FLORIDA, 2000SÃO CAETANO À LAPA, 2007

A Assembleia da República vinculou-se em 1994 (através da Lei n.º 20/94) a apreciar o relatório que lhe é apresentado anualmente pelo Governo quanto à participação de Portugal no processo de construção europeia, tendo a obrigação sido mantida pela nova legislação na matéria (a Lei n.º 43/2006).
Comecei a primeira parte deste post a exprimir o meu desagrado com a maneira como Israel e os EUA andam a fazer de conta que agora é que é, agora é que vamos andar para a frente, agora que Gaza se transformou no Hamastan, vamos transformar a Fatahlândia da Cisjordânia na nova Suiça do Médio Oriente e os palestinianos em Gaza vão ver isto, vão abandonar o Hamas e tornar-se uns defensores da solução de dois Estados.
José Couceiro, imediatamente após ter falhado o apuramento para os jogos olímpicos, considerou que o jogo dos italianos é “cínico” e aí residiriam as causas da derrota da selecção. Faz-me alguma confusão esta apreciação quase axiológica do adversários que adoptam uma legítima táctica de jogo, escolhendo a que mais se adapta às características da equipa e à tradição futebolística do país. Já quando a Bélgica conseguira empatar com a Holanda e ficar em segundo lugar, Couceiro fizera comentários que lançava patéticas suspeitas sobre o resultado. Malvados italianos e belgas que jogaram da forma mais conveniente para alcançar os propósitos deles. Há realmente gente muito egoísta…
Numa conferência sobre o sistema de justiça e a competitividade, o ex-ministro das Finanças Eduardo Catroga defendeu perigosamente, entre outras coisas, a possibilidade de os juízes receberem salários em função do cumprimento de objectivos.
Não partilho do optimismo de Israel e dos EUA em relação ao colapso do governo de unidade nacional palestiniano. São tristes as imagens que nos chegam dos Territórios Ocupados e não há nada mais dramático do que uma guerra civil: quanto mais o povo palestiniano está desunido, mais a paz é adiada.
Hoje, estava eu calmamente à espera de um táxi, quando me ocorreu: "é pá, os estrumfes têm boinas frígias na cabeça!" Propaganda republicana? Coincidência? Mau gosto para chapéus? O mistério adensa-se...
Um rato em decomposição no tribunal da Boa-Hora está a motivar exigências de condições sanitárias por parte dos magistrados e funcionários. Tendo em conta que perante o mesmo problema a solução apresentada há três anos foi recorrer a ratoeiras, cheira-me que antes de ir para obras a nova resposta vai passar por comprar um gato...
Salman Rushdie vai tornar-se cavaleiro do império Britânico. Prontamente o Irão veio condenar a condecoração como um acto de islamofobia e como parte de uma campanha internacionalmente orquestrada.
Depois da questão em torno do sistema eleitoral francês ter sido suscitada a propósito dos resultados de ontem, o Le Monde traz hoje simulações de resultados usando sistemas eleitorais distintos, que se podem encontrar aqui. Apesar de ser um exercício teórico interessante, há que ter algumas reservas na análise dos resultados - os dados que são inseridos nas várias alternativas resultam dos comportamentos dos eleitores no quadro de um determinado sistema eleitoral. 
Conforme tinha escrito no meu post sobre a segunda volta das legislativas francesas, os recentes actos eleitorais franceses colocam várias questões interessantes quanto à evolução do sistema político local.
A segunda questão é velha, mas não perdeu (antes adquiriu) particular actualidade: o sistema eleitoral para a Assembleia Nacional. O escrutínio maioritário a duas voltas representa um seguro de vida para os governos – é praticamente inconcebível a ausência de uma maioria para o partido (ou melhor dito, bloco de partidos) vencedor. Contudo, o facto do peso dos quase 8% de Bayrou e do seu Movimento Democrático quase não se fazer sentir na conversão de votos em mandatos podem reavivar o debate. À sua voz poder-se-á juntar um PCF receoso de conseguir continuar a eleger no quadro do sistema maioritário a duas voltas e para o qual o mecanismo da proporcionalidade poderia ser um conforto.
Até hoje, a única experiência da V República com a representação proporcional, nas eleições de 1986, até produziu uma maioria parlamentar (de um deputado apenas, é certo) para a UDF, RPR e outros partidos de direita, mas a memória não foi positiva e a nova maioria regressou ao sistema clássico. Aliás, datam desse acto eleitoral os únicos deputados eleitos pela Frente Nacional para o parlamento francês (35, tantos como os do PCF), o que também não deixa boas memórias – o sistema maioritário tem funcionado também como barragem à sua entrada na Assembleia Nacional.
O líder dos Verdes, Noel Mamère, anunciou a sua intenção de juntar os seus quatro deputados aos do PCF e de outros partidos de esquerda, para procurar chegar aos 20 deputados que dão direito a grupo parlamentar e aos direitos de iniciativa legislativa e acesso aos debates que lhe estão associados. Talvez a noite ainda tenha acabado por correr melhor aos comunistas franceses do que se esperaria.
Apesar do resultado final não ser surpreendente (maioria absoluta para a UMP), os números da vitória do partido de Sarkozy é que ficaram aquém das previsões. Usando o esquema dos tópicos, cá vai:
- O PSF consegue um resultado francamente melhor do que o esperado. Não só trava aquilo que parecia uma inevitável vaga de fundo da UMP, como ainda consegue melhorar o número de deputados que tinha na legislatura anterior (tinha 141 deputados na assembleia actual, deverá passar a ter 205). O resultado deve-se, aparentemente, a dois factores. Por um lado, à maior mobilização da esquerda do que da direita, que assumiu a folga da semana passada como um sinal de confiança na vitória. Por outro lado, a transferência de alguns votos do MoDem de Bayrou. Apesar de, na sequência do apelo de Ségolène, este se ter escusado a apoiar candidatos socialistas, acabou por haver transferência de votos. A este cenário acresce a notícia de que Ségolène e Hollande estão separados e que a candidata derrotada pretende disputar a lidernaça do PSF ao ex-companheiro. Apesar de ter de enfrentar os barões do partido, o resultado de hoje reforça os pergaminhos de Ségolène: foi ela que insistiu na aliança com o centro, foi ela que não baixou os braços e lutou pela mobilização para a segunda volta. Da minha parte, que nunca endeusei o seu novo estilo e que estive por vezes céptico do seu sucesso presidencial, revelou nestas legislativa a dignidade de quem foi derrotado e ainda assim se empenhou na luta seguinte.
- O PCF tem um balão de oxigénio com a eleição provável de 18 deputados, o que apesar de não lhe dar direito a grupo parlamentar permite uma sobrevivência digna e a manutenção de relevância parlamentar. É quarta formação, a seguir aos aliados centristas de Sarkozy. Talvez se safe de vender a sede e o recheio, conforme se comentava há uns dias...
- François Bayrou vê confirmar-se a quase insignificância parlamentar do seu novo partido, apesar da percentagem de votos (retomarei este problema num outro post). Acompanhado de mais 3 deputados, Bayrou terá uma díficil travessia do deserto, com pouco peso político, isolado da sua família tradicional, cujo grosso está com Sarko (22 deputados para o Novo Centro) e longe do PSF à sua esquerda (a não ser que uma vitória de Ségolène possa alterar os dados do problema e permitir um namoro ao centro). Contudo, é de registar o flirt da UMP, que desisitiu da sua candidatura na circunscrição de Bayrou e levou à sua eleição folgada com mais de 60%. Quem sabe se o reencontro não se faz à direita?
- Marine LePen, filha do líder da Frente Nacional, falhou a eleição numa circunscrição do Pas-de-Calais, confirmando a ausência do partido da Assembleia Nacional. Apesar disso, o resultado é deveras significativo, tendo a candidata da FN recolhido mais de 40% dos votos.
- Finalmente, mais um desaire para Allain Juppé, que não consegue ser eleito. O antigo primeiro-ministro, um dos poucos indefectíveis de Chirac no governo de François Fillon, no qual era ministro de Estado, do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (e n.º 2 do executivo) vem somar mais uma derrota ao seu catastrófico currículo político recente (derrota eleitoral nas legislativas de 97, condenação por corrupção com inibição de direitos políticos por um ano e incapacidade de tomar conta da UMP, travando Sarkozy). Fillon fizera saber que quem fosse derrotado nas legislativas não poderia continuar em funções, por falta de apoio popular expresso nas urnas. Apesar de ser embaraçoso perder o n.º 2 do executivo, algures no Eliseu cheira-me que deve haver um sorriso nos lábios de Sarkozy...




Marimarieke afirmou no Ladrões de Bicicletas que os sinonistas é que se devem estar a rir com a quase guerra civil na Palestina. Duvido que alguém em Israel se esteja a rir sobre a crise palestiniana. A estabilidade da Autoridade Palestiniana é um elemento essencial para que o processo de paz possa ser retomado, pelo que a reabertura das hostilidades representa um retrocesso para todos os que na região querem acabar com o conflito. 


Fui finalmente ver o fantástico A vida dos outros. Entre várias coisas que retive ficou a frase de Lenine sobre a Appassionata de Beethoven. Lenine terá dito numa entrevista a Gorky que se pudesse passaria o dia a ouvi-la, mas como isso, infelizmente, o levaria a querer afagar as cabeças dos seus semelhantes e a dizer-lhes coisas agradáveis ao invés de lhes incutir o socialismo pela força, teve de deixar de ouvir música. O realizador até já declarou que foi precisamente a ouvir a Appassionata que recordou a afirmação de Lenine e se decidiu a fazer o filme. Na linha do post anterior sobre o carácter pacífico do nosso luso cantinho, talvez não nos possamos queixar muito. Mas acho que fazia bem a todos ouvir mais vezes a Appassionata. Deixo o convite e ofereço uma versão: 
Segundo um estudo que definiu quais os países mais pacíficos do mundo, analisando dados internos e externos (crimes violentos, participação em conflitos, relação com os vizinhos), Portugal ficou com um 9.º lugar em 121 países analisados. No pódio ficaram Noruega, Nova Zelândia e Dinamarca e no fundo da lista Israel, Sudão e Iraque. Outras classificações relevantes foram as dos EUA em 96.º, da Itália e França em 33.º e 34.º, respectivamente, do Reino Unido em 49.º e da vizinha Espanha em 21.º
...ou colocar um cartaz publicitário gigantesco da Jaeger-LeCoultre num monumento histórico como o Arco da Rua Augusta é de um supremo mau gosto? Estava eu orgulhosamente a dar a costumeira visita guiada de Lisboa a familiares meus, quando um primo do Brasil, ao entrar na Praça do Comércio vindo da Rua do Arsenal, deu conta do colossal painel e exclamou "Olha só qui coisa maiss feia..." O que virá a seguir: o Marquês de Pombal com um boné da Nike? D. João I na Praça da Figueira com uma Carlsberg na mão?



Para quem procura relativizar o mais recente chavismo, invocando outros pergaminhos que este possa ostentar, tem que se dizer alto e a bom som que fechar uma cadeia de televisão privada invocando perigo para a sociedade não é justificável, contradiz todos os fundamentos de uma sociedade livre e democrática e é um sinal perigoso do que se avizinha. 