sexta-feira, setembro 29, 2006

Sobre o mapa universitário


Em post no Causa Nossa esta segunda-feira, Vital Moreira, a propósito da inclusão do ISCTE no Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, critica o excesso de universidades públicas com sede em Lisboa (mais de um terço do total, conforme refere), apontando a ausência de universidades públicas nos três distritos adjacentes de Leiria, Santarém e Setúbal como uma forma de evitar retirar o mercado a Lisboa.
Não tanto em defesa da honra da capital, mas essencialmente com o intuito de contribuir para demonstrar que o ataque ao pretenso centralismo macrocefálico não é justo, chamaria a atenção para o seguinte:
1 - Das seis Universidades com sede em Lisboa apontadas, uma não é sequer uma universidade pública. Trata-se, obviamente, da Universidade Católica Portuguesa, cuja presença no CRUP é uma clara violação da igualdade entre universidades privadas, na medida em que a privilegia, e um atentado à separação do Estado e das Confissões Religiosas. É algo que Vital Moreira aponta no seu post e que subscrevo inteiramente. Mas há que tirar a ilação devida - a UCP não é universidade pública, logo não serve para exemplificar a macrocefalia alfacinha.
2 - Uma das outras seis Universidades apontadas por Vital Moreira é a Universidade Aberta. Sem prejuízo da sua sede se localizar em Lisboa, não podemos seguramente colocar um estabelecimento de ensino superior à distânica no mesmo plano de análise de universidades de ensino presencial clássico . Ou seja, uma universidade que ministra ensino à distância e em que a localização da sede é irrelevante para a transmissão de conhecimento, precisamente porque aposta em chegar a massas populacionais geograficamente dispersas (vide site da UA), não deve ser utilizada para demonstrar o centralismo académico.
3 - A existência das quatro universidades / institutos não integrados que restam (Universidade de Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e ISCTE) não pode ser objecto de comparação pura e sem enquadramento. De facto, enquanto que em Coimbra ou no Porto as duas universidades públicas integram todas as faculdades existentes, as mais antigas universidades da capital, a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica, repartem entre si as faculdades que noutros pontos do país se concentram numa única instituição. Mais interessante do que a contabilidade das universidades em bruto, seria a contabilidade das respectivas faculdades (a título de exemplo, a Universidade de Lisboa tem 8 e a Universidade Técnica de Lisboa tem 7, enquanto a do Porto tem 14) ou mesmo da oferta de cursos (em Coimbra a Faculdade de Medicina oferece Medicina e Medicina Dentária, que na Universidade de Lisboa se repartem por duas Faculdades distintas).
4 - Continuamos a ter um saldo excessivo? De facto, a Universidade Nova e o ISCTE por si só já empurram Lisboa para o topo da concentração de universidades públicas. O que cumpre analisar é se há ou não uma causa para esta realidade. Não será que o número de habitantes da zona de Lisboa contribuirá para a resposta a esta questão? Não será habitual encontrar mais de um estabelecimento público de ensino nas capitais europeias (Paris tem 10 universidades públicas, enquanto Londres, Berlim, Madrid, Bruxelas têm duas ou mais)?
5 - Finalmente, deixo apenas uma última pergunta no ar. Se por três dos distritos limítrofes de Lisboa não terem universidades públicas deparamos com proteccionismo, o mesmo não se aplica a Coimbra, visto que Leiria, Viseu e Guarda também não têm ensino universitário público?

quinta-feira, setembro 28, 2006

15 anos sem Miles...



Don't call me a legend, just call me Miles Davis...

Miles Davis
(25 de Maio de 1926 - 28 de Setembro de 1991)

Modernidade vs Obscurantismo

Será menino ou menina?


Já em tempos problematizei o dilema das monarquias modernas em torno das leis de sucessão. Ao procurarem ser sensíveis ao género e eliminar as discriminações decorrentes da varonia gritam alto e a bom som que o rei vai nú: torna-se o regime mais igualitário ao não discriminar as mulheres, mas permanecemos medievalmente indiferentes à discriminação de 99,999999999% da população no acesso à Chefia de Estado.
Em Espanha as coisas complicam-se ainda mais. Agora que todos estavam decididos a ter uma rainha daqui a duas gerações, os princípes das Astúrias trataram de engravidar novamente e re-lançar o debate - e se for um rapaz e a constituição ainda não estiver alterada quando nascer? Prejudica-se o jovem herdeiro aparente?
Dilemas a que as Repúblicas se continuam a poupar...

terça-feira, setembro 26, 2006

Contabilidade persa

Ahmadi-Nejad, Presidente do Irão (e grande pândego, sim senhor) discursou recentemente perante a 61ª Assembleia Geral da ONU.

Mencionou 30 vezes a 'justiça' e a 'injustiça';
Mencionou 11 vezes o Iraque;
Mencionou 3 vezes a Palestina;
Mencionou as mesmas 3 vezes a 'ocupação';
Mencionou uma (só!) vez o 'regime sionista';

Mencionou 'Sudão' e 'Darfur' zero vezes.

Zero.

Também, são só muçulmanos árabes a eliminar sistematicamente muçulmanos negros.

Quéquintressa.

200.000 mortos e 2.5 milhões de refugiados, talvez até genocídio: não chega para aparecer no discurso de Ahmadi-Nejad.

segunda-feira, setembro 25, 2006

100 anos





"Um artista criativo trabalha na sua próxima composição porque não ficou satisfeito com a anterior."



Dmitri Shostakovich
(25 de Setembro de 1906 - 9 de Agosto de 1975)

domingo, setembro 24, 2006

Feliz ano de 5767!

Juntar o útil ao desagradável


Edmund Stoiber, presidente do governo regional da Baviera e líder da CSU, partido siamês da CDU e, para todos os efeitos, partido no poder na grande coligação alemã, afirmou na sequência de algumas críticas feitas ao Papa por dirigentes turcos, que tais afirmações revelam "uma grande distância espiritual e cultural em relação aos valores europeus" e que "a Turquia não é Europa e não faz parte da Europa".

Stoiber parece insistir em esquecer-se de que o projecto europeu não é cristão e muito menos católico, não podendo, nem devendo a União Europeia deixar-se guiar por considerações de cariz teológico. O Vaticano não é Estado membro da União Europeia, nem poderia ser, desde logo, porque a UE exige o respeito pela democracia e pelo Estado de Direito, enquanto o pequeno enclave romano não passa de uma teocracia vitalícia medieva.
Sem dúvida que algumas críticas ao que o papa afirmou são exageradas e instrumentalizadas para fins religiosos, aludindo-se a cruzadas e associando-se o papa ao todo o mundo ocidental com finalidades políticas claras e inadmissíveis. Contudo, são diferentes as observações de quem leu toda a comunicação de Bento XVI e que apontam o seu carácter discriminatório e criticam a tentativa de demonstrar superioridade católica através do argumento de que a "minha religião é mais racional que a tua". O proselitismo vai sempre preferir o choque das civilizações à la Huntington à aliança de civilizações do tipo proposto por Zapatero.
Neste contexto, digam lá se não foi este um incidente muito útil...?

Beneplácito Régio e incertezas


Ao fim de alguns dias o que era provável tornou-se evidente: o golpe de Estado tailandês beneficiou, pelo menos, da cumplicidade do monarca, senão mesmo do seu incentivo. Ao contrário do seu homólogo espanhol que se pôs do lado da democracia a combater o golpe em 82, Bhumibol "convidou" a extracção do seu primeiro-ministro e reafirmou a sua autoridade real que este beliscara.
Como já afirmei em post anterior, não procuro afirmar a bondade dos governos anteriores de Thaksin, nem branquear o carácter pouco transparente e potencialmente corrupto da sua gestão. Em causa está apenas o lamentar da instabilidade de uma das poucas democracias da região e a incerteza quanto ao futuro.
Apesar do novo executivo se comprometer a convocar eleições em Outubro de 2007 (promessa de tipo musharafiano), não hesitou em proibir a actividade partidária e as manifestações na capital, nem em censurar a imprensa. As rosas com as quais os populares saudavam os militares não chegam para as comparações abrilistas - trocou-se um democracia imperfeita por uma ditadura militar clássica.
Já agora, para finalizar, a estocada republicana. Dirão alguns que o caso de Juan Carlos demonstra que a monarquia socorrerá a democracia quando em perigo e que o caso tailandês apenas revela falta de maturidade democrática, o que não invalida o pape do monarca constitucional. Eu direi, pelo contrário, que a república permite levar Juan Carlos e Bhumibol às urnas e deixar o eleitorado escolher qual é que prefere como fiel da balança...

quinta-feira, setembro 21, 2006

Sol posto

Já vi o Sol. Não quando ele nasceu, porque não chegou à minha habitual banca de jornais (assim se demonstrando que o Sol, quando nasce, nem sempre é para todos), mas graças aos bons ofícios de uma colega que mo ofereceu depois de o ler, sabendo da minha mania de coleccionar jornais.
Do Sol esperava-se um jornal à imagem do seu criador e, conhecendo o seu criador daquilo que ele dizia no Expresso, eu antevia o pior - e o pior aconteceu, como eu esperava.
O Sol está sempre a olhar para os que estão ao lado: logo na capa "um jornal que vale por si/este semanário não oferece brindes nem faz promoções"; lá dentro, outras miradas de soslaio, de onde se destaca o Cão Traste como a piadola dos DVD's.
Do seu criador o Sol herdou o ego astronómico, olhando de soslaio para a concorrência, não deixando de sublinhar em esparsos apontamentos a notícia do seu nascimento, o seu significado para o país, anunciando desde já o que é de esperar para os próximos números: as confissões do seu pai sobre como saiu do Expresso. Ficamos a saber que a lavagem de roupa suja está para durar, como se esperava.
É notório o copianço do Independente, até pela inclusão (que é de saudar) do Cãotraste, de Augusto Cid, mesmo que para continuar a sanha de vingança do querido líder (o Cão que conta vender jornais só porque oferece DVD's). Mas a subjectividade e criatividade dos títulos e da composição das notícias sai pífia quando comparada com a do defunto, e colando-se ao modelo do 24 Horas. É um jornal mais preocupado com ser engraçado do que ter graça.
É um jornal gordo, em que as letras dos títulos enchem demasiado a página, como a querer sair para vir agarrar leitores cá fora, mas também é gordo porque concentra muita informação no caderno principal, o que acho positivo, e que lamentavelmente se veio a perder no Expresso com a sua labiríntica rede de cadernos. O problema é que para além do fundamental se concentra o supérfluo, e o supérfluo caracteriza muito mais o Sol.
O Sol é um jornal cheio de muita coisa que não interessa mas é apetecível, e por isso é que, não sendo um bom jornal, tem tudo para abocanhar o mercado do Expresso, vetusto, institucional e decadente, embora nunca venha a ocupar o seu espaço.
Já vi o Sol, mas não vi a luz.

Excertos do discurso da Ministra dos Negócios Estrangeiros israelita (Tzipi Livni) na 61ª Assembleia Geral da ONU

"These days, the days of the UN General Assembly, fall this year at a time of unique significance for the Jewish people. They come on the eve of the Jewish New Year and the Day of Atonement and are know as the Days of Awe."

...

"We have been guided... by two core values that are embodied in out declaration of independence and shape our national identity.

The First - that Israel, with Jerusalem at its heart, is the national homeland of the Jewish people - their refuge from persecution, their first and last line of defense.

The Second - that Israel is a democracy; that the values of justice, peace and humanity - first expresed by the prophets of Israel - are an integral part of our nation's sense of mission."

...

"We share the same values as the community of democratic States. We are ready, and pround, to be judged by them. They are our own."

...

"Every innocent casualty in this conflict is a tragedy. There is no difference between the tears of a grieving Israeli mother and a grieving Palestinian mother. But there is a critical moral difference between the terrorists that hunt down civilians, and the soldiers that target terrorists, while trying to avoid civilian casualties."

...

Citando Ariel Sharon:

"The Palestinians will always be our neighbors. We respect them, and have no aspirations to rule over them. They are also entitled to freedom and to a national, sovereign existence in a state of their own."

...

"The Israeli-Palestinian conflict is the consequence and not the cause of this ideology of intolerance and hatred."

...

"May the curses of the last year end; may the blessing of the new year begin."

quarta-feira, setembro 20, 2006

Golpe no Reino do Sião



Uma situação política tensa e em crescente deterioração desaguou ontem em Bangkok em golpe de Estado. Sem prejuízo da insustentável posição do Primeiro-Ministro deposto Thaksin, das manifestações em massa promovidas pela oposição nos últimos meses, da instabilidade constitucional e das relações cada vez mais difíceis com o monarca, o governo agora deposto foi, apesar da polémica eleitoral, legitimado pela vontade popular tailandesa.
A crise revela acima de tudo as fragilidades da juventude democrática: instituições incapazes de evitar a paralisia e de utilizar os mecanismos legais para resolver problemas políticos, a manutenção do poder real como factor determinante na evolução interna e a transformação rápida da sombra tutelar dos militares em intervenção golpista.


Eclipse


Li o primeiro Sol e fiquei com uma indiferente sensação de déjà vu. Ainda assim, consigo assinalar três aspectos negativos no novo semanário:

- A pequenez provocatória da nota/alfinetada de primeira página, junto ao título, indicando que o Sol é um "jornal que vale por si" e que "não oferece brindes nem faz promoções";

- A secção de etiqueta, bobonizando o caderno principal de um semanário que vai querer assumir-se como referência;

- A narrativa épica da saída de J. A. Saraiva do Expresso e da fundação do jornal, que, para além da opção ética duvidosa de revelar o teor de conversas profissionais de foro privado, assume uma dimensão onanista inconsequente, despropositada e algo megalómana.

terça-feira, setembro 19, 2006

Juro que não é obsessão pelo Pontifex


Já que estamos numa de recomendações e links, também a não perder um artigo muito interessante de Fernanda Câncio no DN de hoje em torno do erro e da infabilidade papal.

O esférico rolando sobre a erva


No contexto dos apitos, do Mateus e dos golos com a mão, a não perder o post do Zé Diogo Quintela no Gato Fedorento a propósito do jornalismo desportivo.

domingo, setembro 17, 2006

A Igreja, o passado e a contrição





Tiro o chapéu a Bento XVI. Percebeu rapidamente o alcance do que disse e tirou as consequências que tinha que tirar. Para a próxima é melhor não citar um imperador islamofóbico do século XIV - cismático ainda por cima (ver o Grande Cisma Oriental de 1054). Terá sido a citação uma espécie de piscar de olho ecuménico aos primos gregos? Não, foi mesmo só disparate.

Ironicamente, uma das igrejas que foi queimada na Palestina como represália contra o Vaticano foi uma igreja Grega Ortodoxa em Nablus. O papa diz disparates, os palestinianos não percebem nada e quem leva na cabeça são os pobres dos Ortodoxos.

Enfim... Ambiguidades da globalização.

Mas e a questão das desculpas... A Igreja já pediu desculpas, já exprimiu remorsos várias vezes. Por todo o tipo de malandrices. Chega, não?

Não.

Não é a Igreja que decide quando é que chega. São as vítimas de séculos de participação mais ou menos activa da Igreja nos maiores horrores da história da humanidade. Sublinho, da Igreja, não necessariamente dos católicos, do rank and file católico. Felizmente, a rigidez milenar da hierarquia católica permite-nos esta distinção - e facilita a procura de responsabilidades...

A coisa mais feia que há é pedir desculpas e depois esperar que o assunto esteja resolvido, é pedir desculpas desonestamente, é querer comprar o perdão com um (ou dois, ou mil) pedidos formais de desculpa. Parece haver quem ache que o mundo deve à Igreja um agradecimento especial pelos pedidos de desculpa. Há quem choramingue que a Igreja é vítima, sim, vítima, e não algoz. Vítima porque pede desculpas e ninguém a deixa sossegada. Pois bem, tendo em conta as Cruzadas (diz que Urbano II em 1096 também disse umas marotices em relação ao Islão, mas sempre num espírito de amor cristão), as Guerras Religiosas, a Inquisição, o silêncio ensurdecedor perante o Holocausto, a colaboração activa com o fascismo espanhol e as abananadas ditaduras latino-americanas, tendo em conta estes e outros episódios na lista infindável de crimes da Igreja, o Vaticano pode pedir desculpas até perder o fôlego e ainda assim não chega. E como diz um personagem na série americana ‘Six feet Under’ (estou a parafrasear): “you don’t get to cry, you take it like a man!”

A Alemanha, consciente da sua culpa histórica, aprendeu uma verdadeira lição, e toda a identidade alemã – institucional e não só – assenta numa reflexão séria sobre o passado, sobre as responsabilidades que a nação alemã carrega. E é precisamente por toda a gente acreditar na natureza genuína dessa contrição, dessa penitência colectiva, que hoje, mais do que nunca, a Alemanha volta a ter um papel preponderante nos destinos da Europa e do mundo. A Alemanha do pós-guerra took it like a man, e fez o que tinha que ser feito, sem estar sempre à espera que a recompensassem por isso. Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes fala de uma vontade heterónoma, que age moralmente para ser recompensada (com uma ida para o céu, por exemplo), e uma vontade autónoma, que age moralmente, porque segue a razão incarnada nos princípios universais do imperativo categórico. Se fossem pessoas, a Alemanha aprendeu a agir de acordo com uma vontade autónoma, enquanto o Vaticano insiste no contrário.

As recentes declarações do papa demonstram precisamente uma aflitiva falta de aprendizagem com o passado.

Quanto aos crimes dos ‘outros’, dos bolcheviques, dos jacobinos, e de outros ateus furiosos, quem me dera que houvesse uma instituição, uma hierarquia que os representasse e que permitisse o mesmo processo de aprendizagem que tanto falta à Igreja. Mas não há. Sorry. É precisamente a continuidade milenar da Igreja que a obriga a aceitar a culpa do que fez – e não fez – séculos depois de o ter feito – ou não.

Mas por mim, posso dizer que os crimes do Terror de 1794 e 1795, do ‘socialismo real’ do século vinte, ou até do exército republicano espanhol são lições importantes, que influenciam de forma decisiva os meus ideais e a minha visão do mundo. Acima de tudo porque me ensinam o efeito venenoso que certezas, dogmas e ideologias rígidas podem ter nas vidas das pessoas. Já a Igreja continua a definir-se por dogmas, certezas e rigidez.

Não admira portanto que os pedidos de desculpa saibam a pouco.

sábado, setembro 16, 2006

LEX


"A ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas."
Artigo 6.º do Código Civil.
Para além do acesso universal e gratuito ao Diário da República com faculdade de impressão e gravação, disponível desde 1 de Julho, todos os cidadãos têm ainda acesso a informação de cidadania alargada, desde 15 de Setembro, através do acesso simultâneo à base de dados DIGESTO.
A vontade geral, a um clique de distância em www.dre.pt

Parabéns atrasados

Devido às férias estivais escapou o assinalar de três efemérides: a Revolução de 24 de Agosto de 1820, a Independência do Brasil e a Revolução de 9 de Setembro de 1836.
Assim sendo, aqui ficam as felicitações às liberdades conquistadas, e a homenagem, respectivamente, ao Sinédrio, que do Porto fez começar a soprar a modernidade, a D. Pedro que do Ipiranga deu à luz uma nação-continente, e aos setembristas que procuraram aprofundar a dimensão democrática do liberalismo português.
PS: Em Outubro e Novembro cá estaremos para comemorar os passos dados posteriormente no caminho da luz da razão: a proclamação da República nas duas margens do Atlântico lusófono.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Bom Português


Referindo-se ao "lisboetês", Vital Moreira pergunta na Causa Nossa: "Mas se um cego não pode ser fotógrafo e um maneta não pode ser barbeiro, por que é que alguém que pronuncia mal o Português pode ser apresentador/a de televisão?"

Terá isto como consequência que os apresentadores da TV Globo, da RTP-N e das televisões dos PALOP também não podem ser apresentadores porque pronunciam "mal" o Português, ou melhor, porque não pronunciam o Português que tradicionalmente se considerava como padrão correcto?
Não devemos assumir que há um Português padrão e superior, há pelo contrário uma riqueza imensa de pronúncias, dialectos e regionalismos que enriquecem a nossa experiência linguística comum e permitem dentro do espaço de lusofonia dar estatuto de igualdade linguística ao Beirão, ao habitante na cidade da Beira, ao Carioca, ao Angolano, ao Minhoto e, pasme-se, ao desgraçado do Alfacinha. Não respeitando a questão à correcção gramatical, não sendo por isso adequado aludir em falar mal o Português, há sim que realçar que as várias pátrias da língua portuguesa são iguais em pergaminhos e em riqueza.
Não tinha o grande orador da nossa língua, o Padre António Vieira, um característico sotaque da Baía?

Adiante...


Vital Moreira chama a atenção na Causa Nossa para este artigo de opinião respondendo ao coro de críticas que se segui à presença das FARC na Festa do Avante! Há de tudo um pouco - anti-americanismo e anti-europeísmo primários, manipulação, insulto gratuito e relativismo gritante.
Recomendando a leitura integral do texto, cito este pequeno excerto e destacarei 3 notas breves:

"Acusando o PCP de apoiar «terroristas», os próceres da direita não procuram apenas passar uma esponja sobre a luta heróica de sucessivas gerações que combateram o fascismo em Portugal e nas ex-colónias, quantas vezes à custa da liberdade e da própria vida, mas sobretudo negar o direito dos povos a decidir dos seus próprios destinos, se necessário pela via armada."
As notas são:
1- Não havendo argumentos, argumentamos ad hominem, cunhando de fascista e direitistas os que têm opinião contrária;
2- Não havendo argumentos, manipulamos o recurso a analogias com causas universalmente reconhecidas como movimentos de libertação contra a opressão;
3- Não havendo argumentos, fugimos em frente falando em "direito dos povos a decidir dos seus próprios destinos, se necessário pela via armada," desvalorizando a realização de eleições como forma de decisão dos destinos dos povos quando o resultado é desfavorável.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Sorry...


Em declarações na passada terça-feira na Universidade de Regensburg, na Alemanha, Bento XVI manifestou-se contra o fundamentalismo religioso, afirmando que a jihad (guerra santa) do Islão é contra Deus e que defender a fé com a violência é uma coisa "irracional".
Hoje o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tentou acalmar os ânimos que se agitaram na sequência das declarações do pontífice romano, afirmando que "não era intenção do papa realizar um "estudo profundo" sobre a jihad (guerra santa) e sobre o pensamento muçulmano a esse respeito e muito menos ofender a sensibilidade dos crentes".
Em vez de tentar pedir desculpa pela potencial ofensa contida numa declaração contra a guerra em nome de Deus e contra a violência em defesa da fé, teria sido mais interessante pedir desculpa pelas Cruzadas ou pela Guerra dos 30 anos, universalizando a condenação (correcta) da guerra santa a todas as confissões que a pregam ou pregaram (particularmente as que fazem por esquecê-lo).

quinta-feira, setembro 07, 2006

Rumo ao buraco

Há dois anos fui pela última vez à Festa do Avante!, e de lá para cá só não fui mais porque não calhou. Não ia lá pelo partido, que não é meu, mas certamente que não iria a uma festa do mesmo género do PSD ou do CDS. O pessoal de esquerda tem coisas destas, de se entender em convívio, mesmo que não se entenda em política, mesmo que a esquerda seja tradicionalmente mais inclinada a divisões e a diferenças estranhamente insuperáveis.
Há muita coisa interessante na Festa do Avante!, mas também há muita coisa que não devia lá estar - por exemplo, o posto de turismo montado pelo PC Cubano, ou o stand comercial do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, representação esta que considero particularmente infeliz (na altura o stand era composto por um asiático e três ou quatro portugueses porque, segundo me informou fonte insuspeita do partido, os coreanos tinham o hábito pouco revolucionário de fugirem e nunca mais serem vistos). Há dois anos constatei com particular revolta a presença institucional das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Não era uma representação agregada a um partido comunista, como este ano, era uma presença própria e autónoma.
Quando um casal de jovens do partido me abordou para assinar o Avante!, não desarmaram depois de lhes dizer que, apesar de gostar do jornal e de já o ter comprado, não era do partido, nem simpatizante, e não tinha intenção de o assinar. Responderam que isso não era impedimento e que até o Pacheco Pereira era assinante - como quem diz que até esse assina. Como não levavam nada de mim, perguntaram o que achava da Festa, e aí disse tudo.
O que os militantes comunistas respondem invariavelmente, estes e os outros meus amigos, é que devemos ouvir o ponto de vista deles para formularmos melhor um juízo. Este argumento é válido do ponto de vista da lógica estritamente formal, mas, como lhes respondi, eu não preciso de ouvir exaustivamente o ponto de vista de um radical islâmico para formular um melhor juízo de opinião sobre o que ele defende.
O sururu que agora se formou à volta da revista que o PC Colombiano distribuía na edição deste ano da Festa do Avante! apenas peca pelo atraso de pelo menos dois anos, e a resposta do PCP reflecte a espiral de negação da realidade em que o partido mergulhou. As FARC são criminosas e terroristas porque o seu modus operandi envolve o narcotráfico (ainda que, de forma jocosa e irónica, um amiogo meu comunista observasse que «não há imoralidade em fornecer droga À juventude burguesa do ocidente decadente») e o sequestro, e não porque isso resulte de declaração dos EUA ou da UE. Mas para o PCP basta que os Estados Unidos se declarem contra isto ou aquilo para que isto ou aquilo seja acolhido e acarinhado. Do mesmo modo procede Hugo Chavez quando estende a mão a Lukashenko e a Ahmedinejad. O comunismo transformou-se na religião do contra, escolhendo lados da barricada sem propor um caminho próprio, como se não houvesse alternativa. É a estratégia de sobrevivência que não aproveita a ninguém.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Detecto um certo padrão de comportamento...


O que é que há com o pessoal de direita e retratos pendurados nas sedes de qualquer coisa?

sábado, julho 29, 2006

Comparações

Já que abordei o tópico das teses falaciosas, uma nota para a comparação com o Iraque, ensaiada recentemente por Miguel Portas numa ida a Beirute.
O conflito no Iraque é o resultado de mentira, manipulação e ganância, levando instabilidade à região e aumentando o terrorismo que se procurava combater. Não havia, nem há armas de destruição maciça no Iraque, faltando portanto qualquer legitimação para a intervenção e ocupação.
Quanto às armas de destruição do Hizbullah, essas estão a aterrar em Haifa...

Facto essencial

Não me pronunciei ainda directamente sobre o conflito no Líbano, mas penso que os meus posts anteriores traduzem o que penso sobre o assunto. Ainda assim, é importante precisar aspectos que são objecto de confusão e simplificação nos debates em curso sobre o tema. Aliás, a simplificação primária daquele que é provavelmente o conflito internacional mais complexo da actualidade, na ânsia de produzir bons e maus que possam ser fornecidos digeridos aos espectadores e leitores, é revelador da falta de rigor, isenção e bom jornalismo de que padece alguma imprensa portuguesa.
Facto essencial: o Hezbollah é uma organização terrorista que visa destruir o Estado de Israel.
Israel tem o direito a defender-se, atacando o seu inimigo declarado e que a ataca directamente há anos? Sem dúvida.
Israel usa deproporcionadamente a força? Sim.
Israel comete erros no terreno? Inquestionavelmente.
A legitimidade de Israel para se defender desaparece? Não, porque o facto essencial não se alterou: o Hizbullah é uma organização terrorista que visa destruir o Estado de Israel.
Note-se, contudo, que não estou a advogar que os fins justificam os meios, estou apenas a tentar desmontar as teses muito em voga sobre a ausência de legitimidade israelita provocada pelo seu uso excessivo de força.

Contexto

Seguindo uma linha de raciocínio que resulta de uma conversa que ontem tive, imaginemos o seguinte:

Imaginemos que a ETA não só dominava o Algarve, como tinha ministros no Governo português.
Imaginemos de seguida que a ETA atravessava a fronteira em Ayamonte e raptava soldados espanhóis estacionados em Huelva.
Imaginemos agora que a ETA começava a lançar diariamente misseís contra Sevilha.
Imaginemos que o governo português declara a sua impotência para actuar e que se sente pressionado por forças estrangeiras que condicionam a sua actuação no plano interno e externo.

Apesar deste exercício comparativo, mantenhamos algumas constantes retiradas da realidade:
- A ETA não advoga a aniquilação total do estado espanhol;
- A ETA não se assume como exército com mandato divino;
- A ETA não promove atentados bombistas suicidas indiscriminados contra civis;
- A ETA não é financiada por Estados estrangeiros;

O que estaria Espanha a fazer neste momento?

Diz que os israelitas tambem sao como nos





Ainda Vital Moreira no blog Causa Nossa

"Vejo na televisão o primeiro-ministro israelita a condenar veementemente, como "intoleráveis", as vítimas civis dos mísseis lançados pelo Hezbollah sobre Haifa. Tem toda a razão. Mas as vítimas civis libanesas dos ataques israelitas (aliás, em escala muito, muito maior), essas já são "toleráveis", ou os libaneses não contam?" ('Vitimas Israelitas', 25 de Julho)

Duas semanas depois dos civis israelitas terem comecado a morrer, Vital Moreira descobriu que os inocentes israelitas tambem merecem ser mencionados. Quem tem familia em Israel agradece a empatia tardia. E'pena que Vital Moreira nao seja capaz de condenar categoricamente o bombardeamento sistematico dos centros urbanos israelitas. Sem meter a politica ao barulho. E se eu dissesse que Israel so' mata (acidentalmente) civis libaneses por causa da guerra contra o Hezbollah, isso faz dos inocentes libaneses menos inocentes?

Na verdade suspeito que, deep down, Vital Moreira sinta que os israelitas - com ou sem uniforme - estao a pedi-las: e' que eles sao fortes, e os libaneses sao fracos. E os fortes merecem menos seguranca e menos empatia. E' que os fortes deviam ser atacados pelos fracos e ter a sabedoria de conseguir proteger-se sem usar a forca. E' que os fortes sao maquinas militares, que odeiam a paz e impedem os vizinhos de dormir descansados. E' que os israelitas gostam da guerra, nao vivem e morrem, amam e odeiam, como os outros. E' que, finalmente, Israel so' se retirou do Libano em 2000 e de Gaza em 2005 para provocar os fracos e continuar a guerra.

No dia em que a paz irromper dos escombros do Medio Oriente, Vital Moreira e outros vao ser obrigados a procurar outro conflito em que fracos e fortes se confrontam num conflito tao conveniente na sua aparente simplicidade.

(As minhas desculpas por nao acompanhar este post com imagens mais explicitas de civis israelitas feridos nos hospitais do norte de Israel. E' que, ao contrario do que se passa no Libano, as autoridades israelitas - em mais um exemplo claro de falta de escrupulos - nao permitem filmagens nos hospitais.)

O poder de Israel

Vital Moreira no blog Causa Nossa

"Aliás, a razão por que Israel não convence muita gente só tem a ver com o Hezbollah na medida em que a sua resposta à provocação deste, com o massacre indiscriminado de infra-estruturas e de civis inocentes no Líbano, só veio aumentar as razões de queixa e de ódio antijudaico entre as massas árabes, inclusive no Líbano, sentimentos que ampliam os apoios do Hezbollah e dos movimentos radicais islâmicos." ('Maniqueismo', 27 de Julho)

Aqui entre nos, quem me dera que Israel tivesse o poder de eliminar o "odio antijudaico entre as massas arabes" (ja' agora tambem gostava que Israel conseguisse eliminar o racismo, a maldade, a fome, as dores nas costas, e a falta de respeito pelas pessoas de idade)...

Admito que, o mais tardar desde 1948, as "massas arabes" tem levado a cabo um esforco consistente de entendimento e reconciliacao com Israel. Alias, poucas semanas antes da ocupacao de 1967 ter comecado, assistia-se a uma nova aurora nas relacoes israelo-arabes: uma era de paz e amor. Mas nessa altura, como agora, alias, Israel, numa ansia de complicar a sua situacao estrategica numa regiao que ate era relativamente pacifica, decidiu "aumentar as razoes de queixa e de odio antijudaico entre as massas árabes".

Quando e' que Vital Moreira e outros deixarao de imputar a Israel todo o mal que lhe acontece? Quando e' que Israel passara' a ser responsavel so pelos seus proprios erros e nao pelos erros, pelos odios, dos outros. Esta justificacao do anti-semitismo arabe atraves da politica israelita faz-me lembrar as justificacoes tao comuns do racismo em Portual. "Pa', o que e' que tu queres, os pretos roubam, e depois ainda querem que eu goste deles."

quarta-feira, julho 26, 2006

Triste figura


Há várias dimensões patéticas no novo regulamento de vestuário para jornalistas na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. É uma medida autoritária, nada democrática, que visa humilhar a comunicação social e que constitui um coarctar ilegítimo da liberdade pessoal e da liberdade de imprensa. Mas permite-nos constatar o papel central de uma imprensa livre na construção da democracia: ao pretender subjugá-la e apoucá-la, o poder jardinista da Madeira demonstra que se sente incomodado pelo seu papel vigilante e incómodo para os barões locais.

Aproveito a deixa e chamo a atenção para uma curiosidade: nos primórdios do Constitucionalismo português, aprovou-se a dada altura o traje oficial do Deputado da Nação. Sugiro aos deputados regionais madeirenses que aprovaram a medida em relação aos jornalistas que comecem por si próprios - basta uma pesquisa histórica e até pode ser que encontrem o modelo do traje oitocentista...

Espírito de Varsóvia


O PCP manifestou-se contra a eventual participação de Portugal numa força mandatada pelas Nações Unidas no Líbano cunhando-a de "força de ocupação". Não consigo descortinar em que medida é que uma intervenção destinada a estabilizar a região e a assegurar o cessar-fogo, mediante acordo das partes no conflito vai "ocupar" o que quer que seja.

Sem prejuízo das dificuldades em materializar uma operação da UE neste contexto tornarem a discussão quase académica, o PCP consegue voltar a demonstrar que reside numa realidade internacional paralela, onde nem sequer um mandato das Nações Unidas é capaz de legitimar uma operação de manutenção de paz. Para os lados da Soeiro Pereira Gomes uma operação autorizada pela Carta visa servir intuitos "imperialistas" (sic).
Mais grave é o apelo à participação em manifestações anti-imperialistas e anti-sionistas. Sim, leram bem, anti-sionistas.
Será ignorância, má-fé demagógica ou algo pior?
Espero que apenas as duas primeiras...

segunda-feira, julho 24, 2006

24 de Julho de 1833


Poucos sabem o exacto significado da data que dá nome a uma das mais populares avenidas da capital - discuti-o hoje com o meu dentista, que relacionava correctamente o evento às lutas liberais, mas que não precisava exactamente o que se assinalava.

Pois bem, comemoram-se hoje os 173 anos da libertação de Lisboa pelas tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira, na sequência da expedição que, quebrando o cerco do Porto, desembarcou no Algarve e atravessou o Alentejo até à capital, provocando a saída dos miguelistas.

Não esqueçamos os que foram fazendo o caminho da liberdade...

Para todos


Pergunta João César das Neves no DN de hoje, quase retoricamente, aguardando um óbvio não:
"E será que o Teatro Nacional de São Carlos, o Instituto Diplomático e o ensino superior público são para todos?"

Lamento sr. Professor, são de facto para todos, a não ser que adoptemos uma visão elitista e redutora das tarefas do Estado e do seu papel, que reserve as portas do conhecimento a meia dúzia de privilegiados?

quarta-feira, julho 19, 2006

"Orgia sádica de violência bélica" - nao, nao e' o Darfur




De acordo com Vital Moreira, escrevendo no seu blog Causa Nossa:

"no final desta orgia sádica de violência bélica contra um país indefeso, que deixará o Líbano em ruínas, a única coisa que Israel não conseguirá destruir é justamente o Hezbollah (que, como todos os movimentos elusivos, não precisa de infra-estruturas próprias)."

E' sempre util a opiniao de um especialista na regiao. Mas afinal o Libano e' um 'pais indefeso', ou os destinos daquele pais tem sido dominados por um 'movimento elusivo'? O Hezbollah precisa de infra-estruturas proprias e tem infra-estruturas proprias. O Hezbollah, por exemplo, domina todo uma area do sul de Beirute, onde se encontra o QG do movimento. Ou encontrava. Ha coisa mais sadica do que enviar centenas de misseis para dentro de centros urbanos civis, sem qualquer metodo, como o faz o Hezbollah (especialmente contra Haifa - na fotografia, em tempos mais pacificos)? La por Israel ter a' sua disposicao um arsenal militar consideravel, isso nao significa que os civis do norte de Israel nao morrem, nao fogem para o sul, e nao vivem em abrigos. Nao me lembro de Vital Moreira e outros se queixarem da presenca militar ocupante da Siria no Libano durante 16 anos...

Mas no meio da parcialidade bocal (a ler com cedilha que me falta neste teclado), Vital Moreira nao deixa de apontar para uma questao interessante. Depois de ter estado presente durante tantos anos no sul do Libano (ate' 2000) e de nunca ter conseguido neutralizar o Hezbollah, qual e' o plano de Israel agora? E porque e' que ha-de funcionar desta vez...

Desta vez, Israel quer alterar o equilibrio estrategico na regiao. A libertacao dos
dois soldados capturados pelo Hezbollah nao e' a prioridade a longo prazo - antes importa a Israel por fim ao status quo ante que incluia a presenca activamente hostil do Hezbollah na fronteira norte de Israel. Israel neste momento esta a testar a que ponto o Irao e a Siria estao interessados em manter o apoio ao Hezbollah. Para alem disso, Israel conta com a pressao dos outros grupos libaneses (drusos, sunitas e cristaos) para enfraquecer o Hezbollah.

Parece-me uma estrategia arriscada e maximalista: nada mais nada menos do
que neutralizar o Hezbollah de uma vez por todas.

Mas atencao as declaracoes vindas de Damasco: os sirios parecem estar com pouca vontade em arriscar seja o que for para salvar o Hezbollah. "The Syrians will fight Israel until the last Lebanese" dizia ha dias um analista israelita. Israel esta a por isso a prova.

Aqui em Israel: desalento, cansaco, mas tambem conformismo e algum consenso que outra solucao - accao militar - era dificil de imaginar. Estive recentemente com Anat Saragusti (jornalista do segundo canal da televisao israelita e mulher de esquerda) que me confirmou isso: a esquerda israelita,incluindo inicialmente figuras iconicas como Yossi Beilin, sente que Israel foi arrastado para dentro disto e que agora ha que tentar por fim a ameaca que o Hezbollah representa para as comunidades do norte do pais e nao so. 80% dos israelitas apoiam a accao militar. Num recente volte face Yossi Beilin apela agora a negociacoes, mas nao se percebe muito bem com quem e sobre que...

O principal que ha a reter e' que Israel nao esta com pressa para aceitar um cessar fogo. Trata-se agora de enfraquecer o mais possivel o Hezbollah, ao mesmo tempo que se poe a prova o grau de envolvimento de Damasco e Teerao. Se, como espera Israel, na hora H, Irao e Siria ficam quietos, talvez os dias em que o Hezbollah significava uma ameaca estrategica para Israel tenham chegado ao fim. Talvez depois de se ter demonstrado que Damasco e Teerao nao vao para a guerra por causa do Libano, a dinamica interna libanesa mobilize forcas para domar o movimento xiita.

Por aqui chovem katyushas em Haifa. Na praia em Tel Aviv veem-se os helicopteros a ir e vir do Libano, no norte as pessoas vivem em bunkers, foram mobilizadas algumas unidades das reservas. Parece haver, por enquanto, pouco apetite para uma invasao terrestre em grande escala, mas se caem misseis em Tel Aviv, all bets are off, tudo e'possivel. A televisao e os jornais israelitas nao param de mostrar imagens das ruinas no Libano e nao se ve em lado nenhum um ambiente de entusiasmo a volta desta guerra.

Entretanto os civis de ambos os lados vao morrendo, e o Libano esta de rastos.

Mas as minhas perguntas para o Vital Moreira e outros: que alternativas? Negociar com quem? Porque e' que o Hezbollah decidiu atacar? O que e' que esperavam de Israel? O que faria um estado europeu numa situacao comparavel? O que acham que fariam os estados arabes se tivessem o arsenal a disposicao de Israel? Ja pensaram nisso? Quanto tempo sobreviveria Israel se nao fosse a sua superioridade belica?

Lembro que no dia em que o Hezbollah atacou a patrulha militar israelita em territorio israelita, no mesmo dia, algumas horas antes, cairam os primeiros misseis nas cidades do norte de Israel.

Que fazer numa situacao destas?

Ficam aqui os contactos do MNE israelita, ja que toda a gente parece querer dar conselhos:

Ministry of Foreign Affairs
9 Yitzhak Rabin Blvd.
Kiryat Ben-Gurion
Jerusalem 91035
Tel. 972-2-5303111
Fax 972-2-5303367

70 Anos


Negras tormentas agitan los aires
nubes oscuras nos impiden ver,
aunque nos espere el dolor y la muerte,
contra el enemigo nos llama el deber.


El bien más preciado es la libertad
hay que defenderla con fe y valor,
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación.



En pie pueblo obrero, a la batalla
hay que derrocar a la reacción.
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!






sexta-feira, julho 14, 2006

LIBERDADE


Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!


Manuel Maria Barbosa du Bocage

217 anos de Luz






Feliz Dia da Bastilha!

quarta-feira, julho 12, 2006

Um novo Líbano







Esqueçam o que escrevi aqui há alguns dias. Acabou o modus vivendi com o Hizb'allah.

Agora é a guerra.


Num gesto de agressão gratuita o movimento xiita atacou uma patrulha israelita no Norte de Israel, matou três soldados e capturou dois. No total já morreram 8 soldados israelitas. As represálias da força aérea israelita já causaram mortes entre os libaneses.

Tudo isto para quê? Para marcar pontos nas lutas internas libanesas? Para chamar a atenção numa altura em que o mundo está focado na ofensiva em Gaza? Ou será a Síria a mostrar que ainda pode causar danos? Ou o Irão? Não sei.

Sei que todos os sonhos de assitir em breve a uma retirada substancial da Cisjordânia, que contribua a pôr fim à ocupação, são para esquecer.

Israel já começou a mobilizar as reservas.

Vae victis.

Parto daqui a dois dias para Israel.

(P.S: Para se manterem ao corrente do que se vai passando, usem o www.haaretz.com, um jornal de centro-esquerda israelita. Claro que há o Público, que publica notícias em terceira mão e às vezes funciona como porta-voz da OLP.)

sábado, julho 08, 2006

sexta-feira, julho 07, 2006

Afonso e a República



Noticia a agência LUSA que o deputado do PPM Pignatélli Queirós defendeu hoje que a abertura do túmulo de Afonso Henriques deveria depender de uma autorização da Assembleia da República.

Sem prejuízo da abertura de túmulos de personalidades famosas levantar interessantes questões éticas - saber se há ou não respeito pela memória ao pretender investigar-se os restos mortais - o que é facto é que se trata de uma prática comum, recentemente observada entre nós com a abertura da urna de João VI, que aliás concluiu pela sua morte por envenenamento.

Quanto ao pedido do deputado do PPM eleito nas listas do PSD, ficam duas pequenas observações - uma para a necessidade de respeitar a separação de poderes (os parlamentos não praticam actos administrativos...), outra para a ironia do deputado monárquico solicitar a ajuda da Assembleia da República para preservar a dignidade real. Enfim, parafraseando o João Pimenta num post de outro dia, as voltas que a vida dá.

Um novo Líbano?







É triste o que se passa em Gaza. Sem entrar em grandes análises, uma coisa é clara. Quem me dera que os Territórios Ocupados fossem o Líbano. Israel já desenvolveu um modus vivendi com o Hizb'allah. Quando a situação interna libanesa assim o exige, o Hizb'allah faz de conta que 'resiste', manda uns mísseis, faz uns raids etc. Israel responde, destrói uns campos de treino do lado libanês, depois os dois lados comunicam um com o outro e acabou. Israel fica contente de não ter de levar a cabo operações mais robustas (de que é capaz) e o Hizb'allah voltou a provar que 'resiste' e que é importante e que precisa do armamento pesado que tem, apesar de Israel já não estar no sul do Líbano, e de os outros libaneses quererem paz e sossego.

O problema com os palestinianos, para além da sua fragmentação política, é a falta de racionalidade táctica e estratégica. Os movimentos palestinianos lançam mísseis para dentro de Israel indiscriminadamente, o que não permite a Israel desenvolver um modus vivendi com eles, uma espécie de entendimento tácito de "até aqui, tudo bem, mas a nossa linha vermelha é esta". Sem que haja primeiro este tipo de 'diálogo' ao nível militar, é muito difícil conceber o diálogo político: os israelitas têm colonos em Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra os colonatos; os israelitas tiram os colonos de Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas assassinam terroristas, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas aplicam força a mais, até desproporcionada, matando civis, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas capturam membros da Jihad Islâmica, os palestinianos lançam mísseis contra Sderot; os israelitas, por via do Ministro da Defesa trabalhista, decidem aumentar o número de palestinianos que podem entrar em Israel para trabalhar, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas, mais uma vez por via de iniciativas dos membros trabalhistas do governo, decidem abrir por mais tempo o posto fronteiriço de Karni para permitir que palestinianos importem e exportem produtos, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot, atacam o posto fronteiriço de Karni e depois atacam Kerem Shalom EM ISRAEL, matam dois soldados israelitas e capturam outro.

Perante tamanha cegueira, tamanho ódio e tamanha inflexibilidade, é difícil para os moderados israelitas influenciarem as políticas do governo Olmert. Que é fraco. E que por causa disso tem a tendência de passar cheques em branco ao exército. Um exército que se sente humilhado por não conseguir pôr fim aos malditos mísseis e proteger os cidadãos de Sderot (e agora Ashkelon, um grande centro urbano israelita e novo alvo dos mísseis palestinianos). E o exército israelita não está habituado a não conseguir resolver problemas militares: por isso aumenta a intensidade da aplicação dos meios que tem à sua disposição. E é essa a explicação para o elevado número de civis que têm morrido do lado palestiniano. A culpa dessas mortes é do exército israelita e dos políticos israelitas que não assumem claramente que não há solução militar para os mísseis Qassam, e que só uma política ambiciosa e visionária de fortalecimento do Presidente Abbas através de melhorias visíveis da situação da população palestiniana, pode, a longo prazo, garantir o fim da matança. Mas a responsabilidade da agudização a que assistimos é dos movimentos palestinianos e da liderança do Hamas, que preferem continuar a levar a cabo ataques quixotescos contra cidades israelitas, a aproveitar a oportunidade histórica que lhes foi dada de bandeja aquando da retirada israelita de Gaza. Mas para isso era preciso aceitar o status quo militar, para depois se começar a falar do status quo político. O problema, como eu já disse aqui, é que o que se passa agora não passa de uma situação conjuntural, como também o foi a ocupação de '67, a primeira Intifada, a segunda Intifada, ou a retirada de Gaza: a situação estrutural, no entanto, permanece a mesma - os principais actores políticos do lado palestiniano, ou não aceitam o direito de Israel existir, ou, aceitando-o, nunca estiveram dispostos a fazer os sacrifícios políticos que transformariam essa aceitação numa solução duradoura para o conflito.