de voto, Hillary ganhou as eleições com enorme naturalidade.

Vamos então adicionar os eleitores destes dois estados à conta de Hillary, que fica assim com 263 e a apenas 7 de obter a maioria de votos no colégio eleitoral para ser eleita presidente. Se, Hillary vencer a Pennsylvania, estado onde as sondagens lhe dão larga vantagem, a maioria é largamente ultrapassada 284.

Obama teria de contentar-se com ser o candidato com mais votos (13.575.302 contra 13.281.636, fora os hipotéticos votos da Pennsylvania, embora seja de esperar que a diferença neste estado entre os candidatos não anulasse a diferença a nível nacional ), uma diferença proporcionalmente maior do que aquela de votos que Al Gore tev a mais do que George Bush em 2000, sendo que então Bush conseguiu apenas 271 votos no colégio eleitoral.´

Este é um exercício muito falível, porque há muitas variáveis que não podem ser tidas em conta numa análise deste tipo e que influenciariam certamente o resultado: a circunstância de em alguns estados só poderem votar eleitores registados no Partido Democrático e em outros só poderem votar estes e eleitores registados como independentes, o facto de as eleições se prolongarem no tempo, o que torna o cenário mais sensível à influência das dinâmicas de vitória dos candidatos na decisão dos eleitores dos estados que votam a seguir; e, sobretudo, a ausência de vários grupos demográficos que nunca votariam em qualquer destes delegados. Em suma, uma América diferente. Mas ainda assim, como cenário meramente hipotético, serve para perceber de que modo as regras da proporcionalidade permitem uma maior justiça na formação da vontade democrática do eleitorado. Estas são as regras adoptadas pelo Partido Democrático, mas não pelo Partido Republicano, nem pelo legislador constitucional americano. Estas são as regras que, em última análise, podem fazer com que a desvantagem de Hillary Clinton para Barack Obama seja virtualmente irrecuperável.

quarta-feira, março 05, 2008

18 aninhos

Não compro o Público todos os dias, mas quase todos. Não foi com o Público que ganhei o hábito de ler o jornal todos os dias, mas com o Diário de Notícias, que estava à disposição dos clientes do café que frequentava com os meus pais, como era hábito fazer depois de jantar, ainda rapazinho e antes de começar a fumar e a descobrir outros vícios igualmente transgressores que se fazem no café.
Mas o Público foi o jornal que escolhi como o meu jornal, da mesma forma que escolhemos as companhias e as amizades quando crescemos e passamos de meros espectadores a invervenientes na comédia da vida. Mas mais que as amizades, o Público tornou-se como que um familiar cuja falta se sente quando não está.
O Público é uma referência por causa de uma ideia muito própria de conceber um jornal, quer como veículo de informação, quer como objecto do quotidiano - os coleccionáveis, por exemplo, são realmente bons e não são lançados apenas para vender mais jornais.
O Director é capaz dos maiores dislates, mas os colunistas também são capazes de o pôr no lugar, e de fazerem o mesmo uns aos outros. Num país com uma muito pudica tradição de jornalismo sem linha editorial comprometida ideologicamente (como se isso por si só fosse garantia da independência e neutralidade devidas) mas em que muitas vezes se percebe o dedinho manipulador do autor da notícia, este é um pecado bem-vindo.
A crítica de artes e espectáculos, especialmente no Y e sobretudo nos títulos, anda perdida em textos narcicistas e de graçola fácil, muitas vezes superficiais, afirmando-se o estilo em prejuízo do sentido objectvo dos assuntos. Mas ainda assim vai sendo o melhor e mais completo suplemento deste tipo.
Por tudo isso, não queria deixar passar a oportunidade de assinalar os 18 anos do Público. Desejo apenas que a maioridade não lhes traga o juízo devido, porque de outra maneira não tem graça.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Noite pouco americana


Nos quatro prémios de representação entregues ontem no Kodak Theatre, nem um fica em casa. A outrora pouco estrangeirada Academia rendeu-se aos europeus que sacam os quatro homenzinhos dourados com grande limpeza. É certo que só um dos filmes era europeu, que a mobilidade cinematográfica anglo-americana é imensa e que já se esperava o resultado. Mas ainda assim, enquanto o Eduardo Serra não saca o Oscar, vamo-nos banhando de um pouco de chauvinismo cinéfilo europeu que um bocadinho de glória dos outros nunca fez mal a ninguém.

Já agora, aqui fica mais uma vez a recomendação a quem conduz a emissão na TVI: idealmente, falem só nos intervalos. Mas se têm mesmo que nos impedir de ouvir a cerimónia quando querem falar de trivialidades, pelo menos lembrem-se de desligar a porra dos microfones quando não estiverem a conversar, para o resto da malta não ter de ouvir-vos a mexer na cadeira ou a ajeitar a camisola.

Nem mais

Já tem mais de uma semana, mas vale a pena citar pela clareza e exactidão. Perante este post de Helena Matos em que a autora critica a "condescendência" para com a utopia marxista, equiparando-a à "utopia nazi", o Lutz do Quase em Português deixou este comentário (entre outros) na caixa de mensagens do post

É parte inerente e indissociável da utopia nazi a aniquilação ou pelo menos a escravização sistemática dos mais fracos. Isto significa que as barbaridades cometidas nos países ocupados, como Polónia URSS etc, são a realização directa da utopia nazi. Tal como o Holocausto. As barbaridades cometidos pelos marxistas Estaline e consortes, não ficam de facto, nem no que respeita a sua desumanidade, nem em quantidade, aquém das dos nazis. Mas elas são instrumentais. E isto é uma diferença importante, no plano moral. Pois significa que um adepto da utopia nazi aceita inevitavelmente, acreditando nela, na legitimidade e necessidade destas barbaridades. Um adepto da utopia marxista pode sê-lo com toda a coerência, e recusar liminarmente as barbaridades perpetradas pelos marxistas. Isto é tão claro que só não vê quem não quer ver. Também é claro que um apoiante do marxismo real, que tem conhecimento das barbaridades por este perpetrados, é moralmente responsabilizável por elas.

Êxodo

Agora que está toda a gente a ir para o Sapo uma pessoa que fica na Blogger não deixa de ter a sensação de que acabaram de construir uma cimenteira para incineração de resíduos industriais perigosos no bairro e que as casas vão começar a desvalorizar ainda mais...

Nova oportunidade

Um domingo em cheio para a extrema-esquerda dirão alguns. No caso de Chipre parece poder ter sido um domingo em cheio para a maturidade democrática e para a aproximação das duas metades da ilha dividida. O novo presidente cipriota, Demetris Christofias, é líder do Partido Comunista local. Uma verdadeira eleição de um chefe de Estado comunista (ao invés de outras ilhas), aceite com normalidade e com alguma esperança, uma vez que Christofias promete relançar as negociações para a reunificação da ilha, havendo sinais positivos do lado turco e apoio do candidato conservador derrotado.

A Alemanha também anda eleitoralmente interessante...

Este domingo escreveu-se mais um capítulo daquilo que pode ser a maior transformação do quadro partidário alemão desde o aparecimento dos Verdes na década de 80. Enquanto prossegur o impasse em Hessen, em Hamburgo as eleições da cidade-estado oferecem nova complicação pós-eleitoral, com causas semelhantes. Vamos por partes.
CDU ganha, mas perde maioria absoluta.
SPD faz progressos moderados.
Verdes perdem alguns pontos percentuais.
Liberais continuam de fora do parlamento.
Die Linke entra em mais um parlamento estadual, com mais de 6%.


Resultado imediato: não há coligações evidentes. Apesar de vir a gozar de uma super maioria, parece que não há paciência para mais uma grande coligação. Mantendo-se a intenção de afastar as coligações com a Linke, também a fórmula SPD-Verdes-Linke parece não vingar. Curiosamente, a solução apontada neste momento como mais provável pode passar por uma inédita coligação preto-verde (CDU-Verdes). Se tivessemos a mania dos alemães de dar nomes às coligações com base nas cores, entre nós podiamos chamar-lhe a coligação "táxi antigo".


Entretanto, a liderança do SPD, apesar de muitas incertezas e hesitações, deu luz verde à líder estadual em Hessen para uma eleição como chefe do Governo como o apoio da Linke. Solução idêntica é matematicamente possível em Hamburgo, se não fosse a oposição do candidato local do SPD. A CDU já avisa sobre perigosos trotskistas a aproximar-se do poder...


Não sou grande fã da Linke, mas já aqui escrevi que esta via das coligações pode não ser necessariamente uma alternativa muito má. Veremos...

De volta ao serviço na Bóina...

... parece que a sabática acabou mesmo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O virar da página

O Comandante-em-chefe de Cuba renunciou ao cargo de Chefe de Estado, mas não significa necessariamente que tenha renunciado ao poder. Figura polarizadora como é, não tardaram as reacções entusiasmadas de adeptos e detractores.
Fidel liderou um golpe de estado para derrubar um governo despótico e corrupto no quintal dos Estados Unidos, que muito convinha aos interesses americanos. O mais que se pode dizer do movimento revolucionário é que era de natureza patriótica, nem sequer de esquerda ou de direita. No entanto, as necessidades resultantes do realinhamento geo-político e estratégico assim operado empurraram-no para a esfera de influência da União Soviética, como forma de assegurar a sobrevivência do projecto revolucionário, mas também, não haja ingenuidade quanto a isso, a sua sobrevivência enquanto líder político.
Daí que, antes de ser herói ou vilão, Fidel Castro seja um caso exemplar de sobrevivência e adaptação às contingências da política. A sua figura suscita-me, por isso, apenas uma apreciação cínica: não acredito que seja o ditador facínora nem o líder democraticamente amado pelo povo que alguma esquerda diz. Parece-me que quando uma lista que recolhe 95% de votos não estamos perante uma eleição, mas sim de uma aclamação, com tudo o que isso acarreta de fragilidade democrática. Parece-me, também, que, para o tipo de ditadores a que estamos habituados, falta a Fidel uma quantidade séria de palácios sumptuosos e demonstrações de luxo, e o seu currículo regista alguns serviços desinteressados prestados ao seu povo.
O embargo económico a cuba tem sido a perfeita desculpa para Fidel. Enquanto os Estados Unidos não ultrapassarem o ódio a Fidel que se transmite de geração em geração de políticos, e, quem sabe, enquanto o estado da Florida tiver o peso que tem nas eleições e os dissidentes cubanos se constituírem como grupo eleitoral de especial influência, Fidel conseguirá sempre pôr o povo do seu lado contra a América. Até que isso mude, a História não o poderá julgar convenientemente.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A importância das palavras

A história não tem que ser destino. Pode ser uma lição para o futuro - e de vez em quando aparece alguém com a coragem de a articular.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vital Moreira diz muito bem

Vital Moreira tem muita razão quando denuncia a mania portuguesa de demonizar o oponente. O uso generoso de superlativos, as comparações abusivas, anacrónicas e de gosto duvidoso, e a desproporção muitas vezes gritante entre a substância do desacordo e a intensidade do insulto, são sintomas de um debate medíocre e de uma opinião pública excessivamente excitável.

Lembro-me que algures durante ou depois da guerra do Líbano de 2006, Vital Moreira comparou as violações do Direito Internacional perpetradas por Israel com a ocupação alemã do Leste da Europa durante a 2a Guerra Mundial.

Nessa altura perguntei-me porque é que os erros de Israel levam sempre - mais cedo ou mais tarde - a comparações cruéis, anacrónicas e de mau gosto com os arquitectos de Auschwitz.

Ficava muito feliz se Vital Moreira concordasse comigo quando digo que a fúria legítima contra a injustiça não justifica todas as piruetas retóricas.

domingo, fevereiro 10, 2008

Yes We Can

Depois de ficar em segundo nas eleições do New Hampshire, Barack Obama proferiu o inspiradoe inspirador discurso que o senhor will.I.am dos Black Eyed Peas converteu em música e neste videoclip realizado pelo filho de Bob Dylan, Jesse Dylan, que correu o mundo.

Já agora, se ainda não tiveram a oportunidade de ver:


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Alberto como ele mesmo

Alberto João Jardim mascarou-se dele próprio neste carnaval para nos sugerir a criação de uma Federação Portuguesa com a Madeira como estado Federado e ele próprio como Presidente do Estado Madeirense. Palavras para quê?

A primeira deliberação será assegurar que, nas futuramente instituídas primárias portuguesas, a Madeira vote sempre na super-terça-feira de Carnaval.