sábado, dezembro 17, 2005

Felicidade a mais


Blair satisfeito; Chirac satisfeito; Merkel em grande; polacos com sorriso de orelha a orelha; Socrates nao cabe em si de contente...

Perspectivas financeiras 2007-2013 da UE: ha algum pormenor que me escapa?

(Peco desculpa pela falta de acentos e cedilhas, mas estou num pais barbaro que nao sabe o que isso eh)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

¡Gracías por el Fado!

O editorial do DN de hoje de Eduardo Dâmaso insurge-se com toda a razão contra Maria José Nogueira Pinto, por recusar aceitar que o município de Lisboa possa financiar um documentário sobre Fado, realizado por um cineasta espanhol.

Nesta linha de raciocínio tacanha, nacionalista e primária, o fadinho é só nosso e ai do castelhano que ouse sujá-lo com as suas mãos cobertas de óleo de fritar churros. Haja paciência...

Democracia chilena


Apesar deste post surgir algo atrasado, cumpre assinalar o notável progresso da democracia chilena e a sua emancipação em relação à tutela militar pós-pinochetista. Michelle Bachelet, dirigente socialista, ex-exilada e presa política, filha de um general morto no cárcere da Ditadura, aproixima-se a passos largos da Presidência da República do Chile após alcançar 45,95 % dos votos nas eleições de dia 11 de Dezembro, podendo tornar-se a segunda mulher a assumir a Chefia de Estado de um país sul-americano.

Hasta la vista, baby!


Em Graz, cidade natal de Arnold Schwarzenegger, está em curso uma acesa discussão em torno da manutenção do seu nome no respectivo estádio municipal, face à posição do Governador da Califórnia em apoiar a pena de morte no seu Estado e em se recusar a oferecer clemência aos condenados que aguardam execução. O líder dos Verdes locais argumenta que um "político que emite mantém uma condenação à morte não pode servir como exemplo, perdendo qualquer direito a uma homenagem."
O debate levanta uma questão decisiva quanto à importância e o significado de homenagens desta natureza. Ao escolher dar o nome de uma individualidade a uma rua ou uma infra-estrutura pública opta-se por apontá-la como exemplo, como modelo a seguir em determinado campo de acção.
Em Espanha a questão colocou-se recentemente em torno das estátuas de Franco, por cá surgem ocasionais vozes saudosistas da Ponte Salazar (porque foi ele que a fez, defende-se com argúcia!), ainda subsistindo ocasionais ruas com nomes de destacados dirigentes do Estado Novo.
A Aristides de Sousa Mendes, um homem que sacrificou a sua carreira e o bem-estar da sua família para salvar 30.000 vidas, deixando um exemplo de coragem, tolerância e respeito pela dignidade humana, a Câmara de Lisboa reservou uma pequena rua encravada em Telheiras e a República Portuguesa ainda não consegui assegurar financiamento para a criação de uma casa-museu na sua terra natal de Cabanas de Viriato.

All the world is a stage


Luís Miguel Cintra, Prémio Pessoa 2005.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Blowing in the wind

Sabe-se agora que as tropas americanas poderão ter capturado Abu Musab al-Zarqawi, o lider da Al-Qaeda no Iraque, após uma rusga num hospital no ano passado, mas libertaram-no porque não sabiam quem era. O facto coloca-nos perante uma questão interessante, a acompanhar nos próximos dias: saber como vai ser feita a gestão política do ciclo noticioso.
Para os opositores da Guerra no Iraque o enfoque será sobre mais uma manifestação de inabilidade dos americanos e dos seus serviços de informação na gestão da crise. Mas para qualquer hábil estratega da administração Bush, o caso será apresentado como uma justificação para a detenção arbitrária de suspeitos de terrorismo, porque a única forma de evitar que terroristas se mantenham à solta é manter encarcerada qualquer pessoa que possa ter alguma ligação. Daqui é só um passo até chegarmos a uma situação em que, para se ser detido, não é necessário que haja fortes indícios da prática de factos, basta que não se consiga provar cabalmente a sua inocência.
Não espantará que assim seja, depois de vermos como os americanos procuraram criar um submundo legal onde o rule of law não exista. É neste sentido que têm soprado os ventos da guerra.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Afinal Durão existe






Hoje no Parlamento Europeu:

Durão Barroso: ... e, como eu dizia, precisamos de uma Europa forte, coesa e solid... (murmúrios, restolhar aparatoso) Eu pedia alguma atenção por parte dos estimados deputados...
Presidente do Parlamento: Por favor, estimados deputados, façam silêncio; deixem o Presidente da Comissão falar!
Durão Barroso: É que não é a primeira vez; peço-vos, com todo o respeito, que respeitem o Presidente da Comissão; quando as Excelências falam, eu também vos oiço; portanto, no mínimo, peço silêncio quando eu falo (murmúrios indignados da bancada socialista) silêncio não, peço atenção, atenção, só atenção...

Mas ele hoje esteve bem. Pela primeira vez, Durão agiu como se espera de um Presidente da Comissão: atacou a Presidência Britânica por apresentar um orçamento que demonstrava "falta de ambição" e que era incompatível com os próprios objectivos estabelecidos por Blair em Hampton Court. Depois de 6 meses a oscilar entre o silêncio e a bajulação a Blair, Durão percebeu que se não fôr ele a defender a Comissão e os interesses estratégicos da União, mais ninguém o vai fazer.

Mais vale tarde do que nunca.

Dos Natais e Festas que tais


A propósito de crucifixos e outras liberdades religiosas, veja-se a situação actual nos Estados Unidos e a apregoada "Guerra ao Natal".
Tudo começou quando alguém observou que o presidente escolhera para os cartões de Natal da Casa Branca a inócua fórmula Happy Holidays (boas festas) em vez de um supostamente mais entusiástico e comprometido Merry Christmas.
A direita religiosa que telecomanda o poder em Washigton, e que, tendo contribuído decisivamente para mobilizar o eleitorado que pôs Bush onde agora está, não se coíbe de marcar a agenda política do presidente (como já se disse aqui) viu nisto um ataque ao carácter religioso e cristão do Natal, que, segundo eles, não é mais que uma manifestação da cruzada (o termo é capaz de ser despropositado) contra o Natal que se vive na sociedade americana, promovida pelos liberais. O tema até já mereceu tratamento num livro da autoria de um jornalista do insuspeito canal de notícias Fox.
Ora, o Natal, festa da natividade de Jesus, não é só quando o Homem quer, também é como ele quer. O certo é que há na cultura ocidental um acolhimento tácito do Natal enquanto festa da família, que não se desliga do nascimento de Cristo, mas não está preso à celebração que a Igreja dele faz. Dirão os zeladores dos crucifixos que ele agora se descaiu com esta, que, se se aceita o Natal, é porque se aceita a Verdade de Cristo Salvador e Redentor da Humanidade, ou pelo menos que, se a ninguém incomoda o Natal, também não deverão incomodar os crucifixos nas salas de aula, mas não é assim.
A diferença entre um crucifixo na parede e os enfeites nas ruas está em que, por mais irritantes que estes sejam em alguns casos (como os Pais Natal a subirem pelos prédios acima), não são impostos. São uma manifestação individual e espontânea de adesão a uma festa, e não interessa sequer apurar se as motivações são de vaidade ou de mercantilismo.
Aderir ao Natal é sempre livre, e se as cidades e as pessoas aderem maciçamente, então é porque a sociedade retira algo da religião e das suas festividades e faz isso seu. O Natal é uma emanação do cristianismo, mas é mais do que o cristianismo pode querer que seja. O Natal é uma festa religiosa, mas não é só uma festa da religião.
Quanto a saber se isto há-de ser Natal ou Festas, ou se a árvore que fica temporariamente à frente do Capitólio se chama Árvore de Natal ou Árvore das Festas, o interesse da questão escapa-me. Não vejo qual é o problema de o presidente mandar as Boas Festas. Mas também não vejo qual seria o de desejar Feliz Natal.

terça-feira, dezembro 13, 2005

E perguntas bem!

E pergunto eu: quem se insurge contra a retirada de crucifixos das escolas onde estes ainda estão, não se deveria insurgir contra o facto da Igreja Católica proibir concertos de música clássica nos seus templos? É que quanto a mim o argumento utilizado é tão válido para um lado como para o outro - interpenetração dos dois mundos e tolerância entre ambos.
Se a Igreja continua assim, só porque Schubert ou Mahler são pecado, como permitirão a Marcha Nupcial?
Sou só eu a dar uma de provocatória...

Não sei se já repararam...

...mas há uma discussão acessa e interessante no post aqui em baixo. É ir lá ver, aos comentários.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Como diz que disse ou ainda os crucifixos?

Lê-se no Público a opinião de Bagão Félix sobre os crucifixos. Se não significa nada, então porque não por umas estrelinhas de cinco pontas ou uns Shivas nas escolas? Sempre são mais decorativos. O motivo de lá estarem tais objectos transcende o Estado, a República e a própria educação que é própria das escolas.

Uma chama que se vai extinguindo

Nos 40 anos do encerramento do Concílio do Vaticano segundo, as palavras do General Ratzinger para o assunto foram pouco mais que circunstanciais. Numa cerimónia onde o ponto alto foi a benção da chama olímpica dos Jogos Olímpicos de Inverno em Turim (nada como ver um zelota católico a abençoar um símbolo pagão...) Ratzinger apenas para alertou a humanidade de que a sua recusa em submeter-se à vontade de Deus pode conduzir à destruição do mundo. Este é o perigo de viver "contra o amor e a verdade". Parece que a reabilitação de Monsenhor LeFébvre, o mais tenaz opositor do Concílio, está a caminho
O Concílio, que entre outros avanços concluiu pela impossibilidade nas sociedades modernas de a Igreja se erigir no meio do Estado como única intérprete e definidora da verdade, foi sobre a Igreja se abrir ao mundo, e não sobre o mundo se esconder dentro do abraço protector e fechado da Santa Madre Igreja.
Aggiornamento - esta é a palavra-chave do Concílio.

Lucidez e Verdade


Harold Pinter, excerto do discurso proferido por ocasião da entrega do Nobel da Literatura:
"What has happened to our moral sensibility? Did we ever have any? What do these words mean? Do they refer to a term very rarely employed these days – conscience? A conscience to do not only with our own acts but to do with our shared responsibility in the acts of others? Is all this dead?
Look at Guantanamo Bay. Hundreds of people detained without charge for over three years, with no legal representation or due process, technically detained forever. This totally illegitimate structure is maintained in defiance of the Geneva Convention. It is not only tolerated but hardly thought about by what's called the 'international community'. This criminal outrage is being committed by a country, which declares itself to be 'the leader of the free world'. Do we think about the inhabitants of Guantanamo Bay? What does the media say about them? They pop up occasionally – a small item on page six. They have been consigned to a no man's land from which indeed they may never return. At present many are on hunger strike, being force-fed, including British residents. No niceties in these force-feeding procedures. No sedative or anaesthetic. Just a tube stuck up your nose and into your throat. You vomit blood. This is torture. What has the British Foreign Secretary said about this? Nothing. What has the British Prime Minister said about this? Nothing. Why not? Because the United States has said: to criticise our conduct in Guantanamo Bay constitutes an unfriendly act. You're either with us or against us. So Blair shuts up.
The invasion of Iraq was a bandit act, an act of blatant state terrorism, demonstrating absolute contempt for the concept of international law. The invasion was an arbitrary military action inspired by a series of lies upon lies and gross manipulation of the media and therefore of the public; an act intended to consolidate American military and economic control of the Middle East masquerading – as a last resort – all other justifications having failed to justify themselves – as liberation. A formidable assertion of military force responsible for the death and mutilation of thousands and thousands of innocent people.
We have brought torture, cluster bombs, depleted uranium, innumerable acts of random murder, misery, degradation and death to the Iraqi people and call it 'bringing freedom and democracy to the Middle East'."

Ainda os crucifixos....

Francisco Sarsfield Cabral pergunta hoje porque não se exige também que sejam retirados símbolos maçónicos de monumentos públicos. Eu respondo: porque também ninguém está a exigir que sejam retirados símbolos católicos de monumentos públicos.

Não está em causa o património histórico-cultural, nem os símbolos que, mercê das vicissitudes históricas, nele se encontrem incorporados. O que está em causa é a escola pública, a identificação do Estado com uma confissão religiosa - o Estado do presente, aquele que tem um dever constitucional de estrita neutralidade e imparcialidade, agravado em relação à escola.



PS: Se Sarsfield Cabral encontrar símbolos maçónicos, hindus, comunistas ou benfiquistas em qualquer escola pública, serei o primeiro a ajudar a tirá-los (ainda que custe um bocado tirar os do Benfica...)

Imagine



Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...

Imagine there's no countries,
It isnt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...

Imagine no possesions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of man,
Imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer,
but I'm not the only one,
I hope some day you'll join us,
And the world will live as one.

John Lennon (1940-1980)

terça-feira, dezembro 06, 2005

Memória da Resistência - Ruy Luís Gomes


Não podia passar despercebido neste blog republicano dado a efemérides o centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes, assinalado ontem, 5 de Dezembro.
Para além do brilhante matemático e cientista que pela primeira vez em Portugal fez a recensão da teoria da relatividade, Ruy Luís Gomes foi um dos mais corajosos e hoje menos lembrados resistentes anti-fascistas. Soube da sua existência porque o meu avô quis pôr ao meu tio o nome de Rui Luís em sua homenagem e teve problemas no emprego porque viram nisso uma provocação - e era.
Ruy Luís Gomes foi - ou pretendeu ser - candidato à Presidência da República pelo Movimento Nacional Democrático em 1951. As suas afinidades com o Partido Comunista, do qual nunca se fez militante, aliadas às suas incómodas tomadas de posição quanto à questão colonial (que lhe valeria a prisão mais tarde) levaram o regime a pôr um travão àquele que se apresentava como "o candidto da Paz".
Para além de uma intervenção científica de assinalar num país obscurantista como era o Portugal da altura, Ruy Luís Gomes foi autor de um ensaio político, tido por marxista, sobre a Revolução Republicana de 31 de Janeiro, o qual dedicou ao pai, desta forma:

"A meu Pai, Ministro do Governo Provisório, que, na grandiosa sessão comemorativa da implantação da República, realizada no Porto, na noite de 5 de Outubro de 1955, afirmou a sua confiança inabalável na capacidade política do Povo Português"

Depois de demitido do cargo de Reitor da Universidade do Porto, foi, depois do 25 de Abril, reintegado e nomeado reitor vitalício da mesma. O Portugal de Abril fez-lhe justiça. O seu exemplo exige que seja recordado ao lado de Norton de Matos e Humberto Delgado.




Faz falta poder de fogo

Entre o avôzinho que nos explica os factos da vida e o candidato com quem mais facilmente se bebia um copo, o debate de ontem soube a pouco, a muito pouco, de tão ordeiro e civilizado. E entre a vontade de mudar de canal e a vontade de me deixar adormecer no sofá, lá resisti e fui aguentando até ao fim, começando a ver em casa e acabando no café.
Procurou-se temperar o modelo de debate à americana usado nas legislativas (o tal do semáforo que, digam o que disserem, é bom desde que as regras se respeitam e o moderador as faça respeitar), mas nunca se passou do chove-não-molha, com culpa para os moderadores pela falta de perguntas condimentadas. Dir-se-ia que ambas as equipas jogavam para o empate.
Não parecia um jogo de início de época: parecia um pífio jogo de pré-temporada.
Que entre depressa a artilharia pesada.

Liberdade


- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
Até que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga
Diário XII, 1975

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Douze points, twelve points

Já ouvi o hino de campanha do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (assim, tal qual consta da sua página de candidatura na internet, porque respeitinho é bom e o senhor professor gosta).
É difícil fazer dizer melhor do que disse Francisco Louçã. Mas sempre se me oferece dizer que com aquela música ganhávamos de certeza o Festival da Eurovisão em 1984.
Estas coisas vêm tão tarde na vida...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Bruxelas


Apesar do defeso que a Restauração da Independência permite aos vários autores de posts na Boina, não queria deixar de assinalar a minha deslocação ao centro nevrálgico da nossa União Europeia. Hoje, no edifício do Parlamento Europeu pude finalmente visitar o busto da República Portuguesa que o Parlamento português tão sábia e simbolicamente escolheu para representar os valores cívicos da nossa Democracia.