segunda-feira, março 10, 2008

Música para a semana

R.E.M. - Nightswimming

Até à próxima

Não costumo futebolar por estas bandas, mas hoje quero deixar uma nota para a saída de José António Camacho do Benfica. Apesar do segundo lugar e de ainda estar em disputa na Taça UEFA e na Taça de Portugal, é inequívoco que a actual época não tem corrido bem. Ciente de que não teria capacidade para dar a volta à situação, e não tentado argumentar com lesões, com a entrada depois do início da época ou com os resultados que ainda assim estão ao alcance do clube, Camacho coloca o lugar à disposição e abre a porta ao aparecimento de uma solução capaz de melhorar a qualidade dos resultados.

Enquanto entusiasta do regresso de Camacho à Luz, tenho pena que o desfecho seja este (talvez a agoirenta máxima de que não se deve voltar aos sítios onde fomos felizes...) Para além da enorme dignidade da atitude, Camacho conserva quase intocado o seu papel na história do clube e, provavelmente, o capital de simpatia que tem entre os adeptos. Boa sorte para as próximas empresas e, quem sabe, até qualquer dia, porque mesmo as máximas agoirentas conhecem excepcções...

ZP Presidente


Confirmadas as expectativas, o PSOE ganha as eleições e arranca para mais quatro anos no bom caminho. Pessoalmente, dificilmente encontro um programa político com o qual me consiga sentir mais identificado: Respeito pela memória, igualdade para todos, laicidade, educação para a cidadania, combate à discriminação, promoção da integração e inclusão dos imigrantes, política externa em sintonia com as exigência do direito internacional, reforço das autonomias, políticas sociais eficazes e orientadas para os jovens e manutenção de um papel adequado para o Estado na economia.


Apesar de não chegar à maioria absoluta, o PSOE terá conquistado pelo menos mais 5 deputados, reforça o número de senadores e mantém opções ao centro e à esquerda para recolher os apoios que faltam para a governação.

sexta-feira, março 07, 2008

Matemática Eleitoral


Mesmo com o resultado das primárias de terça-feira passada, a contagem de votos e de delegados é claramente favorável a Barack Obama. O estado do Texas tem a particularidade de fazer utilizar ambos os métodos de escolha, atribuindo 126 delegados em primárias e 67 em caucuses e, se bem que Hillary tenha ganho as primárias com 51% dos votos, a contagem de votos nos caucuses, ainda a ser processada, vai dando a Obama a vantagem com 56%. As projecções da campanha de Obama apontavam ontem para que Hillary tivesse um saldo positivo de 4 delegados face a Obama no conjunto dos quatro Estados disputados, mas na CNN falava-se mesmo que a contagem definitiva de votos no Texas poderia dar a vantagem a Obama, aumentando a diferença para Hillary.

Estranho? Complicado?

Vamos um pouco mais longe. Apliquemos os dados destas primárias a um cenário de eleição geral, supondo que Hillary e Obama concorriam um com o outro à Presidência, cedendo à tentação de imaginar uma América sem Partido Republicano. Como o sufrágio é indirecto e o Presidente eleito por um colégio eleitoral em função do peso demográfico de cada estado no cômputo geral do país, apliquemos as regras de alocação de eleitores (538 no total), tendo presente que quem ganha um estado ganha a totalidade dos eleitores a ele atribuído. Num tal cenário, Hillary teria conquistado 219 eleitores, mercê de vitórias nos Estados mais populosos, contra apenas 182 de Obama.

Este cenário deixa propositadamente de fora os estados do Michigan e da Florida, cujas primárias foram dadas sem efeito porque as direcções locais desrespeitaram o calendário definido a nível nacional por ambos os partidos (embora a penalização dos republicanos consistisse em reduzir a metade o número de delegados do estado à convenção). A direcção do Partido Democrático proíbiu os candidatos de realizarem aí acções de campanha, mas as estruturas locais insistiram na realização das eleições. À excepção de Hillary Clinton e de Dennis Kucinich, todos os outros candidatos respeitaram essa imposição. Como foi a única candidata dos três favoritos a constar do boletim de voto, Hillary ganhou as eleições com enorme naturalidade.

Vamos então adicionar os eleitores destes dois estados à conta de Hillary, que fica assim com 263 e a apenas 7 de obter a maioria de votos no colégio eleitoral para ser eleita presidente. Se, Hillary vencer a Pennsylvania, estado onde as sondagens lhe dão larga vantagem, a maioria é largamente ultrapassada 284.

Obama teria de contentar-se com ser o candidato com mais votos (13.575.302 contra 13.281.636, fora os hipotéticos votos da Pennsylvania, embora seja de esperar que a diferença neste estado entre os candidatos não anulasse a diferença a nível nacional ), uma diferença proporcionalmente maior do que aquela de votos que Al Gore tev a mais do que George Bush em 2000, sendo que então Bush conseguiu apenas 271 votos no colégio eleitoral.´

Este é um exercício muito falível, porque há muitas variáveis que não podem ser tidas em conta numa análise deste tipo e que influenciariam certamente o resultado: a circunstância de em alguns estados só poderem votar eleitores registados no Partido Democrático e em outros só poderem votar estes e eleitores registados como independentes, o facto de as eleições se prolongarem no tempo, o que torna o cenário mais sensível à influência das dinâmicas de vitória dos candidatos na decisão dos eleitores dos estados que votam a seguir; e, sobretudo, a ausência de vários grupos demográficos que nunca votariam em qualquer destes delegados. Em suma, uma América diferente. Mas ainda assim, como cenário meramente hipotético, serve para perceber de que modo as regras da proporcionalidade permitem uma maior justiça na formação da vontade democrática do eleitorado. Estas são as regras adoptadas pelo Partido Democrático, mas não pelo Partido Republicano, nem pelo legislador constitucional americano. Estas são as regras que, em última análise, podem fazer com que a desvantagem de Hillary Clinton para Barack Obama seja virtualmente irrecuperável.

quarta-feira, março 05, 2008

18 aninhos

Não compro o Público todos os dias, mas quase todos. Não foi com o Público que ganhei o hábito de ler o jornal todos os dias, mas com o Diário de Notícias, que estava à disposição dos clientes do café que frequentava com os meus pais, como era hábito fazer depois de jantar, ainda rapazinho e antes de começar a fumar e a descobrir outros vícios igualmente transgressores que se fazem no café.
Mas o Público foi o jornal que escolhi como o meu jornal, da mesma forma que escolhemos as companhias e as amizades quando crescemos e passamos de meros espectadores a invervenientes na comédia da vida. Mas mais que as amizades, o Público tornou-se como que um familiar cuja falta se sente quando não está.
O Público é uma referência por causa de uma ideia muito própria de conceber um jornal, quer como veículo de informação, quer como objecto do quotidiano - os coleccionáveis, por exemplo, são realmente bons e não são lançados apenas para vender mais jornais.
O Director é capaz dos maiores dislates, mas os colunistas também são capazes de o pôr no lugar, e de fazerem o mesmo uns aos outros. Num país com uma muito pudica tradição de jornalismo sem linha editorial comprometida ideologicamente (como se isso por si só fosse garantia da independência e neutralidade devidas) mas em que muitas vezes se percebe o dedinho manipulador do autor da notícia, este é um pecado bem-vindo.
A crítica de artes e espectáculos, especialmente no Y e sobretudo nos títulos, anda perdida em textos narcicistas e de graçola fácil, muitas vezes superficiais, afirmando-se o estilo em prejuízo do sentido objectvo dos assuntos. Mas ainda assim vai sendo o melhor e mais completo suplemento deste tipo.
Por tudo isso, não queria deixar passar a oportunidade de assinalar os 18 anos do Público. Desejo apenas que a maioridade não lhes traga o juízo devido, porque de outra maneira não tem graça.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Noite pouco americana


Nos quatro prémios de representação entregues ontem no Kodak Theatre, nem um fica em casa. A outrora pouco estrangeirada Academia rendeu-se aos europeus que sacam os quatro homenzinhos dourados com grande limpeza. É certo que só um dos filmes era europeu, que a mobilidade cinematográfica anglo-americana é imensa e que já se esperava o resultado. Mas ainda assim, enquanto o Eduardo Serra não saca o Oscar, vamo-nos banhando de um pouco de chauvinismo cinéfilo europeu que um bocadinho de glória dos outros nunca fez mal a ninguém.

Já agora, aqui fica mais uma vez a recomendação a quem conduz a emissão na TVI: idealmente, falem só nos intervalos. Mas se têm mesmo que nos impedir de ouvir a cerimónia quando querem falar de trivialidades, pelo menos lembrem-se de desligar a porra dos microfones quando não estiverem a conversar, para o resto da malta não ter de ouvir-vos a mexer na cadeira ou a ajeitar a camisola.

Nem mais

Já tem mais de uma semana, mas vale a pena citar pela clareza e exactidão. Perante este post de Helena Matos em que a autora critica a "condescendência" para com a utopia marxista, equiparando-a à "utopia nazi", o Lutz do Quase em Português deixou este comentário (entre outros) na caixa de mensagens do post

É parte inerente e indissociável da utopia nazi a aniquilação ou pelo menos a escravização sistemática dos mais fracos. Isto significa que as barbaridades cometidas nos países ocupados, como Polónia URSS etc, são a realização directa da utopia nazi. Tal como o Holocausto. As barbaridades cometidos pelos marxistas Estaline e consortes, não ficam de facto, nem no que respeita a sua desumanidade, nem em quantidade, aquém das dos nazis. Mas elas são instrumentais. E isto é uma diferença importante, no plano moral. Pois significa que um adepto da utopia nazi aceita inevitavelmente, acreditando nela, na legitimidade e necessidade destas barbaridades. Um adepto da utopia marxista pode sê-lo com toda a coerência, e recusar liminarmente as barbaridades perpetradas pelos marxistas. Isto é tão claro que só não vê quem não quer ver. Também é claro que um apoiante do marxismo real, que tem conhecimento das barbaridades por este perpetrados, é moralmente responsabilizável por elas.

Êxodo

Agora que está toda a gente a ir para o Sapo uma pessoa que fica na Blogger não deixa de ter a sensação de que acabaram de construir uma cimenteira para incineração de resíduos industriais perigosos no bairro e que as casas vão começar a desvalorizar ainda mais...

Nova oportunidade

Um domingo em cheio para a extrema-esquerda dirão alguns. No caso de Chipre parece poder ter sido um domingo em cheio para a maturidade democrática e para a aproximação das duas metades da ilha dividida. O novo presidente cipriota, Demetris Christofias, é líder do Partido Comunista local. Uma verdadeira eleição de um chefe de Estado comunista (ao invés de outras ilhas), aceite com normalidade e com alguma esperança, uma vez que Christofias promete relançar as negociações para a reunificação da ilha, havendo sinais positivos do lado turco e apoio do candidato conservador derrotado.

A Alemanha também anda eleitoralmente interessante...

Este domingo escreveu-se mais um capítulo daquilo que pode ser a maior transformação do quadro partidário alemão desde o aparecimento dos Verdes na década de 80. Enquanto prossegur o impasse em Hessen, em Hamburgo as eleições da cidade-estado oferecem nova complicação pós-eleitoral, com causas semelhantes. Vamos por partes.
CDU ganha, mas perde maioria absoluta.
SPD faz progressos moderados.
Verdes perdem alguns pontos percentuais.
Liberais continuam de fora do parlamento.
Die Linke entra em mais um parlamento estadual, com mais de 6%.


Resultado imediato: não há coligações evidentes. Apesar de vir a gozar de uma super maioria, parece que não há paciência para mais uma grande coligação. Mantendo-se a intenção de afastar as coligações com a Linke, também a fórmula SPD-Verdes-Linke parece não vingar. Curiosamente, a solução apontada neste momento como mais provável pode passar por uma inédita coligação preto-verde (CDU-Verdes). Se tivessemos a mania dos alemães de dar nomes às coligações com base nas cores, entre nós podiamos chamar-lhe a coligação "táxi antigo".


Entretanto, a liderança do SPD, apesar de muitas incertezas e hesitações, deu luz verde à líder estadual em Hessen para uma eleição como chefe do Governo como o apoio da Linke. Solução idêntica é matematicamente possível em Hamburgo, se não fosse a oposição do candidato local do SPD. A CDU já avisa sobre perigosos trotskistas a aproximar-se do poder...


Não sou grande fã da Linke, mas já aqui escrevi que esta via das coligações pode não ser necessariamente uma alternativa muito má. Veremos...

De volta ao serviço na Bóina...

... parece que a sabática acabou mesmo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O virar da página

O Comandante-em-chefe de Cuba renunciou ao cargo de Chefe de Estado, mas não significa necessariamente que tenha renunciado ao poder. Figura polarizadora como é, não tardaram as reacções entusiasmadas de adeptos e detractores.
Fidel liderou um golpe de estado para derrubar um governo despótico e corrupto no quintal dos Estados Unidos, que muito convinha aos interesses americanos. O mais que se pode dizer do movimento revolucionário é que era de natureza patriótica, nem sequer de esquerda ou de direita. No entanto, as necessidades resultantes do realinhamento geo-político e estratégico assim operado empurraram-no para a esfera de influência da União Soviética, como forma de assegurar a sobrevivência do projecto revolucionário, mas também, não haja ingenuidade quanto a isso, a sua sobrevivência enquanto líder político.
Daí que, antes de ser herói ou vilão, Fidel Castro seja um caso exemplar de sobrevivência e adaptação às contingências da política. A sua figura suscita-me, por isso, apenas uma apreciação cínica: não acredito que seja o ditador facínora nem o líder democraticamente amado pelo povo que alguma esquerda diz. Parece-me que quando uma lista que recolhe 95% de votos não estamos perante uma eleição, mas sim de uma aclamação, com tudo o que isso acarreta de fragilidade democrática. Parece-me, também, que, para o tipo de ditadores a que estamos habituados, falta a Fidel uma quantidade séria de palácios sumptuosos e demonstrações de luxo, e o seu currículo regista alguns serviços desinteressados prestados ao seu povo.
O embargo económico a cuba tem sido a perfeita desculpa para Fidel. Enquanto os Estados Unidos não ultrapassarem o ódio a Fidel que se transmite de geração em geração de políticos, e, quem sabe, enquanto o estado da Florida tiver o peso que tem nas eleições e os dissidentes cubanos se constituírem como grupo eleitoral de especial influência, Fidel conseguirá sempre pôr o povo do seu lado contra a América. Até que isso mude, a História não o poderá julgar convenientemente.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A importância das palavras

A história não tem que ser destino. Pode ser uma lição para o futuro - e de vez em quando aparece alguém com a coragem de a articular.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vital Moreira diz muito bem

Vital Moreira tem muita razão quando denuncia a mania portuguesa de demonizar o oponente. O uso generoso de superlativos, as comparações abusivas, anacrónicas e de gosto duvidoso, e a desproporção muitas vezes gritante entre a substância do desacordo e a intensidade do insulto, são sintomas de um debate medíocre e de uma opinião pública excessivamente excitável.

Lembro-me que algures durante ou depois da guerra do Líbano de 2006, Vital Moreira comparou as violações do Direito Internacional perpetradas por Israel com a ocupação alemã do Leste da Europa durante a 2a Guerra Mundial.

Nessa altura perguntei-me porque é que os erros de Israel levam sempre - mais cedo ou mais tarde - a comparações cruéis, anacrónicas e de mau gosto com os arquitectos de Auschwitz.

Ficava muito feliz se Vital Moreira concordasse comigo quando digo que a fúria legítima contra a injustiça não justifica todas as piruetas retóricas.

domingo, fevereiro 10, 2008

Yes We Can

Depois de ficar em segundo nas eleições do New Hampshire, Barack Obama proferiu o inspiradoe inspirador discurso que o senhor will.I.am dos Black Eyed Peas converteu em música e neste videoclip realizado pelo filho de Bob Dylan, Jesse Dylan, que correu o mundo.

Já agora, se ainda não tiveram a oportunidade de ver:


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Alberto como ele mesmo

Alberto João Jardim mascarou-se dele próprio neste carnaval para nos sugerir a criação de uma Federação Portuguesa com a Madeira como estado Federado e ele próprio como Presidente do Estado Madeirense. Palavras para quê?

A primeira deliberação será assegurar que, nas futuramente instituídas primárias portuguesas, a Madeira vote sempre na super-terça-feira de Carnaval.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Quando é que eu já vi isto antes?


Hillary chorou outra vez. Deve ter olhado para as últimas sondagens.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Balas e Bolinhos II

Desta vez é mais bolos, sem balas. Os republicanos que fiquem com seus. Agora Obama tem o apoio de Hulk Hogan.

Proposta de tempo de antena aqui.

1 de Fevereiro de 1908

100 anos passados sobre a troca de tiros no Terreiro do Paço que levou deste mundo dois membros da família real, dois carbonários e um cidadão que foi apanhado na confusão, impõe-se partilhar umas linhas sobre sobre o assunto. 100 anos parecem não ter ainda sido suficientes para uma leitura desprendida e objectiva dos eventos. Tal deve-se em grande medida a algum marialvismo revivalista, que pretende pintar o evento em estilo de evocação de martírio e de demonstração da iniquidade do regime republicano e dos seus fundadores e que não se coíbe mesmo de evitar o ridículo (veja-se o que diz o Eng.º Duarte Bragança ao culpar o regicídio e a república pelo atraso do país).

Do outro lado da barricada, por seu turno, existe há muito uma linha iconográfica que eleva ao panteão dos heróis da República os regicidas Manuel Buiça e Alfredo Costa e que assinala o dia 1 de Fevereiro como um marco relevante no caminho para a mudança de regime. As vinte mil pessoas que compareceram nos funerais de Buiça e Costa e as homenagens e monumentos que a I República lhes dedicou selaram o seu papel de libertadores da pátria oprimida. Compreende-se que assim tenha sido na época, quando a questão estava quente e quando as paixões ideológicas exigiam a diabolização do adversário, o endeusamento dos regicidas e a justificação do facto. Hoje, querendo ser objectivo e desejando analisar sem essas paixões os eventos daquela tarde, não me custa nada reconhecer que o acto em causa foi e continua a ser criminoso. Por muito estimulante que possa ser, numa dimensão intelectual e filosófica, a discussão em torno da legitimidade para matar um tirano, Carlos de Bragança estava longe de preencher os requisitos associados ao perfil do opressor cruel cuja eliminação se poderia impôr legitimamente pela bala. Quisesse eu justificar o acto não o conseguiria, na medida em que o homicídio, seja ele político ou de outra sorte, dificilmente se desculpa, ainda mais dificilmente se justifica (e digo-o particularmente com um alcance jurídico).
Deste reconhecimento de que aquilo com o que lidamos é um crime motivado pela vontade em eliminar um adversário político, não se pode, por seu turno, retirar a imagem da vítima como um monarca constitucional que se atinha rigoroso ao espírito e à letra da Carta e pintar um D. Carlos democrático e um país liberal tão como o tinha sido no tempo do senhor Fontes, por exemplo. A ditadura de João Franco, suportada apenas no beneplácito do rei, estava longe de representar um expediente usual nas práticas da lusa monarquia constitucional. Se o conceito oitocentista de ditadura enquanto período de governação sem controlo parlamentar correspondeu, de facto, a diversas experiências governativas portuguesas, prontamente legitimadas a posteriori por bills de indemnidade, o consulado de João Franco já degnerara, em 1907, pela duração e natureza da anomalia constitucional, em fenómeno distinto, numa verdadeira ditadura, em sentido próprio ou moderno.

Também o facto de aceitarmos que de um crime se tratou não serve de mote para fundamentar a justeza do regime monárquico, ignorar a sua debilidade crescente e invalidar o carácter progressista e modernizador do programa republicano que triunfaria dois anos depois. E não serve também para provar o que quer que seja sobre as falhas da I República, o seu radicalismo ou o seu pessoal político - aliás, o regicídio será seguramente o exemplar mais indicado de um passo relevante na caminhada para a república dado à revelia da direcção do PRP e até contra a sua vontade. Não há, pois, lugar a patetices de dias de luto nacional, de plaquinhas em homenagem ao homem que morreu pela pátria e de extrapolações e juízos de valor revisionistas sobre a história daquele dia, do regime que viria a cair pouco depois e do regime que lhe sucedeu. Faça-se ciência e não velórios.

Em jeito de conclusão, penso que os meus sentimentos sobre o 1 de Fevereiro se resumem a duas ideias. Primeiro, penso que já tarda o momento em que se vai conseguir assinalar o evento no plano adequado, que me parece ser o da história e não o da política. Em segundo lugar, enquanto republicano, inspirado pela divisa da igualdade, fraternidade e liberdade, é me impossível saudar o regicídio como momento a comemorar, ainda que uma das suas consequências objectivas tenha sido a de acelerar a chegada da República. Porque acredito que esta vale por si mesma, e deve-se comemorar pelos valores que representa, não me custa nada, até penso que eticamente se impõe, deitar fora a simpatia ou complacência pelo acto dos regicidas.