sábado, dezembro 08, 2007

Dá-me música que eu gosto


Facto curioso n.º 1: Barack Obama, Bill Clinton e Jimmy Carter estão nomeados para um Grammy, categoria "palavra falada".
Facto (ainda mais) curioso n.º 2: Qualquer um deles já ganhou o prémio anteriormente, e Obama é mesmo o campeão em título.

Al Gathafi speaks nada que se aproveite


Uma pessoa habitua-se a ter destes ditadores do terceiro mundo a ideia de que são tipos muito espertos e sabidos, pelo menos medianamente inteligentes, pelo menos o suficiente para chegarem ao poder e por lá se manterem indeterminadamente, debelando pontualmente a ocasional erva daninha que ouse levantar a grimpa.
Depois vêem-se coisas como esta (aliás, propagandeadas esta semana na imprensa portuguesa, não se sabe bem porquê, quem sabe à espera de converter algum recalcitrante) e pergunta-se: como é que alguém consegue não fazer um golpezito de estado para derrubar um tipo dado a boçalidades destas? Só pode ser a força do hábito.
Confesso que não consegui ler mais do que os primeiros parágrafos, mas julgo que estes são suficientes. Mesmo assim, recomenda-se o resto dos artigos.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Cartoon do Economist desta semana


Efeitos da saída de um gémeo

Dia Europeu contra a pena de morte aprovado por unanimidade pelos 27 Estados da UE.

Telhados de vidro

José Miguel Júdice, enquanto antigo bastonário da Ordem, deveria mostrar mais respeito pela instituição a que presidiu. Sem qualquer pudor, Júdice afirmou que "se o mandato de Rogério Alves foi uma tragédia, o de Marinho Pinto será uma tragédia ao quadrado." Pela leitura do comentário, parecerá que a época dourada da advocacia portuguesa ocorreu no mandato de Júdice. Época essa em que, recorde-se, Marinho Pinto presidiu (até sair por virtude dos seus ataques à magistratura) à Comissão de Direitos Humanos e Rogério Alves foi presidente do Conselho Distrital de Lisboa, ambos eleitos na lista de... José Miguel Júdice.


Apesar de jurista, não sou e, provavelmente, não serei em tempos próximos advogado. Contudo, enquanto jurista acompanho com proximidade a realidade e o papel que deve desempenhar na reforma e na credibilização do sistema judicial e, enquanto cidadão, tenho ideias claras quanto à função das ordens e à necessidade de eliminar restrições corporativas no acesso à profissão.

Confesso que o balanço que faço do mandato do último bastonário não é muito positivo: cumrpiu os serviços mínimos. Mas andarei muito longe de achar que a gestão de Rogério Alves tenha sido trágica. Provavelmente, Júdice ainda se sente na necessidade de vingar o seu processo disciplinar. Mas a acusação é francamente excessiva. Quanto a Marinho Pinto, não me parece que tenha o perfil adequado para liderar a Ordem, credibilizá-la e torná-la um agente de mudança: o seu discurso é excessivamente corporativo e populista e a sua forma de lidar institucionalmente com os demais agentes do mundo da justiça (particularmente com as magistraturas) é particularmente desadequada. Dito isto, e não tendo ainda sequer tomado posse, pelo menos o respeito devido aos recém-eleitos deveria levar a alguma contenção da parte de Júdice, que durante o referido processo disciplinar tanto se queixou da falta de consideração tida pela figura institucional do ex-bastonário. E a figura do bastonário-eleito, já agora?
Fosse eu advogado, a minha escolha para Bastonário teria sido seguramente outra e não teria também passado pelo outro populismo em oferta ou por pára-quedismos. Contudo, algumas características positivas reconheço a Marinho Pinto: a honestidade e espírito de serviço público e a coragem de enfrentar alguns aspectos menos claros do exercício da profissão de advogado, como por exemplo a falta de critérios de contratação dos seus serviços por entidades públicas. Curiosamente, aspectos que facilmente podemos identificar como deficitários nas prioridades do mandato de Júdice e na sua actuação deontológica posterior - veja-se novamente o processo disciplinar, motivado pela declaração de que o Estado deveria sempre recorrer a contratação de serviços jurídicos consultando as maiores sociedades de advogados...

Literatura para a quadra

Recebi ontem um mail das edições 70 em que a editora faz uma série de "sugestões de Natal". Para além de diversas obras sobre a história da Igreja, achei particularmente interessante terem recomendado "Papas perversos". Um clássio comparável ao Conto de Natal de Dickes, seguramente.

Depois admiram-se que as relações transatlânticas estejam no estado em que estão...


quinta-feira, dezembro 06, 2007

O mundo é muita complicado

É pá, estes anti-americanos primários são mesmo fanáticos.

Malabarismos conceptuais

João Miranda escreveu ontem um post no Blasfémias em que sustenta a compatibilidade entre liberalismo e a promoção da homofobia. O post incorre num vício inultrapassável que é a equiparação para efeitos de análise entre uma orientação sexual (a homossexualidade) e um comportamento discriminatório (a homofobia), tratando-os como realidades contrapostas, como se de um jogo de matraquilhos se tratasse. No primeiro caso, aquilo com que deparamos é uma característica intrínseca ao ser humano, um elemento da sua identidade. No segundo caso, e por mais habilidosa que procure ser a argumentação, não estamos perante um mero exercício inócuo de liberdade de expressão, estamos sim perante um preconceito, uma predisposição discriminatória, que pode conduzir à promoção de comportamentos discriminatórios em relação a terceiros. Se procurássemos transpor a argumentação exposta no post para outros fenómenos discriminatórios, substituindo a causa de discriminação por outra, o resultado alcançado seria semelhante ao seguinte raciocínio:
- Liberdade de opinião e de expressão: existe liberdade de criticar os pretos. Cada um é livre de ser racista se o desejar.
- Projectos políticos que visam proibir (ou coagir) a existência de pretos são incompatíveis com o liberalismo.
- Projectos políticos que visam proibir (ou coagir) o racismo são incompatíveis com o liberalismo.
- Movimentos que procuram promover a existência de pretos ou condenar moralmente o racismo são compatíveis com o liberalismo, desde que não tenham como objectivo instituir políticas de Estado.
- Movimentos que procuram promover o racismo são compatíveis com o liberalismo, desde que não tenham como objectivo instituir políticas de Estado.

Da leitura do post depreende-se ainda que a defesa da igualdade de tratamento sem discriminações em função da orientação sexual equivale àquilo que chama de promoção da homossexualidade. Já agora, pergunto como se promove a homossexualidade. Kits promocionais de sócio como os do Benfica, à venda em estações de serviço? Crédito à habitação bonificado? Sorteios de viagens à República Dominicana? Desconhecia que a orientação sexual passa por uma questão de persuasão e de marketing, que é possível promovê-la e convencer terceiros a aderir. Mais uma vez se nota aqui a tremenda confusão entre promover a inclusão de todos na sociedade como iguais e defender o fim da discriminação, combatendo a homofobia, e a noção batida (muito JCN) e sem conteúdo de “promover a homossexualidade”.

Finalmente, parece-me que a afirmação de que o liberalismo é compatível com movimentos que promovem a homofobia representa uma versão francamente deturpada do conceito de liberalismo (ou, se quisermos ser mais simpáticos, uma reinvenção do conceito a partir do zero, sem qualquer conexão com a evolução conhecida da história do pensamento moderno). Recordo-me, entre outros, do que Stuart Mill (que presumo ser insuspeito), escreveu no On Liberty, sobre os limites da liberdade e que gosto de citar a propósito desta discussão:

"The sole end for which mankind are warranted, individually or collectively in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection. That the only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilized community, against his will, is to prevent harm to others.
[...]
The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign".

A promoção da homofobia, mais do que um mero estado de alma individual de desagrado em relação à homossexualidade, representa um programa discriminatório em relação a um conjunto determinado de cidadãos, e que se enquadra sem dificuldade na tal noção de “harm to others” a que alude Stuart Mill. Se quiser ser homofóbico no lar e no círculo da intimidade, é, de facto, totalmente livre de o fazer, desde que guarde a sua vontade de discriminar para si. Pretender passá-lo em forma de movimento para a sociedade e fazer alastrar essa atitude discriminatória é que não é de todo sustentável com a ideia de liberalismo: a actividade de promoção de uma discriminação vai ser a causa directa de um dano na esfera da vítima da discriminação. Liberalismo é muito mais do que uma ideia de cada um por si e outros que se lixem. Pressupõe a existência e a garantia de condições para que cada um possa desfrutar ao máximo da sua esfera de liberdade, livre de inibições de origem discriminatória.

And the same to you

Estava em deambulações pelo YouTube, quando deparei com este clip do Dudley Moore a interpretar a sua Parody on Beethoven Sonatas, intitulada And the same to you. Para além de um talento imenso para a comédia, Dudley Moore tinha uma formação clássica como pianista e organista em Oxford, e soube reunir os seus dois dons na composição desta pequena pérola, pegando na melodia da Marcha do Coronel Boogey (o tema da Ponte sobre o rio Kway) e transformando-a num trecho de tipo beethoveniano, com reminiscências de diversas sonatas para piano e uma coda interminável. Já conhecia a obra de um CD que Moore gravou em 1995 em que, para além de interpretar o Concerto para Piano em Lá menor de Grieg, também incluiu 7 parodies musicais, imitando os estillos de Beethoven, Schubert, Weill, Britten, entre outros compositores. Aqui fica, Dudley a la Beethoven:

And now for something completely boring


Com o avizinhar de uma nova ronda de debate em torno da lei eleitoral para a Assembleia da República, estou seriamente a pensar em massacrar os onze leitores habituais da Bóina com uma série de posts sobre sistemas eleitorais. O de hoje, curtinho e para abrir o apetite, surge-me após ter lido a coluna de hoje do Pedro Lomba no DN, cujo último parágrafo me merece consideráveis reservas.

Se há um elemento que penso ser indispensável para assegurar o pluralismo da representação parlamentar é a manutenção do número de deputados em 230. Só assim continuará a ser possível assegurar um equilíbrio entre a governabilidade, permitindo o aparecimento de maiorias estáveis (absolutas ou quase-absolutas), e a proporcionalidade da representação nacional. Menos deputados significará necessariamente menor representatividade dos pequenos partidos e menor pluralismo da assembleia. E se é inegável que uma crítica ao papel apagado do parlamento tem de passar pela crítica feroz à existência de deputados da nação cuja produtividade política é muito reduzida e que emergem dos aparelhos partidários e de equilíbrios regionais e de tendência muito mais feudais do que representativos, também não pode ser negada a qualidade e quantidade da produção e da intervenção política parlamentar dos pequenos partidos. A reforma destinada a qualificar o parlamento pela via da lei eleitoral poderia acabar por eliminar uma das fontes de qualidade do trabalho parlamentar hoje existente nas formações mais pequenas. Num cenário de menos deputados, os muitos frontbenchers do PS e do PSD (as lideranças das bancadas e os presidentes e coordenadors das comissões) continuariam naturalmente a assegurar, enquanto formigas obreiras que normalmente são, o nível de produção legislativa e fiscalizadora hoje existente, mas perdiamos o capital de pluralismo que enriquece o trabalho legislativo e a maior liberdade fiscalizadora dos partidos que tendem a quedar-se pela oposição.

Concordo que é necessário repensar a função do parlamento. Não estou é tão seguro de que a solução para esse exercício deva passar pela legislação eleitoral ou pela redução do número de deputados. Quanto à primeira, se há uma lição a tirar de mais de trinta anos de democracia é a de esta que sempre ofereceu resultados seguros, nunca se transformou numa questão de regime (como hoje acontece em Itália, por exemplo) e tem servido quer a governabilidade (três maiorias absolutas de um só partido, seis governos de coligação pré- e pós- eleitoral com maioria absoluta, duas "quase maiorias absolutas" de um só partido), quer a proporcionalidade (representação de pelo menos quatro partidos e entrada de novas forças políticas no parlamento sem recurso a coligações - UDP, PRD, PSN e BE, neste caso com uma implantação que os anteriores não conheceram). Quanto à segunda, tendo em conta o ratio população - deputados, temos uma representação que se encontra na exacta média dos Estados membros da UE e que representa uma aplicação quase perfeita da regra da raiz cúbica, normalmente apontada como critério para aferir o tamanho "ideal" dos parlamentos. Enfim, é uma discussão que dá pano para mangas e que continuarei por estas bandas.

E se este post foi supostamente curtinho, imaginem o que aí vem. Chiça!


PS: E não se preocupem, que sobre o acordo quanto à lei eleitoral autárquica também farei penar devidamente o visitante, muito em breve.

Tendencialmente acertado

A propósito da discussão que a criação do direito de tendência no CDS-PP está a suscitar, ler o texto de Maria José Nogueira Pinto no DN de hoje e este post no Lóbi. Deixo-vos com a frase de abertura: A única tendência no CDS é a tendência para acabar. Prova disso é a divisão de um partido pequeno em “tendências”.

E era uma dose de Forças Armadas laicas, se faz favor

Passeava eu pelo site do Estado Maior General das Forças Armadas (don't ask why...), quando deparei com esta notícia, sobre a colocação da Cruz de Cristo "símbolo da Força Aérea, no local de culto e referência de resistência nacionalista Lituano, denominado "Monte das Cruzes". A cerimónia contou com a presença do Bispo das Forças Armadas da Lituânia (o Januário Torgal Ferreira local) e os órgãos de comunicação social lituanos efectuaram larga cobertura deste evento "em especial o momento em que o Bispo das Forças Armadas Lituanas fez questão de benzer a Cruz de Cristo Portuguesa, ajoelhando-se e beijando a cruz lusitana, afirmando em Inglês:" - Estou muito feliz por ter uma Cruz Portuguesa neste local !"


Não nego o valor simbólico que o local possa ter para a resistência lituana e a relevância histórica para o povo da Lituânia. Contudo, tratando-se inequivocamente de um local de culto e tendo esta sido inequivocamente uma cerimónia religiosa, tenho por inequivocamente demonstrada uma violação da separação entre o Estado e as Confissões Religiosas. As Forças Armadas Portuguesas não podem associar-se a qualquer acto de culto, por mais relevante que possa ser para as autoridades locais a manifestação de solidariedade. Existem outras formas de estabelecer laços entre as instituições castrenses dos dois países e, perante o convite, as autoridades militares deveriam educademente ter recusado e sugerido uma alternativa, como por exemplo a realização do evento sem carácter oficial, para os militares portugueses que desejassem participar, a convite da instituição lituana e sem ligação oficial à hierarquia militar.

Ainda que se quisesse relativizar a coisa e afirmar que se tratou de uma mera cortesia demonstrada num local onde há cooperação de tropas portuguesas (algo que não me parece ser sustentável face à clareza que o princípio da separação acarreta), a ampla divulgação no site do EMGFA revela que a cerimónia é encarada com normalidade e como pacificamente integrada na missão das Forças Armadas. E mais do que o episódio em si, é este aspecto que me parece francamente inaceitável.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Quero um tipo assim para me tratar das cobranças difíceis, ou o cowboy mais rápido que a sua tomada de posse

Nos Estados Unidos é impensável para qualquer político republicano fazer um discurso (quanto mais uma campanha eleitoral) sem evocar a figura de Ronald Reagan, fazer-lhe um elogio ainda maior do que o gajo que acabou de falar dele, e reclamar-se seu herdeiro - ou seja, um pouco o que se passa em Portugal com Sá Carneiro e os congressistas do PSD.
A coisa chegou ao ponto de Rudy Giuliani lhe atribuir poderes de super-herói. No seu mais recente anúncio de campanha, evoca a crise dos reféns americanos no Irão em 1979, e o facto de estes, após 444 dias de cativeiro, terem sido libertados durante a hora seguinte a Ronald Reagan ter prestado juramento na sua cerimónia de tomada de posse (na verdade foram 20 minutos após o juramento). Tudo por mérito do então recém-empossado presidente, supõe-se.
Bin Laden, põe-te a pau.


A transcrição aqui.

Ah, e também é engraçado ver Karl Rove a dar conselhos a Barack Obama sobre como derrotar Hillary Clinton. Pelo menos desta vez vale a pena ligar ao que o senhor diz.

Bem sei que ele tem muito petróleo...

... mas era mesmo preciso perder a coluna vertebral? Mais uma vez, obrigado Merkel.

Olhó gajo...

Aparentemente, Putin ficou desiludido com os resultados das eleições, uma vez que o seu partido ficou aquém dos 71% que alcançara nas eleições presidenciais. Compreende-se a insatisfação: com tanto controlo dos media, pressão sobre a oposição e fraude eleitoral, qualquer coisa que fique abaixo dos 75% é profundamente injusto. Uma pessoa investe tempo e dedicação em construir uma aparelho de manipulação opressivo da sociedade que espartilha adequadamente a oposição e vai-se a ver os sacanas ainda elegem deputados. Realmente, não há direito.

A marca de Menezes

A aprovação da solução compromissória para o empréstimo para o município de Lisboa encerra a novela desencadeada pela liderança nacional do PSD, que, procurando cobrir-se de glória derrotando adversários políticos e tornando a gestão municipal na capital virtualmente impossível, acaba por sair cabisbaixa e desmascarada na sua estratégia pouco séria. A intervenção do PSD nesta recambolesca novela demonstra várias características negativas da nova liderança, desde a incoerência, ao oportunismo, passando pela falta de conhecimento da realidade e pela deficiente preparação das soluções técnicas alternativas, que nem junto dos eleitos locais do próprio partido conseguiram reunir acolhimento entusiástico. Pelo meio, acrescenta-se a total ausência de pudor do próprio Luís Filipe Menezes, o autarca que bateu todos os limites de endividamento no seu concelho, e que se achou legitimado a enviar lições de gestão autárquica que não pratica em Vila Nova de Gaia.
Em primeiro lugar, destaca-se uma liderança nacional cujas figuras de proa são dois autarcas ciosos da sua autonomia e possuidores de uma espécie característica de bairrismo populista, a avocar um processo político local e a impor orientações centralistas à estrutura concelhia, através da estrutura distrital. Orientações essas que, segundo António Preto afirmou ontem, à saída da reunião da distrital, a maioria dos deputados municipais do PSD não teria intenção de seguir, mas a que ficariam vinculados pela disciplina de voto, sob ameaça de consequências internas.

De seguida, merece referência a total incapacidade de compreensão da realidade local e de produção de respostas credíveis. O projecto anunciado inicialmente como proposta alternativa não deixou de transparecer o que era, uma remendo construído em cima do joelho, muito abaixo dos montantes em dívida e apostando na alienação de património como alternativa de saneamento. Em suma, mantendo, em parte, a situação insustentável de dívida a fornecedores a curto prazo e propondo-se reduzir os activos municipais, vendendo ao desbarato em tempo de crise. Curiosamente, não é a estutura concelhia, nem é um dos eleitos locais do PSD no município de Lisboa que vem a público defender a alternativa: ela surge pela mão do presidente da distrital, por sinal vice-presidente da Câmara de Cascais, um dos principais para-quedistas deste episódio.

Não é temerário afirmar que, provavelmente, a viabilidade técnica das soluções nem sequer terá sido adequadamente ponderada. Mais do que uma solução alternativa, neste tipo de jogada o que importa é poder dizer que se tem uma solução alternativa, por mais descabelada e impensável que possa ser à luz da realidade. Consequentemente, nesta lógica palaciana da intervenção menezista esteve sempre patente uma desconsideração pela população e pela cidade de Lisboa, cujos veradeiros problemas se ignoraram, arriscando mergulhar novamente em crise um município que luta para se sanear financeiramente. Acima de tudo estava em causa infligir uma derrota ao PS em Lisboa, ganhar qualquer coisa para colocar uma medalhinha no peito do novo general.

Contudo, tão mal calculado foi o tiro que, dispondo de uma maioria absoluta na Assembleia Municipal que poderia aritmeticamente chumbar o que quisesse, teve de haver uma retirada estratégica para não enfrentar o que seria uma humilhante desautorização da liderança nacional e da estratégia de provocar o confronto pelo confronto. Ninguém pediu a Luís Filipe Menezes para vir arranjar sarilhos a Lisboa - o líder do PSD fê-lo de sua livre e espontânea vontade, pensando em capitalizar com o mau bocado que infligiria a António Costa, ignorando as necessidades da cidade, passando por cima das suas próprias estruturas locais e dos seus eleitos, preparado para instrumentalizar e sacrificar o futuro da capital à sua estratégia de promoção política. No final, aquilo que a novela criada em torno do empréstimo revela é uma total falta de bom senso e de capacidade de ler a situação política e as consequências para o futuro do PSD na cidade de Lisboa. A fotografia final mostra um presidente da edilidade vencedor, apoiado nesta medida por todos os vereadores com excepção dos do PSD, oferecendo soluções para tirar a capital da crise contra os que, por desconhecimento ou má-fé, o tentam impedir.

Seguramente receosa de abstenções ou fugas de voto dos seus eleitos para o lado contrário, a liderança do PSD acaba por produzir um compromisso que aceita as premissas iniciais da solução aprovada na Câmara, embora com montantes mais reduzidos. A solução final acaba por reconhecer o incontornável: todo o montante actualmente em dívida (os 360 milhões) teria mesmo de ser coberto pelo empréstimo, ficando o remanescente para eventuais conclusões desfavoráveis de litígios judiciais reduzido a 40 milhões (o que mais uma vez implica reconhecimento de que essa eventualidade tem de ser objecto de cobertura). A cereja no topo do bolo da incoerência é oferecida, uma vez mais, pelo próprio PSD que, num exercício de quase auto-flagelação, se abstém na proposta de compromisso que ele próprio propusera. Reduzido a 15% dos votos expressos nas intercalares, o futuro autárquico do PSD em Lisboa é sombrio, o que é mau não só para o PSD, como para a cidade de Lisboa.

Lisboa precisa de estabilidade governativa e de uma equipa capaz, mas também precisa de oposição séria, que fiscalize a actividade do executivo e contribua para a gestão da cidade com propostas credíveis e uma estratégia para a cidade. O país precisa do mesmo. O que o PSD de Menezes conseguiu cabalmente demonstrar, em ritmo acelerado e em menos de uma semana, é que a nova liderança não está disponível para o efeito.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Dennis Ross...

...esteve ontem em Bruxelas e falou numa conferência organizada pelo think-thank The Transatlantic Institute. Dennis Ross foi o 'pai' do processo de Oslo, tendo guiado a política americana no Médio Oriente entre 1988 e 2000. A intervenção dele foi fascinante. Annapolis etc etc. Mas do que me lembro melhor é da pequena frase jocosa com que abriu a intervenção.
Citando o Duque de la Rouchefoucauld, explicou que "it suits a gentleman never to speak longer than it takes to perform the act of love."
Com este sentido de humor, pergunto-me como é que ele não conseguiu convencer árabes e israelitas a ganhar juízo.

Bom começo

A primeira medida do novo governo australiano após a tomada de posse passou pela ratificação do protocolo de Kyoto. Na próxima semana, o novo PM, Kevin Rudd, participará na conferência de Bali com quatro dos novos ministros, confirmando o empenho nas questões ambientais, já patente na orgânica do Governo, onde, para além de um ministro do Ambiente, existe ainda uma ministra reponsável pelas alterações climáticas e pelos recursos hídricos.

Irão: boas notícias (trazidas pelos amaricanos)

O novo estudo do National Intelligence Council, uma espécie de reunião plenária de todos os serviços de intelligence dos EUA, tem boas notícias (novidades) e algumas más notícias (que não são novidade).
Algumas passagens importantes - as boas notícias:
1. "We judge with high confidence that in fall 2003, Tehran halted its nuclear weapons program";
2. " we judge with high confidence that the halt... was directed primarily in response to increasing international srcutiny and pressure";
3."Tehran's decision to halt its nuclear weapons program suggests it is less determined to develop nuclear wepaons than we have been judging since 2005";
4. "Iran may be more vulnerable to influence on the issue than we judged previously";
5. "We judge with moderate confidence Iran probably would be technically capable of
producing enough HEU for a weapon sometime during the 2010-2015 time frame.
(INR judges Iran is unlikely to achieve this capability before 2013 because of
foreseeable technical and programmatic problems.) All agencies recognize the
possibility that this capability may not be attained until after 2015";
6."Our assessment that Iran halted the program in 2003 primarily in response to
international pressure indicates Tehran’s decisions are guided by a cost-benefit
approach rather than a rush to a weapon irrespective of the political, economic, and military costs.
This, in turn, suggests that some combination of threats of intensified
international scrutiny and pressures, along with opportunities for Iran to achieve its
security, prestige, and goals for regional influence in other ways, might—if perceived
by Iran’s leaders as credible—prompt Tehran to extend the current halt to its nuclear
weapons program. It is difficult to specify what such a combination might be."

Agora as más:

1. "we also assess with moderate-to-high confidence that Tehran at a minimum is keeping open the option to develop nucelar weapons";
2. "We assess with moderate confidence that convincing the Iranian leadership to forgo
the eventual development of nuclear weapons will be difficult given the linkage many
within the leadership probably see between nuclear weapons development and Iran’s
key national security and foreign policy objectives, and given Iran’s considerable
effort from at least the late 1980s to 2003 to develop such weapons. In our judgment,
only an Iranian political decision to abandon a nuclear weapons objective would
plausibly keep Iran from eventually producing nuclear weapons—and such a decision
is inherently reversible";
3."Iranian entities are continuing to develop a range of technical capabilities that could
be applied to producing nuclear weapons, if a decision is made to do so. For example,
Iran’s civilian uranium enrichment program is continuing. We also assess with high
confidence that since fall 2003, Iran has been conducting research and development
projects with commercial and conventional military applications—some of which would
also be of limited use for nuclear weapons";
4."We assess with high confidence that Iran has the scientific, technical and industrial
capacity eventually to produce nuclear weapons if it decides to do so."

Como disse, as más notícias não acrescentam nada de novo, enquanto isolam os falcões que aparentemente andam "todos os dias" a exigir que se bombardeie o Irão. Portanto, isto tudo significa que a opção militar (sempre uma má ideia) está em vias de desaparecer do mainstream do debate americano.

Isto tudo também significa que a percepção da ameaça iraniana por parte da Europa - menos urgência, utilidade do processo diplomático, exclusão da opção militar - tem sido a correcta. (É bom não comparar o ocasional discurso ameaçador de Sarkozy com uma postura americana que considera há anos a opção militar como uma "solução" a ter em conta.)