terça-feira, dezembro 04, 2007

Night of the Iguana

A ler, a crítica de Lauro António da peça A noite da Iguana, de Tenessee Williams, em cena no Maria Matos, e a comparação com o filme, um dos meus favoritos, com o gigante Richard Burton, Ava Gardner e Deborah Kerr.

Uma língua, vários registos

Para o nosso debate em torno de grafias, pronúncias e outras coisas que tais, o fantástico Eddie Izzard:

Nova estratégia

Decorridos 176 dias sem que um governo tenha saído das últimas eleições, e perante a desistência de Leterme em prosseguir como formador de coligação, o rei dos Belgas optou por uma estratégia radicalmente diferente, encarregando o primeiro-ministro em exercício, Guy Verhofstadt, de explorar estratégias para sair da crise, procurar lançar pontes para a reforma do Estado e estabelecer soluções para questões prioritárias, que ultrapassem a gestão corrente (entre as quais avulta o orçamento de 2008).
Apesar do seu famigerado voluntarismo e da sua capacidade de alcançar com habilidade comprmissos inatingíveis, o recurso a Verhofstadt acaba por ser problemático na medida em que, para todos os efeitos, perdeu as eleições de Junho. É certo que é o seu capital de estadista que surge como nova hipótese para sair da crise. Mas como sustentá-la politica e parlamentarmente - um governo de união nacional como propõem os socialistas, uma manutenção da coligação ainda no poder com uma base parlamentar alargada ou baralhar e dar de novo?

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Para o Daniel Oliveira

Para começar, obrigado por escolher a Boina Frígia para blog da semana. Li o post que escreveu a justificar/explicar a escolha do nosso humilde cantinho cibernáutico e senti-me inspirado a tentar explicar o porquê de um blog republicano décadas depois da implantação da República em Portugal e séculos depois da tomada da Bastilha.
Julgo que há duas razões principais - uma positiva, outra negativa - para realçar os valores republicanos como fonte de inspiração ética, cultural e política e para continuar a ver a "principal herança comum de todas as esquerdas: a revolução francesa" como principal fonte de inspiração.

Primeiro, e julgo que pelo menos aqui falo pelos meus co-republicanos de serviço, sentimos que em Portugal o programa da República de 1910 ainda só foi parcialmente implementado. A separação incompleta de Estado e Igreja; a cidadania anémica e cheia de vícios criados por séculos de conformismo; um sistema de educação que ainda não prepara para a modernidade, para a cidadania e para o espírito crítico; o medo da diferença directamente herdado do obscurantismo beato; a obsessão com a autoridade: estas são apenas algumas das questões para as quais a República francesa esboçou respostas e que a República de 1910 reconheceu correctamente como ameaças fundamentais. O Daniel e outros (alguns neste blog) exprimem regularmente a sua estupefacção com os debates que penosamente ainda temos que levar a cabo na blogosfera: fanatismo religioso, intolerânica em relação à diferença, medo da mudança e, acima de tudo, a mediocridade estéril e a nostalgia por um Portugal perdido que nunca existiu - de certa forma, estamos mais perto de 1910 do que de 2010: para velhas doenças, remédios antigos.

A segunda razão - como disse, negativa - para nos inspirarmos nos valores republicanos é a desilusão com a performance da esquerda no século passado. Muito se escreveu recentemente sobre a Revolução Russa, mas também sobre a tragédia do triunfo fascista em Espanha e sobre o socialismo científico que (para a maior parte de nós) morreu o mais tardar em 1989 (ou logo nos anos 20, ou no XXº Congresso do PCUS, enfim, uns levaram mais tempo do que outros). Tudo começou bem: a esquerda pós-Revolução Francesa produziu uma hoste de pensadores - Saint-Simon, Proudhon, Fourrier, mas também os hegelianos de esquerda de onde veio Marx - que identificaram perfeitamente os limites da República como narrativa emancipatória. A Revolução francesa tinha sido incapaz de atacar a questão da justiça social, e da redistribuição da riqueza: a distribuição dos meios de produção e a reorganização das relações de produção nunca foram o forte de Mirabeau et ses copains... Atenção: nunca me ocorreria fazer o disparate de culpar as Teses sobre Feuerbach pelos horrores dos gulags: este exercício muito comum entre os nossos amigos do outro lado da(s) barricada(s), para além de ser indefensável do ponto de vista da metodologia histórica, é profundamente injusto para com Marx. Do que eu sinto falta em Marx é por um lado a dimensão ética da vida política (falta Kant a Marx; felizmente a Escola de Frankfurt salvou Kant para o marxismo não-leninista do século XX!), e por outro o reconhecimento da importância das identidades e das instituições na construção de espaços políticos emancipatórias. Resumindo, o nosso amor pela República, longe de rejeitar as lições de Marx, prefere usar as que são úteis e manter uma distância céptica em relação às outras.

A leitura do Contrato Social ou da Origem das Desigualdades de Rousseau, ou dos discursos de Mirabeau e Brissot na Assembleia Nacional, ou o que Condorcet escreveu sobre os direitos políticos das mulheres, ou até momentos excepcionais da Revolução, como a meia dúzia de dias entre 4 e 11 de Agosto de 1789, em que a nação francesa, constituída em Assembleia Nacional, deita pela janela séculos (milénios?) de vetustos privilégios feudais e eclesiásticos como se de uns trapos se tratassem: que outro momento ideológico, que outra linguagem consegue servir de inspiração 250 depois de ter nascido?
Enfim, este blog e as nossas convicções de republicanismo reciclado através das experiências recentes da esquerda talvez não passem de uma espécie de back to the basics difícil de conciliar com o passar dos tempos. Uma nostalgia anacrónica, até. Também não temos respostas para o racismo, colonialismo, anti-semitismo e sexismo que distinguiram muito bom republicano em 1789, como em 1910, em Portugal, como em França.

Simplesmente continuamos a achar que a República é um ideal que continua a exigir o melhor de nós, e que ainda não foi inventado mote mais belo na sua simplicidade do que Liberdade-Igualdade-Fraternidade.


Solidariedade

Para quem advoga a flexibilização da legislação laboral, eis um exemplo do que pode ocorrer quando se deixa a faca e o queijo na mão da entidade empregadora. Na sequência da greve dos argumentistas e invocando que não há possibilidade de continuar a produzir os programas diários de entretenimento (o Tonight Show e o Late Night), a NBC comunicou aos trabalhadores que dá por terminada a relação laboral até ao final da greve.

Entretanto, revelando um fantástico exemplo de solidariedade laboral, Conan O'Brien e Jay Leno asseguraram que vão pagar os salários a todo o pessoal que trabalha nos programas respectivos até ao final da greve.

Sem comentários

Acontece aos melhores

Em cima a célebre foto em que Harry Truman, depois de saber que tinha ganho a eleição presidencial americana de 1948, empunha um exemplar do Chicago Tribune que dava a vitória ao seu adversário republicano, Thomas Dewey. Em baixo a capa do Público de hoje.

Not so expected...


Sábio povo venezuelano. E agora? O que faria Bolívar? Expulsava os espanhóis, claro.

domingo, dezembro 02, 2007

As expected...

As previsões confirmam-se e Vladimir Putin e a sua Rússia Unida arrecadam mais de 60% dos votos nas eleições hoje. Apesar do optimismo ser moderado, tudo aponta para a presença no parlamento de mais três partidos, o Partido Comunista (que ficará pelos 11%), cuja entrada na Duma era previsível, o partido Liberal Democrático (com 9,6%) e o Partido Uma Rússia Justa (com cerca de 7,7%). Ainda que não se tivesse em conta tudo o que de não democrático se tem feito a caminho destas eleições, desde logo a existência de um cláusula barreira para conversão de votos em mandatos de 7% (só batida pelos 10% turcos) é revelador da falta de pluralismo que se pretende no futuro parlamento.

Reflexões sobre a greve, ao domingo

Era bom que os sindicatos tivessem representantes menos mal-dispostos e mais capazes de fazer convencer a opinião pública de que a greve é necessária, em vez de se limitarem a reproduzir os habituais clichés.

Era bom que os sindicatos percebessem que uma greve se marca para o meio da semana, quando causa mais transtorno a patrões e trabalhadores, e não para uma sexta-feira, quando há a possibilidade de se confundir a greve com uma desculpa para começar o fim de semana mais cedo, e sempre se pode deixar trabalho adiantado de véspera.

E era bom que o Governo deixasse de disparar números e de fazer de conta que tudo não passou de uma birra de meia dúzia de funcionários rabugentos.

I'm a Queen Bee, or feminism is for pussies

Bzzzz

E o resto são pormenores.

Humanidade.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Para o fim-de-semana


Tom Jobim & Elis Regina - Águas de Março

Pequena nota sobre o acordo ortográfico


A língua é uma realidade viva e evolutiva. A língua portuguesa, por seu turno, há muito que deixou de pertencer aos Portugueses - partilhamo-la com mais 200 milhões de falantes nativos pelo mundo fora, a sua esmagadora maioria no Brasil. Por alguma razão já não escrevemos pharmacia e o dicionário da academia optou por passar a referir o dossiê e o lóbi, em vez das versões com grafia estrangeira (que eu teimosamente insisto em utilizar). Assumo por isso que o acordo é uma oportunidade, uma momento de vitalidade da língua, uma forma de aproximar as pátrias da língua portuguesa, parafraseando Pessoa (cujo falecimento, aliás, ocorreu no dia de hoje, há 72 anos). A polémica é quase sempre inevitável - assim foi na Alemanha com a última reforma ortográfica, mas tal não obstou à sua entrada em vigor.

Já agora, este post foi escrito usando as novas regras, as que ainda não entraram em vigor. Repararam nas diferenças?

Trono e altar

Nos preparativos finais para as eleições de Domingo, somam-se intervenções laudatórias de Vladimir Putin nos vários meios de comunicação social, com destaque para a televisão. Um dos apoios do actual presidente é o clero ortodoxo que, através do director de relações externas do patriarcado de Moscovo, veio afirmar, entre outras coisas, que "existem valores acima da liberdade e da democracia" e que "a Igreja rejeita a ideia de que os direitos humanos prevalecem sobre os interesses da sociedade (disponível no P2 do Público).

Ainda mais irresponsabilidade

Segundo o Público de hoje noticia, a decisão de chumbar o empréstimo proposto por António Costa em Lisboa terá vindo directamente de Luís Filipe Menezes. Como referi no meu anterior post, não deixa de ser coerente com a forma como gere Vila Nova de Gaia que, como todos sabemos, é uma autarquia sem quaisquer dívidas.

Boas notícias


No último momento, o Tiepolo ficou. Em breve, no Museu Nacional de Arte Antiga, junto ao outro Tiepolo de que o Estado português já era proprietário.

Quem me dera saber escrever assim

Genial este post. A diferença entre piada inocente e homofobia/racismo/misogenia/anti-semitismo é a intimidade. E não é a 'hegemonia do politicamente correcto' que põe em perigo o discurso livre em Portugal: é a ingenuidade e o à-vontade com que no nosso país se odeia o 'outro'.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Irresponsabilidade

O PSD deixou a Câmara de Lisboa na sua maior crise financeira das últimas décadas. A situção mais crítica de momento é a da dívida aos fornecedores do município que, se não for paga a breve prazo, significará a paralisação da autarquia. Perante a proposta de contracção de um empréstimo para saldar a dívida urgente, o PSD foi o único partido que votou contra, tendo já sido criticado por todas as demais forças políticas pela sua irresponsabilidade. Uma vez que o mesmo PSD optou por conservar a sua maioria absoluta na assembleia municipal, congelando um resultado que nada tem de representativo e que deturpa a opção dos lisboetas nas eleições intercalares, prepara-se para chumbar a medida quando aí chegar, na linha do que já fizera com a proposta de aumento do IMI. Será que a estratégia do PSD, depois de deixar uma cratera financeira, vai passar por privar a gestão municipal de toda e qualquer forma de obtenção de receitas, para depois vir atacá-la por nada ter feito? Será que o PSD pensa que os lisboetas são parvos? Será que o PSD acha que não vai ser penalizado eleitoralmente se parar a cidade durante dois anos com birras e "tácticas"?

Já agora, servindo de cereja no topo do bolo, há que notar que o novo presidente do PSD é o campeão nacional do endividamento autárquico...

I hear you



Qualquer observador do Médio Oriente tem direito a estar céptico em relação aos resultados da cimeira de Annapolis. Mas ninguém (ou pelo menos ninguém para quem o Médio Oriente é mais do que apenas um pretexto para exercitar ódios e afectos atávicos) tem o direito de abandonar a esperança na paz. Para reforçar o que já foi dito aqui sobre os que vêem o mundo a preto e branco e, especialmente, sobre aqueles que vivem intensamente uma permanente obsessão com Israel como fonte de todo o mal e obstáculo para a paz no Médio Oriente, fica aqui um curto artigo da Reuters sobe a posição do Hamas em relação a Annapolis, ou qualquer negociação séria de paz: "Let the whole world hear us -- we will not cede an inch of Palestine and we will never recognise Israel."

Finalmente, um excelente apanhado dos esforços para a paz que também marcam a relação entre israelitas (ou judeus, antes de '48) e palestinianos desde sempre. Este texto só demonstra que a visão polarizada deste conflito não resiste a um estudo - ainda que superficial - da história da região. Parabéns Margarida Santos Lopes do Público!