sexta-feira, novembro 23, 2007

Buzz


Sobre a nova campanha da Tagus, não perder este post no Renas e Veados. Concordo com a lógica de desvalorização da campanha e com o não consumo da Tagus como resposta merecida e adequada, mas é importante assinalar que esta opção publicitária só é possível num contexto em que a discriminação em função da orientação sexual não recebe o mesmo nível de censura e repúdio que a discriminação racial ou religiosa. As reacções seriam as mesmas se a pergunta do cartaz fosse "Tu és branco?" ou "Tu és católico?".
De qualquer forma, aquilo que eu perguntaria ao criativo, que afirmou apenas querer criar um buzz em torno da campanha, é simples: "Tu és parvo, não és?"
Adenda: Outras reacções à campanha aqui ou aqui.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Passemos então a dizer piaçaba

Depois de ter aludido à grafia abreviada "piaçá" no meu post sobre a ASAE, descobri este site: "Este blog diz piaçaba". Confesso que passava por uma fase de incerteza e indefinição, procurando, através da utilização indistinta das duas formas, mostrar uma visão de abertura da língua portuguesa, uma língua em evolução e plural. Contudo, depois de ver este video e de ser esmagado pelos seus argumentos, fiquei convencido. Deixo-vos com o mentor do movimento:

Pouca luz ao fundo do túnel



Como?? Serviu de alerta!?!! Foi preciso inundar o túnel que mais água meteu nos últimos sete anos e que está numa zona crítica da baixa pombalina para que passe a haver uma "atenção especial"? Obrigam-me a citar o menino guerreiro e perguntar se está tudo louco.

Fique, camarada Vladimir Vladimirovich, fique

Eis finalmente o momento pelo qual se esperava para marcar simbolicamente o fim da cada vez maior fachada democrática na Rússia. Depois de se terem ouvido umas vozes a sugerir a criação de um estatuto de "líder nacional" para Vladimir Putin após o termo do seu mandato, o presidente do Conselho da Federação, a câmara alta do parlamento russo, veio ontem desafiar o presidente a ficar mais um mandato. Segundo disse, nem será sequer "necessário alterar a Constituição” para que Putin permaneça como Presidente, uma vez que as “pessoas querem-no" nessas funções.

Juntando a isto a declaração da OSCE, que decidiu não enviar observadores às eleições por falta de colaboração das autoridades russas, ficamos com uma fotografia completa da transição em curso em Moscovo.

E a Bélgica?


Fui confirmar e parece que ainda lá está.

Afinal não vai ser a ERC a cortar o pio à blogosfera...

DN de hoje: a capacidade da internet pode esgotar em 2010.

É impressão minha...

...ou ver o telejornal da SIC é como ir ao cinema ver o Star Wars, com a diferença que tantos efeitos especiais deixam uma pessoa zonza?

terça-feira, novembro 20, 2007

Está a chover...

Ludwig van Beethoven - Sonata n.º 17 "A Tempestade", 1.º Andamento

Apreensividade acima da média

Estou farto de ouvir dizer "falta só um ponto", "o apuramento ficou mais fácil", "basta empatar" e "Portugal é um dos candidatos ao título europeu". Quase preferia que tivessemos empatado com a Arménia, pois podia ser que não se entrasse em triunfalismos. Espero francamente estar errado, mas tendo em conta a proverbial capacidade colectiva de deslumbramento antes do prazo, a antiga tradição das contas finais para o apuramento à justa e o facto de o seleccionador nacional ser cidadão daquele país que só tinha de empatar em casa o último jogo para ser campeão do Mundo (esta é a parte irracional da argumentação), estou a começar a preparar-me mentalmente para o pior. Juizinho no Dragão, fachabor.

Várias questões

O Acórdão da Relação de Lisboa sobre o despedimento do cozinheiro com HIV tem provocado uma enorme confusão de questões, de natureza diferente.

Há uma primeira questão jurídica de fundo, relevante para casos futuros e que se reduz às seguintes três frases: Os médicos garantem que não há risco de contágio; O parecer pedido pela Comissão Nacional de Luta contra a Sida vai no mesmo sentido; O Tribunal da Relação discorda e absolve o empregador. O problema: qual deve ser a margem de apreciação técnico-científica de um órgão que não tem habilitações para o efeito. Essa é a principal questão em discussão, que Vital Moreira acertadamente identifica e procura resolver.
Há uma segunda questão jurídica, que passa pela desproporcionalidade do acto de despedimento e que não parece ter sido abordada: caso se entendesse que a situação do trabalhador criaria um risco (o que a ciência médica parece recusar), não haveria soluções intermédias que salvaguardassem a sua relação laboral, sem recurso ao despedimento?
Para além destes, há um outro debate, alargado, sobre risco na sociedade contemporânea que está a ser confundido com este caso concreto. Qual o grau de certeza necessário para determinar a existência de um risco inaceitável? É uma discussão em curso, desde o Direito do Ambiente ao Direito da Medicina. Não é de ontem, e por cá continuará e evoluirá consoante o conhecimento científico vai também evoluindo. Helena Matos, por exemplo, pergunta "e se for um cirurgião?" A questão é legítima, mas não interessa ao caso: não era um cirurgião, o risco não é comparável.
Finalmente, coloca-se ainda uma outra questão quanto a confidencialidade, novamente um debate jurídico com vários anos e com equilíbrios delicados entre interesses dos vários agentes em presença e que não se pode reduzir, como faz João Miranda, também no Blasfémias, a uma pergunta: "Se um hotel tem um cozinheiro com HIV, essa informação deve ou não deve ser comunicada ao cliente?" A resposta dá-se também em forma de pergunta: Se um blogue tem um autor que não compreende o alcance dos direitos fundamentais dos seus concidadãos e que simplifica drasticamente todas as discussões complexas deve ou não comunicá-lo ao leitor?

Nem as ginjas...

Num artigo na Visão no verão (disponível aqui), Ricardo Araújo Pereira já havia exposto o exagero dos críticos da ASAE, a propósito do "bolasdeberlimnapraiagate". O fecho da Ginjinha por falta de condições de funcionamento voltou a trazer um coro de protestos do tipo "desta vez foram longe demais". Há alguma irracionalidade na leitura dos encerramentos: quando tenho um laço sentimental com o estabelecimento comercial, quase parece que não me importo que usem um piaçá para lavar a loiça. Verdadeiramente, não sei se o que chateará mais é o fecho provisório da Ginjinha, se o facto de termos de deixar de dizer, em relação a algumas coisas, que "isto é tudo uma rebaldaria", e que "ninguém fiscaliza nada". Na volta, é essa a grande tradição nacional de criticar a ineficiência da coisa pública que entrou parcialmente em crise desde que as brigadas da ASAE se lançaram à estrada.
E se repararam com atenção, grafei o instrumento de limpeza sanitária na forma mais abreviada. Se preferirem piaçaba, podem dirigir-se ao Provedor da Bóina (que, já agora, também pode escrever-se sem acento...)

Contas às execuções

No Insurgente, André Azevedo Alves levanta um debate sobre se a pena de morte salva vidas, transcrevendo um excerto de um artigo do NY Times sobre um novo estudo que apontaria para um resultado quase matemático da pena de morte: por cada execução, o efeito disuasor evitaria 3 a 18 homicídios. Contudo, como refere um dos comentários na caixa do post, o autor "esqueceu-se" de trancrever este parágrafo e a metade do texto que se segue, em que vários académicos questionam os estudos:

O texto é bastante interessante e deve ser lido, preferencialmente na íntegra, aqui. Já agora, e com o devido respeito pelo ramo da Análise Económica do Direito, ainda que se demonstre a eficiência de uma medida (o que está muito longe de estar demonstrado no caso), tal não significa que se tenha encontrado um fundamento para uma alteração legislativa. Os princípios e os direitos fundamentais costumam surgir no topo da lista...

segunda-feira, novembro 19, 2007

Caiu-lhes o muro em cima da cabeça ou quê?

As conversas são como as cerejas, e eu, ao confrontar o post abaixo do Pedro Alves com a fonte no Avante!, dei com este toque de alvorada aos amanhãs que cantam sob a forma de link para outra notícia: "No Leste prefere-se o socialismo". Conferi. E no texto de desenvolvimento constatei que 92% dos que viviam na Alemanha de Leste preferem o socialismo. Esta estatística, arremessada assim, sem mais nem menos, num texto com aquele título, leva a crer que «a maioria esmagadora dos alemães da antiga República Democrática Alemã continuam a preferir o regime socialista à ordem capitalista que lhe foi imposta», como se diz na própria notícia.
Esta perspectiva merece, no mínimo, que se confira a fonte, por isso fui ao texto da versão on-line em inglês do Der Spiegel. É um estudo feito com o objectivo de saber a opinião dos alemães entre os 14 e os 24 anos e entre os 35 e os 50, entre alemães de leste e alemães ocidentais. E o que diz o Spiegel?
«The communist state gets far higher marks from those living in the east than from those in the west». Até aqui nada de extraordinário, mas onde é que diz que na Alemanha de Leste era melhor? E os 92%?
A full 92 percent of 35- to 50-year-old eastern Germans believe that one of the greatest attributes of the former East Germany was its social safety net, with 47 percent of their children in the east believing the same thing. By contrast, only 26 percent of western youth and 48 percent of their parents expressed the view that East Germany had a strong social welfare system compared to today's» (quadro aqui).
Afinal era só o sistema de protecção social - e eu acredito e acho plausível, da mesma forma que não questiono se me disserem que o sistema de ensino e o sistema de saúde são melhores em Cuba do que em Portugal. Sobre o resto, o país e a situação actual, está assim:

Satisfação geral com a democracia na Alemanha:
Satisfação com a qualidade de vida:
Por último, a razão porque o Avante! não conta a história toda:A conclusão geral do artigo é que a sociedade alemã continua dividida, e que existe uma clivagem entre o que pensa a generalidade das pessoas em cada um dos lados. E se fosse hoje, como seria?
Esclarecedor. Pelos vistos, a história escrita pelos derrotados não é mais rigorosa. Ou isso ou estavam distraídos. E logo no Avante! não é possível comentar os artigos...

Desordem

Ainda sobre o Código Deontológico da Ordem dos Médicos e a necessidade urgente da sua revisão, em diversos domínios, Fernanda Câncio no 5 dias.

O fim do internacionalismo nacionalista (ou do nacionalismo internacionalista)

O grupo parlamentar Identidade, Tradição e Soberania, composto por vários partidos nacionalistas de extrema-direita acabou na passada semana, quando 5 deputados romenos do Partido da Grande Roménia se retiraram em protesto perante delarações de Alessandra Mussolini sobre o carácter delinquente dos romenos, reduzindo o número de parlamentares para menos dos 20 necessários a manter o grupo. Aparentemente, fica demonstrado que a máxima "gosto muito dos estrangeiros, mas apenas quando estão nos países deles" não é suficientemente federadora para manter unido este pessoal...

Contra-relógio

Com um prazo para chegar a um acordo fixado para 10 de Dezembro, a vitória no Kosovo do Partido Democrático cuja posição unilateralista em favor da independência foi uma bandeira eleitoral, vem complicar um xadrez diplomático que já era quase impossível. Ao invés de clarificar, o acto eleitoral veio confundir: boicotado pela minoria sérvia (só votaram 3 pessoas em 45.000), com fraca afluência eleitoral entre a maioria albanesa e com resultados radicalizantes. Estando a solução da divisão do território liminarmente posta de parte, tendo a solução de um modelo "tipo Hong-Kong" sido afastada esta semana, a criatividade começa a esgotar-se.

A três dias de assinar o Tratado de Lisboa, a União Europeia poderá deparar-se com considerável dificuldade em chegar a uma solução unânime, entre aqueles que defendem o reconhecimento de uma eventual independência nas linhas do plano do enviado especial da ONU, Martti Ahtisaari (Alemanha, Reino Unido e França) e os que preferem uma prévia deliberação do Conselho de Segurança (Grécia, Chipre, Roménia e Eslováquia). Afinal, poderá não ser a Cimeira UE-África a dar uma dor de cabeça diplomática significativa à Presidência portuguesa...

Reorganização partidária

Depois do aparecimento do Partido Democrático no centro-esquerda, Berlusconi quer imitar o movimento à direita e criar um grande partido do centro-direita. Ressalvados os resistentes que procuram manter alguma coerência ideológica nas suas formações partidárias (o novo Partido Socialista que procura agrupar os múltiplos partidos que nasceram após a implosão do antigo PSI, ou os Liberais Democráticos em torno de Lamberto Dini), a moda de importação do modelo partidário à americana, com primárias abertas e partidos com laços ideológicos muito soltos, parece que está a pegar.

Eufemismos & Manipulações


Na secção de crítica televisiva do Avante, o colunista Correia da Fonseca critica um documentário do canal História, por reproduzir uma visão "da História escrita pelos vencedores" (relatado no DN de hoje e no Arrastão). Curiosamente, a versão da história que o próprio autor do texto oferece é no mínimo fascinante.

Primeiro, uma abertura com um formidável exercício de reescrita da história da II Guerra Mundial: "No início da década de 60, as coisas não corriam tão bem para o «Ocidente atlântico e democrático» quanto este desejaria. Tratava-se, de resto, de uma frustração antiga, remontando pelo menos ao tempo em que os exércitos nazis falharam a destruição da União Soviética enquanto Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros prosseguiam aquilo a que Churchill, num acesso de franqueza, chamou um dia «a guerra inútil». Entende-se: inútil porque na sua óptica «guerra útil» teria sido a que unisse todas as potências capitalistas para o esmagamento da URSS, esse susto que resistira às invasões imediatamente posteriores à Revolução de Outubro e ao cerco económico e propagandístico das décadas de 20 e 30, que até conseguira um milagre de industrialização obtido pelo preço de grande dureza interna e muitos sacrifícios de diversa ordem, que não dera sinais de capitular em 45-50 perante a ameaça atómica/nuclear, que conseguia êxitos na corrida para o espaço e, com tudo isto e muito mais, se confirmava como uma das duas superpotências mundiais. Churchill, velho anticomunista militante que lançara no seu discurso de Fulton a fórmula «Cortina de Ferro» para designar o conjunto de providências não apenas militares com que o Bloco Socialista impedia o avanço capitalista para o Leste, tinha, pois, as suas razões para lamentar que a Grã-Bretanha tivesse feito a guerra errada." Digerido esta interminável última frase, que consegue encaixar trinta anos de propaganda soviética antes do ponto final, cumpre perguntar se, neste cenário histórico alternativo, o Pacto Ribbentrop-Molotov exisitiu mesmo ou se foi também uma fabricação de propaganda ocidental?

Correia da Fonseca prossegue: Neste quadro, Berlim, cidade quadripartida em zonas de ocupação, funcionava simultaneamente como porta de entrada nos territórios socialistas e como montra das maravilhas ocidentais aos olhos de quem vivia do lado de lá e não tinha acesso a grandes carros, a «jeans», a aparelhagem sofisticada, a Barbies. Que apenas tinha coisas de pouco valor ou pelo menos pouco valorizadas: emprego, serviços de saúde, apoios na área cultural, educação." Ironicamente para esta leitura da História, as coisas não poderiam ser mais ao contrário. Aliás, eram exactamente ao contrário. Emprego, serviços de saúde, apoios na área cultural e educação eram, em 1961, direitos fundamentais assegurados pela Lei Fundamental da República Federal da Alemanha, conquistas do Estado Social de Direito. Para além disso, havia também carros, aparelhagens, Barbies e jeans. Na RDA por seu turno, não só faltavam estes items como ainda faltava uma outra insignificância, o Estado de Direito.

Voltando ao texto, "Berlim era, pois, a um tempo, canal de hemorragia e via de livre infecção, e isto em plena situação do que se chamou Guerra Fria. Para estancar a hemorragia e travar a infecção foi erguida uma barreira que permitisse controlar entradas e saídas." Presumo que a infecção seja o referido Estado de Direito democrático numa cidade governada por perigosos revisionistas (Willy Brandt era na altura presidente da edilidade). Assim sendo, é lógico que de seguida se entre nas críticas ao documentário, por não ter sequer abordado a tese de "que o Muro de Berlim foi o recurso possível para que um Estado internacionalmente reconhecido, a República Democrática Alemã, pudesse defender-se de uma permanente invasão 'branca' e de um constante fluxo de emigração ilegal" O recurso ao eufemismo atinge aqui o seu zénite: em vez de refugiados e de dissidentes políticos, temos "emigração ilegal"; em vez de circulação de ideias, temos a "permanente invasão branca"

Mas ainda há mais: "Recorde-se que aquele não era o tempo da livre circulação através das fronteiras, como hoje acontece em grande parte da Europa: quem quisesse passar ilegalmente a fronteira entre a Itália e a Áustria, ou entre Portugal e Espanha, ou entre Espanha e França, corria o risco imediato de ser alvejado a tiro. Como se sabe." Eu claramente não sei. Não conheço casos de imigrantes ilegais serem recebidos brutalmente a tiro nas fronteiras da Europa Ocidental. Até mesmo no caso da emigração portuguesa através de Espanha, dois regimes ditatoriais, os dados recentemente analisados (o documentário da RTP, a título de exemplo) revelam precisamente o inverso, a existência de permissividade e de um fechar dos olhos institucional ao fenómeno.

Não vi o doumentário em questão, pelo que não me pronuncio sobre o seu conteúdo. Aliás, até aproveito para afirmar que considero que grande parte da produção de documentários americanos transmitida no canal História é superficial e redutora, perdendo aos pontos para o vizinho Odisseia ou para os canais da National Geographic. Contudo, se as críticas apontadas são apenas estas, elas limitam-se a revelar o crescente autismo da actual liderança do PCP, expurgados os impuros revisionistas.

quinta-feira, novembro 15, 2007

AVISO: Este blog não foi visado pela ERC

A ler: aqui e aqui.

Lies, damn lies and statistics

João Carlos Espada escreveu na sua coluna semanal no Expresso, muito elogiada neste caso no Insurgente por André Azevedo Alves, o seguinte:


Muito ilustrativo do crescimento das quatro maiores religiões do mundo, seguramente. Mas ilustrativo do que Espada queria demonstrar? Não me parece. Qual o número de não-religiosos, ateus, agnósticos e afins e qual a sua evolução? Sendo certo que as fontes não são as mesmas e que não posso fazer uma comparação directa, uma googlada rápida produz os seguintes gráficos com dados a nível global:

Em qualquer dos casos, as categorias de não-religiosos aparecem em 3.º ou 4.º lugar (os conceitos não são exactamente os mesmos, mas o contraste que evidenciam é o mesmo). De acordo com dados retirados daqui, as categorias não religiosos + ateus representava em 1900 1,2% da população, representando hoje quase 12%. Volto a reiterar que as fontes não são as mesmas, mas o que pretendo demonstrar é que Espada "esquece" o único factor relevante numa comparação: comparar!

E insiste!

O Bastonário da Ordem dos Médicos volta a insistir na não alteração do código deontológico. Hoje acrescenta-se um factor adicional, a necessidade de um referendo interno na classe médica. Caso os proponentes da medida não tenham sido informados, o referendo que determinou qual a norma jurídica aplicável ao caso já se realizou, foi a 11 de Fevereiro de 2007, o sim ganhou com 59% dos votos e a legislação sobre a matéria já foi alterada.

Caso não pretendam realizar interrupções da gravidez, os médicos podem invocar o seu direito fundamental à objecção de consciência, consagrado na lei e na regulamentação relativas à IVG. Não podem é, volto a dizê-lo, continuar a impor através do seu código deontológico uma ilicitude que a lei (neste caso legitimada directamente pelo voto popular) eliminou. A Ordem dos Médicos ainda é uma associação pública, cujo exercício do poder disciplinar ainda se tem de regular aplicando a lei vigente. E também não me parece invocável o facto de o regulamento não ser aplicável e de não serem instaurados procedimentos aos médicos que realizem as intervenções. (Onde é que eu já ouvi isto: É proibido, mas pode-se fazer. E o que é que acontece? Nada!).


E, finalmente, sr. Bastonário, o exemplo que deu ao Ministro da Saúde, dizendo que este sendo jurista não se podia pronuciar sobre a matéria, invocando as regras deontológicas da profissão de advogado, é um mau exemplo: o estatuto da Ordem dos Advogados, com a indicação dos ilícitos deontológicos e respectivas sanções, é uma lei da Assembleia da República e não um regulamento interno de cariz estritamente corporativo. O que aliás, há muito deveria ser o caso em relação às normas deontológicas da Ordem dos Médicos...

Redenção


Não temais. Anuncio-vos uma boa nova, que será grande alegria para todo o povo.
Nunca pensei que fosse possível, mas aconteceu: Roberto Leal fez um disco bom. Tive a oportunidade de tropeçar acidentalmente no disco via podcast do esquerda.radio. Não é um disco genial - também não se pode pedir de mais - mas, daquilo que ouvi, é um disco francamente bom. Chama-se "Canto da Terra" e constitui um regresso às origens, já que o senhor é transmontano de Vale da Porca e grande parte das músicas são em Mirandês.
Tá bem que a capa é pavorosa. Tá bem que o senhor diz coisas como "Canto da Terra pretende funcionar como uma chamada geral, uma convocatória em prol da solidariedade e apoio a Trás-os-Montes". E tá bem que no disco participaram ilustres como Rão Kyao, Vitorino e Galandum Galundaina (o que, se calhar, explica muita coisa). Mas que o disco é bom, é. E confirma que, afinal, vale sempre a pena acreditar na humanidade.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Adenda ao post anterior

As forças maléficas do grande capital limitaram o acesso ao artigo citado no post anterior a assinantes. Receoso de ser acusado de afirmações fantasiosas e ansioso por violar a legislação de direitos de autor, cá vai transcrição manual da passagem relevante do dito artigo:

"Democrats said the health and education bill [vetoed by Bush] contained funding for domestic priorities such as job training, health research and heating subsidies for the elderly.
Mr Bush claimed the legislation was bloated with "wasteful projects" including funding for a prison museum, a sailing school and Portuguese language classes."

Mais um defeito, coitadito...

George W. Bush não gosta da língua portuguesa. Está aqui, se lerem com atenção. É um escândalo. Casus belli, mesmo.

Bye, bye

O cartão de eleitor vai acabar, mesmo antes do aparecimento do novo Cartão de Cidadão. Apesar da nostalgia, o meu está com um ar tão lastimável que serei poupado à vergonha de expôr aquele pobre farrapo perante o presidente da secção de voto.

Living dangerously

Cada dia que passa a situação torna-se mais difícil de sustentar para Musharraf. Ou estamos perante uma mega-operação de teatro montada para se legitimar após o regresso do exílio, ou Benazir Bhutto cortou mesmo definitivamente com o eventual pacto de partilha de poder que estabelecu com o general. De acordo com a BBC, na segunda-feira Benazir Bhutto fez cessar contactos entre o seu partido e os apoiantes de Musharraf. Ao exigir ontem a demissão do presidente, Benazir não parece de todo estar apenas a desempenhar o seu papel numa farsa política para paquistanês ver. A degradação da situação política depois do conflito com o Supremo Tribunal ter conduzido ao estado de emergência, tem levado Benazir Bhutto a aproximar-se do discurso da restante oposição. Apesar das insistências nas promessas de eleições para Janeiro por parte do presidente, as incertezas sobre o futuro aumentam com o decorrer do tempo. E apesar de as coisas no Iraque também não melhoram significativamente, de no Afeganistão se verificar um retrocesso da pacificação e de no Irão os esforços de contenção nuclear serem pouco visíveis, a instabilidade no Paquistão tem consequências de grau diferente para a região e para o planeta, ou não tivesse o chefe de Estado acesso a um botãozinho vermelho em Islamabad...

terça-feira, novembro 13, 2007

Christopher Walken, again

O Youtube tem destas coisas. Uma pessoa vai buscar uma coisa e sai logo outra irresistível. O Christopher Walken do post anterior trouxe o Christopher Walken a cantar Delilah, no filme de John Turturro Romance & Cigarettes.

O meu videoclip favorito

Depois do Jansenista ter postado o viedoclip que Spike Jonze realizou para Björk (It's oh so quiet!), aqui fica o meu favorito, Weapon of Choice (Fatboy Slim), também de Jonze, com um inigualável Christopher Walken voador. Aliás, este ganhou o prémio de melhor videoclip no Fantasporto de 2002. Apreciem!

Outra tomada do poder?

O Público noticia que o Partido da Nova Democracia está a ser invadido por indivíduos organizados de extrema-direita. Lembram-se deste filme? Da primeira vez foi o velho PRD, agora parece que será o PND. No meio disto tenho várias dúvidas:

a) Qual é a vantagem de tomar dois partidos que não elegem ninguém? A única hipótese é a duplicação do tempo de antena, mas mesmo isso é pouco útil se o que se pretender mais tarde for avançar com uma "coligação" de "partidos nacionalistas".

b) Vamos ter clones do Pinto Coelho? Duas vezes o disparate, ou formas de disparate diferentes? Ou será que é uma tentativa de criar um nacionalismo sério, viável eleitoralmente?


c) Será que optar por tomar conta de partidos anti-sistema ou criados por figuras que tentam uma segunda intervenção depois de a sua vida política ter mudado drasticamente (Eanes e Monteiro) não dará azar?

Apesar de me parecer que a estratégia não é de todo racional, revela pelo menos que há organização na extrema-direita nacionalista (com ligações aos tradicionais braços armados xenófobos e racistas) interessada em expandir a sua visibilidade e intervenção polítca legítima. O que volta a ser evidente, é a vontade de não seguir as regras de constituição de partidos, particularmente o controlo dos conteúdos programáticos proibidos pela Constituição.

Espírito vencedor

Depois da vitória eleitoral contra Marques Mendes, Luís Filipe Menezes averba a sua segunda vitória, ao conseguir lidera o ranking das autarquias que incumpriram os tectos máximos de endividamento. Parabéns!

Lógica da batata

Mário Lino, hoje à TSF afirmou que "as variáveis da decisão de um projecto desta natureza não se decidem com base em quatro ou cinco critérios. É um pouco mais complexo e tem a ver com matérias onde tanto questões de ordem política, técnica e ambiental têm um peso muito grande", pelo que não teria "dúvida que, se eu fosse apresentar critérios, ia logo ouvir que o Governo tinha escolhido aqueles critérios para chegar a determinada solução." Moral da história, não se apresentam os critérios. Esquecem-se é alguns pormenores menores, como o controlo democrático das decisões da administração ou o controlo da legalidade e a responsabilidade pela aplicação errada dos critérios de decisão. Detalhes, detalhes...

Cadeia de excertos

Acabo de receber da Helena o testemunho na mais recente cadeia na blogosfera. A ideia da coisa é pegar no livro que estiver mais à mão e transcrever a 5.ª frase completa da página 161. Como estou a ler um monstro sobre pensamento florentino republicano fui buscar o romance que tenho em lista de espera na mesa de cabeceira, Fever pitch, do Nick Hornby. E o resultado é o seguinte:

"Prime-ministers, however manic or unjust or wicked, simply do not have the power to do to me what an Arsenal manager can, and it is no wonder that when I think about the four I have lived with and through, I think about them as relatives."

Passo a palavra ao José Reis Santos, ao Germano, à Inês, ao Tiago Ivo Cruz e ao Pedro Nuno Santos. E tenham cuidado, porque a sr.ª Jones de New South Wales quebrou esta corrente e tornou-se militante do PND, enquanto o sr. Dubois da Guiana Francesa perdeu o emprego, a mulher e as duas amantes guatemaltecas por não ter feito circular de imediato a corrente.

Música e filmes - Shine


Rimsky-Korsakov (arr. Rachmaninov), O vôo do moscardo

Música e filmes - The immortal beloved

Ludwig van Beethoven - 4.º Andamento da 9.ª sinfonia em Ré menor

Música e filmes - Tous les matins du monde


L'Arabesque (Marin Marais)
Improvisation sur les folies d'Espagne (Marin Marais)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Talvez estejamos a exagerar...

Depois da confraria do vinho do Porto, da confraria das tripas, da confraria da chanfana, da confraria da francesinha, da confraria do leitão da Bairrada, da confraria do anho assado, entre muitas outras, a agência Lusa noticia a criação da confraria do bolo-rei escangalhado. Lá virão os nossos detractores dizer que é propaganda republicana, que se o bolo fosse presidente nós não diziamos nada.
Mas o melhor da história passa pela existência do inevitável imbróglio jurídico. Reza a notícia que "o empresário José Manuel Faia, da pastelaria Nobreza de Braga, adiantou que a confraria ainda não foi criada por estar a decorrer, no Tribunal de Braga, um julgamento que envolve a propriedade do "escangalhado", reclamado por outra pastelaria de Braga. "Queremos que o tribunal decida e, depois, avançamos", sublinhou". Um intrigante caso de propriedade industrial, portanto, com inimagináveis ramificações na quadra que se aproxima...

Capelanias

Apesar dos seus devaneios teocráticos terem seriamente minado a sua credibilidade, João César das Neves regressa ocasionalmente à terra do seu mundo futurista e/ou onírico para vir fazer política religiosa. Vem hoje falar no "regresso" da Lei de Separação. Newsflash para o sr. professor: a separação está viva e de boa saúde e tem consagração no texto constitucional. Aquilo que claramente a viola é a existência de uma concordata com um regime distinto para uma determinada confissão (cuja demora na regulamentação, curiosamente, é o ponto de abertura do texto de César das Neves).
Mas no finalzinho do artigo, no qual repete uma série de lugares comuns sobre o papel social das IPSS católicas (que não está em discussão, nem é questionado por ninguém), umas considerações semi-elogiosas ao miguelismo e uns ataques serôdios aos ateus, João César das Neves revela ao que verdadeiramente veio desta vez: os capelães hospitalares . De destacar este parágrafo:
Curiosas expressões: igualdade abstracta e repressão da única religião com real expressão social. Trocado em miúdos isto significa que estão a tirar o estatuto privilegiado da religião católica, o que é inadmissível. Interessante interpretação esta do princípio da igualdade em que, por ser maioritária, determinada confissão tem direito a que o Estado custeie os serviços dos seus ministros, em que estes têm acesso exclusivo aos doentes e direito a instalação nos serviços hospitalares e em que a vontade do cidadão em ter ou não apoio espiritual deve continuar a ser irrelevante. Malvado o Governo que pretende que todas as confissões tenham acesso em regime de igualdade aos serviços hospitalares e que pretende que seja o doente a solicitar (exercendo o seu direito fundamental à liberdade religiosa) o apoio espiritual de que necessita.
De resto, para quem tem dúvidas quanto ao que está em causa, recomendo este post do Ricardo Alves, no Esquerda Republicana e este post de Palmira F. Silva no De Rerum Natura.

Autonomia e independência

Depois da chantagem primitiva do tipo "se-não-me-dão-as-competências-legislativas-que-eu-quero-declaro-a-independência", o deputado do PSD à Assembleia Regional da Madeira Gabriel Drumond volta a insistir e sobe a parada "afirmando que estamos perante uma questão de ódio por parte dos governos da República que não gostam do povo da Madeira". Os madeirenses e o próprio PSD nacional merecem muito melhor do que este populismo irresponsável e gerador de divisões artificiais entre portugueses de pontos distintos do território. Agora, se continuarem sem nada dizer e sem desautorizar cabal e inequivocamente o cavalheiro merecem levar com as consequências políticas por inteiro.


Quanto à questão de fundo, tenho acompanhado, por diversas razões, a evolução dos poderes legislativos regionais, e, particularmente desde a revisão constitucional de 2004, penso que a República já foi até onde pode ir no que respeita à transferência de competências para as regiões (se é que já não foi longe demais): porque de Regiões Autónomas se trata, e não de estados federados; porque de mera autonomia político-administrativa se trata, decorrente primordialmente das condições geográficas (insularidade) dos dois arquipélagos e não de entidades dotadas de legitimidade e identidade originária próprias (como as comunidades espanholas, por exemplo); e porque o princípio da igualdade não pode ser objecto de entorses injustificadas, decorrentes de regimes jurídicos de aplicação territorial distinta, sem fundamentação em qualquer especificidade regional. A ocorrer alguma revisão nesta matéria, penso que deveria ser no sentido de esclarecer as dúvidas decorrentes das novas "zonas cinzentas" na delimitação das competências regionais face às da República (por exemplo, no que respeita à prevalência inequívoca das leis de bases e na delimitação mais clara de matérias que não devem ser objecto de legislação regional porque não revelam qualquer especificidade) e não no sentido de mais um alargamento de atribuições. Contudo, sei que estou a pregar no deserto, uma vez que a existência de um bloco regional no PS e no PSD impede maior clareza na construção jurídica do sistema e na correcção dos seus vícios...

SIC Notícias ou SporTV News?


Hoje, no jornal das 3 da manhã da SIC Notícias, síntese informativa com cerca de 15 minutos, os primeiros 10 dedicaram-se a resumos alargados dos três jogos de ontem do Benfica, Sporting e FC Porto. A notícia que se seguiu respeitava ainda à temática, tendo sido relatados os confrontos entre adeptos e claques, em Itália.

Sei que se tratava de um domingo, um slow news day por tradição, mas da tensão crescente no Paquistão, à morte de Norman Mailer na véspera, passando pela Cimeira Ibero-Americana, pelo desastre ecológico no mar de Azov, ou, no plano interno, pelas declarações de Sócrates num encontro de militantes do PS ou pela polémica em torno das fotocópias de Portas, não havia actualização de informação que não passasse pelo desporto-rei? Não se trata de um fenómeno novo e, provavelmente, só estou impressionado pela desproporção da coisa no caso concreto de ontem, mas não deixa de ser lamentável que a comunicação social desbarate o seu capital de credibilidade por não ter as prioridades sobdre o direito e dever de informar no sítio certo.

Norman Mailer (31 de Janeiro de 1923 - 10 de Novembro de 2007)

Depois de Kurt Vonnegut, a literatura americana volta a perder uma referência.

sábado, novembro 10, 2007

Há reis que parecem ases


Que Zapatero é um senhor nunca tive dúvidas. Que Hugo Chávez é um mal-criadão com a mania de que tem piada também. Já cansava ver Hugo Chávez a passear-se pela política internacional com o rei na barriga. Ainda bem que desta vez o rei lhe apareceu à frente.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Esclarecedor

A ler, no Abrupto, a carta que o director da agência de comunicação que acompanhou a campanha interna da Luís Filipe Menezes para a liderança do PSD escreveu a Pacheco Pereira.

O mais curioso a retirar da missiva é a naturalidade com que o autor admite ter trabalhado para a campanha independente de Carmona Rodrigues à Câmara de Lisboa, precisamente contra o PSD. Tendo em conta o efeito que a derrota do PSD em Lisboa provocou ao nível da liderança nacional do partido, não deixa de ser um colaboração particularmente esclarecedora...

IVA e preservativos

O grupo parlamentar do Partido Socialista Europeu vai apresentar uma proposta para reduzir a taxa de IVA dos preservativos, no contexto do próximo Dia Mundial de Luta contra a SIDA. Acesso à petição de apoio através deste site.

Missing the point

Os bispos portugueses vieram, a partir de Roma, exigir a participação nas comemorações do centenário da República, para assegurar que a interpretação dos acontecimentos seja correcta. Ou seja, quase 100 anos depois da separação do Estado das Confissões Religiosas, os prelados portugueses ainda não perceberam o seu significado...

Barões em luta

Helena Lopes da Costa, que na sua campanha interna para a liderança da distrital de Lisboa do PSD chegou a colocar um cartaz no Marquês de Pombal a prometer a reconquista da cidade, foi derrotada por Carlos Carreiras, vice-presidente da câmara de Cascais. Aparentemente, tudo no PSD é neste momento totalmente imprevisível...

Entretanto, na secção da Figueira da Foz, o anterior líder da concelhia não entrega as chaves ao seu sucessor, pelo que as reuniões dos novos órgãos têm sido realizadas em salas de hotel ou espaços de associações locais.

Há 18 anos, na Alemanha


Queda do muro de Berlim

Há 69 anos, na Alemanha


Começa a Kristallnacht (que duraria até à madrugada do dia 10), o maior pogrom ocorrido durante o regime nazi, em todo o território da Alemanha e Áustria.

Há 89 anos, na Alemanha


Proclamação da República, em Berlim, por Philipp Scheidemann.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Defender o menino (neste caso a menina)


Depois de demonstrar que preenche todos os requisitos para o cargo, Mourinho dificilmente nos continuará a convencer que não quer ser o próximo seleccionador nacional...

No more Mr. Nice Guy


Há uma velha máxima da política americana que diz que um republicano do Massachusets tem de ser mais liberal do que um democrata do Tennesse, e vice versa - quem diz do Massachusets diz de Nova Iorque ou da Califórnia, quem diz do Tennesse diz de qualquer outro estado do Sul, tradicionalmente conservador. Era mais ou menos isto que se passava com Mitt Romney e Rudy Giuliani.

A personagem Mitt Romney é especialmente intrigante. Um republicano ser eleito Governador do Massachusetts é coisa digna de nota (embora Nova Iorque e a Califórnia também tenham Governadores de sinal contrário ao sentido geral do voto no estado). Ser republicano e defensor do aborto - vá lá, não opositor, mas achando mal - cria ainda mais confusão, mas ajuda a explicar a antecedente. Mas se acrescentarmos que o homem é Mórmon, das duas uma: ou trata-se de uma personagem verdadeiramente folclórica, para não dizer habilidoso político que se posiciona nos temas da forma que lhe possa render mais votos; ou então há mesmo hipótese de existir um tal coisa a que se chamará "conservadorismo progressista", por oposição a um conservadorismo reacionário.

Rudy Giuliani podia confirmar a segunda hipótese: orgulha-se de um currículo brilhante no combate ao crime (orgulho para qualquer republicano), mas tem muitas posições progressistas: - é pro-choice e a favor do alargamento dos direitos dos casais homossexuais. Mas não. Vários sinais indicam o contrário. Ontem Rudy recebeu o apoio formal de Pat Robertson, um famoso "televangelista" conhecido por ser tudo menos, digamos assim, um tipo tolerante, para além de um dos maiores caciques religiosos do Partido Republicano. Por seu lado, a revista Time pergunta-se, na edição desta semana, porque é que Mitt Romney não faz da reforma do sistema de saúde no Massachusets uma bandeira eleitoral (porque falar em sistema de saúde público é pecado para um conservador, digo eu). E ontem, no Daily Show na SIC Radical, passou um clip sobre a forma como todos os candidatos republicanos aplicavam a si próprios, insistentemente, o adjectivo "conservador". À medida que a luta aquece, os candidatos vão disputando os pergaminhos do Grand Old Party.

Porque será isto assim? Por um lado, a velha máxima vale só ao nível estadual. Se Bill Clinton, do Arkansas, e Al Gore, do Tennessee, fossem democratas tipicamente sulistas não teriam ganho as eleições apoiados nessa base eleitoral.
Por outro lado, há o factor Hillary. Perguntado sobre os candidatos democratas, o conselheiro do Presidente Bush Dan Bartlett (ironia para qualquer fã de The West Wing...) disse que Barack Obama seria o candidato mais difícil de enfrentar para um candidato republicano na eleição nacional, porque os anti-corpos que Hillary Clinton suscita no eleitorado republicano provocaria uma mobilização extra do partido.
Em conclusão: se os republicanos em 2008 não estiverem alinhados com a base eleitoral do partido a nivel nacional, convencendo-os de que são um verdadeiro contraponto a Hillary Clinton, nem das primárias passam.
E das duas uma: a primeira.

Apropriado...

Não quero ser mauzinho, nem previsível, mas a canção belga por excelência do século XX não podia ser mais apropriada:
Jacques Brel - Ne me quitte pas

Blackadder on Belgium

Depois dos eventos de ontem (aqui, aqui ou aqui), a melhor discrição da situação é a de Edmund Blackadder, premonitoriamente proferida numa trincheira em território belga:

"Blackadder: [to Baldrick] This is a crisis. A large crisis. In fact, if you've got a moment, it's a twelve-storey crisis with a magnificent entrance hall, carpeting throughout, 24-hour porterage and an enormous sign on the roof, saying 'This Is a Large Crisis'."

Blackadder goes forth, Episódio 6

Derrotado de Outubro

Apesar do dia mais indicado para invocar Alexander Kerensky poder ser o da sua chegada ao Governo com a revolução de Fevereiro ou ao cargo de primeiro-ministro em Julho de 1918, merece hoje uma referência enquanto defensor da alternativa revolucionária distinta à do projecto de Lenine. Líder da oposição socialista ao czarismo, vice-presidente do soviete de Petrogrado, mas defensor da instauração de um regime democrático, de matriz social-democrata, e opositor quer dos bolcheviques, quer do Exército Branco durante a guerra civil, Kerensky e o seu possível legado foram tragados pela máquina da história. Manteve-se na órbita da relativamente irrelevante oposição democrática russa até falecer na década de 70.

O homem que tentou sem sucesso resistir à tomada do poder bolchevique e que pretendia uma via distinta para chegar ao socialismo, mas que não conseguiu ser o "Mário Soares russo". A tentativa merece hoje ser invocada.

Revolução na primeira pessoa


Reds, de Warren Beatty (1981)

Mais do que um biopic de Jack Reed ou a adaptação da sua obra emblemática, Os dez dias que abalaram o mundo, o filme de Warren Beatty representa um marco cinematográfico de primeira qualidade, repleto de "monstros" do cinema (Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Paul Sorvino), oferecendo uma reconstituição histórica da Revolução de Outurbro ao nível de David Lean no Dr. Jivago, expondo as esperanças e desilusões daqueles que tiveram lugares de primeira fila em Petrogrado e Moscovo e contando a história esquecida do movimento operário nos Estados Unidos.

Outubro em Novembro



A ler: Os posts de Daniel Oliveira sobre o aniversário da Revolução de Outubro, com particular destaque para este.

terça-feira, novembro 06, 2007

E de seguida, a tomada do Palácio de Inverno... desculpem..., de S. Bento, assim é que é...

Segundo o texto de Miguel Urbano Rodrigues que se segue (via Água Lisa), a revolução não tardará. Provavelmente, estando cada vez mais perto o aniversário da Revolução de Outurbo, a vontade de fazer uma reconstituição histórica começa a ultrapassar a realidade...

"Os trabalhadores e a CGTP cumpriram exemplarmente o seu dever na jornada do dia 18. Nestes dias em que a burguesia insiste no desaparecimento da luta de classes, a classe operária portuguesa ofereceu-lhe um desmentido categórico no Parque das Nações. Em Portugal existe um forte partido marxista-leninista com um programa que aponta o socialismo como objectivo. É outro factor positivo porque sem vanguarda revolucionária organizada, a classe dominante não será derrotada por acções espontaneistas, por mais participadas que sejam.Estamos longe, muito longe de uma dualidade de poderes. Mas os de cima não vão poder por muito tempo governar como querem.O governo desta ditadura socratiana da burguesia, com máscara democrática, está progressivamente a desenvolver, na dialéctica do processo, uma política em que despontam já matizes neofascistas.O povo português – repito – está em condições de se assumir em sujeito, como aconteceu em grandes momentos da sua história, e de travar a escalada reaccionária, derrotando o projecto monstruoso em desenvolvimento."

No caminho certo



A concretizar-se esta alteração do Código Penal turco, que acabará com as restrições à liberdade de expressão no que respeita às instituições e à identidade nacional, será um dos maiores passos dados pela Turquia a caminho da União Europeia. Ainda haverá muito por fazer, mas no departamento do direitos fundamentais representará um progresso significativo e uma passo inequívoco para o cumprir os critérios de Copenhaga.

149.º dia sem novo governo


Muitos parabéns por terem quebrado o recorde, mas importam-se de arranjar um Governo? Nós, os restantes europeus, estamos a ficar um bocadinho apreensivos...
Aparentemente, o espinho continua a ser a divisão do círculo eleitoral de Bruxelas-Hal-Vilvorde, reclamada pelos partidos flamengos da coligação conservadora-liberal (CD&V/N-VA et Open VLD), mas que tem merecido a resistência dos partidos francófonos (MR e CDH).

Billary

A clara vantagem que Hillary leva para as primárias democratas será difícil de ultrapassar, ainda que a época eleitoral ainda nem sequer tenha aberto formalmente. Consequentemente, as coisas começam a endurecer no campo democrata e um tema que apareceu timidamente pela primeira vez é o de uma possível influência tutelar de Bill Clinton nas sombras de uma presidência da mulher (neste sentido, vejam-se as declarações de Joe Biden sobre o seu desinteresse em ser vice-presidente de Hillary face à personalidade e ao papel que estaria reservado ao First Gentleman - ou como próprio Clinton gosta de dizer, First Lad). Subrepticiamente, é o género a começar a aparecer nas presidenciais americanas, podendo a via argumentativa agora aberta encaminhar-se no sentido de por em causa a autonomia política de Hillary, pintando-a como fachada para um regresso indirecto do marido. No caso de Hillary, esta linha de argumentação menorizadora é claramente reforçada pelo facto do marido ter sido anterior ocupante da Sala Oval e de ser uma figura tudo menos apagada e de segunda linha (não se ouviu nada parecido sobre Dennis Thatcher....).
Estrategicamente, não será seguramente uma jogada muito bem pensada - não só a independência política da candidata já tem pergaminhos antigos, como a associação ao próprio Bill Clinton depois dos oito anos de Bush não são propriamente um espinho na campanha da senadora de Nova York. Ficaremos por aqui, ou a parada ainda subirá?

Porque é que se fica com a impressão de que isto vai correr mal ainda mais cedo do que estávamos à espera?


Menezes deu hoje uma conferência de imprensa a informar o país daquilo que o líder parlamentar vai perguntar amanhã no debate sobre o Orçamento de Estado. O primeiro-ministro agradece o conhecimento prévio das perguntas e a possibilidade de responder a fundo a todas as questões. Não estou é a ver Santana Lopes a iniciar a sua intervenção com um "o líder do meu partido pediu para lhe perguntar...."

Adenda: Na mesma linha, não perder este texto no Womenage a Trois.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Futurologia


Ir dormir logo a seguir às refeições pesadas e sem tomar Alka Seltzer dá sempre para ter pesadelos. O que era escusado era passá-lo a escrito e fingir que é uma crónica semanal num diário dito de referência. Para além disso, não vos parece estupidamente parecido na temática com esta ou com esta? Sem dúvida um Nostradamus em potência (ou, melhor ainda, um S. João de Patmos).

Mais um resgate



Primeiro Cecília, agora Nicolas, os Sarkozy estão a tornar-se numa espécie de Força Delta da diplomacia internacional, resgatando europeus das malhas dos sistemas de justiça do Norte de África.

Entretanto, do outro lado do estreito...


No momento em que os reis de Espanha se preparam para visitar Ceuta e Melilla, sob protesto formal do governo marroquino, será esta uma boa ocasião para recordar os telhados de vidro da diplomacia espanhola, perante uma situação em tudo idêntica em relação a Gibraltar? Ou vamos passar a ter a organização de manifestações e a chamada do embaixador em Londres para consultas caso a rainha de Inglaterra decida visitar Gibraltar?

Old news

A Ana Matos Pires perguntava num comentário ao meu último post se as afirmações de Arroja seriam mesmo demonstração de preconceito ou se não se trataria antes de taradice e petulância. A sequência de posts que se seguiram no Portugal Contemporâneo, onde Arroja vem "explicar e demonstrar" aquilo que andava a dizer levam-me a confirmar o que disse quanto ao preconceito (não excluindo o resto...). O parágrafo que se segue é o mais elucidativo. E mais elucidativo é o link para onde Arroja remete no final do parágrafo, o site de uma "Racial Nationalist Library" (site aqui, link sugerido aqui).
Acima de tudo, acho que o Richard Dawkins ficaria surpreendido por descobrir que faz parte (e deveria obediência) a uma cultura cristã (já antes nestes últimos posts, Arroja tivera um devaneio similar ao dizer que a totalidade dos intelectuais que frequentam a blogosfera nacional são intelectuais de cultura cristã). Mais do que qualquer outra obra, Arroja anda a precisar de ver dois ou três filmes ou ler dois ou três livros do Woody Allen (ou mais qualquer coisa do Mel Brooks) para ver "ataques aos símbolos da sua cultura" e coisas afins e perceber a dimensão das enormidades que anda a propagar.
Reitero a referência ao preconceito, portanto. A dúvida que subsiste é quanto aos disparates históricos que repete e que estão na base do preconceito. Quanto a esses a dúvida fica no ar: manipulação para servir a argumentação retorcida ou ignorância e alheamento da realidade?
Nesta fase da contenda, acho que o que já era claro é agora transparente e reiterado. Está pois na hora de deixar Pedro Arroja a destilar o seu preconceitozinho odioso sozinho (ou para quem ainda continua a fazer parte da sua claque) e deixar de lhe dar tempo de antena. Não só a corrente anti-semita que representa não é novidade, como o desassombro com que a reitera também deixou de o ser.

sábado, novembro 03, 2007

Como diz?!

Mas que mania... Já cansam as comparações, analogias, alusões metafóricas... Metam-se na vossa vida e escolham lá outra atrocidade para banalizar.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Do alto destas fraldas poucos anos te contemplam

Pedro Arroja vai continuar a insistir na sua tese do "puto" e a fazer propaganda da sua habilidade e experiência a mudar as fraldas ou vai tentar dizer alguma coisa sobre o assunto em discussão? Na sua construção hierárquica das regras do debate, a idade será seguramente um posto, pelo que o facto de ser titular de um direito fundamental à liberdade de expressão não será suficiente para me habilitar a responder às suas provocações anti-semitas. Sobre mim limita-se a saber a minha idade e para si é suficiente para desconsiderar a minha opinião ou a força dos argumentos (ou a falta dela).
Talvez seja a máxima do "respeitinho ser muito bonito" e de não poder admitir acusações de quem não preencherá os seus requisitos minímos para debater. Ou isso, ou a sua irritação resulta do facto de o seu anti-semitismo ser tão evidente que até um puto de fraldas semi-alfabetizado como eu a conseguir identificar.
Contudo, isto de manter um blog pressupõe o poder de encaixe para reagir a opiniões contrárias e a capacidade de responder ao conteúdo das mensagens dos outros. Pedro Arroja prefere a via da discussão ad hominem, seguramente porque não terá argumentos para desmentir aquilo que, para os visitantes do seu blog é por demais evidente: o seu anti-semitismo militante (que, aliás, retoma com mestria no seu post anterior, em que recupera a dimensão conspirativa da "intelectualidade judaica" e volta a repetir disparates sobre a utilidade para Israel da intervenção no Iraque ou sobre a forma como os judeus habilidosamente puseram cristãos e muçulmanos a matar-se uns aos outros).
Com excepção de alguns fiéis que visitam a caixa de comentários do seu blog, aqueles de nós que residem no planeta terra no século XXI (aqui, aqui ou aqui) não teremos dúvidas quanto ao seu preconceito.

Seu Jorge em Portugal

Quem puder, aproveite!

Life on Mars (em The Life Aquatic)

Transparência e boas práticas

O governador do Banco de Portugal veio acusar a comunicação social de voyeurismo em relação à instituição que dirige, apontando um objectivo de limitar a sua actuação e o seu dever de supervisão. Com o devido respeito pela posição assumida por Vítor Constâncio, a reacção tem um forte travo de corporativismo e a acusação que formula não parece ter fundamento.

Em primeiro lugar, as notícias recentes sobre empréstimos do Banco de Portugal a administradores têm inegável interesse público, versando a gestão de uma instituição com a sua centralidade no sistema financeiro. Trazer a público factos que devem ser públicos (não as identidades e os montantes em causa, obviamente, mas a prática de concessão de empréstimos), representa o correcto exercício da função jornalística, uma vez que estamos perante uma entidade pública, especialmente vinculada a exigências de transparência na sua gestão.

Em segundo lugar, o facto noticiado é tanto mais relevante na medida em que surge na sequência das notícias sobre o famoso empréstimo à sociedade do filho de Jardim Gonçalves, e porque permite colocar legítimas questões sobre a forma como tem sido exercidas as competências de supervisão do Banco de Portugal face ao BCP perante práticas semelhantes àquelas que existiam na própria instituição. Ao invés de condicionar, a investigação jornalística vem exigir e fiscalizar o cumprimento das obrigações de supervisão do Banco de Portugal, averiguando se estas foram ou não prosseguidas cabalmente.

Finalmente, o uso da expressão voyeurismo pressupõe a invasão de uma esfera de privacidade. Não sendo o Banco de Portugal uma entidade privada, mas antes uma instituição pública que tem de prestar contas pela sua gestão, a expressão utilizada parece ser francamente desajustada.

Provedor da Boina

O recentemente empossado "Provedor da Boina" (eu e empossado agora mesmo por mim próprio) recebeu centenas de mensagens preocupadas com a eventualidade de se estar a assistir a uma discussão na Boina com os partidários do Pedro Arroja. Eu creio que a seguinte imagem, apesar de politicamente incorrecta, ilustra bem o sentimento dos leitores preocupados sobre o tema das discussões na Internet:
Informo os nossos leitores que aquilo que o meu correligionário Pedro Alves fez ao postar sobre as abomináveis lucubrações do Pedro Arroja não deve ser confundido com o início de uma discussão mas sim, pela sua clareza absoluta e inquestionável, como a constatação simples do anti-semitismo do post e provavelmente do autor Pedro Arroja.

Como não é possível, e nem foi tentado pelos defensores do Pedro Arroja, argumentar que o post não é anti-semita e, como não existem méritos no anti-semitismo para poder sequer ser iniciada uma discussão sobre este tema, o provedor considera que não está em risco a integridade do Blog e dá por encerrado este tema.

Uma nota de louvor para os defensores do Pedro Arroja por escolherem o caminho do insulto em vez de se porem a inventar argumentos que poderiam descambar para uma discussão com argumentos (que o vosso deus nos livre!). Na dúvida, "follow the cats":