segunda-feira, novembro 12, 2007

Norman Mailer (31 de Janeiro de 1923 - 10 de Novembro de 2007)

Depois de Kurt Vonnegut, a literatura americana volta a perder uma referência.

sábado, novembro 10, 2007

Há reis que parecem ases


Que Zapatero é um senhor nunca tive dúvidas. Que Hugo Chávez é um mal-criadão com a mania de que tem piada também. Já cansava ver Hugo Chávez a passear-se pela política internacional com o rei na barriga. Ainda bem que desta vez o rei lhe apareceu à frente.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Esclarecedor

A ler, no Abrupto, a carta que o director da agência de comunicação que acompanhou a campanha interna da Luís Filipe Menezes para a liderança do PSD escreveu a Pacheco Pereira.

O mais curioso a retirar da missiva é a naturalidade com que o autor admite ter trabalhado para a campanha independente de Carmona Rodrigues à Câmara de Lisboa, precisamente contra o PSD. Tendo em conta o efeito que a derrota do PSD em Lisboa provocou ao nível da liderança nacional do partido, não deixa de ser um colaboração particularmente esclarecedora...

IVA e preservativos

O grupo parlamentar do Partido Socialista Europeu vai apresentar uma proposta para reduzir a taxa de IVA dos preservativos, no contexto do próximo Dia Mundial de Luta contra a SIDA. Acesso à petição de apoio através deste site.

Missing the point

Os bispos portugueses vieram, a partir de Roma, exigir a participação nas comemorações do centenário da República, para assegurar que a interpretação dos acontecimentos seja correcta. Ou seja, quase 100 anos depois da separação do Estado das Confissões Religiosas, os prelados portugueses ainda não perceberam o seu significado...

Barões em luta

Helena Lopes da Costa, que na sua campanha interna para a liderança da distrital de Lisboa do PSD chegou a colocar um cartaz no Marquês de Pombal a prometer a reconquista da cidade, foi derrotada por Carlos Carreiras, vice-presidente da câmara de Cascais. Aparentemente, tudo no PSD é neste momento totalmente imprevisível...

Entretanto, na secção da Figueira da Foz, o anterior líder da concelhia não entrega as chaves ao seu sucessor, pelo que as reuniões dos novos órgãos têm sido realizadas em salas de hotel ou espaços de associações locais.

Há 18 anos, na Alemanha


Queda do muro de Berlim

Há 69 anos, na Alemanha


Começa a Kristallnacht (que duraria até à madrugada do dia 10), o maior pogrom ocorrido durante o regime nazi, em todo o território da Alemanha e Áustria.

Há 89 anos, na Alemanha


Proclamação da República, em Berlim, por Philipp Scheidemann.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Defender o menino (neste caso a menina)


Depois de demonstrar que preenche todos os requisitos para o cargo, Mourinho dificilmente nos continuará a convencer que não quer ser o próximo seleccionador nacional...

No more Mr. Nice Guy


Há uma velha máxima da política americana que diz que um republicano do Massachusets tem de ser mais liberal do que um democrata do Tennesse, e vice versa - quem diz do Massachusets diz de Nova Iorque ou da Califórnia, quem diz do Tennesse diz de qualquer outro estado do Sul, tradicionalmente conservador. Era mais ou menos isto que se passava com Mitt Romney e Rudy Giuliani.

A personagem Mitt Romney é especialmente intrigante. Um republicano ser eleito Governador do Massachusetts é coisa digna de nota (embora Nova Iorque e a Califórnia também tenham Governadores de sinal contrário ao sentido geral do voto no estado). Ser republicano e defensor do aborto - vá lá, não opositor, mas achando mal - cria ainda mais confusão, mas ajuda a explicar a antecedente. Mas se acrescentarmos que o homem é Mórmon, das duas uma: ou trata-se de uma personagem verdadeiramente folclórica, para não dizer habilidoso político que se posiciona nos temas da forma que lhe possa render mais votos; ou então há mesmo hipótese de existir um tal coisa a que se chamará "conservadorismo progressista", por oposição a um conservadorismo reacionário.

Rudy Giuliani podia confirmar a segunda hipótese: orgulha-se de um currículo brilhante no combate ao crime (orgulho para qualquer republicano), mas tem muitas posições progressistas: - é pro-choice e a favor do alargamento dos direitos dos casais homossexuais. Mas não. Vários sinais indicam o contrário. Ontem Rudy recebeu o apoio formal de Pat Robertson, um famoso "televangelista" conhecido por ser tudo menos, digamos assim, um tipo tolerante, para além de um dos maiores caciques religiosos do Partido Republicano. Por seu lado, a revista Time pergunta-se, na edição desta semana, porque é que Mitt Romney não faz da reforma do sistema de saúde no Massachusets uma bandeira eleitoral (porque falar em sistema de saúde público é pecado para um conservador, digo eu). E ontem, no Daily Show na SIC Radical, passou um clip sobre a forma como todos os candidatos republicanos aplicavam a si próprios, insistentemente, o adjectivo "conservador". À medida que a luta aquece, os candidatos vão disputando os pergaminhos do Grand Old Party.

Porque será isto assim? Por um lado, a velha máxima vale só ao nível estadual. Se Bill Clinton, do Arkansas, e Al Gore, do Tennessee, fossem democratas tipicamente sulistas não teriam ganho as eleições apoiados nessa base eleitoral.
Por outro lado, há o factor Hillary. Perguntado sobre os candidatos democratas, o conselheiro do Presidente Bush Dan Bartlett (ironia para qualquer fã de The West Wing...) disse que Barack Obama seria o candidato mais difícil de enfrentar para um candidato republicano na eleição nacional, porque os anti-corpos que Hillary Clinton suscita no eleitorado republicano provocaria uma mobilização extra do partido.
Em conclusão: se os republicanos em 2008 não estiverem alinhados com a base eleitoral do partido a nivel nacional, convencendo-os de que são um verdadeiro contraponto a Hillary Clinton, nem das primárias passam.
E das duas uma: a primeira.

Apropriado...

Não quero ser mauzinho, nem previsível, mas a canção belga por excelência do século XX não podia ser mais apropriada:
Jacques Brel - Ne me quitte pas

Blackadder on Belgium

Depois dos eventos de ontem (aqui, aqui ou aqui), a melhor discrição da situação é a de Edmund Blackadder, premonitoriamente proferida numa trincheira em território belga:

"Blackadder: [to Baldrick] This is a crisis. A large crisis. In fact, if you've got a moment, it's a twelve-storey crisis with a magnificent entrance hall, carpeting throughout, 24-hour porterage and an enormous sign on the roof, saying 'This Is a Large Crisis'."

Blackadder goes forth, Episódio 6

Derrotado de Outubro

Apesar do dia mais indicado para invocar Alexander Kerensky poder ser o da sua chegada ao Governo com a revolução de Fevereiro ou ao cargo de primeiro-ministro em Julho de 1918, merece hoje uma referência enquanto defensor da alternativa revolucionária distinta à do projecto de Lenine. Líder da oposição socialista ao czarismo, vice-presidente do soviete de Petrogrado, mas defensor da instauração de um regime democrático, de matriz social-democrata, e opositor quer dos bolcheviques, quer do Exército Branco durante a guerra civil, Kerensky e o seu possível legado foram tragados pela máquina da história. Manteve-se na órbita da relativamente irrelevante oposição democrática russa até falecer na década de 70.

O homem que tentou sem sucesso resistir à tomada do poder bolchevique e que pretendia uma via distinta para chegar ao socialismo, mas que não conseguiu ser o "Mário Soares russo". A tentativa merece hoje ser invocada.

Revolução na primeira pessoa


Reds, de Warren Beatty (1981)

Mais do que um biopic de Jack Reed ou a adaptação da sua obra emblemática, Os dez dias que abalaram o mundo, o filme de Warren Beatty representa um marco cinematográfico de primeira qualidade, repleto de "monstros" do cinema (Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Paul Sorvino), oferecendo uma reconstituição histórica da Revolução de Outurbro ao nível de David Lean no Dr. Jivago, expondo as esperanças e desilusões daqueles que tiveram lugares de primeira fila em Petrogrado e Moscovo e contando a história esquecida do movimento operário nos Estados Unidos.

Outubro em Novembro



A ler: Os posts de Daniel Oliveira sobre o aniversário da Revolução de Outubro, com particular destaque para este.

terça-feira, novembro 06, 2007

E de seguida, a tomada do Palácio de Inverno... desculpem..., de S. Bento, assim é que é...

Segundo o texto de Miguel Urbano Rodrigues que se segue (via Água Lisa), a revolução não tardará. Provavelmente, estando cada vez mais perto o aniversário da Revolução de Outurbo, a vontade de fazer uma reconstituição histórica começa a ultrapassar a realidade...

"Os trabalhadores e a CGTP cumpriram exemplarmente o seu dever na jornada do dia 18. Nestes dias em que a burguesia insiste no desaparecimento da luta de classes, a classe operária portuguesa ofereceu-lhe um desmentido categórico no Parque das Nações. Em Portugal existe um forte partido marxista-leninista com um programa que aponta o socialismo como objectivo. É outro factor positivo porque sem vanguarda revolucionária organizada, a classe dominante não será derrotada por acções espontaneistas, por mais participadas que sejam.Estamos longe, muito longe de uma dualidade de poderes. Mas os de cima não vão poder por muito tempo governar como querem.O governo desta ditadura socratiana da burguesia, com máscara democrática, está progressivamente a desenvolver, na dialéctica do processo, uma política em que despontam já matizes neofascistas.O povo português – repito – está em condições de se assumir em sujeito, como aconteceu em grandes momentos da sua história, e de travar a escalada reaccionária, derrotando o projecto monstruoso em desenvolvimento."

No caminho certo



A concretizar-se esta alteração do Código Penal turco, que acabará com as restrições à liberdade de expressão no que respeita às instituições e à identidade nacional, será um dos maiores passos dados pela Turquia a caminho da União Europeia. Ainda haverá muito por fazer, mas no departamento do direitos fundamentais representará um progresso significativo e uma passo inequívoco para o cumprir os critérios de Copenhaga.

149.º dia sem novo governo


Muitos parabéns por terem quebrado o recorde, mas importam-se de arranjar um Governo? Nós, os restantes europeus, estamos a ficar um bocadinho apreensivos...
Aparentemente, o espinho continua a ser a divisão do círculo eleitoral de Bruxelas-Hal-Vilvorde, reclamada pelos partidos flamengos da coligação conservadora-liberal (CD&V/N-VA et Open VLD), mas que tem merecido a resistência dos partidos francófonos (MR e CDH).

Billary

A clara vantagem que Hillary leva para as primárias democratas será difícil de ultrapassar, ainda que a época eleitoral ainda nem sequer tenha aberto formalmente. Consequentemente, as coisas começam a endurecer no campo democrata e um tema que apareceu timidamente pela primeira vez é o de uma possível influência tutelar de Bill Clinton nas sombras de uma presidência da mulher (neste sentido, vejam-se as declarações de Joe Biden sobre o seu desinteresse em ser vice-presidente de Hillary face à personalidade e ao papel que estaria reservado ao First Gentleman - ou como próprio Clinton gosta de dizer, First Lad). Subrepticiamente, é o género a começar a aparecer nas presidenciais americanas, podendo a via argumentativa agora aberta encaminhar-se no sentido de por em causa a autonomia política de Hillary, pintando-a como fachada para um regresso indirecto do marido. No caso de Hillary, esta linha de argumentação menorizadora é claramente reforçada pelo facto do marido ter sido anterior ocupante da Sala Oval e de ser uma figura tudo menos apagada e de segunda linha (não se ouviu nada parecido sobre Dennis Thatcher....).
Estrategicamente, não será seguramente uma jogada muito bem pensada - não só a independência política da candidata já tem pergaminhos antigos, como a associação ao próprio Bill Clinton depois dos oito anos de Bush não são propriamente um espinho na campanha da senadora de Nova York. Ficaremos por aqui, ou a parada ainda subirá?

Porque é que se fica com a impressão de que isto vai correr mal ainda mais cedo do que estávamos à espera?


Menezes deu hoje uma conferência de imprensa a informar o país daquilo que o líder parlamentar vai perguntar amanhã no debate sobre o Orçamento de Estado. O primeiro-ministro agradece o conhecimento prévio das perguntas e a possibilidade de responder a fundo a todas as questões. Não estou é a ver Santana Lopes a iniciar a sua intervenção com um "o líder do meu partido pediu para lhe perguntar...."

Adenda: Na mesma linha, não perder este texto no Womenage a Trois.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Futurologia


Ir dormir logo a seguir às refeições pesadas e sem tomar Alka Seltzer dá sempre para ter pesadelos. O que era escusado era passá-lo a escrito e fingir que é uma crónica semanal num diário dito de referência. Para além disso, não vos parece estupidamente parecido na temática com esta ou com esta? Sem dúvida um Nostradamus em potência (ou, melhor ainda, um S. João de Patmos).

Mais um resgate



Primeiro Cecília, agora Nicolas, os Sarkozy estão a tornar-se numa espécie de Força Delta da diplomacia internacional, resgatando europeus das malhas dos sistemas de justiça do Norte de África.

Entretanto, do outro lado do estreito...


No momento em que os reis de Espanha se preparam para visitar Ceuta e Melilla, sob protesto formal do governo marroquino, será esta uma boa ocasião para recordar os telhados de vidro da diplomacia espanhola, perante uma situação em tudo idêntica em relação a Gibraltar? Ou vamos passar a ter a organização de manifestações e a chamada do embaixador em Londres para consultas caso a rainha de Inglaterra decida visitar Gibraltar?

Old news

A Ana Matos Pires perguntava num comentário ao meu último post se as afirmações de Arroja seriam mesmo demonstração de preconceito ou se não se trataria antes de taradice e petulância. A sequência de posts que se seguiram no Portugal Contemporâneo, onde Arroja vem "explicar e demonstrar" aquilo que andava a dizer levam-me a confirmar o que disse quanto ao preconceito (não excluindo o resto...). O parágrafo que se segue é o mais elucidativo. E mais elucidativo é o link para onde Arroja remete no final do parágrafo, o site de uma "Racial Nationalist Library" (site aqui, link sugerido aqui).
Acima de tudo, acho que o Richard Dawkins ficaria surpreendido por descobrir que faz parte (e deveria obediência) a uma cultura cristã (já antes nestes últimos posts, Arroja tivera um devaneio similar ao dizer que a totalidade dos intelectuais que frequentam a blogosfera nacional são intelectuais de cultura cristã). Mais do que qualquer outra obra, Arroja anda a precisar de ver dois ou três filmes ou ler dois ou três livros do Woody Allen (ou mais qualquer coisa do Mel Brooks) para ver "ataques aos símbolos da sua cultura" e coisas afins e perceber a dimensão das enormidades que anda a propagar.
Reitero a referência ao preconceito, portanto. A dúvida que subsiste é quanto aos disparates históricos que repete e que estão na base do preconceito. Quanto a esses a dúvida fica no ar: manipulação para servir a argumentação retorcida ou ignorância e alheamento da realidade?
Nesta fase da contenda, acho que o que já era claro é agora transparente e reiterado. Está pois na hora de deixar Pedro Arroja a destilar o seu preconceitozinho odioso sozinho (ou para quem ainda continua a fazer parte da sua claque) e deixar de lhe dar tempo de antena. Não só a corrente anti-semita que representa não é novidade, como o desassombro com que a reitera também deixou de o ser.

sábado, novembro 03, 2007

Como diz?!

Mas que mania... Já cansam as comparações, analogias, alusões metafóricas... Metam-se na vossa vida e escolham lá outra atrocidade para banalizar.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Do alto destas fraldas poucos anos te contemplam

Pedro Arroja vai continuar a insistir na sua tese do "puto" e a fazer propaganda da sua habilidade e experiência a mudar as fraldas ou vai tentar dizer alguma coisa sobre o assunto em discussão? Na sua construção hierárquica das regras do debate, a idade será seguramente um posto, pelo que o facto de ser titular de um direito fundamental à liberdade de expressão não será suficiente para me habilitar a responder às suas provocações anti-semitas. Sobre mim limita-se a saber a minha idade e para si é suficiente para desconsiderar a minha opinião ou a força dos argumentos (ou a falta dela).
Talvez seja a máxima do "respeitinho ser muito bonito" e de não poder admitir acusações de quem não preencherá os seus requisitos minímos para debater. Ou isso, ou a sua irritação resulta do facto de o seu anti-semitismo ser tão evidente que até um puto de fraldas semi-alfabetizado como eu a conseguir identificar.
Contudo, isto de manter um blog pressupõe o poder de encaixe para reagir a opiniões contrárias e a capacidade de responder ao conteúdo das mensagens dos outros. Pedro Arroja prefere a via da discussão ad hominem, seguramente porque não terá argumentos para desmentir aquilo que, para os visitantes do seu blog é por demais evidente: o seu anti-semitismo militante (que, aliás, retoma com mestria no seu post anterior, em que recupera a dimensão conspirativa da "intelectualidade judaica" e volta a repetir disparates sobre a utilidade para Israel da intervenção no Iraque ou sobre a forma como os judeus habilidosamente puseram cristãos e muçulmanos a matar-se uns aos outros).
Com excepção de alguns fiéis que visitam a caixa de comentários do seu blog, aqueles de nós que residem no planeta terra no século XXI (aqui, aqui ou aqui) não teremos dúvidas quanto ao seu preconceito.

Seu Jorge em Portugal

Quem puder, aproveite!

Life on Mars (em The Life Aquatic)

Transparência e boas práticas

O governador do Banco de Portugal veio acusar a comunicação social de voyeurismo em relação à instituição que dirige, apontando um objectivo de limitar a sua actuação e o seu dever de supervisão. Com o devido respeito pela posição assumida por Vítor Constâncio, a reacção tem um forte travo de corporativismo e a acusação que formula não parece ter fundamento.

Em primeiro lugar, as notícias recentes sobre empréstimos do Banco de Portugal a administradores têm inegável interesse público, versando a gestão de uma instituição com a sua centralidade no sistema financeiro. Trazer a público factos que devem ser públicos (não as identidades e os montantes em causa, obviamente, mas a prática de concessão de empréstimos), representa o correcto exercício da função jornalística, uma vez que estamos perante uma entidade pública, especialmente vinculada a exigências de transparência na sua gestão.

Em segundo lugar, o facto noticiado é tanto mais relevante na medida em que surge na sequência das notícias sobre o famoso empréstimo à sociedade do filho de Jardim Gonçalves, e porque permite colocar legítimas questões sobre a forma como tem sido exercidas as competências de supervisão do Banco de Portugal face ao BCP perante práticas semelhantes àquelas que existiam na própria instituição. Ao invés de condicionar, a investigação jornalística vem exigir e fiscalizar o cumprimento das obrigações de supervisão do Banco de Portugal, averiguando se estas foram ou não prosseguidas cabalmente.

Finalmente, o uso da expressão voyeurismo pressupõe a invasão de uma esfera de privacidade. Não sendo o Banco de Portugal uma entidade privada, mas antes uma instituição pública que tem de prestar contas pela sua gestão, a expressão utilizada parece ser francamente desajustada.

Provedor da Boina

O recentemente empossado "Provedor da Boina" (eu e empossado agora mesmo por mim próprio) recebeu centenas de mensagens preocupadas com a eventualidade de se estar a assistir a uma discussão na Boina com os partidários do Pedro Arroja. Eu creio que a seguinte imagem, apesar de politicamente incorrecta, ilustra bem o sentimento dos leitores preocupados sobre o tema das discussões na Internet:
Informo os nossos leitores que aquilo que o meu correligionário Pedro Alves fez ao postar sobre as abomináveis lucubrações do Pedro Arroja não deve ser confundido com o início de uma discussão mas sim, pela sua clareza absoluta e inquestionável, como a constatação simples do anti-semitismo do post e provavelmente do autor Pedro Arroja.

Como não é possível, e nem foi tentado pelos defensores do Pedro Arroja, argumentar que o post não é anti-semita e, como não existem méritos no anti-semitismo para poder sequer ser iniciada uma discussão sobre este tema, o provedor considera que não está em risco a integridade do Blog e dá por encerrado este tema.

Uma nota de louvor para os defensores do Pedro Arroja por escolherem o caminho do insulto em vez de se porem a inventar argumentos que poderiam descambar para uma discussão com argumentos (que o vosso deus nos livre!). Na dúvida, "follow the cats":

quarta-feira, outubro 31, 2007

Se foi assim, se calhar não foi tão mau...


Mel Brooks - History of the World - Part One

De novo sobre o anti-semitismo de Pedro Arroja

O meu post sobre o anti-semitismo de Pedro Arroja parece ter picado o autor e os seus fãs das caixas de comentários. Sobre mim, milhares de mimos: miúdo, anormal, extra-terrestre, maluquinho, jacobino, ignorante, cão-raivoso, e, o meu favorito, da autoria de um dos frequentadores dos comentários, a ideia de que só serviria para abate (provavelmente sou como aqueles judeus que fizeram por merecer ser expulsos deste cantinho da Ibéria). Contudo, para desmentir o anti-semitismo do autor ou para tentar apontar outra vez uma tese de eventual equívoco e de errada compreensão dos seus escritos, nem uma só palavra apareceu (o mais próximo a que se chegou foi a ideia de que o post "poderia gerar apreensões ou pedidos de explicação" - de facto, não só fiquei apreensivo, como pedi a muita gente para me explicar como é que ainda é possível que apareçam manifestações públicas de anti-semitismo como esta).
Pela leitura dos comentários que se fizeram aos posts do Portugal Contemporâneo (imagino o pobre Oliveira Martins a dar voltas no túmulo se imaginasse quem decidiu pedir emprestado o título), eu serei seguramente analfabeto, mas aparentemente ninguém me fez o favor de explicar em que é que li mal o que Pedro Arroja escreveu. O mal não estará no que foi escrito e mal compreendido: eu é que não percebo a razão que o autor tem, nem compreendo o quão indigno é acusá-lo de comportamentos odiosos. Sou mesmo acusado de tentativa de assassinato de carácter, quando manifestamente aquilo com que deparamos é com um suicídio de carácter bem sucedido por parte de Pedro Arroja.
Ao contrário do que Arroja escreveu no seu post de hoje, tenho sérias dúvidas que existam muitos netos de nazis que, seguindo a ideologia dos avós, se atrevam a publicar textos tão abertamente anti-semitas como aquele que ele deu à estampa e que tem gerado o debate. Um leitor da Bóina disse num comentário ao meu post que não devíamos dar-lhe o prazer de chocar e de provacar terceiros. Já afirmei aqui em tempos que, de facto, ignorar e não dar tempo de antena a estes fenómenos é o melhor remédio na maioria dos casos. Contudo, disse também que quando a intensidade dos barbarismos tem exposição pública e atinge proporções como as que estamos a assistir, não podemos deixar de reagir em repúdio e com veemência. Para já, mantenho a mesma linha.

Quando o estado deixa de ser de graça

Depois da contestação sindical do presente mês e da que se anuncia para Novembro (ferroviária, função pública e sector da energia), do anúncio do divórcio, da saída da entrevista ao 60 minutes (em que o pior nem foi o facto de ter abandonado a entrevista quando interrogado sobre a sua vida pessoal, mas o momento em que chama de imbecial a sua assessora de imprensa) agora surge o aumento de 140% na remuneração do Presidente da República a fazer estragos na gestão de imagem e agenda de Sarkozy. A única coisa porreira terá mesmo sido a passagem por Lisboa...

Não houve milagre...


... dois grandes de seguida era pedir demais.

Obama e as non-issues

Depois de uma atenção disparatada prestado ao facto de Obama ter aparecido sem um pin da bandeira americana na lapela do casaco (ver o vídeo de Lewis Black no Daily Show), o que eventualmente revelaria, para os comentadores hard-liners da direita republicana, uma falta de patriotismo, o candidato respondeu que estava mais interessado em explicar aos eleitores porque é que as suas propostas vão melhorar o país.
Ontem, depois de outro disparate em torno da discussão sobre se Dennis Kucinich teria ou não visto um OVNI (ou seja, se viu algo que não foi capaz de identificar, um objecto voador não identificado e não se achou que viu meios de transporte alienígena) Obama voltou a mostrar que tem noção da realidade e que não vai dar atenção à profusão de fait-divers. Ao perguntarem-lhe se acreditava na vida noutros planetas, Obama disse o seguinte: “You know, I don't know. And I don't presume to know. What I know is there is life here on Earth, and that we're not attending to life here on Earth. We're not taking care of kids who are alive and unfortunately are not getting health care, we're not taking care of senior citizens who are alive and are seeing their heating prices go up. So, as president, those are the people I will be attending to first."

Revoltante


A saída de Pedro Arroja do Blasfémias, para os que não se recordam, surgiu no contexto de comentários marcadamente anti-semitas. "Equívoco", "mal interpretado", "radicalismos do politicamente correcto" disse-se em intervenções sua defesa (que, felizmente, não foram muitas). Num post digno do boletim mensal do NSDAP, Pedro Arroja vem confirmar o que já todos sabiam, o seu gritante, inaceitável e execrável anti-semitismo. Vejamos os excertos mais significativos deste post em que a pretexto da canonização dos mártires da guerra civil pelo Vaticano aproveita para destilar o seu fel:


[...]


Em tudo o que escreveu no post, Arroja revela os clássicos elementos do anti-semitismo militante. Não é só preconceito de trazer por casa: é estruturado e ideológico. Veja-se a implícita referência conspirativa quando alude à brecha por onde os judeus procuram dividir, leia-se a tradicional fórmula da "massa do sangue". Conexo com o programa ideológico aparece o revisionismo. Em primeiro lugar, a ideia do bom acolhimento na península aparece como uma das muitas falsidades que se querem interiorizar repetindo mil vezes. A não ser, claro, que a obrigatoriedade de viver num gueto do qual não se pode sair livremente a certas horas do dia, a imposição do uso roupas distintivas e a submissão a perseguições ocasionais entre outros elementos do regime aplicável aos judeus seja uma forma de bem receber no léxico distorcido de Pedro Arroja. Nesa linha, os inquisidores seriam seguramente os mestres de cerimónias macabros deste suposto tratamento brando.

Mas o pior momento deste deplorável revisionismo é aquele em que procura determinar, sem fundamentar, sem argumentar ou sem sequer exemplificar, que a expulsão da Península ocorreu devidos aos motivos que os próprios criaram e não devido ao fanatismo dos reis Católicos e à incapacidade de D. Manuel em resistir à sua pressão. Boa gente como esta das duas casas reais ibéricas não se limita a expulsar toda uma comunidade apenas por intolerância religiosa...

Confesso que fiquei chocado. Conhecia a figura, li vários disparates prévios nesta linha e sobre temáticas e até tinha ido visitar o blogue à procura de mais qualquer coisa para me rir, na linha do que aqui escrevi a semana passada. O que acabei por encontrar choca pelo forma despudorada, provocatória e odiosa como surge. Ainda há gente desta por aí, a propagar o ódio étnico e religioso e, ao contrário do que por vezes nos dizemos a nós próprios para não nos desalentarmos, não estão todos acantonados como radicais no PNR. Tentam passar por opinion makers, por académicos respeitáveis e por comentadores legítimos, mas não verdade não passam de abjectas caricaturas recicladas de uma milenar cultura de intolerância, estando ao nível dos energúmenos que profanam cemitérios.

São, contudo, mais perigosos dos que os militante e violentamente racistas e têm de ser desmascarados, desmentidos e expostos publicamente e remetidos de volta para o caldo infecto de ideologias odiosas que representam. Depois de ler o que li no post de Arroja, aquilo que escrevi neste post sobre salvaguarda da memória torna-se ainda mais premente. E apesar de me sentir irado, espero poder canalizar o sentimento para o combate pela via da denúncia, do apelo à razão e à inclusão de todos. Liberdade, igualdade e fraternidade são uma causa permanentemente por realizar...

Talvez estejamos a abusar...

Decorre uma animada discussão na blogosfera (no resto do País nem por isso....) em torno da forma de ratificação do Tratado de Lisboa. "Tratado com ou sem referendo?", pergunta-se em tom de bitoque com ou sem ovo. Argumentos para cá, argumentos para lá (já aqui e aqui escrevi o que penso sobre o assunto, mas até aqui a Bóina é rica em opiniões), teremos de esperar até à assinatura do tratado para ver o que sucede. Mas há quem se esteja a esticar um bocadinho e comece a argumentar ao nível do Prof. César das Neves sobre o aborto. No Diário Económico de dia 29 retira-se esta pérola de João Marques de Almeida (via Sobre o Tempo que Passa e Hoje há conquilhas):
«O argumento que associa o referendo à democracia constitui uma séria ameaça aos princípios e instituições fundamentais da democracia representativa. Este ponto é claro quando se observa o recurso ao referendo por parte de ditadores. Hitler, por exemplo, era um grande adepto do referendo. Entre 1933 e 1938, o ditador nazi convocou quarto referendos. O primeiro decidiu retirar a Alemanha da Sociedade das Nações com 95% dos votos. O segundo, em 1934, reforçou os poderes de Hitler como Chanceler, com 90% dos votos. O terceiro, em 1936, confirmou a remilitarização do Reno, com 98,8% dos votos. O último ratificou a anexação da Áustria, com 99% dos votos. Conclusão: segundo aqueles que associam os referendos à democracia, a estratégia de conquista militar de Hitler foi um caso exemplar de “expansão democrática”»

Gosto muito de passagens como "Hitler era um grande adepto do referendo" (e do Clube Caçadores das Taipas também, ao que parece, mas nem sempre conseguia ir aos jogos) e "a estratégia de conquista militar de Hitler foi um caso exemplar de expansão democrática". Desde logo, sou fã incondicional da técnica argumentativa "se o Hitler fez é porque tem de ser mau". Se o senhor que escreveu as linhas transcritas não fosse membro do Gabinete do Presidente da Comissão Europeia eu quase me atreveria a dizer que isto podia ser ridículo ao ponto de ter alguma piada...

Autoridade, faltas e escola (II)


Concretamente quanto à matéria das faltas, ou melhor, do facto de constituirem fundamento directo para a reprovação, mais uma vez me parece que a onda de histerismo é despropositada. Em primeiro lugar, porque as novas regras se dirigem a um conjunto variado de realidades que vai desde as faltas por motivo de doença ao abandono escolar em sentido estrito. Em segundo lugar, porque a filosofia da nova medida passa por assegurar o acompanhamento do aluno pela Escola, evitando que esta desista de recuperar os discentes no caso de abandono (como realçou correctamente Miguel Sousa Tavares, ontem na TVI). E, finalmente, porque se introduz um mecanismo de recuperação do tempo perdido, através da possibilidade dada ao aluno de prestar uma prova em que demonstra a aquisição de conhecimentos. Ou seja, longe de ser facilitadora da passagem, a medida visa integrar o aluno, mas através da prova de que recuperou terreno face aos colegas. Nos casos mais graves, isto é, em que o período de ausência da escola é maior, maior será também a dificuldade em obter aproveitamento na prova de recuperação, o que significa que nesses casos haverá uma possibilidade de reprovação. Não há segundas oportunidades para causar uma primeira boa impressão, mas podem e devem ser dadas segundas oportunidades a quem não se quer afastar do ensino.

Autoridade, faltas e escola (I)

Há um excesso de referências à "autoridade" como componente a incutir na educação nos comentários que têm aparecido à revisão do Estatuto do Aluno. A escola é um local de transmissão de conhecimentos e de competências e de formação para a vida em sociedade e para a cidadania. Neste contexto, parece-me que a tónica correcta passa pelo transmissão das ideias de responsabilidade, de respeito pelo próximo e pelas suas liberdades e de conhecimento e interiorização das regras (jurídicas, sociais, convivenciais) que regem a vida em comunidade. É neste contexto que deve surgir a indispensável interiorização das consequências da violação das referidas regras, do desrespeito pelas liberdades e pela dignidade do outro e das pessoas dotadas de autoridade para as implementarem e assegurarem os respeito pelas regras. O professor não é em si mesmo fonte de autoridade, ele exerce-a em aplicação das normas a que a sociedade se auto-vincula através dos órgãos democraticamente eleitos e com competência para o fazer. É um aplicador das regras, um árbitro, dotado da autoridade necessária ao exercício das suas funções, não um autocrata ou tiranete numa lógica do "quem manda aqui sou eu". Se quisermos, na linha dos conceitos dos romanos, o valor a representar pelo docente e a receber pelo discente seria o da auctoritas, a personificação de determinada diginidade de quem exerce certas funções, e não o imperium, o poder, a decisão. Num Estado de Direito Democrático, o imperium não sendo privativo de ninguém e devendo ser exercido soberanamente por todos, é este o valor que se deve começar a transmitir na escola.

Novela bancária

Não querendo insistir no assunto, mas a eufemisticamente denominada "instabilidade" no BCP começa a gerar o tipo de interesse mediático a que nos temos habituado com Congressos do PSD ou com assembleias-gerais do Benfica. Daqui a nada é o "banco mais português de Portugal" e daí até à "família BCP" ou ao Eng.º Jardim Gonçalves anunciar que sai dos órgãos de gestão mas que vai "andar por aí" é só um passo suicida...

terça-feira, outubro 30, 2007

Finalmente!

Reabriu hoje, depois de muitos meses de encerramento, a ponte Eiffel, em Viana do Castelo.

Marcar passo

Através do Renas e Veados, esta notícia sobre a Suécia:

"Uma larga maioria dos delegados presentes na convenção do Partido Moderado da Suécia (centro-direita) aprovou uma moção a favor da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no país escandinavo. Também votaram favoravelmente o direito às lésbicas recorrerem à inseminação artificial em hospitais públicos e à possibilidade dos casais homossexuais adoptarem crianças.Isto significa que 3 dos 4 partidos que formam a coligação governamental, incluindo o do Primeiro-Ministro (moderado) estão a favor da medida, tal como toda a oposição. Notar que o Partido Moderado se senta em Bruxelas ao lado do CDS e do PSD! Sobram então os cristãos-democratas, contra o casamento, mas que à partida não serão grande estorvo, a aprovação é mesmo uma questão de tempo. Falta apenas saber se a vizinha Noruega conseguirá ser mais rápida."
Por cá continuamos a marcar passo. Pode ser que do Tribunal Constitucional venham boas novas, seguindo o exemplo da África do Sul (elementos detalhados sobre o recurso apresentado aqui). Vamos aguardando...

Não esquecer (II)

A Câmara da capital vai discutir na próxima reunião do executivo a edificação, no Largo de São Domingos, ao Rossio, de um memorial às vítimas do pogrom de 1506. Uma proposta conjunta dos vereadores do PS, BE e de Helena Roseta, a iniciativa visará recordar as vítimas da intolerância, discriminação e violência. Recordo-me de ter participado na vígilia realizada precisamente naquele local há cerca de um ano e meio, no dia em que se assinalaram os 500 anos do massacre. Recordo também o aparecimento de meia dúzia de skin-heads a gritar "Juden Raus", a fazer a saudação nazi e a queixar-se da conspiração zionista internacional. A PSP estava no local e aquelas tristes figuras não fizeram mais do que reforçar o ânimo de quem se tinha deslocado ao local. Pouco representativos e não conformes ao espírito de tolerância do povo português poderia dizer-se, como se dissse recentemente depois da vandalização do cemitério judaico. Contudo, esse conforto não chega, é necessário exorcizar pública e simbolicamente o veneno que representa aquela visão de ódio e intolerância. Na sequência do ataque de há um mês, as autoridades públicas responderam ao mais alto nível, conforme aqui indicámos. Na próxima quarta-feira, espero que a CML se lhes junte, evocando a memória dos que perderam a vida e reavivando os valores que devem guiar a nossa sociedade livre e inclusiva.

Não esquecer

Assinalou-se ontem a passagem dão 71.º aniversário do desembarque dos primeiros prisioneiros internados no campo de concentração do Tarrafal. A homenagem aos que aí perderam a vida e aos que aí foram privados da liberdade passa pela salvaguarda da memória do seu sacrifício. Apesar das exigências de reposição de justiça sejam menores do que em Espanha, legislação sobre a preservação da resistência ao Estado Novo é necessária e urgente se não quiseremos continuar a ver o desaparecimento de locais essenciais para a compreensão da nossa história contemporânea e para a transmissão dos valores da democracia e da República.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Como é que se diz Prós e Contras em castelhano?

Alguns dos principais responsáveis dos dois bancos envolvidos numa potencial operação de fusão destinada a criar uma instituição bancária nacional capaz de competir no plano ibérico estão mesmo num canal público de televisão a discutir os detalhes do assunto? Se este é o bom senso da banca portuguesa, ficamos todos a pensar se não seria preferível que aparecesse a tal OPA estrangeira. Rapidamente....

Ideias para a reforma do Conselho de Estado

A eventual entrada de Luís Filipe Menezes no Conselho de Estado está a fazer correr rios de tinta (aqui, aqui ou aqui) que francamente não se justificam. Juridicamente a questão é cristalina: Menezes não consta da lista de eleitos pela Assembleia da República, pelo que só se esgotando todas as possibilidades de substituição é que poderia haver lugar a nova eleição (algo que, curiosamente, o actual Estatuto dos Membros do Conselho de Estado não só não prevê, como exclui à partida, mas que seria a única solução conforme à Constituição). O problema principal reside na prática adoptada em 2005 de apenas submeter uma lista de consenso a votação parlamentar. Havendo uma só lista, as substitutições deveriam seguir a ordem nela prevista, o que desde logo colocaria um problema (que parece estar a ser diplomaticamente evitado), visto que o primeiro substituto na lista seria Gomes Canotilho e não António Capucho. No entanto, parece ter prevalecido o entendimento de que se deve respeitar a indicação de cada partido, não alterando a relação de forças existente. Assim sendo, ficamo-nos com o problema decorrente da vontade de Menezes ocupar o lugar deixado vago por Marques Mendes.

Vir invocar a tese da representatividade dos partidos no Conselho traz à colação a opção de Cavaco Silva em não designar para o Conselho os líderes do PCP ou do CDS, cortando com a prática inaugurada por Sampaio, destinada a alargar a representatividade do órgão. Se no caso do CDS a questão ainda fica relativamente sanada devido à presença de Anacoreta Correia, o PCP fica privado de acesso a um órgão que praticamente sempre vinha integrando desde a sua criação (primeiro por eleição, quando reunia o número de deputados suficiente, com um hiato entre 92 e 96, e depois através da referida opção de Sampaio). Apesar de, podendo, não ter contribuido para aumentar o pluralismo do órgão, a decisão do Presidente não deixa de ser legítima (e não difere de semelhante atitude de Soares durante os seus mandatos), não residindo aí o busílis da questão. Note-se ainda, que nem sempre esteve assegurada a presença do líder do maior partido da oposição no Conselho de Estado: nem Marcelo, nem Durão Barroso foram membros enquanto lideraram o PSD, nem José Sócrates ascendeu ao Conselho quando foi eleito secretário-geral do PS.
O que a polémica em torno da subsituição de Marques Mendes no Conselho de Estado revela é que é verdadeiramente tempo de pensar seriamente numa revisão da composição do órgão de aconselhamento do Presidente da República, de forma a assegurar o pluralismo da sua composição e, já agora, introduzir alguns elementos de representação institucional em falta. A Constituição prevê a representação proporcional para os membros eleitos pela Assembleia, contudo, uma vez que o Conselho de Estado não desempenha quaisquer funções deliberativas vinculativas, parece-me bem mais relevante garantir o pluralismo de opiniões nas funções de aconselhamento do Chefe de Estado do que o equilíbrio de forças políticas.
Assim sendo, preferiria um órgão em que estão presentes os líderes de todos os partidos com representação parlamentar (restrita aqueles que constituissem grupo parlamentar, por hipótese), reconhecendo o papel dos partidos políticos no sistema e a opção eleitoral dos Portugueses. Apesar de poder inflacionar o número de membros do órgão, admito que se poderia manter a eleição de alguns membros do Conselho (três?) pela Assembleia da República. No plano institucional, uma reforma poderia passar pela abertura do Conselho aos presidentes do STJ e do STA e ao Procurador-Geral da República, uma vez que se afigura igualmente desejável, alargar a representatividade do órgão à magistratura judicial e do Ministério Público.

Aqui ficam, pois, meia dúzia de tópicos para uma revisão constitucional (não se entusiasme muito o Dr. Menezes, porque para isto baste fazer uma revisão...)

Efeito K

Os resultados preliminares confirmam a vitória de Cristina Kirchner nas presidenciais argentinas, sem necessidade de segunda volta. Marcado por grande apatia eleitoral, devida em grande parte à quase certa vitória de Cristina na primeira volta e por alguma desorganização do processo eleitoral, o resultado passa ainda pelo reforço da maioria peronista no Senado e pela conquista de maioria absoluta no congresso dos deputados.
A sucessão ao marido, revela a provável génese de uma nova dinastia eleitoral, apostando vários analistas numa nova troca em 2011, com Nestor a suceder a Cristina. A nova presidente será a segunda mulher a ascender à Chefia do Estado, depois de Isabel Perón vice-presidente do seu marido, Juan Péron, lhe ter sucedido quando este morreu. As semelhanças ficam-se por aí: esta sucessão é por via eleitoral e Cristina, já senadora, tem um papel político central que a viúva de Péron nunca almejou. No entanto, a linha política do casal é justicialista (tudo e nada, portanto...) e o espectro de Evita pairou sobre a campanha, o que me permite formular as reservas habituais a este modelo de populismo...

A curisosidade final a apontar respeita ao sistema eleitoral argentino, que dispensa a segunda volta se o candidato colocado em primeiro lugar obtiver mais de 45 % dos votos ou se alcançar os 40% e tiver obtido uma diferença de mais de 10% face ao segundo colocado. Segundo indicam as mais recentes projecções, Cristina Kirchner terá cerca de 43% dos votos enquanto a provável segunda colocada, Elisa Carrió, está na casa dos 23% e Roberto Lavagna, o terceiro, tem cerca de 18%. Ou seja, os dois candidatos mais votados a seguir à vencedora quase igualam o seu resultado. Tendo em conta que Nestor Kirchner foi eleito com pouco mais de 20% dos votos depois da desistência de Meném, este resultado vem finalmente legitimar eleitoralmente a linha política do actual presidente, cujo rumo será mantido pela nova presidente. Mas para quem está habituado ao escrutínio maioritário clássico, fica no ar a questão sobre quais se seriam os resultados se houvesse segunda volta...

quinta-feira, outubro 25, 2007

Gould

Seguindo uma linha recente do Jansenista:
Glenn Gould - J.S. Bach, Goldberg Variations 1-7

Risota, gargalhada, rir a bom rir, rir até não poder mais, galhofa e até alguma folgança

Pedro Arroja, no Portugal Contemporâneo:

e ainda...
Parabéns pela menorização simultânea de homens e mulheres: elas, coitadas, são frágeis e precisam de protecção do homem; eles, inúteis, não servem para cuidar dos filhos. Com o devido respeito, mas se alguém, mulher ou homem, me disser que não sirvo para cuidar de filhos apenas com base nos meus cromossomas, podem ter a certeza que não me vou inibir de oferecer uma provocaçãozita qualquer em troca... Mas como não sou católico, não sei seguramente o que é isso de cavalheirismo.

Igualdade de tratamento


O governo decidiu, com toda a razão, suprimir o subsídio que a Universidade Católica Portuguesa recebia há vários anos, sem qualquer fundamento atendível. Durante anos, enquanto as verbas da Acção Social Escolar para o ensino público não recebiam os reforços de que careciam, enquanto as universidades públicas se debatiam com dificuldades orçamentais e com a necessidade de encetarem contenções de despesas que dificultavam a sua modernização e colocavam em risco o seu funcionamento, a UCP, universidade privada, recebia regularmente apoio estatal, não obstante a sua manifesta auto-suficiência financeira, os avultados investimentos em equipamentos e instalações e os diversos projectos de expansão que ia desenvolvendo. Nenhuma outra universidade privada gozava de idêntico tratamento.

Apesar de diversas construções ensaiadas para sustentar que a UCP não é uma universidade privada como as demais, recorrendo a ficcções ardilosas como a de que se trataria de uma universidade "pública não estatal" ou de que estaríamos perante "ensino concordatário" (uma quarta espécie de propriedade para além da pública, privada e cooperativa, aparentemente desconhecida da Constituição da República Portuguesa), a realidade tem contornos bem definidos e a UCP é a uma universidade privada como as outras.

Mais do que aplaudir, temos de apontar o caminho e indicar o próximo passo no caminho para a igualdade de tratamento, o da saída da UCP do Conselho de Reitores das Universidade Portuguesas, órgão de representação de universidades públicas, no qual não faz sentido a sua presença. Assim o exigem o respeito pela delimitação dos sectores da economia, as regras de funcionamento do ensino superior e a garantia de igualdade de tratamento com as demais universidade privadas que não beneficiam daquele tratamento.

O espírito certo

Gosto cada vez mais do Celtic e dos seus adeptos, que nos voltaram a visitar em números impressionantes. Fair-play no campo, um ambiente incomparável nas bancadas, confraternização com o adversário, dedicação ao clube, sem violência, nem fanatismo. Praticamente tudo o que o desporto consegue gerar de positivo. É daqueles casos em que o lugar comum do "desculpem lá termos ficado com os 3 pontos, mas não podemos ganhar ambos" até faz mesmo sentido.

Casticismologia

Um jogo de futebol em Portugal deve ser dos poucos sítios do mundo em que se ouve dizer de um jogador que "parece uma carraça, não o larga", tratando-se obviamente de um elogio.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Games

Isto é só impressão minha, o ou sr. Erdogan está a conseguir quase tudo o quer com uma habilidade política, militar e diplomática que há muito não se observava por aquela parte do globo? Não só proclama os seus pergaminhos nacionalistas para consumo interno, popularizando-se junto do exército, que aproveita para moralizar, como ainda faz uma demonstração de força sem provavelmente ter uma séria intenção de a utilizar efectivamente, forçando o PKK à moderação e fazendo com que americanos e iraquianos comecem a interiorizar que a autonomia ampla do Curdistão iraquiano não pode ser gerida à custa daquilo que ele identifica como sendo os interesses da Turquia. Obviamente, se este for o plano, trata-se de uma estratégia que poderá correr francamente mal. Tendo em conta o estado da região, esperemos que assim não seja.

Onde está a Bélgica?

Apesar de já estar há 136 dias sem conseguir formar governo, a Bélgica desapareceu das notícias, tão rotineira e pouco interessante se tornou a sua crise política. Ainda para mais, agora que se fechou finalmente o tratado reformador, só a ideia de ter de voltar a dividir votos no Conselho e lugares no Parlamento vai definitivamente arrumar as veleidades secessionistas de quem quer que seja. Cá para mim isto está a demorar tanto tempo porque o sr. Leterme está a ver se aprende a cantar o hino para tomada de posse.

terça-feira, outubro 23, 2007

Beekeeping

Coisas a fazer para não dar azar ao Tratado de Lisboa

Não deixar que seja assinado por Santana Lopes, como o último.
Não voltar a deixar que Giscard d'Estaing fique encarregado das relações públicas.
Não traduzi-lo para inglês, nem publicá-lo no Reino Unido.
Não tentar explicar porque é que não se vai referendar.
Não começar a organizar conferências ou seminários, nem a escrever teses de mestrado ou doutoramento, nem a publicar versões anotadas do tratado antes de se ter a certeza de que entra em vigor.
Não desmarcar os hotéis já reservados para as próximas presidências rotativas.
Não recorrer já ao jogo das cadeiras para ver quais são os primeiros comissários a ficar sem assento.

Amen to that

Ao fim de alguns meses de ausência pensei que ainda demoraria a ganhar ritmo e energia para voltar à Boina. Mas depois do quinto milagre de Fátima no Domingo no Restelo, sentia-se a anunciação de mais uma Epístola de São João César das Neves aos Lusitanos e a minha esperança aumentou. Ao abrir o DN de ontem a minha motivação como que miraculosamente surgiu...

Começando pela ideia de que o rastreio pré-natal quase só serve para "suscitar a morte de crianças saudáveis" devido à existência de muitos falsos positivos e que no fundo não passa de um incentivo ao aborto, passando à (previsível) crítica aos malvados procurador e Ministro da Saúde que querem (pasme-se) que a Ordem dos Médicos não puna disciplinarmente a prática de um acto lícito, JCN está em grande forma (muito ginásio, muita corrida à volta da Igreja da Santíssima Trindade e muito lançamento de cilício, está-se a ver). A coroa de glória é a comparação da situação actual do aborto aos horrores do nazismo. Reparem:


Para finalizar, fica a crítica literária: não perca o volume "Ao Gólgota! - A Liberalização do Aborto e o Nazismo" da Editora Crucifixus, do Padre Serras Pereira. Sim, esse mesmo, o que acusou a APF de assassínio em série, que afirmou que o aborto é um crime pior que a pedofilia, que publicou um anúncio em que afirmava ir recusar a comunhão a quem recorresse à contracepção e que afirmou repetidas vezes que a homossexualidade é uma doença. Um moderado, portanto. Uma obra a não perder.

PS: Já agora senhor Professor, o parecer é do Conselho Consultivo da PGR, não do Procurador. Trata-se portanto de todo um círculo satânico e não de um mero agente solitário do mafarrico.

Goodbye, farewell, Aufwiedersehen, adieu...



Parece que muito bravado que só se salda num advogado-geral e numa promoção de Ioanina de declaração a protocolo não chegou para dar a volta. Para este amigo, Lisboa não terá sido assim tão porreiro, pá...

Voltei...


... mas se calhar não me fui verdadeiramente embora.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Retiro...

... as duas últimas frases deste post. Já não estou triste.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Kundalini and other misdemeanours


Vão ler o Pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Está lá tudo explicado. Lixaram os Templários para lhes sacarem as propriedades e o dinheiro. Acusações de homossexualidade esotérica, tortura, gente queimada viva, valia tudo em nome do combate à "heresia", comandado pelo Papa Clemente V.
Já o Papa Bento XVI, na famosa intervenção de Setembro de 2006 em Regensburg quis-nos convencer (citando o imperador bizantino Manuel II), que o reconhecimento da incompatibilidade da violência e da fé é uma das imagens de marca do Cristianismo, juntamente com a importância da Razão herdada do helenismo (o logos). Ao contrário do Islão, claro. "Porque o Muçulmano é um tipo que etc"

Perante histórias como a do fim violento dos Templários, é caso para dizer: ó Bento, se vivesses há uns séculos, acusavam-te de heresia!

Negacionistas assumidos


Folclore. Já passaram 97 anos. Relaxem. Encostem-se para trás e respirem a liberdade. E por amor da Razão, parem de comparar a República portuguesa com a monarquia espanhola. É muito mais útil comparar a República portuguesa com a monarquia portuguesa (ou a "piolheira", como lhe chamava el-Rei D. Carlos, o Roliço).

Série Heróis esquecidos da Revolução Francesa III



Marquis de Condorcet (1743-1794), filósofo e matemático, adepto da República muito antes da 'fuga para Varennes', defensor do sufrágio feminino e dos direitos políticos das mulheres - a data da morte (Março de 1794) não engana: mais um espírito livre eliminado pelos jacobinos