quinta-feira, junho 14, 2007

Afinal...

Segundo a Casa Branca afirmou ontem e, ao que parece, algumas imagens confirmaram hoje, parece que Bush de facto guardou o relógio no bolso durante o cumprimento aos populares albaneses que o saudavam. Assim sendo, salvada a honra da Albânia, a questão que fica no ar é a seguinte: se Bush guardou o relógio é porque estava receoso do gamanço, ou não? Muito diplomático e mostrando confiança no povo, sim senhor...

Missing the point

Marimarieke afirmou no Ladrões de Bicicletas que os sinonistas é que se devem estar a rir com a quase guerra civil na Palestina. Duvido que alguém em Israel se esteja a rir sobre a crise palestiniana. A estabilidade da Autoridade Palestiniana é um elemento essencial para que o processo de paz possa ser retomado, pelo que a reabertura das hostilidades representa um retrocesso para todos os que na região querem acabar com o conflito.
Claro que há loucos e fanáticos em ambos os campos da barricada que ficam satisfeitos sempre que alguém do outro lado encrava uma unha, entala o dedo numa porta ou decide encetar ataques fratricidas, mas daí a descobrir aí uma máxima universal parece-me despropositado. Para além disso, longe de ser um fenómeno estanque, a escalada de violência entre Hamas e Fatah pode facilmente radicalizar-se e procurar legitimação através de ataques a alvos israelitas, quer nos territórios ocupados da Cisjordânia, quer mesmo no território do Estad de Israel.
Continuar a demonizar os israelitas por regra, dando a tónica essencial num comentário sobre a crise palestiniana a uma putativa satisfação daqueles, é, para além disso, querer evitar discutir o problema. Continuar a adoptar uma visão maniqueísta, desprovida de densidade na análise de um conflito complexo em nada contribui para ajudar a resolver o conflito.

quarta-feira, junho 13, 2007

República e Terrorismo

Ainda em relação ao post anterior do cidadão Alves: adoro o alinhamento anacrónico do argumento anti-Aquilino com a retórica "anti-terrorista" pós-9/11. O que virá a seguir: Robespierre, o Bin Laden do século XVIII? A queda da Bastilha: o 11 de Setembro francês? Os luso-monárquicos sempre tiveram uma relação sui generis com a história, mas chamar 'terrorista' ao Aquilino... Então, meus amigos...

P.S: Qual é a opinião dos monárquicos portugas em relação à expulsão dos Tarquínios de Roma, o fim do jugo monárquico etrusco e o princípio da República romana no ano 509 antes da Era Cristã ? Deixem-me adivinhar: Lúcio Júnio Bruto, o Zarqawi do Lácio?

terça-feira, junho 12, 2007

Ímpar




Entretanto, na sequência do post anterior, fui consultar a petição online para impedir a trasladação de Aquilino. Espreitem as assinaturas - aquilo parece uma autêntica Câmara dos Pares!

Panteão Laico


Devido à programada trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional e à petição filo-monárquica que quer travar a iniciativa (a que o João já aludiu aqui), um post de João Miranda no Blasfémias perguntando se "ser a Assembleia da República a decidir quem deve ser sepultado numa igreja não viola o princípio da separação entre a Igreja e o Estado" alarga a discussão ao próprio conceito de Panteão.

De facto, há um entorse do princípio da separação, mas que não resulta da vontade do Estado utilizar o espaço de uma igreja para realizar cerimónias fúnebres, mas sim do facto de o Panteão Nacional não ter sido laicizado, à semelhança do que sucedeu, por exemplo, em França, quando o foi decidido que aquele seria o uso definitivo da antiga basílica de Santa Genoveva. No site do Centro dos Monumentos Nacionais francês, a evolução da utilização do edifício é descrita nos seguintes termos:

Laïcisé en 1791, il devint Panthéon national. Durant le 19e siècle, il reçut, au gré des régimes politiques, une affectation tantôt religieuse, tantôt patriotique. La Troisième République en fit un édifice consacré à la mémoire des hommes illustres à l’occasion des funérailles nationales de Victor Hugo qui y fut inhumé en 1885.

Conforme disse Rui Tavares num comentário ao post de João Miranda "o panteão nacional / igreja de santa engrácia foi iniciado num tempo em que o catolicismo era a religião única do reino e terminado com dinheiros públicos, já no fim da década de 1960. foi feito e pago pelo povo português, e não só pelos católicos. se há coisa que viola o princípio da separação é o facto de ainda ser uma igreja, mas se alguém propusesse que deixasse de o ser logo seria acusado de jacobinismo."

Não tenho medo do epíteto: PANTEÃO LAICO, JÁ!

Momento Mário Lino


Se isto não for dos momentos mais hilariantes do ano, eu já não sei nada: Sarkozy com os copos numa conferência de imprensa durante a cimeira dos G8. Aparentemente, Sarko tinha acabado de sair de uma reunião com Putin, que de certeza aguenta melhor o vodka do que ele.

Mais música

Fui finalmente ver o fantástico A vida dos outros. Entre várias coisas que retive ficou a frase de Lenine sobre a Appassionata de Beethoven. Lenine terá dito numa entrevista a Gorky que se pudesse passaria o dia a ouvi-la, mas como isso, infelizmente, o levaria a querer afagar as cabeças dos seus semelhantes e a dizer-lhes coisas agradáveis ao invés de lhes incutir o socialismo pela força, teve de deixar de ouvir música. O realizador até já declarou que foi precisamente a ouvir a Appassionata que recordou a afirmação de Lenine e se decidiu a fazer o filme. Na linha do post anterior sobre o carácter pacífico do nosso luso cantinho, talvez não nos possamos queixar muito. Mas acho que fazia bem a todos ouvir mais vezes a Appassionata. Deixo o convite e ofereço uma versão:




Ludwig van Beethoven, op. 57
Sonata "Appassionata", 1.º andamento

Areithi Cymraeg?*


Segundo notícias recentes, a cadeia de viagens Thomas Cook terá exigido que os seus funcionários apenas usem a língua inglesa nas conversas que mantenham entre si sobre assuntos relacionados com a actividade da empresa, impedindo a utilização do galês nestes contextos. Apesar da empresa ter vindo afirmar que nas suas conversas particulares ou mesmo no atendimento a clientes que queiram comunicar em galês este pode ser utilizado, a questão promete gerar controvérsia nos próximos tempos e vem abrir mais uma frente na discussão em curso sobre pluralismo linguístico no quadro da União Europeia. A questão pode abrir precedentes relevantes na medida em que não está em causa a garantia do uso da língua perante entes públicos (tutelada pela Carta Europeia de Línguas Minoritárias, da qual o Reino Unido é parte) mas sim no quadro de relações jurídico-privadas.



* Fala galês?

Isto afinal até é um sítio calminho...

Segundo um estudo que definiu quais os países mais pacíficos do mundo, analisando dados internos e externos (crimes violentos, participação em conflitos, relação com os vizinhos), Portugal ficou com um 9.º lugar em 121 países analisados. No pódio ficaram Noruega, Nova Zelândia e Dinamarca e no fundo da lista Israel, Sudão e Iraque. Outras classificações relevantes foram as dos EUA em 96.º, da Itália e França em 33.º e 34.º, respectivamente, do Reino Unido em 49.º e da vizinha Espanha em 21.º

segunda-feira, junho 11, 2007

É de mim...

...ou colocar um cartaz publicitário gigantesco da Jaeger-LeCoultre num monumento histórico como o Arco da Rua Augusta é de um supremo mau gosto? Estava eu orgulhosamente a dar a costumeira visita guiada de Lisboa a familiares meus, quando um primo do Brasil, ao entrar na Praça do Comércio vindo da Rua do Arsenal, deu conta do colossal painel e exclamou "Olha só qui coisa maiss feia..." O que virá a seguir: o Marquês de Pombal com um boné da Nike? D. João I na Praça da Figueira com uma Carlsberg na mão?
É que derivados da questão daquela coisa da falta de dignidade...

domingo, junho 10, 2007

França: 1.ª volta das legislativas


Notas a quente e a correr:

- Os elevados números da abstenção, reveladores de uma possível desmotivação do eleitorado PSF e do menor interesse do acto eleitoral para a Assembleia Nacional - o tira-teimas tendo sido em Maio, agora tratar-se-ia de formalizar a maioria do vencedor. Depois da ampla participação em Abril e Maio, a participação ficou-se num mínimo histórico de 60%. Para alguns é a aceitação da nova lógica dos mandatos quinquenais do Presidente, coordenados com os das maiorias parlamentares, evitando coabitações e eleições a meio do ciclo.

- A pulverização do Movimento Democrático de François Bayrou. De acordo com as projecções conhecidas, apesar de mais votos deverá ter um resultado em lugares pior do que os candidatos da UDF que se juntaram à UMP, seguindo a lógica eleitoral tradicional.

- A confirmação do lento (e irreversível?) declínio do PCF.

- Uma melhoria do score do PSF em relação ao de Ségolène na primeira volta das presidenciais (25%). Veremos como corre a segunda volta, mas, para já, não se consegue ultrapassar a barreira psicológica dos 30%;

- Pouca incidência de triangulares na segunda volta, i.e., poucos círculos com mais de dois candidatos que obtêm mais de 12,5% dos votos e que acedem ao segundo escrutínio, o que tenderá a reforçar a bipolarização.

Reflexão dominical

Há a Igreja como sistema administrativo da fé, em que a troca de favores e influências rege a relação do crente com Deus. E há a outra Igreja, esta.

sábado, junho 09, 2007

Duzentos anos


Acabei hoje de ler um clássico da historiografia portuguesa, "Os Devoristas", de Vasco Pulido Valente. Trata-se de um livro essencial sobre o período entre o triunfo liberal (1834) e a revolução de Setembro (1836) que eu há muito perseguia e que a Feira do Livro deste ano me trouxe em nova edição para a cabeceira. Nem de propósito, acabo de ler este post do Daniel Oliveira no Arrastão e sinto que tenho de transcrever um excerto do prefácio à 2.ª edição (esta) da obra. Trata-se da única parte do ensaio em que o historiador abandona o palco e deixa uma série de considerações ideológicas, na linha do que é detectado por Daniel de Oliveira e a que Vasco Pulido Valente nos tem habituado no Público dos últimos tempos:

"Na história portuguesa o "liberalismo" não foi uma ruptura, foi um prolongamento. Pior ainda: foi um prolongamento que aumentou a centralização e a omnipotência do Estado e enfraqueceu as raras instituições independentes ou semi-independentes dele (a Igreja e a Universidade). Dali em diante, como se sabe, esse processo não parou. A República, a Ditadura e a democracia "europeia" de hoje aumentaram, não diminuiram, o peso do Estado sobre a sociedade. Com uma diferença. Em 1834, a esmagadora maioria da população vivia da agricultura, o que lhe dava por natureza uma certa autonomia. A presença do Estado era sentida nas cidades e em algumas vilas particularmente importantes. Excepto pelo imposto, pelo recrutamento militar e, de longe em longe, pela justiça, não era sentida no país rural. Quando o grosso da população se transferiu para a "indústria" e os "serviços", mesmo essa forma acidental de liberdade acabou."

quarta-feira, junho 06, 2007

Costa do Castelo


Apesar de ainda não ter postado, deixo aqui o plug do Costa do Castelo, blog de apoio à candidatura à CML de António Costa. Para além do comentário, encontrarão ainda links para os sites dos candidatos que já os têm, para os blogs de apoio a candidatos e para diversos blogs sobre a bela cidade de Lisboa (os visitantes que não alfacinhas que perdoem estes excessos dos filhos da terra...).

Enjoy.

Bolívar + Allende ≠ Chavéz

Para quem procura relativizar o mais recente chavismo, invocando outros pergaminhos que este possa ostentar, tem que se dizer alto e a bom som que fechar uma cadeia de televisão privada invocando perigo para a sociedade não é justificável, contradiz todos os fundamentos de uma sociedade livre e democrática e é um sinal perigoso do que se avizinha.
Nem Allende que procurou a via eleitoral para o socialismo, nem Bolívar que procurou a autodeterminação e liberdade para o seu continente se reveriam nesta via autoritária.

Se calhar catequese no ensino superior era mais indicado

Lá estou eu a voltar ao mesmo, mas o senhor João César das Neves é que insiste em dar assunto. Na crónica desta semana (que não versava a perdição moral do Ocidente, para variar), JCN queixa-se da "incompreensível diversidade da Universidade" e vitupera contra a existência de doutoramentos em Estudos sobre as Mulheres. Que raio de tema é este? Se até há quem tenha dúvidas sem têm alma...

Solidariedade com Tinky Winky


Postei há uns dias que agora Tinky Winky podia dormir descansado, uma vez que o seu único inimigo declarado, Jerry Fallwell, já não podia continuar a persegui-lo. Eis que, da cada vez mais medieva Polónia, surge novo opositor, Ewa Sowinska, responsável governamental pelo bem.estar das crianças, que prometia uma investigação profunda ao personagem para aferir se esta "promoveria a homossexualidade". Dois dias depos, perante um relatório que reputou credível, Sowinska ficou convencida de que Tinky Winky não promovia comportamentos desviantes e abandonou a polémica. Volta a estar na altura de alguém promover comportamentos desviantes como a inclusão ou o respeito pelos direitos de terceiros lá para os lados de Varsóvia.
Tinky vai em frente, tens aqui a tua gente.

??!!

(...)
"Na véspera deste incidente, realizou-se na Casa do Alentejo uma sessão pública de intervenção, promovida pelo MPPM em que marcaram presença José Saramago e Abdullah Abdullah, Presidente da Comissão Política do Parlamento palestiniano. Se, no uso da palavra, o dirigente o palestiniano aproveitou para apelar à próxima presidência portuguesa da União Europeia que coloque "no topo da agenda o levantamento do embargo e das sanções ao Governo palestiniano", já o Nobel da Literatura reafirmou as posições que, há tempos, tanta polémica provocou em Israel: "Enquanto houver um palestiniano vivo, o Holocausto continuará", disse. "O que os israelitas sofreram em Auschwitz não os absolve nem lhes confere impunidade. São iguais aos carrascos dos nazis de que foram vítimas". "

Uma frase destas na Alemanha, no Reino Unido, em França, em Espanha causava aceso debate e condenação geral. Em Portugal - bocejos. Privilégios da periferia.

segunda-feira, junho 04, 2007

A Guerra dos Seis Dias 40 anos depois


(Simpático cartoon de 1967 - antes da Guerra dos Seis Dias - mostrando o Presidente do Egipto, Gamal Abdel Nasser, delicadamente indicando a um cidadão israelita o caminho para o mar; atrás do amável Nasser, a Síria, o Líbano e o Iraque - sempre prestáveis - preparam-se para ajudar no que for preciso)

Faz amanhã 40 anos que Israel deu o primeiro tiro da Guerra dos Seis Dias. Uma guerra de legítima defesa cuja legitimidade poucos questionam hoje em dia.
Expulsão da força de interposição das Nações Unidas (UNEF) do Sinai a 19 de Maio e imediata remilitarização da península pelo exército egípcio; bloqueio do estreito que dá acesso ao Golfo de Aqaba a 22 de Maio e consequente exclusão da navegação de/para Israel; assinatura de um pacto militar entre o reino da Jordânia e o Egipto a 30 de Maio, e colocação do exército jordano sob comando de um general egípcio (a Jordânia formava assim o terceiro vértice de um pacto tripartido entre Jordânia/Egipto/Síria); aumento significativo da retórica ameaçadora, especialmente da parte do Presidente egípico Nasser, líder de um movimento pan-árabe no seu zénite: se acrescentarmos isto tudo à evidente vulnerabilidade estratégica de Israel - sem obstáculos naturais que o protegessem dos seus vizinhos - rapidamente concluímos que o ataque israelita era inevitável.

O pior foi depois. Se é verdade que nenhum dos vizinhos de Israel estava disposto a fazer a paz depois desta derrota humilhante, o mais tardar depois de assinar a paz com o Egipto em 1979 (nesse mesmo ano, o Egipto de Sadat foi expulso da Liga Árabe durante 10 anos por ter assinado a paz com Israel...), Israel devia ter embarcado numa tentativa séria de normalização diplomática com os seus vizinhos - nomeadamente com a Jordânia - no sentido de pôr fim à ocupação dos Golã, da Cisjordânia e de Gaza. Jerusalém-Leste será sempre complicado... Lendo a biografia de Moshe Dayan (Chefe do Estado Maior das Forças Armadas israelitas durante a guerra do Suez e Ministro da Defesa durante as guerras dos Seis Dias e de Yom Kippur), publicada em 1978, facilmente se detecta as contradições da posição israelita pós-1967: por um lado, reconhecimento da situação de "ocupação" dos territórios palestinianos, por outro, paternalismo em relação aos palestinianos e a satisfação de dar a Israel mais terra e fronteiras mais defensáveis. E o resto da história nós conhecemos. Em vez de se ver livre dos Territórios Ocupados de uma posição de força antes das duas Intifadas, Israel vai ser forçado a fazer concessões num estado de exaustão, isolamento, e desunião interna sem precedentes. A Ocupação e os colonatos são um cancro. É preciso acabar com ambos. Já.

Para os néscios que acham que acabando a ocupação dos Territórios, árabes e israelitas vão ser felizes e vai haver paz no mundo (sim, porque tudo, desde as aspirações atómicas do Irão, até à ditadura na Síria são por vezes apresentados como produtos da ocupação israelita), uma pequena nota de rodapé: nos 18 meses antes da Guerra dos Seis Dias de 1967 que iniciou a tal ocupação, grupos palestinianos, liderados por um tal Yasser Arafat, e atacando a partir de bases na Síria e na Jordânia, levaram a cabo cerca de 120 operações de "sabotagem", a vasta maioria destas contra civis israelitas. Antes de '67. Antes da ocupação dos Territórios por parte de Israel. Claro que podemos discutir a legitimidade da "resistência" palestiniana mesmo contra o Estado de Israel nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, as do armistício de 1949. Podemos discutir muita coisa. Só estou a tentar demonstrar que a ocupação de '67 não foi nem o ponto de partida da instabilidade na região, nem a origem de todas as injustiças; e que o fim da ocupação israelita não vai transformar a região numa Escandinávia com ruínas antigas e sol.