terça-feira, novembro 13, 2007

Música e filmes - The immortal beloved

Ludwig van Beethoven - 4.º Andamento da 9.ª sinfonia em Ré menor

Música e filmes - Tous les matins du monde


L'Arabesque (Marin Marais)
Improvisation sur les folies d'Espagne (Marin Marais)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Talvez estejamos a exagerar...

Depois da confraria do vinho do Porto, da confraria das tripas, da confraria da chanfana, da confraria da francesinha, da confraria do leitão da Bairrada, da confraria do anho assado, entre muitas outras, a agência Lusa noticia a criação da confraria do bolo-rei escangalhado. Lá virão os nossos detractores dizer que é propaganda republicana, que se o bolo fosse presidente nós não diziamos nada.
Mas o melhor da história passa pela existência do inevitável imbróglio jurídico. Reza a notícia que "o empresário José Manuel Faia, da pastelaria Nobreza de Braga, adiantou que a confraria ainda não foi criada por estar a decorrer, no Tribunal de Braga, um julgamento que envolve a propriedade do "escangalhado", reclamado por outra pastelaria de Braga. "Queremos que o tribunal decida e, depois, avançamos", sublinhou". Um intrigante caso de propriedade industrial, portanto, com inimagináveis ramificações na quadra que se aproxima...

Capelanias

Apesar dos seus devaneios teocráticos terem seriamente minado a sua credibilidade, João César das Neves regressa ocasionalmente à terra do seu mundo futurista e/ou onírico para vir fazer política religiosa. Vem hoje falar no "regresso" da Lei de Separação. Newsflash para o sr. professor: a separação está viva e de boa saúde e tem consagração no texto constitucional. Aquilo que claramente a viola é a existência de uma concordata com um regime distinto para uma determinada confissão (cuja demora na regulamentação, curiosamente, é o ponto de abertura do texto de César das Neves).
Mas no finalzinho do artigo, no qual repete uma série de lugares comuns sobre o papel social das IPSS católicas (que não está em discussão, nem é questionado por ninguém), umas considerações semi-elogiosas ao miguelismo e uns ataques serôdios aos ateus, João César das Neves revela ao que verdadeiramente veio desta vez: os capelães hospitalares . De destacar este parágrafo:
Curiosas expressões: igualdade abstracta e repressão da única religião com real expressão social. Trocado em miúdos isto significa que estão a tirar o estatuto privilegiado da religião católica, o que é inadmissível. Interessante interpretação esta do princípio da igualdade em que, por ser maioritária, determinada confissão tem direito a que o Estado custeie os serviços dos seus ministros, em que estes têm acesso exclusivo aos doentes e direito a instalação nos serviços hospitalares e em que a vontade do cidadão em ter ou não apoio espiritual deve continuar a ser irrelevante. Malvado o Governo que pretende que todas as confissões tenham acesso em regime de igualdade aos serviços hospitalares e que pretende que seja o doente a solicitar (exercendo o seu direito fundamental à liberdade religiosa) o apoio espiritual de que necessita.
De resto, para quem tem dúvidas quanto ao que está em causa, recomendo este post do Ricardo Alves, no Esquerda Republicana e este post de Palmira F. Silva no De Rerum Natura.

Autonomia e independência

Depois da chantagem primitiva do tipo "se-não-me-dão-as-competências-legislativas-que-eu-quero-declaro-a-independência", o deputado do PSD à Assembleia Regional da Madeira Gabriel Drumond volta a insistir e sobe a parada "afirmando que estamos perante uma questão de ódio por parte dos governos da República que não gostam do povo da Madeira". Os madeirenses e o próprio PSD nacional merecem muito melhor do que este populismo irresponsável e gerador de divisões artificiais entre portugueses de pontos distintos do território. Agora, se continuarem sem nada dizer e sem desautorizar cabal e inequivocamente o cavalheiro merecem levar com as consequências políticas por inteiro.


Quanto à questão de fundo, tenho acompanhado, por diversas razões, a evolução dos poderes legislativos regionais, e, particularmente desde a revisão constitucional de 2004, penso que a República já foi até onde pode ir no que respeita à transferência de competências para as regiões (se é que já não foi longe demais): porque de Regiões Autónomas se trata, e não de estados federados; porque de mera autonomia político-administrativa se trata, decorrente primordialmente das condições geográficas (insularidade) dos dois arquipélagos e não de entidades dotadas de legitimidade e identidade originária próprias (como as comunidades espanholas, por exemplo); e porque o princípio da igualdade não pode ser objecto de entorses injustificadas, decorrentes de regimes jurídicos de aplicação territorial distinta, sem fundamentação em qualquer especificidade regional. A ocorrer alguma revisão nesta matéria, penso que deveria ser no sentido de esclarecer as dúvidas decorrentes das novas "zonas cinzentas" na delimitação das competências regionais face às da República (por exemplo, no que respeita à prevalência inequívoca das leis de bases e na delimitação mais clara de matérias que não devem ser objecto de legislação regional porque não revelam qualquer especificidade) e não no sentido de mais um alargamento de atribuições. Contudo, sei que estou a pregar no deserto, uma vez que a existência de um bloco regional no PS e no PSD impede maior clareza na construção jurídica do sistema e na correcção dos seus vícios...

SIC Notícias ou SporTV News?


Hoje, no jornal das 3 da manhã da SIC Notícias, síntese informativa com cerca de 15 minutos, os primeiros 10 dedicaram-se a resumos alargados dos três jogos de ontem do Benfica, Sporting e FC Porto. A notícia que se seguiu respeitava ainda à temática, tendo sido relatados os confrontos entre adeptos e claques, em Itália.

Sei que se tratava de um domingo, um slow news day por tradição, mas da tensão crescente no Paquistão, à morte de Norman Mailer na véspera, passando pela Cimeira Ibero-Americana, pelo desastre ecológico no mar de Azov, ou, no plano interno, pelas declarações de Sócrates num encontro de militantes do PS ou pela polémica em torno das fotocópias de Portas, não havia actualização de informação que não passasse pelo desporto-rei? Não se trata de um fenómeno novo e, provavelmente, só estou impressionado pela desproporção da coisa no caso concreto de ontem, mas não deixa de ser lamentável que a comunicação social desbarate o seu capital de credibilidade por não ter as prioridades sobdre o direito e dever de informar no sítio certo.

Norman Mailer (31 de Janeiro de 1923 - 10 de Novembro de 2007)

Depois de Kurt Vonnegut, a literatura americana volta a perder uma referência.

sábado, novembro 10, 2007

Há reis que parecem ases


Que Zapatero é um senhor nunca tive dúvidas. Que Hugo Chávez é um mal-criadão com a mania de que tem piada também. Já cansava ver Hugo Chávez a passear-se pela política internacional com o rei na barriga. Ainda bem que desta vez o rei lhe apareceu à frente.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Esclarecedor

A ler, no Abrupto, a carta que o director da agência de comunicação que acompanhou a campanha interna da Luís Filipe Menezes para a liderança do PSD escreveu a Pacheco Pereira.

O mais curioso a retirar da missiva é a naturalidade com que o autor admite ter trabalhado para a campanha independente de Carmona Rodrigues à Câmara de Lisboa, precisamente contra o PSD. Tendo em conta o efeito que a derrota do PSD em Lisboa provocou ao nível da liderança nacional do partido, não deixa de ser um colaboração particularmente esclarecedora...

IVA e preservativos

O grupo parlamentar do Partido Socialista Europeu vai apresentar uma proposta para reduzir a taxa de IVA dos preservativos, no contexto do próximo Dia Mundial de Luta contra a SIDA. Acesso à petição de apoio através deste site.

Missing the point

Os bispos portugueses vieram, a partir de Roma, exigir a participação nas comemorações do centenário da República, para assegurar que a interpretação dos acontecimentos seja correcta. Ou seja, quase 100 anos depois da separação do Estado das Confissões Religiosas, os prelados portugueses ainda não perceberam o seu significado...

Barões em luta

Helena Lopes da Costa, que na sua campanha interna para a liderança da distrital de Lisboa do PSD chegou a colocar um cartaz no Marquês de Pombal a prometer a reconquista da cidade, foi derrotada por Carlos Carreiras, vice-presidente da câmara de Cascais. Aparentemente, tudo no PSD é neste momento totalmente imprevisível...

Entretanto, na secção da Figueira da Foz, o anterior líder da concelhia não entrega as chaves ao seu sucessor, pelo que as reuniões dos novos órgãos têm sido realizadas em salas de hotel ou espaços de associações locais.

Há 18 anos, na Alemanha


Queda do muro de Berlim

Há 69 anos, na Alemanha


Começa a Kristallnacht (que duraria até à madrugada do dia 10), o maior pogrom ocorrido durante o regime nazi, em todo o território da Alemanha e Áustria.

Há 89 anos, na Alemanha


Proclamação da República, em Berlim, por Philipp Scheidemann.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Defender o menino (neste caso a menina)


Depois de demonstrar que preenche todos os requisitos para o cargo, Mourinho dificilmente nos continuará a convencer que não quer ser o próximo seleccionador nacional...

No more Mr. Nice Guy


Há uma velha máxima da política americana que diz que um republicano do Massachusets tem de ser mais liberal do que um democrata do Tennesse, e vice versa - quem diz do Massachusets diz de Nova Iorque ou da Califórnia, quem diz do Tennesse diz de qualquer outro estado do Sul, tradicionalmente conservador. Era mais ou menos isto que se passava com Mitt Romney e Rudy Giuliani.

A personagem Mitt Romney é especialmente intrigante. Um republicano ser eleito Governador do Massachusetts é coisa digna de nota (embora Nova Iorque e a Califórnia também tenham Governadores de sinal contrário ao sentido geral do voto no estado). Ser republicano e defensor do aborto - vá lá, não opositor, mas achando mal - cria ainda mais confusão, mas ajuda a explicar a antecedente. Mas se acrescentarmos que o homem é Mórmon, das duas uma: ou trata-se de uma personagem verdadeiramente folclórica, para não dizer habilidoso político que se posiciona nos temas da forma que lhe possa render mais votos; ou então há mesmo hipótese de existir um tal coisa a que se chamará "conservadorismo progressista", por oposição a um conservadorismo reacionário.

Rudy Giuliani podia confirmar a segunda hipótese: orgulha-se de um currículo brilhante no combate ao crime (orgulho para qualquer republicano), mas tem muitas posições progressistas: - é pro-choice e a favor do alargamento dos direitos dos casais homossexuais. Mas não. Vários sinais indicam o contrário. Ontem Rudy recebeu o apoio formal de Pat Robertson, um famoso "televangelista" conhecido por ser tudo menos, digamos assim, um tipo tolerante, para além de um dos maiores caciques religiosos do Partido Republicano. Por seu lado, a revista Time pergunta-se, na edição desta semana, porque é que Mitt Romney não faz da reforma do sistema de saúde no Massachusets uma bandeira eleitoral (porque falar em sistema de saúde público é pecado para um conservador, digo eu). E ontem, no Daily Show na SIC Radical, passou um clip sobre a forma como todos os candidatos republicanos aplicavam a si próprios, insistentemente, o adjectivo "conservador". À medida que a luta aquece, os candidatos vão disputando os pergaminhos do Grand Old Party.

Porque será isto assim? Por um lado, a velha máxima vale só ao nível estadual. Se Bill Clinton, do Arkansas, e Al Gore, do Tennessee, fossem democratas tipicamente sulistas não teriam ganho as eleições apoiados nessa base eleitoral.
Por outro lado, há o factor Hillary. Perguntado sobre os candidatos democratas, o conselheiro do Presidente Bush Dan Bartlett (ironia para qualquer fã de The West Wing...) disse que Barack Obama seria o candidato mais difícil de enfrentar para um candidato republicano na eleição nacional, porque os anti-corpos que Hillary Clinton suscita no eleitorado republicano provocaria uma mobilização extra do partido.
Em conclusão: se os republicanos em 2008 não estiverem alinhados com a base eleitoral do partido a nivel nacional, convencendo-os de que são um verdadeiro contraponto a Hillary Clinton, nem das primárias passam.
E das duas uma: a primeira.

Apropriado...

Não quero ser mauzinho, nem previsível, mas a canção belga por excelência do século XX não podia ser mais apropriada:
Jacques Brel - Ne me quitte pas

Blackadder on Belgium

Depois dos eventos de ontem (aqui, aqui ou aqui), a melhor discrição da situação é a de Edmund Blackadder, premonitoriamente proferida numa trincheira em território belga:

"Blackadder: [to Baldrick] This is a crisis. A large crisis. In fact, if you've got a moment, it's a twelve-storey crisis with a magnificent entrance hall, carpeting throughout, 24-hour porterage and an enormous sign on the roof, saying 'This Is a Large Crisis'."

Blackadder goes forth, Episódio 6

Derrotado de Outubro

Apesar do dia mais indicado para invocar Alexander Kerensky poder ser o da sua chegada ao Governo com a revolução de Fevereiro ou ao cargo de primeiro-ministro em Julho de 1918, merece hoje uma referência enquanto defensor da alternativa revolucionária distinta à do projecto de Lenine. Líder da oposição socialista ao czarismo, vice-presidente do soviete de Petrogrado, mas defensor da instauração de um regime democrático, de matriz social-democrata, e opositor quer dos bolcheviques, quer do Exército Branco durante a guerra civil, Kerensky e o seu possível legado foram tragados pela máquina da história. Manteve-se na órbita da relativamente irrelevante oposição democrática russa até falecer na década de 70.

O homem que tentou sem sucesso resistir à tomada do poder bolchevique e que pretendia uma via distinta para chegar ao socialismo, mas que não conseguiu ser o "Mário Soares russo". A tentativa merece hoje ser invocada.