quinta-feira, abril 19, 2007
Faz o que eu digo...
domingo, abril 15, 2007
Requiem
Kurt Vonnegut, Jr.
Li o meu primeiro livro de Vonnegut há quase dez anos, ainda nos tempos da Escola Alemã, uma escolha em relação à qual sempre ficarei grato à minha professora de inglês. Lembro-me até de que pude usar a cópia que a minha mãe tinha lido, no caso dela nos tempo da faculdade, quando os ares de Abril trouxeram outra literatura aos curricula. Slaughterhouse Five, provavelmente o mais marcante título de Vonnegut e aquele em que a sua vivência pessoal lhe dá um profundidade e uma capacidade superior de denunciar a irracionalidade da guerra, faz parte daquele conjunto de livros que me marcou de forma mais significativa.
Desculpem insistir...
Bastante claro, parece-me...
Eles ainda aí andam

Our man in Moscow
Gary Kasparov foi ontem detido em Moscovo quando se preparava para se manifestar contra o estilo autoritário e as políticas de Putin. Quantos episódios destes, acrescidos aos de Anna Politokvskaya ou de envenamentos por polónio serão necessários para que se leve a sério a falta de liberdade e democracia? Purga

Valeu a espera

sábado, abril 14, 2007
República aguarda-se

Parte da minha falta de escrita na Bóina deve-se a uma estadia de alguns dias na Catalunha. De lá venho imbuído de grande solidariedade para com os republicanos espanhóis, particularmente para com aqueles que na Catalunha viram as suas aspirações nacionais atendidas precisamente pelo advento da República, faz hoje 76 anos.

Aqui ficam o assinalar da efeméride e da memória da República Espanhola e os desejos de uma futura convivência de duas repúblicas democráticas no solo peninsular, que a marcha da História tem vindo a recusar.

Viva a República!
quarta-feira, abril 11, 2007
terça-feira, abril 10, 2007
Caput Mundi

Cheguei há 48 horas de Roma e ainda estou sob o efeito da cidade: da simetria, da beleza das formas simples, da monumentalidade intemporal, da omnipresença da história.
Estive nos Museus do Vaticano que contêm uma grande parte dos maiores tesouros artísticos do Ocidente.
E depois entrei na basílica de S.Pedro. Uma palavra: poder, poder, poder. Nunca tinha visto poder incarnado em arquitectura daquela maneira. Se ainda houvesse dúvidas: a Igreja foi e é uma máquina de concentração e distribuição de poder temporal e político, de legitimidade, de salvação etc.
Poder.
Mas lindo. Que bem que a Igreja aproveitou o génio infinito da Humanidade.
sexta-feira, abril 06, 2007
Fábula da Rotunda

Reduzida a história aos seus caracteres básicos, temos o seguinte:
Digamos que a isto respondem uns rapazecos com dinheiro para gastar, que de sérios não querem ter nada - o que me parece uma admirável forma de seriedade e lucidez - e que resolvem o assunto, colocando os outros no seu devido lugar.
Entra em cena a autoridade, conhecida por se distrair no momento de conceder licenças, com ânsia de zelosamente efectivar um regulamento de publicidade, dando sequência a um conjunto de acções em que o seu representante convoca a comunicação social para registar o momento em que, simbolicamente, começa a arrancar publicidade comercial das paredes de Lisboa, prometendo que nada será como antes (em boa hora). Por isso, manda arrancar o cartaz dos bons rapazes.
O cartaz dos maus está em vias de tornar-se um ex-libris de arte pública da cidade, não pela versão original, mas pelo o acto de desobediência civil que constitui a sua vandalização. O cartaz dos bons é sacrificado pela autoridade no labirinto da legalidade formal em que os maus se souberam mexer, mas o exemplo persiste.
Há vilão, herói e polícia tonto, tudo por esta ordem. Parece que temos enredo para opera buffa.
quinta-feira, abril 05, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
Mitologia Climática

Não se pode dizer que tenha havido um preocupante aumento da temperatura média, pela simples razão de que não é possível estabelecer ao longo dos anos (rectius, dos séculos) uma medição com base nos mesmos critérios e na mesma calibração de instrumentos. E isso de prever que os pólos vão derreter daqui a alguns anos é conversa fiada, pois, como se sabe, as previsões meteorológicas valem o que valem, até se pode dizer hoje que vai chover amanhã, e amanhã está um lindo dia. Pronto, há os CFC e tal, mas não é bem assim. Não se preocupem que isto há-de passar.
Os cientistas têm esta mania de nos fazerem vacilar nas nossas convicções. Quando tinha por certo que mais valia adoptar um comportamento ecologicamente responsável, lá me chega uma batelada de dados a constatar o contrário. É a ciência, estúpido!
Mas depois reparo: há cientistas de ambos os lados (nem vou, para já contar espingardas, mas já se sabe como a contagem está). E se de um lado tenho um Al Gore que não é ingénuo ao ponto de não aproveitar para benefício próprio a onda de simpatia que o documentário gerou (que para o meu colega nem vale a pena ver, tal é, afinal a dose de demagogia), e que, dizem as más línguas do Tennesse, tem um comportamento doméstico tudo menos environmental friendly, do outro lado tenho militantes cientistas como o autor do supramencionado blog, empenhados em fazer vincar um ponto de vista recorrendo ao estilo de prosa abusada de sarcasmo em vez de, quandomuito, uma tranquila, desinteressada e loquaz ironia, como é o caso dos textos do blog. O estilo faz-me desconfiar, e cientifismo militante é coisa para a qual não tenho saco, especialmente quando se começa a desmontar argumentos como um advogado a esmiuçar minudicências processuais de questionável relevância, como sejam a da calibragem dos instrumentos utilizados nas medições, ou a da falibilidade das previsões climatéricas (coisa que toda a gente sabe).
O estado da discussão hoje em dia não está tanto nas causas físicas do aquecimento, mas sim em saber se o aquecimento global não passa de um mero ajustamento à escala geológica, ou se tem uma causa humana. E enquanto isso, as calotas polares desagregam-se e andam ursos a descobrir novos mundos em blocos de gelo, até que derretam (sim a imagem do documentário é impressiva). Enquanto isso, as amendoeiras vão continuar a flrorir antes do tempo em Vila Nova de Foz Côa, os pardais chegam mais cedo, e eu não sei que roupa levo à rua amanhã.
segunda-feira, abril 02, 2007
O Público volta a fazer das suas

Em relação ao novo (antigo) plano de paz reiterado pela Liga Árabe, o Público online explica que "Israel viu 'elementos positivos' neste plano, mas rejeitou-o, principalmente devido à questão espinhosa do direito ao regresso dos refugiados palestinianos."
Se há uma coisa que Israel não fez até agora for rejeitar o plano.
Financial Times:
"The Israeli leader has indicated the document could be a basis for negotiations with Arab leaders, including those, such as Saudi Arabia, which were once regarded as hostile. Israel has treaties with only Egypt and Jordan."
International Herald Tribune:
"Olmert has spoken of 'positive elements' of the 2002 initiative, but he takes issue with certain of its elements, in particular the insistence that Palestinian refugees be allowed to return to Israel."
Haaretz:
"While generally welcoming the peace initiative endorsed by Arab leaders at a summit last week in Saudi Arabia, Israel has called several key components problematic and has been noncommital about how to proceed."
Afinal a coisa é complicada.
Fica o apelo.
Sempre que lerem notícias sobre Israel/Palestina no Público tenham o cuidado de também ler jornais civilizados. É que neste tema, o jornal tem dificuldades em ser sério. Também não se esforça muito.
A nova geração da Al Qaeda
Agora já há armas de destruição maciça no Iraque. Thanks a lot, George.
Pequeno detalhe

No debate sobre a necessidade (ou não) de o Hamas reconhecer o direito do Estado de Israel a exisitir, um dos argumentos principais da claque anti-Israel é: "se Israel não reconhece aos palestinianos o direito a viver num Estado porque é que os palestinianos hão-de ceder".
Dois pontos:
1. Israel é um membro das Nações Unidas desde 1948. Eu sei que custa, mas do ponto de vista legal, não reconhecer Israel é mais ou menos como não reconhecer a Espanha, ou o Luxemburgo. A Palestina existe geograficamente, mas não existe como Estado. Existe a Autoridade Palestiniana nascida dos acordos de Oslo.
2. Desde Sharon que Israel reconhece o direito do povo palestiniano a um Estado. Aliás, esse é um dos elementos principais do tal Roadmap generosamente violado por ambos os lados: no fim do Roadmap vem um Estado palestiniano. Esta posição afirmada por Sharon (contra a vontade do Likud) foi reiterada por Olmert.
Podemos discordar (como eu discordo) da maneira como Israel tem (ou não) contribuído para a criação de um Estado palestiniano. Mas o princípio de um Estado palestiniano não só já foi aceite por Israel, como deixou de ser polémico na opinião pública israelita.
Fico sem perceber como é que o Hamas quer ser levado a sério como parceiro para a paz se não consegue aceitar a realidade de Israel. Por causa da ocupação de 1967? Está bem, então fazemos assim, pedimos ao Hamas para aceitar que Israel teve o direito a existir entre 1948 e 1967. Combinado?
sexta-feira, março 30, 2007
Mais e maus sinais
Contudo, o cartaz representa uma alteração qualitativa significativa – agora o PNR parte ao ataque claro às comunidades imigrantes, “convidando-os” a sair e formulando um cínico voto de boa viagem. As faces xenófobas e nacionalistas começam a revelar-se publicamente e com mais nitidez. Apesar dos esforços do seu dirigente em afirmar que a crítica é apenas à “política de imigração” e não aos imigrantes, procurando o exercício de linguagens ambíguas e de moderação aparente, é cada vez mais transparente o programa discrimintório e xenófono.
Muito se tem discutido da legalidade do cartaz. No quadro legal actual é, de facto, discutível se podemos subsumir a mensagem a um incitamento à discriminação para efeitos da ilicitude penal. Contudo, a reforma do Código Penal, actualmente em curso na AR, poderá tornar mais difícil a passagem de mensagens com conteúdo discriminatório. Ainda assim, o caminho das medidas restritivas da expressão de ideias políticas extremas tem de ser cuidado e equilibrado. Claro que a lei penal tem de estabelecer limites para aqueles que querem abusar da sua liberdade de expressão, não podendo esta ser pervertida para permitir a propagação de mensagens de ódio. Mas há também que não permitir a vitimização e a invocação de perseguição e apostar sim na denúncia do conteúdo e dos valores subjacentes às propostas do PNR
Está quase
Espírito reformador
Fiscalização
Em parte, as proposta apostam num regresso às origens do parlamentarismo, procurando reforçar os mecanismos de controlo parlamentar da actividade governativa. Quanto maiores a fiscalização e o acompanhamento, mais facilmente se poderá reforçar a legitimidade democrática da actividade governativa e contribuir para o debate e esclarecimento das políticas públicas.
Europa
Também no plano das futuras relações com as instituições europeias o relatório aposta no caminho que me parece mais indicado. O acompanhamento da actividade política e legislativa a nível europeu permite por um lado reforçar o caminho de redução do défice democrático apontado à UE e articular o trabalho entre parlamentares nacionais e europeus.
Abertura à sociedade
Neste plano, é de saudar uma dupla aposta na transparência (maior transparência na divulgação das propostas em discussão no parlamento e maior transparência no acesso às declarações de interesses dos deputados) e na participalção (através do contacto com o eleitor, através do uso de novas tecnologias e através da valorização e no tratamento parlamentar das petições apresentadas pelos cidadãos e cidadãs).
Aposta na melhoria da qualidade da legislação
Quanto à tarefa magna do parlamento, o relatório aponta para a necessidade de valorizar trabalhos e estudos preparatórios, para melhorar os mecanismos de audição da sociedade civil e para criar uma unidade específica para análise do impacto de género da legislação.
Representatividade
Finalmente, e apesar de não se pronunciar sobre a matéria, o relatório aponta, ainda que implicitamente (a interpretação é minha), para a manutenção do número actual de deputados numa futura reforma da legislação eleitoral. Quanto a este aspecto, não poderia estar mais de acordo – o número actual é indispensável para assegurar a representatividade das formações partidárias mais pequenas, tornando o parlamento um verdadeiro espelho representativo dos cidadãos e cidadãs portuguesas
quinta-feira, março 29, 2007
Coincidências
2003: 2,9%
2004: 3,3%
2005: 6,0% (!)
2006: 3,9%
2007: 3,6% (previsão)
"Ah e tal, porque os ciclos económicos." Tá bem abelha.
Fonte: INE (perigosa dependência da Internacional Socialista)
O PCP aboliu o humor

Internamente. Por decisão unânime do Comité Central. Em 1930. Em resposta ao que se considerava ser a
"natureza corrosiva do sentido de humor burguês promovido pelo social-fascismo trotskista."
Se não fosse o BE (devida vénia), o que seria do humor de esquerda em Portugal?
Good morning, this is your wake up call
Ainda não percebi se foi o próprio Marquês que colou os cartazes para tentar agradar à população votante no concursito da RTP ou se foi um sádico a tentar provar-me que ainda era possível fazer bem pior e muito mais estúpido do que os cartazes dos movimentos contra a despenalização da IGV.
Caso tenha mesmo sido o Clube Nacional Renovador… não se pode fazer nada contra isto? Para além de destruir e conspurcar o cartaz, que terá apenas como resultado o aumento da notoriedade e popularidade.
quarta-feira, março 28, 2007
Antes da Reuters e da CNN

Presidenciais francesas

Através do 3 liberdades, um site muito interessante para acompanhar as presidenciais francesas e para comparar os manifestos dos candidatos.
A não perder, aqui.
A Bóina em directo
Europa

Lendo um post de Ana Gomes na Causa Nossa aproveito para não me esquecer (como outros o fizeram) desta tarde nos Jerónimos e de um dos seus defensores de várias décadas.
Obrigado, Dr. Mário Soares.
Muito obrigado.
terça-feira, março 27, 2007
Iraque 2007: altura de fazer a contabilidade

Há dois argumentos dos neo-cons (os lusos e os a sério) em relação ao Iraque que eu considero particularmente repugnantes:
1. As nossas ideias eram óptimas. Só que foram mal aplicadas. Ou por outras palavras, o projecto teoricamente era óptimo: a maldita realidade é que não se vergou perante esta evidência;
2. Enfim, está feito, está feito, agora é olhar para a frente e combater o terrorismo.
Ambas estas teses são demolidas pelo Economist de 22 de Março.
1. Todo o projecto estava inquinado à partida;
2. O Iraque complicou a guerra contra o terrorismo.
Coitadinhos. O Economist quase que pede desculpa por ter apoiado a guerra em 2003.
Quando é que os nossos neo-cons vão pedir desculpa por terem tratado os opositores desta guerra como traidores à 'causa Ocidental'? Quando é que demonstrarão arrependimento por se terem arvorado em arautos do Bem e tratado quem queria salvar os EUA e o resto do mundo desta catástrofe como se fossem leprosos, cobardes, anti-americanos primários, ou porta-vozes do Quai d'Orsay, ou do Kremlin.
Onde é que eles andam todos? Os campeões da Democracia? Penitemciem-se por favor (este blog aceita manifestações de penitência em forma de comentário a este post; qualquer coisa como "vocês tinham razão em manifestar-se contra a guerra em Março de 2003, boa, mea culpa, sorry"). Os primeiros 100 levam um bilhete de avião com tudo pago para Teerão.
Resposta simples: valores e memória
Ainda os Atenienses e os Espartanos

Para o David, depois do arrependimento, um brinde de Manuel Alegre:
Discurso de Péricles aos Atenienses
Dexai-os em treino permanente,
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício
Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo
A nossa força é a diferença
Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta
Dexai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria
Por isso Atenas não será vencida
Sobre os outros Valores
A Segurança é actualmente o ataque mais resiliente aos valores fundamentais da Liberdade e sobre este tema não me apetece dizer nada porque ainda estou à espera de ver onde vamos parar.
O Cristianismo e o Judaísmo são um lastro necessário para a nossa identidade “judaico-cristã”, mas é necessário compreender que todos os avanços significativos da Europa foram feitos muito mais “apesar de” do que com o seu contributo. A Igreja pactuou sempre com o establishment (Monarquias absolutistas e regimes ditatoriais) e tem de compreender que deve a modernidade a movimentos de cisão na Igreja ou mesmo contra a Igreja que procuraram a Igualdade
A Virtude não é essencial à vida e é para mim, como a dignidade para Jorge de Sena, apenas a “alegria de estar-se vivo, sabendo que ao mesmo tempo ninguém está menos vivo, ou sofre ou morre, para que um de só nós sobreviva um pouco mais à Morte, que é de todos e virá”. Contraponho à Virtude o exercício da Fraternidade.
Não sou um relativista porque tenho como valores absolutos os valores da Revolução e da Republica. Sou d’Ela a recorrente figura, por vezes primária e grotesca, que se eleva para a louvar. Sou filho de Danton (e neto de Epicuro) e vim ao mundo pelo mamilo esquerdo da “Liberdade guiando o povo” e bebendo apenas das minhas sensações.
Cabe-me também comunicar-vos que Deus não existe, descobri-o há pouco tempo. Eu que nunca fui “mendigo de vagos deuses ou de anjos obscuros” tenho agora a certeza que tudo isto acaba aqui e ficará pouco, muito pouco, mas algo ficará sempre (porque de tudo resta um pouco). Deus não existe porque não intervém, não promove a Liberdade, nem a Igualdade, nem a Fraternidade e não só não escreve por linhas tortas como não escreve absolutamente nada.
Todos são meus Irmãos sejam eles de que religião forem, sejam Virtuosos ou Alarves, Monárquicos ou Republicanos. Reconcilio-me com o Mundo após uma excelente refeição, uma boa garrafa de vinho, um JB de 15 anos e sensação inigualável da certeza dos que Amo. Só não me reconcilio hoje com a imagem do deus pai e omnipotente, porque essa é a imagem mais absurda que pode ser dada a alguém que, em espaços brevemente saudáveis, realmente olhe ou sinta a aleatoriedade estúpida da Natureza.
segunda-feira, março 26, 2007
Na primeira linha
No Público de hoje dá-se destaque a um facto que tem sido objecto de cuidada atenção lá pela "minha" cidade universitária: o aparecimento de uma candidatura à associação de estudantes da Faculdade de Letras apoiada e composta por membros da Juventude do Partido Nacionalista Renovador.
nos de extrema-direita, o caso de Letras é ainda agravado pela existência de um clima de intimidação aos colegas e pela presença de elementos estranhos à academia num embate eleitoral que devia centrar-se nos problemas e projectos dos alunos daquela instituição. Também há monstruosidades impostas por dentro
O cidadão Burnay não sabe que a(s) ditadura(s) me repugnam sem reservas. Ao contrário dele que divide as ditaduras em dois tipos: ditaduras dos "maus" (comunas, nazis e "outros") que devem ser condenadas sem piedade e as ditaduras dos "tipos-que-são-como-nós-numa-altura-difícil-enfim-não-sejamos-demasiado-severos-cuidado-com-os-juízos-apressados" (Portugal).
Podemos discutir a ditadura cubana ad aeternum que ela continua a repugnar-me. Enfim, é uma questão de princípio, ou, como lhe chamaria o cidadão Burnay: patologias ideológicas.
O cidadão Burnay acha que ainda não se falou o suficiente sobre a história recente portuguesa e que mais debate revelaria a verdadeira complexidade do regimezinho do Estadozinho Novozinho. (Também anda aí um bandido que diz que ainda não se debateu suficientemente do Holocausto, que é preciso mais debate sobre essa questão complexa. Mas nada disto nos deve surpreender: o cidadão Burnay até acha que ainda é cedo para tirar conclusões da guerra do Iraque; "vais ver, pá, aquilo ainda vai ser um sucesso; vai ser só turismo rural, workshops sobre as virtudes da propriedade privada e IKEA em todo o lado; já estou a ver o mundial de futebol de 2042 a ser co-organizado pelo Iraque e pelo Kuweit").
Falou-se pouco da ditadura em casa do cidadão Burnay, ao contrário da minha. Lá em casa falava-se muito do regime. Aprendi a odiar o Estado Novo porque sei os factos. Chamar-me ignorante não faz do Estado Novo menos ditadura, cidadão Burnay. Só faz de si menos tolerante.
Mas o cidadão Burnay tem uma grande virtude. E eu vou dizer qual é no próximo post porque mesmo assim preciso de tempo para pensar.
"O Salazar não foi só coisas más"
A nossa ditadurazinha, enfim, coisa pouca, desagradavelzinha, mas não há que demonizar, não há que descrever uma ditadura brutal "com bons de um lado e vilões do outro, como nos filmes manhosos, há sempre quem prefira ficar do lado do bandido. É diferente".
E sim, o Álvaro Cunhal e o PC são heróis no contexto da luta contra a ditadura. Sim, a ditadura é má, é diabólica. Houve coisas boas? Houve. A Ponte 25 de Abril foi construída durante a ditadura. A autoestrada Varsóvia-Cracóvia também, mas não é por isso que eu acho a versão polaca do estalinismo menos criminosa. Porque é que é tão difícil para a direita demarcar-se categoricamente de uma ditadura? No ifs, no buts.
Desculpem lá se a ditadura portuguesa foi de direita.
Desculpem lá se a oposição (na sua grande maioria) foi de esquerda.
Desculpem lá se o PC teve um papel fundamental na luta contra a ditadura.
Desculpem lá se nem toda a gente meteu a cabeça na areia entre 1926 e 1974. Desculpem lá se eu me orgulho da democracia que temos e do país que a construiu.
A direita, que fala de valores, de não fazer concessões em relação aos 'core-values' da nossa civilização. A direita que ainda não tem a certeza se "nós" merecemos a democracia, baseando-se na tese antropologicamente sofisticada de que "somos malandros, somos mesquinhos, somos medíocres, temos inveja, gostamos do respeitinho e de violar as regras pela surra. Somos o que de pior há em nós e que nos fez fazer o que fizemos. É pena, mas o Estado Novo fomos nós."
Fala por ti, pá! Prefiro concentrar a minha energia a admirar os que se opuseram, em vez de arranjar desculpas para os que executaram ordens! Como prefiro admirar os que durante o século XVI achavam que talvez não fosse boa ideia massacrar os povos que decobríamos, a endeusar aqueles que o faziam em nome da glória,da fé e do império; como prefiro admirar o católico alemão que acaba no campo de concentração, do que o comunista que acaba por votar Hitler num dos plebiscitos.
Talvez seja essa a diferença entre nós: alguns, sob a cobertura do pessimismo antropológico dizem que "enfim, somos mauzinhos, contentem-se com o que têm - olhem para a Espanha e para o Franco, podia ter sido pior". Os outros preferem elevar a fasquia e não aceitam que há coisas que os escandinavos merecem mas nós não.
E é por isso que a direita portuguesa está tão desconfortável com o passado e com a ditadura: é que somos uma democracia apesar deles e não por causa deles. E isso deve doer.
E para a próxima vez que ouvirem instituições como o Parlamento Europeu a discutir ditaduras e violações dos mais fundamentais direitos humanos, acompanhados de um tom gozão sobre a mediocridade que sustenta esses regimes, não se esqueçam que há 30 anos andava tudo a gozar com Portugal e com esse regime que "enfim, não se deve demonizar".
E não se esqueçam, para a próxima vez que quiserem invadir um país como o Iraque para lhes trazer a boa nova da democracia, pensem bem se eles não são "malandros", "mesquinhos", "medíocres", se não têm "inveja", se não "gostam do respeitinho e de violar as regras pela surra" e se, tal como "o Estado Novo fomos nós", o "Saddam não foram eles."
Basicamente a mensagem é esta: nós valemos tão pouco que nem um gajo que combate a ditadura tem mérito. Somos todos iguais. Aristides, Salazar, Cunhal, não passamos de uns pingos num mar de mediocridade. Why make an effort? Why care?
Sorry, I care.
Cada vez mais golpe, cada vez meno pose de Estado
Não li o referido parecer, nem sou perito nos estatutos do CDS. Mas da leitura que tive oportunidade de fazer do texto pode concluir-se:
1) Que as alterações estatutárias são da competência do Congresso;
2) Que os estatutos não prevêm a eleição directa do líder;
3) Que o conselho nacional apenas pode integrar lacunas dos estatutos.
A pequenez

48 anos de mediocridade e brutalidade elevados a identidade nacional deixaram marcas. O concursinho de ontem é só mais um sintoma.
Para além disso, cada país tem os media, os concursinhos e os resultados dos concursinhos que merece.
Apesar de tudo estou confiante: o legado da ditadura, o Portugal mediocre, bafiento e estagnado está mais ou menos ultrapassado. Não é que o país esteja na vanguarda da modernindade: é mais porque a fasquia colectiva foi elevada do nível "se-mandarmos-numa-data-de-gente-do-outro-lado-do-planeta-até-conseguimos-viver-bem-com-a-nossa-própria-miséria-mediocre", para "esta-coisa-de-estar-na-Europa-e-ter-a-oportunidade de-ir-à-universidade-em-vez-de-ser-estropiado-no-fim-do-mundo-até-é-bastante-suportável."
E isso também conta.
A opinião de um concorrente derrotado
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.
Vamos a isso?
sexta-feira, março 23, 2007
Sempre preferi os atenienses - mais calminhos

Gostava de anunciar que me arrependo do meu post de 14 de Março, em que evoco o novo filme '300' para explicar alguma sobreestimulação das minhas papilas gustativas e consequente pluviosidade oral (mas que disparate...).
Enfim, o filme é tonto. O filme é machão, fascizóide, social-darwinista e xenófobo. Há uma ou outra cena de batalha engraçada, mas ainda estou à espera do filme que seja bom a demonstrar a complexidade de uma falange grega (ou, mutatis mutandis, macedónia) em acção. (Concedo que deve ser difícil pôr uma data de figurantes do Ohio a reproduzir sofisticadas manobras militares da antiguidade.)
Ao fim de uma hora tive uma overdose de testosterona, saí a correr do cinema, despi-me, ficando de cuecas (ah sim, porque os hoplitas espartanos andavam semi-nus no filme - toda a gente sabe que nada irritava mais os persas do que gregos que tirassem a couraça e andassem semi-nus pelo campo de batalha; como dizia o Jon Stewart no Daily Show: "The film '300': 300 Spartans and 1800 abs."), fui buscar pipocas, recusei-me a pagar e gritei com toda a gente no meu grego enferrujado; depois corri para um canto e comecei a bombardear toda a gente com pipocas enquanto gritava: "Só os fortes triunfam, sois um bando de fracos, defenderei este canto da Europa contra as hordas asiáticas até morrer."
(By the way, defending Europe against 'Asian hordes' sounds better in the original German...)
Enfim, na gíria da crítica de cinema chamar-se-ia a este filme uma bela merda.
Novela das nove
quarta-feira, março 21, 2007
Enfado

Frank Drebin ?

Cada dia que passa a estratégia e as acções do campo dos apoiantes de Paulo Portas consegue tornar mais viável uma vitória de Ribeiro e Castro no combate que se avizinha. Sem saber bem como, num registo de tipo Frank Drebin, o actual líder do CDS arrisca-se a aguentar-se.
(Prometo que depois deste damos tréguas ao CDS durante pelo menos uns 4, vá lá, 5 posts...)
terça-feira, março 20, 2007
Quando os lobos uivam

No CDS os coiotes afiam as garras e põem os dentes de fora. Parece que andaram a ler uns manuais da mais rasteira política americana, ao estilo de Karl Rove, mas muito desajeitada. Resquícios, talvez resultado do curto exílio de Portas em Washington. Ocorrem-me uma série de adjectivos a aplicar a tão insigne matilha, mas não é meu estilo constatar o óbvio.
Isto é gente que não tem qualquer outra actividade profissional e precisa da política para ser alguém na vida, e não olha a meios para conseguir o que quer.
Podia ser eu a tê-lo dito, mas quem o disse foi Maria José Nogueira Pinto, que demonstra ser uma senhora de grande classe (o marido dela é que é o diabo).
Aut viam inveniam aut faciam.
segunda-feira, março 19, 2007
Entretanto, não longe dali...

Para além do CDS, também no PSD se afiam as facas.
Primeiro, Luís Filipe Menezes anunciou a sua vontade de voltar ao combate pela liderança, afirmando estar disponível para amanhã, se necessário. Depois de atestar baterias contra Pacheco Pereira e de fazer um balanço negativo da liderança de Marques Mendes, também Santana Lopes pré-anuncia um possível regresso, em entrevista à SIC...
CDS em stand-by
Pay-gap: dados
Em complemento ao meu último post, dados de 2003 sobre o desequilíbrio salarial entre homens e mulheres na Europa. Portugal surge na terceira melhor posição e estamos perante dados de 2003, que entretanto melhoraram. Cliquem na imagem para melhor definição.
sexta-feira, março 16, 2007
Falta de rigor
quarta-feira, março 14, 2007
Desculpem lá se eu já comecei a salivar...
terça-feira, março 13, 2007
Felicitas!
I don't want you for the US army

Provedores
Na íntegra, aqui, o relatório do provedor do Ouvinte, e aqui, o do provedor do Telespectador.
Rumo incerto
O verde (radioactivo) do dinheiro....

Apesar do incremento da retórica poder indiciar mais uma necessidade de reafirmação num contexto de crescente pressão internacional, do que propriamente uma escalada verdadeiramente perigosa, o que é facto é que uma nota bancária com o Ayatollah Khomeini de um lado e o símbolo da energia nuclear do outro só por si já dá para ficar nervoso...
Apresento-lhe a minha esposa, quer dizer, a minha amiga, aliás a minha irmã, pois, é isso, errr, a minha afilhada, pronto, humm, enfim sobrinha...

sábado, março 10, 2007
Populismo em estado puro

Sr. Embaixador

Marques Mendes considerou leviana a decisão de encerrar a embaixada no Iraque. Tendo em conta a impressiva comunidade portuguesa naquele país, a facilidade em arranjar pessoal diplomático para colocar num local seguro como Bagadad e a centralidade do Iraque no quadro da diplomacia económica portuguesa, atenta a inexistência de riscos para o investimento estrangeiro, é de facto uma decisão inexplicável.
quinta-feira, março 08, 2007
DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MULHER E DA CIDADÃ
Preâmbulo
As mães, as filhas, as irmãs, representantes da nação, reivindicam constituir-se em Assembleia Nacional. Considerando que a ignorância, o esquecimento, ou o desprezo da mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos governantes, resolverem expor em uma Declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis, e sagrados da mulher, a fim de que esta Declaração, constantemente, apresente todos os membros do corpo social seu chamamento, sem cessar, sobre seus direitos e seus deveres, a fim de que os actos do poder das mulheres e aqueles do poder dos homens, podendo ser a cada instante comparados com a finalidade de toda instituição política, sejam mais respeitados; a fim de que as reclamações das cidadãs, fundadas doravante sobre princípios simples e incontestáveis, estejam voltados à manutenção da Constituição, dos bons costumes e à felicidade de todos.
Mulher, desperta-te; a força da razão se faz escutar em todo o universo; reconhece teus direitos. O poderoso império da natureza não está mais envolto de preconceitos, de fanatismo, de superstição e de mentiras. A bandeira da verdade dissipou todas as nuvens da tolice e da usurpação. O homem escravo multiplicou suas forças e teve necessidade de recorrer às tuas, para romper os seus ferros. Tornando-se livre, tornou-se injusto em relação a sua companheira.
E para quem ainda não percebeu...

O primeiro passo

sexta-feira, fevereiro 23, 2007
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Não nos metem medo
Queriam, não queriam?
1. Esse fenómeno é possível e provável nos EUA, porque lá o momento chave foi uma decisão do Supremo Tribunal(1973), e não legislação produzida pelo Congresso e/ou pelas legislaturas dos Estados. O resultado é, por um lado, a falta de harmonização legislativa em relação ao aborto nos EUA (com diferentes Estados a interpretar de forma mais ou menos restritiva o 'direito à privacidade' no qual assenta a decisão do Supremo), e por outro a falta de legitimidade democrática da decisão. Daí a permanente acusação de activismo legislativo lançada contra o Supremo pelos elementos mais conservadores nos EUA.
Resultado: o debate é muito mais difícil para os apoiantes da decisão do Tribunal (esse "antro da elite isolado dos salutares valores que guiam o piedoso povo americano"), do que para os que a põem em causa.
Daí resulta o 'Roe effect': não da defesa do direito ao aborto em si, mas antes da fragilidade democrática da decisão que lhe subjaz.
2. Os EUA são infinitamente mais heterogéneos que Portugal. Isso significa que um argumento a favor da decisão do Supremo que caia bem no Estado da Califórnia pode fragilizar as forças progressistas na Geórgia. Isso é grave, porque os Estados têm poderes legislativos e podem limitar seriamente a aplicação da decisão do Tribunal. É portanto difícil para um 'pro-choice' californiano não desencadear o 'Roe effect' no Alabama, sempre que dá uma entrevista na televisão, sempre que publica um artigo num jornal nacional, etc.
O debate nos EUA está, pois, inquinado à partida, já que as forças do Progresso passam o tempo a defender uma decisão de um Tribunal não-eleito contras hordas conservadoras fortificadas pelo zelo 'democratico' e pelo ódio aos 'Washington liberals'.
Em Portugal, a decisão terá dupla legitimidade democrática: primeiro o referendo, e depois legislação da Assembleia - o assunto vai ficar enterrado por muuuuito tempo. Porquê? Porque as forças pro-choice não têm que defender nada, não têm que debater nada. Lei é lei. Se não gostarem, votem PP e a lei muda. Ah, espera, ninguém vota PP.
Esqueçam, meus amigos, não há 'Roe effect' que vos salve. Este capítulo está encerrado. Metam a viola no saco e preparem-se para a próxima: casamento entre pessoas do mesmo sexo. E depois adopção... Now it's our turn.
Estou aqui a reflectir

"Vou ao cinema. Olha, tá esgotado. Vou fazer um aborto."
Agora vejam lá se reflectem bem sobre esse período de reflexão, modalidades, critérios. E quem dará aconselhamento? Se me cheirar a batinas, palavra de honra que escrevo outro post a falar disso. E levanto a voz e tudo. Mecânicos, padeiros, até electricistas. Todos são mais qualificados (incluindo os que não falam português, os que gaguejam e os sportinguistas) para aconselhar uma mulher que pensa abortar do que aqueles outros senhores conhecedores da 'verdadeira sexualidade com amor'.
Como aquele sábio padre Nuno Serras Pereira que acha que "a homossexualidade é uma doença", "uma neurose", que "promover a utilização do preservativo é de uma enorme irresponsabilidade", e que "qualquer relação sexual que não seja dirigida à procriação é uma perversão".
Tudo isto está muito bem. O que eu acho verdadeiramente escandaloso é a afirmação que "o Estado não tem o direito de interferir na sexualidade das crianças". Isso é tão injusto! Então se os padres nos EUA, e não só, interferem na sexualidade das crianças, porque é que o Estado não pode interferir!
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Piadinhas pós-referendo
Slippery slope

Há quem diga que a vitória do 'sim' no referendo de Domingo representa mais um sintoma da erosão generalizada da hegemonia dos valores tradicionais em Portugal. Há quem diga que é um perigoso precedente, um prelúdio para o que virá a seguir. Não faço a mais pequena ideia se alguém diz isto. Mas se alguém disser, tem razão.
Casamento entre pessoas do mesmo sexo, aqui vamos nós! E desta vez sem mariquices de referendo. A República de 1974 vai-se aprofundando, ganhando consistência, e a dinâmica emancipatória que a distingue vai pulverizando séculos de escuridão em poucos anos. Como em alguns dias de 1789 se aboliu séculos de privilégios, feudalismo e servidão, lenta e gradualmente em Portugal se recuperam décadas, séculos perdidos.
A Razão ao serviço da sociedade, quando estuga o passo, dificilmente volta a parar.
É aproveitar agora.
Vae victis!
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Ascensão
Fá-lo "por 'respeito profundo às mais de 100 mulheres que lutam dia e noite no Refúgio Aboim Ascensão' e por considerar que 'quanto ao direito à vida, no ventre de cada uma delas, essa é uma matéria das suas próprias consciências'".
A notícia é suficientemente elucidativa para que seja acompanhada dos meus impertinentes comentários, por isso seguem-se apenas os excertos, que o caro leitor fará o favor de confirmar pessoalmente e na íntegra na versão on-line:
"O psicólogo clínico, que há mais de 20 anos dirige a mais mediática instituição que acolhe crianças em risco, desvinculou-se, assim do movimento que ajudou a fundar e a que deu cara, muito embora o seu discurso nunca tenha assumido totalmente a defesa do 'não'".
"A menos de uma semana do referendo, Villas-Boas quer evitar, assim, que a instituição que dirige e as pessoas que nela trabalham possa ser envolvida numa campanha que está alegadamente 'radicalizada' e partidarizada".
"Na missiva [dirigida aos mandatários do movimento justificando a desvinculação], diz que constata agora a 'necessidade de impedir interferências na liberdade de voto'".
"Assegura, contudo, que manterá as suas posições conhecidas sobre o aborto, embora defenda que seja necessário 'encontrar formas de evitar que a mulher que abortou seja estigmatizada'".
O que interessa a este post e ao impertinente comentador não é especular se Luis Villas-Boas mudou de opinião e vai votar Sim no Domingo, porque isso, graças a Deus, é algo que só se resolve no momento mágico da democracia, secreto, pessoal e inalianável, que é o encontro entre o eleitor e o boletim de voto.
O que interessa é que existe um dirigente de uma casa de acolhimento de crianças que acha "lamentável" que essa circunstância seja aproveitada para ganhar votos, e que se preocupa com o que pensam as pessoas que nela trabalham e que a ela se dirigem.
O que interessa é que, pela primeira vez na campanha, alguém diz que empenhar-se numa obra social deste tipo não implica necessariamente votar Não.
domingo, fevereiro 04, 2007
Liberalização?
Está em causa fazer o que seria aceite caso o Sim ganhasse mas a pergunta colocada não tivesse a fatídica segunda parte - em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, a pedido da mulher - e que, segundo os adeptos do Não, implica uma verdadeira liberalização do aborto. É essa a argumentação que Marcelo Rebelo de Sousa tem propagado.
Dizer que está em causa uma liberalização e não uma despenalização tornou-se, aliás, o soundbyte preferido dos defensores do Não nesta campanha. É a todos os títulos notável e recomendável o sketch do Gato Fedorento sobre a argumentação de Marcelo Rebelo de Sousa.
Façamos, então, um exercício de simulação na aplicação da lei.
Suponhamos que ganha o Não.
Marques Mendes propõe na Assembleia da República a despenalização da IVG a pedido da mulher até às 10 semanas e a esquerda aceita. Uma clínica privada passa a incluir nos serviços que presta a realização de abortos. A mulher que aí se dirige pode realizar um aborto em condições de higiene e segurança, mas como à própria clínica não interessa a realização de quaisquer diligências adicionais que se traduzam em aumento de despesa, a mulher aborta sem acompanhamento psicológico ou informação sobre a intervenção clínica a que se vai sujeitar, e que pode eventualmente contribuir para que a mulher decida não abortar e prosseguir com a gravidez. Tal acompanhamento não existe porque a lei não impôs a um tal estabelecimento de saúde a necessidade de observar qualquer procedimento profiláctico e informativo. É isto desejável?
Mas o exemplo pode ir ao absurdo: o que impede alguém com conhecimentos mínimos de obstetrícia adquiridos sabe-se lá de que forma, de abrir um escritório anunciando à porta: «Aqui fazem-se abortos»?
A proposta de Marques Mendes hoje avançada tem apenas o mérito de acabar com uma certa ideia de aborto clandestino, que passa a ser feito às claras, mas não garante à mulher qualquer tipo de acompanhamento, porque tudo é feito de acordo com a conveniência de quem presta o serviço - é ou não é essa a verdadeira essência da noção de liberalização?
Dir-me-ão que tal não sucederá porque o deputado Marques Mendes cuidará de especificar na sua proposta que só a mulher é despenalizada, não quem a assiste. Mas aí voltamos à vaca fria, e o problema do aborto clandestino persiste.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Aborto e religião
O site apresenta informação prestada por ministros de todas as confissões religiosas sobre a forma como a interrupção voluntária da gravidez é tratada e justificada à luz de cada religião.
Para ver aqui.











