sexta-feira, junho 15, 2007

Business as usual


É possível que, por ter açambarcado uma colecção de arte para doar ao Estado, por ter aparecido num anúncio ao banco de que é accionista, por ter patrocinado os estudos do novo aeroporto em Alcochete sem ter interesses no terreno (pois...), e por ter sido sucessivamente apontado como candidato à presidência do Benfica para agora vir lançar uma OPA sobre o clube, Joe Berardo tenha como motivação principal insuflar o seu gigantesco ego, e que tudo se trate de uma extravagância de milionário. É possível mas não é provável.

Se formos a ver, o negócio da colecção de arte é um bom negócio para o Estado, mas é também um bom negócio para Berardo, que associa permanentemente o seu nome ao acervo e coloca-se a si e aos seus familiares como caucionadores de qualquer decisão sobre os destinos da fundação - não se tente, por isso, apresentá-lo como acto de desinteressada benevolência. O anúncio do Millenium dá-lhe uma posição confortável quando se trata de meter Jardim Gonçalves na ordem numa Assembleia Geral do banco, e permite-lhe ficar bem visto aos olhos do cidadão comum, que mistifica este tipo de personagens, ainda por cima quando é o primeiro a assumir-se publicamente como patrocinador do estudo da CIP.

Joe Berardo é um jogador que sabe interferir de forma a virar o mercado a seu favor. E ser dono do Benfica, isso sim, seria o auge. O Benfica, seguramente a marca mais conhecida de Portugal, não é só a paixão do povo. Enquanto clube tem um potencial para gerar receitas que nenhum outro clube de futebol tem, e que começa agora a despontar, passado que foi o tempo dos delírios megalómanos do final do século passado. O negócio do Benfica, como o de qualquer clube em Inglaterra ou de qualquer franchise desportivo nos EUA, é a capacidade de mexer com a paixão e o irracional de milhões. O modus operandi de Berardo passa por explorar o subjectivo e o irracional nos negócios. Não é por benfiquismo nem por simpatia que Berardo quer o Benfica: é porque Berardo sabe o que o Benfica vale e vai valer daqui a uns anos, e porque sabe o que ele pode fazer com o Benfica.

Coulter-bashing is fun

Depois de ler este post no 31 da Armada, lembrei-me deste segmento do Late Show:

quinta-feira, junho 14, 2007

Grandes frases do debate político


Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte, inquirida pelo DN sobre se o seu trabalho é político:


Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.

Duas eleições


Em Israel dois actos eleitorais com significado a breve trecho e que, para já, dão um balão de oxigénio a Ehud Olmert:

- O regresso de Ehud Barak à liderança do partido Trabalhista, que terá como consequência a ocupação da pasta da Defesa e o reforço da autoridade e do prestígio do executivo, ainda abalado pelo relatório sobre a guerra no Líbano.

- A eleição de Shimon Peres para a presidência do Estado de Israel, que poderá contribuir não só para apagar a memória dos dois últimos mandatos (saída de Weizman sob alegações de corrupção e suspensão de Katsav acusado de violação), mas também para um aumento da relevância diplomática da presidência.

Prémio Princípe das Astúrias das Artes 2007


I like to spend some time in Mozambique
The sunny sky is aqua blue
And all the couples dancing cheek to cheek.
It's very nice to stay a week or two.
There's lots of pretty girls in Mozambique
And plenty time for good romance
And everybody likes to stop and speak
To give the special one you seek a chance
Or maybe say hello with just a glance.
Lying next to her by the ocean
Reaching out and touching her hand,
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land.
And when it's time for leaving Mozambique,
To say goodbye to sand and sea,
You turn around to take a final peek
And you see why it's so unique to be
Among the lovely people living free
Upon the beach of sunny Mozambique.

Mozambique
Bob Dylan & Jacques Levy
1976

Tetra


Confesso que nunca sei bem por quem torcer nesta coisa das marchs - tenho raízes na Graça e Alfama, sou sócio do clube que organiza a marcha de Benfica e vou morar num bairro que não tem marcha. Mas tendo em conta que a vencedora está entre as minhas opções, cá ficam os parabéns à marcha de Alfama pelo quarto ano consecutivo de vitórias.

Afinal...

Segundo a Casa Branca afirmou ontem e, ao que parece, algumas imagens confirmaram hoje, parece que Bush de facto guardou o relógio no bolso durante o cumprimento aos populares albaneses que o saudavam. Assim sendo, salvada a honra da Albânia, a questão que fica no ar é a seguinte: se Bush guardou o relógio é porque estava receoso do gamanço, ou não? Muito diplomático e mostrando confiança no povo, sim senhor...

Missing the point

Marimarieke afirmou no Ladrões de Bicicletas que os sinonistas é que se devem estar a rir com a quase guerra civil na Palestina. Duvido que alguém em Israel se esteja a rir sobre a crise palestiniana. A estabilidade da Autoridade Palestiniana é um elemento essencial para que o processo de paz possa ser retomado, pelo que a reabertura das hostilidades representa um retrocesso para todos os que na região querem acabar com o conflito.
Claro que há loucos e fanáticos em ambos os campos da barricada que ficam satisfeitos sempre que alguém do outro lado encrava uma unha, entala o dedo numa porta ou decide encetar ataques fratricidas, mas daí a descobrir aí uma máxima universal parece-me despropositado. Para além disso, longe de ser um fenómeno estanque, a escalada de violência entre Hamas e Fatah pode facilmente radicalizar-se e procurar legitimação através de ataques a alvos israelitas, quer nos territórios ocupados da Cisjordânia, quer mesmo no território do Estad de Israel.
Continuar a demonizar os israelitas por regra, dando a tónica essencial num comentário sobre a crise palestiniana a uma putativa satisfação daqueles, é, para além disso, querer evitar discutir o problema. Continuar a adoptar uma visão maniqueísta, desprovida de densidade na análise de um conflito complexo em nada contribui para ajudar a resolver o conflito.

quarta-feira, junho 13, 2007

República e Terrorismo

Ainda em relação ao post anterior do cidadão Alves: adoro o alinhamento anacrónico do argumento anti-Aquilino com a retórica "anti-terrorista" pós-9/11. O que virá a seguir: Robespierre, o Bin Laden do século XVIII? A queda da Bastilha: o 11 de Setembro francês? Os luso-monárquicos sempre tiveram uma relação sui generis com a história, mas chamar 'terrorista' ao Aquilino... Então, meus amigos...

P.S: Qual é a opinião dos monárquicos portugas em relação à expulsão dos Tarquínios de Roma, o fim do jugo monárquico etrusco e o princípio da República romana no ano 509 antes da Era Cristã ? Deixem-me adivinhar: Lúcio Júnio Bruto, o Zarqawi do Lácio?

terça-feira, junho 12, 2007

Ímpar




Entretanto, na sequência do post anterior, fui consultar a petição online para impedir a trasladação de Aquilino. Espreitem as assinaturas - aquilo parece uma autêntica Câmara dos Pares!

Panteão Laico


Devido à programada trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional e à petição filo-monárquica que quer travar a iniciativa (a que o João já aludiu aqui), um post de João Miranda no Blasfémias perguntando se "ser a Assembleia da República a decidir quem deve ser sepultado numa igreja não viola o princípio da separação entre a Igreja e o Estado" alarga a discussão ao próprio conceito de Panteão.

De facto, há um entorse do princípio da separação, mas que não resulta da vontade do Estado utilizar o espaço de uma igreja para realizar cerimónias fúnebres, mas sim do facto de o Panteão Nacional não ter sido laicizado, à semelhança do que sucedeu, por exemplo, em França, quando o foi decidido que aquele seria o uso definitivo da antiga basílica de Santa Genoveva. No site do Centro dos Monumentos Nacionais francês, a evolução da utilização do edifício é descrita nos seguintes termos:

Laïcisé en 1791, il devint Panthéon national. Durant le 19e siècle, il reçut, au gré des régimes politiques, une affectation tantôt religieuse, tantôt patriotique. La Troisième République en fit un édifice consacré à la mémoire des hommes illustres à l’occasion des funérailles nationales de Victor Hugo qui y fut inhumé en 1885.

Conforme disse Rui Tavares num comentário ao post de João Miranda "o panteão nacional / igreja de santa engrácia foi iniciado num tempo em que o catolicismo era a religião única do reino e terminado com dinheiros públicos, já no fim da década de 1960. foi feito e pago pelo povo português, e não só pelos católicos. se há coisa que viola o princípio da separação é o facto de ainda ser uma igreja, mas se alguém propusesse que deixasse de o ser logo seria acusado de jacobinismo."

Não tenho medo do epíteto: PANTEÃO LAICO, JÁ!

Momento Mário Lino


Se isto não for dos momentos mais hilariantes do ano, eu já não sei nada: Sarkozy com os copos numa conferência de imprensa durante a cimeira dos G8. Aparentemente, Sarko tinha acabado de sair de uma reunião com Putin, que de certeza aguenta melhor o vodka do que ele.

Mais música

Fui finalmente ver o fantástico A vida dos outros. Entre várias coisas que retive ficou a frase de Lenine sobre a Appassionata de Beethoven. Lenine terá dito numa entrevista a Gorky que se pudesse passaria o dia a ouvi-la, mas como isso, infelizmente, o levaria a querer afagar as cabeças dos seus semelhantes e a dizer-lhes coisas agradáveis ao invés de lhes incutir o socialismo pela força, teve de deixar de ouvir música. O realizador até já declarou que foi precisamente a ouvir a Appassionata que recordou a afirmação de Lenine e se decidiu a fazer o filme. Na linha do post anterior sobre o carácter pacífico do nosso luso cantinho, talvez não nos possamos queixar muito. Mas acho que fazia bem a todos ouvir mais vezes a Appassionata. Deixo o convite e ofereço uma versão:




Ludwig van Beethoven, op. 57
Sonata "Appassionata", 1.º andamento

Areithi Cymraeg?*


Segundo notícias recentes, a cadeia de viagens Thomas Cook terá exigido que os seus funcionários apenas usem a língua inglesa nas conversas que mantenham entre si sobre assuntos relacionados com a actividade da empresa, impedindo a utilização do galês nestes contextos. Apesar da empresa ter vindo afirmar que nas suas conversas particulares ou mesmo no atendimento a clientes que queiram comunicar em galês este pode ser utilizado, a questão promete gerar controvérsia nos próximos tempos e vem abrir mais uma frente na discussão em curso sobre pluralismo linguístico no quadro da União Europeia. A questão pode abrir precedentes relevantes na medida em que não está em causa a garantia do uso da língua perante entes públicos (tutelada pela Carta Europeia de Línguas Minoritárias, da qual o Reino Unido é parte) mas sim no quadro de relações jurídico-privadas.



* Fala galês?

Isto afinal até é um sítio calminho...

Segundo um estudo que definiu quais os países mais pacíficos do mundo, analisando dados internos e externos (crimes violentos, participação em conflitos, relação com os vizinhos), Portugal ficou com um 9.º lugar em 121 países analisados. No pódio ficaram Noruega, Nova Zelândia e Dinamarca e no fundo da lista Israel, Sudão e Iraque. Outras classificações relevantes foram as dos EUA em 96.º, da Itália e França em 33.º e 34.º, respectivamente, do Reino Unido em 49.º e da vizinha Espanha em 21.º

segunda-feira, junho 11, 2007

É de mim...

...ou colocar um cartaz publicitário gigantesco da Jaeger-LeCoultre num monumento histórico como o Arco da Rua Augusta é de um supremo mau gosto? Estava eu orgulhosamente a dar a costumeira visita guiada de Lisboa a familiares meus, quando um primo do Brasil, ao entrar na Praça do Comércio vindo da Rua do Arsenal, deu conta do colossal painel e exclamou "Olha só qui coisa maiss feia..." O que virá a seguir: o Marquês de Pombal com um boné da Nike? D. João I na Praça da Figueira com uma Carlsberg na mão?
É que derivados da questão daquela coisa da falta de dignidade...

domingo, junho 10, 2007

França: 1.ª volta das legislativas


Notas a quente e a correr:

- Os elevados números da abstenção, reveladores de uma possível desmotivação do eleitorado PSF e do menor interesse do acto eleitoral para a Assembleia Nacional - o tira-teimas tendo sido em Maio, agora tratar-se-ia de formalizar a maioria do vencedor. Depois da ampla participação em Abril e Maio, a participação ficou-se num mínimo histórico de 60%. Para alguns é a aceitação da nova lógica dos mandatos quinquenais do Presidente, coordenados com os das maiorias parlamentares, evitando coabitações e eleições a meio do ciclo.

- A pulverização do Movimento Democrático de François Bayrou. De acordo com as projecções conhecidas, apesar de mais votos deverá ter um resultado em lugares pior do que os candidatos da UDF que se juntaram à UMP, seguindo a lógica eleitoral tradicional.

- A confirmação do lento (e irreversível?) declínio do PCF.

- Uma melhoria do score do PSF em relação ao de Ségolène na primeira volta das presidenciais (25%). Veremos como corre a segunda volta, mas, para já, não se consegue ultrapassar a barreira psicológica dos 30%;

- Pouca incidência de triangulares na segunda volta, i.e., poucos círculos com mais de dois candidatos que obtêm mais de 12,5% dos votos e que acedem ao segundo escrutínio, o que tenderá a reforçar a bipolarização.

Reflexão dominical

Há a Igreja como sistema administrativo da fé, em que a troca de favores e influências rege a relação do crente com Deus. E há a outra Igreja, esta.

sábado, junho 09, 2007

Duzentos anos


Acabei hoje de ler um clássico da historiografia portuguesa, "Os Devoristas", de Vasco Pulido Valente. Trata-se de um livro essencial sobre o período entre o triunfo liberal (1834) e a revolução de Setembro (1836) que eu há muito perseguia e que a Feira do Livro deste ano me trouxe em nova edição para a cabeceira. Nem de propósito, acabo de ler este post do Daniel Oliveira no Arrastão e sinto que tenho de transcrever um excerto do prefácio à 2.ª edição (esta) da obra. Trata-se da única parte do ensaio em que o historiador abandona o palco e deixa uma série de considerações ideológicas, na linha do que é detectado por Daniel de Oliveira e a que Vasco Pulido Valente nos tem habituado no Público dos últimos tempos:

"Na história portuguesa o "liberalismo" não foi uma ruptura, foi um prolongamento. Pior ainda: foi um prolongamento que aumentou a centralização e a omnipotência do Estado e enfraqueceu as raras instituições independentes ou semi-independentes dele (a Igreja e a Universidade). Dali em diante, como se sabe, esse processo não parou. A República, a Ditadura e a democracia "europeia" de hoje aumentaram, não diminuiram, o peso do Estado sobre a sociedade. Com uma diferença. Em 1834, a esmagadora maioria da população vivia da agricultura, o que lhe dava por natureza uma certa autonomia. A presença do Estado era sentida nas cidades e em algumas vilas particularmente importantes. Excepto pelo imposto, pelo recrutamento militar e, de longe em longe, pela justiça, não era sentida no país rural. Quando o grosso da população se transferiu para a "indústria" e os "serviços", mesmo essa forma acidental de liberdade acabou."

quarta-feira, junho 06, 2007

Costa do Castelo


Apesar de ainda não ter postado, deixo aqui o plug do Costa do Castelo, blog de apoio à candidatura à CML de António Costa. Para além do comentário, encontrarão ainda links para os sites dos candidatos que já os têm, para os blogs de apoio a candidatos e para diversos blogs sobre a bela cidade de Lisboa (os visitantes que não alfacinhas que perdoem estes excessos dos filhos da terra...).

Enjoy.

Bolívar + Allende ≠ Chavéz

Para quem procura relativizar o mais recente chavismo, invocando outros pergaminhos que este possa ostentar, tem que se dizer alto e a bom som que fechar uma cadeia de televisão privada invocando perigo para a sociedade não é justificável, contradiz todos os fundamentos de uma sociedade livre e democrática e é um sinal perigoso do que se avizinha.
Nem Allende que procurou a via eleitoral para o socialismo, nem Bolívar que procurou a autodeterminação e liberdade para o seu continente se reveriam nesta via autoritária.

Se calhar catequese no ensino superior era mais indicado

Lá estou eu a voltar ao mesmo, mas o senhor João César das Neves é que insiste em dar assunto. Na crónica desta semana (que não versava a perdição moral do Ocidente, para variar), JCN queixa-se da "incompreensível diversidade da Universidade" e vitupera contra a existência de doutoramentos em Estudos sobre as Mulheres. Que raio de tema é este? Se até há quem tenha dúvidas sem têm alma...

Solidariedade com Tinky Winky


Postei há uns dias que agora Tinky Winky podia dormir descansado, uma vez que o seu único inimigo declarado, Jerry Fallwell, já não podia continuar a persegui-lo. Eis que, da cada vez mais medieva Polónia, surge novo opositor, Ewa Sowinska, responsável governamental pelo bem.estar das crianças, que prometia uma investigação profunda ao personagem para aferir se esta "promoveria a homossexualidade". Dois dias depos, perante um relatório que reputou credível, Sowinska ficou convencida de que Tinky Winky não promovia comportamentos desviantes e abandonou a polémica. Volta a estar na altura de alguém promover comportamentos desviantes como a inclusão ou o respeito pelos direitos de terceiros lá para os lados de Varsóvia.
Tinky vai em frente, tens aqui a tua gente.

??!!

(...)
"Na véspera deste incidente, realizou-se na Casa do Alentejo uma sessão pública de intervenção, promovida pelo MPPM em que marcaram presença José Saramago e Abdullah Abdullah, Presidente da Comissão Política do Parlamento palestiniano. Se, no uso da palavra, o dirigente o palestiniano aproveitou para apelar à próxima presidência portuguesa da União Europeia que coloque "no topo da agenda o levantamento do embargo e das sanções ao Governo palestiniano", já o Nobel da Literatura reafirmou as posições que, há tempos, tanta polémica provocou em Israel: "Enquanto houver um palestiniano vivo, o Holocausto continuará", disse. "O que os israelitas sofreram em Auschwitz não os absolve nem lhes confere impunidade. São iguais aos carrascos dos nazis de que foram vítimas". "

Uma frase destas na Alemanha, no Reino Unido, em França, em Espanha causava aceso debate e condenação geral. Em Portugal - bocejos. Privilégios da periferia.

segunda-feira, junho 04, 2007

A Guerra dos Seis Dias 40 anos depois


(Simpático cartoon de 1967 - antes da Guerra dos Seis Dias - mostrando o Presidente do Egipto, Gamal Abdel Nasser, delicadamente indicando a um cidadão israelita o caminho para o mar; atrás do amável Nasser, a Síria, o Líbano e o Iraque - sempre prestáveis - preparam-se para ajudar no que for preciso)

Faz amanhã 40 anos que Israel deu o primeiro tiro da Guerra dos Seis Dias. Uma guerra de legítima defesa cuja legitimidade poucos questionam hoje em dia.
Expulsão da força de interposição das Nações Unidas (UNEF) do Sinai a 19 de Maio e imediata remilitarização da península pelo exército egípcio; bloqueio do estreito que dá acesso ao Golfo de Aqaba a 22 de Maio e consequente exclusão da navegação de/para Israel; assinatura de um pacto militar entre o reino da Jordânia e o Egipto a 30 de Maio, e colocação do exército jordano sob comando de um general egípcio (a Jordânia formava assim o terceiro vértice de um pacto tripartido entre Jordânia/Egipto/Síria); aumento significativo da retórica ameaçadora, especialmente da parte do Presidente egípico Nasser, líder de um movimento pan-árabe no seu zénite: se acrescentarmos isto tudo à evidente vulnerabilidade estratégica de Israel - sem obstáculos naturais que o protegessem dos seus vizinhos - rapidamente concluímos que o ataque israelita era inevitável.

O pior foi depois. Se é verdade que nenhum dos vizinhos de Israel estava disposto a fazer a paz depois desta derrota humilhante, o mais tardar depois de assinar a paz com o Egipto em 1979 (nesse mesmo ano, o Egipto de Sadat foi expulso da Liga Árabe durante 10 anos por ter assinado a paz com Israel...), Israel devia ter embarcado numa tentativa séria de normalização diplomática com os seus vizinhos - nomeadamente com a Jordânia - no sentido de pôr fim à ocupação dos Golã, da Cisjordânia e de Gaza. Jerusalém-Leste será sempre complicado... Lendo a biografia de Moshe Dayan (Chefe do Estado Maior das Forças Armadas israelitas durante a guerra do Suez e Ministro da Defesa durante as guerras dos Seis Dias e de Yom Kippur), publicada em 1978, facilmente se detecta as contradições da posição israelita pós-1967: por um lado, reconhecimento da situação de "ocupação" dos territórios palestinianos, por outro, paternalismo em relação aos palestinianos e a satisfação de dar a Israel mais terra e fronteiras mais defensáveis. E o resto da história nós conhecemos. Em vez de se ver livre dos Territórios Ocupados de uma posição de força antes das duas Intifadas, Israel vai ser forçado a fazer concessões num estado de exaustão, isolamento, e desunião interna sem precedentes. A Ocupação e os colonatos são um cancro. É preciso acabar com ambos. Já.

Para os néscios que acham que acabando a ocupação dos Territórios, árabes e israelitas vão ser felizes e vai haver paz no mundo (sim, porque tudo, desde as aspirações atómicas do Irão, até à ditadura na Síria são por vezes apresentados como produtos da ocupação israelita), uma pequena nota de rodapé: nos 18 meses antes da Guerra dos Seis Dias de 1967 que iniciou a tal ocupação, grupos palestinianos, liderados por um tal Yasser Arafat, e atacando a partir de bases na Síria e na Jordânia, levaram a cabo cerca de 120 operações de "sabotagem", a vasta maioria destas contra civis israelitas. Antes de '67. Antes da ocupação dos Territórios por parte de Israel. Claro que podemos discutir a legitimidade da "resistência" palestiniana mesmo contra o Estado de Israel nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, as do armistício de 1949. Podemos discutir muita coisa. Só estou a tentar demonstrar que a ocupação de '67 não foi nem o ponto de partida da instabilidade na região, nem a origem de todas as injustiças; e que o fim da ocupação israelita não vai transformar a região numa Escandinávia com ruínas antigas e sol.

sexta-feira, junho 01, 2007

Isto está bonito, está

Estão todos convocados.

Afinal era isso

Eu bem me parecia que a confusão d'O Insurgente era uma questão de línguística.

Até na greve o governo tem sorte

No dia da greve geral, duas empresas portuguesas facturam em conjunto 55 milhões. Efeito da greve na produtividade geral do país: zero (ou lá perto).

quinta-feira, maio 31, 2007

By the way...

Antes que me esqueça. Acusaram aqui este blog de ser culpado de "lealdade orgânica" ao governo, porque não nos pronunciámos contra a boçalidade gritante do Ministro Mário Lino e o rasgo de autoritarismo irresponsável e excesso de zelo daquela cidadã que suspendeu não sei quem por dizer que a mãe do PM não sei quê. Aqui vai:

Acho mal as afirmações do Ministro Mário Lino depois do almoço. Por acaso vi-as e achei genuinamente bizarras. Especialmente a analogia de mau gosto entre a OTA e o corpo humano, que achei digna de escola primária. E acho que ninguém devia ser suspenso e/ou despedido por pôr em causa as opções de carreira da mãe de seja quem for, incluíndo do PM - mesmo se este pertencer ao Partido Socialista.

Finalmente, gostava que ficasse aqui registado que às vezes até discordo do PS e tal. Muitas vezes até nem me levanto quando cantamos a Internacional lá em casa e uma vez a minha mãe apanhou-me a conversar com um amigo que não era filiado no PS. E mais (agora é que vou perder a cabeça): aquela história do curso do PM cheira-me a marosca. Pronto.

Podemos voltar ao que interessa?

Acho que falo em nome de todos os membros deste blog ao dizer que só dedicamos a nossa "lealdade orgânica" à Razão, à República e àquilo que se chama no estrangeiro "the liberal-progressive agenda". Lá está o chato do liberalismo.

Agora eu, agora eu...

O post em questão parece andar ali à volta de muita coisa, para chegar não se percebe bem a quê. O que irrita verdadeiramente Filipe Melo Sousa?
O Estado promove o progresso e isso implica «a imposição aos demais de uma elite dirigente “iluminada”, que ensine à população leiga aquilo que se deve moralmente entender por progresso»? Mas então o que é a legitimidade democrática para governar decorrente do sufrágio de um programa de governo em eleições democráticas?
«O próprio conceito de progresso é algo com significado diferente para diferentes pessoas». Obrigadinho, não estava sensibilizado para o facto.
«Quem se considere liberal não vai de certeza consentir num estado que dê lições de moral». Concordo. Aliás, a candura da afirmação não podia suscitar-me outra opinião, e a Boina é um blog laico. Mas promover a não-discriminação e a liberdade de professar uma opção de vida, é moralismo?
O cartaz é da JS, não do Estado, e invocar a relação de sucessivos financiamentos que vêm do Estado para o PS e daí para a JS parece-me tão rebuscado como pedir de volta o dinheiro dos impostos com os quais o Estado subsidia a construção de pavilhões desportivos onde se praticam desportos de que não gosto.
Tornou-se moda rebaixar qualquer coisa qualificando-a de "politicamente correcto". Ou seja, tornou-se politicamente correcto atacar o politicamente correcto. E um pouco de argumentação, não?
Há quem aos 15 anos se considere anarquista. Não que se tenha presente qualquer noção de propriedade ou de poder do Estado que urja eliminar, mas porque aos 15 anos sente-se a necessidade de afirmar a nossa individualidade contra qualquer imposição externa vinda de qualquer poder, institucional ou familiar, e a chamarmos a isso qualquer coisa, chamamos anarquia. Depois crescemos, apanhamos umas patacoadas do ar e somos liberais. Ou seja, basicamente, "eu sou liberal porque gosto da liberdade e acho que o Estado não me deve dizer o que fazer, nem, já agora, insultar-me ao dar cabimento à expressão de modos de vida com os quais não me identifico nem quero ter nada a ver, eles que paguem para isso, e também se devia acabar com essa coisa de eleições que custa balúrdios e não leva a lado nenhum".

Fracturantes são vocês, liberal sou eu...

Este 'liberal' e este não gostam de lições de liberalismo. Eu só me pergunto isto: os nossos 'liberais' seguem os debates entre liberais fora de Portugal? Observam atentamente o progresso, sim, o progresso, ético, social e legislativo a que se tem assistido em países com tradições liberais infinitamente mais enraizadas do que em Portugal, como o Reino Unido? Ou acham que lá porque usam à exaustão a etiqueta vazia do "totalitarismo do politicamente correcto" para insultar aqueles que não partilham da sua fobia do Estado e da legislação, se podem agora arvorar em campeões do 'individuo'... É que os liberais que leio (no Economist, por exemplo) e oiço (no Parlameno Europeu) já nem tratam temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, como "fracturantes". Entre liberais esse debate acabou.

It's all about perspective. Eu acho que a descriminação na legislação é que é fracturante. Enfim... Sabem quem é que inventou o 'politicamente correcto'? Foram os americanos, esse perigosos totalitaristas. Liberais...

Aditamento: Esqueci-me de dizer uma coisa. A minha 'identidade política' no Facebook é 'very liberal'. Se este cidadão, ou mesmo este, se inscrevessem no Facebook (deviam, que aquilo é giro, mesmo melhor do que ter amigos verdadeiros), eu gostava de ver em que categoria se inseriam. Tinha que se inventar uma nova, tipo: "thinks-the-State-sucks-and-believes-it-should-get-out-of-people's-lives-except-when-people's-
-lives-include-decisions-on-their-reproductive-system-and-on-who-they-should-get-married-to"

O liberalismo soft e a propaganda reaccionária

Partindo deste post de Filipe Melo Sousa, indicado via Insurgente, desencadeou-se uma troca de impressões em posts e comentários que podem acompanhar aqui, aqui, aqui, aqui e aqui e que me parece reveladora da grande desorientação ideológica de algum auto-proclamado liberalismo, muito em voga nalgumas áreas da blogosfera.

A dada altura escrevi num comentário que "o cartaz em causa promove o respeito pela diversidade, a não discriminação e o combate à homofobia, valores acolhidos pela sociedade democrática como fundamentais - seja na Constituição, na Declaração Universal dos Direitos do Homem ou na Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Um cartaz de um partido que promovesse uma mensagem racista ou homofóbica, para além de violar a lei penal, negaria os valores de inclusão e de respeito pela igualdade que caracterizam a democracia. Eis a relevância dos quadros axiológicos das ordens jurídicas democráticas - permitem distinguir o lícito do ilícito."



Volto a tentar colocar a tónica no que está em causa: campanhas de combate à discriminação e protecção de direitos fundamentais. Mas penso que é uma tentativa inglória - André Azevedo Alves e Filipe Melo Sousa recusam aceitar como premissas da discussão elementos que eu considero pressupostos da sociedade democrática e do consenso axiológico que a estrutura: existem valores fundamentais, cuja protecção e promoção cumpre ao Estado assegurar. Que tais ideias causem arrepios a alguns cidadãos e cidadãs, é uma questão de convicções. Convicções essas, aliás, que República respeita (daí que aludir a thought-crimes seja despropositado e falacioso) e defende através dos tais mecanismos totalitários kim-il-sunguistas que vos fazem confusão.

Contudo, diria ainda que aquilo que é descrito como um desolador pântano de politicamente correcto, assolando as sociedades ocidentais, não é na verdade contraditório com o ideário liberal. Releiam (ou leiam...) John Stuart Mill e provavelmente ficarão surpreendidos em encontrar a afirmação de que existem limites às liberdades individuais e que o poder pode ser exercido contra a vontade dos próprios quando estes invadem a esfera de terceiros. Mais surpreendidos ficarão ainda se forem ler o que este perigoso progressista escreveu sobre a emancipação das mulheres em On the Subjection of Women. Pois é, Stuart Mill é mesmo apontado como o fundador do feminismo científico, outra das muitas manifestações do totalitarismo do politicamente correcto na linha dos meus interlocutores.

Aqui ficam uns cheirinhos:

"That principle is, that the sole end for which mankind are warranted, individually or collectively in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection. That the only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilized community, against his will, is to prevent harm to others.
[...]

The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign."

— John Stuart Mill,
On Liberty

"The moral regeneration of mankind will only really commence, when the most fundamental of the social relations is placed under the rule of equal justice, and when human beings learn to cultivate their strongest sympathy with an equal in nights and in cultivation."

— John Stuart Mill,
On the Subjection of Women

quarta-feira, maio 30, 2007

Alto Minho em rede

Um abraço ao Germano e as boas vindas aos links da Bóina.

Lágrimas de crocodilo

Cá está a direita CDSiana a verter lágrimas de crocodilo pela ausência de liberalismo alheio. Coitados, estes inimigos figadais da IVG, ferozes opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, cépticos do 25 de Abril e adeptos de todo o tipo de 'valores cristãos' conservadores querem convencer-nos de que são liberais. São tão liberais como eu sou Prémio Nobel da Paz.

Não há nada pior do que o liberalismo Thatcheriano, amputado que é dos elementos emancipatórios do liberalismo - selvagem economicamente, reaccionário nos valores. Para isso prefiro os miguelistas. Sempre é gente com piada.

Pequenos detalhes

Sobre este cartaz. Retirado do Small Brother, via Insurgente:
Com o devido respeito, Filipe Melo Sousa não percebeu quase nada do que está em causa.
Em primeiro lugar, a luta contra a discriminação não visa obrigar ninguém a relacionar-se com quem não quer. Visa sim impedir o tratamento diferenciado de cidadãos e cidadãs portadores dos mesmos direitos e dotados da mesma igualdade perante a lei.
Em segundo lugar, o cenário não é catastrófico aos olhos de Filipe Melo Sousa porque Filipe Melo Sousa não vive na pele a discriminação provocada pelo facto de se ter um orientação sexual específica e porque não se terá informado do que significa viver na sociedade portuguesa assumindo abertamente a sua sexualidade.
Em terceiro lugar, o cartaz em causa, apesar de financiado indirectamente por fundos públicos (o financiamento dos partidos é parcialmente público, decorrendo o financiamento da Juventude Socialista dos fundos que lhe são alocados pelo Partido Socialista), não se insere numa campanha de uma instituição pública, mas sim a defesa de um programa político (no caso, o da Juventude Socialista, sufragado democraticamente em Congresso realizado em Julho do ano passado). Contudo, isto não significa que as instituições públicas não tenham precisamente o dever de promover a não discriminação e assegurar o respeito por todos e todas. Ou será que Filipe Melo Sousa também discorda de inicativas como a campanha Todos Diferentes, Todos Iguais?
Em quarto lugar, o contrato social que nos rege, a Constituição da República, é o local onde vamos retirar os valores fundamentais da nossa comunidade política. Caso Filipe Melo Sousa o desconheça, desde 2004 que o artigo 13.º da dita Constituição assinala expressamente a proibição da discriminação em função da orientação sexual.
Em quinto lugar, a pobre da "população leiga" já terá experimentado outras imposições de concepções de progresso "iluminadas" como o sufrágio universal, a recusa do racismo e da xenofobia, a proibição da discriminação das mulheres, entre outras. Que me recorde, acolheu-as no seu código de valores e não se sentiu violentada.
Finalmente, já que são tantas as referências ao liberalismo como padrão de actuação, recomendo dois exemplos de leituras alternativas do conceito: o manifesto dos Liberal Democrats britânicos para a comunidade LGBT e parte do site do Aliança dos Democratas e Liberais para a Europa, relativa a esta matéria. Afinal, parece que liberalismo e promoção da não discriminação e dos direitos das pessoas LGBT não são incompatíveis.

De mal a pior

Muitas foram já vozes que criticaram o absurdo da fundamentação do acórdão do STJ que reduziu a pena de um condenado por abuso sexual de menores com fundamento na idade do menor, implicitamente afirmando a menor censurabilidade se o crime for praticado contra um menor de 13 anos. Aliás, pedopsiquiatras, pedopsicólogos e sexólogos (veja-se, a título de exemplo, Júlio Machado Vaz, no Murcon) já vieram afirmar o total disparate científico da asserção do acórdão, confirmando o que já se suspeitava - a decisão partiu das concepções originais dos ilustres conselheiros e não de qualquer estudo ou facto fornecido por peritos.

Agora, vem o juiz relator defender a decisão e dizer mais ainda:


Ou seja, para além da falta de sustentação científica da decisão no que respeita ao impacto dos abusos sexuais em função da idade, juridicamente a decisão é também um pavor. A ter assentado em parte naquilo que resulta desta declaração, o acórdão do Supremo parte de uma reavaliação da matéria de facto, ultrapassando os limites da sua decisão que se tem de cingir ao conhecimento da matéria de direito. Ao sustentar a "colaboração" do menor, o Supremo afasta a conclusão de que este agira motivado por medo, matéria em relação à qual não se podia pronunciar.

Poderia restar (pouco) conforto na ideia que, apesar de motivados pelos disparates, preconceitos e ideias originais que têm na cabeça, os magistrados no STJ os compensassem com elevado mérito jurídico nas suas decisões. Parece que assim não é...

Small is beautiful

O novo líder da JP promete. Primeira medida que reivindica: revogar (sim, sim, revogar) a Constituição. E aprovar uma coisa mais pequena em seu lugar, com a qual todos se identifiquem. Sabem, é que ler 296 artigos é trabalhoso, porque são muitas as palavaras e não tem bonecos.

Actualização II

O resultado final, que dita o fim de 18 meses de Peretz na liderança do partido trabalhista (ficou com 22%), acabou por colocar Ehud Barak na dianteira para a segudna volta com 35%, ficando Ayalon na casa dos 33%. Dia 12 de Junho voltamos para mais.

Os verdadeiros opressores


O dia da greve deu em parte o resultado que se esperaria: guerra de números entre governo e sindicatos quanto às adesões. Também deixa algumas preocupações suscitadas pela CGTP que, a serem verdadeiras, representam uma necessidade de estar alerta quanto à garantia do direito fundamental à greve: intervenções da GNR para impedir piquetes, recolha do nome dos grevistas apesar da posição em contrário assumida ontem pela CNPD.

Contudo, no contexto do dia de greve, destaca-se uma análise em particular. Pelo meio de um chorrilho de disparates, João Miranda no Blasfémias descobriu que os sindicatos são os verdadeiros opressores da classe operária, não passando de um grupo de privilegiados corporativos a defender os seus apenas.
Segundo a sua argumentação, os funcionários públicos e das empresas públicas parecem ser os únicos que estão sindicalizados. De facto, ao criticar os sindicatos por todos os males do país, a argumentação que dispende assenta na sua identificação com os sindicatos da função pública.
Depois, parece que estes funcionários públicos malandros são receptores líquidos dos impostos, ao passo que os demais trabalhadores (construção civil, cafés e restaurantes e empregadas de limpeza) são os pagadores líquidos desses impostos. Aparentemente, não são os funcionários públicos aqueles cujo rendimento até já vem pré-preenchido na declaração electrónica de IRS e em relação aos quais a fuga ao fisco é mais difícil. E aparentemente os funcionários públicos também só servem para receber dinheiro dos contribuintes, sem mais. Eu tinha a ideia, absurda por certo, de que prestavam serviços à colectividade e em função disso eram remunerados (não de forma muito espectacular, até consta). Enfim...
A conclusão final é a de que, sendo os trabalhadores da construção civil, dos restaurante e cafés que menos fazem greve, apesar de serem os mais desfavorecidos, a greve geral não é convocada para os defender, antes serve a finalidade do sindicalismo que é a exploração destes trabalhadores. Este raciocínio quer convencer-nos que a culpa da não adesão à greve destes trabalhadores é dos sindicatos. Não decorre nem das condições mais precárias e da pressão patronal que estes trabalhadores enfrentam e que dificultam o exercício do direito à greve, nem resulta do facto de serem áreas em que muitas vezes não há adequada formalização dos contratos de trabalho.
Não contesto que os sindicatos não sejam organizações perfeitas, que a sua estratégia de defesa dos direitos dos trabalhadores nem sempre é a mais acertada e que não cedam à pressão dos grupos que defendem ou de organizações partidárias às quais possam estar mais ligados. Nem sequer concordo com a esmagadora maioria dos fundamentos para a convocação da greve de hoje e, sendo um dos malvados funcionários do Estado, não fiz greve. Partir daí para distorcer a natureza do movimento sindical e o seu papel incontornável na defesa dos trabalhadores, questionando subrepticiamente o recurso ao direito fundamental à greve, só mesmo na argumentação retorcida e simplista como a que se transcreveu.

Com afirmações com as que se seguem, o Prof. César das Neves que se ponha a pau porque já há quem, escrevendo no DN, esteja a tentar competir com o rei do disparate: "Esta é mais uma das características do sindicalismo. Cria grupos de privilégios que graças a um poder negocial acima da média conseguem viver à custa dos excluidos."




PS: Pelo meio adiciona-se mais uma declaração assertiva e que fica por demonstrar: os sindicatos nunca defendem os desempregados. E isto e isto, por exemplo, são o quê? Bastava googlar ou ir directamente ao site da CGPT e da UGT para ficar a saber. Já agora, até bastava olhar para o cartaz que convoca a greve de hoje para perceber que não é assim...

As lições da história

Lembro-me de estar sentado na Real Fábrica no Largo do Rato a conversar sobre o Iraque, o 11 de Setembro, a legitimidade da tortura etc com o cidadão Delgado Alves e alguns convidados dos EUA e do Reino Unido. Corria o longínquo ano de 2002. É interessante olhar para atrás e lembrar a fúria de alguns em alterar completamente os paradigmas legais e morais que nos têm guiado há 60 anos. Porquê? Por causa do 11 de Setembro.

Em 2002, zénite do reino intelectual neo-conservador e da 'guerra contra o terrorismo' (expressão entretanto oficialmente abandonada pelo Pentágono), alguns dos nossos convidados estavam preparados para invadir o Iraque com ou sem "segunda resolução"; achavam que as Convenções de Genebra eram na melhor das hipóteses uma relíquia do passado, mas mais provavelmente um perigoso obstáculo no caminho da luta eficaz contra o Mal; e, em geral, não conseguiam pronunciar as palavras Nações Unidas sem um esgar de desprezo: em todas as questões que os preocupavam - as armas de destruição maciça iraquianas apontadas às capitais do mundo livre e a necessidade de evitar mais ataques terroristas - as Nações Unidas não passavam de um 'talking shop' inútil e anacrónico, uma força de bloqueio nas mãos de países (França e Rússia, sobretudo) que sacrificavam os imperativos da luta contra o Mal (Iraque, terrorismo, tudo misturado...) em nome da mesquinhez do anti-americanismo e dos negócios do esquema oil-for-food. Era simples: os EUA e o Reino Unido estavam preparados a defender o mundo livre; Paris e Moscovo queriam defender os seus próprios interesses e a sua própria carteira. Ergo, quem quer que não alinhasse com as posições de Londres e Washington nos debate sobre Guantanamo e Iraque ... era acusado de ser porta-voz do Kremlin e do Eliseu...

Agora tudo mudou, e os apologistas da necessidade de desmontar a arquitectura legal e institucional globais estão ou mudos ou na defensiva. É bom ter razão. É bom ver recompensada pelos factos a decisão, nos anos difíceis de 2002/3/4, de não se deixar arrastar pelo ódio, pelo medo e pelo discurso do "este perigo é mais perigoso do que os outros perigos e justifica ignorar tudo o que a história nos ensinou."

Escrevo isto por causa deste artigo do New York Times. São artigos como estes que me levam a perdoar o NYT por não ter resistido à tentação, em 2002/3, de repetir a linha oficial da Casa Branca sobre as iminentes armas de destruição maciça iraquianas. Entretanto, o NYT desculpou-se e fez um tremendo mea culpa. Artigos como este demonstram que este jornal voltou a ser, senão o melhor do mundo, então o segundo melhor logo a seguir ao Público.
Uma passagenzinha para dar uma ideia:

"But some of the experts involved in the interrogation review, called “Educing Information,” say that during World War II, German and Japanese prisoners were effectively questioned without coercion.
“It far outclassed what we’ve done,” said Steven M. Kleinman, a former Air Force interrogator and trainer, who has studied the World War II program of interrogating Germans. The questioners at Fort Hunt, Va., “had graduate degrees in law and philosophy, spoke the language flawlessly,” and prepared for four to six hours for each hour of questioning, said Mr. Kleinman, who wrote two chapters for the December report.
Mr. Kleinman, who worked as an interrogator in Iraq in 2003, called the post-Sept. 11 efforts “amateurish” by comparison to the World War II program, with inexperienced interrogators who worked through interpreters and had little familiarity with the prisoners’ culture. "


terça-feira, maio 29, 2007

Um favorito pessoal



Dave Brubeck Quartet - Take Five

Actualização

Com 73% dos votos contados, Peretz continua em terceiro, mas a margem entre Barak e Ayalon diminui, mantendo-se este último à frente por apenas uma décima com 33,8%. Ao amanhecer veremos quem parte para a segunda volta como líder.

Elevação


A JSD optou por navegar a onda das declarações de Mário Lino, dignificando ainda mais o tema e credibilizando a discussão. Continuem assim que é mesmo deste tipo de dignificação do debate público que a República precisa...

segunda-feira, maio 28, 2007

O primeiro a cair

A primeira cabeça já começou a rolar em Israel. Peretz, Ministro da Defesa e um dos alvos do relatório Winograd sobre a condução da guerra no Líbano, ficou em terceiro lugar na corrida à reeleição no partido trabalhista, segundo as primeiras sondagens. A disputa irá agora para segunda volta entre Ehud Barak (33% nas previsões) e Ami Ayalon, antigo chefe do Shin Bet, que deverá ficar em primeiro lugar no escrutínio (39% nas previsões).
Palavra chave: Accountability.

Pelo menos um...

Parabéns ao Sporting e ao João, o único dos membros da Bóina que consegue ganhar alguma coisa este ano...



Empate


PP tem mais votos e fica o,6% à frente. PSOE tem mais mandatos e conquista algumas cidades. Resultado final: as eleições de ontem em Espanha não servem para previsões para legislativas.

domingo, maio 27, 2007

Obscurantismo

Isto põe-me doente. A foto é do ano passado.

quinta-feira, maio 24, 2007

Humor burocrata

Alguém na Imprensa Nacional Casa da Moeda meteu o pé na argola. Acabei de descobrir que existem dois Decretos-Lei n.º 50-A/2007: este e este.

quarta-feira, maio 23, 2007

E agora chegou mais este


Algumas propostas de Gonçalo da Câmara Pereira, candidato do PPM à Câmara de Lisboa:

Um barco à vela em cada escola.
Um festival de fado.
Uma Broadway nos Restauradores.
Hastear a bandeira do partido no Castelo de S. João no dia 16 de Julho.
O segredo para que tudo funcione: «filantropia».

Depois disto, Manuel João Vieira só pode pensar em apresentar uma candidatura a sério.

A verdadeira religião II - Catolicismo

Se repararem há dois argumentos importantes no arsenal reaccionário da direita católica:
1. Não acreditamos no progresso humano, já que este é um conceito que assenta num perigoso antropocentrismo em que não há lugar para aquilo que é imutável, permanente e infinitiamente bondoso e que se encontra num plano superior: Deus etc.; a Humanidade avança aos soluços, há avanços e retrocessos, e, como diria Giertych, o eurodeputado polaco citando João Paulo II: "se as mulheres andam aí a matar as suas próprias crianças [isto é, a fazer abortos] não admira que haja guerras"; quer dizer, vivemos numa época tão má ou pior do que outras em que o pessoal não fazia abortos;
2. A Inquisição e as Cruzadas: pois, foi desagradável, mas temos que compreender que nessa altura os valores eram outros, vivíamos noutros tempos.
Ora a segunda tese parece-me estar em manifesta contradição com a primeira. Houve progresso à brava entre a altura da Inquisição e agora (o mesmo se aplica às Cruzadas). Progresso. Objectivamente. Por isso é que podemos agora dizer que os tempos são diferentes e que seria inimaginável voltar a repetir tais crimes. Diferentes, porque melhores. Mas não admira que a direita católica tenha dificuldades em reconhecer este progresso, já que este aconteceu não por causa da Igreja, mas apesar dela, contra ela. Agora a resposta de alguém podia ser: "Mas como se pode falar de progresso depois do século de Auschwitz, da 2a Guerra Mundial, dos gulags etc. Não terá a Humanidade batido no fundo no século passado?"

E com este dilema todos temos que lidar.

A verdadeira religião?

Nunca percebi aquela abordagem ao terrorismo de inspiração islâmica que é dizer "aquilo não é o verdadeiro Islão; o verdadeiro Islão é uma religião de paz." Tenho para mim que é preciso um pouco mais de modéstia agnóstica quando se explica a um tipo que é muçulmano - e que quer limpar o sebo a alguém em nome do Islão - que ele não percebeu bem a religião dele. Da mesma forma, quando oiço dizer que aquilo das Cruzadas e da Inquisição foi um pequeno percalço desagradável, mas que não faz mal "porque aquilo não é o verdadeiro Cristianismo", a mim também me cheira a marosca.

As religiões são aquilo que as pessoas fazem delas. Não existem religiões violentas e outras pacíficas. As religiões, tal como qualquer paradigma ideológico, servem para justificar aquilo que nós quisermos. E, acima de tudo, o único 'fundo de bondade' que as religiões têm não é o 'fundo de bondade' da Religião, mas sim o do género humano.

Dude, where's my car?



Acabei de ver um senhor chamado Zoltan no elevador.

segunda-feira, maio 21, 2007

Perdi um amigo




Tenho uma grande simpatia pela esquerda latino-americana. Não se trata apenas de admirar o pedigree impecável da luta contra as ditaduras militares, ou da coragem de ter defendido um socialismo flexível e não-alinhado durante a guerra fria, ou do discurso pan-americano e universalista, ou da capacidade de evitar que décadas de torturas, desaparecimentos e assassinatos conspurcassem as jovens democracias com o espírito venenoso da vingança. Admiro acima de tudo a generosidade dos afectos, o heroísmo pessoal e a abnegação que transformaram os heróis da luta contra as ditaduras latino-americanas em heróis universais. Como as ditaduras latino-americanas - da mesma cepa que as ditaduras ibéricas - representaram acima de tudo o triunfo da mediocridade, da estupidez mesquinha e da brutalidade chauvinista, a esquerda latino-americana distingue-se por um dinamismo intelectual humanista e uma vitalidade cultural que imortalizou o destino do continente, e que nos põe todos em dívida para com ela.

Luís Sepúlveda é um dos representantes desta esquerda. Os romances dele que cheguei a ler (Patagonia Express, Mundo do fim do mundo, O velho que lia romances de amor e O Nome do Toureiro) marcaram-me. Ensinaram-me o radicalismo dos afectos, a importância política da empatia, o potencial revolucionário da generosidade. Ao fim de cada uma das suas obras, sentia a fasquia invisível da minha consciência moral e social elevar-se.

Já não lia Sepúlveda há muitos anos e recentemente ofereceram-me um livrinho de crónicas, chamado O Poder dos Sonhos. Ainda está lá tudo: a dor dos anos negros da ditadura, o ódio à injustiça, a generosidade dos afectos e o amor pelo género humano.

Mas neste livro também passei a conhecer um outro Sepúlveda. Por exemplo, um Sepúlveda de um anti-americanismo pré-histórico a cuspir veneno a torto e a direito. Nunca aparecem os EUA progressistas, berço de todo o tipo de movimentos emancipatórios, movimentos feministas, a esquerda dos Democratas etc.. O único fenómeno virtuoso da Grande Babilónia mencionado por Sepúlveda é o movimento cívico dos anos '60 e isso só para acusar Condi Rice e Colin Powell de serem (cito) "traidores da sua raça" por não estarem do lado dos 'bons'. Só existem Bush, Reagan e Kissinger. Como se o Chile de 1973 a 1990 fosse só Pinochet. Ou Portugal de 1932 a 1968 só Salazar. Sepúlveda repete todos os lugares-comuns da esquerda alter-mundista, sem aprofundar nenhum. Slogans. Elogia o poder dos sonhos, mas descreve o mundo como um único pesadelo milenar de opressores a esmagar oprimidos. Cai até na mais estéril das nostalgias da esquerda reaccionária que acha que "antes é que havia valores, hoje estão todos sentados no sofá a ver programas alienantes." E, claro, não podia deixar de fazer a referência ritual, icónica, previsível a Israel, "estado terrorista que assassina sistemática e selectivamente crianças e anciãos" (se não for uma citação exacta, as minhas desculpas, mas anda lá perto).

Estou triste, porque sinto que Sepúlveda e eu temos olhares idênticos sobre o passado, mas discordamos sobre o presente e sobre o futuro e eu quero muito concordar com Sepúlveda. Sem Sepúlveda sinto-me mais só.

Iluminismo? Que é isso? Ainda se te metesses na droga, pronto, que é de homem...!


[...]


Não é a religião que fica mal. Anselmo Borges escreve semanalmente sobre temas religiosos no mesmo DN e dá-me gosto lê-lo, ainda que por vezes não concorde com o conteúdo. Frei Bento Domingos escreve sobre religião no Público e também é leitura interessante e motivadora de debate. O que fica mal é o fanatismo de JCN e o facto de, numa coluna supostamente dedicada à temática económica, praticamente se falar de religião.

E quanto ao estudo de Jesus Cristo, meu caro João César das Neves, cuidado com a heresia que nem eu vou tão longe: não acho que o Jesus histórico seja um louco (já agora, é interessante o uso da expressão entre aspas, como se a palavra "histórico" e a perigosa carga de ciência que transporta tenha um conteúdo pejorativo). Claro que também não acho que seja filho de Deus, o próprio Deus ou uma qualquer parcela de uma eventual tríplice natureza de Deus. Contudo, isso não significa que não tenha interesse estudar a figura histórica, o seu papel no aparecimento da maior religião monoteísta do presente ou a sua mensagem filosófica, cuja raiz de não violência e de compaixão tantas vezes foi deturpada pelos seus supostos sucessores. Outras vez cientificismos meus, decorrentes de más influências dos malandros que escreveram a Enciclopédia, seguramente.

Já agora, não será que tentar culpar Diderot ou Voltaire pela guilhotina e pelos gulags é como, sei lá, culpar o tal Jesus "histórico" pela Inquisição ou pelo anti-semitismo de raiz católica?

domingo, maio 20, 2007

Descubra o Sarkozy que há em si

O corpo balanceado sobre o púlpito, dedicado à audiência, em vez da pose hirta de líder confiante. A voz modulada em vários tons, para fugir ao monocórdico, em vez de frases que culminam num arranhado de cana rachada, a sublinhar a ideia. E a rejeição da Turquia na União Europeia.

Está descoberto o novo ídolo de Paulo Portas.

Aquele que faltava e aquele que talvez volte

Ao contrário do que se esperava, o quadro final de candidatos para Lisboa volta a ficar em aberto. Telmo Correia é a aposta de Portas e pode ser que melhore o score da única sondagem conhecida até agora. De qualquer forma, há que não esquecer que a última vez que Portas escolheu Telmo Correia foi para disputar a liderança do CDS-PP e a coisa não foi famosa...

A baralhação resulta da decisão do Tribunal Constitucional quanto à data das eleições. Remetido agora para 15 de Julho o acto eleitoral, Carmona volta a pensar na candidatura, particularmente depois do que prometem as sondagens. As sucessão de eventos coisas é de tal forma rápida (ou eu estou de tal forma lento) que o último post que escrevi sobre o assunto dava Carmona como candidato garantido. Desde então, deixou de o ser e agora já está a pensar em voltar. Continuamos a aguardar.

sexta-feira, maio 18, 2007

Who knows?

Wolfowitz vai demitir-se.


Talvez se queira agora candidatar como independente à Câmara de Lisboa?

Goodbye Mr. Falwell



Tinky Winky já vai dormir mais descansado hoje, uma vez que não estará na lista de alvos a abater de um zelota homófobo e reaccionário.