sexta-feira, setembro 15, 2006

Bom Português


Referindo-se ao "lisboetês", Vital Moreira pergunta na Causa Nossa: "Mas se um cego não pode ser fotógrafo e um maneta não pode ser barbeiro, por que é que alguém que pronuncia mal o Português pode ser apresentador/a de televisão?"

Terá isto como consequência que os apresentadores da TV Globo, da RTP-N e das televisões dos PALOP também não podem ser apresentadores porque pronunciam "mal" o Português, ou melhor, porque não pronunciam o Português que tradicionalmente se considerava como padrão correcto?
Não devemos assumir que há um Português padrão e superior, há pelo contrário uma riqueza imensa de pronúncias, dialectos e regionalismos que enriquecem a nossa experiência linguística comum e permitem dentro do espaço de lusofonia dar estatuto de igualdade linguística ao Beirão, ao habitante na cidade da Beira, ao Carioca, ao Angolano, ao Minhoto e, pasme-se, ao desgraçado do Alfacinha. Não respeitando a questão à correcção gramatical, não sendo por isso adequado aludir em falar mal o Português, há sim que realçar que as várias pátrias da língua portuguesa são iguais em pergaminhos e em riqueza.
Não tinha o grande orador da nossa língua, o Padre António Vieira, um característico sotaque da Baía?

Adiante...


Vital Moreira chama a atenção na Causa Nossa para este artigo de opinião respondendo ao coro de críticas que se segui à presença das FARC na Festa do Avante! Há de tudo um pouco - anti-americanismo e anti-europeísmo primários, manipulação, insulto gratuito e relativismo gritante.
Recomendando a leitura integral do texto, cito este pequeno excerto e destacarei 3 notas breves:

"Acusando o PCP de apoiar «terroristas», os próceres da direita não procuram apenas passar uma esponja sobre a luta heróica de sucessivas gerações que combateram o fascismo em Portugal e nas ex-colónias, quantas vezes à custa da liberdade e da própria vida, mas sobretudo negar o direito dos povos a decidir dos seus próprios destinos, se necessário pela via armada."
As notas são:
1- Não havendo argumentos, argumentamos ad hominem, cunhando de fascista e direitistas os que têm opinião contrária;
2- Não havendo argumentos, manipulamos o recurso a analogias com causas universalmente reconhecidas como movimentos de libertação contra a opressão;
3- Não havendo argumentos, fugimos em frente falando em "direito dos povos a decidir dos seus próprios destinos, se necessário pela via armada," desvalorizando a realização de eleições como forma de decisão dos destinos dos povos quando o resultado é desfavorável.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Sorry...


Em declarações na passada terça-feira na Universidade de Regensburg, na Alemanha, Bento XVI manifestou-se contra o fundamentalismo religioso, afirmando que a jihad (guerra santa) do Islão é contra Deus e que defender a fé com a violência é uma coisa "irracional".
Hoje o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tentou acalmar os ânimos que se agitaram na sequência das declarações do pontífice romano, afirmando que "não era intenção do papa realizar um "estudo profundo" sobre a jihad (guerra santa) e sobre o pensamento muçulmano a esse respeito e muito menos ofender a sensibilidade dos crentes".
Em vez de tentar pedir desculpa pela potencial ofensa contida numa declaração contra a guerra em nome de Deus e contra a violência em defesa da fé, teria sido mais interessante pedir desculpa pelas Cruzadas ou pela Guerra dos 30 anos, universalizando a condenação (correcta) da guerra santa a todas as confissões que a pregam ou pregaram (particularmente as que fazem por esquecê-lo).

quinta-feira, setembro 07, 2006

Rumo ao buraco

Há dois anos fui pela última vez à Festa do Avante!, e de lá para cá só não fui mais porque não calhou. Não ia lá pelo partido, que não é meu, mas certamente que não iria a uma festa do mesmo género do PSD ou do CDS. O pessoal de esquerda tem coisas destas, de se entender em convívio, mesmo que não se entenda em política, mesmo que a esquerda seja tradicionalmente mais inclinada a divisões e a diferenças estranhamente insuperáveis.
Há muita coisa interessante na Festa do Avante!, mas também há muita coisa que não devia lá estar - por exemplo, o posto de turismo montado pelo PC Cubano, ou o stand comercial do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, representação esta que considero particularmente infeliz (na altura o stand era composto por um asiático e três ou quatro portugueses porque, segundo me informou fonte insuspeita do partido, os coreanos tinham o hábito pouco revolucionário de fugirem e nunca mais serem vistos). Há dois anos constatei com particular revolta a presença institucional das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Não era uma representação agregada a um partido comunista, como este ano, era uma presença própria e autónoma.
Quando um casal de jovens do partido me abordou para assinar o Avante!, não desarmaram depois de lhes dizer que, apesar de gostar do jornal e de já o ter comprado, não era do partido, nem simpatizante, e não tinha intenção de o assinar. Responderam que isso não era impedimento e que até o Pacheco Pereira era assinante - como quem diz que até esse assina. Como não levavam nada de mim, perguntaram o que achava da Festa, e aí disse tudo.
O que os militantes comunistas respondem invariavelmente, estes e os outros meus amigos, é que devemos ouvir o ponto de vista deles para formularmos melhor um juízo. Este argumento é válido do ponto de vista da lógica estritamente formal, mas, como lhes respondi, eu não preciso de ouvir exaustivamente o ponto de vista de um radical islâmico para formular um melhor juízo de opinião sobre o que ele defende.
O sururu que agora se formou à volta da revista que o PC Colombiano distribuía na edição deste ano da Festa do Avante! apenas peca pelo atraso de pelo menos dois anos, e a resposta do PCP reflecte a espiral de negação da realidade em que o partido mergulhou. As FARC são criminosas e terroristas porque o seu modus operandi envolve o narcotráfico (ainda que, de forma jocosa e irónica, um amiogo meu comunista observasse que «não há imoralidade em fornecer droga À juventude burguesa do ocidente decadente») e o sequestro, e não porque isso resulte de declaração dos EUA ou da UE. Mas para o PCP basta que os Estados Unidos se declarem contra isto ou aquilo para que isto ou aquilo seja acolhido e acarinhado. Do mesmo modo procede Hugo Chavez quando estende a mão a Lukashenko e a Ahmedinejad. O comunismo transformou-se na religião do contra, escolhendo lados da barricada sem propor um caminho próprio, como se não houvesse alternativa. É a estratégia de sobrevivência que não aproveita a ninguém.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Detecto um certo padrão de comportamento...


O que é que há com o pessoal de direita e retratos pendurados nas sedes de qualquer coisa?

sábado, julho 29, 2006

Comparações

Já que abordei o tópico das teses falaciosas, uma nota para a comparação com o Iraque, ensaiada recentemente por Miguel Portas numa ida a Beirute.
O conflito no Iraque é o resultado de mentira, manipulação e ganância, levando instabilidade à região e aumentando o terrorismo que se procurava combater. Não havia, nem há armas de destruição maciça no Iraque, faltando portanto qualquer legitimação para a intervenção e ocupação.
Quanto às armas de destruição do Hizbullah, essas estão a aterrar em Haifa...

Facto essencial

Não me pronunciei ainda directamente sobre o conflito no Líbano, mas penso que os meus posts anteriores traduzem o que penso sobre o assunto. Ainda assim, é importante precisar aspectos que são objecto de confusão e simplificação nos debates em curso sobre o tema. Aliás, a simplificação primária daquele que é provavelmente o conflito internacional mais complexo da actualidade, na ânsia de produzir bons e maus que possam ser fornecidos digeridos aos espectadores e leitores, é revelador da falta de rigor, isenção e bom jornalismo de que padece alguma imprensa portuguesa.
Facto essencial: o Hezbollah é uma organização terrorista que visa destruir o Estado de Israel.
Israel tem o direito a defender-se, atacando o seu inimigo declarado e que a ataca directamente há anos? Sem dúvida.
Israel usa deproporcionadamente a força? Sim.
Israel comete erros no terreno? Inquestionavelmente.
A legitimidade de Israel para se defender desaparece? Não, porque o facto essencial não se alterou: o Hizbullah é uma organização terrorista que visa destruir o Estado de Israel.
Note-se, contudo, que não estou a advogar que os fins justificam os meios, estou apenas a tentar desmontar as teses muito em voga sobre a ausência de legitimidade israelita provocada pelo seu uso excessivo de força.

Contexto

Seguindo uma linha de raciocínio que resulta de uma conversa que ontem tive, imaginemos o seguinte:

Imaginemos que a ETA não só dominava o Algarve, como tinha ministros no Governo português.
Imaginemos de seguida que a ETA atravessava a fronteira em Ayamonte e raptava soldados espanhóis estacionados em Huelva.
Imaginemos agora que a ETA começava a lançar diariamente misseís contra Sevilha.
Imaginemos que o governo português declara a sua impotência para actuar e que se sente pressionado por forças estrangeiras que condicionam a sua actuação no plano interno e externo.

Apesar deste exercício comparativo, mantenhamos algumas constantes retiradas da realidade:
- A ETA não advoga a aniquilação total do estado espanhol;
- A ETA não se assume como exército com mandato divino;
- A ETA não promove atentados bombistas suicidas indiscriminados contra civis;
- A ETA não é financiada por Estados estrangeiros;

O que estaria Espanha a fazer neste momento?

Diz que os israelitas tambem sao como nos





Ainda Vital Moreira no blog Causa Nossa

"Vejo na televisão o primeiro-ministro israelita a condenar veementemente, como "intoleráveis", as vítimas civis dos mísseis lançados pelo Hezbollah sobre Haifa. Tem toda a razão. Mas as vítimas civis libanesas dos ataques israelitas (aliás, em escala muito, muito maior), essas já são "toleráveis", ou os libaneses não contam?" ('Vitimas Israelitas', 25 de Julho)

Duas semanas depois dos civis israelitas terem comecado a morrer, Vital Moreira descobriu que os inocentes israelitas tambem merecem ser mencionados. Quem tem familia em Israel agradece a empatia tardia. E'pena que Vital Moreira nao seja capaz de condenar categoricamente o bombardeamento sistematico dos centros urbanos israelitas. Sem meter a politica ao barulho. E se eu dissesse que Israel so' mata (acidentalmente) civis libaneses por causa da guerra contra o Hezbollah, isso faz dos inocentes libaneses menos inocentes?

Na verdade suspeito que, deep down, Vital Moreira sinta que os israelitas - com ou sem uniforme - estao a pedi-las: e' que eles sao fortes, e os libaneses sao fracos. E os fortes merecem menos seguranca e menos empatia. E' que os fortes deviam ser atacados pelos fracos e ter a sabedoria de conseguir proteger-se sem usar a forca. E' que os fortes sao maquinas militares, que odeiam a paz e impedem os vizinhos de dormir descansados. E' que os israelitas gostam da guerra, nao vivem e morrem, amam e odeiam, como os outros. E' que, finalmente, Israel so' se retirou do Libano em 2000 e de Gaza em 2005 para provocar os fracos e continuar a guerra.

No dia em que a paz irromper dos escombros do Medio Oriente, Vital Moreira e outros vao ser obrigados a procurar outro conflito em que fracos e fortes se confrontam num conflito tao conveniente na sua aparente simplicidade.

(As minhas desculpas por nao acompanhar este post com imagens mais explicitas de civis israelitas feridos nos hospitais do norte de Israel. E' que, ao contrario do que se passa no Libano, as autoridades israelitas - em mais um exemplo claro de falta de escrupulos - nao permitem filmagens nos hospitais.)

O poder de Israel

Vital Moreira no blog Causa Nossa

"Aliás, a razão por que Israel não convence muita gente só tem a ver com o Hezbollah na medida em que a sua resposta à provocação deste, com o massacre indiscriminado de infra-estruturas e de civis inocentes no Líbano, só veio aumentar as razões de queixa e de ódio antijudaico entre as massas árabes, inclusive no Líbano, sentimentos que ampliam os apoios do Hezbollah e dos movimentos radicais islâmicos." ('Maniqueismo', 27 de Julho)

Aqui entre nos, quem me dera que Israel tivesse o poder de eliminar o "odio antijudaico entre as massas arabes" (ja' agora tambem gostava que Israel conseguisse eliminar o racismo, a maldade, a fome, as dores nas costas, e a falta de respeito pelas pessoas de idade)...

Admito que, o mais tardar desde 1948, as "massas arabes" tem levado a cabo um esforco consistente de entendimento e reconciliacao com Israel. Alias, poucas semanas antes da ocupacao de 1967 ter comecado, assistia-se a uma nova aurora nas relacoes israelo-arabes: uma era de paz e amor. Mas nessa altura, como agora, alias, Israel, numa ansia de complicar a sua situacao estrategica numa regiao que ate era relativamente pacifica, decidiu "aumentar as razoes de queixa e de odio antijudaico entre as massas árabes".

Quando e' que Vital Moreira e outros deixarao de imputar a Israel todo o mal que lhe acontece? Quando e' que Israel passara' a ser responsavel so pelos seus proprios erros e nao pelos erros, pelos odios, dos outros. Esta justificacao do anti-semitismo arabe atraves da politica israelita faz-me lembrar as justificacoes tao comuns do racismo em Portual. "Pa', o que e' que tu queres, os pretos roubam, e depois ainda querem que eu goste deles."

quarta-feira, julho 26, 2006

Triste figura


Há várias dimensões patéticas no novo regulamento de vestuário para jornalistas na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. É uma medida autoritária, nada democrática, que visa humilhar a comunicação social e que constitui um coarctar ilegítimo da liberdade pessoal e da liberdade de imprensa. Mas permite-nos constatar o papel central de uma imprensa livre na construção da democracia: ao pretender subjugá-la e apoucá-la, o poder jardinista da Madeira demonstra que se sente incomodado pelo seu papel vigilante e incómodo para os barões locais.

Aproveito a deixa e chamo a atenção para uma curiosidade: nos primórdios do Constitucionalismo português, aprovou-se a dada altura o traje oficial do Deputado da Nação. Sugiro aos deputados regionais madeirenses que aprovaram a medida em relação aos jornalistas que comecem por si próprios - basta uma pesquisa histórica e até pode ser que encontrem o modelo do traje oitocentista...

Espírito de Varsóvia


O PCP manifestou-se contra a eventual participação de Portugal numa força mandatada pelas Nações Unidas no Líbano cunhando-a de "força de ocupação". Não consigo descortinar em que medida é que uma intervenção destinada a estabilizar a região e a assegurar o cessar-fogo, mediante acordo das partes no conflito vai "ocupar" o que quer que seja.

Sem prejuízo das dificuldades em materializar uma operação da UE neste contexto tornarem a discussão quase académica, o PCP consegue voltar a demonstrar que reside numa realidade internacional paralela, onde nem sequer um mandato das Nações Unidas é capaz de legitimar uma operação de manutenção de paz. Para os lados da Soeiro Pereira Gomes uma operação autorizada pela Carta visa servir intuitos "imperialistas" (sic).
Mais grave é o apelo à participação em manifestações anti-imperialistas e anti-sionistas. Sim, leram bem, anti-sionistas.
Será ignorância, má-fé demagógica ou algo pior?
Espero que apenas as duas primeiras...

segunda-feira, julho 24, 2006

24 de Julho de 1833


Poucos sabem o exacto significado da data que dá nome a uma das mais populares avenidas da capital - discuti-o hoje com o meu dentista, que relacionava correctamente o evento às lutas liberais, mas que não precisava exactamente o que se assinalava.

Pois bem, comemoram-se hoje os 173 anos da libertação de Lisboa pelas tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira, na sequência da expedição que, quebrando o cerco do Porto, desembarcou no Algarve e atravessou o Alentejo até à capital, provocando a saída dos miguelistas.

Não esqueçamos os que foram fazendo o caminho da liberdade...

Para todos


Pergunta João César das Neves no DN de hoje, quase retoricamente, aguardando um óbvio não:
"E será que o Teatro Nacional de São Carlos, o Instituto Diplomático e o ensino superior público são para todos?"

Lamento sr. Professor, são de facto para todos, a não ser que adoptemos uma visão elitista e redutora das tarefas do Estado e do seu papel, que reserve as portas do conhecimento a meia dúzia de privilegiados?

quarta-feira, julho 19, 2006

"Orgia sádica de violência bélica" - nao, nao e' o Darfur




De acordo com Vital Moreira, escrevendo no seu blog Causa Nossa:

"no final desta orgia sádica de violência bélica contra um país indefeso, que deixará o Líbano em ruínas, a única coisa que Israel não conseguirá destruir é justamente o Hezbollah (que, como todos os movimentos elusivos, não precisa de infra-estruturas próprias)."

E' sempre util a opiniao de um especialista na regiao. Mas afinal o Libano e' um 'pais indefeso', ou os destinos daquele pais tem sido dominados por um 'movimento elusivo'? O Hezbollah precisa de infra-estruturas proprias e tem infra-estruturas proprias. O Hezbollah, por exemplo, domina todo uma area do sul de Beirute, onde se encontra o QG do movimento. Ou encontrava. Ha coisa mais sadica do que enviar centenas de misseis para dentro de centros urbanos civis, sem qualquer metodo, como o faz o Hezbollah (especialmente contra Haifa - na fotografia, em tempos mais pacificos)? La por Israel ter a' sua disposicao um arsenal militar consideravel, isso nao significa que os civis do norte de Israel nao morrem, nao fogem para o sul, e nao vivem em abrigos. Nao me lembro de Vital Moreira e outros se queixarem da presenca militar ocupante da Siria no Libano durante 16 anos...

Mas no meio da parcialidade bocal (a ler com cedilha que me falta neste teclado), Vital Moreira nao deixa de apontar para uma questao interessante. Depois de ter estado presente durante tantos anos no sul do Libano (ate' 2000) e de nunca ter conseguido neutralizar o Hezbollah, qual e' o plano de Israel agora? E porque e' que ha-de funcionar desta vez...

Desta vez, Israel quer alterar o equilibrio estrategico na regiao. A libertacao dos
dois soldados capturados pelo Hezbollah nao e' a prioridade a longo prazo - antes importa a Israel por fim ao status quo ante que incluia a presenca activamente hostil do Hezbollah na fronteira norte de Israel. Israel neste momento esta a testar a que ponto o Irao e a Siria estao interessados em manter o apoio ao Hezbollah. Para alem disso, Israel conta com a pressao dos outros grupos libaneses (drusos, sunitas e cristaos) para enfraquecer o Hezbollah.

Parece-me uma estrategia arriscada e maximalista: nada mais nada menos do
que neutralizar o Hezbollah de uma vez por todas.

Mas atencao as declaracoes vindas de Damasco: os sirios parecem estar com pouca vontade em arriscar seja o que for para salvar o Hezbollah. "The Syrians will fight Israel until the last Lebanese" dizia ha dias um analista israelita. Israel esta a por isso a prova.

Aqui em Israel: desalento, cansaco, mas tambem conformismo e algum consenso que outra solucao - accao militar - era dificil de imaginar. Estive recentemente com Anat Saragusti (jornalista do segundo canal da televisao israelita e mulher de esquerda) que me confirmou isso: a esquerda israelita,incluindo inicialmente figuras iconicas como Yossi Beilin, sente que Israel foi arrastado para dentro disto e que agora ha que tentar por fim a ameaca que o Hezbollah representa para as comunidades do norte do pais e nao so. 80% dos israelitas apoiam a accao militar. Num recente volte face Yossi Beilin apela agora a negociacoes, mas nao se percebe muito bem com quem e sobre que...

O principal que ha a reter e' que Israel nao esta com pressa para aceitar um cessar fogo. Trata-se agora de enfraquecer o mais possivel o Hezbollah, ao mesmo tempo que se poe a prova o grau de envolvimento de Damasco e Teerao. Se, como espera Israel, na hora H, Irao e Siria ficam quietos, talvez os dias em que o Hezbollah significava uma ameaca estrategica para Israel tenham chegado ao fim. Talvez depois de se ter demonstrado que Damasco e Teerao nao vao para a guerra por causa do Libano, a dinamica interna libanesa mobilize forcas para domar o movimento xiita.

Por aqui chovem katyushas em Haifa. Na praia em Tel Aviv veem-se os helicopteros a ir e vir do Libano, no norte as pessoas vivem em bunkers, foram mobilizadas algumas unidades das reservas. Parece haver, por enquanto, pouco apetite para uma invasao terrestre em grande escala, mas se caem misseis em Tel Aviv, all bets are off, tudo e'possivel. A televisao e os jornais israelitas nao param de mostrar imagens das ruinas no Libano e nao se ve em lado nenhum um ambiente de entusiasmo a volta desta guerra.

Entretanto os civis de ambos os lados vao morrendo, e o Libano esta de rastos.

Mas as minhas perguntas para o Vital Moreira e outros: que alternativas? Negociar com quem? Porque e' que o Hezbollah decidiu atacar? O que e' que esperavam de Israel? O que faria um estado europeu numa situacao comparavel? O que acham que fariam os estados arabes se tivessem o arsenal a disposicao de Israel? Ja pensaram nisso? Quanto tempo sobreviveria Israel se nao fosse a sua superioridade belica?

Lembro que no dia em que o Hezbollah atacou a patrulha militar israelita em territorio israelita, no mesmo dia, algumas horas antes, cairam os primeiros misseis nas cidades do norte de Israel.

Que fazer numa situacao destas?

Ficam aqui os contactos do MNE israelita, ja que toda a gente parece querer dar conselhos:

Ministry of Foreign Affairs
9 Yitzhak Rabin Blvd.
Kiryat Ben-Gurion
Jerusalem 91035
Tel. 972-2-5303111
Fax 972-2-5303367

70 Anos


Negras tormentas agitan los aires
nubes oscuras nos impiden ver,
aunque nos espere el dolor y la muerte,
contra el enemigo nos llama el deber.


El bien más preciado es la libertad
hay que defenderla con fe y valor,
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación.



En pie pueblo obrero, a la batalla
hay que derrocar a la reacción.
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!






sexta-feira, julho 14, 2006

LIBERDADE


Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!


Manuel Maria Barbosa du Bocage

217 anos de Luz






Feliz Dia da Bastilha!

quarta-feira, julho 12, 2006

Um novo Líbano







Esqueçam o que escrevi aqui há alguns dias. Acabou o modus vivendi com o Hizb'allah.

Agora é a guerra.


Num gesto de agressão gratuita o movimento xiita atacou uma patrulha israelita no Norte de Israel, matou três soldados e capturou dois. No total já morreram 8 soldados israelitas. As represálias da força aérea israelita já causaram mortes entre os libaneses.

Tudo isto para quê? Para marcar pontos nas lutas internas libanesas? Para chamar a atenção numa altura em que o mundo está focado na ofensiva em Gaza? Ou será a Síria a mostrar que ainda pode causar danos? Ou o Irão? Não sei.

Sei que todos os sonhos de assitir em breve a uma retirada substancial da Cisjordânia, que contribua a pôr fim à ocupação, são para esquecer.

Israel já começou a mobilizar as reservas.

Vae victis.

Parto daqui a dois dias para Israel.

(P.S: Para se manterem ao corrente do que se vai passando, usem o www.haaretz.com, um jornal de centro-esquerda israelita. Claro que há o Público, que publica notícias em terceira mão e às vezes funciona como porta-voz da OLP.)

sábado, julho 08, 2006

sexta-feira, julho 07, 2006

Afonso e a República



Noticia a agência LUSA que o deputado do PPM Pignatélli Queirós defendeu hoje que a abertura do túmulo de Afonso Henriques deveria depender de uma autorização da Assembleia da República.

Sem prejuízo da abertura de túmulos de personalidades famosas levantar interessantes questões éticas - saber se há ou não respeito pela memória ao pretender investigar-se os restos mortais - o que é facto é que se trata de uma prática comum, recentemente observada entre nós com a abertura da urna de João VI, que aliás concluiu pela sua morte por envenenamento.

Quanto ao pedido do deputado do PPM eleito nas listas do PSD, ficam duas pequenas observações - uma para a necessidade de respeitar a separação de poderes (os parlamentos não praticam actos administrativos...), outra para a ironia do deputado monárquico solicitar a ajuda da Assembleia da República para preservar a dignidade real. Enfim, parafraseando o João Pimenta num post de outro dia, as voltas que a vida dá.

Um novo Líbano?







É triste o que se passa em Gaza. Sem entrar em grandes análises, uma coisa é clara. Quem me dera que os Territórios Ocupados fossem o Líbano. Israel já desenvolveu um modus vivendi com o Hizb'allah. Quando a situação interna libanesa assim o exige, o Hizb'allah faz de conta que 'resiste', manda uns mísseis, faz uns raids etc. Israel responde, destrói uns campos de treino do lado libanês, depois os dois lados comunicam um com o outro e acabou. Israel fica contente de não ter de levar a cabo operações mais robustas (de que é capaz) e o Hizb'allah voltou a provar que 'resiste' e que é importante e que precisa do armamento pesado que tem, apesar de Israel já não estar no sul do Líbano, e de os outros libaneses quererem paz e sossego.

O problema com os palestinianos, para além da sua fragmentação política, é a falta de racionalidade táctica e estratégica. Os movimentos palestinianos lançam mísseis para dentro de Israel indiscriminadamente, o que não permite a Israel desenvolver um modus vivendi com eles, uma espécie de entendimento tácito de "até aqui, tudo bem, mas a nossa linha vermelha é esta". Sem que haja primeiro este tipo de 'diálogo' ao nível militar, é muito difícil conceber o diálogo político: os israelitas têm colonos em Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra os colonatos; os israelitas tiram os colonos de Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas assassinam terroristas, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas aplicam força a mais, até desproporcionada, matando civis, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas capturam membros da Jihad Islâmica, os palestinianos lançam mísseis contra Sderot; os israelitas, por via do Ministro da Defesa trabalhista, decidem aumentar o número de palestinianos que podem entrar em Israel para trabalhar, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas, mais uma vez por via de iniciativas dos membros trabalhistas do governo, decidem abrir por mais tempo o posto fronteiriço de Karni para permitir que palestinianos importem e exportem produtos, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot, atacam o posto fronteiriço de Karni e depois atacam Kerem Shalom EM ISRAEL, matam dois soldados israelitas e capturam outro.

Perante tamanha cegueira, tamanho ódio e tamanha inflexibilidade, é difícil para os moderados israelitas influenciarem as políticas do governo Olmert. Que é fraco. E que por causa disso tem a tendência de passar cheques em branco ao exército. Um exército que se sente humilhado por não conseguir pôr fim aos malditos mísseis e proteger os cidadãos de Sderot (e agora Ashkelon, um grande centro urbano israelita e novo alvo dos mísseis palestinianos). E o exército israelita não está habituado a não conseguir resolver problemas militares: por isso aumenta a intensidade da aplicação dos meios que tem à sua disposição. E é essa a explicação para o elevado número de civis que têm morrido do lado palestiniano. A culpa dessas mortes é do exército israelita e dos políticos israelitas que não assumem claramente que não há solução militar para os mísseis Qassam, e que só uma política ambiciosa e visionária de fortalecimento do Presidente Abbas através de melhorias visíveis da situação da população palestiniana, pode, a longo prazo, garantir o fim da matança. Mas a responsabilidade da agudização a que assistimos é dos movimentos palestinianos e da liderança do Hamas, que preferem continuar a levar a cabo ataques quixotescos contra cidades israelitas, a aproveitar a oportunidade histórica que lhes foi dada de bandeja aquando da retirada israelita de Gaza. Mas para isso era preciso aceitar o status quo militar, para depois se começar a falar do status quo político. O problema, como eu já disse aqui, é que o que se passa agora não passa de uma situação conjuntural, como também o foi a ocupação de '67, a primeira Intifada, a segunda Intifada, ou a retirada de Gaza: a situação estrutural, no entanto, permanece a mesma - os principais actores políticos do lado palestiniano, ou não aceitam o direito de Israel existir, ou, aceitando-o, nunca estiveram dispostos a fazer os sacrifícios políticos que transformariam essa aceitação numa solução duradoura para o conflito.

Será preciso esperar mais 200 anos?



Mais de 200 anos depois de Olympe de Gouges ter agitado o monopólio revolucionário masculino, anunciando a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a AR debateu e reaprovou ontem com alterações um acto legislativo essencial à construção da igualdade de género na esfera do poder político. Do debate, apesar de mais rico, plural e complexo do que a minha breve escolha permite, destaco a afirmação da deputada Helena Pinto:

"Não estamos a discutir a aprovação de quotas para as mulheres. Estamos aqui a discutir o fim da quota maioritária dos homens."

Revolução e Transição


O PP espanhol inssite em não condenar o golpe de estado que inciou a Guerra Civil em 1936, bem como o regime franquista que acabou por ser a sua consequência final. Lidar com a memória e com a responsabilidade pelo passado é algo que alguma direita espanhola continua a recusar fazer.

Daí que, sem desprimor para o resultado e para o empenho dos seus construtores, eu continue a preferir o resultado libertador e exorcizante da Revolução dos Cravos à transição espanhola sem mácula, mas através do compromiso com o torcionário de ontem.

sexta-feira, junho 30, 2006

Fazer a polis



Rui Rio é um autarca com o qual francamente simpatizo. Aprecio a determinação, um certo sentido republicano que dá ao exercício das funções de edil e que marca um corte com interesses instalados e procura assegurar a defesa do interesse público, na leitura por si legitimamente defendida.
Daí que me entristeça ocasionalmente com medidas um pouco despropositadas e mesmo chocantes na relação com as oposições e com outros intervenientes da vida social e política. Foi o que me sucedeu hoje: a Câmara do Porto aprovou na terça-feira uma proposta de protocolo que atribui um subsídio à Fundação Eugénio de Andrade na condição de esta instituição se abster de criticar a autarquia.
Para além de não ser bonito fazer depender o auxílio a qualquer actividade que revista interesse para a sociedade de contrapartida com contação política, a opção é ainda mais grave do ponto de vista do impacto na política de apoios financeiros - no limite só sobram subsídios para os subservientes, para os amigos ou para os muito dependentes.

A Câmara do Porto devia sim gabar-se de apoiar todos aqueles que enriquecem a cidade legitimamente com actividades culturais e cívicas da mais diversa índole, e deveria fazer gala de apoiar aqueles que são contrários a algumas das suas opções políticas, demonstrando neutralidade e imparcialidade.

Só com a pluralidade se constrói a cidade.

Cheira a censura para os lados da Av. dos Aliados e é pena...



PS: Não posso, porém, deixar de assinalar que a proposta foi aprovada com os votos favoráveis da maioria PSD/CDS-PP e de quatro vereadores do PS, tendo-se abstido um autarca socialista e votado contra apenas o solitário vereador da CDU, pelo que as críticas são extensíveis a todos os autores da triste medida.

As voltas que o mundo dá

Títulos das notícias online do Público sobre a demissão de Freitas do Amaral do MNE (Opinião dos vários partidos apresentada da esquerda para a direita):
PCP preocupado com possível mudança negativa na política externa
Francisco Louçã: Luís Amado será "uma voz de protecção" da política norte-americana
PS elogia desempenho de Freitas do Amaral no MNE
PSD acusa primeiro-ministro de ter acordado tarde para problema no MNE
CDS-PP: demissão de Freitas do Amaral "era politicamente esperada"

LOL...

quarta-feira, junho 28, 2006

Regionalismos...

O Presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho, autarca que esteve na origem das polémicas declarações do respectivo presidente da edilidade, Fernando Ruas, sobre a recepção à pedrada dos vigilantes da natureza, veio em defesa deste último dizendo que "soube interpretar as afirmações de Fernando Ruas, lembrando que se trata de "uma expressão típica das beiras".
"Põe-te a pau senão arriscas-te a levar na tromba, ó animal" também é uma regionalismo muito caro a diversos lisboetas, mas não parece que daí se consiga retirar um sentido muito figurado....

«É corrê-los à pedrada!»


Mas apenas no sentido figurado, como o Ruas. E dentro do maior respeito e amizade

segunda-feira, junho 26, 2006

Academia e homilia



Em relação a um comentário ao meu post de ontem deixava apenas as seguintes breves notas:

1 – A Universidade demite-se objectivamente de assinalar o final das licenciaturas com um acto de entrega de diplomas, invocando precisamente a existência das cerimónias da benção. Aqueles que aparentemente acorrem em massa à iniciativa não o fazem por especial devoção, mas sim porque não tem como festejar a conclusão das suas licenciaturas. Falo com conhecimento de causa, pois observei o fenómeno enquanto aluno e continuo a verificar que assim é enquanto docente. Não questiono a fé que move muitos dos que acorrem à Alameda, questiono sim a instrumentalização pelas autoridades eclesiásticas, que aproveitam para insuflar artificialmente o número dos seus fiéis.

2 – Uma cerimónia neutra, de entrega de diplomas, de abertura de ano académico ou de celebração universitária não é uma liturgia concorrente da religiosa, representando sim interesses e valores distintos. Não há concorrência porque não estão no mesmo plano: a esfera religiosa tem o seu espaço próprio, no qual é livre de se desenvolver e manifestar, o mesmo sucedendo quanto ao mundo académico. O que critico é esta invasão do espaço universitário que o priva das suas próprias tradições e solenidades. Assim como não pretendem os conselhos científicos e os senados das universidades organizar provas de agregação nos templos católicos, igualmente clara deveria ser a separação das esferas no sentido contrário.

3 – Um cerimónia neutra é para todos, não deixando fora das escadarias da reitoria os ateus, os agnósticos, os judeus, os protestantes e todos os que não têm lugar nos ritos católicos. Uma cerimónia neutra não teria por objectivo propagar qualquer doutrina, ideologia ou superstição, apenas celebrar um passo fundamental na formação individual de cada um, o preenchimento de uma etapa de aquisição de conhecimento. É esse o denominador comum entre todos os finalistas.

4 – Quanto àqueles em nome de quem falo, limito-me a colocar-me no papel de quem já foi excluído de um acto académico tomado de assalto por uma fé religiosa particular. A legitimidade que invoco para o efeito é apenas a do grupo de que faço parte e que sente na pele a exclusão. E, independentemente dos números daqueles que elegantemente são descritos como hordas, sempre me pareceu que a discriminação de um é tão condenável como a discriminação de dois ou de cem, tendo em conta o carácter universal e intemporal de determinados valores.

5 – Finalmente, quanto à suposta piada fácil relativa ao pedir perdão pelos excessos, devo assinalar que, ao contrário do que podem pensar, não foi nada fácil ensaiar um esforço de contenção tão grande que evitasse o potencial humorístico da ideia de actos religiosos inseridos no final de festividades universitárias pautadas por rios de cerveja, autodeterminação sexual e música demoníaca.

domingo, junho 25, 2006

Vitória pírrica

Outra vitória assim no mundial e Portugal vê-se obrigado a convocar o massagista e o condutor do autocarro da selecção para jogar. Parece que a nata do futebol português, depois da histeria irresponsável nas meias-finais de 2000 (contra a França) e da estupidez criminosa contra a Coreia do Sul em 2002, nos conseguiu presentear com mais um festival degradante de cabeçadas, entradas a matar e pegas pueris.

Bem sei que eles são bons rapazes, que tiveram uma infância difícil, e que os holandeses também não primaram pela bondade, mas bolas, é sempre a mesma atitude de putos de 12 anos no recreio… Assim não dignificam a imagem da República Portuguesa.

Mas de resto, contra os bretões marchar, marchar…

sábado, junho 24, 2006

Nota pessoal - benção das fitas

Retomando o ponto das bençãos do post anterior, deixo uma breve nota pessoal sobre confusão entre esferas pública e religiosa em domínio análogo.

O único acto solene que marca o fim do curso dos estudantes universitários de Lisboa é a benção das fitas, realizada na Alameda da Universidade com o beneplácito das instâncias reitorais. Não querendo pôr em causa o direito que assiste aos estudantes católicos de querer marcar com uma cerimónia religiosa o fim da sua experiência universitária (pedindo perdão por excessos, quem sabe?), a ausência de um acto público, da iniciativa das Universidades Públicas da cidade, deixa um vazio para os estudantes que, como eu, não professam uma fé ou que, como outros, professam uma fé que não a católica, permitindo a uma confissão monopolizar o espaço académico, forçando a mão dos que pouco crentes ou desejosos de um rito de passagem, alinham na sua instrumentalização do evento.
Falando em nome daqueles que vão continuar a ficar de fora, chamo a atenção para o dever público de evitar a perpetuação da marginalização.

Por vezes as boas ideias vêm de onde menos se espera




Na polémica que aqueles que não compreendem o significado e alcance da laicidade alimentam, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, ao pensar que provocava os jacobinos da esquerda, teve hoje duas boas ideias:
1 - Acabar com as bençãos em cerimónias de inaugurações oficiais.
De facto, não se consegue compreender como é que é possível que subsistam actos de natureza estritamente religiosa enquadrados em cerimónias públicas. Se a crença de alguns retira conforto do facto de uma ponte, uma estrada ou um parque de diversões em Sobral de Monte Agraço ter sido benzido então, por quem sois, benzei a infra-estrutura pública. Não peçam é para fazê-lo no quadro de uma cerimónica do Estado. A infra-estrutura é para todos usarem, admitindo-se que todos a possam benzer. Agora o Estado é que não é chamado a participar.
2 - Acabar com os feriados religiosos
Na sequência de umas ideias que aqui já tive opinião de referir em sede de comentários, é algo que faz todo o sentido. O Estado pode reconhecer que o fenómeno religioso clama pela existência de dias santos, que os fiéis pretendem observar. Assim sendo, fixe-se um número anual de dias que podem ser requeridos potestativamente pelos trabalhadores ao empregador para este fim (ou para outro qualquer, caso seja agnóstico ou ateu), permitindo, ao contrário da lei actual, que todas as confissões gozem de igual tratamento.
Não dizia Jesus de Nazaré, a César o que é de César?
PS: Desculpem lá isto de nós defensores da laicidade insistirmos sempre em citar um máxima de Jesus Cristo com quase dois mil anos para demonstrar este argumento, mas ele é tão claro que não nos cansamos de o repetir.

A Boina vive!


Os cidadãos e cidadãs da Boina regressam. Depois do exemplo dado pelo post anterior, chegou a hora de acabar com o silêncio e voltar ao ataque. Apesar da negligência criminosa dos últimos meses, a chama da República deste blog não se apaga. A Boina de regresso, numa blogosfera perto de si.

terça-feira, junho 20, 2006

Picasso Tradición y Vanguardia

Sexta-feira passada estive em Madrid para observar a exposição "Picasso tradicion y vanguardia" promovida pelos museus reina Sofia e Prado que se juntaram para uma exposição inédita e irrepetível que pretende confrontar as obras de Picasso com as obras de Goya, Velásquez e outros clássicos que lhe serviram de inspiração.










Quero tentar replicar aqui, desta forma gráfica uma das sensações mais comoventes que me proporcionou a arte. Estar numa sala literalmente rodeado pelo Guernica e o Massacre da Coreia de Picasso, o 3 de Mayo de Goya e o Fuzilamento do Imperador Maximiliano de Manet.

Picasso foi um claro apoiante da causa Republicana durante a Guerra Civil espanhola e o Guernica é o seu testemunho do horror da repressão Franquista durante um dos períodos mais negros da história de Espanha. O confronto deste quadro com o 3 de Mayo de Goya, politicamente simétrico e, resulta numa censura à guerra e aos seus horrores, liberta de qualquer conotação política ou religiosa.

segunda-feira, maio 15, 2006

Obviamente, obrigado!


Humberto Delgado (15 Maio 1906 - 13 Fevereiro 1965)

terça-feira, abril 25, 2006

A Revolução que tanto amamos


Não é por este blog andar paradito de posts que vamos deixar de prestar atenção ao que realmente interessa. Aqui deixo o meu sentido testemunho.

Foi na sequência da Ávinho em Aveiras. Desafiei os escuteiros que ficaram este ano com a taberna do Chico da Serra. Aceitaram prolongar a festa do vinho e das adegas por mais um dia para além do fim de semana e comemorar o 25 de Abril à segunda-feira. O 25.
Não houve imposição de escolha musical, não houve nada. Apenas uma sugestão bem acolhida. eu nem gosto do escutismo, só destes escuteiros de quem sou amigo.
A festa foi bonita, pá!
Cartazes do 25 e música do Zeca. Discussão política com todos os pontos de vista representados - ou melhor, possibilidade de discutir tudo e mais qualquer coisa.
As cabeças estavam alertas e dispostas a debater e discutir. Não sei se por teimosia ou por disposição, mas sei que o tema desta festa abriu muitas portas. E o 25 de Abril aconteceu. A bem ou a mal, a discussão aconteceu. O que era bom, o que era mau, tudo isso apareceu. A política como está, como devia ser, apareceu. O debate surgiu, o diálogo proporcionou-se, e à razão deixou-se o lugar devido.
Disse, pois disse. E ainda bem que há democracia, nem que seja à volta de um copo de cerveja ou vinho.
Depois de vir a casa deixar os posters que serviram de decoração ao espaço da taberna do Chico da Serra, senti que havia alguma coisa a dizer. E por isso voltei. Disse-o. O 25 fez-se por uma sociedade idealizada que não pode conhecer limites de classe ou posição social. O 25 fez-se para que tolerÂncia que a liberdade proprociona. Ainda bem que a liberdade fala pelas mais estranhas formas. Só assim pode o 25 acontecer nas pequenas coisas, Sem atavios ou prisões. Só a liberdade. Hoje o 25 aconteceu. A mensagem passou, e eu, um pequeno elemento na correia de transmissão, deixarei e farei com que aconteça todos os dias. Que bela forma de homenagear a geração dos meus pais! Que belo presente é a liberdade!

sexta-feira, março 24, 2006

Há tanta coisa para fazer

Estamos demasiado ocupados a mudar o mundo.

Já agora deixou-vos um link para a entrevista que Ehud Olmert deu ao diário israelita de centro-esquerda Haaretz (http://www.haaretz.com/hasen/spages/692704.html). Dá uma no cravo, outra na ferradura. Mas o que mais marca é a promessa de retirar de quase toda a Cisjordânia! Em quatro anos! Cabe à esquerda israelita ter um resultado suficientemente robusto nas eleições da próxima Terça-feira para exercer pressão sobre o executivo liderado por Olmert: Israel não pode anexar Jerusalém Oriental (faz parte do programa do Partido Trabalhista abrir mão de tudo menos a Cidade Velha e o Muro das Lamentações); deve aproximar o trajecto do Muro - infelizmente necessário - o mais possível da Linha Verde de 1967 para evitar mais anexações de terra palestiniana; deve manter uma presença soft no Vale do Jordão e não uma 'fronteira de segurança'.

Finalmente, acima de tudo, só com a esquerda no poder se pode manter vivas as esperanças numa solução negociada.

Já que do lado palestiniano está tudo a andar para trás, cabe a Israel levar a cabo uma política de unilateralismo responsável.

Terça-feira Israel dá mais uma lição de maturidade democrática à região.

segunda-feira, março 06, 2006

The show must go on


A cerimónia dos Oscars de ontem prometia ser impregnada do perfumado charme da dissidência. Começou a ver-se que só poderia ser assim quando a concurso estavam os filmes que estavam, e a Academia deu seguimento quando chamou Jon Stewart para apresentar («a melhor oportunidade para ver tanta celebridade junta sem ser num jantar do Partido Democrático»). Valia a pena ficar acordado só para o ver.
O que se passou não desmereceu o prometido.
George Clooney abriu a noite da melhor maneira. Com um discurso que foi, a muitos títulos, perfeito, o empedernido e empenhado liberal à antiga declarou o seu orgulho em pertencer a uma comunidade que falava de SIDA, desigualdade e exploração quando ninguém falava, e que deu um Oscar a uma negro numa altura em que os negros só podiam sentar-se nas últimas filas dos cinemas. E a noite prosseguiu no mesmo registo, enfatizado no clip sobre filmes que abordaram questões sociais importantes. Farta de ser gozada numa América adormecida pela tribo de Bush, Hollywood sai do armário como que gritando «Liberal, and proud of it». Sacudiu o sufoco e assumiu-se. Não foi gritar e espernear à toa. Não houve folclore à Michael Moore. Foi despejar emoção contida que transbordou de tão cheio que estava o copo. Foi como que dizer a festa é minha, deixem-me dizer o que quero. Foi a celebração do orgulho de fazer filmes como uma oportunidade de provocar a inquietação do espírito através da arte e assim fazer a humanidade avançar.
Não gosto particularmente da instrumentalização da arte, mas de vez em quando faz bem assistir a estes assomos de lucidez. É o que resta de esperança na grandeza da América.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Biomedicina na Antiguidade?

Refere uma notícia da Agência Lusa: "A Bíblia (católicos), o Corão (islâmicos) e a Tora (judeus) condenam a utilização de espermatozóides ou óvulos de elementos exteriores ao casal nas técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA)."

Se não fosse a agência noticiosa mais conceituada do País até dava para rir...

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Figaro, Mozart, Beaumarchais e Da Ponte

Na passada semana tive o enorme prazer de assistir no Scala de Milão a uma encenação memorável da Ópera “As Bodas de Fígaro” do aniversariante Mozart com um Libreto excepcional de Lorenzo Da Ponte baseado num texto revolucionário de Beaumarchais.

Quando Mozart celebra o seu 250 aniversário é importante lembrar uma faceta deste compositor que, não sendo tão explicitamente adepto dos ideais da Revolução como Beethoven, teve a coragem de levar à Viena feudal de 1786, três anos antes d’A Revolução Francesa, uma ópera baseada num texto incendiário de Beaumarchais que tinha na versão inicial frases como esta de Figaro ao conde:
“Por ser um grande fidalgo, o senhor acredita ser um grande génio [...] O que fez para possuir tantos bens? Deu-se apenas ao trabalho de nascer e nada mais" ou ainda esta chave de encerramento do texto "Por obra e graça do nascimento, um é rei, o outro pastor, o acaso criou a distância, apenas o espírito pode mudar tudo". Muito já se exagerou sobre a influência deste texto no despoletar da Revolução mas... Não sentem também um arrepio na espinha?

Apesar destas frases de maior impacto não constarem do libreto de Da Ponte este libretista livrepensante libertino e amigo de Casanova conseguiu, não só manter o fervor revolucionário do texto original de Beaumarchais, como criar o que é considerado por muitos um dos melhores e mais deliciosos enrredos da história da Ópera que se desenvolve num conjunto de enganos e desenganos em torno do da vitória de um noivo de condição inferior (Figaro) num desafio claro ao seu senhor (o Conde) que tenta exercer em vão o direito de Prima Nocte.

Mozart demonstrou claramente, ao pôr Viena a trautear hinos de desafio ao poder da Nobreza como a primeira ária de Figaro: "se quer bailar , senhor condezinho", que não só este compositor não era um castrati, como tinha umas balls pelo menos do tamanho das que Graeme Souness atribuía a Michael Thomas e também que, se não é clara a sua aderência incondicional aos ideais republicanos, prova-se que partilhava uma grande desconfiança relativamente ao sistema instituído.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Bonitos serviços

"Este dossier é o mais importante de toda a legislatura", ouve-se dizer nos corredores do Parlamento Europeu: será o Irão? As eleições palestinianas? O futuro da indústria de defesa europeia? As missões na República Democrática do Congo no contexto da Política Europeia de Segurança e Defesa ? Não.

Trata-se da 'Directiva dos Serviços' que é hoje votada em plenária.

E eu que não percebo nada do "dossier mais importante de toda a legislatura"...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pum!

A propósito do acidente de caça do vice-presidente americano Dick Cheney, sugere-se a quem tenha um pouco de tempo livre um jogo de Cheney Quail Hunt, a que se pode aceder por aqui.
Não há como falhar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Cartoons dinamarqueses: algumas reflexões

1. Alguns deles são racistas e xenófobos, comparáveis às pérolas artísticas anti-semitas produzidas em jornais por todo o mundo muçulmano;
2. Como tal, a Dinamarca e qualquer governo europeu, deviam demarcar-se dos media que os reproduzem - não esperaria outra reacção em relação a cartoons que negassem o holocausto ou que insinuassem que todos os africanos são estúpidos; neste caso em particular, bastava alguma sabedoria política para justificar statements políticos de repúdio;
3. Isto não tem nada a ver com 'liberdade de expressão': ninguém está a defender que se feche jornais e se ponha jornalistas na prisão. Os tribunais que decidam que medidas legais há a tomar. Trata-se, isso sim, de fazer um statement político em como aquele tipo de discurso xenófobo é inaceitável;
4. Protestos violentos no mundo islâmico: ainda surpreendem alguém? É importante condená-los. Mas como se diz em alemão 'cada varredor tem que começar pela própria entrada'. A condenação evidente da violência no mundo islâmico tem pouco a ver com a natureza xenófoba de alguns dos cartoons que, essa sim, tem as raízes no nosso back yard;
5. Não se trata de pedir desculpas: não vou desculpar-me pelas ideias racistas de meia dúzia de imbecis; bastava ao governo dinamarquês ter - a seu tempo - recebido os representantes de alguns países muçulmanos, dizer umas palavrinha agradáveis, e talvez a coisa se tivesse passado de outra maneira;
6. E por outro lado, talvez não: muitos desses países (Irão, Síria, Arábia Saudita) usam esta história como podem para legitimar os seus regimes repressivos e retrógrados. É verdade que não há declaração de repúdio do lado europeu que seja capaz de apaziguar algumas forças políticas no mundo islâmico. Mas estas legítimas considerações pragmáticas não significam que a Europa ignore os seus princípios e se esqueça de condenar a xenofobia "porque os outros meninos não nos ligam". E o objectivo não é apaziguar ninguém, mas antes sublinhar uma questão de princípio, independentemente do que o Irão - e outros - dizem, ou fazem.
7. Competição de cartoons a gozar com o holocausto no Irão: um regime grotesco a liderar um país doente e uma sociedade civil estupidificada por uma geração inteira de lavagem cerebral. Só nos resta a esperança de que a nova geração iraniana pós-revolucionária seja mais imune a este tipo de delírios do que a presente.

Mas entretanto eu espero que Israel se agarre bem à Bomba.