quarta-feira, julho 19, 2006

70 Anos


Negras tormentas agitan los aires
nubes oscuras nos impiden ver,
aunque nos espere el dolor y la muerte,
contra el enemigo nos llama el deber.


El bien más preciado es la libertad
hay que defenderla con fe y valor,
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación
alza la bandera revolucionaria
que llevará al pueblo a la emancipación.



En pie pueblo obrero, a la batalla
hay que derrocar a la reacción.
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!
¡A las barricadas, a las barricadas,
por el triunfo de la Confederación!






sexta-feira, julho 14, 2006

LIBERDADE


Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!


Manuel Maria Barbosa du Bocage

217 anos de Luz






Feliz Dia da Bastilha!

quarta-feira, julho 12, 2006

Um novo Líbano







Esqueçam o que escrevi aqui há alguns dias. Acabou o modus vivendi com o Hizb'allah.

Agora é a guerra.


Num gesto de agressão gratuita o movimento xiita atacou uma patrulha israelita no Norte de Israel, matou três soldados e capturou dois. No total já morreram 8 soldados israelitas. As represálias da força aérea israelita já causaram mortes entre os libaneses.

Tudo isto para quê? Para marcar pontos nas lutas internas libanesas? Para chamar a atenção numa altura em que o mundo está focado na ofensiva em Gaza? Ou será a Síria a mostrar que ainda pode causar danos? Ou o Irão? Não sei.

Sei que todos os sonhos de assitir em breve a uma retirada substancial da Cisjordânia, que contribua a pôr fim à ocupação, são para esquecer.

Israel já começou a mobilizar as reservas.

Vae victis.

Parto daqui a dois dias para Israel.

(P.S: Para se manterem ao corrente do que se vai passando, usem o www.haaretz.com, um jornal de centro-esquerda israelita. Claro que há o Público, que publica notícias em terceira mão e às vezes funciona como porta-voz da OLP.)

sábado, julho 08, 2006

sexta-feira, julho 07, 2006

Afonso e a República



Noticia a agência LUSA que o deputado do PPM Pignatélli Queirós defendeu hoje que a abertura do túmulo de Afonso Henriques deveria depender de uma autorização da Assembleia da República.

Sem prejuízo da abertura de túmulos de personalidades famosas levantar interessantes questões éticas - saber se há ou não respeito pela memória ao pretender investigar-se os restos mortais - o que é facto é que se trata de uma prática comum, recentemente observada entre nós com a abertura da urna de João VI, que aliás concluiu pela sua morte por envenenamento.

Quanto ao pedido do deputado do PPM eleito nas listas do PSD, ficam duas pequenas observações - uma para a necessidade de respeitar a separação de poderes (os parlamentos não praticam actos administrativos...), outra para a ironia do deputado monárquico solicitar a ajuda da Assembleia da República para preservar a dignidade real. Enfim, parafraseando o João Pimenta num post de outro dia, as voltas que a vida dá.

Um novo Líbano?







É triste o que se passa em Gaza. Sem entrar em grandes análises, uma coisa é clara. Quem me dera que os Territórios Ocupados fossem o Líbano. Israel já desenvolveu um modus vivendi com o Hizb'allah. Quando a situação interna libanesa assim o exige, o Hizb'allah faz de conta que 'resiste', manda uns mísseis, faz uns raids etc. Israel responde, destrói uns campos de treino do lado libanês, depois os dois lados comunicam um com o outro e acabou. Israel fica contente de não ter de levar a cabo operações mais robustas (de que é capaz) e o Hizb'allah voltou a provar que 'resiste' e que é importante e que precisa do armamento pesado que tem, apesar de Israel já não estar no sul do Líbano, e de os outros libaneses quererem paz e sossego.

O problema com os palestinianos, para além da sua fragmentação política, é a falta de racionalidade táctica e estratégica. Os movimentos palestinianos lançam mísseis para dentro de Israel indiscriminadamente, o que não permite a Israel desenvolver um modus vivendi com eles, uma espécie de entendimento tácito de "até aqui, tudo bem, mas a nossa linha vermelha é esta". Sem que haja primeiro este tipo de 'diálogo' ao nível militar, é muito difícil conceber o diálogo político: os israelitas têm colonos em Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra os colonatos; os israelitas tiram os colonos de Gaza, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas assassinam terroristas, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas aplicam força a mais, até desproporcionada, matando civis, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas capturam membros da Jihad Islâmica, os palestinianos lançam mísseis contra Sderot; os israelitas, por via do Ministro da Defesa trabalhista, decidem aumentar o número de palestinianos que podem entrar em Israel para trabalhar, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot; os israelitas, mais uma vez por via de iniciativas dos membros trabalhistas do governo, decidem abrir por mais tempo o posto fronteiriço de Karni para permitir que palestinianos importem e exportem produtos, os palestinianos lançam mísseis contra a cidade israelita de Sderot, atacam o posto fronteiriço de Karni e depois atacam Kerem Shalom EM ISRAEL, matam dois soldados israelitas e capturam outro.

Perante tamanha cegueira, tamanho ódio e tamanha inflexibilidade, é difícil para os moderados israelitas influenciarem as políticas do governo Olmert. Que é fraco. E que por causa disso tem a tendência de passar cheques em branco ao exército. Um exército que se sente humilhado por não conseguir pôr fim aos malditos mísseis e proteger os cidadãos de Sderot (e agora Ashkelon, um grande centro urbano israelita e novo alvo dos mísseis palestinianos). E o exército israelita não está habituado a não conseguir resolver problemas militares: por isso aumenta a intensidade da aplicação dos meios que tem à sua disposição. E é essa a explicação para o elevado número de civis que têm morrido do lado palestiniano. A culpa dessas mortes é do exército israelita e dos políticos israelitas que não assumem claramente que não há solução militar para os mísseis Qassam, e que só uma política ambiciosa e visionária de fortalecimento do Presidente Abbas através de melhorias visíveis da situação da população palestiniana, pode, a longo prazo, garantir o fim da matança. Mas a responsabilidade da agudização a que assistimos é dos movimentos palestinianos e da liderança do Hamas, que preferem continuar a levar a cabo ataques quixotescos contra cidades israelitas, a aproveitar a oportunidade histórica que lhes foi dada de bandeja aquando da retirada israelita de Gaza. Mas para isso era preciso aceitar o status quo militar, para depois se começar a falar do status quo político. O problema, como eu já disse aqui, é que o que se passa agora não passa de uma situação conjuntural, como também o foi a ocupação de '67, a primeira Intifada, a segunda Intifada, ou a retirada de Gaza: a situação estrutural, no entanto, permanece a mesma - os principais actores políticos do lado palestiniano, ou não aceitam o direito de Israel existir, ou, aceitando-o, nunca estiveram dispostos a fazer os sacrifícios políticos que transformariam essa aceitação numa solução duradoura para o conflito.

Será preciso esperar mais 200 anos?



Mais de 200 anos depois de Olympe de Gouges ter agitado o monopólio revolucionário masculino, anunciando a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a AR debateu e reaprovou ontem com alterações um acto legislativo essencial à construção da igualdade de género na esfera do poder político. Do debate, apesar de mais rico, plural e complexo do que a minha breve escolha permite, destaco a afirmação da deputada Helena Pinto:

"Não estamos a discutir a aprovação de quotas para as mulheres. Estamos aqui a discutir o fim da quota maioritária dos homens."

Revolução e Transição


O PP espanhol inssite em não condenar o golpe de estado que inciou a Guerra Civil em 1936, bem como o regime franquista que acabou por ser a sua consequência final. Lidar com a memória e com a responsabilidade pelo passado é algo que alguma direita espanhola continua a recusar fazer.

Daí que, sem desprimor para o resultado e para o empenho dos seus construtores, eu continue a preferir o resultado libertador e exorcizante da Revolução dos Cravos à transição espanhola sem mácula, mas através do compromiso com o torcionário de ontem.

sexta-feira, junho 30, 2006

Fazer a polis



Rui Rio é um autarca com o qual francamente simpatizo. Aprecio a determinação, um certo sentido republicano que dá ao exercício das funções de edil e que marca um corte com interesses instalados e procura assegurar a defesa do interesse público, na leitura por si legitimamente defendida.
Daí que me entristeça ocasionalmente com medidas um pouco despropositadas e mesmo chocantes na relação com as oposições e com outros intervenientes da vida social e política. Foi o que me sucedeu hoje: a Câmara do Porto aprovou na terça-feira uma proposta de protocolo que atribui um subsídio à Fundação Eugénio de Andrade na condição de esta instituição se abster de criticar a autarquia.
Para além de não ser bonito fazer depender o auxílio a qualquer actividade que revista interesse para a sociedade de contrapartida com contação política, a opção é ainda mais grave do ponto de vista do impacto na política de apoios financeiros - no limite só sobram subsídios para os subservientes, para os amigos ou para os muito dependentes.

A Câmara do Porto devia sim gabar-se de apoiar todos aqueles que enriquecem a cidade legitimamente com actividades culturais e cívicas da mais diversa índole, e deveria fazer gala de apoiar aqueles que são contrários a algumas das suas opções políticas, demonstrando neutralidade e imparcialidade.

Só com a pluralidade se constrói a cidade.

Cheira a censura para os lados da Av. dos Aliados e é pena...



PS: Não posso, porém, deixar de assinalar que a proposta foi aprovada com os votos favoráveis da maioria PSD/CDS-PP e de quatro vereadores do PS, tendo-se abstido um autarca socialista e votado contra apenas o solitário vereador da CDU, pelo que as críticas são extensíveis a todos os autores da triste medida.

As voltas que o mundo dá

Títulos das notícias online do Público sobre a demissão de Freitas do Amaral do MNE (Opinião dos vários partidos apresentada da esquerda para a direita):
PCP preocupado com possível mudança negativa na política externa
Francisco Louçã: Luís Amado será "uma voz de protecção" da política norte-americana
PS elogia desempenho de Freitas do Amaral no MNE
PSD acusa primeiro-ministro de ter acordado tarde para problema no MNE
CDS-PP: demissão de Freitas do Amaral "era politicamente esperada"

LOL...

quarta-feira, junho 28, 2006

Regionalismos...

O Presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho, autarca que esteve na origem das polémicas declarações do respectivo presidente da edilidade, Fernando Ruas, sobre a recepção à pedrada dos vigilantes da natureza, veio em defesa deste último dizendo que "soube interpretar as afirmações de Fernando Ruas, lembrando que se trata de "uma expressão típica das beiras".
"Põe-te a pau senão arriscas-te a levar na tromba, ó animal" também é uma regionalismo muito caro a diversos lisboetas, mas não parece que daí se consiga retirar um sentido muito figurado....

«É corrê-los à pedrada!»


Mas apenas no sentido figurado, como o Ruas. E dentro do maior respeito e amizade

segunda-feira, junho 26, 2006

Academia e homilia



Em relação a um comentário ao meu post de ontem deixava apenas as seguintes breves notas:

1 – A Universidade demite-se objectivamente de assinalar o final das licenciaturas com um acto de entrega de diplomas, invocando precisamente a existência das cerimónias da benção. Aqueles que aparentemente acorrem em massa à iniciativa não o fazem por especial devoção, mas sim porque não tem como festejar a conclusão das suas licenciaturas. Falo com conhecimento de causa, pois observei o fenómeno enquanto aluno e continuo a verificar que assim é enquanto docente. Não questiono a fé que move muitos dos que acorrem à Alameda, questiono sim a instrumentalização pelas autoridades eclesiásticas, que aproveitam para insuflar artificialmente o número dos seus fiéis.

2 – Uma cerimónia neutra, de entrega de diplomas, de abertura de ano académico ou de celebração universitária não é uma liturgia concorrente da religiosa, representando sim interesses e valores distintos. Não há concorrência porque não estão no mesmo plano: a esfera religiosa tem o seu espaço próprio, no qual é livre de se desenvolver e manifestar, o mesmo sucedendo quanto ao mundo académico. O que critico é esta invasão do espaço universitário que o priva das suas próprias tradições e solenidades. Assim como não pretendem os conselhos científicos e os senados das universidades organizar provas de agregação nos templos católicos, igualmente clara deveria ser a separação das esferas no sentido contrário.

3 – Um cerimónia neutra é para todos, não deixando fora das escadarias da reitoria os ateus, os agnósticos, os judeus, os protestantes e todos os que não têm lugar nos ritos católicos. Uma cerimónia neutra não teria por objectivo propagar qualquer doutrina, ideologia ou superstição, apenas celebrar um passo fundamental na formação individual de cada um, o preenchimento de uma etapa de aquisição de conhecimento. É esse o denominador comum entre todos os finalistas.

4 – Quanto àqueles em nome de quem falo, limito-me a colocar-me no papel de quem já foi excluído de um acto académico tomado de assalto por uma fé religiosa particular. A legitimidade que invoco para o efeito é apenas a do grupo de que faço parte e que sente na pele a exclusão. E, independentemente dos números daqueles que elegantemente são descritos como hordas, sempre me pareceu que a discriminação de um é tão condenável como a discriminação de dois ou de cem, tendo em conta o carácter universal e intemporal de determinados valores.

5 – Finalmente, quanto à suposta piada fácil relativa ao pedir perdão pelos excessos, devo assinalar que, ao contrário do que podem pensar, não foi nada fácil ensaiar um esforço de contenção tão grande que evitasse o potencial humorístico da ideia de actos religiosos inseridos no final de festividades universitárias pautadas por rios de cerveja, autodeterminação sexual e música demoníaca.

domingo, junho 25, 2006

Vitória pírrica

Outra vitória assim no mundial e Portugal vê-se obrigado a convocar o massagista e o condutor do autocarro da selecção para jogar. Parece que a nata do futebol português, depois da histeria irresponsável nas meias-finais de 2000 (contra a França) e da estupidez criminosa contra a Coreia do Sul em 2002, nos conseguiu presentear com mais um festival degradante de cabeçadas, entradas a matar e pegas pueris.

Bem sei que eles são bons rapazes, que tiveram uma infância difícil, e que os holandeses também não primaram pela bondade, mas bolas, é sempre a mesma atitude de putos de 12 anos no recreio… Assim não dignificam a imagem da República Portuguesa.

Mas de resto, contra os bretões marchar, marchar…

sábado, junho 24, 2006

Nota pessoal - benção das fitas

Retomando o ponto das bençãos do post anterior, deixo uma breve nota pessoal sobre confusão entre esferas pública e religiosa em domínio análogo.

O único acto solene que marca o fim do curso dos estudantes universitários de Lisboa é a benção das fitas, realizada na Alameda da Universidade com o beneplácito das instâncias reitorais. Não querendo pôr em causa o direito que assiste aos estudantes católicos de querer marcar com uma cerimónia religiosa o fim da sua experiência universitária (pedindo perdão por excessos, quem sabe?), a ausência de um acto público, da iniciativa das Universidades Públicas da cidade, deixa um vazio para os estudantes que, como eu, não professam uma fé ou que, como outros, professam uma fé que não a católica, permitindo a uma confissão monopolizar o espaço académico, forçando a mão dos que pouco crentes ou desejosos de um rito de passagem, alinham na sua instrumentalização do evento.
Falando em nome daqueles que vão continuar a ficar de fora, chamo a atenção para o dever público de evitar a perpetuação da marginalização.

Por vezes as boas ideias vêm de onde menos se espera




Na polémica que aqueles que não compreendem o significado e alcance da laicidade alimentam, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, ao pensar que provocava os jacobinos da esquerda, teve hoje duas boas ideias:
1 - Acabar com as bençãos em cerimónias de inaugurações oficiais.
De facto, não se consegue compreender como é que é possível que subsistam actos de natureza estritamente religiosa enquadrados em cerimónias públicas. Se a crença de alguns retira conforto do facto de uma ponte, uma estrada ou um parque de diversões em Sobral de Monte Agraço ter sido benzido então, por quem sois, benzei a infra-estrutura pública. Não peçam é para fazê-lo no quadro de uma cerimónica do Estado. A infra-estrutura é para todos usarem, admitindo-se que todos a possam benzer. Agora o Estado é que não é chamado a participar.
2 - Acabar com os feriados religiosos
Na sequência de umas ideias que aqui já tive opinião de referir em sede de comentários, é algo que faz todo o sentido. O Estado pode reconhecer que o fenómeno religioso clama pela existência de dias santos, que os fiéis pretendem observar. Assim sendo, fixe-se um número anual de dias que podem ser requeridos potestativamente pelos trabalhadores ao empregador para este fim (ou para outro qualquer, caso seja agnóstico ou ateu), permitindo, ao contrário da lei actual, que todas as confissões gozem de igual tratamento.
Não dizia Jesus de Nazaré, a César o que é de César?
PS: Desculpem lá isto de nós defensores da laicidade insistirmos sempre em citar um máxima de Jesus Cristo com quase dois mil anos para demonstrar este argumento, mas ele é tão claro que não nos cansamos de o repetir.

A Boina vive!


Os cidadãos e cidadãs da Boina regressam. Depois do exemplo dado pelo post anterior, chegou a hora de acabar com o silêncio e voltar ao ataque. Apesar da negligência criminosa dos últimos meses, a chama da República deste blog não se apaga. A Boina de regresso, numa blogosfera perto de si.

terça-feira, junho 20, 2006

Picasso Tradición y Vanguardia

Sexta-feira passada estive em Madrid para observar a exposição "Picasso tradicion y vanguardia" promovida pelos museus reina Sofia e Prado que se juntaram para uma exposição inédita e irrepetível que pretende confrontar as obras de Picasso com as obras de Goya, Velásquez e outros clássicos que lhe serviram de inspiração.










Quero tentar replicar aqui, desta forma gráfica uma das sensações mais comoventes que me proporcionou a arte. Estar numa sala literalmente rodeado pelo Guernica e o Massacre da Coreia de Picasso, o 3 de Mayo de Goya e o Fuzilamento do Imperador Maximiliano de Manet.

Picasso foi um claro apoiante da causa Republicana durante a Guerra Civil espanhola e o Guernica é o seu testemunho do horror da repressão Franquista durante um dos períodos mais negros da história de Espanha. O confronto deste quadro com o 3 de Mayo de Goya, politicamente simétrico e, resulta numa censura à guerra e aos seus horrores, liberta de qualquer conotação política ou religiosa.

segunda-feira, maio 15, 2006

Obviamente, obrigado!


Humberto Delgado (15 Maio 1906 - 13 Fevereiro 1965)

terça-feira, abril 25, 2006

A Revolução que tanto amamos


Não é por este blog andar paradito de posts que vamos deixar de prestar atenção ao que realmente interessa. Aqui deixo o meu sentido testemunho.

Foi na sequência da Ávinho em Aveiras. Desafiei os escuteiros que ficaram este ano com a taberna do Chico da Serra. Aceitaram prolongar a festa do vinho e das adegas por mais um dia para além do fim de semana e comemorar o 25 de Abril à segunda-feira. O 25.
Não houve imposição de escolha musical, não houve nada. Apenas uma sugestão bem acolhida. eu nem gosto do escutismo, só destes escuteiros de quem sou amigo.
A festa foi bonita, pá!
Cartazes do 25 e música do Zeca. Discussão política com todos os pontos de vista representados - ou melhor, possibilidade de discutir tudo e mais qualquer coisa.
As cabeças estavam alertas e dispostas a debater e discutir. Não sei se por teimosia ou por disposição, mas sei que o tema desta festa abriu muitas portas. E o 25 de Abril aconteceu. A bem ou a mal, a discussão aconteceu. O que era bom, o que era mau, tudo isso apareceu. A política como está, como devia ser, apareceu. O debate surgiu, o diálogo proporcionou-se, e à razão deixou-se o lugar devido.
Disse, pois disse. E ainda bem que há democracia, nem que seja à volta de um copo de cerveja ou vinho.
Depois de vir a casa deixar os posters que serviram de decoração ao espaço da taberna do Chico da Serra, senti que havia alguma coisa a dizer. E por isso voltei. Disse-o. O 25 fez-se por uma sociedade idealizada que não pode conhecer limites de classe ou posição social. O 25 fez-se para que tolerÂncia que a liberdade proprociona. Ainda bem que a liberdade fala pelas mais estranhas formas. Só assim pode o 25 acontecer nas pequenas coisas, Sem atavios ou prisões. Só a liberdade. Hoje o 25 aconteceu. A mensagem passou, e eu, um pequeno elemento na correia de transmissão, deixarei e farei com que aconteça todos os dias. Que bela forma de homenagear a geração dos meus pais! Que belo presente é a liberdade!

sexta-feira, março 24, 2006

Há tanta coisa para fazer

Estamos demasiado ocupados a mudar o mundo.

Já agora deixou-vos um link para a entrevista que Ehud Olmert deu ao diário israelita de centro-esquerda Haaretz (http://www.haaretz.com/hasen/spages/692704.html). Dá uma no cravo, outra na ferradura. Mas o que mais marca é a promessa de retirar de quase toda a Cisjordânia! Em quatro anos! Cabe à esquerda israelita ter um resultado suficientemente robusto nas eleições da próxima Terça-feira para exercer pressão sobre o executivo liderado por Olmert: Israel não pode anexar Jerusalém Oriental (faz parte do programa do Partido Trabalhista abrir mão de tudo menos a Cidade Velha e o Muro das Lamentações); deve aproximar o trajecto do Muro - infelizmente necessário - o mais possível da Linha Verde de 1967 para evitar mais anexações de terra palestiniana; deve manter uma presença soft no Vale do Jordão e não uma 'fronteira de segurança'.

Finalmente, acima de tudo, só com a esquerda no poder se pode manter vivas as esperanças numa solução negociada.

Já que do lado palestiniano está tudo a andar para trás, cabe a Israel levar a cabo uma política de unilateralismo responsável.

Terça-feira Israel dá mais uma lição de maturidade democrática à região.

segunda-feira, março 06, 2006

The show must go on


A cerimónia dos Oscars de ontem prometia ser impregnada do perfumado charme da dissidência. Começou a ver-se que só poderia ser assim quando a concurso estavam os filmes que estavam, e a Academia deu seguimento quando chamou Jon Stewart para apresentar («a melhor oportunidade para ver tanta celebridade junta sem ser num jantar do Partido Democrático»). Valia a pena ficar acordado só para o ver.
O que se passou não desmereceu o prometido.
George Clooney abriu a noite da melhor maneira. Com um discurso que foi, a muitos títulos, perfeito, o empedernido e empenhado liberal à antiga declarou o seu orgulho em pertencer a uma comunidade que falava de SIDA, desigualdade e exploração quando ninguém falava, e que deu um Oscar a uma negro numa altura em que os negros só podiam sentar-se nas últimas filas dos cinemas. E a noite prosseguiu no mesmo registo, enfatizado no clip sobre filmes que abordaram questões sociais importantes. Farta de ser gozada numa América adormecida pela tribo de Bush, Hollywood sai do armário como que gritando «Liberal, and proud of it». Sacudiu o sufoco e assumiu-se. Não foi gritar e espernear à toa. Não houve folclore à Michael Moore. Foi despejar emoção contida que transbordou de tão cheio que estava o copo. Foi como que dizer a festa é minha, deixem-me dizer o que quero. Foi a celebração do orgulho de fazer filmes como uma oportunidade de provocar a inquietação do espírito através da arte e assim fazer a humanidade avançar.
Não gosto particularmente da instrumentalização da arte, mas de vez em quando faz bem assistir a estes assomos de lucidez. É o que resta de esperança na grandeza da América.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Biomedicina na Antiguidade?

Refere uma notícia da Agência Lusa: "A Bíblia (católicos), o Corão (islâmicos) e a Tora (judeus) condenam a utilização de espermatozóides ou óvulos de elementos exteriores ao casal nas técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA)."

Se não fosse a agência noticiosa mais conceituada do País até dava para rir...

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Figaro, Mozart, Beaumarchais e Da Ponte

Na passada semana tive o enorme prazer de assistir no Scala de Milão a uma encenação memorável da Ópera “As Bodas de Fígaro” do aniversariante Mozart com um Libreto excepcional de Lorenzo Da Ponte baseado num texto revolucionário de Beaumarchais.

Quando Mozart celebra o seu 250 aniversário é importante lembrar uma faceta deste compositor que, não sendo tão explicitamente adepto dos ideais da Revolução como Beethoven, teve a coragem de levar à Viena feudal de 1786, três anos antes d’A Revolução Francesa, uma ópera baseada num texto incendiário de Beaumarchais que tinha na versão inicial frases como esta de Figaro ao conde:
“Por ser um grande fidalgo, o senhor acredita ser um grande génio [...] O que fez para possuir tantos bens? Deu-se apenas ao trabalho de nascer e nada mais" ou ainda esta chave de encerramento do texto "Por obra e graça do nascimento, um é rei, o outro pastor, o acaso criou a distância, apenas o espírito pode mudar tudo". Muito já se exagerou sobre a influência deste texto no despoletar da Revolução mas... Não sentem também um arrepio na espinha?

Apesar destas frases de maior impacto não constarem do libreto de Da Ponte este libretista livrepensante libertino e amigo de Casanova conseguiu, não só manter o fervor revolucionário do texto original de Beaumarchais, como criar o que é considerado por muitos um dos melhores e mais deliciosos enrredos da história da Ópera que se desenvolve num conjunto de enganos e desenganos em torno do da vitória de um noivo de condição inferior (Figaro) num desafio claro ao seu senhor (o Conde) que tenta exercer em vão o direito de Prima Nocte.

Mozart demonstrou claramente, ao pôr Viena a trautear hinos de desafio ao poder da Nobreza como a primeira ária de Figaro: "se quer bailar , senhor condezinho", que não só este compositor não era um castrati, como tinha umas balls pelo menos do tamanho das que Graeme Souness atribuía a Michael Thomas e também que, se não é clara a sua aderência incondicional aos ideais republicanos, prova-se que partilhava uma grande desconfiança relativamente ao sistema instituído.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Bonitos serviços

"Este dossier é o mais importante de toda a legislatura", ouve-se dizer nos corredores do Parlamento Europeu: será o Irão? As eleições palestinianas? O futuro da indústria de defesa europeia? As missões na República Democrática do Congo no contexto da Política Europeia de Segurança e Defesa ? Não.

Trata-se da 'Directiva dos Serviços' que é hoje votada em plenária.

E eu que não percebo nada do "dossier mais importante de toda a legislatura"...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pum!

A propósito do acidente de caça do vice-presidente americano Dick Cheney, sugere-se a quem tenha um pouco de tempo livre um jogo de Cheney Quail Hunt, a que se pode aceder por aqui.
Não há como falhar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Cartoons dinamarqueses: algumas reflexões

1. Alguns deles são racistas e xenófobos, comparáveis às pérolas artísticas anti-semitas produzidas em jornais por todo o mundo muçulmano;
2. Como tal, a Dinamarca e qualquer governo europeu, deviam demarcar-se dos media que os reproduzem - não esperaria outra reacção em relação a cartoons que negassem o holocausto ou que insinuassem que todos os africanos são estúpidos; neste caso em particular, bastava alguma sabedoria política para justificar statements políticos de repúdio;
3. Isto não tem nada a ver com 'liberdade de expressão': ninguém está a defender que se feche jornais e se ponha jornalistas na prisão. Os tribunais que decidam que medidas legais há a tomar. Trata-se, isso sim, de fazer um statement político em como aquele tipo de discurso xenófobo é inaceitável;
4. Protestos violentos no mundo islâmico: ainda surpreendem alguém? É importante condená-los. Mas como se diz em alemão 'cada varredor tem que começar pela própria entrada'. A condenação evidente da violência no mundo islâmico tem pouco a ver com a natureza xenófoba de alguns dos cartoons que, essa sim, tem as raízes no nosso back yard;
5. Não se trata de pedir desculpas: não vou desculpar-me pelas ideias racistas de meia dúzia de imbecis; bastava ao governo dinamarquês ter - a seu tempo - recebido os representantes de alguns países muçulmanos, dizer umas palavrinha agradáveis, e talvez a coisa se tivesse passado de outra maneira;
6. E por outro lado, talvez não: muitos desses países (Irão, Síria, Arábia Saudita) usam esta história como podem para legitimar os seus regimes repressivos e retrógrados. É verdade que não há declaração de repúdio do lado europeu que seja capaz de apaziguar algumas forças políticas no mundo islâmico. Mas estas legítimas considerações pragmáticas não significam que a Europa ignore os seus princípios e se esqueça de condenar a xenofobia "porque os outros meninos não nos ligam". E o objectivo não é apaziguar ninguém, mas antes sublinhar uma questão de princípio, independentemente do que o Irão - e outros - dizem, ou fazem.
7. Competição de cartoons a gozar com o holocausto no Irão: um regime grotesco a liderar um país doente e uma sociedade civil estupidificada por uma geração inteira de lavagem cerebral. Só nos resta a esperança de que a nova geração iraniana pós-revolucionária seja mais imune a este tipo de delírios do que a presente.

Mas entretanto eu espero que Israel se agarre bem à Bomba.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva, homem livre que nasceu há 100 anos e viveu sem BI nem número de contribuinte, por ele próprio:

"Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida. Sou do paradoxo que a contém no total."

Não é acidente, é a força do hábito

"Cheney accidentally shoots fellow hunter" - CNN

É o que se segue a dar tiros no pé.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

É possível fazer diferente...

Ainda a propósito do meu post de 7 de Fevereiro sobre o 'Público' e só a título de exemplo:

Financial Times Online de hoje (http://news.ft.com/cms/s/6afb6e6a-9847-11da-816b-0000779e2340.html)

Título: "Olmert plans further withdrawals"

Resumo do Conteúdo: "Israel plans further withdrawals from the West Bank but will hold on to large settlement blocs and the eastern border with Jordan, Ehud Olmert, acting prime minister, said on Tuesday."

A isto sim chama-se informação.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Belmiro Papa-Tudo


O país acordou hoje em ânsias de saber pormenores da notícia que estourou ainda ontem sobre o arrojo - ou desfaçatez, consoante a perspectiva - do patrão da Sonae em querer açambarcar a PT, num negócio privado que envolve o equivalente à soma de dois aeroportos da Ota e um TGV (dados do Público).
Pessoalmente, acho um bocado parolo este culto da personalidade à volta do Belmiro self-made man, homem empreendedor e destemido, jogador exímio e negociante astuto.
Não me entendam mal. Enquanto empresário, acho que Belmiro foge um pouco ao estereótipo do empresário português choramingas e dependente, pronto a vender-se pela melhor oferta e à primeira solicitação - ele não se fica e vai a todas; ele não quer só engrossar o bolo para o vender e pôr-se ao fresco (como Champallimaud e o Totta); ele olha para a frente e não se interessa com quem vai ao lado, o que é a melhor maneira de deixar a concorrência para trás.
Talvez seja só o meu âmago de republicano de esquerda a falar por cima de tudo, mas este modelo de empresário ultra-pragmático não é o tipo de heroísmo que me aqueça o espírito, se é que de heroísmo se trata realmente. Tanto mais que, como ouvi ainda agora o delfim Paulo de Azevedo dizer, esta gente não se cansa de enfatizar o seu próprio dinamismo e empreendedorismo enquanto valores, quando acho que o valor deve estar nos objectivos - logo, no discurso legitimador, a ênfase deve ser colocada no objectivo, não nos meios, o que de outro modo resulta um pouco a provincianismo auto-convencido.
Mas até a um republicano de esquerda old school como eu, a história deste negócio tem pormenores de inescapável interesse
Primeiro, a delícia que está no mero aspecto formal da jogada: independentemente de qualquer ulterior consideração, esta é uma movimentação de jogador velhaco. É como o corredor que arranca nos últimos 20 km da Maratona e obriga todos os outros a virem atrás. Em termos de táctica de guerra, delicioso. Só antecipar qual será a reacção da concorência é entusiasmante.
Segundo, a mera perspectiva de alguém ter tanto dinheiro ou crédito para gastar na operação: é aquilo que entusiasma o português que gasta no Euromilhões mais do que devia, definitivamente a colocar Belmiro na galeria de portugueses excelentíssimos do português comum, mesmo ao lado de José Mourinho.
Terceiro, a perspectiva estarrecedora de ver tanto poder nas mesmas mãos: ainda que previsivelmente a Sonae seja obrigada a vender uma operadora de telemóveis, o império da PT nas comunicações somado à rede da Sonae é uma nebulosa em formação que ameaça tapar tudo à volta.
Giro, giro, será ver os restantes barões a esgatanharem-se para não ficarem por baixo. Pelo menos o circo há-de ser divertido.

O Público faz das suas...

Como se já não bastasse ter a Alexandra Lucas 'os-palestinianos-vítimas-da-cegueira-do-mundo-sofrem-às-mãos-dos-carrascos-israelitas' Coelho como enviada especial do Público em Israel/Palestina, a linha editorial do jornal (quando se reconhece uma) é de tal maneira anti-israelita, que eu às vezes me pergunto se este diário nacional se auto-proclamou como o órgão oficial da OLP na Península Ibérica.

Último exemplo - Público Online de hoje (http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1247139&idCanal=18)

Título: "Cisjordânia: Olmert define áreas das quais Israel não quer abdicar"

Conteúdo: os israelitas, marotos e misteriosamente malévolos como sempre, recusam-se a reconhecer a "Linha Verde (demarcação internacionalmente reconhecida entre Israel e a Palestina)" como fronteira última do Estado de Israel e preparam-se para anexar alguns colonatos que consideram vitais.

Uau. Se estes senhores tivessem feito os trabalhos de casa, sabiam que das últimas vezes em que se chegou perto de um acordo, se discutiu seriamente trocar terras: colonatos dentro da Linha Verde para Israel, terras israelitas para a Palestina - a linha de 1967 é uma referência, mas não é sagrada.

E que tal realçar o facto de Israel se estar a preparar para retirar de 90 e tal por cento da Cisjordânia? Isso sim é a novidade, a notícia, e não o facto de alguns políticos israelitas se quererem agarrar a tantas terras palestinianas quanto possível.

E que tal realçar que o que Olmert diz deve ser visto no contexto das eleições eleitorais a ter lugar no fim de Março, em que o partido Kadima (de Olmert) se tem que fazer de forte para não perder votos para os irredutíveis do Likud?

E que tal sublinhar que semanas antes de anunciar a decisão de retirar de Gaza, Sharon também dizia que antes retiraria de Tel Aviv do que de Gaza?

Não, para isso o Público tinha que perceber a região e a dinâmica doméstica israelita. Mas como enviou para lá a Alexandra Lucas 'quem-me-dera-ser-palestiniana-para-também-ter-uma-causa-justa-na-vida' Coelho, não perceberam nada e compensam a ignorância com zelo anti-sionista mal camuflado como 'informação'.

A forma selectiva de aplicar os ênfases de conteúdo diz tudo sobre os propósitos deste jornal.

Só mais uma. O Público anunciava a semana passada que Israel tinha decidido parar de transferir dinheiro (que pertence aos palestinianos) para a Autoridade Palestiniana, por causa da vitória do Hamas. Entretanto Israel mudou de ideias e transferiu o dinheiro, dizendo que enquanto não houver um novo governo esperaria para ver e continuaria a apoiar financeiramente Abu Mazen. Leram esta última parte no Público? Leram aquilo que de facto acabou por acontecer? Não. Leram só parte da história.

É que é tão transparente que até dói.

É que se é para mandar bocas, juntem-se com uns amigos e façam um blog. Mas não lhe chamem 'jornal diário'.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Errata

Os dois posts anteriores indicam que o obelisco da Place de la Concorde foi lá posto por Napoleão Bonaparte. Na verdade foi durante o reinado de Luis Filipe de Orleães(1830-1848) que os tais grenadeiros, numa operação descrita em detalhe na base do monumento, o colocaram num barco (o 'Luxor') e o trouxeram para Paris em 1836. Bonaparte deixou este mundo cruel em 1821. As minhas desculpas pela imprecisão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Obelisco


Ei-lo!

Proudhon

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), na sua obra-prima 'O que é a propriedade?' desmonta de forma brilhante todas as ideologias com que se costumava legitimar a existência da propriedade privada. Podemos concordar hoje em dia que a propriedade privada é uma invenção útil, uma fantasia que faz parte do nosso dia-a-dia como qualquer outro elemento do quotidiano. Mas Proudhon continua a ser útil na maneira como desconstrói os mitos religiosos, sociológicos e económicos que, a dada altura no século XIX (em Inglaterra mais cedo) elevaram a propriedade a religião.

Uma das histórias que Proudhon usa para explicar porque é que o trabalho não pode ser comprado em troca de salários é a seguinte (estou a parafrasear, mais do que a citar - os detalhes são inventados, já que a memória me falha): quando Bonaparte veio do Egipto, trouxe um obelisco. Naquela altura era assim, gamava-se os monumentos do pessoal estrangeiro. Enfim. 64 grenadeiros, veteranos das Pirâmides, demoraram uma semana a montar o colosso de pedra em Paris. Proudhon pergunta se um grenadeiro sozinho seria capaz, se lhe déssemos 64 semanas, de montar o obelisco. A resposta é não. O trabalho colectivo representa muito mais do que a soma de tarefas individuais. Remunerar trabalhadores individualmente através de salários, significa trocar o valor acrescentado produzido pelo trabalho colectivo por uma soma de parcelas salariais individuais.

Este fim-de-semana, quando estiver na Place de la Concorde ao lado do obelisco, com a Assemblée Nationale à minha esquerda, o Jardim das Tulherias nas minhas costas e os Campos Elíseos a conduzirem o meu olhar para o Arco do Triunfo, vou-me lembrar de Proudhon e do facto da grandeza da França ser acima de tudo um produto das ideias que emanaram de Paris, cidade da Luz, mãe da República.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Invencível




Apesar de já lá ir uma semana, há uma direita que ainda regozija com o resultado eleitoral e brinda com champanhe. Contudo, não brinda a vitória de Cavaco Silva, mas a derrota de Mário Soares, celebrando o fim da carreira política do octogenário socialista. Pensa esta direita que ganhou a Mário Soares, que o derrotou definitivamente e que está vingada. Vingada por Abril, pela descolonização, por 10 anos de Presidência da República, pelo republicanismo laico e socialista.
Engana-se, esta direita.
O Mário Soares que eles querem e julgam ter derrotado é invencível. É o Mário Soares que advogou a causa de Delgado assassinado, que percorreu no desterro as praias de S. Tomé e passeou no exílio dos boulevards de Paris, que foi aclamado em Santa Apolónia, que combateu e empolgou na Alameda, que assinou a entrada na Europa nos Jerónimos e que foi eleito Presidente de todos os Portugueses numa noite fria de 1986. É o Mário Soares a quem devo largas fatias da minha liberdade. É o Mário Soares que demonstrou ao País que uma vez eleito, o Presidente é de todos os portugueses, lição essa que ficou aprendida, valeu para Sampaio e vai valer para Cavaco Silva, o meu Presidente a partir de 9 de Março.
Por muito inglória que seja a sua derrota recente, não foi derrotado o Mário Soares que faz confusão à direita saudosista. Esse Mário Soares, o da resistência, da luta contra o colonialismo e da democracia venceu a luta da liberdade por todos nós e, repito-o, é invencível.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

O nosso país

A propósito da Galiza os luar na lubre cantam assim:

O meu país/ é verde e neboentoÉ saudoso e antergo,/ é unha terra e un chan.
O meu país/ labrego e mariñeiro É un recuncho sin tempo/ que durme nugallán.
Q quece na lareira,/ aló na carballeira Bota a rir.
É unha folla no vento/ alento e desalento,O meu país.
O meu país/ tecendo a sua historia,Muiñeira e corredoira / agocha a sua verdá
O meu país/ sauda ao mar abertoEscoita o barlovento/ e ponse a camiñar
Cara metas sin nome/ van ringleiras de homes
E sin fin.Tristes eidos de algures,/ vieiros para ningures,O meu país.
O meu país/ nas noites de inverníaDibuxa a súa agonía/ nun vello e nun rapaz.
O meu país/ de lenda e maruxíasAgarda novos días/ marchando de vagar.
Polas corgas i herdanzas Nasce e morre unha espranza/ no porvir.
E unha folla no vento/ alento e desalento O meu país.

Esta descrição assenta tão bem sobre o meu país que me parece estarmos a falar do mesmo. E é sobre isto que vos venho postar hoje.

Quero perguntar-vos se a tática do quadrado foi, ou não foi, a manobra mas parva de sempre deste país? E se a padeira de Aljubarrota era, ou não era, uma daquelas "fogosas e vampirescas mulheres da Beira" tão sanguinea como mal orientada e que estaria hoje na TSF a gritar o quanto gosta do Professor Cavaco?

São dúvidas pertinentes que me perseguem há já algum tempo mas que se têm tornado cada vez mais relevantes e para as quais peço o vosso apoio urgente.

Woody Allen, em Match Point, diz-nos que são estes os momentos que ditam o destino do jogo. Momentos em que a bola bate na rede, em que o condestável faz um channeling ao Mourinho ou em que a Padeira mais violenta do mundo assa espanhois em lume brando.

É agora é o momento de abordar o Nosso país, e eu por mim não me importava de ser Ibérico, mesmo correndo o risco de concordar com o José Saramago.

É claro que esta minha manifestação integracionista é também uma mostra de "desalento" quando "morre unha esprança/no porvir". A eleição do professor Cavaco Silva foi democrática, e deve ser respeitada, mas é também um sinal claro do vazio em que caímos neste país "labrego e mariñeiro" incapaz de gerar figuras de excepção para uma posição que exige alguém enorme.

Necessitamos de animar o nosso país e para isso proponho uma nação Republicana Ibérica e aguardo os vossos comentários.

P.S. - O novo Presidente, e agora que o Fraga já não está activo, até podia ser um galego para notarmos menos a diferença. O ex-rei da ex-Espanha poderia o soberano absoluto das Berlengas ou da Ilha do Porto Santo, numa Madeira independente com Alberto João Jardim ao leme e o competentissimo Professor Cavaco como tesoureiro.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Apesar de tudo...

Estas eleições na Palestina mesmo assim fazem-me reflectir... Repetiríamos o exercício no Egipto se soubessemos que a Irmandade Islâmica chegaria ao poder se houvesse eleições livres?

Uma coisa é a Palestina com o Hamas a mandar.

Outra coisa é um governo salafista no Cairo. Com esquadrões de F-16 e tal. Não digo que as ditaduras árabes sejam fantásticas. Digo que se trata aqui ao menos de um dilema, não? Ou a democracia vale por si e pronto? Não sei...

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A propósito de eleições com resultados desagradáveis...




Desculpem lá se apesar de tudo ando a vibrar mais com as eleições na Palestina...
Grande questão: que fazer no caso de o Hamas vir a fazer parte do executivo palestiniano, ou mesmo só se aquela organização extremista se tornar numa das forças políticas principais nas instituições da Palestina? Dilema sério... Como lidar com um movimento que pretende islamizar a Palestina - uma sociedade árabe conhecida pela sua laicidade - e destruir Israel; um movimento que foi responsável por centenas de mortos civis em atentados suicidas.

Como podem ver aqui, há muitas e boas ideias para integrar o Hamas na vida política palestiniana, de forma a eventualmente transformar este inimigo figadal de Israel num parceiro para negociações. Não é para amanhã, nem para daqui a um ano. Mas numa altura em que do governo israelita cada vez mais se ouvem sinais razoáveis no que toca a futuras retiradas dos Território Ocupados, e em que o Hamas tem mais ou menos cumprido a Tahdia (tréguas) com Israel durante 2005 e moderado a retórica, temos direito a sentir algum optimismo no ar.

Se é difícil imaginar o Hamas à mesa com Israel, pensem nas relações entre este país e a OLP nos anos 70: agora todos rezam em Tel Aviv para que a Fatah ganhe as eleições - como mudaram as coisas numa geração... Como dizia Robert Malley, director do programa do Médio Oriente do International Crisis Group em Bruxelas recentemente, não se admirem se daqui a uns anos - do nada - descobrirmos que Israel e o Hamas andavam há que tempos a dialogar e chegaram a uma plataforma negocial. Não temos que gostar deles para nos sentarmos a uma mesa com eles.

(Só um pequeno aparte: a Direita israelita finalmente vai aceitando aquilo que a Esquerda vem considerando inevitável há 10 anos: Israel tem que se retirar da maior parte dos Territórios Ocupados de uma vez por todas; o grande debate doméstico em Israel neste momento tem a ver com o timing e as condições dessa retirada e a eterna questão de Jerusalém; a Esquerda está preparada a abrir mão de todos os bairros árabes de Jerusalém Oriental (excluindo a Cidade Antiga, com o Kotel [Muro das Lamentações]), enquanto a Direita fala de manter o controlo sobre toda a área de Jerusalém: dêem-lhes tempo; ainda há dois anos, Sharon dizia que mais cedo retirava de Tel Aviv do que de Gaza... Ah! E quanto ao 'Muro da Vergonha', medida eminentemente razoável para separar dois povos que pura e simplesmente não podem viver lado a lado, existe um consenso em Israel sobre a necessidade imperiosa de concluir a sua construção; é preciso, isso sim, é garantir que o Muro percorre um trajecto, se não idêntico, então o mais sobreposto possível com as fronteiras de '67).

Pois é, inimigos de Israel out there, preparem-se para tempos em que a demonização do Estado Judaico vai exigir muito mais imaginação e zelo. Mas para os mais apaixonados entre vós, não é uma concessão aqui, ou uma moderaçãozinha ali, que vos vais tirar o gosto de odiar o Mau da Fita-Fetiche. Desculpem lá o veneno.

domingo, janeiro 22, 2006

Seis décimas

Cavaco agora a ser entronizado à varanda do palácio que construiu (quem sabe também pensando neste dia?) e que foi a sua obra de regime, falando manso, firme e hirto como um menino bem comportado à espera de tomar a hóstia no dia da sua primeira comunhão. O semblante é o de quem diz "agora que ganhei o meu espírito é de serviço, de servir Portugal nesta hora de gravidade". Ou será de alguém que esperava a goleada, ou ganhar por margem confortável pelo menos, e acabou a ganhar por 1-0, com um golo marcado nos últimos cinco minutos de jogo, quase a ir a prolongamento?
Não há que transformar derrotas em vitórias, nada de vitórias morais - nisso acompanho Alegre. Mas as seis décimas caem como alívio moderado no espírito de quem se habituou a ouvir que a segunda volta era uma miragem, que a coisa estava garantida. A coisa garantiu-se, mas a segunda esteve perto, muito perto.
Este blog viveu momentos de hesitação, como se viu pela parca publicação dos últimos dias. A actualidade do país estava afundada nas presidenciais e o tema suscitava cautela, porque a escolha no horizonte apenas excluía Cavaco.
No rescaldo ficará uma esquerda à procura de redefinição, num processo onde Alegre soube ganhar o seu papel. Alegre não seria o candidato ideal, cometeu muitos erros ao longo da campanha, mas a sua campanha foi limpa e bonita. O partido que se fala ir nascer não existe. Alegre capitalizou o voto dos descontentes da política, mas nunca se desvinculou do partido. Nunca pôs os partidos na gaveta - o que disse foi que a política não se faz só com os partidos, e esta é uma novidade na política portuguesa, depois de um Bloco de Esquerda que de epifenómeno deu em partido instalado com a presunção de se assumir como o contrário.
A mobilização que se registou à volta da candidatura de Manuel Alegre, com a desorganização e amadorismo que ficaram patentes, tem o mérito de refrescar a democracia. É uma das coisas que a imperfeita democracia americana tem de melhor. Converter este significado político em partido seria uma enorme asneira.
À atenção do PS está retirar a lição de uma eleição em que o seu eleitorado se desgarrou. A Manuel Alegre pede-se que saiba gerir, dentro do seu partido, o capital e o prestígio que conquistou com inteligência e humildade. A sua declaração desta noite descansa-me. Foi imensamente superior a uma Ana Gomes ressabiada, que disse que o candidato «devia estar alegre pela derrota da esquerda». A um aparelho socialista, orgulhoso a roçar o autista, vai custar perceber que o divisor não foi Alegre, que sem ele não seriam seis décimas, nem provavelmente só seis porcento. A democracia tem este jeito engraçado de ensinar alguma coisa a quem não quer aprender.
Quanto às seis décimas, são o suficiente para que não se veja no rosto de muita gente o sorriso triunfante de quem está por cima. Não foi mau.

P.S. 1 (como em post scriptum): A sondagem da RTP foi a menos eufórica, e a que mais se aproximou do resultado final. Uma palavra de congratulação a Pedro Magalhães, autor deste blog, exemplo de sobriedade e rigor a trabalhar com algo tão propenso à perversidade como são as sondagens.

P.S. 2: No meio disto tudo, tive uma consolação: a minha Aveiras foi Alegre.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Santos da casa não são para andar nas bocas do mundo

Isto estava para ser escrito há uns dias.
Nenhum não-comunista pode pronunciar-se sobre personagens históricas do PCP, nem que seja para elogiar. A hagiografia marxista-leninista em Portugal proíbe-o a profanos.
Manuel Alegre não pode fazer referência a Álvaro Cunhal e a Dias Lourenço porque não é do partido.
A cegueira clubista de Jerónimo de Sousa e do PCP (porque Jerónimo inclui o PCP em tudo o que diz e pensa, quando utiliza a primeira pessoa do plural, anulando-se como individualidade perante o colectivo) pretende subtrair à memória colectiva da resistência - colectiva, porque de todo o povo português - os exemplos deixados por militantes do seu partido na luta comum do povo português contra a opressão.
O PCP queixa-se, primeiro, de ser maltratado pela opinião pública ou publicada, disparando com o epíteto de anti-comunista (que é tão primário como o de comunista) a tudo o que possa ser visto como crítica indesejável, mas não sabe acolher o reconhecimento vindo do exterior.
É obra. De que mais se há-de o PCP queixar?

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Mas a oposição não serve, de quando em vez, para se opor?

Chego à terra, passo os olhos pelos jornais. Pela profusão de notícias no semanário regional sobre o Presidente Moita Flores, qualquer dia é tão ou mais truculento que o nosso Alberto João Jardim (com menos lantejoulas).
O senhor quer governar. Quer dar cabo da dívida da Câmara, que não o deixa dormir (excepto quando foi uns dias para o Alentejo descansar depois de ser eleito). A oposição é uma malandra, não o deixa. Solução: uma conferência de imprensa a apelar à ternura dos desgraçados dos vereadores do PS e CDU. Quanto a mim, que leiga sou, o facto de não se ter maioria absoluta implica uma maior capacidade de negociação por parte de quem subiu ao poleiro - implica talvez ter mais do que uma solução e, em caso de só haver uma, estar preparado para a defender.
Ora o senhor Presidente faz birra e vem para os jornais dizer que não o deixam governar - parece-me talvez infantil e anti-democrático. Pois, quem sabe, o papel da oposição é, muitas vezes, rejeitar aquilo que é proposto.
O caso tem contornos longos, cuja estória não tem aqui lugar. Mas vejam aqui e vejam como um político inexperiente faz política populista. É o regresso do feirismo do Paulo Portas, ou é uma nova abordagem da pressão política?

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Cavacadas

Na entrevista à SIC, Cavaco lá vai dando mostras do seu sentido de Estado. Quando perguntado sobre leituras disse que preferia «autobiografias», e que o último livro que leu foi um sobre o terramoto de 1755, mas não queria referir o autor porque entende que um candidato a Presidente da República não deve destacar um autor em relação a todos os outros.
O homem é de ferro. O homem não se descai. O homem não tem preferências que possam ser recriminadas. Perfeitamente impoluto.
Mas lá disse, até antes de referir este livro do terramoto, que a última autobiografia que leu foi a de Gabriel García Marquez. Este é estrangeiro, não vota - portanto, pode ser mencionado e destacado à vontade.
Também em relação ao aborto se recusou a exprimir qualquer opinião, porque um candidato a Presidente tem de respeitar o sentido pessoal de voto de qualquer cidadão. Nem para que os portugueses saibam o que pensam?, perguntou o jonalista. Nem para isso.
Acho isso muito bem. Para mim o Presidente deve ser aquele que sabe perceber e respeitar as diversas legitimidades com que se depara. Por isso é que Jerónimo e Louçã, candidaturas de protesto que fazem uma campanha de extensão dos respectivos programas partidários - o que permite supor que na Presidência fariam o mesmo - são hipóteses de voto que descarto à partida.
Mas para mim, saber o que o candidato pensa sobre os assuntos é importante. Independentemente de poder ou não agir consequentemente face às tais legitimidades com que se depara, como a legitimidade do governo em executar um programa com o qual foi eleito.
Para Cavaco, só importa não correr riscos e socorrer-se de banalidades generalistas, porque sabe o que pode acontecer se revelar o que pensa. Como já citei aqui, "Se nunca dissermos nada, nada que nos traga problemas, nada que possa ser uma gaffe, nada que possa indicar que pensamos o que não devemos, nada que indique que pensamos... então isso não é digno de nós, nem é digno de uma grande nação."

domingo, dezembro 25, 2005

Impressoes de Israel



Ha alguns dias, assisti a um concerto numa igreja anglicana em Haifa, uma cidade conhecida em Israel pela sua importante populacao arabe. Grande parte desta populacao e' crista. Deambulando pelas ruas da cidade, o turista depara-se com um exemplo nao raro de coexistencia pacifica entre judeus, cristaos e muculmanos em Israel. Neste bairro em particular, profusamente iluminado por decoracoes natalicias, o incauto turista deve ser perdoado pela estupefaccao dificil de conter perante o 'Jingle Bells' em arabe que emana de uma qualquer loja...

Mas voltando a' igreja. Trata-se, como dizia, de uma igreja anglicana. Simples. So os vitrais dao alguma cor ao edificio. Mas o que mais surpreende quem nao e' destas paragens sao os escritos em arabe que decoram a biblia num desses vitrais...

O concerto consistia de varias obras de musica renascentista inglesa e francesa, tocada por quatro musicos, em instrumentos da altura.

E eu dei por mim a rir sozinho a pensar na beleza do momento: uma biblia escrita em arabe a decorar um vitral de uma igreja crista anglicana, numa cidade onde judeus, muculmanos e cristaos (e Bahais!) vivem lado a lado. E tudo isto a servir de enquadramento para ouvir musica europeia com mais de 400 anos. Mas acima de tudo senti o prazer acolhedor de tudo isto ser possivel no Estado Judeu.

Lembro-me de um atentado suicida na Universidade de Haifa, onde a diversidade religiosa da cidade permitiu ao terroista uma colheita igualmente diversa de estudantes de varios grupos etnicos e religiosos.

Aprendi ha pouco tempo que em 1970 (a 22 de Maio, para ser preciso), terroristas palestinianos atacaram um autocarro escolar na Galileia, numa aldeia comunal chamada Moshav Avivim (em portugues, 'Comunidade das Primaveras'). O condutor, 9 criancas e dois outros adultos foram mortos. Houve 19 feridos, entre os quais muitas criancas.

O Ministro da Defesa Moshe Dayan tinha introduzido em 1968 uma politica liberal em relacao aos Territorios Ocupados: livre circulacao de bens e pessoas com a Jordania e outros paises arabes; alguma autonomia do poder local; autorizacoes para trabalhar em Israel (que evidentemente nao existiam antes da Ocupacao).

Ocupacao e' ocupacao, dir-me-ao. Esmolas nao legitimam a ocupacao. Talvez. Mas nao me digam que e' a humilhacao do 'muro da Vergonha' e dos checkpoints que "provoca os atentados dos palestinianos desesperados". Em 1970, os israelitas que me acolhem iam aos Sabados ao mercado de Tul Karm fazer compras e empregavam toda uma familia de palestinianos para trabalhar durante as colheitas. As criancas de ambos os lados da fronteira aberta brincavam juntas.

A negacao estrutural do direito dos judeus a existir e a viver no seu Estado (reconhecido internacionalmente) por parte de sectores consideraveis da populacao palestiniana, e arabe em geral, constitui um elemento tao - eu diria ate mais - importante para compreender este conflito, como factores conjunturais: a Ocupacao de 1967 e as medidas repressivas israelitas.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Fraternidade


Nem sol, nem lua, nem o céu imenso.
Só precisa de imagens quem não tem
A brancura de um lenço
Quando do coração lhe acena alguém.

Semelhantes que somos, criaturas
Abertas como rosas neste lodo,
Sejam mitos astrais as pisaduras
Do nosso sangue todo.

Miguel Torga
Libertação, 1944

Parceiros comunitários



No dia em que Sir Elton John pode oficializar a sua relação com o seu parceiro de muitos anos, David Furnish, chegam notícias pouco felizes da Letónia: a presidente daquele país à beira-Báltico plantado assinou hoje a emenda à Constituição que proíbe os casamentos entre pessoas do mesmo sexo (notícia da agência russa RIA-Novosti, notícia sobre a aprovação parlamentar aqui).
Num momento em que muitos Estados membros da União Europeia avançam no sentido do casamento ou de uniões civis para pessoas do mesmo sexo, as notícias que chegam de Riga marcam um profundo retrocesso no seio do espaço comunitário, deixando um cheiro desagradável a teo-conservadorismo de matriz norte-americana. Estamos, de facto, perante um dado grave: trata-se de uma medida expressa e directamente homofóbica, visando consagrar a nível constitucional uma desigualdade de tratamento entre cidadãos em função da sua orientação sexual.
Uma (primeira?) espinha cravada na garganta da igualdade de direitos na Europa.

Barbaridades e disparates perfeitamente gratuitos



Ribeiro e Castro, líder do CDS-PP afirmou na sessão de encerramento do Congresso da Juventude Popular que o "terrorismo contemporâneo tem origem numa deriva totalitária, extremista de pensamento que é de esquerda"tendo vindo hoje reafirmar tudo o que enunciou no referido evento (disponível aqui).

Apesar do cocktail de disparate, manipulação e ignorância ser considerável, as afirmações de Ribeiro e Castro merecem repúdio veemente e convicto e públicas manifestações de desacordo, atento o facto de se tratar do líder de um dos partidos com representação parlamentar, que por sinal ainda se encontrava no Governo há menos de um ano.
Ribeiro Casto ensaia uma patética colagem entre terrorismo e totalitarismo, detectando no segundo a origem do primeiro e aproveitando para a ladainha habitual de que todos os totalitarismos sobreviventes são de esquerda (Coreia do Norte e Cuba, para ser preciso). Ilação pretendida: a esquerda democrática em todo o mundo é responsável pelas barbaridades do regime de Pyongyang, pelo que votar à esquerda é votar em amigos de Kim Jong Il. Enfim...
Curiosamente, é este o único argumento apresentado em defesa da responsabilidade da esquerda pelo terrorismo, totalmente desprovido de sustentação e argumentos sólidos.
Dr. Ribeiro e Castro, deixo-lhe apenas um conselho: leia!
Comece por ler os relatórios apresentados no Parlamento Europeu no qual é deputado e que descrevem com clareza e rigor os fenómenos do terrorismo islâmico moderno, os movimentos separatistas que recorrem ao terror, as ideologias e tácticas da ETA ou do IRA. Se quiser ir mais longe, dedique-se a recolher informação em revistas da especialidade antes de proferir disparates ofensivos. Mas se quiser ir ainda mais longe e cometer uma locura, há também, imagine-se, livros sobre o assunto!

A melhor defesa é a defesa


Esperava-se muito do inédito debate Soares-Cavaco, sobretudo quanto à capacidade de Soares desmontar a frieza esfíngica de Cavaco com o discurso inflamado e mobilizador que, reconheça-se, ainda não perdeu. O que se viu foi um Soares em alucinada verve destrutiva, como um furacão a abater-se sobre um monolito, às vezes descaíndo para o insulto fácil. É notória a paupérrima preparação cultural de Cavaco, mas responder a isso com a sobranceria que Soares nunca conseguiu - ou quis - perder e apresentar o adversário como um "mediano" economista, entre outros mimos, é ajudar à vitimização da figura e contribui para que se forme no espírito do eleitor a inconsciente ideia de que, se o atacam, é porque ele tem razão.
Cavaco não tem razão, e a vaidade de Mário Soares impediu-o de explicar isso. Entretanto, o catenaccio de Cavaco vai aguentando o resultado. Eu ainda me recuso a acreditar na goleada.

Por aí está bem

Gilberto Madaíl: "Não podemos ter só uma visão economicista, também é peciso ter uma visão social. Os Estádios do Euro estão a cumprir um papel importante nas cidades"

Cada cidade que recebeu jogos do Euro beneficia hoje da oxigenação causada por 1 hectare de relva a fazer oxigenação. O contributo do Euro para a qualidade de vida é inestimável.

sábado, dezembro 17, 2005

Felicidade a mais


Blair satisfeito; Chirac satisfeito; Merkel em grande; polacos com sorriso de orelha a orelha; Socrates nao cabe em si de contente...

Perspectivas financeiras 2007-2013 da UE: ha algum pormenor que me escapa?

(Peco desculpa pela falta de acentos e cedilhas, mas estou num pais barbaro que nao sabe o que isso eh)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

¡Gracías por el Fado!

O editorial do DN de hoje de Eduardo Dâmaso insurge-se com toda a razão contra Maria José Nogueira Pinto, por recusar aceitar que o município de Lisboa possa financiar um documentário sobre Fado, realizado por um cineasta espanhol.

Nesta linha de raciocínio tacanha, nacionalista e primária, o fadinho é só nosso e ai do castelhano que ouse sujá-lo com as suas mãos cobertas de óleo de fritar churros. Haja paciência...

Democracia chilena


Apesar deste post surgir algo atrasado, cumpre assinalar o notável progresso da democracia chilena e a sua emancipação em relação à tutela militar pós-pinochetista. Michelle Bachelet, dirigente socialista, ex-exilada e presa política, filha de um general morto no cárcere da Ditadura, aproixima-se a passos largos da Presidência da República do Chile após alcançar 45,95 % dos votos nas eleições de dia 11 de Dezembro, podendo tornar-se a segunda mulher a assumir a Chefia de Estado de um país sul-americano.

Hasta la vista, baby!


Em Graz, cidade natal de Arnold Schwarzenegger, está em curso uma acesa discussão em torno da manutenção do seu nome no respectivo estádio municipal, face à posição do Governador da Califórnia em apoiar a pena de morte no seu Estado e em se recusar a oferecer clemência aos condenados que aguardam execução. O líder dos Verdes locais argumenta que um "político que emite mantém uma condenação à morte não pode servir como exemplo, perdendo qualquer direito a uma homenagem."
O debate levanta uma questão decisiva quanto à importância e o significado de homenagens desta natureza. Ao escolher dar o nome de uma individualidade a uma rua ou uma infra-estrutura pública opta-se por apontá-la como exemplo, como modelo a seguir em determinado campo de acção.
Em Espanha a questão colocou-se recentemente em torno das estátuas de Franco, por cá surgem ocasionais vozes saudosistas da Ponte Salazar (porque foi ele que a fez, defende-se com argúcia!), ainda subsistindo ocasionais ruas com nomes de destacados dirigentes do Estado Novo.
A Aristides de Sousa Mendes, um homem que sacrificou a sua carreira e o bem-estar da sua família para salvar 30.000 vidas, deixando um exemplo de coragem, tolerância e respeito pela dignidade humana, a Câmara de Lisboa reservou uma pequena rua encravada em Telheiras e a República Portuguesa ainda não consegui assegurar financiamento para a criação de uma casa-museu na sua terra natal de Cabanas de Viriato.

All the world is a stage


Luís Miguel Cintra, Prémio Pessoa 2005.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Blowing in the wind

Sabe-se agora que as tropas americanas poderão ter capturado Abu Musab al-Zarqawi, o lider da Al-Qaeda no Iraque, após uma rusga num hospital no ano passado, mas libertaram-no porque não sabiam quem era. O facto coloca-nos perante uma questão interessante, a acompanhar nos próximos dias: saber como vai ser feita a gestão política do ciclo noticioso.
Para os opositores da Guerra no Iraque o enfoque será sobre mais uma manifestação de inabilidade dos americanos e dos seus serviços de informação na gestão da crise. Mas para qualquer hábil estratega da administração Bush, o caso será apresentado como uma justificação para a detenção arbitrária de suspeitos de terrorismo, porque a única forma de evitar que terroristas se mantenham à solta é manter encarcerada qualquer pessoa que possa ter alguma ligação. Daqui é só um passo até chegarmos a uma situação em que, para se ser detido, não é necessário que haja fortes indícios da prática de factos, basta que não se consiga provar cabalmente a sua inocência.
Não espantará que assim seja, depois de vermos como os americanos procuraram criar um submundo legal onde o rule of law não exista. É neste sentido que têm soprado os ventos da guerra.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Afinal Durão existe






Hoje no Parlamento Europeu:

Durão Barroso: ... e, como eu dizia, precisamos de uma Europa forte, coesa e solid... (murmúrios, restolhar aparatoso) Eu pedia alguma atenção por parte dos estimados deputados...
Presidente do Parlamento: Por favor, estimados deputados, façam silêncio; deixem o Presidente da Comissão falar!
Durão Barroso: É que não é a primeira vez; peço-vos, com todo o respeito, que respeitem o Presidente da Comissão; quando as Excelências falam, eu também vos oiço; portanto, no mínimo, peço silêncio quando eu falo (murmúrios indignados da bancada socialista) silêncio não, peço atenção, atenção, só atenção...

Mas ele hoje esteve bem. Pela primeira vez, Durão agiu como se espera de um Presidente da Comissão: atacou a Presidência Britânica por apresentar um orçamento que demonstrava "falta de ambição" e que era incompatível com os próprios objectivos estabelecidos por Blair em Hampton Court. Depois de 6 meses a oscilar entre o silêncio e a bajulação a Blair, Durão percebeu que se não fôr ele a defender a Comissão e os interesses estratégicos da União, mais ninguém o vai fazer.

Mais vale tarde do que nunca.

Dos Natais e Festas que tais


A propósito de crucifixos e outras liberdades religiosas, veja-se a situação actual nos Estados Unidos e a apregoada "Guerra ao Natal".
Tudo começou quando alguém observou que o presidente escolhera para os cartões de Natal da Casa Branca a inócua fórmula Happy Holidays (boas festas) em vez de um supostamente mais entusiástico e comprometido Merry Christmas.
A direita religiosa que telecomanda o poder em Washigton, e que, tendo contribuído decisivamente para mobilizar o eleitorado que pôs Bush onde agora está, não se coíbe de marcar a agenda política do presidente (como já se disse aqui) viu nisto um ataque ao carácter religioso e cristão do Natal, que, segundo eles, não é mais que uma manifestação da cruzada (o termo é capaz de ser despropositado) contra o Natal que se vive na sociedade americana, promovida pelos liberais. O tema até já mereceu tratamento num livro da autoria de um jornalista do insuspeito canal de notícias Fox.
Ora, o Natal, festa da natividade de Jesus, não é só quando o Homem quer, também é como ele quer. O certo é que há na cultura ocidental um acolhimento tácito do Natal enquanto festa da família, que não se desliga do nascimento de Cristo, mas não está preso à celebração que a Igreja dele faz. Dirão os zeladores dos crucifixos que ele agora se descaiu com esta, que, se se aceita o Natal, é porque se aceita a Verdade de Cristo Salvador e Redentor da Humanidade, ou pelo menos que, se a ninguém incomoda o Natal, também não deverão incomodar os crucifixos nas salas de aula, mas não é assim.
A diferença entre um crucifixo na parede e os enfeites nas ruas está em que, por mais irritantes que estes sejam em alguns casos (como os Pais Natal a subirem pelos prédios acima), não são impostos. São uma manifestação individual e espontânea de adesão a uma festa, e não interessa sequer apurar se as motivações são de vaidade ou de mercantilismo.
Aderir ao Natal é sempre livre, e se as cidades e as pessoas aderem maciçamente, então é porque a sociedade retira algo da religião e das suas festividades e faz isso seu. O Natal é uma emanação do cristianismo, mas é mais do que o cristianismo pode querer que seja. O Natal é uma festa religiosa, mas não é só uma festa da religião.
Quanto a saber se isto há-de ser Natal ou Festas, ou se a árvore que fica temporariamente à frente do Capitólio se chama Árvore de Natal ou Árvore das Festas, o interesse da questão escapa-me. Não vejo qual é o problema de o presidente mandar as Boas Festas. Mas também não vejo qual seria o de desejar Feliz Natal.

terça-feira, dezembro 13, 2005

E perguntas bem!

E pergunto eu: quem se insurge contra a retirada de crucifixos das escolas onde estes ainda estão, não se deveria insurgir contra o facto da Igreja Católica proibir concertos de música clássica nos seus templos? É que quanto a mim o argumento utilizado é tão válido para um lado como para o outro - interpenetração dos dois mundos e tolerância entre ambos.
Se a Igreja continua assim, só porque Schubert ou Mahler são pecado, como permitirão a Marcha Nupcial?
Sou só eu a dar uma de provocatória...

Não sei se já repararam...

...mas há uma discussão acessa e interessante no post aqui em baixo. É ir lá ver, aos comentários.