sábado, junho 24, 2006

Por vezes as boas ideias vêm de onde menos se espera




Na polémica que aqueles que não compreendem o significado e alcance da laicidade alimentam, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, ao pensar que provocava os jacobinos da esquerda, teve hoje duas boas ideias:
1 - Acabar com as bençãos em cerimónias de inaugurações oficiais.
De facto, não se consegue compreender como é que é possível que subsistam actos de natureza estritamente religiosa enquadrados em cerimónias públicas. Se a crença de alguns retira conforto do facto de uma ponte, uma estrada ou um parque de diversões em Sobral de Monte Agraço ter sido benzido então, por quem sois, benzei a infra-estrutura pública. Não peçam é para fazê-lo no quadro de uma cerimónica do Estado. A infra-estrutura é para todos usarem, admitindo-se que todos a possam benzer. Agora o Estado é que não é chamado a participar.
2 - Acabar com os feriados religiosos
Na sequência de umas ideias que aqui já tive opinião de referir em sede de comentários, é algo que faz todo o sentido. O Estado pode reconhecer que o fenómeno religioso clama pela existência de dias santos, que os fiéis pretendem observar. Assim sendo, fixe-se um número anual de dias que podem ser requeridos potestativamente pelos trabalhadores ao empregador para este fim (ou para outro qualquer, caso seja agnóstico ou ateu), permitindo, ao contrário da lei actual, que todas as confissões gozem de igual tratamento.
Não dizia Jesus de Nazaré, a César o que é de César?
PS: Desculpem lá isto de nós defensores da laicidade insistirmos sempre em citar um máxima de Jesus Cristo com quase dois mil anos para demonstrar este argumento, mas ele é tão claro que não nos cansamos de o repetir.

A Boina vive!


Os cidadãos e cidadãs da Boina regressam. Depois do exemplo dado pelo post anterior, chegou a hora de acabar com o silêncio e voltar ao ataque. Apesar da negligência criminosa dos últimos meses, a chama da República deste blog não se apaga. A Boina de regresso, numa blogosfera perto de si.

terça-feira, junho 20, 2006

Picasso Tradición y Vanguardia

Sexta-feira passada estive em Madrid para observar a exposição "Picasso tradicion y vanguardia" promovida pelos museus reina Sofia e Prado que se juntaram para uma exposição inédita e irrepetível que pretende confrontar as obras de Picasso com as obras de Goya, Velásquez e outros clássicos que lhe serviram de inspiração.










Quero tentar replicar aqui, desta forma gráfica uma das sensações mais comoventes que me proporcionou a arte. Estar numa sala literalmente rodeado pelo Guernica e o Massacre da Coreia de Picasso, o 3 de Mayo de Goya e o Fuzilamento do Imperador Maximiliano de Manet.

Picasso foi um claro apoiante da causa Republicana durante a Guerra Civil espanhola e o Guernica é o seu testemunho do horror da repressão Franquista durante um dos períodos mais negros da história de Espanha. O confronto deste quadro com o 3 de Mayo de Goya, politicamente simétrico e, resulta numa censura à guerra e aos seus horrores, liberta de qualquer conotação política ou religiosa.

segunda-feira, maio 15, 2006

Obviamente, obrigado!


Humberto Delgado (15 Maio 1906 - 13 Fevereiro 1965)

terça-feira, abril 25, 2006

A Revolução que tanto amamos


Não é por este blog andar paradito de posts que vamos deixar de prestar atenção ao que realmente interessa. Aqui deixo o meu sentido testemunho.

Foi na sequência da Ávinho em Aveiras. Desafiei os escuteiros que ficaram este ano com a taberna do Chico da Serra. Aceitaram prolongar a festa do vinho e das adegas por mais um dia para além do fim de semana e comemorar o 25 de Abril à segunda-feira. O 25.
Não houve imposição de escolha musical, não houve nada. Apenas uma sugestão bem acolhida. eu nem gosto do escutismo, só destes escuteiros de quem sou amigo.
A festa foi bonita, pá!
Cartazes do 25 e música do Zeca. Discussão política com todos os pontos de vista representados - ou melhor, possibilidade de discutir tudo e mais qualquer coisa.
As cabeças estavam alertas e dispostas a debater e discutir. Não sei se por teimosia ou por disposição, mas sei que o tema desta festa abriu muitas portas. E o 25 de Abril aconteceu. A bem ou a mal, a discussão aconteceu. O que era bom, o que era mau, tudo isso apareceu. A política como está, como devia ser, apareceu. O debate surgiu, o diálogo proporcionou-se, e à razão deixou-se o lugar devido.
Disse, pois disse. E ainda bem que há democracia, nem que seja à volta de um copo de cerveja ou vinho.
Depois de vir a casa deixar os posters que serviram de decoração ao espaço da taberna do Chico da Serra, senti que havia alguma coisa a dizer. E por isso voltei. Disse-o. O 25 fez-se por uma sociedade idealizada que não pode conhecer limites de classe ou posição social. O 25 fez-se para que tolerÂncia que a liberdade proprociona. Ainda bem que a liberdade fala pelas mais estranhas formas. Só assim pode o 25 acontecer nas pequenas coisas, Sem atavios ou prisões. Só a liberdade. Hoje o 25 aconteceu. A mensagem passou, e eu, um pequeno elemento na correia de transmissão, deixarei e farei com que aconteça todos os dias. Que bela forma de homenagear a geração dos meus pais! Que belo presente é a liberdade!

sexta-feira, março 24, 2006

Há tanta coisa para fazer

Estamos demasiado ocupados a mudar o mundo.

Já agora deixou-vos um link para a entrevista que Ehud Olmert deu ao diário israelita de centro-esquerda Haaretz (http://www.haaretz.com/hasen/spages/692704.html). Dá uma no cravo, outra na ferradura. Mas o que mais marca é a promessa de retirar de quase toda a Cisjordânia! Em quatro anos! Cabe à esquerda israelita ter um resultado suficientemente robusto nas eleições da próxima Terça-feira para exercer pressão sobre o executivo liderado por Olmert: Israel não pode anexar Jerusalém Oriental (faz parte do programa do Partido Trabalhista abrir mão de tudo menos a Cidade Velha e o Muro das Lamentações); deve aproximar o trajecto do Muro - infelizmente necessário - o mais possível da Linha Verde de 1967 para evitar mais anexações de terra palestiniana; deve manter uma presença soft no Vale do Jordão e não uma 'fronteira de segurança'.

Finalmente, acima de tudo, só com a esquerda no poder se pode manter vivas as esperanças numa solução negociada.

Já que do lado palestiniano está tudo a andar para trás, cabe a Israel levar a cabo uma política de unilateralismo responsável.

Terça-feira Israel dá mais uma lição de maturidade democrática à região.

segunda-feira, março 06, 2006

The show must go on


A cerimónia dos Oscars de ontem prometia ser impregnada do perfumado charme da dissidência. Começou a ver-se que só poderia ser assim quando a concurso estavam os filmes que estavam, e a Academia deu seguimento quando chamou Jon Stewart para apresentar («a melhor oportunidade para ver tanta celebridade junta sem ser num jantar do Partido Democrático»). Valia a pena ficar acordado só para o ver.
O que se passou não desmereceu o prometido.
George Clooney abriu a noite da melhor maneira. Com um discurso que foi, a muitos títulos, perfeito, o empedernido e empenhado liberal à antiga declarou o seu orgulho em pertencer a uma comunidade que falava de SIDA, desigualdade e exploração quando ninguém falava, e que deu um Oscar a uma negro numa altura em que os negros só podiam sentar-se nas últimas filas dos cinemas. E a noite prosseguiu no mesmo registo, enfatizado no clip sobre filmes que abordaram questões sociais importantes. Farta de ser gozada numa América adormecida pela tribo de Bush, Hollywood sai do armário como que gritando «Liberal, and proud of it». Sacudiu o sufoco e assumiu-se. Não foi gritar e espernear à toa. Não houve folclore à Michael Moore. Foi despejar emoção contida que transbordou de tão cheio que estava o copo. Foi como que dizer a festa é minha, deixem-me dizer o que quero. Foi a celebração do orgulho de fazer filmes como uma oportunidade de provocar a inquietação do espírito através da arte e assim fazer a humanidade avançar.
Não gosto particularmente da instrumentalização da arte, mas de vez em quando faz bem assistir a estes assomos de lucidez. É o que resta de esperança na grandeza da América.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Biomedicina na Antiguidade?

Refere uma notícia da Agência Lusa: "A Bíblia (católicos), o Corão (islâmicos) e a Tora (judeus) condenam a utilização de espermatozóides ou óvulos de elementos exteriores ao casal nas técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA)."

Se não fosse a agência noticiosa mais conceituada do País até dava para rir...

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Figaro, Mozart, Beaumarchais e Da Ponte

Na passada semana tive o enorme prazer de assistir no Scala de Milão a uma encenação memorável da Ópera “As Bodas de Fígaro” do aniversariante Mozart com um Libreto excepcional de Lorenzo Da Ponte baseado num texto revolucionário de Beaumarchais.

Quando Mozart celebra o seu 250 aniversário é importante lembrar uma faceta deste compositor que, não sendo tão explicitamente adepto dos ideais da Revolução como Beethoven, teve a coragem de levar à Viena feudal de 1786, três anos antes d’A Revolução Francesa, uma ópera baseada num texto incendiário de Beaumarchais que tinha na versão inicial frases como esta de Figaro ao conde:
“Por ser um grande fidalgo, o senhor acredita ser um grande génio [...] O que fez para possuir tantos bens? Deu-se apenas ao trabalho de nascer e nada mais" ou ainda esta chave de encerramento do texto "Por obra e graça do nascimento, um é rei, o outro pastor, o acaso criou a distância, apenas o espírito pode mudar tudo". Muito já se exagerou sobre a influência deste texto no despoletar da Revolução mas... Não sentem também um arrepio na espinha?

Apesar destas frases de maior impacto não constarem do libreto de Da Ponte este libretista livrepensante libertino e amigo de Casanova conseguiu, não só manter o fervor revolucionário do texto original de Beaumarchais, como criar o que é considerado por muitos um dos melhores e mais deliciosos enrredos da história da Ópera que se desenvolve num conjunto de enganos e desenganos em torno do da vitória de um noivo de condição inferior (Figaro) num desafio claro ao seu senhor (o Conde) que tenta exercer em vão o direito de Prima Nocte.

Mozart demonstrou claramente, ao pôr Viena a trautear hinos de desafio ao poder da Nobreza como a primeira ária de Figaro: "se quer bailar , senhor condezinho", que não só este compositor não era um castrati, como tinha umas balls pelo menos do tamanho das que Graeme Souness atribuía a Michael Thomas e também que, se não é clara a sua aderência incondicional aos ideais republicanos, prova-se que partilhava uma grande desconfiança relativamente ao sistema instituído.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Bonitos serviços

"Este dossier é o mais importante de toda a legislatura", ouve-se dizer nos corredores do Parlamento Europeu: será o Irão? As eleições palestinianas? O futuro da indústria de defesa europeia? As missões na República Democrática do Congo no contexto da Política Europeia de Segurança e Defesa ? Não.

Trata-se da 'Directiva dos Serviços' que é hoje votada em plenária.

E eu que não percebo nada do "dossier mais importante de toda a legislatura"...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pum!

A propósito do acidente de caça do vice-presidente americano Dick Cheney, sugere-se a quem tenha um pouco de tempo livre um jogo de Cheney Quail Hunt, a que se pode aceder por aqui.
Não há como falhar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Cartoons dinamarqueses: algumas reflexões

1. Alguns deles são racistas e xenófobos, comparáveis às pérolas artísticas anti-semitas produzidas em jornais por todo o mundo muçulmano;
2. Como tal, a Dinamarca e qualquer governo europeu, deviam demarcar-se dos media que os reproduzem - não esperaria outra reacção em relação a cartoons que negassem o holocausto ou que insinuassem que todos os africanos são estúpidos; neste caso em particular, bastava alguma sabedoria política para justificar statements políticos de repúdio;
3. Isto não tem nada a ver com 'liberdade de expressão': ninguém está a defender que se feche jornais e se ponha jornalistas na prisão. Os tribunais que decidam que medidas legais há a tomar. Trata-se, isso sim, de fazer um statement político em como aquele tipo de discurso xenófobo é inaceitável;
4. Protestos violentos no mundo islâmico: ainda surpreendem alguém? É importante condená-los. Mas como se diz em alemão 'cada varredor tem que começar pela própria entrada'. A condenação evidente da violência no mundo islâmico tem pouco a ver com a natureza xenófoba de alguns dos cartoons que, essa sim, tem as raízes no nosso back yard;
5. Não se trata de pedir desculpas: não vou desculpar-me pelas ideias racistas de meia dúzia de imbecis; bastava ao governo dinamarquês ter - a seu tempo - recebido os representantes de alguns países muçulmanos, dizer umas palavrinha agradáveis, e talvez a coisa se tivesse passado de outra maneira;
6. E por outro lado, talvez não: muitos desses países (Irão, Síria, Arábia Saudita) usam esta história como podem para legitimar os seus regimes repressivos e retrógrados. É verdade que não há declaração de repúdio do lado europeu que seja capaz de apaziguar algumas forças políticas no mundo islâmico. Mas estas legítimas considerações pragmáticas não significam que a Europa ignore os seus princípios e se esqueça de condenar a xenofobia "porque os outros meninos não nos ligam". E o objectivo não é apaziguar ninguém, mas antes sublinhar uma questão de princípio, independentemente do que o Irão - e outros - dizem, ou fazem.
7. Competição de cartoons a gozar com o holocausto no Irão: um regime grotesco a liderar um país doente e uma sociedade civil estupidificada por uma geração inteira de lavagem cerebral. Só nos resta a esperança de que a nova geração iraniana pós-revolucionária seja mais imune a este tipo de delírios do que a presente.

Mas entretanto eu espero que Israel se agarre bem à Bomba.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva, homem livre que nasceu há 100 anos e viveu sem BI nem número de contribuinte, por ele próprio:

"Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida. Sou do paradoxo que a contém no total."

Não é acidente, é a força do hábito

"Cheney accidentally shoots fellow hunter" - CNN

É o que se segue a dar tiros no pé.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

É possível fazer diferente...

Ainda a propósito do meu post de 7 de Fevereiro sobre o 'Público' e só a título de exemplo:

Financial Times Online de hoje (http://news.ft.com/cms/s/6afb6e6a-9847-11da-816b-0000779e2340.html)

Título: "Olmert plans further withdrawals"

Resumo do Conteúdo: "Israel plans further withdrawals from the West Bank but will hold on to large settlement blocs and the eastern border with Jordan, Ehud Olmert, acting prime minister, said on Tuesday."

A isto sim chama-se informação.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Belmiro Papa-Tudo


O país acordou hoje em ânsias de saber pormenores da notícia que estourou ainda ontem sobre o arrojo - ou desfaçatez, consoante a perspectiva - do patrão da Sonae em querer açambarcar a PT, num negócio privado que envolve o equivalente à soma de dois aeroportos da Ota e um TGV (dados do Público).
Pessoalmente, acho um bocado parolo este culto da personalidade à volta do Belmiro self-made man, homem empreendedor e destemido, jogador exímio e negociante astuto.
Não me entendam mal. Enquanto empresário, acho que Belmiro foge um pouco ao estereótipo do empresário português choramingas e dependente, pronto a vender-se pela melhor oferta e à primeira solicitação - ele não se fica e vai a todas; ele não quer só engrossar o bolo para o vender e pôr-se ao fresco (como Champallimaud e o Totta); ele olha para a frente e não se interessa com quem vai ao lado, o que é a melhor maneira de deixar a concorrência para trás.
Talvez seja só o meu âmago de republicano de esquerda a falar por cima de tudo, mas este modelo de empresário ultra-pragmático não é o tipo de heroísmo que me aqueça o espírito, se é que de heroísmo se trata realmente. Tanto mais que, como ouvi ainda agora o delfim Paulo de Azevedo dizer, esta gente não se cansa de enfatizar o seu próprio dinamismo e empreendedorismo enquanto valores, quando acho que o valor deve estar nos objectivos - logo, no discurso legitimador, a ênfase deve ser colocada no objectivo, não nos meios, o que de outro modo resulta um pouco a provincianismo auto-convencido.
Mas até a um republicano de esquerda old school como eu, a história deste negócio tem pormenores de inescapável interesse
Primeiro, a delícia que está no mero aspecto formal da jogada: independentemente de qualquer ulterior consideração, esta é uma movimentação de jogador velhaco. É como o corredor que arranca nos últimos 20 km da Maratona e obriga todos os outros a virem atrás. Em termos de táctica de guerra, delicioso. Só antecipar qual será a reacção da concorência é entusiasmante.
Segundo, a mera perspectiva de alguém ter tanto dinheiro ou crédito para gastar na operação: é aquilo que entusiasma o português que gasta no Euromilhões mais do que devia, definitivamente a colocar Belmiro na galeria de portugueses excelentíssimos do português comum, mesmo ao lado de José Mourinho.
Terceiro, a perspectiva estarrecedora de ver tanto poder nas mesmas mãos: ainda que previsivelmente a Sonae seja obrigada a vender uma operadora de telemóveis, o império da PT nas comunicações somado à rede da Sonae é uma nebulosa em formação que ameaça tapar tudo à volta.
Giro, giro, será ver os restantes barões a esgatanharem-se para não ficarem por baixo. Pelo menos o circo há-de ser divertido.

O Público faz das suas...

Como se já não bastasse ter a Alexandra Lucas 'os-palestinianos-vítimas-da-cegueira-do-mundo-sofrem-às-mãos-dos-carrascos-israelitas' Coelho como enviada especial do Público em Israel/Palestina, a linha editorial do jornal (quando se reconhece uma) é de tal maneira anti-israelita, que eu às vezes me pergunto se este diário nacional se auto-proclamou como o órgão oficial da OLP na Península Ibérica.

Último exemplo - Público Online de hoje (http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1247139&idCanal=18)

Título: "Cisjordânia: Olmert define áreas das quais Israel não quer abdicar"

Conteúdo: os israelitas, marotos e misteriosamente malévolos como sempre, recusam-se a reconhecer a "Linha Verde (demarcação internacionalmente reconhecida entre Israel e a Palestina)" como fronteira última do Estado de Israel e preparam-se para anexar alguns colonatos que consideram vitais.

Uau. Se estes senhores tivessem feito os trabalhos de casa, sabiam que das últimas vezes em que se chegou perto de um acordo, se discutiu seriamente trocar terras: colonatos dentro da Linha Verde para Israel, terras israelitas para a Palestina - a linha de 1967 é uma referência, mas não é sagrada.

E que tal realçar o facto de Israel se estar a preparar para retirar de 90 e tal por cento da Cisjordânia? Isso sim é a novidade, a notícia, e não o facto de alguns políticos israelitas se quererem agarrar a tantas terras palestinianas quanto possível.

E que tal realçar que o que Olmert diz deve ser visto no contexto das eleições eleitorais a ter lugar no fim de Março, em que o partido Kadima (de Olmert) se tem que fazer de forte para não perder votos para os irredutíveis do Likud?

E que tal sublinhar que semanas antes de anunciar a decisão de retirar de Gaza, Sharon também dizia que antes retiraria de Tel Aviv do que de Gaza?

Não, para isso o Público tinha que perceber a região e a dinâmica doméstica israelita. Mas como enviou para lá a Alexandra Lucas 'quem-me-dera-ser-palestiniana-para-também-ter-uma-causa-justa-na-vida' Coelho, não perceberam nada e compensam a ignorância com zelo anti-sionista mal camuflado como 'informação'.

A forma selectiva de aplicar os ênfases de conteúdo diz tudo sobre os propósitos deste jornal.

Só mais uma. O Público anunciava a semana passada que Israel tinha decidido parar de transferir dinheiro (que pertence aos palestinianos) para a Autoridade Palestiniana, por causa da vitória do Hamas. Entretanto Israel mudou de ideias e transferiu o dinheiro, dizendo que enquanto não houver um novo governo esperaria para ver e continuaria a apoiar financeiramente Abu Mazen. Leram esta última parte no Público? Leram aquilo que de facto acabou por acontecer? Não. Leram só parte da história.

É que é tão transparente que até dói.

É que se é para mandar bocas, juntem-se com uns amigos e façam um blog. Mas não lhe chamem 'jornal diário'.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Errata

Os dois posts anteriores indicam que o obelisco da Place de la Concorde foi lá posto por Napoleão Bonaparte. Na verdade foi durante o reinado de Luis Filipe de Orleães(1830-1848) que os tais grenadeiros, numa operação descrita em detalhe na base do monumento, o colocaram num barco (o 'Luxor') e o trouxeram para Paris em 1836. Bonaparte deixou este mundo cruel em 1821. As minhas desculpas pela imprecisão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Obelisco


Ei-lo!

Proudhon

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), na sua obra-prima 'O que é a propriedade?' desmonta de forma brilhante todas as ideologias com que se costumava legitimar a existência da propriedade privada. Podemos concordar hoje em dia que a propriedade privada é uma invenção útil, uma fantasia que faz parte do nosso dia-a-dia como qualquer outro elemento do quotidiano. Mas Proudhon continua a ser útil na maneira como desconstrói os mitos religiosos, sociológicos e económicos que, a dada altura no século XIX (em Inglaterra mais cedo) elevaram a propriedade a religião.

Uma das histórias que Proudhon usa para explicar porque é que o trabalho não pode ser comprado em troca de salários é a seguinte (estou a parafrasear, mais do que a citar - os detalhes são inventados, já que a memória me falha): quando Bonaparte veio do Egipto, trouxe um obelisco. Naquela altura era assim, gamava-se os monumentos do pessoal estrangeiro. Enfim. 64 grenadeiros, veteranos das Pirâmides, demoraram uma semana a montar o colosso de pedra em Paris. Proudhon pergunta se um grenadeiro sozinho seria capaz, se lhe déssemos 64 semanas, de montar o obelisco. A resposta é não. O trabalho colectivo representa muito mais do que a soma de tarefas individuais. Remunerar trabalhadores individualmente através de salários, significa trocar o valor acrescentado produzido pelo trabalho colectivo por uma soma de parcelas salariais individuais.

Este fim-de-semana, quando estiver na Place de la Concorde ao lado do obelisco, com a Assemblée Nationale à minha esquerda, o Jardim das Tulherias nas minhas costas e os Campos Elíseos a conduzirem o meu olhar para o Arco do Triunfo, vou-me lembrar de Proudhon e do facto da grandeza da França ser acima de tudo um produto das ideias que emanaram de Paris, cidade da Luz, mãe da República.