terça-feira, fevereiro 21, 2006

Figaro, Mozart, Beaumarchais e Da Ponte

Na passada semana tive o enorme prazer de assistir no Scala de Milão a uma encenação memorável da Ópera “As Bodas de Fígaro” do aniversariante Mozart com um Libreto excepcional de Lorenzo Da Ponte baseado num texto revolucionário de Beaumarchais.

Quando Mozart celebra o seu 250 aniversário é importante lembrar uma faceta deste compositor que, não sendo tão explicitamente adepto dos ideais da Revolução como Beethoven, teve a coragem de levar à Viena feudal de 1786, três anos antes d’A Revolução Francesa, uma ópera baseada num texto incendiário de Beaumarchais que tinha na versão inicial frases como esta de Figaro ao conde:
“Por ser um grande fidalgo, o senhor acredita ser um grande génio [...] O que fez para possuir tantos bens? Deu-se apenas ao trabalho de nascer e nada mais" ou ainda esta chave de encerramento do texto "Por obra e graça do nascimento, um é rei, o outro pastor, o acaso criou a distância, apenas o espírito pode mudar tudo". Muito já se exagerou sobre a influência deste texto no despoletar da Revolução mas... Não sentem também um arrepio na espinha?

Apesar destas frases de maior impacto não constarem do libreto de Da Ponte este libretista livrepensante libertino e amigo de Casanova conseguiu, não só manter o fervor revolucionário do texto original de Beaumarchais, como criar o que é considerado por muitos um dos melhores e mais deliciosos enrredos da história da Ópera que se desenvolve num conjunto de enganos e desenganos em torno do da vitória de um noivo de condição inferior (Figaro) num desafio claro ao seu senhor (o Conde) que tenta exercer em vão o direito de Prima Nocte.

Mozart demonstrou claramente, ao pôr Viena a trautear hinos de desafio ao poder da Nobreza como a primeira ária de Figaro: "se quer bailar , senhor condezinho", que não só este compositor não era um castrati, como tinha umas balls pelo menos do tamanho das que Graeme Souness atribuía a Michael Thomas e também que, se não é clara a sua aderência incondicional aos ideais republicanos, prova-se que partilhava uma grande desconfiança relativamente ao sistema instituído.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Bonitos serviços

"Este dossier é o mais importante de toda a legislatura", ouve-se dizer nos corredores do Parlamento Europeu: será o Irão? As eleições palestinianas? O futuro da indústria de defesa europeia? As missões na República Democrática do Congo no contexto da Política Europeia de Segurança e Defesa ? Não.

Trata-se da 'Directiva dos Serviços' que é hoje votada em plenária.

E eu que não percebo nada do "dossier mais importante de toda a legislatura"...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pum!

A propósito do acidente de caça do vice-presidente americano Dick Cheney, sugere-se a quem tenha um pouco de tempo livre um jogo de Cheney Quail Hunt, a que se pode aceder por aqui.
Não há como falhar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Cartoons dinamarqueses: algumas reflexões

1. Alguns deles são racistas e xenófobos, comparáveis às pérolas artísticas anti-semitas produzidas em jornais por todo o mundo muçulmano;
2. Como tal, a Dinamarca e qualquer governo europeu, deviam demarcar-se dos media que os reproduzem - não esperaria outra reacção em relação a cartoons que negassem o holocausto ou que insinuassem que todos os africanos são estúpidos; neste caso em particular, bastava alguma sabedoria política para justificar statements políticos de repúdio;
3. Isto não tem nada a ver com 'liberdade de expressão': ninguém está a defender que se feche jornais e se ponha jornalistas na prisão. Os tribunais que decidam que medidas legais há a tomar. Trata-se, isso sim, de fazer um statement político em como aquele tipo de discurso xenófobo é inaceitável;
4. Protestos violentos no mundo islâmico: ainda surpreendem alguém? É importante condená-los. Mas como se diz em alemão 'cada varredor tem que começar pela própria entrada'. A condenação evidente da violência no mundo islâmico tem pouco a ver com a natureza xenófoba de alguns dos cartoons que, essa sim, tem as raízes no nosso back yard;
5. Não se trata de pedir desculpas: não vou desculpar-me pelas ideias racistas de meia dúzia de imbecis; bastava ao governo dinamarquês ter - a seu tempo - recebido os representantes de alguns países muçulmanos, dizer umas palavrinha agradáveis, e talvez a coisa se tivesse passado de outra maneira;
6. E por outro lado, talvez não: muitos desses países (Irão, Síria, Arábia Saudita) usam esta história como podem para legitimar os seus regimes repressivos e retrógrados. É verdade que não há declaração de repúdio do lado europeu que seja capaz de apaziguar algumas forças políticas no mundo islâmico. Mas estas legítimas considerações pragmáticas não significam que a Europa ignore os seus princípios e se esqueça de condenar a xenofobia "porque os outros meninos não nos ligam". E o objectivo não é apaziguar ninguém, mas antes sublinhar uma questão de princípio, independentemente do que o Irão - e outros - dizem, ou fazem.
7. Competição de cartoons a gozar com o holocausto no Irão: um regime grotesco a liderar um país doente e uma sociedade civil estupidificada por uma geração inteira de lavagem cerebral. Só nos resta a esperança de que a nova geração iraniana pós-revolucionária seja mais imune a este tipo de delírios do que a presente.

Mas entretanto eu espero que Israel se agarre bem à Bomba.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva, homem livre que nasceu há 100 anos e viveu sem BI nem número de contribuinte, por ele próprio:

"Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida. Sou do paradoxo que a contém no total."

Não é acidente, é a força do hábito

"Cheney accidentally shoots fellow hunter" - CNN

É o que se segue a dar tiros no pé.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

É possível fazer diferente...

Ainda a propósito do meu post de 7 de Fevereiro sobre o 'Público' e só a título de exemplo:

Financial Times Online de hoje (http://news.ft.com/cms/s/6afb6e6a-9847-11da-816b-0000779e2340.html)

Título: "Olmert plans further withdrawals"

Resumo do Conteúdo: "Israel plans further withdrawals from the West Bank but will hold on to large settlement blocs and the eastern border with Jordan, Ehud Olmert, acting prime minister, said on Tuesday."

A isto sim chama-se informação.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Belmiro Papa-Tudo


O país acordou hoje em ânsias de saber pormenores da notícia que estourou ainda ontem sobre o arrojo - ou desfaçatez, consoante a perspectiva - do patrão da Sonae em querer açambarcar a PT, num negócio privado que envolve o equivalente à soma de dois aeroportos da Ota e um TGV (dados do Público).
Pessoalmente, acho um bocado parolo este culto da personalidade à volta do Belmiro self-made man, homem empreendedor e destemido, jogador exímio e negociante astuto.
Não me entendam mal. Enquanto empresário, acho que Belmiro foge um pouco ao estereótipo do empresário português choramingas e dependente, pronto a vender-se pela melhor oferta e à primeira solicitação - ele não se fica e vai a todas; ele não quer só engrossar o bolo para o vender e pôr-se ao fresco (como Champallimaud e o Totta); ele olha para a frente e não se interessa com quem vai ao lado, o que é a melhor maneira de deixar a concorrência para trás.
Talvez seja só o meu âmago de republicano de esquerda a falar por cima de tudo, mas este modelo de empresário ultra-pragmático não é o tipo de heroísmo que me aqueça o espírito, se é que de heroísmo se trata realmente. Tanto mais que, como ouvi ainda agora o delfim Paulo de Azevedo dizer, esta gente não se cansa de enfatizar o seu próprio dinamismo e empreendedorismo enquanto valores, quando acho que o valor deve estar nos objectivos - logo, no discurso legitimador, a ênfase deve ser colocada no objectivo, não nos meios, o que de outro modo resulta um pouco a provincianismo auto-convencido.
Mas até a um republicano de esquerda old school como eu, a história deste negócio tem pormenores de inescapável interesse
Primeiro, a delícia que está no mero aspecto formal da jogada: independentemente de qualquer ulterior consideração, esta é uma movimentação de jogador velhaco. É como o corredor que arranca nos últimos 20 km da Maratona e obriga todos os outros a virem atrás. Em termos de táctica de guerra, delicioso. Só antecipar qual será a reacção da concorência é entusiasmante.
Segundo, a mera perspectiva de alguém ter tanto dinheiro ou crédito para gastar na operação: é aquilo que entusiasma o português que gasta no Euromilhões mais do que devia, definitivamente a colocar Belmiro na galeria de portugueses excelentíssimos do português comum, mesmo ao lado de José Mourinho.
Terceiro, a perspectiva estarrecedora de ver tanto poder nas mesmas mãos: ainda que previsivelmente a Sonae seja obrigada a vender uma operadora de telemóveis, o império da PT nas comunicações somado à rede da Sonae é uma nebulosa em formação que ameaça tapar tudo à volta.
Giro, giro, será ver os restantes barões a esgatanharem-se para não ficarem por baixo. Pelo menos o circo há-de ser divertido.

O Público faz das suas...

Como se já não bastasse ter a Alexandra Lucas 'os-palestinianos-vítimas-da-cegueira-do-mundo-sofrem-às-mãos-dos-carrascos-israelitas' Coelho como enviada especial do Público em Israel/Palestina, a linha editorial do jornal (quando se reconhece uma) é de tal maneira anti-israelita, que eu às vezes me pergunto se este diário nacional se auto-proclamou como o órgão oficial da OLP na Península Ibérica.

Último exemplo - Público Online de hoje (http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1247139&idCanal=18)

Título: "Cisjordânia: Olmert define áreas das quais Israel não quer abdicar"

Conteúdo: os israelitas, marotos e misteriosamente malévolos como sempre, recusam-se a reconhecer a "Linha Verde (demarcação internacionalmente reconhecida entre Israel e a Palestina)" como fronteira última do Estado de Israel e preparam-se para anexar alguns colonatos que consideram vitais.

Uau. Se estes senhores tivessem feito os trabalhos de casa, sabiam que das últimas vezes em que se chegou perto de um acordo, se discutiu seriamente trocar terras: colonatos dentro da Linha Verde para Israel, terras israelitas para a Palestina - a linha de 1967 é uma referência, mas não é sagrada.

E que tal realçar o facto de Israel se estar a preparar para retirar de 90 e tal por cento da Cisjordânia? Isso sim é a novidade, a notícia, e não o facto de alguns políticos israelitas se quererem agarrar a tantas terras palestinianas quanto possível.

E que tal realçar que o que Olmert diz deve ser visto no contexto das eleições eleitorais a ter lugar no fim de Março, em que o partido Kadima (de Olmert) se tem que fazer de forte para não perder votos para os irredutíveis do Likud?

E que tal sublinhar que semanas antes de anunciar a decisão de retirar de Gaza, Sharon também dizia que antes retiraria de Tel Aviv do que de Gaza?

Não, para isso o Público tinha que perceber a região e a dinâmica doméstica israelita. Mas como enviou para lá a Alexandra Lucas 'quem-me-dera-ser-palestiniana-para-também-ter-uma-causa-justa-na-vida' Coelho, não perceberam nada e compensam a ignorância com zelo anti-sionista mal camuflado como 'informação'.

A forma selectiva de aplicar os ênfases de conteúdo diz tudo sobre os propósitos deste jornal.

Só mais uma. O Público anunciava a semana passada que Israel tinha decidido parar de transferir dinheiro (que pertence aos palestinianos) para a Autoridade Palestiniana, por causa da vitória do Hamas. Entretanto Israel mudou de ideias e transferiu o dinheiro, dizendo que enquanto não houver um novo governo esperaria para ver e continuaria a apoiar financeiramente Abu Mazen. Leram esta última parte no Público? Leram aquilo que de facto acabou por acontecer? Não. Leram só parte da história.

É que é tão transparente que até dói.

É que se é para mandar bocas, juntem-se com uns amigos e façam um blog. Mas não lhe chamem 'jornal diário'.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Errata

Os dois posts anteriores indicam que o obelisco da Place de la Concorde foi lá posto por Napoleão Bonaparte. Na verdade foi durante o reinado de Luis Filipe de Orleães(1830-1848) que os tais grenadeiros, numa operação descrita em detalhe na base do monumento, o colocaram num barco (o 'Luxor') e o trouxeram para Paris em 1836. Bonaparte deixou este mundo cruel em 1821. As minhas desculpas pela imprecisão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Obelisco


Ei-lo!

Proudhon

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), na sua obra-prima 'O que é a propriedade?' desmonta de forma brilhante todas as ideologias com que se costumava legitimar a existência da propriedade privada. Podemos concordar hoje em dia que a propriedade privada é uma invenção útil, uma fantasia que faz parte do nosso dia-a-dia como qualquer outro elemento do quotidiano. Mas Proudhon continua a ser útil na maneira como desconstrói os mitos religiosos, sociológicos e económicos que, a dada altura no século XIX (em Inglaterra mais cedo) elevaram a propriedade a religião.

Uma das histórias que Proudhon usa para explicar porque é que o trabalho não pode ser comprado em troca de salários é a seguinte (estou a parafrasear, mais do que a citar - os detalhes são inventados, já que a memória me falha): quando Bonaparte veio do Egipto, trouxe um obelisco. Naquela altura era assim, gamava-se os monumentos do pessoal estrangeiro. Enfim. 64 grenadeiros, veteranos das Pirâmides, demoraram uma semana a montar o colosso de pedra em Paris. Proudhon pergunta se um grenadeiro sozinho seria capaz, se lhe déssemos 64 semanas, de montar o obelisco. A resposta é não. O trabalho colectivo representa muito mais do que a soma de tarefas individuais. Remunerar trabalhadores individualmente através de salários, significa trocar o valor acrescentado produzido pelo trabalho colectivo por uma soma de parcelas salariais individuais.

Este fim-de-semana, quando estiver na Place de la Concorde ao lado do obelisco, com a Assemblée Nationale à minha esquerda, o Jardim das Tulherias nas minhas costas e os Campos Elíseos a conduzirem o meu olhar para o Arco do Triunfo, vou-me lembrar de Proudhon e do facto da grandeza da França ser acima de tudo um produto das ideias que emanaram de Paris, cidade da Luz, mãe da República.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Invencível




Apesar de já lá ir uma semana, há uma direita que ainda regozija com o resultado eleitoral e brinda com champanhe. Contudo, não brinda a vitória de Cavaco Silva, mas a derrota de Mário Soares, celebrando o fim da carreira política do octogenário socialista. Pensa esta direita que ganhou a Mário Soares, que o derrotou definitivamente e que está vingada. Vingada por Abril, pela descolonização, por 10 anos de Presidência da República, pelo republicanismo laico e socialista.
Engana-se, esta direita.
O Mário Soares que eles querem e julgam ter derrotado é invencível. É o Mário Soares que advogou a causa de Delgado assassinado, que percorreu no desterro as praias de S. Tomé e passeou no exílio dos boulevards de Paris, que foi aclamado em Santa Apolónia, que combateu e empolgou na Alameda, que assinou a entrada na Europa nos Jerónimos e que foi eleito Presidente de todos os Portugueses numa noite fria de 1986. É o Mário Soares a quem devo largas fatias da minha liberdade. É o Mário Soares que demonstrou ao País que uma vez eleito, o Presidente é de todos os portugueses, lição essa que ficou aprendida, valeu para Sampaio e vai valer para Cavaco Silva, o meu Presidente a partir de 9 de Março.
Por muito inglória que seja a sua derrota recente, não foi derrotado o Mário Soares que faz confusão à direita saudosista. Esse Mário Soares, o da resistência, da luta contra o colonialismo e da democracia venceu a luta da liberdade por todos nós e, repito-o, é invencível.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

O nosso país

A propósito da Galiza os luar na lubre cantam assim:

O meu país/ é verde e neboentoÉ saudoso e antergo,/ é unha terra e un chan.
O meu país/ labrego e mariñeiro É un recuncho sin tempo/ que durme nugallán.
Q quece na lareira,/ aló na carballeira Bota a rir.
É unha folla no vento/ alento e desalento,O meu país.
O meu país/ tecendo a sua historia,Muiñeira e corredoira / agocha a sua verdá
O meu país/ sauda ao mar abertoEscoita o barlovento/ e ponse a camiñar
Cara metas sin nome/ van ringleiras de homes
E sin fin.Tristes eidos de algures,/ vieiros para ningures,O meu país.
O meu país/ nas noites de inverníaDibuxa a súa agonía/ nun vello e nun rapaz.
O meu país/ de lenda e maruxíasAgarda novos días/ marchando de vagar.
Polas corgas i herdanzas Nasce e morre unha espranza/ no porvir.
E unha folla no vento/ alento e desalento O meu país.

Esta descrição assenta tão bem sobre o meu país que me parece estarmos a falar do mesmo. E é sobre isto que vos venho postar hoje.

Quero perguntar-vos se a tática do quadrado foi, ou não foi, a manobra mas parva de sempre deste país? E se a padeira de Aljubarrota era, ou não era, uma daquelas "fogosas e vampirescas mulheres da Beira" tão sanguinea como mal orientada e que estaria hoje na TSF a gritar o quanto gosta do Professor Cavaco?

São dúvidas pertinentes que me perseguem há já algum tempo mas que se têm tornado cada vez mais relevantes e para as quais peço o vosso apoio urgente.

Woody Allen, em Match Point, diz-nos que são estes os momentos que ditam o destino do jogo. Momentos em que a bola bate na rede, em que o condestável faz um channeling ao Mourinho ou em que a Padeira mais violenta do mundo assa espanhois em lume brando.

É agora é o momento de abordar o Nosso país, e eu por mim não me importava de ser Ibérico, mesmo correndo o risco de concordar com o José Saramago.

É claro que esta minha manifestação integracionista é também uma mostra de "desalento" quando "morre unha esprança/no porvir". A eleição do professor Cavaco Silva foi democrática, e deve ser respeitada, mas é também um sinal claro do vazio em que caímos neste país "labrego e mariñeiro" incapaz de gerar figuras de excepção para uma posição que exige alguém enorme.

Necessitamos de animar o nosso país e para isso proponho uma nação Republicana Ibérica e aguardo os vossos comentários.

P.S. - O novo Presidente, e agora que o Fraga já não está activo, até podia ser um galego para notarmos menos a diferença. O ex-rei da ex-Espanha poderia o soberano absoluto das Berlengas ou da Ilha do Porto Santo, numa Madeira independente com Alberto João Jardim ao leme e o competentissimo Professor Cavaco como tesoureiro.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Apesar de tudo...

Estas eleições na Palestina mesmo assim fazem-me reflectir... Repetiríamos o exercício no Egipto se soubessemos que a Irmandade Islâmica chegaria ao poder se houvesse eleições livres?

Uma coisa é a Palestina com o Hamas a mandar.

Outra coisa é um governo salafista no Cairo. Com esquadrões de F-16 e tal. Não digo que as ditaduras árabes sejam fantásticas. Digo que se trata aqui ao menos de um dilema, não? Ou a democracia vale por si e pronto? Não sei...

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A propósito de eleições com resultados desagradáveis...




Desculpem lá se apesar de tudo ando a vibrar mais com as eleições na Palestina...
Grande questão: que fazer no caso de o Hamas vir a fazer parte do executivo palestiniano, ou mesmo só se aquela organização extremista se tornar numa das forças políticas principais nas instituições da Palestina? Dilema sério... Como lidar com um movimento que pretende islamizar a Palestina - uma sociedade árabe conhecida pela sua laicidade - e destruir Israel; um movimento que foi responsável por centenas de mortos civis em atentados suicidas.

Como podem ver aqui, há muitas e boas ideias para integrar o Hamas na vida política palestiniana, de forma a eventualmente transformar este inimigo figadal de Israel num parceiro para negociações. Não é para amanhã, nem para daqui a um ano. Mas numa altura em que do governo israelita cada vez mais se ouvem sinais razoáveis no que toca a futuras retiradas dos Território Ocupados, e em que o Hamas tem mais ou menos cumprido a Tahdia (tréguas) com Israel durante 2005 e moderado a retórica, temos direito a sentir algum optimismo no ar.

Se é difícil imaginar o Hamas à mesa com Israel, pensem nas relações entre este país e a OLP nos anos 70: agora todos rezam em Tel Aviv para que a Fatah ganhe as eleições - como mudaram as coisas numa geração... Como dizia Robert Malley, director do programa do Médio Oriente do International Crisis Group em Bruxelas recentemente, não se admirem se daqui a uns anos - do nada - descobrirmos que Israel e o Hamas andavam há que tempos a dialogar e chegaram a uma plataforma negocial. Não temos que gostar deles para nos sentarmos a uma mesa com eles.

(Só um pequeno aparte: a Direita israelita finalmente vai aceitando aquilo que a Esquerda vem considerando inevitável há 10 anos: Israel tem que se retirar da maior parte dos Territórios Ocupados de uma vez por todas; o grande debate doméstico em Israel neste momento tem a ver com o timing e as condições dessa retirada e a eterna questão de Jerusalém; a Esquerda está preparada a abrir mão de todos os bairros árabes de Jerusalém Oriental (excluindo a Cidade Antiga, com o Kotel [Muro das Lamentações]), enquanto a Direita fala de manter o controlo sobre toda a área de Jerusalém: dêem-lhes tempo; ainda há dois anos, Sharon dizia que mais cedo retirava de Tel Aviv do que de Gaza... Ah! E quanto ao 'Muro da Vergonha', medida eminentemente razoável para separar dois povos que pura e simplesmente não podem viver lado a lado, existe um consenso em Israel sobre a necessidade imperiosa de concluir a sua construção; é preciso, isso sim, é garantir que o Muro percorre um trajecto, se não idêntico, então o mais sobreposto possível com as fronteiras de '67).

Pois é, inimigos de Israel out there, preparem-se para tempos em que a demonização do Estado Judaico vai exigir muito mais imaginação e zelo. Mas para os mais apaixonados entre vós, não é uma concessão aqui, ou uma moderaçãozinha ali, que vos vais tirar o gosto de odiar o Mau da Fita-Fetiche. Desculpem lá o veneno.

domingo, janeiro 22, 2006

Seis décimas

Cavaco agora a ser entronizado à varanda do palácio que construiu (quem sabe também pensando neste dia?) e que foi a sua obra de regime, falando manso, firme e hirto como um menino bem comportado à espera de tomar a hóstia no dia da sua primeira comunhão. O semblante é o de quem diz "agora que ganhei o meu espírito é de serviço, de servir Portugal nesta hora de gravidade". Ou será de alguém que esperava a goleada, ou ganhar por margem confortável pelo menos, e acabou a ganhar por 1-0, com um golo marcado nos últimos cinco minutos de jogo, quase a ir a prolongamento?
Não há que transformar derrotas em vitórias, nada de vitórias morais - nisso acompanho Alegre. Mas as seis décimas caem como alívio moderado no espírito de quem se habituou a ouvir que a segunda volta era uma miragem, que a coisa estava garantida. A coisa garantiu-se, mas a segunda esteve perto, muito perto.
Este blog viveu momentos de hesitação, como se viu pela parca publicação dos últimos dias. A actualidade do país estava afundada nas presidenciais e o tema suscitava cautela, porque a escolha no horizonte apenas excluía Cavaco.
No rescaldo ficará uma esquerda à procura de redefinição, num processo onde Alegre soube ganhar o seu papel. Alegre não seria o candidato ideal, cometeu muitos erros ao longo da campanha, mas a sua campanha foi limpa e bonita. O partido que se fala ir nascer não existe. Alegre capitalizou o voto dos descontentes da política, mas nunca se desvinculou do partido. Nunca pôs os partidos na gaveta - o que disse foi que a política não se faz só com os partidos, e esta é uma novidade na política portuguesa, depois de um Bloco de Esquerda que de epifenómeno deu em partido instalado com a presunção de se assumir como o contrário.
A mobilização que se registou à volta da candidatura de Manuel Alegre, com a desorganização e amadorismo que ficaram patentes, tem o mérito de refrescar a democracia. É uma das coisas que a imperfeita democracia americana tem de melhor. Converter este significado político em partido seria uma enorme asneira.
À atenção do PS está retirar a lição de uma eleição em que o seu eleitorado se desgarrou. A Manuel Alegre pede-se que saiba gerir, dentro do seu partido, o capital e o prestígio que conquistou com inteligência e humildade. A sua declaração desta noite descansa-me. Foi imensamente superior a uma Ana Gomes ressabiada, que disse que o candidato «devia estar alegre pela derrota da esquerda». A um aparelho socialista, orgulhoso a roçar o autista, vai custar perceber que o divisor não foi Alegre, que sem ele não seriam seis décimas, nem provavelmente só seis porcento. A democracia tem este jeito engraçado de ensinar alguma coisa a quem não quer aprender.
Quanto às seis décimas, são o suficiente para que não se veja no rosto de muita gente o sorriso triunfante de quem está por cima. Não foi mau.

P.S. 1 (como em post scriptum): A sondagem da RTP foi a menos eufórica, e a que mais se aproximou do resultado final. Uma palavra de congratulação a Pedro Magalhães, autor deste blog, exemplo de sobriedade e rigor a trabalhar com algo tão propenso à perversidade como são as sondagens.

P.S. 2: No meio disto tudo, tive uma consolação: a minha Aveiras foi Alegre.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Santos da casa não são para andar nas bocas do mundo

Isto estava para ser escrito há uns dias.
Nenhum não-comunista pode pronunciar-se sobre personagens históricas do PCP, nem que seja para elogiar. A hagiografia marxista-leninista em Portugal proíbe-o a profanos.
Manuel Alegre não pode fazer referência a Álvaro Cunhal e a Dias Lourenço porque não é do partido.
A cegueira clubista de Jerónimo de Sousa e do PCP (porque Jerónimo inclui o PCP em tudo o que diz e pensa, quando utiliza a primeira pessoa do plural, anulando-se como individualidade perante o colectivo) pretende subtrair à memória colectiva da resistência - colectiva, porque de todo o povo português - os exemplos deixados por militantes do seu partido na luta comum do povo português contra a opressão.
O PCP queixa-se, primeiro, de ser maltratado pela opinião pública ou publicada, disparando com o epíteto de anti-comunista (que é tão primário como o de comunista) a tudo o que possa ser visto como crítica indesejável, mas não sabe acolher o reconhecimento vindo do exterior.
É obra. De que mais se há-de o PCP queixar?

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Mas a oposição não serve, de quando em vez, para se opor?

Chego à terra, passo os olhos pelos jornais. Pela profusão de notícias no semanário regional sobre o Presidente Moita Flores, qualquer dia é tão ou mais truculento que o nosso Alberto João Jardim (com menos lantejoulas).
O senhor quer governar. Quer dar cabo da dívida da Câmara, que não o deixa dormir (excepto quando foi uns dias para o Alentejo descansar depois de ser eleito). A oposição é uma malandra, não o deixa. Solução: uma conferência de imprensa a apelar à ternura dos desgraçados dos vereadores do PS e CDU. Quanto a mim, que leiga sou, o facto de não se ter maioria absoluta implica uma maior capacidade de negociação por parte de quem subiu ao poleiro - implica talvez ter mais do que uma solução e, em caso de só haver uma, estar preparado para a defender.
Ora o senhor Presidente faz birra e vem para os jornais dizer que não o deixam governar - parece-me talvez infantil e anti-democrático. Pois, quem sabe, o papel da oposição é, muitas vezes, rejeitar aquilo que é proposto.
O caso tem contornos longos, cuja estória não tem aqui lugar. Mas vejam aqui e vejam como um político inexperiente faz política populista. É o regresso do feirismo do Paulo Portas, ou é uma nova abordagem da pressão política?

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Cavacadas

Na entrevista à SIC, Cavaco lá vai dando mostras do seu sentido de Estado. Quando perguntado sobre leituras disse que preferia «autobiografias», e que o último livro que leu foi um sobre o terramoto de 1755, mas não queria referir o autor porque entende que um candidato a Presidente da República não deve destacar um autor em relação a todos os outros.
O homem é de ferro. O homem não se descai. O homem não tem preferências que possam ser recriminadas. Perfeitamente impoluto.
Mas lá disse, até antes de referir este livro do terramoto, que a última autobiografia que leu foi a de Gabriel García Marquez. Este é estrangeiro, não vota - portanto, pode ser mencionado e destacado à vontade.
Também em relação ao aborto se recusou a exprimir qualquer opinião, porque um candidato a Presidente tem de respeitar o sentido pessoal de voto de qualquer cidadão. Nem para que os portugueses saibam o que pensam?, perguntou o jonalista. Nem para isso.
Acho isso muito bem. Para mim o Presidente deve ser aquele que sabe perceber e respeitar as diversas legitimidades com que se depara. Por isso é que Jerónimo e Louçã, candidaturas de protesto que fazem uma campanha de extensão dos respectivos programas partidários - o que permite supor que na Presidência fariam o mesmo - são hipóteses de voto que descarto à partida.
Mas para mim, saber o que o candidato pensa sobre os assuntos é importante. Independentemente de poder ou não agir consequentemente face às tais legitimidades com que se depara, como a legitimidade do governo em executar um programa com o qual foi eleito.
Para Cavaco, só importa não correr riscos e socorrer-se de banalidades generalistas, porque sabe o que pode acontecer se revelar o que pensa. Como já citei aqui, "Se nunca dissermos nada, nada que nos traga problemas, nada que possa ser uma gaffe, nada que possa indicar que pensamos o que não devemos, nada que indique que pensamos... então isso não é digno de nós, nem é digno de uma grande nação."