terça-feira, fevereiro 26, 2008

A Alemanha também anda eleitoralmente interessante...

Este domingo escreveu-se mais um capítulo daquilo que pode ser a maior transformação do quadro partidário alemão desde o aparecimento dos Verdes na década de 80. Enquanto prossegur o impasse em Hessen, em Hamburgo as eleições da cidade-estado oferecem nova complicação pós-eleitoral, com causas semelhantes. Vamos por partes.
CDU ganha, mas perde maioria absoluta.
SPD faz progressos moderados.
Verdes perdem alguns pontos percentuais.
Liberais continuam de fora do parlamento.
Die Linke entra em mais um parlamento estadual, com mais de 6%.


Resultado imediato: não há coligações evidentes. Apesar de vir a gozar de uma super maioria, parece que não há paciência para mais uma grande coligação. Mantendo-se a intenção de afastar as coligações com a Linke, também a fórmula SPD-Verdes-Linke parece não vingar. Curiosamente, a solução apontada neste momento como mais provável pode passar por uma inédita coligação preto-verde (CDU-Verdes). Se tivessemos a mania dos alemães de dar nomes às coligações com base nas cores, entre nós podiamos chamar-lhe a coligação "táxi antigo".


Entretanto, a liderança do SPD, apesar de muitas incertezas e hesitações, deu luz verde à líder estadual em Hessen para uma eleição como chefe do Governo como o apoio da Linke. Solução idêntica é matematicamente possível em Hamburgo, se não fosse a oposição do candidato local do SPD. A CDU já avisa sobre perigosos trotskistas a aproximar-se do poder...


Não sou grande fã da Linke, mas já aqui escrevi que esta via das coligações pode não ser necessariamente uma alternativa muito má. Veremos...

De volta ao serviço na Bóina...

... parece que a sabática acabou mesmo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O virar da página

O Comandante-em-chefe de Cuba renunciou ao cargo de Chefe de Estado, mas não significa necessariamente que tenha renunciado ao poder. Figura polarizadora como é, não tardaram as reacções entusiasmadas de adeptos e detractores.
Fidel liderou um golpe de estado para derrubar um governo despótico e corrupto no quintal dos Estados Unidos, que muito convinha aos interesses americanos. O mais que se pode dizer do movimento revolucionário é que era de natureza patriótica, nem sequer de esquerda ou de direita. No entanto, as necessidades resultantes do realinhamento geo-político e estratégico assim operado empurraram-no para a esfera de influência da União Soviética, como forma de assegurar a sobrevivência do projecto revolucionário, mas também, não haja ingenuidade quanto a isso, a sua sobrevivência enquanto líder político.
Daí que, antes de ser herói ou vilão, Fidel Castro seja um caso exemplar de sobrevivência e adaptação às contingências da política. A sua figura suscita-me, por isso, apenas uma apreciação cínica: não acredito que seja o ditador facínora nem o líder democraticamente amado pelo povo que alguma esquerda diz. Parece-me que quando uma lista que recolhe 95% de votos não estamos perante uma eleição, mas sim de uma aclamação, com tudo o que isso acarreta de fragilidade democrática. Parece-me, também, que, para o tipo de ditadores a que estamos habituados, falta a Fidel uma quantidade séria de palácios sumptuosos e demonstrações de luxo, e o seu currículo regista alguns serviços desinteressados prestados ao seu povo.
O embargo económico a cuba tem sido a perfeita desculpa para Fidel. Enquanto os Estados Unidos não ultrapassarem o ódio a Fidel que se transmite de geração em geração de políticos, e, quem sabe, enquanto o estado da Florida tiver o peso que tem nas eleições e os dissidentes cubanos se constituírem como grupo eleitoral de especial influência, Fidel conseguirá sempre pôr o povo do seu lado contra a América. Até que isso mude, a História não o poderá julgar convenientemente.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A importância das palavras

A história não tem que ser destino. Pode ser uma lição para o futuro - e de vez em quando aparece alguém com a coragem de a articular.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vital Moreira diz muito bem

Vital Moreira tem muita razão quando denuncia a mania portuguesa de demonizar o oponente. O uso generoso de superlativos, as comparações abusivas, anacrónicas e de gosto duvidoso, e a desproporção muitas vezes gritante entre a substância do desacordo e a intensidade do insulto, são sintomas de um debate medíocre e de uma opinião pública excessivamente excitável.

Lembro-me que algures durante ou depois da guerra do Líbano de 2006, Vital Moreira comparou as violações do Direito Internacional perpetradas por Israel com a ocupação alemã do Leste da Europa durante a 2a Guerra Mundial.

Nessa altura perguntei-me porque é que os erros de Israel levam sempre - mais cedo ou mais tarde - a comparações cruéis, anacrónicas e de mau gosto com os arquitectos de Auschwitz.

Ficava muito feliz se Vital Moreira concordasse comigo quando digo que a fúria legítima contra a injustiça não justifica todas as piruetas retóricas.

domingo, fevereiro 10, 2008

Yes We Can

Depois de ficar em segundo nas eleições do New Hampshire, Barack Obama proferiu o inspiradoe inspirador discurso que o senhor will.I.am dos Black Eyed Peas converteu em música e neste videoclip realizado pelo filho de Bob Dylan, Jesse Dylan, que correu o mundo.

Já agora, se ainda não tiveram a oportunidade de ver:


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Alberto como ele mesmo

Alberto João Jardim mascarou-se dele próprio neste carnaval para nos sugerir a criação de uma Federação Portuguesa com a Madeira como estado Federado e ele próprio como Presidente do Estado Madeirense. Palavras para quê?

A primeira deliberação será assegurar que, nas futuramente instituídas primárias portuguesas, a Madeira vote sempre na super-terça-feira de Carnaval.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Quando é que eu já vi isto antes?


Hillary chorou outra vez. Deve ter olhado para as últimas sondagens.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Balas e Bolinhos II

Desta vez é mais bolos, sem balas. Os republicanos que fiquem com seus. Agora Obama tem o apoio de Hulk Hogan.

Proposta de tempo de antena aqui.

1 de Fevereiro de 1908

100 anos passados sobre a troca de tiros no Terreiro do Paço que levou deste mundo dois membros da família real, dois carbonários e um cidadão que foi apanhado na confusão, impõe-se partilhar umas linhas sobre sobre o assunto. 100 anos parecem não ter ainda sido suficientes para uma leitura desprendida e objectiva dos eventos. Tal deve-se em grande medida a algum marialvismo revivalista, que pretende pintar o evento em estilo de evocação de martírio e de demonstração da iniquidade do regime republicano e dos seus fundadores e que não se coíbe mesmo de evitar o ridículo (veja-se o que diz o Eng.º Duarte Bragança ao culpar o regicídio e a república pelo atraso do país).

Do outro lado da barricada, por seu turno, existe há muito uma linha iconográfica que eleva ao panteão dos heróis da República os regicidas Manuel Buiça e Alfredo Costa e que assinala o dia 1 de Fevereiro como um marco relevante no caminho para a mudança de regime. As vinte mil pessoas que compareceram nos funerais de Buiça e Costa e as homenagens e monumentos que a I República lhes dedicou selaram o seu papel de libertadores da pátria oprimida. Compreende-se que assim tenha sido na época, quando a questão estava quente e quando as paixões ideológicas exigiam a diabolização do adversário, o endeusamento dos regicidas e a justificação do facto. Hoje, querendo ser objectivo e desejando analisar sem essas paixões os eventos daquela tarde, não me custa nada reconhecer que o acto em causa foi e continua a ser criminoso. Por muito estimulante que possa ser, numa dimensão intelectual e filosófica, a discussão em torno da legitimidade para matar um tirano, Carlos de Bragança estava longe de preencher os requisitos associados ao perfil do opressor cruel cuja eliminação se poderia impôr legitimamente pela bala. Quisesse eu justificar o acto não o conseguiria, na medida em que o homicídio, seja ele político ou de outra sorte, dificilmente se desculpa, ainda mais dificilmente se justifica (e digo-o particularmente com um alcance jurídico).
Deste reconhecimento de que aquilo com o que lidamos é um crime motivado pela vontade em eliminar um adversário político, não se pode, por seu turno, retirar a imagem da vítima como um monarca constitucional que se atinha rigoroso ao espírito e à letra da Carta e pintar um D. Carlos democrático e um país liberal tão como o tinha sido no tempo do senhor Fontes, por exemplo. A ditadura de João Franco, suportada apenas no beneplácito do rei, estava longe de representar um expediente usual nas práticas da lusa monarquia constitucional. Se o conceito oitocentista de ditadura enquanto período de governação sem controlo parlamentar correspondeu, de facto, a diversas experiências governativas portuguesas, prontamente legitimadas a posteriori por bills de indemnidade, o consulado de João Franco já degnerara, em 1907, pela duração e natureza da anomalia constitucional, em fenómeno distinto, numa verdadeira ditadura, em sentido próprio ou moderno.

Também o facto de aceitarmos que de um crime se tratou não serve de mote para fundamentar a justeza do regime monárquico, ignorar a sua debilidade crescente e invalidar o carácter progressista e modernizador do programa republicano que triunfaria dois anos depois. E não serve também para provar o que quer que seja sobre as falhas da I República, o seu radicalismo ou o seu pessoal político - aliás, o regicídio será seguramente o exemplar mais indicado de um passo relevante na caminhada para a república dado à revelia da direcção do PRP e até contra a sua vontade. Não há, pois, lugar a patetices de dias de luto nacional, de plaquinhas em homenagem ao homem que morreu pela pátria e de extrapolações e juízos de valor revisionistas sobre a história daquele dia, do regime que viria a cair pouco depois e do regime que lhe sucedeu. Faça-se ciência e não velórios.

Em jeito de conclusão, penso que os meus sentimentos sobre o 1 de Fevereiro se resumem a duas ideias. Primeiro, penso que já tarda o momento em que se vai conseguir assinalar o evento no plano adequado, que me parece ser o da história e não o da política. Em segundo lugar, enquanto republicano, inspirado pela divisa da igualdade, fraternidade e liberdade, é me impossível saudar o regicídio como momento a comemorar, ainda que uma das suas consequências objectivas tenha sido a de acelerar a chegada da República. Porque acredito que esta vale por si mesma, e deve-se comemorar pelos valores que representa, não me custa nada, até penso que eticamente se impõe, deitar fora a simpatia ou complacência pelo acto dos regicidas.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Pioneiros


Ao cair do dia, a saudação à primeira tentativa republicana, na melhor tradição do Porto de 1820 e de 1832-34.

Felinos...




Um abraço ao Gato, que sobreviveu aos tigres...

A oeste algo de novo

Primeiro, vamos a eleições. Não as americanas, as do estado do Hessen.

Depois de uma aparente vitória do SPD, a CDU consegui ganhar no photo-finish (o,1%), ficando ambas as formações com o mesmo número de deputados (42 para cada). Depois, e pela primeira vez no "ocidente" todos os restantes partidos com expressão nacional conseguiram lugares no parlamento do Land: FDP com 11 deputados, Verdes com 9 e Die Linke com 6 (resultados aqui). De momento, tudo em aberto para formar governo:

Grande coligação? Com o divórcio nacional em curso e tendo em conta a dureza da campanha, não parece provável.

Semáforo (SPD, Verdes e FDP)? O FDP não parece alinhar, uma vez que está a fazer a corte à CDU a nível nacional, esperando poder regressar ao governo na próxima legislatura, caso os alemães fiquem com a Frau Merkel e enviem o SPD de regresso à oposição (o que na minha opinião só lhe faria bem).

Jamaica (CDU, Verdes e FDP)? Seria uma experiência inovadora ao nível estadual, mas, curiosamente, já experimentada autarquicamente nalgumas cidades, precisamente em Hessen.

Vermelho, vermelho-escuro e verdes? Trazer o partido da esquerda para o poder no ocidente aprentemente é ainda um tabu. Penso francamente que tem de deixar de ser. Não partilho do entusiasmo do Daniel Oliveira em relação à mais valia que possam representar para o futuro da esquerda na Alemanha. Penso é que chegou a altura de deixar de tratar os sucessores dos sucessores da SED como párias do regime político. Já estão no poder nalguns Estados do leste, receberam muitos dissidentes da ala esquerda do SPD com pergaminhos democráticos inatacáveis e os reciclados merecem, no mínimo, o tratamento dado aos sucessores dos ex-partidos únicos dos vizinhos do Leste. Um país que conseguiu ultrapassar a antiga militância na NSDAP de políticos de primeira linha da CDU dos primeiros anos da república federal (veja-se o caso de Kiesinger, chanceler de 66 a 69, cujo governo de coligação com o SPD, tendo Willy Brandt como vice-chanceler, representou uma forma muito alemã de reconciliação nacional).

Para acabar, e porque isto vai longo, ainda há a reter a lição que os jornais portugueses não aprendem. No DN de segunda-feira podia ler-se esta manchete: "Partido de Merkel perde as eleições no Estado de Hesse". Mas como falhar só numa coisa não tem charme (para isso já temos o Público), eles dão-lhe com outra: "Os Liberais FDP obtiveram 9,5%, os Verdes 8 %, e os esquerdistas do Die Linke 4,9%, o que significa que não conseguiram ultrapassar a barreira dos cinco por cento para eleger pela primeira vez deputados ao hemiciclo de Wiesbaden" E que tal esperar por resultados para a próxima?

De regresso


Já tinha saudades deste ar fresco da blogosfera. E a luz matinal e o nascer do sol vistos da blogosfera, meu Deus, esta luz que só se encontra por aqui. Nos meus delírios de grandeza já imagino o sururu (gosto desta palavra) que vai por aí: "Olha o gajo a voltar a tempo do aniversário do regicídio", "olha o gajo a vir desempatar entre o Obama e a Hillary antes que o David e o Gato se matem", "olha o gajo a vir comentar a transferência do Makukula para o glorioso".

Quanto ao regicídio, esperem por sexta-feira. Quanto às eleições americanas, esperem pela Supertuesday. Quanto ao Makukula, esperem pelos golos!

Confesso que estive tentado a regressar a escrever em sânscrito, uma vez que o português é uma língua excessivamente emocional para veicular boas ideias. Infelizmente, nem o teclado, nem os caracteres que tenho instalados mo permitiram e lá vão ter que gramar com este vernáculo galaico-português...

Vou ver se ainda está tudo no sítio. Até já.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

30 de Janeiro de 1948


Faz também hoje 60 anos que se apagou uma luz na escuridão, a Grande Alma de Mohandas Ghandi.

O profeta da Boina

Depois de almoçar deu-me para a profecia, e formou-se-me esta ideia no espírito.

Prognósticos das nomeações presidenciais nos Estados Unidos:

Partido Republicano:
John McCain e Rudy Giuliani

Partido Democrata:
Barack Obama e John Edwards

Esta é especialmente difícil, tendo em conta que Billary Clinton é Billary Clinton, e que John Edwards deve anunciar a sua desistência da corrida hoje e assumir-se como o Fazedor de Reis da campanha. A menos que Obama contrarie o efeito convidando Bill Richardson para a Vice (eleitorado hispânico), ou recorre ao arsenal nuclear: Al Gore, quem sabe?

30 de Janeiro de 1933


Faz hoje 75 anos que a escuridão se abatia sobre a Alemanha. Uma escuridão que em breve alastrava à maior parte da Europa. Que a memória nunca nos falhe e que nos lembremos sempre das vítimas, dos heróis, e dos carrascos. Foi ontem.

terça-feira, janeiro 29, 2008

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O factor K



Só faltava mesmo Camelot entrar no conto de fadas.
O apoio de Caroline Kennedy, a filha de JFK, ao conterrâneo de Lincoln num editorial no NYT, é um gesto de enorme carga simbólica. Mas o apoio, hoje, do tio Ted Kennedy (e do filho Patrick) é mais do que isso: descansa os militantes destacados de que não há que temer apoiar Obama contra os Clinton, dá-lhe credibilidade e consistência junto dos sindicatos e do voto hispânico antes da Super Terça-Feira e põe os media a falar do assunto durante muito tempo.

A estratégia de Bill Clinton em descarregar munições em cima de Barack Obama, para além de fazer da esposa um adereço da opereta que o próprio criou, e para além de uma derrota mais estrondosa do que esperado na Carolina do Sul (menos de metade dos votos de Obama), tem desiludido muito boa gente, dentro e fora do Partido Democrático, que se tem vindo a colocar na órbita de Obama. Quem acompanha a internet das primárias (este é um bom sítio para o fazer) tem-se vindo a aperceber disso. A próxima pode muito bem ser a prémio Nobel da Literatura Toni Morrison - a tal que chamou a Bill Clinton o primeiro presidente negro da América.