quinta-feira, janeiro 10, 2008

Lisbon for Obama


Resultados das eleições primárias em Lisbon, New Hampshire:

Barack Obama: 100 (39,7%)
Hillary Clinton: 89 (35.3%)
John Edwards: 52 (20,6%)
Bill Richardson: 9 (3,6%)
Dennis Kucinich: 1 (0,4%)
Chris Dodd: 1 (0,4%)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Problema resolvido - o Menino Barack Clinton Bhutto


Os paquistaneses é que sabem resolver problemas. Bilawal Bhutto, de 19 anos, sucede à mãe Benazir Bhutto, na liderança do partido. Por enquanto, a principal preocupação do rapaz é acabar o curso em Oxford.
Imagino que juntar a juventude de Obama ao direito dinástico de Hillary possa dar uma coisa destas.

Sim, mas...

Caro Gato, admito que estas presidenciais americanas mobilizam mais do meu entusiasmo do que qualquer eleição desde as legislativas portuguesas de '95 (outras em que não me deixaram votar "por ser menor de idade" - um escândalo). Vou mandar um envelope com o meu voto para Washington quer eles queiram quer não.

Mas não concordo com a tese de que o tema de "change" é novo (desde Iowa). É verdade que desde o caucus de Iowa se gerou um consenso à volta da centralidade deste conceito para os eleitores americanos (democratas e republicanos). Só as vitórias de Obama e Huckabee (ambos 'novatos') é que aparentemente trouxeram a confirmação empírica, aos olhos de muitos observadores, que o tema de "change"é o motor desta campanha. O que me parece é que esta conclusão é uma tremenda vitória de marketing para Obama, que já há muito tempo se apresenta como a encarnação do "change".
Eu continuo a achar que é fácil para Obama ser sexy, e que lhe falta substância. Espero que os leitores da Bóina Frígia concordem comigo e que não deixem de ir votar (bem) nas primárias Democratas de Lisboa e Vale do Tejo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Paz e serenidade


David, meu caro: a questão change nas eleições, em bom rigor, só se tornou um leit-motiv da campanha após os caucuses de quinta-feira, quando praticamente todos os candidatos, republicanos e democratas (a começar por Hillary, com Bill Clinton e Madeleine Albright por trás), puseram o termo no alinhamento dos seus discursos. Mas há um antes do Iowa, com propostas, posições políticas e comportamentos que nos permitem formular uma opinião.
Concordo que a adulação por Obama é irritante, como o é qualquer tipo de adulação em política. Gosto de Obama, gosto de Hillary, gosto de Edwards (embora este me pareça cair mais para o populismo). Para mim qualquer um deles dava um bom presidente. Mas neste exercício absurdo (ia dizer hilariante) em que a população do mundo se põe a defender candidatos para os quais não pode votar, inclino-me para Obama, por muitas e variadas razões, sendo que a oportunidade de mudança não é uma delas. Nem sou daqueles que acham que Obama devia ganhar só por pirraça, para que Hillary não julgasse que ser presidente é um direito de família.
Da mesma forma que acho que Hillary não deve ser penalizada por ser uma figura do establishment, penso que Obama não deve ser menorizado por se ter tornado num fenómeno de popularidade. Fazer do currículo de Hillary ou da fotogenia de Obama as questões decisivas na eleição é empobrecer o debate.

P.S.: Parece-me que a Boina pode dar-se ao luxo de ter defensores dos três principais candidatos democratas. Olha que bonito!

"I've been making change for 35 years!"


Começa a tornar-se insuportável o apoio acrítico que Barack Obama tem recebido de alguns. Até este blog foi infiltrado por eles... Obama é bom rapaz. E sério etc. Mas eu só o conheço há três anos. Assim é fácil advogar change, change, change. Não é experiência que falta a Obama: é história. Desde que me interesso por política que observo Hillary, conheço-a, e é também por conhecer os seus defeitos que estou mortinho por lhe dar o meu voto.
A mensagem populista de Edwards/Obama quer-nos convencer que tem andado tudo a dormir há 8 anos e que Washington está podre e que eles é que vão arregaçar as mangas e dar a volta a isto - mas é desmentida por dois factos:

1. Obama/Edwards se/quando chegarem ao poder vão ter que funcionar exactamente no mesmo enquadramento constitucional/institucional (com as suas virtudes e seus defeitos) que Bush e seus amigos; é irresponsável e demagógico vender a ilusão de que os EUA se vão transformar no "paraíso da classe média" só porque eles são uns tipos cheios de boa vontade; change é uma palavra agradável, não é um programa político;
2. Hillary, nos últimos anos, tem sido incansável como senadora em áreas tão diversas como segurança e defesa, ou segurança social.

Barack é negro. Change. Parabéns. Hillary é mulher. Change. 1-1.
Hillary já anda nisto há muito tempo e não me parece que tenha perdido nem um bocadinho do élan dos anos 90.
E seria tremendamente injusto penalizá-la por se dedicar à causa pública há mais de trinta anos.
A experiência não é tudo. Mas apoiar change só porque há uma cara nova nos ecrãs de televisão é irresponsável.

P.S: Adoro o Obama, hã, não se zanguem, mas estou farto da adulação pop de que é alvo. Vejam este vídeo que é bem elucidativo.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

É Obama!

Segundo as projecções de todos os canais, Barack Obama ganha os caucusues no Iowa, seguido de Edwards e Clinton, por esta ordem mas empatados em percentagem de votos.
A registar:
  • Uma forte afluência às assembleias deliberativas por parte dos democratas;
  • Obama tem 57% dos votos na faixa dos 18 aos 29 anos; Hillary tem 45% dos votos nos maiores de 45 anos (dados CNN);
  • Obama aproxima-se dos 40% e ganha capital de simpatia e viabilidade enquanto candidato para os estados em que a sua cor de pele (e o nome) ainda possam ser uma questão;
  • Fala-se no peso do voto útil dos apoiantes de Bill Richardson que não ultrapassaram o número mínimo de votos para que o seu candidato pudesse recolher delegados. Fala-se que Bill Richardson pode vir a ser o candidato a Vice-Presidente se Obama ganhar a nomeação. O primeiro Presidente Negro dos Estados Unidos e o primeiro Vice-Presidente Hispânico? Parece abusar demasiado da sorte.
A corrida ainda agora começou e faltam as etapas de alta montanha. Obama dizia há pouco tempo: «Sou um negro chamado Barack Obama a concorrer para Presidente. Quer dizer, é mesmo preciso ter esperança».

Do lado republicano a taça foi para o pastor-evangélico-defensor-do-criacionismo Mike Huckabee. Mas essa é um telenovela completamente diferente, se pensarmos que Rudy Giuliani desertou para a Florida e Mitt Romney ainda tem rios de dinheiro para gastar. Atrevo-me a dizer que aí estará a verdadeira emoção.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Benazir Bhutto (1953-2007)

Por muito que nos procuremos convencer do contrário, identificando grandes tendências ou evoluções imparáveis e objectivamente palpáveis, a História tem momentos de viragem inesperados, muitas das vezes directamente associados ao percurso individual de seres humanos concretos. O desaparecimento de Benazir Bhutto é daqueles momentos de convulsão repentina, de irreversibilidade das rodas dos acontecimentos que revelam a potencial fragilidade das instituições (exarcebada, neste caso, pela efectiva instabilidade do sistema político). Benazir Bhutto será sempre uma figura controversa, multifacetada, geradora de amores e ódios entre os seus concidadãos e objecto de juízos distintos da história: se por um lado a sua governação foi marcada por instabilidade, acusações de corrupção e ineficácia, deixa também um legado considerável, desde logo como primeira mulher a assumir a chefia do Governo num país muçulmano.

É quase inevitável observar os traços que a aproximam da outra mulher que marcou a vida do subcontinente indiano, Indira Gandhi: a tradição e sucessão política familiar, o triunfo político numa sociedade tradicional e patriarcal, a personalidade marcante e larger than life e a morte trágica, na sequência do desafio aos adversários. Não é, porém, minha intenção deixar um panegírico de Benazir Bhutto, ou de minorar a análise dos seus defeitos. Como disse, os juízos negativos não deixarão de ter o seu lugar quando se escrever a sua história. Mas no rescaldo imediato do seu assassinato, é importante não esquecer, é mesmo imperativo realçar, que foram as suas qualidades que determinaram o seu fim trágico.
A Benazir Bhutto que ontem foi alvo da violência sangrenta do seu assassino extremista foi a mulher determinada em regressar ao país numa altura crítica para o futuro, com a intenção de disputar uma eleição e aceder ao poder pela via democrática, que não desistiu perante concretas ameaças à sua vida e que atacou com coragem os extremismos fundamentalistas que querem destabilizar o Paquistão (as madrassas radicais, por exemplo). Foi em campanha, após um comício, em contacto directo com os eleitores, momentos por excelência do processo democrático, que perdeu a vida. E foi precisamente por simbolizar, em grande parte, uma possibilidade de regresso à democracia que foi abatida por extremistas. É por isso não só um mau dia para o Paquistão e para a região, mas para todos os que se revêm na determinação democrática demonstrada por Benazir Bhutto.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Prenda de Natal

Madeleine Peyroux canta Dance me to the end of love (ilustrado por momentos de film noir).


domingo, dezembro 23, 2007

Rudolph, the Red-Nosed reindeer, em Yiddish

Bem sei que o conceito de tradição judaico-cristã não é exactamente isto, mas pode ser útil para alguém, sei lá...

Melhor que o original

Qual Santana Lopes de segunda, qual carapuça. Luís Filipe Menezes bate o seu modelo aos pontos. Onde é que já tinhamos visto, num espaço de menos de duas semanas, e depois da novela da sua intervenção em Lisboa, um acumular de coisinhas tão boas como estas:


- O Governo devia pedir desculpa pelos homicídios na noite do Porto.

- A recusa em apresentar programa político alternativo pelo PSD, perante a certeza de que seria desfeito pela equipa de Pedro Silva Pereira. (Pergunto qual é o plano para as legislativas de 2009. Será na lógica de "tenho ideias muito boas mas não digo, não digo...")

- O plano de, em meia dúzia de meses, "liberalizar a legislação laboral (...) e desmantelar de vez o enorme peso que o Estado tem e que oprime as pessoas", afirmando que o "Estado deve sair do ambiente, das comunicações, dos transportes, dos portos e, na prestação do Estado Social, deve contratualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social" Este pequeno excerto revela muitas coisas de uma assentada sobre o conhecimento da realidade pelo líder do PSD. Liberalizar é a noção sacralizada, seja na legislação laboral, seja no papel do Estado. Gosto particularmente da ideia de que o Estado deve "sair do ambiente". Desregular? Abandonar as tarefas de conservação impostas pela Constituição e pelo Direito Comunitário? Com franqueza, duvido que neste tópico Menezes tenha sequer a ideia do que está a propor. Ainda quanto à saúde e à educação é interessante a ideia de acabar com monopólios. Pode ser que amanhã se torne possível a existência de hospitais, clínicas, escolas e até, quem sabe, universidade privadas...

- A ideia fantástica de que o PS quer controlar o BCP. Poderoso este PS que põe gente como António Mexia a promover a nova solução para a administração do BCP. Igualmente curioso que pessoas como Paulo Teixeira Pinto, Miguel Cadilhe ou Miguel Beleza tenham integrado os conselhos de administração do BCP e que Menezes nunca se tenha insurgido por eventuais tomadas do banco pelo PSD.


- Associada a esta última ideia, veio a sugestão de Miguel Cadilhe para presidente da Caixa Geral de Depósitos, perante a saída provável de Santos Ferreira. Curiosamente, Cadilhe é um dos antigos administradores do BCP que, face aos recentes desenvolvimentos na instituição, está inibido pelo Banco de Portugal de voltar a assumir funções na direcção do (ainda) maior banco privado português. Um bom momento para o propor como a escolha credível para a Caixa, sem dúvida.


O que reservará o próximo Ano?

sábado, dezembro 22, 2007

Anúncio da quadra

História de Natal

Eddie Izzard e o Natal

Ahhhh, o Natal...

É só impressão minha ou já começou o abrandamento imparável da blogosfera da época natalícia? Não tarda muito vamos começar a fazer o balanço do ano que passou (se antes disso não entrarmos obedientemente no espírito da época e fizermos sugestões de prendas...). Para já, a não ser que haja golpe de Estado ou invasão alienígena, deixo uma série de "posts natalícios".

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Um funcionário, um quê?

Segundo o site da Câmara Municipal de Lisboa o Presidente entregou 1064 brinquedos recolhidos pelos funcionários do Município no âmbito da iniciativa "Um funcionário, um brinquedo".
Já não falo da putativa avareza dos funcionários (sabendo que os brinquedos entregues foram 1064 e os funcionários são para aí uns dez mil). Mas, com as medidas orçamentais draconianas que se conhecem, o título da iniciatva parece-me um trocadilho perigoso, dinamite para qualquer sindicalista mais quezilento.

Olha, olha, a Bóina Frígia faz hoje 3 anos




Dicas para jantares de Natal que se avizinham

Smith & Jones

Fumo bege

Governo na Bélgica!
Mas não se entusiasmem. É só um governo "interino" até Março e que pode apenas representar um intervalo na crise política, dando alguma estabilidade à governação até que haja entendimentos definitivos entre os diversos partidos. É também verdade que é uma formação cheia de peculiaridades. Senão vejamos.

Em primeiro lugar, o primeiro-ministro será o até aqui cessante Verhofstadt, que perdeu as eleições de Junho, enquanto um dos vice-primeiro-ministros será Leterme, o vencedor das eleições de Junho. Os socialistas, que perderam o primeiro lugar na Valónia, acabam por integrar o Governo, quase que confirmando a profecia de que não se governa a Bélgica sem o PS. Aparentemente não basta ganhar, há que saber gerir a vitória.

Em segundo lugar, o anúncio de que se trata de um período de espera até à Páscoa, para permitir a Leterme negociar o que falta e poder assumir funções de primeiro-ministro em Março é demolidor para as suas capacidades políticas - não só falha durante 180 dias o que Verhofstadt consegue (interinamente, é certo) em duas semanas, como ainda fica sob a sua tutela durante os próximos três meses.

Finalmente, o governo "pentapartidário", composto por liberais flamengos (3 ministros) e liberais valões (3 ministros), cristãos-democratas flamengos (4 ministros) e cristãos-democratas valões (1 ministro) e socialistas valões (3 ministros) afigura-se como tudo menos pacífico. Para além de nos bastidores continuarem as negociações para preparar o próximo executivo, as relações entre os diversos partidos continuaram tensas e o equilíbrio parece ser precarário (desde logo, o empate a 7 entre francófonos e flamengos na distribuição das pastas apenas mascara a profunda divisão que o sistema político atravessa).

Instável, com uma legitimidade no mínimo curiosa e com prazo de validade, sempre é melhor ter este do que não ter governo nenhum. Ou será que não?

Man of the Year

Depois de o ano passado ter escolhido toda a gente como pessoa do ano (enquanto utilizadores das novas tecnologias), a Time volta a surpreender e escolheu Vladimir Putin para 2007. Conforme a revista tem dito há anos, a opção não representa uma homenagem, nem qualquer tipo de louvor ou recomendação. Segundo o editor, trata-se de escolher a pessoa que mais impacto teve nas vidas de outros e cujos actos moldarão o futuro nos anos seguintes. Nesta lógica, e segundo a revista, ninguém conseguiu impor a sua visão, ou restaurar estabilidade, prosperidade e orgulho aos russos como Putin.

A opção visa ser estritamente objectiva e não ter qualquer conteúdo axiológico e as escolhas passadas confirmam esta leitura: Andropov, Khomeini, Deng Xiaoping, Khruschev, Estaline (2 vezes) e o próprio Hitler (curiosamente, a foto na saiu na capa) figuram entre os vencedores. Apesar de tudo, isto não significa que não possa ser uma opção criticável: deve poder exigir-se um padrão diferente a uma revista de referência numa sociedade democrática. A apreciação dos resultados deve ser minimamente crítica, e a estabilidade, prosperidade e orgulho não podem ser vistos como susceptíveis de justificar quaisquer meios para as alcançar, particularmente quando estes assentam em autoritarismo, nacionalismo neo-soviético e repressão de liberdades fundamentais.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Contra a discriminação, pelo direito a discriminar

Nos escassos 12 dias que restam para o fim do ano ainda há tempo para disparates maiores, mas por enquanto a idiotice do ano pertence a Nuno da Câmara Pereira, deputado da Nação, com esta pérola, já não digo de intolerância, mas de lógica discursiva: «Ao instituir-se um dia mundial de luta contra a homofobia estar-se-ia, no fundo, a instituir um dia contra todos aqueles que pensam a sexualidade de modo distinto e, consequentemente, a colocá-los numa situação de discriminação».

The Sarkozys

Parece que Cecilia vai retaliar só que ainda não se decidiu entre Kevin Costner, Eric Clapton, Mick Jagger ou Donald Trump.

Meio da semana

Um piscar de olho aos que sabem.

Pink Martini - Je ne veux pas travailler

O seu a seu dono

Já chega das torpes insinuações que apontam para ligações entre membros da liderança dos SuperDragões e membros dos gangs da noite portuense! Não há "ligações" nenhumas, são mesmo as mesmas pessoas!
A este respeito, este post de Pacheco Pereira.

Cascata?

Recorrentemente invoca-se o argumento do "ai-os-outros" no que respeita ao recurso ao referendo: ao recorrer à consulta popular, Portugal estaria a deixar os demais governos numa posição sensível e incómoda, a braços com o potencial aparecimento de um efeito de cascata na exigência de referendos. E então? Se é um debate alargado sobre a Europa o que se pretende o argumento tem de valer para os 27 e não apenas na nossa West Coast...

Cada tiro....


Numa corrida desenfreada para se conseguir descredibilizar sem retorno, a nova liderança da Juventude Popular continua a marcar pontos à grande - acabar com o salário mínimo é a nova ideia genial e radical. Tão genial e radical que nem se percebe como é que o próprio patronato a não sufraga, alinhando até em estratégias opressivas e destrutivas da economia como o aumento gradual do montante do salário mínimo até 500 € em 2011.

Argumenta a JP que o salário mínimo "impede de trabalhar quem estiver disponível para trabalhar por valor inferior a esse preço". Infelizmente, não é assim. Basta olhar para a realidade de muitos putativos estágios profissionalizantes (em que a advocacia representa um exemplo paradigmático) para verificar que não só estamos perante verdadeiro trabalho subordinado (e não perante clássicas profissões liberais), como a remuneração mensal fica bem abaixo do salário mínimo ou não existe de todo. Exploração em estado puro, portanto, fugindo ao salário mínimo com o mecanismo dos falsos recibos verdes.

Curiosamente, ao mesmo tempo que afirma que o salário mínimo impede de trabalhar quem está disponível para trabalhar por menos, a JP vem também dizer que "o paradigma da competitividade baseada em baixos salários acabou". Em que é que ficamos? O salário mínimo é estrangulador ou desnecessário?

É esta radiosa sociedade que se quer oferecer aos trabalhadores portugueses - nem com a garantia de 423 euros mensais podem contar, apenas com a boa vontade e o altruísmo do patronato. Já agora, umas ideias sobre o mínimo necessário para assegurar uma existência condigna e os demais direitos fundamentais dos trabalhadores não faziam mal a ninguém. Ficam uns exemplos:
Artigo 59.º
Direitos dos trabalhadores
1. Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito:
a) À retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna;
[...]
2. Incumbe ao Estado assegurar as condições de trabalho, retribuição e repouso a que os trabalhadores têm direito, nomeadamente:
a) O estabelecimento e a actualização do salário mínimo nacional, tendo em conta, entre outros factores, as necessidades dos trabalhadores, o aumento do custo de vida, o nível de desenvolvimento das forças produtivas, as exigências da estabilidade económica e financeira e a acumulação para o desenvolvimento;
[...]
Constituição da República Portuguesa

terça-feira, dezembro 18, 2007

Igualdade

Sócrates ao Libération:
"O que é que diferencia a esquerda da direita? A igualdade."

Se este raciocínio valer para os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, serão boas notícias.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Speechless

Pequenas obras de solidariedade com a greve de argumentistas (via Zero de Conduta). Deixo alguns, mas há muitos mais aqui.

domingo, dezembro 16, 2007

Filosofia para todos

Eu não tenho palavras para descrever este clássico do humor britânico. Imune à passagem do tempo.

Der Meister

Beethoven nasceu hoje, há 237 anos.


Sinfonia n.º 7 - 4.º Andamento
Sonata para violino n.º 9 "Kreutzer" - 1.º Andamento
Abertura "Egmont"
Sonata para piano n.º 21 "Waldstein" - 3.º Andamento

Porque as homenagens quando merecidas são quase sempre poucas
























O meu Niemeyer favorito.

sábado, dezembro 15, 2007

100 anos de Niemeyer


Parabéns ao pensador da cidade do homem novo, que é alérgico ao ângulo recto, porque as utopias não se constroem com ideias quadradas.

Porque é que será...

... que Gordon Brown tenta fazer o Reino unido entrar na nova União Europeia pela porta do cavalo?

P.S.: Dulce Pontes fartou-se de berrar e Gordon Brown fez o que fez, mas apesar disso a festa foi mesmo bonita.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Entretanto, do outro lado do globo...


Em Bali, a coisa não aquece, nem arrefece. Consequentemente, a coisa vai continuar a aquecer...

Tributo a Garland

Rufus Wainwright sings Judy Garland (aliás Rufus becomes Judy):

Amy

Uma boa selecção de early Winehouse, via Jansenista:

Foi bonita a festa, pá!


Feito e assinado, cumpre agora ratificá-lo.

Como já aqui defendi no passado (e perante opiniões diferentes na Bóina), sou pelo referendo. Uma oportunidade para debater a Europa e uma oportunidade para fazer campanha por uma resposta afirmativa. E a reforçar a ideia de que os pedidos de referendo não são só no campo dos opositores, veja-se a posição tomada ontem pela Juventude Socialista. Aguardemos os próximos desenvolvimentos.

Nem pensar!

Não sendo ainda esta o prometido post sobre a nova lei eleitoral autárquica, não posso deixar passar a potencial proposta de exclusão de independentes das candidaturas antes de decorrer um determinado período sobre o seu abandono de partidos políticos que representavam em mandatos anteriores sem dizer, com todas as letrinhas: inconstitucional e politicamente inaceitável. Não está em causa o fenómeno de mudança de partido no decurso do exercício de um mandato, com o consequente defraudar das maiorias desejadas pelo eleitorado (como sucede com os mandatos na AR), pelo que só podemos concluir pela presença de uma reacção de autodefesa corporativa dos partidos lesados por dissidências eleitorais recentes.



Se não queremos mais Isaltinos, Fátimas e Valentins, não os produzamos e incentivemos quando servem para ganhar autarquias, criemos mecanismos eficientes e implacáveis no combate à corrupção e ofereçamos candidatos credíveis, capazes de derrotar populismos (veja-se o caso de Amarante, em que o quarto cavaleiro do Apocalipse autárquico foi derrotado). Não se resolva um problema criando outro.

A pessoa certa


Uma boa escolha para a SIC-Notícias: António José Teixeira é o exemplo do melhor do jornalismo português, com grande conhecimento da realidade política nacional e internacional, isenção e independência, argúcia e grande capacidade de análise. Estão ambos (a estação e o novo director) de parabéns.

No bom caminho

O estado de New Jersey está em vias de fazer história, juntando-se a Maine, Alaska, Hawaii, Iowa, Minnesota, Dakota do Norte, Wisconsin, Michigan, Virgina Ocidental, Vermont, Massachusetts, Rhode Island e ao Distrito de Columbia na recusa da pena de morte. O governador democrata deverá assinar a nova lei nos próximos dias, seguindo a votação de ambas as câmaras, ambas controladas também pelo Partido Democrata, tornando o estado no primeiro em mais de 40 anos a abolir a pena capital.

Parabéns!

Apesar de dois dias de atraso (indesculpáveis uma vez que partilho a data de aniversário), os parabéns a Manoel de Oliveira pelos 99 anos de vida, e pela manutenção em plena actividade, o cineasta com maior longevidade ainda no activo.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Aparências

Putin já escolheu o seu sucessor: Dmitry Medvedev. Como se previa, um candidato do círculo íntimo, leal e apagado, confirmando a provável intenção de Putin passar a primeiro-ministro. Esta dança de cadeiras é reminiscente dos velhos hábitos da União Soviética, em que o que verdadeiramente interessava não era o cargo no aparelho do Estado, mas o controlo do topo do partido. Estaline foi primeiro-ministro apenas a partir de 1941, Kruschev apenas foi presidente do conselho de ministros a partir de 1958 e Brezhnev, Andropov ou Chernenko não exerceram cargos no Estado - o que interessava era ser Secretário-Geral do PCUS, o resto era paisagem.

Clássico revisitado

Abbot & Costello, Who's on first:

Mesmo sketch, versão shakespeareana:

Don't jinx it


Alguém não leu o meu post sobre como evitar dar azar ao novo Tratado de Lisboa. Se o tivessem feito, não inaugurariam uma placa comemorativa da assinatura do Tratado em frente aos Jerónimos antes de concluída a ratificação. Depois não digam que eu não avisei...

Promulgado, mas contrariado

Ou seja, apesar de promulgar o diploma, que vem substituir o mui obsoleto Decreto-Lei 48.051 de 1967, o Presidente da República continua convicto de que o reconhecimento claro do direito ao ressarcimento pelo Estado pelos danos que causarem ilicitamente aos cidadãos comporta um risco de desequilibrar financeiramente o Estado e de prejudicar o equilíbrio financeiro do Estado. Aparentemente, no "contexto específico de desenvolvimento do País" não devemos ter a pretensão de poder recorrer a um tribunal para ser indemnizados por um dano ilicitamente causado na nossa esfera jurídica, devendo suportar os prejuízos causados pelo Estado. Aparentemente, nesta lógica, o Estado de Direito termina no tamanho da carteira do Estado e na capacidade de resposta dos tribunais. Aparentemente, o respeito pelos direitos e princípios fundamentais consagrados na Lei Fundamental cede perante a falta de meios financeiros e uma suspeita de incapacidade de resposta dos tribunais.
Surpreendentemente, também Vital Moreira parece seguir esta linha...

sábado, dezembro 08, 2007

Para o fim-de-semana

Antonio Vivaldi - Concerto para Mandolim, 1.º Andamento

Dá-me música que eu gosto


Facto curioso n.º 1: Barack Obama, Bill Clinton e Jimmy Carter estão nomeados para um Grammy, categoria "palavra falada".
Facto (ainda mais) curioso n.º 2: Qualquer um deles já ganhou o prémio anteriormente, e Obama é mesmo o campeão em título.

Al Gathafi speaks nada que se aproveite


Uma pessoa habitua-se a ter destes ditadores do terceiro mundo a ideia de que são tipos muito espertos e sabidos, pelo menos medianamente inteligentes, pelo menos o suficiente para chegarem ao poder e por lá se manterem indeterminadamente, debelando pontualmente a ocasional erva daninha que ouse levantar a grimpa.
Depois vêem-se coisas como esta (aliás, propagandeadas esta semana na imprensa portuguesa, não se sabe bem porquê, quem sabe à espera de converter algum recalcitrante) e pergunta-se: como é que alguém consegue não fazer um golpezito de estado para derrubar um tipo dado a boçalidades destas? Só pode ser a força do hábito.
Confesso que não consegui ler mais do que os primeiros parágrafos, mas julgo que estes são suficientes. Mesmo assim, recomenda-se o resto dos artigos.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Cartoon do Economist desta semana


Efeitos da saída de um gémeo

Dia Europeu contra a pena de morte aprovado por unanimidade pelos 27 Estados da UE.

Telhados de vidro

José Miguel Júdice, enquanto antigo bastonário da Ordem, deveria mostrar mais respeito pela instituição a que presidiu. Sem qualquer pudor, Júdice afirmou que "se o mandato de Rogério Alves foi uma tragédia, o de Marinho Pinto será uma tragédia ao quadrado." Pela leitura do comentário, parecerá que a época dourada da advocacia portuguesa ocorreu no mandato de Júdice. Época essa em que, recorde-se, Marinho Pinto presidiu (até sair por virtude dos seus ataques à magistratura) à Comissão de Direitos Humanos e Rogério Alves foi presidente do Conselho Distrital de Lisboa, ambos eleitos na lista de... José Miguel Júdice.


Apesar de jurista, não sou e, provavelmente, não serei em tempos próximos advogado. Contudo, enquanto jurista acompanho com proximidade a realidade e o papel que deve desempenhar na reforma e na credibilização do sistema judicial e, enquanto cidadão, tenho ideias claras quanto à função das ordens e à necessidade de eliminar restrições corporativas no acesso à profissão.

Confesso que o balanço que faço do mandato do último bastonário não é muito positivo: cumrpiu os serviços mínimos. Mas andarei muito longe de achar que a gestão de Rogério Alves tenha sido trágica. Provavelmente, Júdice ainda se sente na necessidade de vingar o seu processo disciplinar. Mas a acusação é francamente excessiva. Quanto a Marinho Pinto, não me parece que tenha o perfil adequado para liderar a Ordem, credibilizá-la e torná-la um agente de mudança: o seu discurso é excessivamente corporativo e populista e a sua forma de lidar institucionalmente com os demais agentes do mundo da justiça (particularmente com as magistraturas) é particularmente desadequada. Dito isto, e não tendo ainda sequer tomado posse, pelo menos o respeito devido aos recém-eleitos deveria levar a alguma contenção da parte de Júdice, que durante o referido processo disciplinar tanto se queixou da falta de consideração tida pela figura institucional do ex-bastonário. E a figura do bastonário-eleito, já agora?
Fosse eu advogado, a minha escolha para Bastonário teria sido seguramente outra e não teria também passado pelo outro populismo em oferta ou por pára-quedismos. Contudo, algumas características positivas reconheço a Marinho Pinto: a honestidade e espírito de serviço público e a coragem de enfrentar alguns aspectos menos claros do exercício da profissão de advogado, como por exemplo a falta de critérios de contratação dos seus serviços por entidades públicas. Curiosamente, aspectos que facilmente podemos identificar como deficitários nas prioridades do mandato de Júdice e na sua actuação deontológica posterior - veja-se novamente o processo disciplinar, motivado pela declaração de que o Estado deveria sempre recorrer a contratação de serviços jurídicos consultando as maiores sociedades de advogados...

Literatura para a quadra

Recebi ontem um mail das edições 70 em que a editora faz uma série de "sugestões de Natal". Para além de diversas obras sobre a história da Igreja, achei particularmente interessante terem recomendado "Papas perversos". Um clássio comparável ao Conto de Natal de Dickes, seguramente.

Depois admiram-se que as relações transatlânticas estejam no estado em que estão...


quinta-feira, dezembro 06, 2007

O mundo é muita complicado

É pá, estes anti-americanos primários são mesmo fanáticos.

Malabarismos conceptuais

João Miranda escreveu ontem um post no Blasfémias em que sustenta a compatibilidade entre liberalismo e a promoção da homofobia. O post incorre num vício inultrapassável que é a equiparação para efeitos de análise entre uma orientação sexual (a homossexualidade) e um comportamento discriminatório (a homofobia), tratando-os como realidades contrapostas, como se de um jogo de matraquilhos se tratasse. No primeiro caso, aquilo com que deparamos é uma característica intrínseca ao ser humano, um elemento da sua identidade. No segundo caso, e por mais habilidosa que procure ser a argumentação, não estamos perante um mero exercício inócuo de liberdade de expressão, estamos sim perante um preconceito, uma predisposição discriminatória, que pode conduzir à promoção de comportamentos discriminatórios em relação a terceiros. Se procurássemos transpor a argumentação exposta no post para outros fenómenos discriminatórios, substituindo a causa de discriminação por outra, o resultado alcançado seria semelhante ao seguinte raciocínio:
- Liberdade de opinião e de expressão: existe liberdade de criticar os pretos. Cada um é livre de ser racista se o desejar.
- Projectos políticos que visam proibir (ou coagir) a existência de pretos são incompatíveis com o liberalismo.
- Projectos políticos que visam proibir (ou coagir) o racismo são incompatíveis com o liberalismo.
- Movimentos que procuram promover a existência de pretos ou condenar moralmente o racismo são compatíveis com o liberalismo, desde que não tenham como objectivo instituir políticas de Estado.
- Movimentos que procuram promover o racismo são compatíveis com o liberalismo, desde que não tenham como objectivo instituir políticas de Estado.

Da leitura do post depreende-se ainda que a defesa da igualdade de tratamento sem discriminações em função da orientação sexual equivale àquilo que chama de promoção da homossexualidade. Já agora, pergunto como se promove a homossexualidade. Kits promocionais de sócio como os do Benfica, à venda em estações de serviço? Crédito à habitação bonificado? Sorteios de viagens à República Dominicana? Desconhecia que a orientação sexual passa por uma questão de persuasão e de marketing, que é possível promovê-la e convencer terceiros a aderir. Mais uma vez se nota aqui a tremenda confusão entre promover a inclusão de todos na sociedade como iguais e defender o fim da discriminação, combatendo a homofobia, e a noção batida (muito JCN) e sem conteúdo de “promover a homossexualidade”.

Finalmente, parece-me que a afirmação de que o liberalismo é compatível com movimentos que promovem a homofobia representa uma versão francamente deturpada do conceito de liberalismo (ou, se quisermos ser mais simpáticos, uma reinvenção do conceito a partir do zero, sem qualquer conexão com a evolução conhecida da história do pensamento moderno). Recordo-me, entre outros, do que Stuart Mill (que presumo ser insuspeito), escreveu no On Liberty, sobre os limites da liberdade e que gosto de citar a propósito desta discussão:

"The sole end for which mankind are warranted, individually or collectively in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection. That the only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilized community, against his will, is to prevent harm to others.
[...]
The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign".

A promoção da homofobia, mais do que um mero estado de alma individual de desagrado em relação à homossexualidade, representa um programa discriminatório em relação a um conjunto determinado de cidadãos, e que se enquadra sem dificuldade na tal noção de “harm to others” a que alude Stuart Mill. Se quiser ser homofóbico no lar e no círculo da intimidade, é, de facto, totalmente livre de o fazer, desde que guarde a sua vontade de discriminar para si. Pretender passá-lo em forma de movimento para a sociedade e fazer alastrar essa atitude discriminatória é que não é de todo sustentável com a ideia de liberalismo: a actividade de promoção de uma discriminação vai ser a causa directa de um dano na esfera da vítima da discriminação. Liberalismo é muito mais do que uma ideia de cada um por si e outros que se lixem. Pressupõe a existência e a garantia de condições para que cada um possa desfrutar ao máximo da sua esfera de liberdade, livre de inibições de origem discriminatória.

And the same to you

Estava em deambulações pelo YouTube, quando deparei com este clip do Dudley Moore a interpretar a sua Parody on Beethoven Sonatas, intitulada And the same to you. Para além de um talento imenso para a comédia, Dudley Moore tinha uma formação clássica como pianista e organista em Oxford, e soube reunir os seus dois dons na composição desta pequena pérola, pegando na melodia da Marcha do Coronel Boogey (o tema da Ponte sobre o rio Kway) e transformando-a num trecho de tipo beethoveniano, com reminiscências de diversas sonatas para piano e uma coda interminável. Já conhecia a obra de um CD que Moore gravou em 1995 em que, para além de interpretar o Concerto para Piano em Lá menor de Grieg, também incluiu 7 parodies musicais, imitando os estillos de Beethoven, Schubert, Weill, Britten, entre outros compositores. Aqui fica, Dudley a la Beethoven:

And now for something completely boring


Com o avizinhar de uma nova ronda de debate em torno da lei eleitoral para a Assembleia da República, estou seriamente a pensar em massacrar os onze leitores habituais da Bóina com uma série de posts sobre sistemas eleitorais. O de hoje, curtinho e para abrir o apetite, surge-me após ter lido a coluna de hoje do Pedro Lomba no DN, cujo último parágrafo me merece consideráveis reservas.

Se há um elemento que penso ser indispensável para assegurar o pluralismo da representação parlamentar é a manutenção do número de deputados em 230. Só assim continuará a ser possível assegurar um equilíbrio entre a governabilidade, permitindo o aparecimento de maiorias estáveis (absolutas ou quase-absolutas), e a proporcionalidade da representação nacional. Menos deputados significará necessariamente menor representatividade dos pequenos partidos e menor pluralismo da assembleia. E se é inegável que uma crítica ao papel apagado do parlamento tem de passar pela crítica feroz à existência de deputados da nação cuja produtividade política é muito reduzida e que emergem dos aparelhos partidários e de equilíbrios regionais e de tendência muito mais feudais do que representativos, também não pode ser negada a qualidade e quantidade da produção e da intervenção política parlamentar dos pequenos partidos. A reforma destinada a qualificar o parlamento pela via da lei eleitoral poderia acabar por eliminar uma das fontes de qualidade do trabalho parlamentar hoje existente nas formações mais pequenas. Num cenário de menos deputados, os muitos frontbenchers do PS e do PSD (as lideranças das bancadas e os presidentes e coordenadors das comissões) continuariam naturalmente a assegurar, enquanto formigas obreiras que normalmente são, o nível de produção legislativa e fiscalizadora hoje existente, mas perdiamos o capital de pluralismo que enriquece o trabalho legislativo e a maior liberdade fiscalizadora dos partidos que tendem a quedar-se pela oposição.

Concordo que é necessário repensar a função do parlamento. Não estou é tão seguro de que a solução para esse exercício deva passar pela legislação eleitoral ou pela redução do número de deputados. Quanto à primeira, se há uma lição a tirar de mais de trinta anos de democracia é a de esta que sempre ofereceu resultados seguros, nunca se transformou numa questão de regime (como hoje acontece em Itália, por exemplo) e tem servido quer a governabilidade (três maiorias absolutas de um só partido, seis governos de coligação pré- e pós- eleitoral com maioria absoluta, duas "quase maiorias absolutas" de um só partido), quer a proporcionalidade (representação de pelo menos quatro partidos e entrada de novas forças políticas no parlamento sem recurso a coligações - UDP, PRD, PSN e BE, neste caso com uma implantação que os anteriores não conheceram). Quanto à segunda, tendo em conta o ratio população - deputados, temos uma representação que se encontra na exacta média dos Estados membros da UE e que representa uma aplicação quase perfeita da regra da raiz cúbica, normalmente apontada como critério para aferir o tamanho "ideal" dos parlamentos. Enfim, é uma discussão que dá pano para mangas e que continuarei por estas bandas.

E se este post foi supostamente curtinho, imaginem o que aí vem. Chiça!


PS: E não se preocupem, que sobre o acordo quanto à lei eleitoral autárquica também farei penar devidamente o visitante, muito em breve.

Tendencialmente acertado

A propósito da discussão que a criação do direito de tendência no CDS-PP está a suscitar, ler o texto de Maria José Nogueira Pinto no DN de hoje e este post no Lóbi. Deixo-vos com a frase de abertura: A única tendência no CDS é a tendência para acabar. Prova disso é a divisão de um partido pequeno em “tendências”.

E era uma dose de Forças Armadas laicas, se faz favor

Passeava eu pelo site do Estado Maior General das Forças Armadas (don't ask why...), quando deparei com esta notícia, sobre a colocação da Cruz de Cristo "símbolo da Força Aérea, no local de culto e referência de resistência nacionalista Lituano, denominado "Monte das Cruzes". A cerimónia contou com a presença do Bispo das Forças Armadas da Lituânia (o Januário Torgal Ferreira local) e os órgãos de comunicação social lituanos efectuaram larga cobertura deste evento "em especial o momento em que o Bispo das Forças Armadas Lituanas fez questão de benzer a Cruz de Cristo Portuguesa, ajoelhando-se e beijando a cruz lusitana, afirmando em Inglês:" - Estou muito feliz por ter uma Cruz Portuguesa neste local !"


Não nego o valor simbólico que o local possa ter para a resistência lituana e a relevância histórica para o povo da Lituânia. Contudo, tratando-se inequivocamente de um local de culto e tendo esta sido inequivocamente uma cerimónia religiosa, tenho por inequivocamente demonstrada uma violação da separação entre o Estado e as Confissões Religiosas. As Forças Armadas Portuguesas não podem associar-se a qualquer acto de culto, por mais relevante que possa ser para as autoridades locais a manifestação de solidariedade. Existem outras formas de estabelecer laços entre as instituições castrenses dos dois países e, perante o convite, as autoridades militares deveriam educademente ter recusado e sugerido uma alternativa, como por exemplo a realização do evento sem carácter oficial, para os militares portugueses que desejassem participar, a convite da instituição lituana e sem ligação oficial à hierarquia militar.

Ainda que se quisesse relativizar a coisa e afirmar que se tratou de uma mera cortesia demonstrada num local onde há cooperação de tropas portuguesas (algo que não me parece ser sustentável face à clareza que o princípio da separação acarreta), a ampla divulgação no site do EMGFA revela que a cerimónia é encarada com normalidade e como pacificamente integrada na missão das Forças Armadas. E mais do que o episódio em si, é este aspecto que me parece francamente inaceitável.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Quero um tipo assim para me tratar das cobranças difíceis, ou o cowboy mais rápido que a sua tomada de posse

Nos Estados Unidos é impensável para qualquer político republicano fazer um discurso (quanto mais uma campanha eleitoral) sem evocar a figura de Ronald Reagan, fazer-lhe um elogio ainda maior do que o gajo que acabou de falar dele, e reclamar-se seu herdeiro - ou seja, um pouco o que se passa em Portugal com Sá Carneiro e os congressistas do PSD.
A coisa chegou ao ponto de Rudy Giuliani lhe atribuir poderes de super-herói. No seu mais recente anúncio de campanha, evoca a crise dos reféns americanos no Irão em 1979, e o facto de estes, após 444 dias de cativeiro, terem sido libertados durante a hora seguinte a Ronald Reagan ter prestado juramento na sua cerimónia de tomada de posse (na verdade foram 20 minutos após o juramento). Tudo por mérito do então recém-empossado presidente, supõe-se.
Bin Laden, põe-te a pau.


A transcrição aqui.

Ah, e também é engraçado ver Karl Rove a dar conselhos a Barack Obama sobre como derrotar Hillary Clinton. Pelo menos desta vez vale a pena ligar ao que o senhor diz.

Bem sei que ele tem muito petróleo...

... mas era mesmo preciso perder a coluna vertebral? Mais uma vez, obrigado Merkel.

Olhó gajo...

Aparentemente, Putin ficou desiludido com os resultados das eleições, uma vez que o seu partido ficou aquém dos 71% que alcançara nas eleições presidenciais. Compreende-se a insatisfação: com tanto controlo dos media, pressão sobre a oposição e fraude eleitoral, qualquer coisa que fique abaixo dos 75% é profundamente injusto. Uma pessoa investe tempo e dedicação em construir uma aparelho de manipulação opressivo da sociedade que espartilha adequadamente a oposição e vai-se a ver os sacanas ainda elegem deputados. Realmente, não há direito.

A marca de Menezes

A aprovação da solução compromissória para o empréstimo para o município de Lisboa encerra a novela desencadeada pela liderança nacional do PSD, que, procurando cobrir-se de glória derrotando adversários políticos e tornando a gestão municipal na capital virtualmente impossível, acaba por sair cabisbaixa e desmascarada na sua estratégia pouco séria. A intervenção do PSD nesta recambolesca novela demonstra várias características negativas da nova liderança, desde a incoerência, ao oportunismo, passando pela falta de conhecimento da realidade e pela deficiente preparação das soluções técnicas alternativas, que nem junto dos eleitos locais do próprio partido conseguiram reunir acolhimento entusiástico. Pelo meio, acrescenta-se a total ausência de pudor do próprio Luís Filipe Menezes, o autarca que bateu todos os limites de endividamento no seu concelho, e que se achou legitimado a enviar lições de gestão autárquica que não pratica em Vila Nova de Gaia.
Em primeiro lugar, destaca-se uma liderança nacional cujas figuras de proa são dois autarcas ciosos da sua autonomia e possuidores de uma espécie característica de bairrismo populista, a avocar um processo político local e a impor orientações centralistas à estrutura concelhia, através da estrutura distrital. Orientações essas que, segundo António Preto afirmou ontem, à saída da reunião da distrital, a maioria dos deputados municipais do PSD não teria intenção de seguir, mas a que ficariam vinculados pela disciplina de voto, sob ameaça de consequências internas.

De seguida, merece referência a total incapacidade de compreensão da realidade local e de produção de respostas credíveis. O projecto anunciado inicialmente como proposta alternativa não deixou de transparecer o que era, uma remendo construído em cima do joelho, muito abaixo dos montantes em dívida e apostando na alienação de património como alternativa de saneamento. Em suma, mantendo, em parte, a situação insustentável de dívida a fornecedores a curto prazo e propondo-se reduzir os activos municipais, vendendo ao desbarato em tempo de crise. Curiosamente, não é a estutura concelhia, nem é um dos eleitos locais do PSD no município de Lisboa que vem a público defender a alternativa: ela surge pela mão do presidente da distrital, por sinal vice-presidente da Câmara de Cascais, um dos principais para-quedistas deste episódio.

Não é temerário afirmar que, provavelmente, a viabilidade técnica das soluções nem sequer terá sido adequadamente ponderada. Mais do que uma solução alternativa, neste tipo de jogada o que importa é poder dizer que se tem uma solução alternativa, por mais descabelada e impensável que possa ser à luz da realidade. Consequentemente, nesta lógica palaciana da intervenção menezista esteve sempre patente uma desconsideração pela população e pela cidade de Lisboa, cujos veradeiros problemas se ignoraram, arriscando mergulhar novamente em crise um município que luta para se sanear financeiramente. Acima de tudo estava em causa infligir uma derrota ao PS em Lisboa, ganhar qualquer coisa para colocar uma medalhinha no peito do novo general.

Contudo, tão mal calculado foi o tiro que, dispondo de uma maioria absoluta na Assembleia Municipal que poderia aritmeticamente chumbar o que quisesse, teve de haver uma retirada estratégica para não enfrentar o que seria uma humilhante desautorização da liderança nacional e da estratégia de provocar o confronto pelo confronto. Ninguém pediu a Luís Filipe Menezes para vir arranjar sarilhos a Lisboa - o líder do PSD fê-lo de sua livre e espontânea vontade, pensando em capitalizar com o mau bocado que infligiria a António Costa, ignorando as necessidades da cidade, passando por cima das suas próprias estruturas locais e dos seus eleitos, preparado para instrumentalizar e sacrificar o futuro da capital à sua estratégia de promoção política. No final, aquilo que a novela criada em torno do empréstimo revela é uma total falta de bom senso e de capacidade de ler a situação política e as consequências para o futuro do PSD na cidade de Lisboa. A fotografia final mostra um presidente da edilidade vencedor, apoiado nesta medida por todos os vereadores com excepção dos do PSD, oferecendo soluções para tirar a capital da crise contra os que, por desconhecimento ou má-fé, o tentam impedir.

Seguramente receosa de abstenções ou fugas de voto dos seus eleitos para o lado contrário, a liderança do PSD acaba por produzir um compromisso que aceita as premissas iniciais da solução aprovada na Câmara, embora com montantes mais reduzidos. A solução final acaba por reconhecer o incontornável: todo o montante actualmente em dívida (os 360 milhões) teria mesmo de ser coberto pelo empréstimo, ficando o remanescente para eventuais conclusões desfavoráveis de litígios judiciais reduzido a 40 milhões (o que mais uma vez implica reconhecimento de que essa eventualidade tem de ser objecto de cobertura). A cereja no topo do bolo da incoerência é oferecida, uma vez mais, pelo próprio PSD que, num exercício de quase auto-flagelação, se abstém na proposta de compromisso que ele próprio propusera. Reduzido a 15% dos votos expressos nas intercalares, o futuro autárquico do PSD em Lisboa é sombrio, o que é mau não só para o PSD, como para a cidade de Lisboa.

Lisboa precisa de estabilidade governativa e de uma equipa capaz, mas também precisa de oposição séria, que fiscalize a actividade do executivo e contribua para a gestão da cidade com propostas credíveis e uma estratégia para a cidade. O país precisa do mesmo. O que o PSD de Menezes conseguiu cabalmente demonstrar, em ritmo acelerado e em menos de uma semana, é que a nova liderança não está disponível para o efeito.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Dennis Ross...

...esteve ontem em Bruxelas e falou numa conferência organizada pelo think-thank The Transatlantic Institute. Dennis Ross foi o 'pai' do processo de Oslo, tendo guiado a política americana no Médio Oriente entre 1988 e 2000. A intervenção dele foi fascinante. Annapolis etc etc. Mas do que me lembro melhor é da pequena frase jocosa com que abriu a intervenção.
Citando o Duque de la Rouchefoucauld, explicou que "it suits a gentleman never to speak longer than it takes to perform the act of love."
Com este sentido de humor, pergunto-me como é que ele não conseguiu convencer árabes e israelitas a ganhar juízo.

Bom começo

A primeira medida do novo governo australiano após a tomada de posse passou pela ratificação do protocolo de Kyoto. Na próxima semana, o novo PM, Kevin Rudd, participará na conferência de Bali com quatro dos novos ministros, confirmando o empenho nas questões ambientais, já patente na orgânica do Governo, onde, para além de um ministro do Ambiente, existe ainda uma ministra reponsável pelas alterações climáticas e pelos recursos hídricos.

Irão: boas notícias (trazidas pelos amaricanos)

O novo estudo do National Intelligence Council, uma espécie de reunião plenária de todos os serviços de intelligence dos EUA, tem boas notícias (novidades) e algumas más notícias (que não são novidade).
Algumas passagens importantes - as boas notícias:
1. "We judge with high confidence that in fall 2003, Tehran halted its nuclear weapons program";
2. " we judge with high confidence that the halt... was directed primarily in response to increasing international srcutiny and pressure";
3."Tehran's decision to halt its nuclear weapons program suggests it is less determined to develop nuclear wepaons than we have been judging since 2005";
4. "Iran may be more vulnerable to influence on the issue than we judged previously";
5. "We judge with moderate confidence Iran probably would be technically capable of
producing enough HEU for a weapon sometime during the 2010-2015 time frame.
(INR judges Iran is unlikely to achieve this capability before 2013 because of
foreseeable technical and programmatic problems.) All agencies recognize the
possibility that this capability may not be attained until after 2015";
6."Our assessment that Iran halted the program in 2003 primarily in response to
international pressure indicates Tehran’s decisions are guided by a cost-benefit
approach rather than a rush to a weapon irrespective of the political, economic, and military costs.
This, in turn, suggests that some combination of threats of intensified
international scrutiny and pressures, along with opportunities for Iran to achieve its
security, prestige, and goals for regional influence in other ways, might—if perceived
by Iran’s leaders as credible—prompt Tehran to extend the current halt to its nuclear
weapons program. It is difficult to specify what such a combination might be."

Agora as más:

1. "we also assess with moderate-to-high confidence that Tehran at a minimum is keeping open the option to develop nucelar weapons";
2. "We assess with moderate confidence that convincing the Iranian leadership to forgo
the eventual development of nuclear weapons will be difficult given the linkage many
within the leadership probably see between nuclear weapons development and Iran’s
key national security and foreign policy objectives, and given Iran’s considerable
effort from at least the late 1980s to 2003 to develop such weapons. In our judgment,
only an Iranian political decision to abandon a nuclear weapons objective would
plausibly keep Iran from eventually producing nuclear weapons—and such a decision
is inherently reversible";
3."Iranian entities are continuing to develop a range of technical capabilities that could
be applied to producing nuclear weapons, if a decision is made to do so. For example,
Iran’s civilian uranium enrichment program is continuing. We also assess with high
confidence that since fall 2003, Iran has been conducting research and development
projects with commercial and conventional military applications—some of which would
also be of limited use for nuclear weapons";
4."We assess with high confidence that Iran has the scientific, technical and industrial
capacity eventually to produce nuclear weapons if it decides to do so."

Como disse, as más notícias não acrescentam nada de novo, enquanto isolam os falcões que aparentemente andam "todos os dias" a exigir que se bombardeie o Irão. Portanto, isto tudo significa que a opção militar (sempre uma má ideia) está em vias de desaparecer do mainstream do debate americano.

Isto tudo também significa que a percepção da ameaça iraniana por parte da Europa - menos urgência, utilidade do processo diplomático, exclusão da opção militar - tem sido a correcta. (É bom não comparar o ocasional discurso ameaçador de Sarkozy com uma postura americana que considera há anos a opção militar como uma "solução" a ter em conta.)

Sebastianices

Está um daquelas manhãs de nevoeiro à séria:

The Chieftains & Sinéad O'Connor - The Foggy Dew

Night of the Iguana

A ler, a crítica de Lauro António da peça A noite da Iguana, de Tenessee Williams, em cena no Maria Matos, e a comparação com o filme, um dos meus favoritos, com o gigante Richard Burton, Ava Gardner e Deborah Kerr.

Uma língua, vários registos

Para o nosso debate em torno de grafias, pronúncias e outras coisas que tais, o fantástico Eddie Izzard:

Nova estratégia

Decorridos 176 dias sem que um governo tenha saído das últimas eleições, e perante a desistência de Leterme em prosseguir como formador de coligação, o rei dos Belgas optou por uma estratégia radicalmente diferente, encarregando o primeiro-ministro em exercício, Guy Verhofstadt, de explorar estratégias para sair da crise, procurar lançar pontes para a reforma do Estado e estabelecer soluções para questões prioritárias, que ultrapassem a gestão corrente (entre as quais avulta o orçamento de 2008).
Apesar do seu famigerado voluntarismo e da sua capacidade de alcançar com habilidade comprmissos inatingíveis, o recurso a Verhofstadt acaba por ser problemático na medida em que, para todos os efeitos, perdeu as eleições de Junho. É certo que é o seu capital de estadista que surge como nova hipótese para sair da crise. Mas como sustentá-la politica e parlamentarmente - um governo de união nacional como propõem os socialistas, uma manutenção da coligação ainda no poder com uma base parlamentar alargada ou baralhar e dar de novo?

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Para o Daniel Oliveira

Para começar, obrigado por escolher a Boina Frígia para blog da semana. Li o post que escreveu a justificar/explicar a escolha do nosso humilde cantinho cibernáutico e senti-me inspirado a tentar explicar o porquê de um blog republicano décadas depois da implantação da República em Portugal e séculos depois da tomada da Bastilha.
Julgo que há duas razões principais - uma positiva, outra negativa - para realçar os valores republicanos como fonte de inspiração ética, cultural e política e para continuar a ver a "principal herança comum de todas as esquerdas: a revolução francesa" como principal fonte de inspiração.

Primeiro, e julgo que pelo menos aqui falo pelos meus co-republicanos de serviço, sentimos que em Portugal o programa da República de 1910 ainda só foi parcialmente implementado. A separação incompleta de Estado e Igreja; a cidadania anémica e cheia de vícios criados por séculos de conformismo; um sistema de educação que ainda não prepara para a modernidade, para a cidadania e para o espírito crítico; o medo da diferença directamente herdado do obscurantismo beato; a obsessão com a autoridade: estas são apenas algumas das questões para as quais a República francesa esboçou respostas e que a República de 1910 reconheceu correctamente como ameaças fundamentais. O Daniel e outros (alguns neste blog) exprimem regularmente a sua estupefacção com os debates que penosamente ainda temos que levar a cabo na blogosfera: fanatismo religioso, intolerânica em relação à diferença, medo da mudança e, acima de tudo, a mediocridade estéril e a nostalgia por um Portugal perdido que nunca existiu - de certa forma, estamos mais perto de 1910 do que de 2010: para velhas doenças, remédios antigos.

A segunda razão - como disse, negativa - para nos inspirarmos nos valores republicanos é a desilusão com a performance da esquerda no século passado. Muito se escreveu recentemente sobre a Revolução Russa, mas também sobre a tragédia do triunfo fascista em Espanha e sobre o socialismo científico que (para a maior parte de nós) morreu o mais tardar em 1989 (ou logo nos anos 20, ou no XXº Congresso do PCUS, enfim, uns levaram mais tempo do que outros). Tudo começou bem: a esquerda pós-Revolução Francesa produziu uma hoste de pensadores - Saint-Simon, Proudhon, Fourrier, mas também os hegelianos de esquerda de onde veio Marx - que identificaram perfeitamente os limites da República como narrativa emancipatória. A Revolução francesa tinha sido incapaz de atacar a questão da justiça social, e da redistribuição da riqueza: a distribuição dos meios de produção e a reorganização das relações de produção nunca foram o forte de Mirabeau et ses copains... Atenção: nunca me ocorreria fazer o disparate de culpar as Teses sobre Feuerbach pelos horrores dos gulags: este exercício muito comum entre os nossos amigos do outro lado da(s) barricada(s), para além de ser indefensável do ponto de vista da metodologia histórica, é profundamente injusto para com Marx. Do que eu sinto falta em Marx é por um lado a dimensão ética da vida política (falta Kant a Marx; felizmente a Escola de Frankfurt salvou Kant para o marxismo não-leninista do século XX!), e por outro o reconhecimento da importância das identidades e das instituições na construção de espaços políticos emancipatórias. Resumindo, o nosso amor pela República, longe de rejeitar as lições de Marx, prefere usar as que são úteis e manter uma distância céptica em relação às outras.

A leitura do Contrato Social ou da Origem das Desigualdades de Rousseau, ou dos discursos de Mirabeau e Brissot na Assembleia Nacional, ou o que Condorcet escreveu sobre os direitos políticos das mulheres, ou até momentos excepcionais da Revolução, como a meia dúzia de dias entre 4 e 11 de Agosto de 1789, em que a nação francesa, constituída em Assembleia Nacional, deita pela janela séculos (milénios?) de vetustos privilégios feudais e eclesiásticos como se de uns trapos se tratassem: que outro momento ideológico, que outra linguagem consegue servir de inspiração 250 depois de ter nascido?
Enfim, este blog e as nossas convicções de republicanismo reciclado através das experiências recentes da esquerda talvez não passem de uma espécie de back to the basics difícil de conciliar com o passar dos tempos. Uma nostalgia anacrónica, até. Também não temos respostas para o racismo, colonialismo, anti-semitismo e sexismo que distinguiram muito bom republicano em 1789, como em 1910, em Portugal, como em França.

Simplesmente continuamos a achar que a República é um ideal que continua a exigir o melhor de nós, e que ainda não foi inventado mote mais belo na sua simplicidade do que Liberdade-Igualdade-Fraternidade.