sexta-feira, abril 20, 2007

À espera de Winograd



A resposta sonolenta e frustrante de Israel às propostas de abertura de negociações de paz da Liga Árabe, da Arábia Saudita e da Síria tem uma só explicação: a Comissão Winograd. Esta Comissão foi criada para investigar o que correu mal durante a Segunda Guerra do Líbano, tanto do ponto de vista militar, como do ponto de vista da preparação do país para os ataques do Hezbollah contra civis israelitas.


A equação é simples:


1. Se os resultados da Comissão forem mesmo maus para Olmert, o governo cai, e há novas eleições. E isso explica a relutância de Olmert em entrar agora num processo de paz - ninguém em Israel (e fora de Israel, suponho) leva a sério um Primeiro Ministro que não tem a confiança da população e que pode cair a qualquer momento. Olmert não tem crédito político para abrir uma loja do cidadão, quanto mais para abrir negociações com o arqui-inimigo sírio.


2. Se os resultados forem só maus (talvez culpando apenas a liderança militar, ou até Peretz, mas deixando Olmert incólume) é possível, repito, possível, que Olmert tente uma espécie de fuga para a frente agarrando-se a um processo de paz como forma de salvar o seu governo, a sua estatura como líder e a sua carreira. É por isso que de quando em vez Olmert vai fazendo declarações que, sem serem bombásticas, deixam qualquer adepto esperançoso de um processo de paz a salivar por mais...


Neste momento está, portanto, tudo em suspenso. Mas que custa ver Israel tão paralizado perante as oportunidades que as últimas iniciativas árabes parecem oferecer, lá isso custa.


Se Israel se mostrar incapaz de responder de forma responsável a esta oportunidade histórica, estou certo que pagará um preço muito alto.



L'important c'est la rose


Para quem como eu gosta de um bom combate eleitoral e fica acordado até às seis da manhã para ver as eleições americanas na CNN (does it ring any bell, Pedro?), Domingo vai ser dia de jogo grande. Está bem que esta é só a primeira mão e não há golos fora para contar, ou, levando mais longe a linguagem futebolística, esta é a primeira parte de um jogo com 180 minutos. Mas a imprevisibilidade dos franceses aguça o interesse e promete disputa renhida.
Neste lado da blogosfera espera-se por uma Ségolène que tire a França do marasmo identitário e existencial em que mergulhou em doze anos de Chirac.
O que restará a uma França que já não é, nem será, a potência mundial que foi outrora? Amanhar-se com que tem, deixar de ter veleidades quanto a isso e fortalecer uma consciência própria de progresso social e inclusão. A diferença está toda aí: os franceses têm de começar a fazer pela vida.

Outras eleições


Com a atenção concentrada na presidenciais francesas (últimas sondagens de França aqui resumidas), tem passado discretamente a campanha eleitoral para o parlamento escocês, a realizar no mês de Maio. Diversas sondagens dão confortáveis vantagens ao Partido Nacionalista Escocês (SNP), que advoga a independência e que promete referendar a questão. Há alguns meses havia mesmo estudos de opinião que revelam apoiantes da ideia entre os ingleses. Mais informações sobre o caminho do SNP para chegar à soberania aqui.

Guns don't kill people...


Que no século XVIII, num contexto de saída do colonialismo e de ausência de forças policais e de monopólio estatal da força e em estado de "continente por desbravar" tenha sido consagrado um direito a possuir uma arma para defesa pessoal não me parece absurdo. Que se dê tratamento de sagrada escritura a um preceito que claramente está desfasado no tempo, permitindo a aquisição de armamento semi-automático por pessoas perturbadas com a mesma facilidade com que se adquirem cortadores de relva, já me parece negligência criminosa.

Por muito que os fundamentalistas defensores da fundamentalidade do segundo aditamento à Constituição dos Estados Unidos continuem a proclamar que são as pessoas e não as armas que matam, o que é facto é que pessoas não armadas têm maior dificuldade em massacrar inocentes.

quinta-feira, abril 19, 2007

Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril

Não se ouviu muito falar muito do facto, mas ela aí está, publicada anteontem no Diário da República.

Missão cumprida.

As partes e o todo

Entrevistado pela TSF sobre as detenções pela PJ, José Pinto Coelho afirmou, entre outras coisas, que o PNR tem sido injustamente colado a grupos skinheads, "como se o PNR fosse constituído exclusivamente por skinheads" (sic). Uma vez que o PNR é só composto parcialmente por skinheads há que não ter má-fé e não ter colar estas pessoas ao ideário simpático e amigo do pluralismo do sr. Pinto Coelho.

Se dúvidas houvesse

A actuação da PJ de ontem, ao deter dezenas de skinheads, simpatizantes do PNR, por posse ilegal de armas e discriminação racial, vem confirmar aquilo que já sabemos sobre as companhias e os militantes da extrema-direita nacionalista. As instituições da república não estão a dormir.

Faz o que eu digo...

No debate na RTP, Paulo Portas acusa Ribeiro e Castro de cometer um erro em manter-se como eurodeputado e como líder do partido em simultâneo. Curiosamente, o próprio Paulo Portas, eleito líder do CDS-PP em 1998, acumulou aquelas funções com as de deputado ao Parlamento Europeu, para as quais foi eleito em 1999. Há uma pequena diferença, porém. Ribeiro e Castro limita-se a levar até ao seu termo o mandato para o qual foi eleito antes de chegar à liderança do CDS, honrando o compromisso com os eleitores. Paulo Portas optou, já enquanto líder, por se candidatar ao PE. Apesar de ter cessado funções poucos meses depois de empossado, a acumulação parecia não incomodar Portas em 1999...

domingo, abril 15, 2007

Requiem

When the last living thing
has died on account of us,
how poetical it would be
if Earth could say,
in a voice floating up
perhaps
from the floor
of the Grand Canyon,
“It is done.”
People did not like it here.

Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut, Jr.

1922-2007

Li o meu primeiro livro de Vonnegut há quase dez anos, ainda nos tempos da Escola Alemã, uma escolha em relação à qual sempre ficarei grato à minha professora de inglês. Lembro-me até de que pude usar a cópia que a minha mãe tinha lido, no caso dela nos tempo da faculdade, quando os ares de Abril trouxeram outra literatura aos curricula. Slaughterhouse Five, provavelmente o mais marcante título de Vonnegut e aquele em que a sua vivência pessoal lhe dá um profundidade e uma capacidade superior de denunciar a irracionalidade da guerra, faz parte daquele conjunto de livros que me marcou de forma mais significativa.
Kurt Vonnegut, descobri há pouco, morreu esta última quarta-feira. Há duas, três semanas tinha tido na mão o seu último livro e reservei-o mentalmente para ler mais tarde. Agora que sei que Vonnegut morreu tenho uma estúpida sensação de que deveria ter comprado o livro e que já o devia ter lido, como que se tivesse tido uma oportunidade de conversar com ele antes de nos deixar e agora não posso.

Desculpem insistir...

Não quero dar tempo de antena ao senhor, mas as palavras dos próprios ajudam, e bastante, a esclarecer o que defendem. Fica um excerto da entrevista de José Pinto Coelho ao Sol, na parte em que lhe perguntam se há militantes nazis no PNR:

JPC - Quando um militante se quer inscrever no PNR, nós não perguntamos se é nazi. [...] Uma pessoa nacional socialista pode estar no partido que quiser.

Bastante claro, parece-me...

Eles ainda aí andam


Parece que os meninos do PNR estão de vigília ao novo placard na Rotunda, que convida à discussão de ideias e não ao seu apagamento. Quanto a isto gostava de reproduzir aqui a lucidez de quem disse que para discutir a xenofobia, não muito obrigado - assim como devemos dar por adquirido que a abolição da pena de morte, a liberdade e a democracia não estão em discussão, também não devemos perder tempo a dialogar com estes cidadãos. Contudo, volto a sublinhar duas coisas que já disse:
- Não se deve ignorar o fenómeno e a forma como pretende assumir-se e difundir a sua mensagem de ódio.
- Não se deve proibir a expressão de tudo aquilo que não consubstanciar ilícito penal. A melhor forma de lidar com a coisa é, sem dúvida, a combinação do método Gato Fedorento com o repúdio da mensagem, remetendo-a para as franjas radicais do discurso político, que é o seu lugar.

Our man in Moscow

Gary Kasparov foi ontem detido em Moscovo quando se preparava para se manifestar contra o estilo autoritário e as políticas de Putin. Quantos episódios destes, acrescidos aos de Anna Politokvskaya ou de envenamentos por polónio serão necessários para que se leve a sério a falta de liberdade e democracia?

Purga


A nova direcção do DN não é de meias medidas: se é para purgar, vai tudo. Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Ruben de Carvalho e Francisco Sarsfield Cabral foram todos dispensados da colaboração regular que mantinham com aquele diário. Ficam os colunistas de referência como Luís Delgado e João César das Neves.

Enquanto leitor que apreciou a melhoria significativa de qualidade do jornal no consulado de António José Teixeira, só posso lamentar-me e ter pena do destino do DN. Espero que todos os dispensados sejam aproveitados por outro periódico e até lá vou colmatando com a blogosfera a falta que deixam, acompanhando Medeiros Ferreira e Joana Amaral Dias no Bicho Carpinteiro.

Valeu a espera


Fui finalmente ver o Caimão e aproveitar um Moretti em forma e com motivação cívica adicional. Continuar a ter de esperar um ano pelo filme é que me parece de todo insustentável - até tira a expectativa de sair da sala sem saber se o filme terá o efeito político pretendido pelo autor... ~
Digam o que disserem os arautos da visão estritamente industrial da actividade cinematográfica, aqui fica um exemplo de que é preciso incentivo e apoio na distribuição, particularmente da produção europeia. Desabafos meus que agora ando nas andanças do direito da Cultura...

sábado, abril 14, 2007

República aguarda-se




Parte da minha falta de escrita na Bóina deve-se a uma estadia de alguns dias na Catalunha. De lá venho imbuído de grande solidariedade para com os republicanos espanhóis, particularmente para com aqueles que na Catalunha viram as suas aspirações nacionais atendidas precisamente pelo advento da República, faz hoje 76 anos.

Aqui ficam o assinalar da efeméride e da memória da República Espanhola e os desejos de uma futura convivência de duas repúblicas democráticas no solo peninsular, que a marcha da História tem vindo a recusar.


Viva a República!

quarta-feira, abril 11, 2007

terça-feira, abril 10, 2007

Caput Mundi



Cheguei há 48 horas de Roma e ainda estou sob o efeito da cidade: da simetria, da beleza das formas simples, da monumentalidade intemporal, da omnipresença da história.

Estive nos Museus do Vaticano que contêm uma grande parte dos maiores tesouros artísticos do Ocidente.

E depois entrei na basílica de S.Pedro. Uma palavra: poder, poder, poder. Nunca tinha visto poder incarnado em arquitectura daquela maneira. Se ainda houvesse dúvidas: a Igreja foi e é uma máquina de concentração e distribuição de poder temporal e político, de legitimidade, de salvação etc.

Poder.

Mas lindo. Que bem que a Igreja aproveitou o génio infinito da Humanidade.

sexta-feira, abril 06, 2007

Fábula da Rotunda


Reduzida a história aos seus caracteres básicos, temos o seguinte:

Digamos que existe um grupelho de delinquentes com ambições de parecer sério que decide jogar o jogo da credibilidade e afixar um cartaz político como qualquer partido político. O cartaz é um esforço inglório nesse sentido, atascado que está numa linguagem pífia e pacóvia, risível até, não fosse a promessa de rixa a rebentar latente na mensagem. O líder - ou seja, o eleito para parecer o mais sério - mal consegue disfarçar o ódio por trás dos olhos esbugalhados, como que raiados de sangue, e eu, na minha cabeça, consigo imaginar aquela personagem a dizer numa voz estridente, como o ratinho na anedota do ratinho e do elefante «Eu sou mau! Tenham medo de mim!», e quase conseguia rir, não fossem as trágicas memórias que tudo aquilo evoca.

Digamos que a isto respondem uns rapazecos com dinheiro para gastar, que de sérios não querem ter nada - o que me parece uma admirável forma de seriedade e lucidez - e que resolvem o assunto, colocando os outros no seu devido lugar.

Entra em cena a autoridade, conhecida por se distrair no momento de conceder licenças, com ânsia de zelosamente efectivar um regulamento de publicidade, dando sequência a um conjunto de acções em que o seu representante convoca a comunicação social para registar o momento em que, simbolicamente, começa a arrancar publicidade comercial das paredes de Lisboa, prometendo que nada será como antes (em boa hora). Por isso, manda arrancar o cartaz dos bons rapazes.

O cartaz dos maus está em vias de tornar-se um ex-libris de arte pública da cidade, não pela versão original, mas pelo o acto de desobediência civil que constitui a sua vandalização. O cartaz dos bons é sacrificado pela autoridade no labirinto da legalidade formal em que os maus se souberam mexer, mas o exemplo persiste.

Há vilão, herói e polícia tonto, tudo por esta ordem. Parece que temos enredo para opera buffa.

quinta-feira, abril 05, 2007