quinta-feira, maio 17, 2007

Bom senso

O exército britânico chegou finalmente à mesma conclusão a que todos os seres dotados de massa encefálica já tinham chegado: enviar Henry Windsor para o Iraque é um risco de segurança inaceitável. Invocando a vontade de demonstrar que o filho mais novo do herdeiro da coroa presta serviço militar de forma idêntica aos demais soldados, a hierarquia militar e a casa real preparavam-se para sujeitar os companheiros de armas do princípe a riscos acrescidos, a criar um foco de preocupação permanente para as forças da coligação e a abrir a porta a uma catástrofe desmoralizante caso algo corresse mal ou muito mal (por exemplo, se porventura Henry fosse capturado e mantido refém). O esforço para se demonstrar uma igualdade que verdadeiramente não existe num sistema monárquico que constitui a sua negação, leva a flops de relações públicas deste nível.

Ceci n'est pas un post sur l'Ecosse

Ia começar a escrever que não há novidades da Escócia e que os meus leitores iriam agradecer a folga. Contudo, fui ao site da BBC e lá me estragaram os planos - Alex Salmond, líder do SNP, foi eleito first minister escocês pelo parlamento, com a abstenção dos conservadores e liberais, votos a favor dos verdes e votos contra do partido trabalhista, e vai liderar um governo minoritário. History in the making? Ou instabilidade para breve? Veremos.

quarta-feira, maio 16, 2007

Hollywood e a antiguidade

Quando escrevi isto, nunca pensei que fosse dar nisto. Então querem ver que já não há espadas em Esparta?

Lembra-se?

Paulo Portas disse ontem que a saída de António Costa do Governo representa a colocação dos interesses do partido acima dos interesses nacionais, acusando Sócrates de calculismo partidário.
E já agora, sair do Parlamento Europeu e da Câmara de Lisboa deixando mandatos a meio para ir fazer outra coisa onde o CDS-PP estava sem candidato, does it a ring a bell?

terça-feira, maio 15, 2007

Futebol estrutural


Segundo o Público de hoje, Hermínio Loureiro defende que o Governo deve permitir aos clubes o acesso aos fundos comunitários, porque estes «são promotores do serviço público no que diz respeito à actividade física». Mais: «o futebol é um dos poucos sectores em que Portugal é competitivo no mundo».

Criação de postos de trabalho, investigação e desenvolvimento para quê? O que faz falta é um Cristiano Ronaldo em cada clube.

Outro Fergusson (sem Ronaldo)

O parlamento escocês elegeu o seu novo Speaker, o conservador Alex Fergusson. Uma vez que o Speaker tem de assumir uma posição de estrita neutralidade, não participando nas votações, os dois maiores partidos abdicaram de apresentar candidatos, uma vez que apenas os separa um deputado de diferença. Ou seja, tudo na mesma, sem coligações à vista, com os Tories a aproveitarem para assumirem a presidência do parlamento. Continua-se à espera de um Cristiano Ronaldo da política escosesa que remate para golo...

Betão

Ferreira do Amaral é apontado como possível candidato do PSD a Lisboa. Apesar da máxima de que à terceira é que é de vez poder ser um incentivo, será que o candidato que o PSD quer apresentar é mesmo o daquele militante que está sempre pronto para fazer os fretes eleitorais do partido, perdendo com dignidade? Acrescendo a isto o facto de um "homem do betão" ser a última coisa que os lisboetas querem aturar depois de seis anos de novelas do túnel.

Primeiro cônjuge


Uma investigação jornalística parece ter confirmado o que já se suspeitava depois da sua ausência no momento da votação: Cécile Sarkozy, futura primeira-dama da República Francesa, não depositou o seu voto na segunda volta das presidenciais. Sem prejuízo de isto poder ser um sinal interessante quanto ao juízo que os mais próximos fazem de Sarkozy, não pode ser mais do que uma mera trivialidade.

Levanto a questão porque no meio desta controvérsia, que já se arrasta parcialmente desde que surgiram dados na imprensa sobre o estado da relação conjugal, se questiona a vontade de Cécile em desempenhar cabalmente as funções de primeira-dama. Saber o que são estas funções de primeira-dama e se a sua existência faz sentido em Repúblicas da modernidade é que me parece ser a questão central (e digo isto num contexto em que, no caso português, se referir um gabinete de apoio ao cônjuge do presidente na lei relativa aos serviços da Presidência da República).

segunda-feira, maio 14, 2007

Igreja à antiga

Depois da relativa moderação de João Paulo II, este Papa reintroduz a adrenalina no debate sobre o papel da Igreja na sociedade e na história.

Por exemplo - a evangelização do 'Novo Mundo' pelos portugueses e pelos espanhóis? Um harmonioso encontro de culturas.

Parabéns!


Mensagem política subliminar da eurovisão 2007




A Turquia deu os seus 12 votos à Arménia.

domingo, maio 13, 2007

Aquilino ao Panteão. Já

Um grupo de Monárquicos do Fórum Democracia Real (um claro oximoro) pretende impedir, com esta petição, que Aquilino Ribeiro seja transladado para o Panteão Nacional.

Para além de se tratar de um dos escritores mais profícuos do princípio do século XX, Aquilino ajudou a fazer tombar um regime Monarquico que se provou incapaz de trazer o progresso e reduzir a desigualdade social, que se sentia com especial intensidade até ao 5 de Outubro de 1910, e que perdurou com a ajuda das divisões entre Republicanos, da Igreja e de Fátima, de Salazar e do Estado Novo até ao 25 de Abril de 1974.

Ainda assim, e a propósito de Aquilino Ribeiro, disse Salazar: "É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.". Isto apenas para dar uma referência de um totalitarista com que a maioria dos potenciais subscritores desta petição simpatizará.

É óbvio que, pessoalmente, nunca desconsideraria um regicida para honras de Panteão Nacional, mas a verdade é que nem os próprios autores desta petição ousaram relacionar directamente Aquilino com o regicídio, nem conseguem claramente provar a sua participação em actos de “terrorismo”.

Esta petição pretende apenas lançar uma dúvida mal fundamentada, no registo actual de culpados até prova em contrário, num processo merecido de “panteonização" de uma incontornável personalidade da literatura Portuguesa.

sábado, maio 12, 2007

o ppl n kurte bento16, lolol

João Paulo II promovia a Igreja pop fenómeno de massas. Não interessava que quem aparecesse conhecesse o dogma de fé da imaculada concepção de Maria ou outras admiráveis elaborações teológicas de séculos de actividade doutrinária sem as quais um católico não se pode considerar verdadeiramente como tal. Interessava é que aparecesse muita gente, porque multidão atrai multidão, e quantos mais forem melhor corre o negócio. O bem-estar espiritual da mensagem simples de Jesus Cristo é muito bonito, mas não vale de nada se não for complementado com o acolhimento amoroso no seio da Santa Madre Igreja. Assim é que Fátima é cada vez mais um hipermercado da fé, assim é que aumentam as pessoas que vão a Fátima a pé em busca da tripe suprema.

Bento XVI anda a pregar a sobriedade litúrgica no Brasil, um país onde ou se monta um show monumental ou os fiéis vão a correr para o teatro evangélico mais próximo. Desejo-lhe boa sorte porque acho que faz bem.

Apesar de em última análise os seus esforços se dirigirem a uma Igreja Católica cada vez mais moralmente conservadora, fechada sobre si mesma e pesada na vida de cada fiel, a verdade é que já é tempo de alguém pôr ordem na rebaldaria que João Paulo II trouxe. Mas a vida não lhe vai correr bem. Bento XVI já é a figura antipática que é. Se faz da missa uma celebração sóbria, mais concentrada na palavra do que na emoção, quem é que vai gostar do que vai ouvir?

sexta-feira, maio 11, 2007

Se ainda não fez, podia ter feito

Segundo uma testemunha anónima, Marques Mendes adjudicou hoje o desenvolvimento de uma aplicação para interligar a base de dados do Ministério Público com o sistema de gestão de militantes e detentores de cargos políticos do PSD.

Com o nome de código “Expulsão na hora”, este sistema informático procurará reduzir o tempo entre a constituição como arguido de um militante ou detentor de cargo e a respectiva expulsão ou exoneração. Segundo a mesma testemunha anónima, Marques Mendes terá subido a um pequeno banco e dito em êxtase: “É mesmo isto que precisamos! Poupa-se uma tgabalheiga e consegue-se expulsag logo os gajos, sem toda a chatice de uma análise política caso a caso”.

O projecto foi adjudicado a um sobrinho de um conhecido futuro ex-militante do PSD e perspectiva-se, logo no arranque desta aplicação, um elevado nível de transacções de expulsão e exoneração, bem como a realização de novas eleições antecipadas na Madeira.

O legado de Alegre

A decisão de Helena Roseta em avançar para a Câmara Municipal de Lisboa é claramente uma manifestação do legado da candidatura de Manuel Alegre à presidência da república, mas baseia-se no frágil mito da "intervenção cidadã" que surgiu com o aparecimento do Bloco de Esquerda e continuou com Alegre.

A obstinação de Manuel Alegre em seguir em frente nas eleições presidenciais, contra o PS, foi uma coisa boa que aconteceu à democracia portuguesa, porque permitiu libertar a acção política da lógica partidária. Muitos cidadãos mobilizaram-se em torno de uma candidatura e de um projecto político de uma forma como nunca sucederia em relação a um candidato apoiado por um partido. Mas a presidência da república é um cargo singular que se presta a uma pessoa como Alegre, que pode atrapalhar-se nas entrevistas e debates, mas que consegue ler e perceber o sentimento do país, e que sabe o que tem de ser dito em cada momento, ao contrário do actual incumbente, que não consegue passar das generalidades inócuas e das banalidades paternalistas. Nesse quadro, e na ausência de um candidato consensual de esquerda, a obstinação de Alegre fez sentido, e a sua candidatura acabou por ter muitos dos elementos característicos da democracia americana. Outra coisa é concorrer a eleições autárquicas.

Ao contrário do que sucede em Portugal, nos Estados Unidos não existe um direito dos partidos, enquanto associações públicas, de apresentarem candidatos a cargos públicos. As candidaturas são pessoais, não são partidárias. O partido apoia o candidato, o candidato adopta a referência ao partido (embora muito discretamente), mas a candidatura é apresentada em nome individual, não em nome do partido. Isto não se deve só ao facto de a quase totalidade dos cargos públicos serem de provimento uninominal e de não haver listas; deve-se também ao carácter individualista da sociedade americana e à tónica que é colocada na responsabilidade do indivíduo perante a sociedade. Nos Estados Unidos também não é o programa do partido ou as orientações do aparelho que ditam a escolha do candidato, mas sim a capacidade do cidadão de mobilizar apoios para uma plataforma, um conjunto de princípios e medidas que constituem a base programática do candidato. Daí que seja natural em cada eleição haver mais do que um candidato de cada partido.
Este sistema permite que os cidadãos se envolvam mais à vontade na política, porque, ao apoiarem uma candidatura, aderem ao candidato e à sua plataforma, não ao partido. Seria bom que em Portugal se evoluísse para uma forma semelhante de acção política, conhecido que é o descrédito que os portugueses têm em relação aos partidos políticos.

A candidatura de Manuel Alegre deu indicações de que há receptividade para evoluir nesse sentido, mas criou a ilusão de que as candidaturas independentes é que são boas e as dos partidos só representam a podridão do sistema, e esse é um erro crucial para a democracia que Helena Roseta se arrisca a cometer. Porque a sua candidatura, a acontecer, não tem no momento presente o mesmo cabimento que teve a candidatura de Manuel Alegre, e porque uma eleição presidencial não é igual a uma eleição autárquica, desde já porque para esta é preciso reunir uma equipa, e nesse caso a estrutura partidária é uma vantagem inestimável.

O que faz mais falta à democracia não é demonizar os partidos políticos, mas lutar por dentro para que estes sejam verdadeiras organizações pluralistas de intervenção cívica e política, e não meros clubes recreativos em que a acção política é feita pelo aparelho, enquanto que às bases resta fazer claque nas eleições e caravana na noite da vitória eleitoral.
O que faz mais falta à democracia portuguesa é criar o hábito de mobilização dos cidadãos para causas bem determinadas, para plataformas de entendimento, sem que a isso tenha que se seguir a criação de um movimento como o Movimento de Intervenção e Cidadania, que se dedica a várias causas que não têm outra relação para além da de integrarem a mesma visão de conjunto sobre a sociedade. Ou seja, o que o MIC faz é o mesmo que faz um partido, mas sem lhe dar esse nome, para não assustar os cidadãos. O MIC é agora para a democracia portuguesa o que o Bloco de Esquerda foi quando apareceu, com o resultado que se viu, e que não poderia ser outro - e a meu ver bem, embora eu já tivesse dado para esse peditório.

Helena Roseta seria uma boa candidata do PS à Câmara, e o PS faz mal em não a querer, se é verdade que foi isso que se passou. Mas, apesar de ganhar, para já, em ser a única figura motivada para gerir uma Câmara sobre-endividada e sem margem para executar um programa político, ao colocar-se de fora da maneira como se colocou Helena Roseta põe em risco qualquer possibilidade de um entendimento à esquerda que é já de si difícil, e contribui para aumentar a confusão do eleitorado quanto à existência de uma alternativa credível para a Câmara da capital.

quarta-feira, maio 09, 2007

Blair e a História


A cerimónia histórica de ontem em Belfast representa um dos maiores êxitos de Tony Blair. Não deixa de ser de assinalar que os únicos protestos que mancharam o evento no exterior tenham sido de opositores da guerra no Iraque, que aproveitaram a ocasião para se fazerem ouvir, deixando um irónico sumário do legado ambivalente de Tony Blair enquanto figura histórica...

Introdução à luta de classes

Assim que soube que tinha saído o DVD, corri a comprá-lo. Novecento, de Bernardo Bertolucci é um catecismo socialista. É tipo "Os Dez Mandamentos" de Cecil B. de Mille, ou qualquer épico bíblico, mas artisticamente muito mais bem conseguido. Não é só um filme grande (5 horas), é um grande filme.

terça-feira, maio 08, 2007

Arre, que é ruim II

Proponho um exercício mental para quem ainda não tenha visto SM 3: chama-se "detecte a simbologia cristã de um filme aparentemente tontinho".

Uma pista: libertação do 'mal' numa torre de igreja. E mais não digo.

Outra, "spot the Stars & Stripes".

Arre, que é ruim.

Só se safam os soberbos efeitos especiais: 30 minutos em 180. De resto, uma xaropada de primeira apanha. Quase tão mau como o Maria Antonieta da Sofia Coppola (também com Kirsten Dunst). Com a diferença de que no caso do SM 3 não há uma misericordiosa guilhotina a pôr fim ao despautério.

segunda-feira, maio 07, 2007

Laicidade qb

Os membros deste blog costumam ser ferozes defensores da laicidade, da laicização do espaço público português e de uma visão particular da história, em que a separação entre Estado e religião institucional é vista como um sintoma de modernidade e progresso.

O que se passa neste momento na Turquia serve de chamada de atenção para a importância do contexto (cultural e histórico) em que se analisam causas aparentemente universais, tais como a laicidade. Na Turquia, os guardiões da laicidade são os militares. Estes têm revelado tremendas dificuldades em se habituar à ‘normalização’ da vida institucional turca, que inclui, naturalmente, a aceitação da supremacia das instituições civis e democraticamente eleitas.

Ora, no passado dia 27 de Abril, o exército levou a cabo aquilo que o Economist chamou um “e-coup”, um “golpe militar electrónico”: colocou na website do CEMGFA uma ameaça velada de “intervir”, caso a “deriva islamista” das instituições civis não parasse. Já.

Sem entrar em descrições detalhadas dos aspectos mais recentes e enfadonhos desta suposta “deriva islâmica”, importa esclarecer que desde que o partido do Primeiro-ministro Erdogan (o AKP), chegou ao poder em 2002, a Turquia – um país cuja Constituição é quase tão laica como este blog – tem assistido a uma gradual (e saudável!) separação não entre Estado e Igreja, mas antes entre Estado e Forças Armadas. A Turquia abriu-se política e economicamente mais nestes 5 anos do que nos 20 anteriores. A este processo de modernização e emancipação da democracia turca da asfixiante tutela militar não foi alheia a (legítima) aspiração a entrar na União Europeia.

Muitos entres nós (o “crowd” laico) sentimos por vezes alguma indecisão entre dedicar a nossa empatia aos militares (laicos, ‘ocidentalizados’), ou aos adeptos do partido islâmico. Essa indecisão é agravada, no meu caso, por conversas que tenho com amigos turcos que exprimem angústia em relação à possibilidade de uma subversão lenta e intra-sistémica do Estado laico turco por parte dos ‘islamistas’. Também não é difícil encontrar declarações de Erdogan (dos seus tempos rebeldes, ainda bem longe do poder) bem venenosas em relação a uma certa minoria religiosa que recentemente fundou um certo Estado na região…

Mas no contexto turco, a alternativa ao islamismo moderado e virado para a Europa é o nacionalismo chauvinista, defensivo e autoritário dos militares e do partido fundado por Atatürk (Partido Popular Republicano…). Há que resistir à tentação de analisar o que se passa na Turquia fazendo uso de categorizações simplistas (laicos vs. anti-laicos). Seria infinitamente mais útil ver as coisas nos termos em que Olli Rehn, Comissário europeu para o alargamento, as descreveu hoje no Parlamento Europeu: a escolha da Turquia é entre “democratic secularism” e “authoritarian secularism”. São estas as opções na mesa, e não França vs. Taliban, ou Alemanha vs. Arábia Saudita.

Cabe à Europa ajudar a Turquia a cimentar a democracia e a laicidade e demonstrar que ambas são inseparáveis. A primeira sem a segunda fica incompleta; a segunda sem a primeira chama-se ditadura militar.

E todo o conhecedor da história de Portugal sabe no que dão ditaduras militares: regimes fascistas seguidos de guerras seguidas de revoluções populares seguidas de democracia
seguida de blogs revanchistas de miúdos queques com saudades dos tempos em que toda a gente sabia o seu lugar e usava chapéu. E nós não queremos isso para a Turquia, que é boa gente.

Números

Já que tanta gente está impressionadíssima com a força dos números da vitória de Jardim, que tal colocá-los em perspectiva matemática.

- Alberto João Jardim, vencedor das eleições regionais na Madeira com 90 339 votos.

- Lei das Finanças Regionais, aprovada por 121 deputados do PS, eleitos por 2 588 312 votos.

Get it?

Aspirina católica

Em Espanha teme-se o recuo dos valores católicos essenciais face ao avanço da epidemia de homossexualidade e do "revisionismo" de alguns movimentos da Igreja em voga na época da transição constitucional - Cristãos pelo Socialismo, Teologia da Libertação. O arcebispo de Pamplona dá a receita para tratar a doença de que enferma o país: «Comunión Tradicionalista Católica, Alternativa Española, Tercio Católico de Acción Política, Falange Española de las JONS têm um valor testemunhal que pode valer um voto, e poderiam constituir alianças importantes se conseguissem o apoio suficiente dos cidadãos católicos».

Não se morre do mal, morre-se da cura.

Mais sobre a lei do tabaco

Aquela que me parece ser a verdadeira questão sobre a lei do tabaco.

The Queens

Helen Mirren foi convidada para jantar com a rainha no Palácio de Buckingham. O discurso na noite dos Óscares caiu bem junto da monarca, que manifestou o desejo de conhecer a actriz. Encontrando-se a filmar nos EUA, Helen Mirren agradeceu o convite e pediu desculpa por não o poder aceitar na data proposta, uma vez que atrasaria as filmagens, demonstrando profissionalismo e respeito pelos compromissos assumidos.

Fontes próximas do palácio não tardaram em transmitir à imprensa notícias da "afronta" e passaram uma mensagem de insulto que não me parece corresponder de todo à atitude da actriz. Talvez fosse ocasião para os assessores da soberana se recordarem das qualidades da rainha que Mirren elogiou e que motivaram o convite: responsabilidade e sentido de dever.

Valem para todos sabem? Mas, enfim, talvez não saibam. Essa é já uma dimensão excessivamente republicana para ser apreendida por todos nos corredores do palácio...

Open race

Republicanos desiludidos aproximam-se de Obama. Hillary, watch out.

Mais escoceses

Já começa a parecer obsessão, mas eis que mais um escocês está nas notícias. Jack Reid, ministro do Interior britânico, anunciou que não continuará num governo com Gordon Brown, permitindo-lhe renovar o executivo e começar um novo ciclo. Rival de longa data de Brown, por vezes apontado como possível candidato alternativo à sucessão de Blair, Jack Reid sai num contexto em que não são claros os efeitos para o provável futuro PM. Reforça-o, desaparecendo um foco de oposição interna e com quem tinha um relacionamento difícil? Ou enfraquece-o, uma vez que perde um peso-pesado que sai da esfera mais controlado do Governo e regressa ao parlamento?
Time will tell.

Back to Scotland

Já perceberam que estou vidrado na Escócia. Novidades dos últimos dias adensam as incertezas. Primeiro, e depois de dizerem que, em princiípio, não se coligam com o Labour, os Liberais Democratas confirmam que se o referendo sobre a independência não sair da agenda dos nacionalistas, não há coligação possível (para o tripartido maioritário só os verdes deram, para já, assentimento). Governo minoritário do SNP com os Verdes é, pois, uma séria probabilidade.

De seguida, um possível efeito-Flórida pode avizinhar-se. Numa eleição em que o SNP apenas ficou à frente por um mandato, um trabalhista derrotado pondera uma impugnação judicial motivada pelo caos na votação e escrutínio que se verificou em vários locais. Caso avance, reabre-se a incerteza quanto ao maior partido.
Ainda a acrescer, temos a deputada independente Margo MacDonald, que poderá ser o fiel da balança no parlamento de Holyrood, a ponderar uma candidatura a Speaker do Parlamento. Como ninguém a quererá hostilizar, arrisca-se a poder ser eleita.
Finalmente, a espada de Dâmocles - ou há governo até finais de Maio, ou regressa-se às urnas. E regressar às urnas depois de Maio significaria regressar às urnas com outro inquilino em Downing Street, muito provavelmente um escocês...
SNP - 47 mandatos
Trabalhistas - 46 mandatos
Conservadores - 17 mandatos
Liberais Democratas - 16 mandatos
Verdes - 2 mandatos
Independente - 1 mandatos

Provocaçãozinha


Costumo ser pouco radical e provocador por estas bandas, aquilo que na gíria normalmente se descreve como um chato. Mas há pouco vi citada uma das frases de Sarkozy e só me lembrava da divisa do Estado Francês de Pétain, que arrumou na gaveta a trilogia republicana que encabeça, entre outros, este blog. Sarkozy prometeu: "Je vais réhabiliter le travail, le respect et la morale". A divisa do estado pétainista era: "Travail, Familie et Patrie".
Venham daí esses comentários indignados, que também tenho direito!

domingo, maio 06, 2007

As duas surpresas

PND e MPT elegeram, cada um, um deputado à Assembleia Legislativa Regional da Madeira. Confesso que esperava um bom score do PND, tendo em conta a campanha desenvolvida pelo líder regional através da técnica de stalker das inaugurações de Jardim, tendo até imaginado este cenário de eleição de um deputado. O MPT é que me apanha totalmente na curva - escapam-me provavelmente factos locais relevantes para a eleição de um deputado e até para a o resultado à frente do PND.





Uma explicação possível pode passar pelo score muito elevado do PSD e pelo score baixo do PS e os seus efeitos no método d'Hondt num cenário de círculo único. O PSD capitaliza claramente o estatuto de maior partido para efeitos de apuramento, mas é um efeito potenciador que tem limites a partir de uma determinada fasquia percentual. O PS, por seu turno, não beneficia do efeito potenciador do método d'Hondt para os segundos partidos uma vez que tem um score que, em sistemas de dois grandes partidos é, usualmente, de terceira força política. Neste cenário, não se dispersam votos, beneficiando todos os pequeneos partidos candidatos. De facto, coisa inédita, todos os partidos concorrentes estão representados. Pelo menos desta perspectiva, a mudança da lei eleitoral foi positiva e contribui para o maior pluralismo do parlamento madeirense (bem necessário nesta legislatura regional que se inicia).

Balanço do bailinho

Agora com resultados finais, ensaie-se o balanço.
Jardim esmagou, o PS quebrou a tendência de crescimento lento que iniciara na década de 90 e regressa a núneros da década de 80, a CDU aparece com terceira força pela primeira vez, ultrapassando o CDS e o BE falha na eleição de dois parlamentares, ficando aquém dos resultados mais simpáticos da sua antecessora na região, a UDP.



Para Marques Mendes é positivo ver PSD e vitória na mesma frase (nos dias que corre acho que basta que PSD não surja na mesma frase com Lisboa ou arguido para ser um bom dia para o presidente do partido). Mas apesar disso, a aposta foi de Jardim e foi Jardim que confirmou ser o senhor da ilha. Porém, na linha do que o João há pouco disse, ganhar na Madeira não significa qualquer legitimidade acrescida para alterar leis da República. E é precisamente aí que Marques Mendes estraga o pouco capital que podia tirar desta vitória nesta noite, desbaratando mais um bocadinho da pouca credibilidade que ainda lhe resta. Ao pedir que se tirem ilações apela a leituras inaceitáveis para o princípio democrático e para a repartição de competências entre órgãos constitucionais. Era algo que todos já sabíamos - ganhe Jardim ou não, a lei não vai mudar. Que Jardim tenha querido tomar novo banho de legitimidade eleitoral e ficar mais perfumadinho com os votos que recebeu, é uma coisa (coisa desnecessária, criadora de instabilidade política e forçando artificialmente a realização do acto eleitoral, mas isso já foi dito e já lá vai). Agora, que o presidente do PSD nacional acrescente ao silêncio cúmplice que mantém em relação ao défice democrático madeirense (veja-se a parte final da última entrevista a Judite de Sousa e em particular a ausência de comentários à ilegalidade do "inauguracionismo" jardinista) o sufragar de uma tese populista e perigosa para o relacionamento institucional entre as Regiões e os órgãos de soberania é bem mais grave para o seu partido.


Finalmente, embora tangencialmente, parece não ter sido nem o melhor score do PSD (64,2% "apenas", contra 65,33% em 1980), nem o pior do PS (15,42% apenas - aqui com mais propriedade - contra 15% em 1980). Não diminui a vitória do primeiro, nem é consolo para o segundo, mas pelo menos não parece tão esmagador e claustrofóbico para quem vai ter de fazer oposição no Funchal.

O Motivo do Jardim


Quem tivesse dúvidas sobre um dos principais motivos que levaram à demissão de Alberto João Jardim, e que provocaram as eleições de hoje, terá ficado esclarecido com a vontade expressa deste “irredutível” em negociar com o Governo da República a Lei das finanças regionais.

De facto, e para além da óbvia intenção de prolongar o seu último mandato, Jardim pretendia principalmente a legitimação política que lhe permitisse uma melhor posição para negociar a redução dos cortes nas "remessas de Lisboa" e a obtenção eventual de parte das colectas de impostos na Madeira.

O que é necessário realçar é que esta vitória, por mais esmagadora que seja, expressa apenas a vontade dos Cidadãos Madeirenses em que não seja reduzido o ritmo de desenvolvimento da sua Ilha. Podemos comparar esta eleição a um referendo com a seguinte pergunta: “Deseja ver reduzidas as verbas destinadas ao desenvolvimento da sua ilha?”. Obviamente que, excluindo os militantes dos outros partidos e as franjas mais descontentes da população, os restantes quase 70% disseram que não.

Apenas à luz destas condições extraordinárias, e com a ajuda dos habituais métodos antidemocráticos (tenho duas costelas madeirenses e ouço falar disto desde sempre) e de um orçamento que igualou o da campanha do nosso actual Presidente da República, podemos aceitar esta inversão de uma tendência de declínio da votação no PSD que se tinha vindo a sentir nos últimos tempos na Madeira.

Alberto João Jardim conseguirá os anos adicionais de mandato que lhe permitirão retirar-se daqui a dois anos e ainda atirar um barro à parede durante o restante mandato, mas espero que o Governo da Republica não ceda na aplicação de uma Lei que irá permitir uma distribuição mais justa dos recursos (por natureza escassos) disponíveis.

Pequenas dissonâncias

Concordo em quase tudo com o David, com excepção do remate final. Ganhando a Direita umas eleições limpas e democráticas em França, ganha também a República. Já na Madeira é que não encontro o enraizamento das práticas republicanas e democráticas que me habilitariam a dizer o mesmo...

Ui...

RTP/UCP
PSD - 62% a 67%
PS - 14% a 17%
CDU - 5% a 7%
CDS - 4% a 6%
BE - 2% a 4%

SIC/Eurosondagem
PSD - 67,1% a 70,9%
PS - 11,2% a 14,8%
CDS - 4,4% a 6,6%
CDU - 3% a 5,2%
BE - 1,5% a 2,9%
MPT - 1,4% a 2,8%
PND - 1,1% a 2,5%

Courage!

A França não vai tão cedo esquecer a dignidade e a abnegação com a qual Ségo lutou pela renovação moderna e socialista da República. Eu confesso que demorei tempo a ser convencido, mas o debate contra Sarko mostrou uma mulher bem preparada e competente, pronta para tomar as rédeas da França, o país que continua, para muitos de nós, a ser fonte de inspiração.

Só aponto dois erros de conteúdo ao discurso de Ségo: no domínio económico, demasiado estatista/protecionista , numa linha ideológica que os socialistas franceses fariam bem em abandondar quanto antes, sob pena de um dia serem o último partido social-democrata/socialista europeu a defender o dogma Keynesiano com unhas e dentes; o discurso de género de Ségo era fraco, senão mesmo reaccionário - muita conversa sobre apoiar a maternidade, e defender (no debate com Sarko) "as mães que ficam toda a vida a tomar conta dos filhos em casa e que depois têm pensões de miséria" - cocktail venenoso de paternalismo estatista e discurso anti-emancipatório.

Mas de resto Ségo emanou luz, optimismo e confiança no poder renovador dos valores republicanos, em contraste absoluto com o discurso cínico de Sarko que nunca parou de apelar aos medos, aos ódios e às fraquezas dos eleitores.

Ganha a Direita, perde a República.

E pronto, confirmou-se...


Parabéns!


Hélas...

Ainda não há resultados oficiais, nem sondagens, mas já se começou a celebrar a vitória na sede de Sarkozy...

Generalíssimo






Alberto João Jardim acabou de votar na Escola Secundária Francisco Franco. Inspiracional.

sábado, maio 05, 2007

Susan B. Anthony


Excerto da defesa de Susan B. Anthony, em 1873, perante o tribunal onde era julgada por ter votado numa eleição presidencial norte-americana:

The preamble of the Federal Constitution says: "We, the people of the United States, in order to form a more perfect union, establish justice, insure domestic tranquility, provide for the common defense, promote the general welfare, and secure the blessings of liberty to ourselves and our posterity, do ordain and establish this Constitution for the United States of America."

It was we, the people; not we, the white male citizens; nor yet we, the male citizens; but we, the whole people, who formed the Union. And we formed it, not to give the blessings of liberty, but to secure them; not to the half of ourselves and the half of our posterity, but to the whole people - women as well as men. And it is a downright mockery to talk to women of their enjoyment of the blessings of liberty while they are denied the use of the only means of securing them provided by this democratic-republican government - the ballot.

For any state to make sex a qualification that must ever result in the disfranchisement of one entire half of the people, is to pass a bill of attainder, or, an ex post facto law, and is therefore a violation of the supreme law of the land. By it the blessings of liberty are forever withheld from women and their female posterity. To them this government has no just powers derived from the consent of the governed. To them this government is not a democracy. It is not a republic. It is an odious aristocracy; a hateful oligarchy of sex; the most hateful aristocracy ever established on the face of the globe; an oligarchy of wealth, where the rich govern the poor. An oligarchy of learning, where the educated govern the ignorant, or even an oligarchy of race, where the Saxon rules the African, might be endured; but this oligarchy of sex, which makes father, brothers, husband, sons, the oligarchs over the mother and sisters, the wife and daughters, of every household - which ordains all men sovereigns, all women subjects, carries dissension, discord, and rebellion into every home of the nation.

Webster, Worcester, and Bouvier all define a citizen to be a person in the United States, entitled to vote and hold office. The only question left to be settled now is: Are women persons? And I hardly believe any of our opponents will have the hardihood to say they are not. Being persons, then, women are citizens; and no state has a right to make any law, or to enforce any old law, that shall abridge their privileges or immunities. Hence, every discrimination against women in the constitutions and laws of the several states is today null and void, precisely as is every one against Negroes.

sexta-feira, maio 04, 2007

Vitória tangencial


Confirmaram-se as previsões e o Labour perdeu. O SNP conseguiu, por um lugar, ser o maior partido no próximo parlamento escocês e ser ainda o partido mais votado em número absoluto de votos. O que se segue é a incerteza. A acrescer à vontade de referendar a independência daqui a 3 anos, as negociações para formar coligação de governo complicam-se também devido à correlação final de forças - os 65 lugares da maioria absoluta só estão ao alcance de uma coligação de dois partidos (SNP e Labour), que é de todo improvável. A única possibilidade matemática lógica que permitirá a Alex Salmond ser o próximo First Minister e deixar satisfeito Sean Connery, indefectível do SNP desde há vários anos, aparenta ser o tripartido SNP - Liberais - Verdes (que chegaria exactamente aos 65 votos).
Tempos interessantes avizinham-se em Edinburgo.

Mais sobre a Lei antitabaco

Depois de alguma polémica no meu último post sobre a Lei antitabaco justifica-se um novo post para não deixar morrer um debate de ideias interessante.

De acordo com os números apresentados por quem mais a defende, 82% de portugueses que concordam com esta Lei e existem apenas 30% de Fumadores na população portuguesa.

Se, neste quadro de grande insatisfação, a sociedade e o mercado não conseguem encontrar uma solução que permita que existam restaurantes e até bares ou discotecas onde não se pode fumar, então assumo que estes 82% de cidadãos apoiantes desta Lei não estão suficientemente preocupados. Como disse o Hugo na resposta ao meu último post, são cidadãos "passivos" (como o serão na delação das infracções, garantindo o falhanço da Lei), que pedem a intervenção legal para substituir o que deveria ser o seu papel na exigência individual e/ou organizada por espaços livres de fumo.

Em relação à minha vontade de comer mal e à eventual vontade dos mesmos Cidadãos passivos saudáveis exigirem que alguém me regule, creio que não é um passo muito complicado (mas muito perigoso). Basta esforçarem-se por concluir que as pessoas que escolhem ter estes hábitos apresentam maior propensão a problemas de saúde, que originam despesas adicionais no SNS e que, por exemplo, o Estado não tem nada que pagar os seus tratamentos (não faltariam defensores passivos mas saudáveis para esta ideia absurda).

Felizmente não se verifica da parte do Estado uma atitude persecutória em relação aos obesos e assiste-se a um foco na prevenção e tratamento da obesidade, por exemplo baixando o valor das cirurgias e tratamentos. Para mim deve ser esse o principal foco de uma Lei contra o problema do tabagismo e não esta proibição e meia dúzia de acções isoladas de prevenção e tratamento em poucos centros de saúde.

Repito que concordo com a defesa dos Cidadãos que não gostam de ser incomodados pelo fumo do tabaco, mas a melhor forma de os defender é criar uma Lei que respeite os direitos individuais de todos, mesmo os direitos menos fundamentais (concordo com o David).

Para concluír, parece-me claro que uma Lei fundamentalista, que depende da delação dos ditos Cidadãos passivos, nunca será efectiva em Portugal. Mas estou seguro que, se o mercado e a sociedade civil (passiva em Portugal) não conseguem o equilíbrio, o Pedro será capaz de escrever o texto de uma Lei equilibrada e justa, com mecanismos de regulação eficazes e penalidades adequadas, que tornem mais branda e eficaz a mão visível do estado.

Boy, I didn't see that coming!


Se Carmona é velhaco, boa pessoa ou só ingénuo é coisa sobre a qual ainda estou indeciso, mas estou inclinado para a última. Quando do episódio do aperto de mão a Carrilho no debate, a sua reacção escandalizada, como se nada tivesse feito para provocar a reacção do opositor, pareceu-me a do menino que parte a jarra a jogar à bola dentro de casa e assiste impavidamente enquanto a criada arca com a culpa. Quando assisto à ligeireza com que se tomam decisões importantes na Câmara de Lisboa, hesito entre um extremo e outro.

Mas ontem, na conferência de imprensa que se julgava ser de despedida, assistiu-se a um suicídio político involuntário (a antítese assenta bem à personagem) como não se esperava.
Carmona recusa renunciar ao mandato. Carmona está em minoria, pelo que basta a renúncia da oposição em bloco para fazer cair a Câmara. Anacoreta Correia diz que não se demite, mas há seis vereadores do PSD que dizem que sim. As contas eram fáceis de se fazer, o cenário era previsível. Marques Mendes se calhar até já sabia o que Carmona ia dizer ontem, mas utilizou a elusiva expressão "consonância" na sua conferência de imprensa para estender a escada ao Presidente da Câmara, e o que ganhou em não reagir energicamente na entrevista a Judite de Sousa só ele sabe.

Ontem, Carmona perdeu mais do que uma oportunidade de sair com uma réstia de dignidade de um desastre que começou em 2001 - perdeu uma boa oportunidade de estar calado.

E então?

Há uma paranóia nos comentadores da Sky News com Gordon Brown e as eleições escocesas e que assenta na pergunta: "como é que um escocês pode aspirar a ser primeiro-ministro quando o seu partido perde as eleições na sua terra de origem?"

Junta

Com esta história da assembleia municipal e dos presidentes da junta, lembrei-me desta pérola:


Poucas notícias

Poucos resultados, um deputado conquistado pelo SNP ao Labour, e uma tendência de migração de votos do Labour para o SNP que inidicia uma vitória destes últimos. Continuemos a aguardar.

Mau tempo ajuda suspense

Notícia recente aponta para um atraso na contagem dos votos dos habitantes das Orkney, uma vez que o helicóptero que deveria trazer as urnas não pode levantar. Só amanhã, quando chegarem de ferry boat é que se poderá concluir o processo - 8 lugares em causa, que podem fazer toda a diferença numa eleição que se anuncia too close to call.

quinta-feira, maio 03, 2007

Noite eleitoral à antiga


Ainda se aguardam os primeiros resultados eleitorais do Reino Unido. Como devem imaginar pelos meus posts, estou particularmente curioso por saber o que vai acontecer na Escócia.
Por enquanto não há novidades. Comentadores especulam, poderam os efeitos dos maus resultados do Labour na transição de poder de Tony Blair, analisam os jornais de amanhã.
Vejam lá se anunciam algum vencedor!

Legitimidades diversas

É inegável que juridicamente a assembleia municipal tem toda a legitimidade democrática do mundo para levar até ao fim o seu mandato. Mas, ao contrário do que Paula Teixeira da Cruz afirma, a questão não é essa - em causa está a legitimidade política de um órgão eleito num contexto de eleições simultâneas para câmara e assembleia e em que os eleitores fazem o seu juízo conjuntamente, conhecendo e pesando as consequências das suas escolhas.
E não se invoque o caso o mandato anterior, em que a maioria na assembleia era distinta da da câmara para justificar a possibilidade de ser esse o resultado prático das próximas eleições: naquele caso, os eleitores decidiram expressamente no sentido de dividir os votos e conscientemente escolheram diferentemente para os dois órgãos.

É certo que, no meio de tudo isto, a presença dos presidentes de junta na assembleia baralha as contas e torna imprevisíveis a eleição para a assembleia municipal. No caso de um resultado aproximado numas hipotéticas eleições antecipadas para a assembleia, o PSD pode até manter a maioria graças aos presidentes das juntas. Mas mesmo que assim seja, ainda assim tratar-se-ia da anomalia do costume, inerente ao sistema político autárquico que temos.

A situação pode contribuir para tornar mais clara a necessidade de, pelo menos, retirar o direito de voto aos presidentes de junta de freguesia nas assembleias municipais, sob pena da lógica eleitoral dos órgãos da freguesia continuar a contaminar a do município, que é francamente diferente.

Presa por ter cão, presa por não ter...

Não há maneira mais eficaz (e mais insidiosa) de degradar uma pessoa inteligente do que elogiá-la como mulher.

Sobre a lei antitabaco

A actual campanha internacional de perseguição dos fumadores, reflectida na Lei actualmente em discussão, é tão fundamentalistas e desequilibrada como bem intencionadas e saudáveis são as pessoas que a defendem.

A prova de que não existe uma equilíbrio de todos os aspectos e impactos desta Lei reflectiu-se no debate na assembleia. Assistiu-se a um debate dominado exclusivamente por pessoas ligadas à saúde e aos estudos sobre a saúde pública, num ambiente de unanimidade que apenas é possível quando não há coragem para defender a Liberdade dos 30% de cidadãos fumadores em Portugal.

Assistimos hoje a um renascimento dos valores clássicos da cultura do corpo e dos bons hábitos de saúde. A reboque dos EUA perseguem-se os fumadores, abominam-se os gordos, desconfia-se de quem bebe e de quem não vai ao ginásio.

Não tenho qualquer dúvida que este ambiente “saudável” e este foco da maioria das pessoas na sua saúde individual é fantástico para quem escolhe viver de acordo com estas regras e terá os seus impactos positivos (sem necessidade de intervenção legal) na saúde da população.

Acontece que, em Democracia, o objectivo de Legislar não é apenas o de limitar liberdades dos que escolhem não viver de acordo com a “volonté générale”, nem é satisfazer os 82% dos portugueses que apoiam a proibição de fumar em locais públicos (nº apresentado pelo Ministro da Saúde no “debate”). O objectivo da criação de uma Lei desta natureza terá sempre de ser temperada com a necessidade de defender os direitos dos 30% de Cidadãos fumadores.

Defendo também os direitos dos Cidadãos que não querem ser incomodados pelo fumo. Não sou um deslumbrado pelo mercado, mas parece-me óbvio que, se for dado o direito de escolha aos proprietários dos estabelecimentos e fazendo fé nos 82% de população a favor da proibição, o mercado encontrará facilmente um equilíbrio saudável de espaços de fumadores e não fumadores onde todos os cidadãos possam gozar as suas liberdades.

Numa altura em que devíamos estar a discutir a liberalização das drogas leves (e o seu consumo em locais públicos) estamos em risco de produzir uma lei que penaliza o consumo de uma substância legal em todos os locais públicos.

Eu até nem sou um fumador, mas gosto de estragar a minha saúde comendo e bebendo contra a roda dos alimentos. Quando vierem por mim talvez continue a haver quem fale.

Caderneta de cromos


É um autêntico page turner da blogosfera, ou, mais rigorosamente, um scroll roller. Verdadeiro museu virtual da iconografia da revolução, o Tócolante dá uma ideia da efervescente mobilização popular do PREC, através de autocolantes cuidadosamente coleccionados e preservados. A Boina recomenda vivamente, e adiciona à coluna da vizinhança.
(Em cima um autocoloante que me é particularmente próximo e querido...)

quarta-feira, maio 02, 2007

Panos e nódoas II - Don't play with my UK

'Gay Muslims at Pride 2005' (Londres)

Ainda em relação a este post revanchista queria acrescentar o seguinte ao que o Pedro disse.
Para começar, acho engraçado que em Portugal, da mesma maneira que o PC foi incapaz de se reinventar como esquerda moderna, afastando-se explicitamente dos conteúdos e do estilo de antes de 1989 (como outros PCs europeus fizeram), alguma Direita portuguesa ainda está a lamber as feridas de 1974 e continua a não conseguir aceitar genuinamente a herança de Abril.

Felizmente que esta Direita Miguelista-católico-nostálgico-marialva-monárquica é tão relevante do ponto de vista eleitoral-demográfico como os simpáticos Adventistas do Sétimo Dia. Mas fazem muito barulho (especialmente no ISCSP e na Católica), têm blogs e mantêm aceso o Kulturkampf português. Um dos elementos mais bizarros da ideologia retro desse grupúsculo é o amor pelo Reino Unido, ou como muitas vezes preferem chamar-lhe, pelo 'Reino de Sua Majestade'. Ora leiam com atenção. Eu cá não percebo: quatro anos em Inglaterra deixaram-me uma impressão de genuína modernidade, tolerânica, amor pela diversidade, ausência total da religião da vida pública, pragmatismo e crença fanática no poder transformador da Democracia e do Progresso - tudo embrulhado numa estética e numa forma monárquicas. Se fui para lá um francófilo inveterado, saí de lá rendido à mitologia política britânica, whatever that means. (Mas Dia da Bastilha há só um!) Os debates nos Comuns no século XIX, liderados por gigantes como Canning, Peel, Palmerston e Gladstone revelam mais profundidade Democrática do que a anémica Assembleia da República portuguesa de agora.

Deve ser a luta titânica com a França nos séculos XVIII e princípio do século XIX - e a mitologia da competição franco-britânica que ficou - que tanto fascina a Direita nostálgica portuguesa (que é francófoba, acima de tudo). Esquecem-se que o Reino Unido se opôs a todo e qualquer projecto hegemónico na Europa continental, independentemente do estandarte: espanhóis, franceses, alemães, habsburgos, bourbons, republicanos, bonapartistas, imperialistas alemães, nazis, não interessava.
A França e a Inglaterra representam projectos de modernidade talvez divergentes, o primeiro assente na República total, o segundo na republicanização dos conteúdos e na erosão gradual do poder da Coroa (ainda que mantendo a forma monárquica - the trappings of Monarchy): mas ambos representam o total oposto dos valores de alguém que acha que o 28 de Maio merece ser assinalado e que tem sentimentos ambivalentes (senão mesmo hostis) em relação ao 25 de Abril e ao fim da Ditadura.

Melhor do que o esperado

A única que se saiu bem da Comissão Winograd: Livni.

Panos e nódoas

Sou leitor habitual do 31 da Armada. Blog do outro "lado do espelho", em regra discordo do contéudo da linha editorial e ideológica, mas quase, quase sempre aprecio o estilo, o espírito e o humor. Contudo, é já a segunda vez que leio algo que me deixa desiludido. Sim, desiludido. Porque apesar de produto claro da direita, vejo no 31 da Armada um interlocutor democrático, que se revê nas regras da liberdade e do Estado de Direito e que enriquece sempre a discussão.
Da primeira vez, foi o David que o assinalou aqui na Bóina. Agora é um post que, ironizando com o estilo do Almanaque Republicano afirma que o 28 de Maio "é dia feriado na Arménia, no Azerbeijão em Santa Comba Dão e em algumas casas de respeito". Casas de respeito. Na linha do respeitinho ser muito bonito. Ou provavelmente de hoje ninguém se dar ao respeito.
Desvalorizar o 25 de Abril é desvalorizar a conquista da liberdade. Saudar o 28 de Maio, ainda que com a piadola, é valorizar o início da ditadura. Talvez devam espreitar para Itália, onde o 25 de Abril local é comemorado pela direita democrática, ou olhar para Paris, onde o nosso 25 de Abril é comemorado na sede da campanha de Sarkozy.
Acho ainda interessante que ninguém tenha assinado o post, que surge da pena do anónimo colectivo, 31. Enfim, às vezes mais vale ser o colectivo a atravessar-se por aquilo que vai na alma de cada um...

Lógica

Bush vetou, como esperado, a proposta do Congresso de reforço de fundos para a guerra no Iraque, uma vez que esta trazia consigo a fixação de um prazo indicativo para o início da retirada, porque tal significaria fixar um "prazo para o fracasso". Manter as coisas com estão é, de facto, muito mais claro, porque não teremos de aguardar por um prazo para afirmar que a intervenção é um fracasso...
Discurso da "missão cumprida", há exactamente quatro anos

terça-feira, maio 01, 2007

300 anos depois


Celebram-se hoje os 300 anos da união jurídica entre a Escócia e a Inglaterra, o Act of Union de 1707, concluído no reinado de Ana Stuart. Aniversário discreto, debaixo da sombra do possível desejo dos Escoceses de regressar status quo anterior à data, a ver já na próxima quinta-feira.
Curiosamente, Tony Blair reafirmou que espera que o escocês Gordon Brown (que muitos afirmam, maldosamente ou não, ser meu sósia) seja PM daqui a semanas.

Há 33 anos, o dia que eu gostava de ter vivido


Free at last!
Free at last!
We are free at last!

Pior do que o esperado II - with a vengeance



O companheiro Alves já disse muito bem o que havia a dizer sobre o relatório Winograd. Só tenho a acrescentar o seguinte.
Como se pode ver aqui o que distinguiu a liderança israelita na condução da Segunda Guerra do Líbano foi a incompetência, o improviso, o maximalismo irresponsável, a incapacidade de perceber a interligação entre operações militares e objectivos políticos, e a falta de consulta e concertação com gente com experiência militar.
Tudo isto contradiz a tese da esquerda Miguelportista sustentada pela investigação ligeiramente mais séria de Seymour Hersh do New Yorker, de acordo com a qual a invasão do Líbano já estava planeada há muito tempo, até porque os EUA queriam usar o Líbano como teste para a guerra seguinte contra o Irão (isso do ataque do Hezbollah foi "só um pretexto"). E, como toda a gente sabe, Israel faz aquilo que os EUA querem. Ou ao contrário, dependendo se se odeia mais um ou outro.
De qualquer forma, as fontes que Seymour Hersh usa são acima de tudo militares (israelitas e americanos) que de facto explicam como as forças armadas de ambos os países se consultaram mutuamente sobre cenários de guerra contra o Hezbollah. Uau, militares aliados a planear para a guerra! Que escândalo! Extra, extra, read all about it: Israeli military has plans for war against enemy - told US about it!
O que o relatório Winograd faz é explicar muito bem o que importa ser explicado: o processo de decisão política. É que em Israel, como em qualquer democracia, os militares podem passar os dias a conceber planos de guerra, mas quem toma as decisões são os políticos.
E o relatório Winograd demonstra que é ao nível político que foram feitos os maiores disparates; foi ao nível político que a ânsia de cortar um nó górdio de natureza essencialmente política - o papel do Hezbollah na região - com meios militares causou a catástrofe para Israel, mas acima de tudo para o Líbano.
Israel não tem poder para decidir com meses/anos de antecedência quando vai para a guerra.
Mas que não fiquem mal-entendidos: a incompetência irresponsável desta liderança israelita tem que ter consequências. Esta guerra - com as dimensões que teve e a tragédia que causou principalmente no Líbano - era evitável. O Relatório explica:
"the government did not consider the whole range of options, including that of continuing the policy of 'containment', or combining political and diplomatic moves with military strikes below the 'escalation level', or military preparations without immediate military action - so as to maintain for Israel the full range of responses to the abduction."
3 conclusões:
1. Este governo tem os dias contados; as eleições não tardarão;
2. O primeiro governo israelita dominado por civis falhou - é pena e terá consequências;
3. A única que se distinguiu naqueles fatídicos dias de Julho e Agosto pelo afã diplomático e que nunca concordou com a estratégia do 'vamos-acabar-com-isto-de-uma-vez-por-todas-custe-o-que-custar' foi a MNE Tzipi Livni; ela é a única cuja popularidade sobreviveu a isto tudo - fica aqui a previsão: o próximo PM israelita vai ser mulher e é a Tzipi.

segunda-feira, abril 30, 2007

Daqui não saio, daqui ninguém me tira

Paul Wolfowitz
Presidente do Banco Mundial

Carmona Rodrigues
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Tens aqui a tua gente

A Lusa noticiava há pouco o aparecimento de um novo blogue de apoio a Carmona Rodrigues. Intitula-se, contra-intuitivamente, O blog dos que querem que Carmona fique. Espreitem, porque demonstra que:
a) A imaginação humana não tem limites;
b) Enterrar a cabeça na areia não é privativo das avestruzes;
c) "Ele nem é de cá, só veio ver a bola"

Reparem ainda o quão plural e em busca do diálogo o novo vizinho se propõe ser. No post inaugural afirma-se que "dada a natureza e o objectivo deste blog, a publicação dos comentários aqui colocados dependerá da adequação a esta linha editorial."

Ainda o 25 (para rematar o ciclo bloggicioso)

Após o desfile da Avenida, na quarta-feira passada, os elementos do grupo de bloggers já aqui aludido anteriormente reflectiam, na Rua António Maria Cardoso, que, se vivessem há mais de 60 anos, seriam provavelmente militantes do Partido Comunista, mesmo que para mais cedo ou mais tarde se demitirem ou serem expulsos. Não havia, de facto, alternativa para desenvolver uma acção política consequente, desmobilizada e desorganizada que estava a oposição democrática, e perante o desânimo da primeira república.

Se foi assim na esquerda, pior foi na direita. Durante 48 anos, qual eucalipto, o regime reaccionário que existiu secou tudo à sua volta, não deixando espaço para o desenvolvimento de uma direita crítica e consistente, como a que se desenvolveu em França em torno do General de Gaulle. Essa atitude ajuda a explicar um certo alheamento da direita em relação ao 25 de Abril: de facto, a direita mais representativa no plano político português ou está demasiado presa às pouco recomendáveis referências cívicas do antigo regime, ou é composta por militantes que se identificam mais por reacção do que por afirmação positiva, ou por serem contra o deboche activista da esquerda (e eu debochado me confesso), ou por permanecerem amargurados com as consequências pessoais do PREC ou da descolonização.

O 25 de Abril é, entre outras coisas, um momento de libertação do obscurantismo que não é património exclusivo de qualquer família política. Esse património de liberdade é pertença de quem se reveja nos valores nucleares do regime, e pode ser acolhido por uma direita, liberal ou conservadora, europeia (que não necessariamente europeísta) ou não, em suma, por uma direita que não viva voltada para si própria, disposta a aceitar o compromisso democrático, e que se possa constituir como verdadeiro contraponto ideológico e não como uma mera agremiação dedicada à exploração política de determinados tópicos de uma agenda política maleável à vontade dos interesses do momento.

P.S.: O cravo na lapela também não tem dono. É um símbolo e um ícone. Não caiem os parentes na lama a ninguém por o usar.

Associativismo

Uma amiga chamou-me a atenção para o facto de hoje se comemorar o dia do Associativismo. Segundo o e-mail que me enviou, remetido pelo Académico de Torres Vedras, o dia 30 de Abril foi escolhido para comemorar "O Dia do Associativismo" por ter sido neste dia do ano de 1974 que a Junta de Salvação Nacional criou pelo Decreto-Lei nº179/74, o Fundo de apoio aos Organismos Juvenis, organismo com o qual se abriu espaço e caminho para uma Politica de Juventude em Portugal. A todos os que se dedicam à construção da cidadania por esta via de participação, feliz dia do Associativismo!