domingo, maio 04, 2008

Prioridades no sítio

E se achavam que todos os exageros sobre a futebolização da vida pública já tinham sido proferidos, eis que....


Quais 1.ºs de Dezembro e 5 de Outubros, feriados deviam era ser os dias em que fomos a finais europeias...

Notícias que não se podem inventar

Como não podia deixar de ser, também o Kentucky Derby, a corrida de cavalos mais importante dos Estados Unidos, entrou na campanha eleitoral, e ambos os candidatos democratas tornaram públicas as suas apostas. Hillary Clinton apostou numa égua chamada Eight Belles, e justificou a sua aposta por ser a única égua entre os concorrentes, declarando que este era o ano das mulheres.
Eight Belles ficou em segundo lugar, mas partiu as duas patas da frente e teve de ser abatida. O vencedor foi o Big Brown - o cavalo em que Obama apostou.

quarta-feira, abril 30, 2008

Boletins eleitorais

Há uns tempos postei aqui uma série de grandes boletins eleitorais do mundo.

Este merece seguramente entrar:

"Um boletim de voto encolhido e "simplificado":
No Porto, a Comissão Politica Alargada escolherá hoje entre "Votar em Pedro Passos Coelho, Alberto João Jardim ou APOIAR OUTRA SOLUÇÃO EM ALTERNATIVA" - assim mesmo, em letras gordas, e excluindo Santana Lopes e Ferreira Leite.

(Jornal de Notícias)"

Via Abrupto

E agora algo completamente... (já sabem o resto)

Totalmente a despropósito:

O admirável mundo da justiça desportiva


O Belém vai mesmo perder os 6 pontos. Interessa lá agora que a Liga espanhola não tenha feito constar do passaporte desportivo de Meyong os 12 minutos que jogou ao serviço do Albacete antes de ir para o Levante. Dura lex, sed lex, aplicada na letra e sem espírito algum. Para que a decisão se torne definitiva na ordem jurídica paralela do mundo do futebol só falta mesmo a publicação no diário oficial, ou seja, a alteração da classificação na tabela da Bola.

terça-feira, abril 29, 2008

O Atlântico, o Doutor Salazar e algumas décadas

Estava a trabalhar e a ouvir um CD do West Side Story que comprei há dias quando decidi fazer uma pequena pausa para circular pelos blogs habituais. Ao passar pelo Arrastão, dei conta de mais um post do Daniel Oliveira a recordar a Eurovisão, desta feita com um post da nossa canção estreante, em 1964, a Oração. Parei o Bernstein, onde os Jets cantavam ameaças aos Sharks, e pus a tocar o António Calvário.
Eloquente como só a música o pode ser, fica um retrato do fosso entre a canção nacional, sadia, devota e honesta do Festival da Canção do Doutor Salazar, e a explosão de vitalidade e ritmo das ruas de Nova York, escrita e estreada 7 anos antes da primeira lusa aventura na Eurovisão.
Com o 25 de Abril fresquinho na memória, eis a oferenda de mais um argumento para revelar as portas que Abril abriu. Oiçam, comparem e digam-me lá se preferem o Portugal do Estado Novo, mantendo o País no congelador da História e impondo uma estética musical, ou a abertura artística das sociedades livres e democráticas.
António Calvário, Oração (1964)
West Side Story, America (1957)

El comandante?


Se somos todos cubanos e Alberto João Jardim pondera candidatar-se a líder nacional, não signifícará isto que é candidato a Fidel?

sexta-feira, abril 25, 2008

quinta-feira, abril 24, 2008

Vai tudo abaixo


Isto de se interromper longamente a colaboração num blog é coisa que precisa de ser corrigida com um bom pretexto. O meu preparava-se para ser o facto de o PSD estar prestes a fechar um longo e negro período de rebaldaria e repor a dignidade no combate político ao confiar a liderança a uma mulher séria e que sempre apreciei, mesmo que politicamente se situe nos meus antípodas. Preparava-me, finalmente, para fechar um arco de discussão política numa conciliação com esse partido da direita, elogiando-o por ir elevar o combate político e dar realmente de que fazer a um primeiro-ministro cada vez mais convencional e acomodado. Até que a coisa chegou ao ponto de Alberto João Jardim e Santana Lopes serem candidatos viáveis à liderança.
O meu regresso é definitivo (pelo menos até à próxima ocasião). A minha congratulação pela redenção do PSD fica adiada.



quinta-feira, março 27, 2008

Parcerias Saúde

Assistiram-se nas últimas semanas a dois recuos claros do Governo em matéria de Parcerias Público-Privadas no sector da Saúde: Devolução do Hospital Amadora Sintra à gestão pública e equacionamento da possibilidade de trocar a gestão privada por gestão pública nos novos Hospitais previstos para Évora, Lisboa, Póvoa, Gaia, Sintra e Algarve.

A desconfiança existente face aos objectivos de maximização de resultados, inerentes à actividade dos operadores privados, é óbvia na maior parte dos sectores e especialmente acentuada na Saúde, onde todos esperamos que na hora de sermos tratados não se olhem a despesas e não se poupem esforços.

Desconheço os motivos que levaram à revisão no modelo de Parcerias e a esta tendência de recuo, mas presumo que esta desconfiança relativamente aos privados, as dificuldades de concertação sentidas no Amadora-Sintra e a natural orientação de esquerda do Governo tenham contribuído decisivamente.

Para compreendermos como funciona o modelo de contratualização Público-Privada a primeira informação que é necessário reter é que a gestão de uma Unidade de Saúde em regime de Parceria Público-Privada compreende um Contrato de Gestão negociado e assinado entre o Privado e o Ministério da Saúde que obriga o Parceiro privado a um conjunto de exigências e objectivos de monitorização, qualidade e excelência que vão muito além do que é exigido e praticado na maioria dos Hospitais Nacionais.

É também necessário assumir que esta desconfiança existente sobre os operadores privados, o rigor do Contrato de Gestão e a monitorização irrestrita e permanente das Adminsitrações Regionais de Saúde, também elas monitorizadas pelo Tribunal de Contas e outras instituições competentes, geram um ambiente que, sendo por vezes excessivo e pouco razoável na transferência de risco para o Privado, obriga efectivamente a uma Gestão realmente orientada para a excelência do serviço e contraria a eventual tendência do privado comprometer a diferenciação dos serviços prestados para obtenção de melhores resultados.

Dou-vos o exemplo daquele que é o primeiro Hospital no novo regime de contratualização Público-Privada, o Centro de Medicina de Reabilitação do Sul, e que será brevemente a única parceria Público-Privada na gestão de Hospitais em Portugal. Quero deixar aos leitores da Boina alguns esclarecimentos sobre este tema e alguns resultados da experiência (ainda curta) da gestão de um Hospital em parceria Público-Privada com ganhos efectivos para o Doente, para o SNS e para Privado (por esta ordem de importância).

Na prática para o doente a vantagem é usufruir dos equipamentos de ponta que são exigidos no contrato e cuja renovação periódica é obrigatória, o que muitas vezes não acontece na gestão pública, pagando apenas, quando aplicável, as mesmas taxas moderadoras das restantes Unidades do SNS. Por outro lado, o estatuto de “privado” e a maior cultura de cliente associada também cria melhores condições para os doentes serem mais exigentes com os vários serviços conduzindo naturalmente à sua melhoria. Embora os ganhos de saúde sejam difíceis de comparar entre instituições, uma vez que não se usam nos restantes hospitais métricas claras para avaliar os resultados clínicos, o prestador Público-Privado está obrigado por contrato a medir os seus resultados com recurso a escalas internacionais amplamente divulgadas nas que tem obtido resultados muito interessantes, que comprovam aumentos significativos e cumprimento constante de objectivos nas escalas Funcionais e Cognitivas aplicadas aos doentes que permitem “devolver os doentes ao exercício pleno da Cidadania” (frase inscrita na missão da empresa). Este Hospital tem obtido resultados muito positivos nos inquéritos à satisfação dos doentes e tem sido comparado, sempre positivamente, com outras instituições semelhantes nacionais e internacionais.

O ganhos desta Parceria para o Serviço Nacional de Saúde são bastante evidentes uma vez que já deixou de gastar mais de um milhão de euros com este hospital pela transferência dos encargos de arranque e dos custos dos primeiros trimestres de actividade para o operador Privado e, qualquer que venha a ser a produção do Hospital no futuro, o Contrato de Gestão prevê os mecanismos que garantem que os custos com o modelo Público-Privado estejam sempre bastante abaixo do Custo Público Comparável (custo que o Estado teria com a Gestão pública de um Hospital Similar). A prova disto está nos próprios preços cobrados por este hospital ao SNS (em média mais de 15% abaixo do preço da tabela do SNS).

O parceiro privado no Centro de Medicina de Reabilitação do Sul teve prejuízos no valor de um milhão de euros em 2007 mas prevê começar a libertar dinheiro já em 2008 e a obter resultados positivos a partir de 2009. Estes resultados serão obtidos através de uma gestão ágil e de uma cooperação com a ARS que garanta uma referenciação eficaz dos doentes e a correcção de alguns erros de contrato que impedem a facturação total dos serviços prestados.

Uma última palavra para uma opinião pessoal (diz que é uma espécie de disclaimer de esquerda). O papel das Parcerias no volume global da prestação de cuidados no SNS deve ser sempre moderado para garantir ao Estado uma capacidade de controlo real da actividade dos Privados na Saúde. No contexto Nacional em caso de (inevitável?) concentração dos Operadores privados de Saúde neste mercado de muito pequena dimensão, se o Estado perder a vocação de prestador maioritário de Cuidados de Saúde perderá a sua capacidade de negociar e controlar os Contratos de Gestão e perderá sobretudo, a capacidade de suspender ou não renovar um contrato que não esteja a revelar-se favorável (como aconteceu no Hospital Amadora Sintra).

A defesa, que eu subscrevo, do Estado como prestador principal de cuidados de Saúde não deve impedir a aplicação racional deste modelo de Parcerias Público-Privadas que contribui para a melhoria dos cuidados aos Utentes, para a sustentabilidade do SNS e para uma participação dos Privados dentro do contexto do SNS. Na minha opinião o caminho passa mais pela aplicação racional (e racionada) deste modelo do que pela substituição da vocação de prestador do SNS por uma função de mero pagador com a abertura (anunciada?) de cada vez mais convenções que já comprovaram ser também de difícil controlo e muito menos proveitosas para o Estado.

quarta-feira, março 12, 2008

Matemática parlamentar

Retomando o capítulo da vida eleitoral alemã, há algumas novidades. Em Hamburgo, caminha-se com cada vez mais probabilidade para uma inédita coligação CDU-Verdes a nível estadual. Depois de grande abertura negocial demonstrada pela CDU, os "realistas" nos Verdes prevaleceram e conseguirarm alcançar das bases o OK do partido à condução de negociações.

Por outro lado, em Hessen, as coisas não estão fáceis. Depois de muita discussão e tensão interna, o SPD local está disposto a avançar com uma coligação com os Verdes, tolerada parlamentarmente pela Linke. A passar, seria a primeira vez que o modelo ocorreria num Estado "ocidental". No entanto, uma deputada do SPD, por sinal detentora de mandato directo, não só se prepara para recusar a solução encontrada pelo partido, como se recusa em renunciar ao mandato.

Mudança forçada

E para quem pensava que a emoção política nos EUA se cingia à campanha eleitoral, eis que o Governador do Estado de Nova York, Eliot Sptizer, é apanhado num escândalo sexual "à antiga". Aparentemente, o ainda governador terá sido apanhado a utilizar os serviços de uma rede de prostituição e a sua demissão está iminente. Eleito expressivamente após doze anos de governação republicana e portador de um currículo impressionante enquanto advogado e promotor público a carreira de Spitzer parece estar a caminhar para o fim.

Ironicamente, para além das suas mais destacadas acções, entre as quais avultam o desmantelamento da família Gambino e uma série de casos de crimes de colarinho branco em Wall Street, a lista de vitórias de Spitzer inclui também o desmantelamento de uma rede de prostituição em Staten Island, em 2004...

O homem que aguarda o desfecho do episidónio é o Vice-Governador, David Paterson, que pode tornar-se o primeiro negro a chegar ao posto de governador do Estado de Nova York e o único invisual a tornar-se governador de um Estado americano. Apesar das causas da sua provável ascensão não serem as melhores, não deixa de ficar no ar um sinal de mudança que pode ser útil a algum candidato presidencial...


terça-feira, março 11, 2008

Cheguem-se pra lá


Como havia cá poucos, Rui Marques inventou mais um partido, que é a solução mais velha nos manuais para resolver os problemas da política. Este chama-se Movimento Esperança Portugal - não sei se estão a ver a inspiração obamista da coisa; provavelmente Rui Marques achou que "Movimento Esperança e Mudança" fosse uma indesejável cacafonia (se bem que desse uma bela sigla).
Mas preparemo-nos: com Barack Obama Presidente é inevitável que o seu exemplo frutifique em muitas imitações sem a qualidade do original.
Por paradoxal que possa parecer, esta é uma das razões por que sou admirador de Obama: o observador céptico vê o homem para ali a falar e tem-se a sensação de que aquilo pode descarrilar a qualquer momento para uma coisa sem sentido. Mas não. No fim gosta-se. O círculo completa-se, a ideia permanece. Naquele tipo de discursos, é muito difícil não resvalar para a demagogia fácil ou para uma espécie de misticismo tipo homilia religiosa.
Pelo contrário, a inspiração de Obama (não me canso do termo, ainda que esgotado pelos detractores) faz-me acreditar no regresso da política, cada vez mais substituída na acção governativa por uma espécie de messianismo tecnocrático, em que o importante é saber dissecar os assuntos até ao ínfimo pormenor, pôr as vírgulas antes das casa decimais e executar um programa político-eleitoral até ao fim levando tudo à frente, como se do caderno de encargos de uma empreitada se tratasse.
Obama não. Mesmo que haja muita gente a retirar o tipo errado de inspiração.

segunda-feira, março 10, 2008

Música para a semana

R.E.M. - Nightswimming

Até à próxima

Não costumo futebolar por estas bandas, mas hoje quero deixar uma nota para a saída de José António Camacho do Benfica. Apesar do segundo lugar e de ainda estar em disputa na Taça UEFA e na Taça de Portugal, é inequívoco que a actual época não tem corrido bem. Ciente de que não teria capacidade para dar a volta à situação, e não tentado argumentar com lesões, com a entrada depois do início da época ou com os resultados que ainda assim estão ao alcance do clube, Camacho coloca o lugar à disposição e abre a porta ao aparecimento de uma solução capaz de melhorar a qualidade dos resultados.

Enquanto entusiasta do regresso de Camacho à Luz, tenho pena que o desfecho seja este (talvez a agoirenta máxima de que não se deve voltar aos sítios onde fomos felizes...) Para além da enorme dignidade da atitude, Camacho conserva quase intocado o seu papel na história do clube e, provavelmente, o capital de simpatia que tem entre os adeptos. Boa sorte para as próximas empresas e, quem sabe, até qualquer dia, porque mesmo as máximas agoirentas conhecem excepcções...

ZP Presidente


Confirmadas as expectativas, o PSOE ganha as eleições e arranca para mais quatro anos no bom caminho. Pessoalmente, dificilmente encontro um programa político com o qual me consiga sentir mais identificado: Respeito pela memória, igualdade para todos, laicidade, educação para a cidadania, combate à discriminação, promoção da integração e inclusão dos imigrantes, política externa em sintonia com as exigência do direito internacional, reforço das autonomias, políticas sociais eficazes e orientadas para os jovens e manutenção de um papel adequado para o Estado na economia.


Apesar de não chegar à maioria absoluta, o PSOE terá conquistado pelo menos mais 5 deputados, reforça o número de senadores e mantém opções ao centro e à esquerda para recolher os apoios que faltam para a governação.

sexta-feira, março 07, 2008

Matemática Eleitoral


Mesmo com o resultado das primárias de terça-feira passada, a contagem de votos e de delegados é claramente favorável a Barack Obama. O estado do Texas tem a particularidade de fazer utilizar ambos os métodos de escolha, atribuindo 126 delegados em primárias e 67 em caucuses e, se bem que Hillary tenha ganho as primárias com 51% dos votos, a contagem de votos nos caucuses, ainda a ser processada, vai dando a Obama a vantagem com 56%. As projecções da campanha de Obama apontavam ontem para que Hillary tivesse um saldo positivo de 4 delegados face a Obama no conjunto dos quatro Estados disputados, mas na CNN falava-se mesmo que a contagem definitiva de votos no Texas poderia dar a vantagem a Obama, aumentando a diferença para Hillary.

Estranho? Complicado?

Vamos um pouco mais longe. Apliquemos os dados destas primárias a um cenário de eleição geral, supondo que Hillary e Obama concorriam um com o outro à Presidência, cedendo à tentação de imaginar uma América sem Partido Republicano. Como o sufrágio é indirecto e o Presidente eleito por um colégio eleitoral em função do peso demográfico de cada estado no cômputo geral do país, apliquemos as regras de alocação de eleitores (538 no total), tendo presente que quem ganha um estado ganha a totalidade dos eleitores a ele atribuído. Num tal cenário, Hillary teria conquistado 219 eleitores, mercê de vitórias nos Estados mais populosos, contra apenas 182 de Obama.

Este cenário deixa propositadamente de fora os estados do Michigan e da Florida, cujas primárias foram dadas sem efeito porque as direcções locais desrespeitaram o calendário definido a nível nacional por ambos os partidos (embora a penalização dos republicanos consistisse em reduzir a metade o número de delegados do estado à convenção). A direcção do Partido Democrático proíbiu os candidatos de realizarem aí acções de campanha, mas as estruturas locais insistiram na realização das eleições. À excepção de Hillary Clinton e de Dennis Kucinich, todos os outros candidatos respeitaram essa imposição. Como foi a única candidata dos três favoritos a constar do boletim de voto, Hillary ganhou as eleições com enorme naturalidade.

Vamos então adicionar os eleitores destes dois estados à conta de Hillary, que fica assim com 263 e a apenas 7 de obter a maioria de votos no colégio eleitoral para ser eleita presidente. Se, Hillary vencer a Pennsylvania, estado onde as sondagens lhe dão larga vantagem, a maioria é largamente ultrapassada 284.

Obama teria de contentar-se com ser o candidato com mais votos (13.575.302 contra 13.281.636, fora os hipotéticos votos da Pennsylvania, embora seja de esperar que a diferença neste estado entre os candidatos não anulasse a diferença a nível nacional ), uma diferença proporcionalmente maior do que aquela de votos que Al Gore tev a mais do que George Bush em 2000, sendo que então Bush conseguiu apenas 271 votos no colégio eleitoral.´

Este é um exercício muito falível, porque há muitas variáveis que não podem ser tidas em conta numa análise deste tipo e que influenciariam certamente o resultado: a circunstância de em alguns estados só poderem votar eleitores registados no Partido Democrático e em outros só poderem votar estes e eleitores registados como independentes, o facto de as eleições se prolongarem no tempo, o que torna o cenário mais sensível à influência das dinâmicas de vitória dos candidatos na decisão dos eleitores dos estados que votam a seguir; e, sobretudo, a ausência de vários grupos demográficos que nunca votariam em qualquer destes delegados. Em suma, uma América diferente. Mas ainda assim, como cenário meramente hipotético, serve para perceber de que modo as regras da proporcionalidade permitem uma maior justiça na formação da vontade democrática do eleitorado. Estas são as regras adoptadas pelo Partido Democrático, mas não pelo Partido Republicano, nem pelo legislador constitucional americano. Estas são as regras que, em última análise, podem fazer com que a desvantagem de Hillary Clinton para Barack Obama seja virtualmente irrecuperável.

quarta-feira, março 05, 2008

18 aninhos

Não compro o Público todos os dias, mas quase todos. Não foi com o Público que ganhei o hábito de ler o jornal todos os dias, mas com o Diário de Notícias, que estava à disposição dos clientes do café que frequentava com os meus pais, como era hábito fazer depois de jantar, ainda rapazinho e antes de começar a fumar e a descobrir outros vícios igualmente transgressores que se fazem no café.
Mas o Público foi o jornal que escolhi como o meu jornal, da mesma forma que escolhemos as companhias e as amizades quando crescemos e passamos de meros espectadores a invervenientes na comédia da vida. Mas mais que as amizades, o Público tornou-se como que um familiar cuja falta se sente quando não está.
O Público é uma referência por causa de uma ideia muito própria de conceber um jornal, quer como veículo de informação, quer como objecto do quotidiano - os coleccionáveis, por exemplo, são realmente bons e não são lançados apenas para vender mais jornais.
O Director é capaz dos maiores dislates, mas os colunistas também são capazes de o pôr no lugar, e de fazerem o mesmo uns aos outros. Num país com uma muito pudica tradição de jornalismo sem linha editorial comprometida ideologicamente (como se isso por si só fosse garantia da independência e neutralidade devidas) mas em que muitas vezes se percebe o dedinho manipulador do autor da notícia, este é um pecado bem-vindo.
A crítica de artes e espectáculos, especialmente no Y e sobretudo nos títulos, anda perdida em textos narcicistas e de graçola fácil, muitas vezes superficiais, afirmando-se o estilo em prejuízo do sentido objectvo dos assuntos. Mas ainda assim vai sendo o melhor e mais completo suplemento deste tipo.
Por tudo isso, não queria deixar passar a oportunidade de assinalar os 18 anos do Público. Desejo apenas que a maioridade não lhes traga o juízo devido, porque de outra maneira não tem graça.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Noite pouco americana


Nos quatro prémios de representação entregues ontem no Kodak Theatre, nem um fica em casa. A outrora pouco estrangeirada Academia rendeu-se aos europeus que sacam os quatro homenzinhos dourados com grande limpeza. É certo que só um dos filmes era europeu, que a mobilidade cinematográfica anglo-americana é imensa e que já se esperava o resultado. Mas ainda assim, enquanto o Eduardo Serra não saca o Oscar, vamo-nos banhando de um pouco de chauvinismo cinéfilo europeu que um bocadinho de glória dos outros nunca fez mal a ninguém.

Já agora, aqui fica mais uma vez a recomendação a quem conduz a emissão na TVI: idealmente, falem só nos intervalos. Mas se têm mesmo que nos impedir de ouvir a cerimónia quando querem falar de trivialidades, pelo menos lembrem-se de desligar a porra dos microfones quando não estiverem a conversar, para o resto da malta não ter de ouvir-vos a mexer na cadeira ou a ajeitar a camisola.

Nem mais

Já tem mais de uma semana, mas vale a pena citar pela clareza e exactidão. Perante este post de Helena Matos em que a autora critica a "condescendência" para com a utopia marxista, equiparando-a à "utopia nazi", o Lutz do Quase em Português deixou este comentário (entre outros) na caixa de mensagens do post

É parte inerente e indissociável da utopia nazi a aniquilação ou pelo menos a escravização sistemática dos mais fracos. Isto significa que as barbaridades cometidas nos países ocupados, como Polónia URSS etc, são a realização directa da utopia nazi. Tal como o Holocausto. As barbaridades cometidos pelos marxistas Estaline e consortes, não ficam de facto, nem no que respeita a sua desumanidade, nem em quantidade, aquém das dos nazis. Mas elas são instrumentais. E isto é uma diferença importante, no plano moral. Pois significa que um adepto da utopia nazi aceita inevitavelmente, acreditando nela, na legitimidade e necessidade destas barbaridades. Um adepto da utopia marxista pode sê-lo com toda a coerência, e recusar liminarmente as barbaridades perpetradas pelos marxistas. Isto é tão claro que só não vê quem não quer ver. Também é claro que um apoiante do marxismo real, que tem conhecimento das barbaridades por este perpetrados, é moralmente responsabilizável por elas.

Êxodo

Agora que está toda a gente a ir para o Sapo uma pessoa que fica na Blogger não deixa de ter a sensação de que acabaram de construir uma cimenteira para incineração de resíduos industriais perigosos no bairro e que as casas vão começar a desvalorizar ainda mais...

Nova oportunidade

Um domingo em cheio para a extrema-esquerda dirão alguns. No caso de Chipre parece poder ter sido um domingo em cheio para a maturidade democrática e para a aproximação das duas metades da ilha dividida. O novo presidente cipriota, Demetris Christofias, é líder do Partido Comunista local. Uma verdadeira eleição de um chefe de Estado comunista (ao invés de outras ilhas), aceite com normalidade e com alguma esperança, uma vez que Christofias promete relançar as negociações para a reunificação da ilha, havendo sinais positivos do lado turco e apoio do candidato conservador derrotado.

A Alemanha também anda eleitoralmente interessante...

Este domingo escreveu-se mais um capítulo daquilo que pode ser a maior transformação do quadro partidário alemão desde o aparecimento dos Verdes na década de 80. Enquanto prossegur o impasse em Hessen, em Hamburgo as eleições da cidade-estado oferecem nova complicação pós-eleitoral, com causas semelhantes. Vamos por partes.
CDU ganha, mas perde maioria absoluta.
SPD faz progressos moderados.
Verdes perdem alguns pontos percentuais.
Liberais continuam de fora do parlamento.
Die Linke entra em mais um parlamento estadual, com mais de 6%.


Resultado imediato: não há coligações evidentes. Apesar de vir a gozar de uma super maioria, parece que não há paciência para mais uma grande coligação. Mantendo-se a intenção de afastar as coligações com a Linke, também a fórmula SPD-Verdes-Linke parece não vingar. Curiosamente, a solução apontada neste momento como mais provável pode passar por uma inédita coligação preto-verde (CDU-Verdes). Se tivessemos a mania dos alemães de dar nomes às coligações com base nas cores, entre nós podiamos chamar-lhe a coligação "táxi antigo".


Entretanto, a liderança do SPD, apesar de muitas incertezas e hesitações, deu luz verde à líder estadual em Hessen para uma eleição como chefe do Governo como o apoio da Linke. Solução idêntica é matematicamente possível em Hamburgo, se não fosse a oposição do candidato local do SPD. A CDU já avisa sobre perigosos trotskistas a aproximar-se do poder...


Não sou grande fã da Linke, mas já aqui escrevi que esta via das coligações pode não ser necessariamente uma alternativa muito má. Veremos...

De volta ao serviço na Bóina...

... parece que a sabática acabou mesmo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O virar da página

O Comandante-em-chefe de Cuba renunciou ao cargo de Chefe de Estado, mas não significa necessariamente que tenha renunciado ao poder. Figura polarizadora como é, não tardaram as reacções entusiasmadas de adeptos e detractores.
Fidel liderou um golpe de estado para derrubar um governo despótico e corrupto no quintal dos Estados Unidos, que muito convinha aos interesses americanos. O mais que se pode dizer do movimento revolucionário é que era de natureza patriótica, nem sequer de esquerda ou de direita. No entanto, as necessidades resultantes do realinhamento geo-político e estratégico assim operado empurraram-no para a esfera de influência da União Soviética, como forma de assegurar a sobrevivência do projecto revolucionário, mas também, não haja ingenuidade quanto a isso, a sua sobrevivência enquanto líder político.
Daí que, antes de ser herói ou vilão, Fidel Castro seja um caso exemplar de sobrevivência e adaptação às contingências da política. A sua figura suscita-me, por isso, apenas uma apreciação cínica: não acredito que seja o ditador facínora nem o líder democraticamente amado pelo povo que alguma esquerda diz. Parece-me que quando uma lista que recolhe 95% de votos não estamos perante uma eleição, mas sim de uma aclamação, com tudo o que isso acarreta de fragilidade democrática. Parece-me, também, que, para o tipo de ditadores a que estamos habituados, falta a Fidel uma quantidade séria de palácios sumptuosos e demonstrações de luxo, e o seu currículo regista alguns serviços desinteressados prestados ao seu povo.
O embargo económico a cuba tem sido a perfeita desculpa para Fidel. Enquanto os Estados Unidos não ultrapassarem o ódio a Fidel que se transmite de geração em geração de políticos, e, quem sabe, enquanto o estado da Florida tiver o peso que tem nas eleições e os dissidentes cubanos se constituírem como grupo eleitoral de especial influência, Fidel conseguirá sempre pôr o povo do seu lado contra a América. Até que isso mude, a História não o poderá julgar convenientemente.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A importância das palavras

A história não tem que ser destino. Pode ser uma lição para o futuro - e de vez em quando aparece alguém com a coragem de a articular.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vital Moreira diz muito bem

Vital Moreira tem muita razão quando denuncia a mania portuguesa de demonizar o oponente. O uso generoso de superlativos, as comparações abusivas, anacrónicas e de gosto duvidoso, e a desproporção muitas vezes gritante entre a substância do desacordo e a intensidade do insulto, são sintomas de um debate medíocre e de uma opinião pública excessivamente excitável.

Lembro-me que algures durante ou depois da guerra do Líbano de 2006, Vital Moreira comparou as violações do Direito Internacional perpetradas por Israel com a ocupação alemã do Leste da Europa durante a 2a Guerra Mundial.

Nessa altura perguntei-me porque é que os erros de Israel levam sempre - mais cedo ou mais tarde - a comparações cruéis, anacrónicas e de mau gosto com os arquitectos de Auschwitz.

Ficava muito feliz se Vital Moreira concordasse comigo quando digo que a fúria legítima contra a injustiça não justifica todas as piruetas retóricas.

domingo, fevereiro 10, 2008

Yes We Can

Depois de ficar em segundo nas eleições do New Hampshire, Barack Obama proferiu o inspiradoe inspirador discurso que o senhor will.I.am dos Black Eyed Peas converteu em música e neste videoclip realizado pelo filho de Bob Dylan, Jesse Dylan, que correu o mundo.

Já agora, se ainda não tiveram a oportunidade de ver:


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Alberto como ele mesmo

Alberto João Jardim mascarou-se dele próprio neste carnaval para nos sugerir a criação de uma Federação Portuguesa com a Madeira como estado Federado e ele próprio como Presidente do Estado Madeirense. Palavras para quê?

A primeira deliberação será assegurar que, nas futuramente instituídas primárias portuguesas, a Madeira vote sempre na super-terça-feira de Carnaval.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Quando é que eu já vi isto antes?


Hillary chorou outra vez. Deve ter olhado para as últimas sondagens.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Balas e Bolinhos II

Desta vez é mais bolos, sem balas. Os republicanos que fiquem com seus. Agora Obama tem o apoio de Hulk Hogan.

Proposta de tempo de antena aqui.

1 de Fevereiro de 1908

100 anos passados sobre a troca de tiros no Terreiro do Paço que levou deste mundo dois membros da família real, dois carbonários e um cidadão que foi apanhado na confusão, impõe-se partilhar umas linhas sobre sobre o assunto. 100 anos parecem não ter ainda sido suficientes para uma leitura desprendida e objectiva dos eventos. Tal deve-se em grande medida a algum marialvismo revivalista, que pretende pintar o evento em estilo de evocação de martírio e de demonstração da iniquidade do regime republicano e dos seus fundadores e que não se coíbe mesmo de evitar o ridículo (veja-se o que diz o Eng.º Duarte Bragança ao culpar o regicídio e a república pelo atraso do país).

Do outro lado da barricada, por seu turno, existe há muito uma linha iconográfica que eleva ao panteão dos heróis da República os regicidas Manuel Buiça e Alfredo Costa e que assinala o dia 1 de Fevereiro como um marco relevante no caminho para a mudança de regime. As vinte mil pessoas que compareceram nos funerais de Buiça e Costa e as homenagens e monumentos que a I República lhes dedicou selaram o seu papel de libertadores da pátria oprimida. Compreende-se que assim tenha sido na época, quando a questão estava quente e quando as paixões ideológicas exigiam a diabolização do adversário, o endeusamento dos regicidas e a justificação do facto. Hoje, querendo ser objectivo e desejando analisar sem essas paixões os eventos daquela tarde, não me custa nada reconhecer que o acto em causa foi e continua a ser criminoso. Por muito estimulante que possa ser, numa dimensão intelectual e filosófica, a discussão em torno da legitimidade para matar um tirano, Carlos de Bragança estava longe de preencher os requisitos associados ao perfil do opressor cruel cuja eliminação se poderia impôr legitimamente pela bala. Quisesse eu justificar o acto não o conseguiria, na medida em que o homicídio, seja ele político ou de outra sorte, dificilmente se desculpa, ainda mais dificilmente se justifica (e digo-o particularmente com um alcance jurídico).
Deste reconhecimento de que aquilo com o que lidamos é um crime motivado pela vontade em eliminar um adversário político, não se pode, por seu turno, retirar a imagem da vítima como um monarca constitucional que se atinha rigoroso ao espírito e à letra da Carta e pintar um D. Carlos democrático e um país liberal tão como o tinha sido no tempo do senhor Fontes, por exemplo. A ditadura de João Franco, suportada apenas no beneplácito do rei, estava longe de representar um expediente usual nas práticas da lusa monarquia constitucional. Se o conceito oitocentista de ditadura enquanto período de governação sem controlo parlamentar correspondeu, de facto, a diversas experiências governativas portuguesas, prontamente legitimadas a posteriori por bills de indemnidade, o consulado de João Franco já degnerara, em 1907, pela duração e natureza da anomalia constitucional, em fenómeno distinto, numa verdadeira ditadura, em sentido próprio ou moderno.

Também o facto de aceitarmos que de um crime se tratou não serve de mote para fundamentar a justeza do regime monárquico, ignorar a sua debilidade crescente e invalidar o carácter progressista e modernizador do programa republicano que triunfaria dois anos depois. E não serve também para provar o que quer que seja sobre as falhas da I República, o seu radicalismo ou o seu pessoal político - aliás, o regicídio será seguramente o exemplar mais indicado de um passo relevante na caminhada para a república dado à revelia da direcção do PRP e até contra a sua vontade. Não há, pois, lugar a patetices de dias de luto nacional, de plaquinhas em homenagem ao homem que morreu pela pátria e de extrapolações e juízos de valor revisionistas sobre a história daquele dia, do regime que viria a cair pouco depois e do regime que lhe sucedeu. Faça-se ciência e não velórios.

Em jeito de conclusão, penso que os meus sentimentos sobre o 1 de Fevereiro se resumem a duas ideias. Primeiro, penso que já tarda o momento em que se vai conseguir assinalar o evento no plano adequado, que me parece ser o da história e não o da política. Em segundo lugar, enquanto republicano, inspirado pela divisa da igualdade, fraternidade e liberdade, é me impossível saudar o regicídio como momento a comemorar, ainda que uma das suas consequências objectivas tenha sido a de acelerar a chegada da República. Porque acredito que esta vale por si mesma, e deve-se comemorar pelos valores que representa, não me custa nada, até penso que eticamente se impõe, deitar fora a simpatia ou complacência pelo acto dos regicidas.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Pioneiros


Ao cair do dia, a saudação à primeira tentativa republicana, na melhor tradição do Porto de 1820 e de 1832-34.

Felinos...




Um abraço ao Gato, que sobreviveu aos tigres...

A oeste algo de novo

Primeiro, vamos a eleições. Não as americanas, as do estado do Hessen.

Depois de uma aparente vitória do SPD, a CDU consegui ganhar no photo-finish (o,1%), ficando ambas as formações com o mesmo número de deputados (42 para cada). Depois, e pela primeira vez no "ocidente" todos os restantes partidos com expressão nacional conseguiram lugares no parlamento do Land: FDP com 11 deputados, Verdes com 9 e Die Linke com 6 (resultados aqui). De momento, tudo em aberto para formar governo:

Grande coligação? Com o divórcio nacional em curso e tendo em conta a dureza da campanha, não parece provável.

Semáforo (SPD, Verdes e FDP)? O FDP não parece alinhar, uma vez que está a fazer a corte à CDU a nível nacional, esperando poder regressar ao governo na próxima legislatura, caso os alemães fiquem com a Frau Merkel e enviem o SPD de regresso à oposição (o que na minha opinião só lhe faria bem).

Jamaica (CDU, Verdes e FDP)? Seria uma experiência inovadora ao nível estadual, mas, curiosamente, já experimentada autarquicamente nalgumas cidades, precisamente em Hessen.

Vermelho, vermelho-escuro e verdes? Trazer o partido da esquerda para o poder no ocidente aprentemente é ainda um tabu. Penso francamente que tem de deixar de ser. Não partilho do entusiasmo do Daniel Oliveira em relação à mais valia que possam representar para o futuro da esquerda na Alemanha. Penso é que chegou a altura de deixar de tratar os sucessores dos sucessores da SED como párias do regime político. Já estão no poder nalguns Estados do leste, receberam muitos dissidentes da ala esquerda do SPD com pergaminhos democráticos inatacáveis e os reciclados merecem, no mínimo, o tratamento dado aos sucessores dos ex-partidos únicos dos vizinhos do Leste. Um país que conseguiu ultrapassar a antiga militância na NSDAP de políticos de primeira linha da CDU dos primeiros anos da república federal (veja-se o caso de Kiesinger, chanceler de 66 a 69, cujo governo de coligação com o SPD, tendo Willy Brandt como vice-chanceler, representou uma forma muito alemã de reconciliação nacional).

Para acabar, e porque isto vai longo, ainda há a reter a lição que os jornais portugueses não aprendem. No DN de segunda-feira podia ler-se esta manchete: "Partido de Merkel perde as eleições no Estado de Hesse". Mas como falhar só numa coisa não tem charme (para isso já temos o Público), eles dão-lhe com outra: "Os Liberais FDP obtiveram 9,5%, os Verdes 8 %, e os esquerdistas do Die Linke 4,9%, o que significa que não conseguiram ultrapassar a barreira dos cinco por cento para eleger pela primeira vez deputados ao hemiciclo de Wiesbaden" E que tal esperar por resultados para a próxima?

De regresso


Já tinha saudades deste ar fresco da blogosfera. E a luz matinal e o nascer do sol vistos da blogosfera, meu Deus, esta luz que só se encontra por aqui. Nos meus delírios de grandeza já imagino o sururu (gosto desta palavra) que vai por aí: "Olha o gajo a voltar a tempo do aniversário do regicídio", "olha o gajo a vir desempatar entre o Obama e a Hillary antes que o David e o Gato se matem", "olha o gajo a vir comentar a transferência do Makukula para o glorioso".

Quanto ao regicídio, esperem por sexta-feira. Quanto às eleições americanas, esperem pela Supertuesday. Quanto ao Makukula, esperem pelos golos!

Confesso que estive tentado a regressar a escrever em sânscrito, uma vez que o português é uma língua excessivamente emocional para veicular boas ideias. Infelizmente, nem o teclado, nem os caracteres que tenho instalados mo permitiram e lá vão ter que gramar com este vernáculo galaico-português...

Vou ver se ainda está tudo no sítio. Até já.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

30 de Janeiro de 1948


Faz também hoje 60 anos que se apagou uma luz na escuridão, a Grande Alma de Mohandas Ghandi.

O profeta da Boina

Depois de almoçar deu-me para a profecia, e formou-se-me esta ideia no espírito.

Prognósticos das nomeações presidenciais nos Estados Unidos:

Partido Republicano:
John McCain e Rudy Giuliani

Partido Democrata:
Barack Obama e John Edwards

Esta é especialmente difícil, tendo em conta que Billary Clinton é Billary Clinton, e que John Edwards deve anunciar a sua desistência da corrida hoje e assumir-se como o Fazedor de Reis da campanha. A menos que Obama contrarie o efeito convidando Bill Richardson para a Vice (eleitorado hispânico), ou recorre ao arsenal nuclear: Al Gore, quem sabe?

30 de Janeiro de 1933


Faz hoje 75 anos que a escuridão se abatia sobre a Alemanha. Uma escuridão que em breve alastrava à maior parte da Europa. Que a memória nunca nos falhe e que nos lembremos sempre das vítimas, dos heróis, e dos carrascos. Foi ontem.

terça-feira, janeiro 29, 2008

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O factor K



Só faltava mesmo Camelot entrar no conto de fadas.
O apoio de Caroline Kennedy, a filha de JFK, ao conterrâneo de Lincoln num editorial no NYT, é um gesto de enorme carga simbólica. Mas o apoio, hoje, do tio Ted Kennedy (e do filho Patrick) é mais do que isso: descansa os militantes destacados de que não há que temer apoiar Obama contra os Clinton, dá-lhe credibilidade e consistência junto dos sindicatos e do voto hispânico antes da Super Terça-Feira e põe os media a falar do assunto durante muito tempo.

A estratégia de Bill Clinton em descarregar munições em cima de Barack Obama, para além de fazer da esposa um adereço da opereta que o próprio criou, e para além de uma derrota mais estrondosa do que esperado na Carolina do Sul (menos de metade dos votos de Obama), tem desiludido muito boa gente, dentro e fora do Partido Democrático, que se tem vindo a colocar na órbita de Obama. Quem acompanha a internet das primárias (este é um bom sítio para o fazer) tem-se vindo a aperceber disso. A próxima pode muito bem ser a prémio Nobel da Literatura Toni Morrison - a tal que chamou a Bill Clinton o primeiro presidente negro da América.

domingo, janeiro 27, 2008

A Boina Agradece

O líder do PSD Algarve decidiu ontem à noite comparar a ASAE à PIDE. A Boina agradece ao Deputado Mendes Bota por ter resistido a uma "irresistível comparação" com as SS, à la MST, que seria ainda mais cretina.

sábado, janeiro 26, 2008

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Balas e Bolinhos



O Partido Republicano dos Estados Unidos assiste a um reviver dos bons velhos tempos da Guerra Fria, com o apoio de dois símbolos da "cultura" americana da época a diferentes candidatos: o Coronel James Braddock de Desaparecido em Combate e John Rambo.
Chuck Norris apoia Mike Huckabee:



e Sylvester Stalone manifestou a sua simpatia por John McCain, esse sim, um prisioneiro de guerra:



Quem ganhará um duelo destes? Bem, Chuck Norris desenvolve a sua explicação no vídeo que se segue. Pela a forma cândida, quase ternurenta, como se explica, nada consentânea com um verdadeiro herói, aposto no Rambo.


Nicolas, estás feito!

Está aqui a entrevista toda. Fica a passagem que mais interessa. Está-me a parecer que Sarko ou calculou muito mal, ou então está mesmo apaixonado e cometeu suicídio político.

MONOGAMIE « Je suis fidele… à moi-même ! (Elle rit.) Je m’ennuie follement dans la monogamie, même si mon désir et mon temps peuvent être reliés à quelqu’un et que je ne nie pas le caractère merveilleux du dévelopement d’une intimité. Je suis monogame de temps en temps mais je préfère la polygamie et la polyandrie. L’amour dure longtemps, mais le désir brûlant, deux à trois semaines. Après ça, il peut toujours renaître de ses cendres mais quand même : une fois que le désir est appliqué, satisfait, comblé, il se transforme. Le pauvre, qu’est-ce que vous voulez qu’il fasse ? Moi, je ne cherche pas particulièrement l’établissement des choses : l’amour et le couple ne me rassurent pas. Je ne me sens jamais en couple, pourtant j’ai un amoureux que j’aime et qui vit avec moi. C’est mon côté garçon. D’ailleurs, comme les hommes, je sais très bien compartimenter. Je sais faire mais avec un avantage sur eux : ma précision féminine (elle rit). Je ne me plante jamais ! Je suis quand même complètement femme avec ces sentiments supposés féminins qui m’envahissent parfois : la responsabilité, la culpabilité, le remords. Et puis ça passe et je redeviens cette espèce de kamikaze qui ne veut qu’une chose : vivre, vivre, vivre ! »

quinta-feira, janeiro 24, 2008

A Boina recomenda: The Bugle


John Oliver é um dos argumentistas/repórteres do Daily Show de Jon Stewart, Andy Zaltzman não sei quem é, mas tenho razões para gostar dele: a sua lista de prendas de Natal incluía uma Nadia Comaneci de 10 metros, a maior melancia do mundo, uma partida de ping-pong com Hillary Clinton e um sotaque português (no fundo, no fundo, gosto destas paroquialidades).
Juntos fazem o The Bugle, um podcast do jornal britânico The Times, provavelmente das coisas mais hilariantes que se pode encontrar na internet.
Juntos é uma forma de dizer: na verdade, John Oliver vive em Nova Iorque e Zaltzman queda-se por Londres, mas a distância e o (des)enquadramento de um britânico na sociedade americana é uma das linhas condutoras do programa. Há a ocasional rubrica Ask an American, a secção Straight to the Bin, com histórias que os autores pensaram em desenvolver, mas que eram tão más que foram directamente para o cesto dos papéis, embora valha a pena falar delas no programa, e todas as outras secções que um jornal convencional tem, do Internacional ao Desporto, onde as equipas inglesas são adequadamente enxovalhadas. E também há lugar à parcialidade: veja-se a perseguição pessoal que Zaltzman move aos vizinhos do n.º 53 que lhe roubaram o caixote do lixo, ou a sua fixação por mulheres sensuais do passado, sobretudo Florence Nightingale - Margaret Thatcher foi considerada, mas desclassificada por ainda estar viva.
E há saídas do tipo «A China e os Estados Unidos chegaram a acordo em relação a medidas a tomar para reduzir os efeitos do aquecimento global. É o mesmo que o Hitler e o Estaline assinarem o acordo para promover os direitos das minorias étnicas.»

Vale a pena ouvir - e subscrever.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

As raízes da França

O Presidente da República francesa diz que descobriu que as raízes da França são "essencialmente cristãs". Vamos por partes.
A França não existia como nação até 1789. Era um reino. Um reino é bonito. Mas não é uma nação. Até 1789 existiam dinastias que se sucediam e que iam dilatando o seu poder a novas áreas geográficas de forma relativamente aleatória, ao sabor dos caprichos de Marte e de Vénus. A França em 1789 não tinha língua comum, representação política comum, vontade comum: era um acidente da história, um resultado de ambições dinásticas.
A nação francesa foi fundada da única maneira que se fundam as nações: pela expressão consciente de uma vontade comum, articulada através de instituições e/ou actos constitucionais.

Não é segredo para ninguém que a Revolução de '89 também foi uma revolução contra os privilégios eclesiásticos e o obscurantismo católico que tolhia a França. Antes de 1789 de facto o Reino da França era maioritariamente cristão. Mas eu cá acho que as raízes da França são os Francos, um povo germânico desagradável que foi pagão durante séculos. Não, esperem, eu acho que as raízes da França são os romanos, que foram pagãos durante séculos. Não, afinal as raízes da França são os Celtas, que no ranking do paganismo estão lá bem em cima. Portanto dizer que as raízes da França são cristãs é tão válido como dizer que são pagãs. Resumindo, esta macacada das "raízes" da França depende da imaginação de cada um. E a imaginação de cada um não chega para explicar as origens de comunidades políticas nacionais. Essas só podem ser fundadas pela vontade comum. E a vontade comum francesa teve que se afirmar contra o cristianismo francês que dominava no século XVIII. (Nem quero sequer entrar aqui no debate da contribuição das outras confissões religiosas para o que é a França hoje...)
O tom lamechas, pseudo-esotérico de Sarkozy representa mais uma faceta de um Presidente que quer ser tudo para toda a gente e que acaba por não ser nada: filósofo reaccionário da laicidade às 2as, 4as e 6as; garanhão mediático às 3as, 5as e Sábados; homem de Estado aos Domingos e feriados.
É muito pouco homem de Estado e demasiada mediocridade e diletantismo.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Lisbon for Obama


Resultados das eleições primárias em Lisbon, New Hampshire:

Barack Obama: 100 (39,7%)
Hillary Clinton: 89 (35.3%)
John Edwards: 52 (20,6%)
Bill Richardson: 9 (3,6%)
Dennis Kucinich: 1 (0,4%)
Chris Dodd: 1 (0,4%)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Problema resolvido - o Menino Barack Clinton Bhutto


Os paquistaneses é que sabem resolver problemas. Bilawal Bhutto, de 19 anos, sucede à mãe Benazir Bhutto, na liderança do partido. Por enquanto, a principal preocupação do rapaz é acabar o curso em Oxford.
Imagino que juntar a juventude de Obama ao direito dinástico de Hillary possa dar uma coisa destas.

Sim, mas...

Caro Gato, admito que estas presidenciais americanas mobilizam mais do meu entusiasmo do que qualquer eleição desde as legislativas portuguesas de '95 (outras em que não me deixaram votar "por ser menor de idade" - um escândalo). Vou mandar um envelope com o meu voto para Washington quer eles queiram quer não.

Mas não concordo com a tese de que o tema de "change" é novo (desde Iowa). É verdade que desde o caucus de Iowa se gerou um consenso à volta da centralidade deste conceito para os eleitores americanos (democratas e republicanos). Só as vitórias de Obama e Huckabee (ambos 'novatos') é que aparentemente trouxeram a confirmação empírica, aos olhos de muitos observadores, que o tema de "change"é o motor desta campanha. O que me parece é que esta conclusão é uma tremenda vitória de marketing para Obama, que já há muito tempo se apresenta como a encarnação do "change".
Eu continuo a achar que é fácil para Obama ser sexy, e que lhe falta substância. Espero que os leitores da Bóina Frígia concordem comigo e que não deixem de ir votar (bem) nas primárias Democratas de Lisboa e Vale do Tejo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Paz e serenidade


David, meu caro: a questão change nas eleições, em bom rigor, só se tornou um leit-motiv da campanha após os caucuses de quinta-feira, quando praticamente todos os candidatos, republicanos e democratas (a começar por Hillary, com Bill Clinton e Madeleine Albright por trás), puseram o termo no alinhamento dos seus discursos. Mas há um antes do Iowa, com propostas, posições políticas e comportamentos que nos permitem formular uma opinião.
Concordo que a adulação por Obama é irritante, como o é qualquer tipo de adulação em política. Gosto de Obama, gosto de Hillary, gosto de Edwards (embora este me pareça cair mais para o populismo). Para mim qualquer um deles dava um bom presidente. Mas neste exercício absurdo (ia dizer hilariante) em que a população do mundo se põe a defender candidatos para os quais não pode votar, inclino-me para Obama, por muitas e variadas razões, sendo que a oportunidade de mudança não é uma delas. Nem sou daqueles que acham que Obama devia ganhar só por pirraça, para que Hillary não julgasse que ser presidente é um direito de família.
Da mesma forma que acho que Hillary não deve ser penalizada por ser uma figura do establishment, penso que Obama não deve ser menorizado por se ter tornado num fenómeno de popularidade. Fazer do currículo de Hillary ou da fotogenia de Obama as questões decisivas na eleição é empobrecer o debate.

P.S.: Parece-me que a Boina pode dar-se ao luxo de ter defensores dos três principais candidatos democratas. Olha que bonito!

"I've been making change for 35 years!"


Começa a tornar-se insuportável o apoio acrítico que Barack Obama tem recebido de alguns. Até este blog foi infiltrado por eles... Obama é bom rapaz. E sério etc. Mas eu só o conheço há três anos. Assim é fácil advogar change, change, change. Não é experiência que falta a Obama: é história. Desde que me interesso por política que observo Hillary, conheço-a, e é também por conhecer os seus defeitos que estou mortinho por lhe dar o meu voto.
A mensagem populista de Edwards/Obama quer-nos convencer que tem andado tudo a dormir há 8 anos e que Washington está podre e que eles é que vão arregaçar as mangas e dar a volta a isto - mas é desmentida por dois factos:

1. Obama/Edwards se/quando chegarem ao poder vão ter que funcionar exactamente no mesmo enquadramento constitucional/institucional (com as suas virtudes e seus defeitos) que Bush e seus amigos; é irresponsável e demagógico vender a ilusão de que os EUA se vão transformar no "paraíso da classe média" só porque eles são uns tipos cheios de boa vontade; change é uma palavra agradável, não é um programa político;
2. Hillary, nos últimos anos, tem sido incansável como senadora em áreas tão diversas como segurança e defesa, ou segurança social.

Barack é negro. Change. Parabéns. Hillary é mulher. Change. 1-1.
Hillary já anda nisto há muito tempo e não me parece que tenha perdido nem um bocadinho do élan dos anos 90.
E seria tremendamente injusto penalizá-la por se dedicar à causa pública há mais de trinta anos.
A experiência não é tudo. Mas apoiar change só porque há uma cara nova nos ecrãs de televisão é irresponsável.

P.S: Adoro o Obama, hã, não se zanguem, mas estou farto da adulação pop de que é alvo. Vejam este vídeo que é bem elucidativo.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

É Obama!

Segundo as projecções de todos os canais, Barack Obama ganha os caucusues no Iowa, seguido de Edwards e Clinton, por esta ordem mas empatados em percentagem de votos.
A registar:
  • Uma forte afluência às assembleias deliberativas por parte dos democratas;
  • Obama tem 57% dos votos na faixa dos 18 aos 29 anos; Hillary tem 45% dos votos nos maiores de 45 anos (dados CNN);
  • Obama aproxima-se dos 40% e ganha capital de simpatia e viabilidade enquanto candidato para os estados em que a sua cor de pele (e o nome) ainda possam ser uma questão;
  • Fala-se no peso do voto útil dos apoiantes de Bill Richardson que não ultrapassaram o número mínimo de votos para que o seu candidato pudesse recolher delegados. Fala-se que Bill Richardson pode vir a ser o candidato a Vice-Presidente se Obama ganhar a nomeação. O primeiro Presidente Negro dos Estados Unidos e o primeiro Vice-Presidente Hispânico? Parece abusar demasiado da sorte.
A corrida ainda agora começou e faltam as etapas de alta montanha. Obama dizia há pouco tempo: «Sou um negro chamado Barack Obama a concorrer para Presidente. Quer dizer, é mesmo preciso ter esperança».

Do lado republicano a taça foi para o pastor-evangélico-defensor-do-criacionismo Mike Huckabee. Mas essa é um telenovela completamente diferente, se pensarmos que Rudy Giuliani desertou para a Florida e Mitt Romney ainda tem rios de dinheiro para gastar. Atrevo-me a dizer que aí estará a verdadeira emoção.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Benazir Bhutto (1953-2007)

Por muito que nos procuremos convencer do contrário, identificando grandes tendências ou evoluções imparáveis e objectivamente palpáveis, a História tem momentos de viragem inesperados, muitas das vezes directamente associados ao percurso individual de seres humanos concretos. O desaparecimento de Benazir Bhutto é daqueles momentos de convulsão repentina, de irreversibilidade das rodas dos acontecimentos que revelam a potencial fragilidade das instituições (exarcebada, neste caso, pela efectiva instabilidade do sistema político). Benazir Bhutto será sempre uma figura controversa, multifacetada, geradora de amores e ódios entre os seus concidadãos e objecto de juízos distintos da história: se por um lado a sua governação foi marcada por instabilidade, acusações de corrupção e ineficácia, deixa também um legado considerável, desde logo como primeira mulher a assumir a chefia do Governo num país muçulmano.

É quase inevitável observar os traços que a aproximam da outra mulher que marcou a vida do subcontinente indiano, Indira Gandhi: a tradição e sucessão política familiar, o triunfo político numa sociedade tradicional e patriarcal, a personalidade marcante e larger than life e a morte trágica, na sequência do desafio aos adversários. Não é, porém, minha intenção deixar um panegírico de Benazir Bhutto, ou de minorar a análise dos seus defeitos. Como disse, os juízos negativos não deixarão de ter o seu lugar quando se escrever a sua história. Mas no rescaldo imediato do seu assassinato, é importante não esquecer, é mesmo imperativo realçar, que foram as suas qualidades que determinaram o seu fim trágico.
A Benazir Bhutto que ontem foi alvo da violência sangrenta do seu assassino extremista foi a mulher determinada em regressar ao país numa altura crítica para o futuro, com a intenção de disputar uma eleição e aceder ao poder pela via democrática, que não desistiu perante concretas ameaças à sua vida e que atacou com coragem os extremismos fundamentalistas que querem destabilizar o Paquistão (as madrassas radicais, por exemplo). Foi em campanha, após um comício, em contacto directo com os eleitores, momentos por excelência do processo democrático, que perdeu a vida. E foi precisamente por simbolizar, em grande parte, uma possibilidade de regresso à democracia que foi abatida por extremistas. É por isso não só um mau dia para o Paquistão e para a região, mas para todos os que se revêm na determinação democrática demonstrada por Benazir Bhutto.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Prenda de Natal

Madeleine Peyroux canta Dance me to the end of love (ilustrado por momentos de film noir).


domingo, dezembro 23, 2007

Rudolph, the Red-Nosed reindeer, em Yiddish

Bem sei que o conceito de tradição judaico-cristã não é exactamente isto, mas pode ser útil para alguém, sei lá...

Melhor que o original

Qual Santana Lopes de segunda, qual carapuça. Luís Filipe Menezes bate o seu modelo aos pontos. Onde é que já tinhamos visto, num espaço de menos de duas semanas, e depois da novela da sua intervenção em Lisboa, um acumular de coisinhas tão boas como estas:


- O Governo devia pedir desculpa pelos homicídios na noite do Porto.

- A recusa em apresentar programa político alternativo pelo PSD, perante a certeza de que seria desfeito pela equipa de Pedro Silva Pereira. (Pergunto qual é o plano para as legislativas de 2009. Será na lógica de "tenho ideias muito boas mas não digo, não digo...")

- O plano de, em meia dúzia de meses, "liberalizar a legislação laboral (...) e desmantelar de vez o enorme peso que o Estado tem e que oprime as pessoas", afirmando que o "Estado deve sair do ambiente, das comunicações, dos transportes, dos portos e, na prestação do Estado Social, deve contratualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social" Este pequeno excerto revela muitas coisas de uma assentada sobre o conhecimento da realidade pelo líder do PSD. Liberalizar é a noção sacralizada, seja na legislação laboral, seja no papel do Estado. Gosto particularmente da ideia de que o Estado deve "sair do ambiente". Desregular? Abandonar as tarefas de conservação impostas pela Constituição e pelo Direito Comunitário? Com franqueza, duvido que neste tópico Menezes tenha sequer a ideia do que está a propor. Ainda quanto à saúde e à educação é interessante a ideia de acabar com monopólios. Pode ser que amanhã se torne possível a existência de hospitais, clínicas, escolas e até, quem sabe, universidade privadas...

- A ideia fantástica de que o PS quer controlar o BCP. Poderoso este PS que põe gente como António Mexia a promover a nova solução para a administração do BCP. Igualmente curioso que pessoas como Paulo Teixeira Pinto, Miguel Cadilhe ou Miguel Beleza tenham integrado os conselhos de administração do BCP e que Menezes nunca se tenha insurgido por eventuais tomadas do banco pelo PSD.


- Associada a esta última ideia, veio a sugestão de Miguel Cadilhe para presidente da Caixa Geral de Depósitos, perante a saída provável de Santos Ferreira. Curiosamente, Cadilhe é um dos antigos administradores do BCP que, face aos recentes desenvolvimentos na instituição, está inibido pelo Banco de Portugal de voltar a assumir funções na direcção do (ainda) maior banco privado português. Um bom momento para o propor como a escolha credível para a Caixa, sem dúvida.


O que reservará o próximo Ano?

sábado, dezembro 22, 2007

Anúncio da quadra

História de Natal

Eddie Izzard e o Natal

Ahhhh, o Natal...

É só impressão minha ou já começou o abrandamento imparável da blogosfera da época natalícia? Não tarda muito vamos começar a fazer o balanço do ano que passou (se antes disso não entrarmos obedientemente no espírito da época e fizermos sugestões de prendas...). Para já, a não ser que haja golpe de Estado ou invasão alienígena, deixo uma série de "posts natalícios".

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Um funcionário, um quê?

Segundo o site da Câmara Municipal de Lisboa o Presidente entregou 1064 brinquedos recolhidos pelos funcionários do Município no âmbito da iniciativa "Um funcionário, um brinquedo".
Já não falo da putativa avareza dos funcionários (sabendo que os brinquedos entregues foram 1064 e os funcionários são para aí uns dez mil). Mas, com as medidas orçamentais draconianas que se conhecem, o título da iniciatva parece-me um trocadilho perigoso, dinamite para qualquer sindicalista mais quezilento.

Olha, olha, a Bóina Frígia faz hoje 3 anos




Dicas para jantares de Natal que se avizinham

Smith & Jones

Fumo bege

Governo na Bélgica!
Mas não se entusiasmem. É só um governo "interino" até Março e que pode apenas representar um intervalo na crise política, dando alguma estabilidade à governação até que haja entendimentos definitivos entre os diversos partidos. É também verdade que é uma formação cheia de peculiaridades. Senão vejamos.

Em primeiro lugar, o primeiro-ministro será o até aqui cessante Verhofstadt, que perdeu as eleições de Junho, enquanto um dos vice-primeiro-ministros será Leterme, o vencedor das eleições de Junho. Os socialistas, que perderam o primeiro lugar na Valónia, acabam por integrar o Governo, quase que confirmando a profecia de que não se governa a Bélgica sem o PS. Aparentemente não basta ganhar, há que saber gerir a vitória.

Em segundo lugar, o anúncio de que se trata de um período de espera até à Páscoa, para permitir a Leterme negociar o que falta e poder assumir funções de primeiro-ministro em Março é demolidor para as suas capacidades políticas - não só falha durante 180 dias o que Verhofstadt consegue (interinamente, é certo) em duas semanas, como ainda fica sob a sua tutela durante os próximos três meses.

Finalmente, o governo "pentapartidário", composto por liberais flamengos (3 ministros) e liberais valões (3 ministros), cristãos-democratas flamengos (4 ministros) e cristãos-democratas valões (1 ministro) e socialistas valões (3 ministros) afigura-se como tudo menos pacífico. Para além de nos bastidores continuarem as negociações para preparar o próximo executivo, as relações entre os diversos partidos continuaram tensas e o equilíbrio parece ser precarário (desde logo, o empate a 7 entre francófonos e flamengos na distribuição das pastas apenas mascara a profunda divisão que o sistema político atravessa).

Instável, com uma legitimidade no mínimo curiosa e com prazo de validade, sempre é melhor ter este do que não ter governo nenhum. Ou será que não?

Man of the Year

Depois de o ano passado ter escolhido toda a gente como pessoa do ano (enquanto utilizadores das novas tecnologias), a Time volta a surpreender e escolheu Vladimir Putin para 2007. Conforme a revista tem dito há anos, a opção não representa uma homenagem, nem qualquer tipo de louvor ou recomendação. Segundo o editor, trata-se de escolher a pessoa que mais impacto teve nas vidas de outros e cujos actos moldarão o futuro nos anos seguintes. Nesta lógica, e segundo a revista, ninguém conseguiu impor a sua visão, ou restaurar estabilidade, prosperidade e orgulho aos russos como Putin.

A opção visa ser estritamente objectiva e não ter qualquer conteúdo axiológico e as escolhas passadas confirmam esta leitura: Andropov, Khomeini, Deng Xiaoping, Khruschev, Estaline (2 vezes) e o próprio Hitler (curiosamente, a foto na saiu na capa) figuram entre os vencedores. Apesar de tudo, isto não significa que não possa ser uma opção criticável: deve poder exigir-se um padrão diferente a uma revista de referência numa sociedade democrática. A apreciação dos resultados deve ser minimamente crítica, e a estabilidade, prosperidade e orgulho não podem ser vistos como susceptíveis de justificar quaisquer meios para as alcançar, particularmente quando estes assentam em autoritarismo, nacionalismo neo-soviético e repressão de liberdades fundamentais.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Contra a discriminação, pelo direito a discriminar

Nos escassos 12 dias que restam para o fim do ano ainda há tempo para disparates maiores, mas por enquanto a idiotice do ano pertence a Nuno da Câmara Pereira, deputado da Nação, com esta pérola, já não digo de intolerância, mas de lógica discursiva: «Ao instituir-se um dia mundial de luta contra a homofobia estar-se-ia, no fundo, a instituir um dia contra todos aqueles que pensam a sexualidade de modo distinto e, consequentemente, a colocá-los numa situação de discriminação».

The Sarkozys

Parece que Cecilia vai retaliar só que ainda não se decidiu entre Kevin Costner, Eric Clapton, Mick Jagger ou Donald Trump.

Meio da semana

Um piscar de olho aos que sabem.

Pink Martini - Je ne veux pas travailler

O seu a seu dono

Já chega das torpes insinuações que apontam para ligações entre membros da liderança dos SuperDragões e membros dos gangs da noite portuense! Não há "ligações" nenhumas, são mesmo as mesmas pessoas!
A este respeito, este post de Pacheco Pereira.

Cascata?

Recorrentemente invoca-se o argumento do "ai-os-outros" no que respeita ao recurso ao referendo: ao recorrer à consulta popular, Portugal estaria a deixar os demais governos numa posição sensível e incómoda, a braços com o potencial aparecimento de um efeito de cascata na exigência de referendos. E então? Se é um debate alargado sobre a Europa o que se pretende o argumento tem de valer para os 27 e não apenas na nossa West Coast...