segunda-feira, abril 23, 2007

Melhoras rápidas

Boris Yeltsin (1931-2007)

A chave

Não há aritmética na conversão de votos de primeiras para segundas voltas - nem Sarkozy, nem Ségolène se podem limitar a sacar das calculadoras e a juntar "esquerdas" e "direitas". Apesar de tudo, os resultados dos candidatos do seu campo ideológico são indicativos. A grande incerteza é o que fazer aos quase 19% de Bayrou. Serão para dividir entre os finalistas? Seriam só dele, Bayrou, e do seu projecto centrista, o que levará muitos dos seus eleitores a ficar em casa no dia 6 de Maio? Pronunciar-se-á o vencedor do bronze eleitoral sobre a sua escolha? Será essa pronúncia suficiente para mobilizar aqueles dos seus votos que eram de protesto contra a bipolarização tradicional?
Uma sondagem divulgada hoje dá a Sarkozy 54% na 2.ª volta, contra 46% de Ségolène, com 14% de indecisos, mas falta ainda um debate, a 2 de Maio, que gera expectativa. Pessoalmente, acho que muito passa pelo que vai na cabeça do líder da UDF. Com eleições legislativas logo a seguir, o campeonato eleitoral da segunda volta das presidenciais está longe de ser linear...

Primeiras impressões


Num breve relance, algumas ideias sobre a primeira volta:

1 - As sondagens não se afastaram do resultado real: Sarkozy confirma a vantagem e a dinâmica da campanha, Ségolène garante acesso à segunda volta com folga, Bayrou alcança o pódio. Única surpresa, a redução do score eleitoral de Le Pen. Contudo, a descida deste último pode ter-se ficado a dever, segundo alguns, à descida da abstenção, que se ficou pelos 15%. Suspeito que também se deve a alguma migração de votos para Sarko...

2 - Segundo vários analistas, o traço é o da subida da direita em comparação com escrutínios presidenciais anteriores. Contabilizando-se os votos Le Pen e de Villiers, a direita consegue 65%, ficando-se pelos 52% descontados os extremistas. Contudo, não sei se será acertado somar todo o eleitorado de Bayrou como direita, uma vez que parte da chave do seu sucesso terá estado na cartada do centrismo, "daquele que é mesmo do centro e tudo". Mesmo com incertezas quanto ao local de contabilização do voto Bayrou, a proeza de Sarkozy é a de ultrapassar a marca dos 30% na primeira volta, aproximando-se de um score de Giscard em 1974 e ficando à frente de todos os resultados de Chirac (dose adicional de satisfação para os lados da campanha de Sarko, seguramente...)

3 - A tragédia do PCF. Outrora um dos maiores partidos comunistas da Europa Ocidental, com resultados na casa dos 30%, a candidata do PCF não terá sequer conseguido ultrapassar a fasquia dos 2%. A extrema-esquerda recua dos 10% de 2002 para os 8% e, em conjunto, continua a mostrar mais vitalidade que a esquerda plural institucional, parceira dos governos Jospin.

domingo, abril 22, 2007

Bonne chance!


Não se riam

Acabei de fazer o Muppet Personality Test. Aparentemente, sou a Miss Piggy.
Divirtam-se, aqui.

Não há só um Marx

Desde que o DN noticiou o veto da JCP à intervenção de Ricardo Araújo Pereira no dia 25 de Abril (aqui e resposta do PCP aqui) que queria deixar umas ideias sobre o assunto. Estarei seguramente a repetir o que muitos já disseram (aqui, aqui e aqui, por exemplo), mas para além de ser um resultado final francamente mau para a imagem da JCP, que matou a possibilidade de intervenção jovem no comício final do desfile, apresentando-se sectária e fechada sobre os seus dogmas, é também um resultado mau para quem queria que o 25 de Abril representasse o momento de unidade de todos os que saúdam as conquistas de Abril e que desejavam, num momento em que parece importante fazê-lo, preservar a memória da ditadura e o legado da Revolução para os jovens.

Este episódio surge ainda um pouco na sequência de um post anterior do David sobre a forma de lidar com o humor na actividade política. O fair-play que encontramos em muitos dos convidados do Daily Show em sujeitarem-se em pessoa ao humor sem tréguas de Jon Stewart está muito longe da República Portuguesa e particularmente da Soeiro Pereira Gomes, sendo que alguns sorrisos amarelos perante a Contra-Informação ou sketches do Gato Fedorento ainda não fazem uma primavera. Adaptando o José Mario Branco ao caso, já era tempo de se perceber que o humor também é uma arma...

Coerência


Segundo o DN a Entidade Reguladora para a Comunicação Social vai analisar a nomeação de Pina Moura para o conselho de administração da Mediacapital. Seguir-se-á uma audição para apurar da presidência da Impresa por Francisco Pinto Balsemão?
PS - Concordo em absoluto com Ana Gomes quanto ao carácter tardio da saída das funções parlamentares - sou, neste domínio, muito céptico quanto às múltiplas excepções conferidas pela lei portuguesa à regra da exclusividade para o exercício de funções de deputado.

Tudo normal

Na conferência de imprensa de ontem, Pinto Coelho não esclareceu se os detidos pela PJ no quadro da operação junto de grupos skinheads são ou não militantes do PNR, apesar de acreditar na sua inocência. Segundo a TSF, como justificação para o silêncio sobre o assunto, o líder dos nacionalistas terá dito que a matéria está em segredo de justiça. Quantos não são os partidos em que a miltiância é matéria com relevo criminal? Como é possível que ainda encontremos pessoas que duvidem da boa fé e espírito democrático destes rapazes?

Look who's back


Pois é, noite de dupla goleada.

Depois do Benfica voltar às vitórias com um expressivo 0-3 no estádio dos Barreiros, Paulo Portas goleia Ribeiro e Castro por mais de 75% (é a minha primeira referência ao esférico-rei, mas hoje impunha-se pela comparação).

Tendo em conta a dimensão da vitória ainda fico com uma maior impressão que a sagacidade e o instinto de Paulo Portas o terão abandonado parcialmente. Havia necessidade da novela directas vs congresso, de deixar que os militantes da Juventude Popular e dos Trabalhadores Democratas-Cristãos votassem na eleições para o partido, de deixar criar um clima de golpe de Estado (que, apesar do resultado inequívoco de hoje, não desaparece)? Terá Portas receado perder o eventual congresso? Terá temido novo discurso galvanizador de Ribeiro e Castro? Ou só lhe faltou a paciência para esperar?


Já agora não posso deixar de repetir a pergunta do Daniel Oliveira: se votaram 7500 militantes num partido que afirma ter 44 mil filiados (menos militantes que a Juventude Socialista, já agora), como é que se considera a participação expressiva?

sexta-feira, abril 20, 2007

Liviu Librescu (1930-2007)


À espera de Winograd



A resposta sonolenta e frustrante de Israel às propostas de abertura de negociações de paz da Liga Árabe, da Arábia Saudita e da Síria tem uma só explicação: a Comissão Winograd. Esta Comissão foi criada para investigar o que correu mal durante a Segunda Guerra do Líbano, tanto do ponto de vista militar, como do ponto de vista da preparação do país para os ataques do Hezbollah contra civis israelitas.


A equação é simples:


1. Se os resultados da Comissão forem mesmo maus para Olmert, o governo cai, e há novas eleições. E isso explica a relutância de Olmert em entrar agora num processo de paz - ninguém em Israel (e fora de Israel, suponho) leva a sério um Primeiro Ministro que não tem a confiança da população e que pode cair a qualquer momento. Olmert não tem crédito político para abrir uma loja do cidadão, quanto mais para abrir negociações com o arqui-inimigo sírio.


2. Se os resultados forem só maus (talvez culpando apenas a liderança militar, ou até Peretz, mas deixando Olmert incólume) é possível, repito, possível, que Olmert tente uma espécie de fuga para a frente agarrando-se a um processo de paz como forma de salvar o seu governo, a sua estatura como líder e a sua carreira. É por isso que de quando em vez Olmert vai fazendo declarações que, sem serem bombásticas, deixam qualquer adepto esperançoso de um processo de paz a salivar por mais...


Neste momento está, portanto, tudo em suspenso. Mas que custa ver Israel tão paralizado perante as oportunidades que as últimas iniciativas árabes parecem oferecer, lá isso custa.


Se Israel se mostrar incapaz de responder de forma responsável a esta oportunidade histórica, estou certo que pagará um preço muito alto.



L'important c'est la rose


Para quem como eu gosta de um bom combate eleitoral e fica acordado até às seis da manhã para ver as eleições americanas na CNN (does it ring any bell, Pedro?), Domingo vai ser dia de jogo grande. Está bem que esta é só a primeira mão e não há golos fora para contar, ou, levando mais longe a linguagem futebolística, esta é a primeira parte de um jogo com 180 minutos. Mas a imprevisibilidade dos franceses aguça o interesse e promete disputa renhida.
Neste lado da blogosfera espera-se por uma Ségolène que tire a França do marasmo identitário e existencial em que mergulhou em doze anos de Chirac.
O que restará a uma França que já não é, nem será, a potência mundial que foi outrora? Amanhar-se com que tem, deixar de ter veleidades quanto a isso e fortalecer uma consciência própria de progresso social e inclusão. A diferença está toda aí: os franceses têm de começar a fazer pela vida.

Outras eleições


Com a atenção concentrada na presidenciais francesas (últimas sondagens de França aqui resumidas), tem passado discretamente a campanha eleitoral para o parlamento escocês, a realizar no mês de Maio. Diversas sondagens dão confortáveis vantagens ao Partido Nacionalista Escocês (SNP), que advoga a independência e que promete referendar a questão. Há alguns meses havia mesmo estudos de opinião que revelam apoiantes da ideia entre os ingleses. Mais informações sobre o caminho do SNP para chegar à soberania aqui.

Guns don't kill people...


Que no século XVIII, num contexto de saída do colonialismo e de ausência de forças policais e de monopólio estatal da força e em estado de "continente por desbravar" tenha sido consagrado um direito a possuir uma arma para defesa pessoal não me parece absurdo. Que se dê tratamento de sagrada escritura a um preceito que claramente está desfasado no tempo, permitindo a aquisição de armamento semi-automático por pessoas perturbadas com a mesma facilidade com que se adquirem cortadores de relva, já me parece negligência criminosa.

Por muito que os fundamentalistas defensores da fundamentalidade do segundo aditamento à Constituição dos Estados Unidos continuem a proclamar que são as pessoas e não as armas que matam, o que é facto é que pessoas não armadas têm maior dificuldade em massacrar inocentes.

quinta-feira, abril 19, 2007

Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril

Não se ouviu muito falar muito do facto, mas ela aí está, publicada anteontem no Diário da República.

Missão cumprida.

As partes e o todo

Entrevistado pela TSF sobre as detenções pela PJ, José Pinto Coelho afirmou, entre outras coisas, que o PNR tem sido injustamente colado a grupos skinheads, "como se o PNR fosse constituído exclusivamente por skinheads" (sic). Uma vez que o PNR é só composto parcialmente por skinheads há que não ter má-fé e não ter colar estas pessoas ao ideário simpático e amigo do pluralismo do sr. Pinto Coelho.

Se dúvidas houvesse

A actuação da PJ de ontem, ao deter dezenas de skinheads, simpatizantes do PNR, por posse ilegal de armas e discriminação racial, vem confirmar aquilo que já sabemos sobre as companhias e os militantes da extrema-direita nacionalista. As instituições da república não estão a dormir.

Faz o que eu digo...

No debate na RTP, Paulo Portas acusa Ribeiro e Castro de cometer um erro em manter-se como eurodeputado e como líder do partido em simultâneo. Curiosamente, o próprio Paulo Portas, eleito líder do CDS-PP em 1998, acumulou aquelas funções com as de deputado ao Parlamento Europeu, para as quais foi eleito em 1999. Há uma pequena diferença, porém. Ribeiro e Castro limita-se a levar até ao seu termo o mandato para o qual foi eleito antes de chegar à liderança do CDS, honrando o compromisso com os eleitores. Paulo Portas optou, já enquanto líder, por se candidatar ao PE. Apesar de ter cessado funções poucos meses depois de empossado, a acumulação parecia não incomodar Portas em 1999...

domingo, abril 15, 2007

Requiem

When the last living thing
has died on account of us,
how poetical it would be
if Earth could say,
in a voice floating up
perhaps
from the floor
of the Grand Canyon,
“It is done.”
People did not like it here.

Kurt Vonnegut