quinta-feira, novembro 10, 2005

Surpresa e incerteza


O resultado das eleições primárias de ontem do Partido Trabalhista israelita causou sensação ao provocar uma reviravolta no segundo maior partido no Governo e ao determinar mais uma derrota do histórico Shimon Peres, actual Vice-Primeiro-Ministro. O novo líder trabalhista é Amir Peretz, antigo dirigente sindical e antigo líder do partido Uma Nação, que com um apelo à "alma socialista" do Labor consegui recolher 42%, contra quase 40% de Shimon Peres e 16,8% de Benjamin Ben Eliezer.
Depois da ter perdido as eleições legislativas de 1996 para Netanyahu e de ter falhado a eleição para Presidente em 2000, o mais recente golpe poderá ser o início do capítulo final da carreira do octogenário Peres.

O resultado é ainda mais irónico e duro se tivermos em atenção que foi Shimon Peres que forçou a fusão do partido de Peretz com o Labor contra a opinião de muitos dirigentes do partido, como forma de travar o regresso de Ehud Barak, que acabaria por desistir da disputa da liderança em favor de... Shimon Peres.

Resultado imediato das eleições: saída do Labor do governo de Ariel Sharon.

Resultado a breve trecho: eleições legislativas gerais antecipadas.

Igualdade: muito por fazer




Três notícias distintas, da informação local ao burlesco, passando pelo facto político, demonstram o muito trabalho que ainda há a fazer na luta pela igualdade de direitos para todos. O sinal de alarme de hoje respeita a factos negativos para o reconhecimento de direitos para as minorias sexuais.

1- Em referendo, esta semana, os texanos aprovaram esmagadoramente uma emenda à Constituição estadual proibindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Face a mais uma vitória para os teo-conservadores, aguarda-se com apreensão o resultado do processo de confirmação de Samuel Alito para o Supremo Tribunal.
2- O Jornal de Notícias de dia 8 dá conta de uma acusação formulada pela Associação de Estudantes da Escola Secundária de António Sérgio contra o respectivo conselho executivo, por aparentemente tentar impor uma "proibição de afectos" destinada a travar uma relação entre duas alunas daquela instituição.
3- Finalmente, o burlesco. O insigne diário 24 Horas de há uns tempos apresenta uma reportagem intitulada Zézé Camarinha - Instituto contra afirmação gay, em que aquela marcante figura da noite algarvia discorre sobre a urgência de uma resposta "à crescente afirmação da homossexualidade". Zézé aponta a necessidade de impedir os tais "pseudocasais" de adoptarem crianças e defende a legalização da poligamia caso também se legalizem casamentos entre pessoas do mesmo sexo, porque "muitas mulheres correm o risco de ficar sós".
Camarinha dá ainda conta de uma das regras de inscrição no seu "Instituto de Salvação dos Homens", que passa pela demonstração médica de que "nunca foram penetrados no ânus".
Pelo meio da imensa parvoeira e alarvidade, subsiste porém uma profunda homofobia, tanto mais perigosa quanto consegue pasar discretamente por entretenimento light através do referido personagem, normalmente desconsiderado como fait-divers curioso, mas que acaba por ter acesso aos principais canais de comunicação.

Porque deixei de ver jogos do Benfica com o meu pai

Por uma razão bastante simples – o meu pai viu os jogos gloriosos do Benfica dos anos 60. Para qualquer adepto que acompanhou Eusébio, Coluna, Torres, Zé Augusto e Simões é bastante complicado ver os jogos actuais do Benfica onde a qualidade do onze não é propriamente brilhante. Desde o apito inicial que o meu pai insiste em criticar todos os jogadores do Benfica (mesmo o capitão Simão). Este apupar desmesurado também tem uma explicação fácil – nenhum dos jogadores actuais tinha lugar na já mencionada equipa gloriosa dos anos 60. Assim, este Benfica, não é o Benfica de outrora, verdadeiramente ganhador e empolgante, mas um Benfica que não se consegue impor aos adversários. Logo, para o meu pai este não é O Benfica, mas apenas uma equipa do Benfica.

Claro que é costume dizer que os simpatizantes (palavra adorável) do Benfica não puxam pela equipa, mas esperam que a equipa puxe por eles. Mas tornou-se demasiado complicado ver os jogos da bola na companhia paterna. A exaltação demonstrada ao longo dos 90 minutos não é suportável pela minha condição de (ainda) adepto contemporizador com as más exibições. Sendo assim, prefiro ir para um café partilhar desabafos com alguns amigos sobre a qualidade da equipa à espera do golo redentor que transforma a mágoa de ver um jogo mal jogado numa imensa alegria. Assim vão as (actuais) glórias da Luz….

Fundamentalismo democrático


Antes de lançar um canal em sinal aberto em Espanha na segunda-feira, e de na terça vir a Portugal anunciar a aquisição pelo Grupo Prisa de uma posição maioritária no capital da Mediacapital, Juan Luis Cebrián esteve na sexta-feira passada em Lisboa para apresentar o seu livro "O Fundamentalismo Democrático", onde alerta para a coexistência do fundamentalismo islâmico com o fundamentalismo do título.
Segundo Cebrián, o mundo assiste à ascensão de uma visão totalitária da democracia, dos que querem ver a democracia imposta ao mundo como opção única e inexorável.
Com isto, os rostos do fundamentalismo democrático - os mesmos que apareceram na cimeira das Lajes - não hesitam em usar de métodos anti-democráticos para que a democracia prevaleça. O que se passa em Guantánamo e, alegadamente, em outras prisões secretas espalhadas pelo mundo, a iniciativa legislativa de Blair quanto à detenção de suspeitos de terrorismo e o Patriot Act de Bush, o sistema montado em redor da guerra do Iraque são o veneno com que a democracia se vai suicidando aos poucos.
Esta visão do mundo não é sequer recente. Aconteceu na Guerra Fria, quando dois blocos se empurravam para que nenhum penetrasse na esfera de influência do outro, para assegurar a subsistência do modo de vida de cada um.
O Império Soviético tinha como desculpa o querer acabar com a exploração do homem pelo homem. O Império Americano tinha como desculpa querer garantir que a opinião de cada um conte. A derrota de um não foi a vitória do outro, mas os fundamentalistas democráticos acreditam que sim.
A democracia não é uma concepção de sociedade; é um método de convivência social, imperfeito e em constante construção, insusceptível de se exportar como produto acabado e pronto a consumir, a povos que se crê estarem maravilhados com o que lhes é oferecido.
Coisificar a democracia como fim, e não como meio, é assassiná-la.
A liberdade, essa, é que é o fim e, tal como a democracia, não é um presente que se ofereça, é uma conquista cujo preço é preciso conhecer, aceitar e querer.

As eleições mais importantes de Portugal, a seguir a todas as outras

Anda grande o alvoroço em volta das próximas eleições presidenciais. Não só pelo calibre político dos candidatos, mas sobretudo porque parece, pela opinião de alguns pelo menos, que estas eleições são decisivas para o futuro do país. Não o são.

No entanto, as presidenciais de Janeiro alimentam desde há muito tempo grandes conversas de café. A meu ver, há duas razões mais ou menos evidentes para as discussões acaloradas acerca destas presidenciais: este governo não dá muito material controverso e/ou polémico para uma boa troca de argumentos; uma luta eleitoral em que entram Soares e Cavaco é o ai-Jesus de qualquer analista político.

Do discurso dos quatro candidatos da esquerda ressaltam algumas ideias comuns, o que não é propriamente de espantar, apesar de cada um tentar demarcar-se de alguma forma. Soares quer ser o “ouvidor”, Alegre o “provedor”, Jerónimo quer uma sociedade sem classes e Louça quer ganhar a Jerónimo. Do candidato da direita ficaram na retina sobretudo as bandeiras de Portugal que o acompanharam no discurso de tomada de posse, peço perdão, no discurso de investidura, ou melhor, no discurso de apresentação da candidatura…

A três meses das eleições ainda muito mais se irá falar sobre as eleições presidenciais, e desde já se adivinham debates bastante acalorados entre os candidatos. Com uma boa argumentação, com um caderno de propostas que não seja próprio de um chefe de governo, mas de um presidente, e sobretudo com o acentuar das diferenças (óbvias) entre os candidatos, há todas as condições para que esta seja uma campanha Alegre. Assim ele o queira e possa…

Pensar em grande

O que Francisco Louçã apresentou como manifesto eleitoral para a presidência da República é um proposta de sociedade, de objectivos governativos e de meios para os alcançar. Independentemente da concordância com o substrato, o que está lá é uma proposta sistematizada sobre o que o que um país deve fazer e para onde ir, ou seja, é um programa de governo.
Mas ao presidente não cabe conduzir o país, não cabe encaminhar o governo num determinado sentido. Daí que seja oportuno perguntar: onde estava um documento destes quando o Bloco se apresentou às eleições legislativas?
Quando um partido pequeno se apresenta a eleições legislativas sem um programa de governo, apenas com uma série desgarrada de propostas de intervenção, ainda que meritórias, está a optar por perpetuar a sua pequenez - e isso é o pior serviço que se pode prestar às causas que defende. É por isso que o Bloco tem um bom resultado eleitoral, mas não consegue tirar a maioria absoluta ao PS e ser força de governo.
O que Louçã apresentou como manifesto eleitoral é bom material político, mas enquanto intervenção eleitoral é, futebolisticamente falando, atirar à figura do guarda-redes.

quarta-feira, novembro 09, 2005

República e Liberdade



Comemora-se hoje uma importante data na História contemporânea alemã e europeia, com duplo significado para a causa republicana e da liberdade. Enquanto em 1918, era proclamada em Berlim a República, em 1989 era anunciada a abertura das fronteiras da RDA, a que se seguiu de imediato a queda física do Muro de Berlim.
Viva a República!
Viva a Liberdade!

Trigo e Joio


O eleitorado californiano foi ontem às urnas para votar quatro propostas apresentadas pelo Governador Arnold Schwarzenegger. De uma assentada, os eleitores rejeitaram as propostas de aumento do período de profissionalização dos professores do ensino público, de restrição ao financiamento dos partidos políticos pelos sindicatos, de limitação das despesas orçamentais e, finalmente, de atribuição da competência para delimitar círculos eleitorais a uma comissão independente, composta por juízes reformados.
Enquanto as primeiras três medidas propostas se inserem nos projectos políticos imediatos do governador, não tendo um alcance estruturante, já a quarta proposta, relativa à definição de círculos eleitorais, configurava uma importante aposta na melhoria da eleição de representantes californianos, permitindo a introdução de critérios lógicos e imparciais na configuração dos círculos para o Congresso dos Estados Unidos.

Note-se, contudo, que a Califórna não é um caso isolado, antes se insere na tendência generalizada nos EUA para fazer prevalecer o arranjinho político na delimitação de círculos eleitorais (o chamado gerrymandering), de forma a tornar virtualmente impossível a mudança de cor partidária dos representantes locais. De acordo com dados do Economist desta semana, apenas 2 Estados têm sistemas justos e imparciais. O resultado desta prática generalizada é uma assembleia representativa (a Câmara dos Representantes) com indíces de reeleição na ordem dos 90%.

Certamente impelidos por uma tendência geral, punitiva, de rejeição das propostas de Arnie, os eleitores do estado da Califórnia perderam uma excelente oportunidade de eliminar a manipulação sistemática dos resultados eleitorais e de melhorar a qualidade da sua democracia.


PS: É digna de nota a contenção demonstrada na não utilização de qualquer metáfora alusiva à carreira cinematográfica do Mui Ilustre Governador da Califórnia, tendo por isso sido abandonados títulos muito originais como "Eleitores exterminam propostas" ou "O Eleitorado Implacável".

Eu é que sou o presidente da Junta


Noticia a Agência Lusa que a população de Santa Comba de Rossas, concelho de Bragança, "poderá ter de voltar a votar, porque os eleitos para a Junta de Freguesia estão de relações cortadas". Tendo perdido a maioria absoluta, o actual presidente da Junta de Freguesia recusa-se a tomar posse, invocando que já tem "a equipa dele e que não vai agora governar com os outros..." Enquanto o impasse se mantém, os cidadãos de Santa Comba de Rossas são privados do regular funcionamento dos órgãos locais, democraticamente eleitos.

Esta aparente falta de respeito pelo fair-play pode apenas indiciar uma birra autoritarizante do dirigente local, num local remoto e pouco representativo da realidade autárquica, mas não deixa de assinalar a necessidade de, 30 anos depois, continuar a aprofundar a formação cívica e o respeito pelas regras da democracia.

Ainda não consegui parar de sorrir...


Blair derrotado pela primeira vez na Casa dos Comuns!

Viu rejeitada a sua proposta de aumentar o período de prisão preventiva para suspeitos de terrorismo de 14 para 90 (!) dias. Em vez disso foi aprovada uma proposta de duplicar esse período - para 28 dias. Razoável.

O Parlamento britânico voltou a mostrar as garras. É bom saber que ainda podemos contar com a House of Commons para a defesa das liberdades fundamentais.

Um Presidente Bush cada vez mais 'lame duck' à medida que se vão expondo a podridão interna e a incompetência externa; Blair a braços com a primeira derrota doméstica digna de nota, precisamente na área da luta contra o terrorismo...

O fim de uma era?

sexta-feira, novembro 04, 2005

Ainda não consegui parar de rir

Abaixo el-rei Sebastião


É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre

quinta-feira, novembro 03, 2005

Carter 2008


Em entrevista ao Larry King Live, Jimmy Carter demonstrou ontem estar ainda no topo de forma e deixou diversas ideias que permitem ver que, para lá dos teoconservadores e dos neoconservadores da actual Administração, há muito terreno e valores comuns entre a velha Europa e os seus primos americanos.
Entre outros aspectos, Carter defendeu a valorização do sistema multilateral internacional edificado nos quadros das Nações Unidas, a prevalência da resolução pacífica e diplomática dos conflitos e o repúdio pelos métodos contraproducentes da guerra ao terrorismo.
No plano da separação entre o Estado e as Confissões, e a propósito da tentativa de disseminação da fé evangélica na Academia da Força Área norte-americana, Carter reafirmou a sua defesa da neutralidade do Estado, que tem de respeitar os ateus, agnósticos, hindus ou judeus que frequentam as suas instituições, não podendo ser privilegiada qualquer confissão, ainda que se trate daquela que ele próprio professa.
Finalmente, no plano da biomedicina, Carter afirmou a sua concordância com soluções razoáveis de investigação em células estaminais de embriões excedentários, marcados para eliminação.
Aos 81 anos, mais um mandato não lhe cairia mal a ele, nem aos seus concidadãos...

Lame duck?


Assinalou-se ontem o primeiro aniversário da (re-?) eleição de George W. Bush. Para o balanço do primeiro ano do segundo mandato destacam-se:

- Caos de protecção civil decorrente do furacão Katrina;
- Críticas à política de nomeação de amigalhaços para altos cargos dirigentes da Administração Pública, exponenciadas pelo falhanço do director da FEMA (Federal Emergency Managemente Agency), Michael Brown;
- Aumento das actividades dos insurgentes no Iraque, com ponderação por parte do Secretário da Defesa do envio de reforços dos contigentes americanos;
- Retirada da nomeação de Harriet Miers após o coro de protestos derivado da falta de preparação e de perfil para o Supremo Tribunal;
- Acusação formal de obstrução à justiça deduzida contra Lewis "Scooter" Libby, o chefe de Gabinete do Vice-Presidente Dick Cheney e subsequente demissão do mesmo;

A Espanha que é


O nascimento da infanta Leonor, neta dos reis de Espanha e segunda na linha de sucessão ao trono espanhol, veio despoletar o debate em torno da revisão da Constituição de 1978, de forma a eliminar a precedência dos varões na sucessão. Argumenta-se que manter o actual regime implica uma contradição inaceitável com o princípio da igualdade, privilegiando-se uma determinada pessoa apenas em função do sexo.
Não será também contraditório com o princípio da igualdade a transmissão da Chefia de Estado por via hereditária dentro de uma só família, com discriminação dos restantes 40 milhões de espanhóis?
Fica a pergunta para os proponentes da medida: têm a certeza de querer explorar esta linha de raciocíno até ao fim?

quarta-feira, novembro 02, 2005

Tolerância



Assinalam-se hoje duas datas históricas cuja coincidência merece ser assinalada.
Há 30 anos era brutalmente assassinado o realizador italiano Pier Paolo Pasolini, inovador e provocador, ostracizado pelos sectores mais reaccionários e intolerantes da sociedade italiana, em grande parte devido à sua assumida homossexualidade, em parte devido ao carácter iconoclasta da sua filmografia.
Há 1 ano era brutalmente assassinado o realizador holandês Theo van Gogh, igualmente controverso e provocador na sua obra cinematográfica. Apesar de militar pela causa republicana na Holanda, van Gogh era também amigo pessoal e apoiante do populista de direita Pim Fortuyin, ele próprio vitíma de homícido polticamente motivado. Para além disso, van Gogh assumia uma postura militante e politicamentemente crítica em relação ao Islão, que esteve na origem do seu homicídio.
Independentemente das convicções de ambos e da natureza mais ou menos ortodoxa das suas intervenções públicas, o seu desaparecimento em moldes violentos deve continuar a fazer soar o alarme quanto aos riscos da intolerância e a sua capacidade de envenenar as sociedades democráticas.

terça-feira, novembro 01, 2005

Pombal


No dia em que se assinalam os 250 anos do terramoto, pensei em escrever umas linhas sobre a revolução urbana que implicou ou sobre o impacto cultural que desencadeou entre as elites iluministas da época. Contudo, sob pena de repetir o que tanto se tem escrito sobre o evento e as suas consequências, opto em vez disso por deixar algumas linhas sobre o homem que se projectou e que deixou uma marca através do terramoto: Pombal.
Mais do que discorrer sem fim sobre a vida e obra de Sebastião José, opto por um episódio póstumo, aquando da inauguração do monumento na Rotunda que hoje tem o seu nome. Despoletada por subscrição pública promovida pelo Partido Republicano, a inauguração da obra ocorre já em período do Estado Novo, em 1934. A curiosidade reside na presença na cerimónia de inauguração de representantes do Governo, da Oposição reviralhista e ... do Grande Oriente Lusitano. Admirado por uns pelo iluminismo, louvado por outros pela mão de ferro, Pombal permanecerá para sempre no limbo característico dos déspotas iluminados, num cativante enclave entre o absoluto e o pré-moderno.
Se não quiseremos ser sugados para o debate, podemos sempre optar por apenas dar uma voltinha na Baixa e agradecer ao cidadão Carvalho e Melo o bom gosto na escolha do arquitecto...

sábado, outubro 29, 2005

Como é que se diz "cuidadinho pessoal" em persa?



Israel vai celebrar 58 anos de existência no próximo dia 14 de Maio. Mas ainda há quem não lhe reconheça o direito de existir.

Aqueles que ficaram espantados com as afirmações recentes do Presidente Ahmadinejad do Irão são os mesmos que não percebem porque é que Israel continua armado até aos dentes, porque é que Israel insiste em manter um arsenal nuclear considerável. Os israelitas não gastam 10% do PIB em defesa porque gostam (mais do que qualquer outro país do mundo); não mandam os seus filhos e filhas para a tropa anos a fio por prazer e não violam resoluções das Nações Unidas porque é giro.

Fazem tudo isto porque têm medo. Muito medo. E porque aprenderam que para todos os efeitos, em último recurso, só podem contar com eles próprios. Exemplo: Iraque, 1981, prestes a adquirir uma bomba nuclear; 16 F-16 israelitas destruiram a central de Osirak; a comunidade internacional suspirou de alívio mas criticou ferozmente Israel pela acção indubitalvelmente ilegal. Por outras palavras, não devemos subestimar a vontade de Israel de sobreviver e de viver em paz: esta vontade pode levar a retiradas de territórios ocupados - como o Sul do Líbano, o Sinai, Gaza - e a acordos de paz com inimigos figadais como o Egipto e a Jordânia. Mas a mesma vontade pode levar a acções unilaterais, ilegais, e por vezes desproporcionadas.

No que toca ao Irão, não me interessa qual a solução para a questão nuclear. Desde que Israel não tenha que intervir não quero saber se a solução implica pôr os iranianos todos a cantar 'I'm singing in the rain' em Persa.

Acima de tudo importa manter Israel fora disto, senão o Médio Oriente explode-nos na cara.

quinta-feira, outubro 27, 2005

quarta-feira, outubro 26, 2005

Guarda Nacional pouco Republicana


Descobri há pouco enquanto folheava a Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana uma interessante norma relativa às datas comemorativas celebradas por aquela instituição. Determina o artigo 14.º da referida lei o seguinte:

"1- O Dia da Guarda Nacional Republicana é o dia 3 de Maio, em evocação da lei que criou a actual instituição nacional, em 1911.
2 - É também consagrado o dia 16 de Julho à padroeira da Guarda Nacional Republicana, Nossa Senhora do Carmo.
3- As unidades da Guarda têm direito a um dia festivo para a consagração da respectiva memória histórica."

Aqui fica mais um sinal de que a separação entre o Estado e as Confissões Religiosas está longe de ser dada por adquirida em Portugal, sinal esse que se torna ainda mais duro e irónico se tivermos em conta que se trata precisamente de uma instituição criada pela I República. Ficamos pois limitados a uma Guarda Nacional que ostenta na sua designação uma referência republicana em total contradição com a existência de uma "padroeira" com consagração legal.

Vamos isaltinar!


A SIC-Notícias acaba de relatar que, no decurso da tomada de posse do novo executivo municipal de Oeiras, uma considerável maioria dos munícipes que assiste à cerimónia optou por vaiar e apupar os vereadores Teresa Zambujo (PSD, presidente cessante da autarquia) e Emanuel Martins (PS), no momento em que assinaram os respectivos autos de posse.
Quem encontrar o espírito democrático e o civismo na vila de Oeiras, é favor devolvê-lo na sede da autarquia o mais rapidamente possível.

São os pequenos gestos que fazem avançar o mundo


Aqui há uns anos quando visitei o Yad Vashem, o Memorial do Holocausto em Jerusalém, e enquanto passeava no Jardim dos Justos, onde cada árvore se ergue para homenagear uma pessoa que ajudou os judeus a escaparem ao terror nazi, o meu guia, Maurício, ilustrou o sentimento que ali se celebrava com uma frase cheia de universalidade: «só somos realmente livres quando aprendemos a dizer não».
A 1 de Dezembro de 1955, os Estados do Sul dos E.U.A. praticavam a segregação racial que,entre outras coisas, estipulava que nos autocarros os negros não se podiam sentar em bancos reservados a brancos, e se faltassem lugares aos brancos, os negros tinham de lhes ceder os seus.
Naquele dia, Rosa Parks regressava a casa de autocarro depois de um dia de trabalho na cidade de Montogomery no Alabama, e recusou ceder o seu lugar a um branco. Foi presa, julgada e condenada por comportamento desordeiro. Foi o suficiente para levantar o movimento dos direitos civis que acabaria com o segregacionismo nos Estados Unidos.
Rosa Parks morreu na segunda-feira aos 92 anos num país melhor, embora muito ainda haja para fazer. O jornal de Montgomery, onde se deu a desobediência e o subsequente boicote dos negros aos autocarros, noticiou a morte de uma grande mulher.
Rosa Parks ousou dizer não, e com isso o mundo deu um salto em frente para sair do obscurantismo.

The power of one: Rosa Parks


"Our mistreatment was just not right, and I was tired of it".

"The only thing that bothered me was that we waited so long to make this protest."

A 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks recusou dar o seu lugar num autocarro a um passageiro branco que lho exigiu ao abrigo das leis segregacionistas então em vigor no Alabama. Ao fazê-lo, o exemplo desta mulher até aí desconhecida do mundo abriu novas avenidas ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, despoletou um boicote de 381 dias ao sistema de transportes públicos de Montgomery, no Alabama, e provocou uma decisão do Supremo Tribunal de Novembro de 1956 declarando a segregação em transportes públicos inconstitucional. Posteriormente, foi uma das mais activas porta-vozes do movimento pelos direitos civis, tendo fundado em 1977 o Rosa and Raymond Parks Institute for Self-Development, instituição dedicada à divulgação do movimento entre as camadas mais jovens da população.
Rosa Parks faleceu dia 24 de Outubro, deixando um exemplo de coragem e determinação que contribuiu decisivamente para a luta pela igualdade e pelos Direitos Humanos.

Primeiras impressões presidenciais

Pelo andar da carruagem, a campanha para a eleição presidencial terá, entre outros, estes motivos de interesse: Cavaco cada vez mais firmo e hirto, a ousar de quando em vez um delírio opinativo, embora preocupado em não fazer vacilar o discurso e a imagem cuidadosamente preparados; e Soares a desatinar com os jonalistas, a discutir com cada um as razões de não responder à pergunta e de porque é que o jornalista deve ou não deve fazer essa pergunta, e qual é a pergunta que deve fazer, enquanto o povo fica à espera para saber alguma coisa.

sexta-feira, outubro 21, 2005

De volta


Depois de uma ausência de alguns meses, durante os quais o serviço da República apenas me permitiu seguir com atenção os posts dos demais cidadãos que enriquecem o nosso cantinho republicano na net, e aproveitando a onda de solenes anúncios que dão colorido aos nossos noticiários, é com muita satisfação que anuncio o regresso às lides da blogosfera.
Saudações republicanas a todos!

O Eixo Oeiras-Felgueiras-Gondomar

Honoris causa


"He llegado hasta el día de hoy animado por el sueño de otro mundo, un planeta poblado por mujeres y hombres plenamente libres. Mi generación y las pasadas lo intentaron sin conseguirlo plenamente. Pongo mi esperanza en las nuevas generaciones". Santiago Carrillo, mais recente Doutor Honoris Causa pela Universidade Autónoma de Madrid

quinta-feira, outubro 20, 2005

Rousseau e a República III - In his own words


Tanta merda para depois descobrir esta passagem maravilhosa do próprio:


Un défaut essentiel et inévitable, qui mettra toujours le gouvernement monarchique au-dessous du républicain, est que dans celui-ci la voix publique n'élève presque jamais aux premières places que des hommes éclairés et capables, qui les remplissent avec honneur: au lieu que ceux qui parviennent dans les monarchies ne sont le plus souvent que de petits brouillons, de petits fripons, de petits intrigants, à qui les petits talents, qui font dans les cours parvenir aux grandes places, ne servent qu'à montrer au public leur ineptie aussitôt qu'ils y sont parvenus.

Contrato Social, Livro III, Capítulo VI

Rousseau e a República II


Um aspecto interessante da teoria política de Rousseau é a aparente ligação estreita entre esta e o movimento Jacobino. Ora os grande nomes do jacobinismo clássico, Robespierre, Saint-Just, consideravam-se seguidores de Rousseau. Por um lado isto parece bizarro: como é que uma filosofia política que advoga a democracia directa, a participação constante do cidadão na política (acima de tudo no processo de elaboração da Lei)pode ser compatível com, ou até ser usada para, justificar, o centralismo autoritário de 1793-94. (Mas os Termidorianos também eram uns malandros e o Directório... ui ui... marotos.)

Uma possível explicação desta intimidade entre o jacobinismo e Rousseau assenta na importância da ideia do colectivo político, da Nação. Os discursos de Robespierre justificam tudo e mais alguma coisa com a necessidade de salvar a Nação, de proteger a Nação, de combater os inimigos da Nação. Esta fetichização da 'Nação' como conceito abstracto, superior, quasi-religioso representa o principal elo de ligação com Rousseau. Porque este concede à Vontade Geral do Soberano uma qualidade a raiar o místico.

Assim, ambos colocam acima e para além da vida política de um qualquer país uma espécie de princípio regulador pseudo-divino. Tanto os Jacobinos da Grande Revolução como Rousseau pecam precisamente pela falta de atenção que dão à dimensão institucional da democracia que, essa sim, garante a longevidade do pluralismo. Robespierre pode cometer os maiores crimes em nome da Nação porque para ele só há uma Nação e ele sabe o que esta é e do que precisa. A oposição Girondina não se opõe a Robespierre, não se opõe aos Jacobinos: opõe-se à Nação. Não tem espaço na Nação. Tem que ser eliminada.

Rousseau significa activismo político e democracia directa assente no princípio quase místico da Vontade Geral do Soberano: trata-se de um cocktail ideológico eficaz para destruir Monarquias obscurantistas e outros obstáculos à criação de uma Nação; mas trata-se também de uma base frágil para um Estado de Direito.

Sem instituições democráticas não há Democracia.

Falta um bocadinho de separação de poderes a Rousseau, um bocadinho de Montesquieu.

Para mim pessoalmente Rousseau é inigualável a descrever a estupidez da Monarquia, a injustiça da Tirania e a nobreza da actividade cívica. Sem falar nas maravilhosas diatribes contra a Santa Madre (último capítulo do Contrato Social). Mas Rousseau não serve como ponto de partida positivo para uma democracia moderna e pluralista.


De resto, era boa gente, gostava de crianças.

Só não das dele.

Abre um espaço que eu estou a chegar...


... , Abre um espaço que eu agora vou passar.
Não é preciso chamar o Sidónio, este já se chegou à frente.
Segundo a meteorologia, não estão previstas condições para a formação de neblina ou nevoeiro na zona de Belém.

segunda-feira, outubro 17, 2005

And now for something completely different...



Ia eu a passear no frio da noite de Bruxelas, rodeado de escuridão e vultos desconhecidos, quando, estando ao telefone com um grande amigo e cidadão distinto, me dei conta que esta coisa da 'vida' é óptima e que quem quer que a tenha inventado merece uma grande palmada nas costas.

E no Império impera a Paz.

Oh the humanity...

sábado, outubro 15, 2005

Se houver, está na Wikipédia


Se o conhecimento é poder e o poder tem de residir no povo, então a conclusão do silogismo é óbvia, e estabelecer as condições de facto para que o povo possa efectivar esse poder de forma consciente, responsável e proveitosa é o primeiro dos desafios de uma democracia. É um postulado republicano, racionalista e progressista. Foi daí que partiu o esforço de compendiar o conhecimento dos enciclopedistas franceses do século XVIII. A Encyclopédie prestou o seu serviço à causa da instrução pública.

O passo mais recente é dado pela Wikipédia, a enciclopédia livre mundial, uma enciclopédia gratuita e aberta a todos. Aberta a todos? Sim. O esquema da Wikipédia assenta na possibilidade de qualquer pessoa poder dar o seu contributo escrevendo um artigo sobre um assunto que conheça (ou nem por isso), ou alterando um artigo existente. A Wikipédia chegou aos 2 milhões de entradas em com base nesse esquema de aperfeiçoamento contínuo, sem intervenção de peritos - a não ser aqueles que não resistem a colaborar sem abandonar a condição de utilizador comum - com os artigos a serem discutidos em fóruns próprios.

Em entrevista à Pública de 9 de Outubro o seu criador Jimmy Wales, um americano do Alabama (!), diz que o sistema é como uma conversa sobre o aborto entre um padre católico e um defensor pró-escolha: ambos têm de arranjar forma de explicar o tema a uma pessoa que se junte à conversa e que esteja a zeros sobre o assunto.
Tudo é válido se se aceitar e respeitar o pensamento argumentativo, a persuasão e os pontos de vistas diferentes. Por exemplo, saber se Israel construiu um muro para oprimir cidadãos palestinianos ou uma cerca de segurança para evitar ataques suicidas, se Jenin foi um massacre ou uma batalha. É assim que israelitas e palestinianos se podem entender para escrever um artigo sobre o conflito no Médio Oriente que inclua todos os pontos de vista.

Há uma moral própria inerente ao sistema da Wikipédia: é difícil odiá-la. E confere uma espécie de auto-imunidade ao sistema. Uma obscenidade ou uma vandalização de uma página demoram em média 1,7 segundos a serem detectados.

Outra coisa que é de assinalar é a falta de pretensiosismo. A Wikipédia tanto tem artigos sobre Kant como sobre os Pokemon. A Wikipédia sabe da precaridade do conhecimento e acompanha a evolução, sabe também que os génios são precisos para avançar, mas que o trabalho dos génios de pouco serve se não se consolida o conquistado.

A Wikipédia nasce do consenso, mas do melhor tipo de consenso que pode haver: o que resulta da discussão e do respeito.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Rousseau e a República


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é talvez, juntamente com Kant, o mais importante filósofo político da República. Não falo necessariamente da importância que tiveram no século XVIII, mas sim da relevância cumulativa até aos nossos dias. Kant, gigante da ética e da epistemologia, tem sido redescoberto, acima de tudo por autores anglo-saxónicos, para a teoria política. E ainda bem.

Rousseau, por outro lado, nunca deixou de ser uma das divindades principais do olimpo republicano (nós os republicanos também temos deuses mas os nossos chegam lá por mérito próprio). Qual o papel de Rousseau na génese do republicanismo moderno?

Rousseau representa a ponte intelectual entre o republicanismo da antiguidade - que durante séculos determinou os termos do debate à volta da República - e o republicanismo moderno. O elemento novo fundamental é a ideia de soberania, do Soberano que Rousseau aproveita de Hobbes. Mas Rousseau imprime ao Soberano omnipotente de Hobbes uma dinâmica profundamente democrática. A Vontade Geral do Soberano deve articular-se a cada momento legislativo. A Lei transforma-se em expressão da Vontade Geral.

São os cidadãos - todos - que exprimem a Vontade Geral num constante exercício de articulação de vontade política. Não é permitida a delegação do poder legislativo (ainda que se possa delegar o poder executivo). Só leis aprovadas pela totalidae dos cidadãos são legítimas. Aqui Rousseau não consegue afastar-se dos modelos clássicos e de pequenas Repúblicas urbanas (como a que existia em Genebra, sua pátria).

Ora é esta a limitação principal do modelo republicano de Rousseau: não faz sentido apostar num modelo de democracia directa que obriga a que todos os cidadãos se reunam regularmente para aprovar leis.

Mas a ideia de Contrato Social, de momento político-empírico de criação da nação constantemente relembrado e aprofundado através do processo político, é fundamental e sobrevive aos elementos menos visionários da teoria política Rousseauiana.

De facto é esta a base em que assenta a nossa ideia de República: uma união voluntária entre cidadãos e cidadãs livres e não uma partida do destino. O destino, o 'peso da história', a 'tradição' ou a 'vontade de Deus' há muito que deixaram de servir como fundamentos suficientes para uma união política. Os EUA fundaram-se voluntária e empiricamente entre 1776 e 1789. Entre 1789 e 1791 a França refundou-se. Em alguns dias de Agosto de 1789 eliminou séculos de feudalismo e privilégios eclesiásticos abrindo caminho para a fundação da República Francesa. 1910 e 1974 foram - com as devidas ressalvas num país iliterado e sofrendo sob o peso de um obscurantismo secular - momentos comparáveis.

Nós criamos as nações que queremos.

É a essa a lição principal de Rousseau.

quinta-feira, outubro 13, 2005

God Bless America

Fotografia de Satélite de Bagdad, 2 de Abril 2003

Here they go again,
The Yanks in their armoured parade
Chanting their ballads of joy
As they gallop across the big world
Praising America's God.

The gutters are clogged with the dead
The ones who couldn't join in
The others refusing to sing
The ones who are losing their voice
The ones who've forgotten the tune.

The riders have whips which cut.
Your head rolls onto the sand
Your head is a pool in the dirt
Your head is a stain in the dust
Your eyes have gone out and your nose
Sniffs only the pong of the dead
And all the dead air is alive
With the smell of America's God.

Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura 2005

quarta-feira, outubro 12, 2005

Juridicamente não percebo nada disto

Entrevistado ontem pela SIC Notícias, Marques Mendes disse que, em relação ao veto às candidaturas de Isaltino de Morais e Valentim Loureiro, a decisão se impunha porque "é necessário credibilizar a política e os políticos, mesmo que isso signifique perder eleições".
Sobre Isabel Damasceno, presidente-eleita da Câmara de Leiria, também ela a contas com a Justiça, disse que o critério para tomar as decisões que tomou foi "um critério político, não jurídico".
Enquanto a moralização da classe política estiver dependente de "critérios políticos", quem é que precisa da Justiça e dos Tribunais?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Qual República...

Mas afinal que República queremos nós? A ambiguidade, a indefinição serve-nos bem, protege-nos de compromissos e, acima de tudo, evita que fiquemos presos a debates históricos e fetiches ideológicos. Não nos levamos demasiadamente a sério.

À laia de exercício de aproximação podiamos especular como seria o republicano ideal, o Brutus do século XXI: teria o amor pela política directa de um Rousseau; a energia activista de um Durruti; o cepticismo racionalista de um Descartes; a preocupação pela ética como expressão da vida em sociedade de um Hegel; o zelo emancipatório de Marx; a coragem de uma Rosa Luxemburgo; a sobriedade cínica de um Weber; a pureza moral de um Cícero; a oratória de um Péricles; o ódio ao sangue azul de um Robespierre; a moderação de um Mirabeau; o idealismo de um Condorcet; o horror à milenar arrogância eclesiástica de um Garibaldi; mas acima de tudo o amor à Razão de um Kant.

A Razão é o ponto de partida e o destino de qualquer aventura emancipatória.

O caminho é a República.

And isn´t it ironic?

O PSD ganhou as autárquicas em Santarém contra o único Presidente da Câmara que fez alguma coisa que se visse pela cidade, nos últimos dez anos. Moita Flores, escritor e novelista, diz que vai pagar a dívida da Câmara em 100 dias e alega que Santarém está rodeada de "Reboleiras". Entre disparates, o povo vota. Eu cá não elegi nem um nem outro, pelo que até aprecio a mudança, mas talvez gostasse que o Presidente da Câmara, o tal que está perto dos problemas dos munícipes, vivesse em Santarém há mais tempo que o tempo que dura a campanha eleitoral.
Qualquer dia o nosso país é palco de vendas a retalho de cargos políticos. E pela minha cidade, que é tão linda, quem dá mais?

quarta-feira, outubro 05, 2005

terça-feira, outubro 04, 2005

Eu é que sou o presidente da Junta!

Porque é que foi bom fazer a República? Para acabar com bizarrices destas.

segunda-feira, setembro 26, 2005

First things first

A Administração Bush, entusiasmada pelo sucesso da resposta dada ao furacão Katrina, e satisfeita com o sucesso da "Guerra ao Terror" (expressão recentemente substituída no discurso oficial por "Grande Luta Contra o Extremismo") prepara-se para lançar uma nova cruzada, desta vez no campo de batalha dos valores.
O FBI está a recrutar agentes para a constituição de uma Brigada Anti-Obscenidade, que terá como principal objectivo combater a pornografia e a propaganda da prática de bestialidade e sado-masoquismo entre adultos livres. A pedofilia e a pornografia infantil não estão incluídas na delimitação de competências da futura brigada.
Por enquanto, e segundo o Washington Post,os agentes do FBI, vão fazendo piadas sobre o assunto e fugindo como podem das solicitações dos seus superiores hierárquicos para fazerem parte da brigada.
Como qualquer decisor político sabe, é tudo uma questão de prioridades.

domingo, setembro 25, 2005

Não chega metade da verdade

O 'Público' online deu mais um exemplo de parcialidade e manipulação de informação no contexto do conflito israelo-palestiniano.

Este fim-de-semana assistimos a uma deterioração grave da situação. O evento principal a considerar foi uma manifestação organizada pelo Hamas, em que uma explosão causou 15 mortos e dezenas de feridos. O movimento islâmico acusa Israel de ter levado a cabo um ataque. Israel garante que não. Uma pista para entender este aparente mistério são as declarações de porta-vozes da Autoridade Palestiniana, que falam de "irresponsabilidade" do Hamas: é que durante a manifestação - que era mais uma parada militar, uma demonstração de força do movimento - estava a ser transportado material explosivo em várias carrinhas pick-up. Não é a primeira vez que este acidentes acontecem. Para além disso, o modus operandi israelita não inclui raides aleatórios a manifestações... Para todos os efeitos o Hams não ia perder esta oportunidade de mobilizar a opinião palestiniana atrás de si e... fuga para a frente: dezenas de mísseis Qassam foram lançados sobre Sderot, cidade que se encontra a alguns quilómetros de Gaza, solidamente em território israelita. O Público descreve selectivamente alguns acontecimentos que provam que os israelitas gostam é de fazer mal ao pessoal.

Enfim, para saberem a história toda, leiam a BBC - chamo particular atenção à descrição da sequência de eventos:
http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4280262.stm.

Para saberem a versão do órgão oficial da Fatah em Portugal, vão a:
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1233772&idCanal=18

Os tipos do Público percebem tanto do Médio Oriente como eu percebo de física quântica.

quarta-feira, setembro 21, 2005

O Meu Presidente: Jed Bartlet


Na série de televisão Os Homens do Presidente, Jed Bartlet recuperou da situação de outsider para ganhar as primárias do Partido Democrático a um candidato mais popular e com maior orçamento, e tornou-se presidente dos Estados Unidos vencendo no colégio eleitoral um candidato Republicano que obteve mais votos.
Bartlet é um economista brilhante, com um Prémio Nobel no currículo, descendente de um dos signatários da Declaração de Independência, homem de inteligência superior, íntegro mas de carácter não infalível, para quem não importam as derrotas, mas sim perder por não ir à luta. É considerado um liberal no mais estrito sentido do termo, o que nos Estados Unidos equivale a chamar a alguém socialista - e que não é propriamente um elogio.
A série desenvolve-se nos bastidores da Casa Branca e acompanha o quotidiano da equipa do presidente nas tarefas diárias de fazer política e governar. Os membros da equipa são idealistas, e põem um genuíno sentido de missão em tudo o que fazem, mas sabem com que linhas é preciso coser para que o trabalho seja feito.
A genialidade da série está em tratar os habitualmente maçudos assuntos políticos em produto televisivo de qualidade, e está, sobretudo, na forma como um enredo que tem tudo para ser demagógico não o é, bem pelo contrário. É a política enquanto arte do compromisso, actividade nobre mas cheia de podres com os quais é preciso lidar para aspirar à grandeza.
Bartlet é um presidente do outro mundo, pessoa em quem até os defeitos são edificantes, mas é uma personagem credível enquanto projecção na ficção de tudo o que se espera que um político deva ser.
A série passa ou já passou na TVI, que a chutou para o horário impróprio das 3 da madrugada. A melhor forma de acompanhar Os Homens do Presidente é pelo AXN da TV Cabo, quintas-feiras às 21h30. O episódio de amanhã, Two Cathedrals, é absolutamente imperdível para quem queira perceber o que acabo de dizer. Eu não resisti ao suspense dos episódios anteriores e saquei-o da net. É das coisas mais bem feitas que já vi em televisão.
Não há, no mundo real, político algum que possa obter do público a simpatia que tem Josiah Bartlet pelo simples facto de lhe espiolharmos a vida na televisão. Mas também, de certeza que não há ninguém no mundo como Jed Bartlet.
O mundo precisa de mais homens como Jed Bartlet. Que ele exista só na televisão já é um princípio.

Para saber mais: http://en.wikipedia.org/wiki/Jed_bartlet

segunda-feira, setembro 19, 2005

Descarrilamento

Sobre choques de titãs, Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues têm, desde a semana passada, uma palavra a dizer a Mohamed Ali e a George Foreman. De Carrilho não se esperava palavras melosas e brandura, mas de Carmona esperava-se que aguentasse as investidas com estoicismo, e que não se deixasse arrastar na fúria destruidora do adversário. Isso só o beneficiaria: capitalizava a imagem de tranquilidade e deixaria o adversário a falar sozinho - esta é a receita para vencer debates contra adversários dados à diatribe. Mas em vez disso, Carmona foi na conversa e descarrilou: parecia uma briga entre putos na escola, do tipo "Cala a boca, ó palhaço!"; "Palhaço és tu, ó palhaço, tens os olhos tortos".
O que Carrilho ganha em criatividade e capacidade de realização perde em excesso de assertividade e temperamentalismo. Mas isso já se sabe.
Quanto a Carmona, perdeu a aura de tipo porreiro, o técnico impassível que não está para se chatear e só quer fazer um bom trabalho. O seu "Grande Ordinário" fê-lo parecer com aqueles meninos bem, que são educados para manter a aparência de bem comportado, mas que nas costas da mãe partem uma jarra e põem as culpas na copeira.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Alienação e depressão

Já estou farto de ouvir que "a nossa sorte é termos sol e praia"; que "isto nunca há-de andar para a frente"; que 'o português é um gajo que...'; que "eles são todos iguais"...

A desvantagem principal de uma sociedade democrática e aberta é que não há desculpas, não há ninguém que nos impeça de mudar o que está mal. Estão descontentes com o governo - votem no outro; repugna-vos a mediocridade - vão juntar-se às centenas de organizações da sociedade civil que trabalham nas mais diversas áreas; rejeitam o clientelismo - não dêem cunhas a torto e a direito. E se o país fracassou, se ele vos deixou sem opções, se a nação bateu no fundo: peguem nas coisas e façam-se à estrada durante uns tempos: há mundo para além de Portugal ("Ai, eu gostava muito de ir para o estrangeiro, mas a minha mãe ficava tristíssima...").

Aqui é preciso sublinhar uma diferença fundamental. Uma coisa é a pobreza, a miséria, o desemprego e a iliteracia. Quem sofre destas vicissitudes sociais tem todo o direito de apontar o dedo a uma sociedade que continua a ser incapaz de dar oportunidades iguais a todos, que continua a carburar impavidamente enquanto milhares de cidadãos ficam para trás. Aqueles que olham à volta e não conseguem 'ler' a sociedade, que sentem que o que existe, existe contra eles e não para eles, esses têm o direito a insurgir-se.

Quem eu não compreendo são aqueles que têm precisamente as ferramentas nas mãos que são necessárias para viver numa democracia moderna: redes sociais, domínio de línguas, cursos superiores, um mínimo de bem-estar, saber... Mesmo assim quantas dessas pessoas continuam a falar como se o futuro não dependesse delas, como se o presente fosse uma fatalidade, uma força da natureza, um fenómeno inexplicável que eles e elas observam com o olhar neutro de alguém de fora. Especula-se sobre 'porque é que somos assim', constroem-se teorias sobre 'o nosso atraso', encolhem-se os ombros perante a mediocridade da classe política (os famosos "eles").

Em 1974 refundámos Portugal. O que se passou até então influenciou em muito a nossa presente situação e estava fora do nosso controlo. A Mediocridade estava institucionalizada e firmemente ancorada no obscurantismo, na estupidez e na violência - chamavam-lhe 'o regime'.

Mas já tivemos 31 anos para dar a volta por cima. Já chega de fazer de conta que a culpa não é nossa. Chega. Façam filhos e eduquem-nos como cidadãos e cidadãs que não têm medo de assumir as responsabilidades pela sociedade que têm. A República somos nós.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Como diz que disse?

Capa do Correio da Manhã: "Derrota Estúpida" referindo-se à derrota do Porto com o Glasgow Rangers, depois de dominar todo o jogo. Ó meus amigos, como diz o povo, quem marca ganha e quem não marcar arrisca-se a sofrer um golo. Mas por detrás disto subjazem coisas bem mais graves. Se o Benfica perder amanhã, qual vai ser o título? Se o Manuel Alegre fizer greve de fome, qual o mal? Se o telenovelista ganhar as autárquicas na minha terra, vamos todos ser figurantes de uma montagem política? E o barril do crude? E o filho do João Pinto? E os militares podem marchar, marchar? Confesso que quando vejo uma gorda deste calibre, me apetece vomitar alarvidades como se visse o União-Amiais todos os fins-de-semana. Ninguém fale daquilo que se passa no país, naquilo que salta mais à vista. Olhem apenas para o futebol e contentem-se em pensarem que são simplesmente bons naquilo que fazem - o que falta a este país é a concretização, não o domínio. Talvez esteja frustrada com as frequências que leio, com a falta de dinamismo dos meus alunos, com o descontentamento geral, ou com as pesquisas económicas que tenho andado a fazer, mas é urgente ilacionarmos algo com o futebol, já que é a única coisa que nos dá entusiasmo e gana. Que se dane o domínio, venham os tentos de belo efeito.

terça-feira, setembro 06, 2005

O Gigante Caiu

Afirma José Vítor Malheiros, no Público, que "Se as imagens que as televisões nos mostram lembram as de um país do terceiro mundo afectado por uma catástrofe natural é porque nos Estados Unidos existe um enorme país do terceiro mundo acocorado em torno das suas ilhas de sucesso". A incapacidade dos EUA de evacuar e socorrer em tempo útil os sobreviventes de mais uma catástrofe natural revelam realmente as fraquezas de um país com aparente competência para salvar o mundo. Ninguém fica passivo a observar imagens de destruição maciça, mas muito menos ao drama humano de milhares de pessoas dos mais pobres territórios do país que buscam bens essenciais e, bem mais tarde e mais dramaticamente o emprego e as habitações que lhes foram retiradas. Mas se a conclusão lógica a retirar de tudo isto é uma perda de confiança no Governo americano, nomeadamente quando proclama ajuda internacional a todo o tipo de eventos políticos e catastróficos, fazendo-nos crer que se deviam era salvar-se a eles próprios, o que realmente importa é a capacidade que os EUA têm de influenciar o mundo. E o aumento histórico do preço do petróleo assim o indica.
Estamos dependentes deles, não haja dúvida - mas até quando?

Era Uma Vez em Gondomar

Ontem estava a ver mais uma das bonitas figuras que Valentim Loureiro faz na televisão - o que é sempre uma boa ocasião de rir, se não desse ao mesmo tempo vontade de chorar.
O Major Valentão tem ultimamente dedicado a sua campanha eleitoral a chamar todos os nomes a Marques Mendes, o que, como todos sabemos, é a primeira das preocupações dos eleitores de Gondomar. Bem, na verdade não se pode dizer em bom rigor que se trata de chamar todos os nomes - o vocabulário ficou-se por "pequeno líder" (Deng Xiao-Ping rói-te de inveja) e "lider menor", este último o que mais se afastou de uma grosseira alusão à estatura física do presidente do PSD (o que, convenhamos, como subtileza deixa muito a desejar).
Dá-se o caso que, a meio de uma birra, o Major senta-se e começa a falar calmamente para a câmara da RTP. Assim, como se tivesse a olhar Marques Mendes nos olhos e a dizer «Eu não tenho medo de ti, rapazinho». Até aqui tudo bem, era só um bom momento de western à portuguesa. Mas é então que o operador de câmara começa a fazer zoom, e o plano fecha-se num close-up à Sergio Leone, acentuando a carga dramática do momento. Uau. Um repórter de imagem que faz cinema.
A questão que fica é: porque é que a televisão se presta a estas coisas.
Estou À espera de ver Marques Mendes a dar um pontapé nas portas do Saloon e a entrar por aí adentro, feito Xerife. Mas algo me diz que isso não vai acontecer.

quinta-feira, julho 28, 2005

O leão acordou


Houvesse justiça na política e Manuel Alegre seria o candidato da esquerda às eleições presidenciais. O homem que sempre soube em que lado da luta pela liberdade devia estar colocado, que é consensual em para todos os quadrantes da vida portuguesa menos para o seu partido, merecia o lugar de presidente da República. Mais, os portugueses, embora não façam muito por isso, mereciam tê-lo como presidente.
Mas Manuel Alegre não é um pai da pátria: Jorge Sampaio também não o era, mas nessa altura Cavaco ainda não se descosera da imagem de primeiro-ministro antipático.
O tempo fez de Cavaco o homem de Estado, uma reserva moral, e a imagem que ele tão bem cozinhou como uma donzela que se faz difícil aos seus pretendentes faz com que se lhe impute um potencial de carisma que, sinceramente, acho que não tem nem terá.
Compreende-se, por isso, que perante a emergência do novo Cavaco, a esquerda tenha de chamar a artilharia pesada e do lado de lá soa o alarme: o PSD poderia passar a imagem de serenidade, mas em vez disso Dias Loureiro diz esperar que Cavaco Silva não desista, ou seja, que não se assuste.
A escolha de Soares é uma escolha natural, embora imprevista devido à sua provecta idade. Soares tem o peso que Alegre não tem, e a sua energia e atenção ao que se passa estão para lá daquilo em que a sua idade o pode limitar, como ontem se viu no encontro de jovens socialistas, em que o seu entusiasmo parecia querer fazer saltar um monstro para fora do corpo idoso e enrugado que o continha.
A candidtura de Soares é uma solução de recurso para o PS, mas para o próprio é uma oportunidade de garantir a transmissão de uma herança política.
A questão presidencial será semelhante ao que se passou no Chile quando Neruda abdicou a favor de Allende, embora com menos dramatismo, embora Manuel Alegre seja mais parecido com Pablo Neruda do que Mário Soares alguma vez o será com Salvador Allende.
O país precisa de alguém que saiba o que dizer e fazer quando não se está a promulgar leis ou a assinar decretos. E Cavaco, um homem de gabinete, leva neste aspecto desvantagem em relação ao poeta e ao animal político.

quarta-feira, julho 20, 2005

Reforço de Verão


Este é John Roberts Jr., o próximo juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, nomeado pelo presidente Bush para substituir Sandra Day O'Connor, a moderada que era o fiel da balança na equipa capitaneado pelo venerável William J. Renqvist, também ele prestes a arrumar as botas depois de uma carreira a fazer tackles aos civil rights.
No palmarés, Roberts tem decisões contra a legitimidade processual dos cidadãos em accionarem o Estado por violação de legislação ambiental, e manifestou-se contra o acordão Roe vs. Wade, que estabeleceu o direito constitucionalmente garantido da mulher em praticar o aborto, defendendo a sua revogação. Enquanto advogado, defendeu companhias mineiras em casos de poluição e contra os mineiros, aquando de uma greve.
A possibilidade de vir a ser nomeado um juiz ultra-conservador foi um dos argumentos usados por John Kerry ao longo da campanha para as presidenciais do ano passados. Ele aí está. E republicanos (mas também, depois da novela Bolton, nunca se sabe).

terça-feira, julho 19, 2005

O paradigma da educação e o país eternamente adiado


Quando evoco a memória dos tempos de Cavaco Silva, era eu um chavalito, lembro-me distintamente da euforia da auto-estrada, essa maravilha que passava quase à minha porta e nos permitia dar um pulinho a Lisboa e ver os filmes mais recentes ao Cinema, que de outra forma demorariam mais umas semanas ou meses a chegar ao nosso orgulhoso cinema de Aveiras. Sempre me causou algum incómodo e alguma mágoa que uma pequena vila a 50 quilómetros de Lisboa tivesse um tão desmesurada vaidade na "sua" auto-estrada ("para esfregar no nariz a esses invejosos de Azambuja")e menos orgulho no facto de ser a única terra nas redondezas - do Cartaxo a Vila Franca - que tinha esse benefício para o espírito que era um Cinema, em que, por entre zaragatas do Bud Spencer e do Chuck Norris, lá mostrava um ou outro filme digno desse nome.
Era o tempo em que muita gente enchia os bolsos à conta dos fundos da CEE, entornados para dentro de empresas quase-fictícias que iam desde a criação de minhocas à mecanização da agricultura quando o problema era mesmo a agricultura e não a sua falta de mecanização. Os fundos, esses, passeavam pelas ruas na forma de Alfa Romeos e outros carros glamorosos de pato-bravo.
A auto-estrada era, em Aveiras e em todo o Portugal, o paradigma da modernidade, nessa altura em que ficar na escola aborrecia, sobretudo quando, havendo dinheiro para ganhar, já não havia que se cuidar em ganhar a vida.
O Cine-Aveiras morreu, e dos muitos empreendedores que apareceram associados à lógica mais de esperteza do que de trabalho que personificava o professor Cavaco (ou mais precisamente a sua entourage), apenas os que aproveitaram os fundos europeus para algo mais do que passear em grandes carros lograram continuar com uma vida boa, para eles e para os filhos.
Depois cresci e li que a Irlanda não tem auto-estradas de jeito, mas tem uma elevadíssima taxa de literacia (não fossem eles bons repulicanos) e uma população que é das mais altamente qualificadas do mundo, o que deu em taxas de crescimento económico entre os 20 e os 30% ao ano. A conclusão para mim era simples: menos betão, mais educação.
A Irlanda é o país da fome da batata e conseguiu. A Espanha é o país da siesta e tem o que tem. Nós somos o país do fado, e cá nos vamos aguentando - e isso é o que de mais optimista podemos dizer.
Depois vê-se isto na imprensa internacional (obrigado, David). Portugal investiu 90% dos fundos em infra-estruturas, a Espanha 70%. Portugal necessitava, enquanto país periférico, de construir auto-estradas, mas nem isso foi bem feito - basta olhar para o mapa, como observa o International Herald Tribune. "Os economistas portugueses estão de acordo em que os recursos foram utilizados de modo a adiar as decisões".
Este é o retrato de um país que andou muito tempo a ver o filme errado, e agora só lhe resta andar num Alfa Romeo recauchutado.

sexta-feira, julho 15, 2005

Bad Bad Mary

Sondagem do Público (na qual voto religiosamente todó dia) diz que a governação do PSD por Marques Mendes é medíocre ou má. O Jornal cá da minha terra pergunta se gostaríamos de ter assistido ao casamento de Catarina Furtado com João Reis. 88% dos inquiridos diz...que não. Aliás parece-me que se ao inquirido fosse permitido falar diria para os autores da sondagem irem dar uma curva ou pior. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira "Ó meus amigos, mas que é isto?". Preocupa-me o facto do PSD andar enfraquecido, pelo simples facto de até gostar do homem, mas principalmente porque a política portuguesa anda um tédio. Estes não falam, limitam-se a fazer (de quando em vez) alguma coisa. Ninguém chateia o Governo (será porque este é bom?), ninguém vomita indecências contra ninguém. Portugal ameaça tornar-se uma silly season permanente.
Por outro lado, admira-me porque é que o Jornal cá da terra não começa a oferecer rolinhos de papel higiénico para que o possamos ler antes de o utilizar para a única função óbvia para a qual serve. Com umas autárquicas à porta, porque não perguntar ao cidadão se gosta das obras do Centro Histórico, se quer a milésima rotunda, se prefere as estradinhas arranjadas ou os acessozinhos à cidade concluídos?
Para que serve este jornalismo, hein?
Ele há coisas.

quinta-feira, julho 14, 2005

A Bastilha

Prise de la Bastille, by Jean-Pierre-Louis-Laurent Houel

Aparentemente, há 216 anos alguns cidadãos e cidadãs parisienses de cabeça quente tomaram a Bastilha. Encontraram-na praticamente vazia, com alguns prisioneiros de delito comum, e meia dúzia de guardas prisionais que não tiveram um destino agradável.

Mas foi acima de tudo o valor simbólico do acto de revolta que tem, desde então, sido recordado. A tomada da Bastilha foi a faísca que largou fogo vivo a um país que que ainda não era nação, mas que, começando com os debates nos Estado Gerais, gradualmente se refundou como República Francesa.

Em Agosto de 1789 eliminaram-se num dia (se não me engano no dia 2) centenas de anos de privilégios feudais e eclesiásticos.

Num dia.

Muitos dos grandes nomes da Revolução pertenciam à Nobreza: Mirabeau (conde), Condorcet (marquês e republicano da primeira hora e defensor dos direitos das mulheres), Lafayette (marquês) e alguns do clero, como o Abbé Sieyès.

Tudo era possível.

Mas a tomada da Bastilha também nos serve como aviso. Uma Revolução que tão cedo se esquece dos princípios mais elementares da humanidade, é uma Revolução que age num vazio ético. Mais cedo ou mais tarde será uma Revolução que se perde, que não consegue distinguir entre fervor revolucionário e crueldade pura e simples. Robespierre, o Incorruptível, era demasiado incorruptível: nem por sentimentos de empatia, de humanidade, de decência se deixava corromper. Talvez seja essa a lição principal da Revolução: o mais tardar quando estiver a assinar listas de condenados à morte, o indivíduo revolucionário tem que se questionar que tipo de 'progresso', que tipo de futuro está a construir. No fundo, as vontades dos revolucionários costumam pecar por alguma ausência de imperativo categórico.

Mas, convenhamos, 200 anos passados, a Revolução continua a emanar Luz e, mesmo nos seus momentos mais sombrios trata-se de um evento do qual tiramos lições. Ao fim de séculos de obscurantismo, violência e repressão, e ao fim de gerações de treino em fanatismo cristão, era difícil fazer uma Revolução diferente daquela e demasiado dogmatismo ético castra qualquer entusiasmo revolucionário.

Não queremos acabar como Kant, que nunca se conseguiu decidir se a Revolução Francesa era uma coisa boa porque demonstrava a racionalidade dos milhares de cidadãos desinteressados que se dedicaram á causa revolucionária; ou se era uma coisa má porque as revoluções, por princípio, recriam, ainda que por pouco tempo, os horrores da ausência de ordem, do Estado Natural do todos-contra-todos.

Kant, era, como se diz na gíria filosófica, um chato de merda.

Os movimentos revolucionários e emancipatórios que têm e tiveram a sua origem na Grande Revolução, e os seus efeitos sobre a vida de milhões de cidadãos e cidadãs, mais do que compensam os disparates que foram feitos por meia dúzia de imbecis que herdaram as manias autoritárias do Antigo Regime.
Judeus e mulheres foram dois grupos que mais cedo ou mais tarde, com avanços e recuos, colheram os frutos da Revolução em toda a Europa. Mas há outros, claro.

O Liberalismo moderno é ingrato quando esquece as suas raízes francesas. Hegel, muito longe de ser um 'revolucionário', festejou o Dia da Bastilha até morrer, porque sabia que o dia 14 de Julho representa o princípio da Modernidade. E de facto, quando se lê alguns dos discursos que foram feitos nos Estados Gerais, na Assembleia Nacional e na Convenção, fica-se com a distinta impressão que se está a testemunhar a Razão em acção.

Merci la France!

Liberté! Egalité! Fraternité!


Posted by Oppenheimer

domingo, julho 10, 2005

Volta Alberto, estás perdoado...

O facto de ninguém falar em tom de pânico de mais um atentado terrorista significa que ele já faz parte da nossa normalidade. O facto de termos de ouvir as notícias da TVI faz-me pensar em duas coisas: um, o Alberto João é bem mais divertido; dois, será bem mais sério. Mas ninguém salva este país?

segunda-feira, julho 04, 2005

Yankee Doodle to you too!


Não foi para mais tarde ganharem a mania de que dão ao mundo lições de democracia que nos deram a Declaração de Independência. Porque é bom não esquecer isso, parabéns. Posted by Picasa

E se mandássemos passear certos e determinados indivíduos?

Falar das intervenções escabrosas de Alberto João é chover no molhado, e é uma actividade que muitas vezes se presta a constatar o óbvio. Nem é novidade dizer que destra foi foi longe demais.
O PSD habituou-se a ele como um cão se habitua a uma carraça, isto sem querer ser desrespeitoso (para o PSD, não para a carraça).
Mas o que têm estes pequenotes aspirantes a ditador é o serem olhados com benevolente comiseração e riso por toda a gente, enquanto vão urdindo novas formas de ter na mão os habitantes do quintal que governam.
A demagogia é um perigo para a democracia, e é só começar a ver uma quadrilha de delinquentes racistas manifestarem-se no Martim Moniz para que os ALbertos Joões comecem a achar que vale a pena dizer umas coisas assim.
A quem ouve Alberto João sugere-se que sustenha a vontade de rir e que puxe o autoclismo.

domingo, julho 03, 2005

Vão caindo aos poucos as folhas da árvore da Liberdade


 Posted by Picasa


Já vai com atraso este adeus - mais atrasado em relação ao segundo que ao primeiro.
A esta altura está Emidío Guerreiro a conversar com Fernando Vale no Oriente Eterno, olhando cá para baixo, rindo ou chorando.
A Utopia fica-nos tão bem.

quinta-feira, junho 30, 2005

Ai Portugal, Portugal...

Dois grandes amigos regressaram esta semana daquela boa benesse da União Europeia (coitadinha) chamada Programa Erasmus: um enfermeiro na Bélgica, um arquitecto em Barcelona. Na bagagem trazem as boas condições de estudo, as boas condições de trabalho e tecnológicas, a pacatez e educação dos belgas, o baixo custo de vida numa metrópole como Barcelona, a movida e a aparente inexistência de crise. Trazem os olhos cheios de cosmopolitismo, de uma vida melhor, da proximidade com a riqueza. Conto-lhes do arrastão, do défice, das greves, da contenção do governo, do boçalismo de Alberto João Jardim - nada de novo portanto. Mas ambos trazem saudades do povo português, do pacifismo, trazem saudades da crise, da falta de dinheiro, das suas próprias vidas. É verdade que na Bélgica há enfermeiros em quantidade suficiente, mas lá trabalha-se mais, com um trabalho nem sempre reconhecido pela comunidade, é verdade que em Espanha se vive mais e melhor, mas nenhum hesita em escolher Portugal para viver. Diz o pai de um deles, recém-promovido aos cinquenta anos, a quem aumentaram as responsabilidades e o horário de trabalho: Do que este país precisa é de produtividade, de quarenta e cinco horas semanais se for preciso. Um homem que trabalhou a vida inteira e que agora começou a trabalhar, como director, por objectivos, por mérito. Será pelo facto do empregador se ter tornado inglês?
Bebo as palavras dos meus amigos viajantes, que regressaram em paz. Quando é que aumenta o IVA? - pergunta um deles, e recosta-se no sofá vidrado na novela da Globo. Pareceu ver-lhe uma lágrima ao canto do olho - e não seria de tristeza.

segunda-feira, junho 20, 2005

Elogio ao Desespero

Desculpem-me o desabafo, mas eu tenho de perguntar: o que querem os professores deste país?
Alguém me explica a insatisfação permanente de uma classe? Alguém compreende a elegia do pessimismo que esta gente faz assim que nasce? Abro o Público e só vejo desgraças:incêndios, alertas amarelos, processos comunitários contra o défice, burlas no IVA, arrastões, fim das reformas antecipadas, listas de espera da saúde e urjo parar que já me dói muito o coração.
E depois os professores. Os alunos prejudicados, os pais que protestam, o Governo com pulso de ferro, a Ministra, a Fenprof, os sindicatos. Ca ganda nóia é sempre a mesma cantilena! Mas esta gente protesta sobre o quê? Não consideram que a educação já anda suficientemente nas ruas da amargura para se calarem um bocadinho? Até me dão ganas de fazer não sei quê quando ouço falar de um protesto dos professores. E os desgraçados que não ficam colocados? E os alunos que acabam o secundário sem saber ler nem contar (coisa que dantes dava direito a umas belas reguadas)? E as escolas a cairem de podres? Hein?
Que seca, os professores!!!!

O aniversário

O governo faz cem dias numa altura em que a situação do país vai fervendo - não adianta apagar as velas porque o lume continua a arder.
Como é que se avalia um governo que tem uma batata quente em cada mão e outra no ar, e que tem de ser malabarista para não se queimar?
Podia ser melhor, pois podia. Mas não esperava que se começasse a demolir algumas torres de marfim, como a quela em que se instalaram os políticos, ou aquelas belezas que se vêem no Algarve, porque finalmente se concluiu que é melhor não brincar com a natureza.
Espero ainda pela altura em que o Estado decida acertar contas com a banca - aí sim, daríamos o primeiro passo para acabamos com as muitas capelinhas onde o país vai definhando.
É cedo para aprovar este governo, mas, por enquanto, já vou ficando satisfeito por ter um governo que sabe fazer política. Já é reconfortante não estar sempre à espera da próxima patacoada - torna a vida mais monótona, mas é reconfortante, e o país respira de alívio, apesar da austeridade. É que a austeridade aguenta-se melhor se o exemplo vier de cima.
Com tudo isto o governo vai-se aguentando bem em cima da bicicleta, e uma prova disso é que o Bloco de Esquerda ouve-se menos com oito do que com três.

quinta-feira, junho 16, 2005

La lámpara marina

Para encerrar a efeméride, aqui vai um poema que Pablo Neruda escreveu para Álvaro Cunhal, quando este era prisioneiro.

quarta-feira, junho 15, 2005

O Patriarca Vermelho

O que fica da passagem de Álvaro Cunhal pela vida é uma herança ambígua na sua apreciação.
Apesar de ser uma personagem cujos feitos e traços de personalidade foram carregados de simbologia revolucionária pela hagiografia comunista (e pelo próprio), é certo que passou pela prisão e sofreu o que a ditadura lhe inflingiu sem perder de vista o objectivo final.
Apesar de ter tentado instaurar em Portugal um regime soviético, dou-lhe o benefício de achar que o fazia com a benigna intenção de defender o seu povo, mesmo que se tenha recusado a acreditar na preversão que aquilo que defendia se tornou na Coreia do Norte ou na China (embora fosse crítico do maoísmo), ou na Europa de Leste.
Cunhal é idolatrado de um lado e enxovalhado do outro. Por mim, vejo-o como a mãe do protagonista de "Adeus Lenine", cuja fé inabalável no regime era a razão da sua vida: não sei se se pode pedir a alguém que deu tanto por uma causa que tenha cabeça fria para concluir sossegadamente que afinal não é bem assim.
Apesr de tudo, Cunhal foi um resistente e um combatente pela liberdade, aquele a quem o povo acolheu em êxtase em Santa Apolónia e depois no 1º de Maio, mais até do que a Mário Soares, que pululava de um lado para o outro a apanhar apanhar as sobras do seu magnetismo e da sua aclamação.
A história deu razão a Soares. Mas por tudo o que Cunhal representou para a luta do seu povo, inclino-me perante a sua memória.

segunda-feira, junho 13, 2005

Adeus Camaradas

É com pesar que escrevo esta missiva, pelo elogio que se presta a figuras nacionais que se destacam pelo amor ao seu povo e aos seus ideais. Numa época em que tanto se fala em crise e em perda de identidade nacional, depois do 10 de Junho e dos manjericos (Lisboa menina e moça, engalanada no seu esplendor popular, que grande orgulho) falecereram Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. Os dois primeiros, ariscos e orgulhosos, convictos e imponentes, legaram aos portugueses a lealdade para com o povo e deram-nos a todos uma lição de coragem: um militar e um exilado, uma guerra civil e um poeta político, deixam-nos órfãos. Cada vez mais o 25 de Abril foi lá longe, com ele se perdendo a garra de um povo e mergulhando-nos numa profunda depressão de identidade.
Quanto a Eugénio de Andrade, a sua palavra é intemporal :

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

E basta. Que repouse em paz.

quinta-feira, junho 02, 2005

A Nega - 2 Actos

A imagem que associo à Constituição Europeia é a de um grupo de gente arvorada em pais fundadores, de pé, no encerramento da "Convenção", a escutar o hino à alegria da 9ª de Beethoven, feito hino da União Europeia e repescado para dar ao momento a solenidade e importância de um acto fundador, tipo Convenção de Filadélfia dos Estados Unidos da Europa.
Parecia a equipa do Brasil quando entra em campo e canta o seu interminável hino do Brasil - mas sem a parte de cantar.
À cabeça desta artificial e ridiculamente pomposa cerimónia, um caquético Giscard d'Estaing fazia de capitão de equipa dos "convencionistas" habilitados por uma muito em voga legitimidade derivada, nos quais se incluiam os dois deputados portugueses do PSD que eu não escolhi, nem qualquer outro português. Podia ser como aqueles jogos da selecção da Europa contra a selecção do Resto do Mundo, para homenagear um grande jogador que se reforma, mas não: era uma sessão para celebrar a conclusão do Tratado Constitucional Europeu.
A construção europeia faz-se assim, às escondidas, e depois pergunta-se ao europeu comum se acha bem. Só que o europeu comum não sabe do que se fala, e aproveita para puxar as orelhas ao seu governo.
Isto de a classe política se lembrar de fazer um referendo tem destas coisas: a Espanha aprovou a Constituição com uma votação inexpressiva, a França e a Holanda chumbaram-na, e quem é esperto decide submeter a Constituição a ratificação parlamentar.
Tony Blair parece querer pôr o rabo de fora e pensa desistir de fazer o referendo (não sei porquê, mas isto não me surpreende).
Eu por mim não sei como vou votar. Não sou eurocéptico nem eurofórico; não gosto que me convidem para a festa de véspera, mas também não tenho medo de papões. E o meio termo, esse, anda perdido no meio da história.

quarta-feira, junho 01, 2005

França

Segunda-feira foi um dia cinzento em Bruxelas. Em todos os sentidos. Quase que se ouviam os travões a fundo do comboio da integração europeia a parar. Por um lado, o Tratado de Nice não é assim tão mau. Tem funcionado a 25 há um ano. Por outro, lá se vai o MNE europeu, cooperação estruturada na área da defesa e personalidade jurídica para a União, alguns exemplos.

Não me interessa se os franceses estão desempregados, não me interessa se o presidente deles é impopular, passa-me ao lado o debate da 'délocalisation', não sinto qualquer nostalgia em relação à soberania de antigamente, não me assustam nada as 'hordas de estrangeiros' no mercado de trabalho, já aprendi a viver com a falta de escrúpulos do neo-liberalismo e com a eterna dança de compromissos que representa o projecto europeu. Problemas temos todos. Problemas tem o nosso país. O que é que a Constituição tem a ver com o desemprego em França? E com o paternalismo gaullista de Chirac? E com os defeitos da 5a República? E com as forças nefastas da globalização? E com a perda de influência da França na União? Nada. Mas foi contra a Constituição que decidiram votar.Na democracia não há respostas 'erradas'. Temos que viver com o facto de que a França se sente insatisfeita com o rumo que o continente leva.Mas este resultado revela que as elites políticas em França andaram a brincar com o fogo durante muito tempo. Convenceram os seus concidadãos que a Europa estava a ser moldada à imagem da França e que a União era uma espécie de caixa de ressonância para as aspirações de grandeza gaulesas. Por outras palavras, a retórica em relação à Europa em França nunca passou pelo doloroso processo de emancipação de paradigmas soberanistas e nacional-chauvinistas. Enquanto que as políticas iam sendo aplicadas, a retórica recusava-se a render-se verdadeiramente à ideia da partilha da soberania. A França esquizofrénica participava na integração dos processos de decisão nas instituições da União, ao mesmo tempo que apresentava essas mesmas instituições como meios para o fim da glória e da grandeza nacionais. Já a Alemanha acompanhou a integração europeia com uma genuína recalibragem do discurso sobre o poder, a nação, a política. As nações pequenas também. Para estas tratava-se de um preço baixo a pagar em relação à segurança e à estabilidade que o projecto europeu lhes concedia.

A França neste momento parece um adolescente birrento que está zangado porque "ser adulto é muito mais difícil do que eu pensava", e "não foi nada disto que me prometeram", "não me avisaram que ia ser duro", "pensava que ia ser giro e tal."

Quanto ao PSF, este está, como se diz na gíria da ciência política 'entregue à bicharada'. Hollande ferido de morte, Fabius legitimado mas sem qualquer hipótese de levar a cabo uma liderança consensual depois de ter apunhalado o partido nas costas - possibilidade de cisão?

Depois das eleições indescritíveis de 2002, estes últimos desenvolvimentos demonstram que a França (ou talvez a 5a República, se preferirem) se encontra em plena crise ideológica, demasiado ocupada consigo mesma para sequer ter tempo para a Europa. A França neste momento não passa de um país banal, medíocre, um líder europeu falhado. Não contem com ela para nada. Jefferson dizia que "cada homem [ele devia ter dito 'pessoa', mil desculpas caras cidadãs] tem duas pátrias e uma delas é a França". Sinto-me mais órfão.

segunda-feira, maio 30, 2005

Oh la la

E aquilo que se receava, pelos vistos, aconteceu. A França votou "Não" no referendo de ratificação do Tratado de Constituição Europeia. Há que entender várias coisas. Ponto número 1, os franceses, tal como nós, estão descontentes com as taxas de desemprego e com o défice. Basicamente, desta vez, a culpa é mesmo do Governo. Ponto número 2, os franceses usaram o referendo contra o Governo, querendo bem saber da União Europeia.
Isto é sintomático de um grave afastamento da sociedade civil europeia face aos assuntos europeus. O tal afastamento que foi combatido (de forma muito fraquinha, muito pobrezinha, como diria Ricardo Araújo Pereira) no processo de elaboração do texto (na Convenção da qual ninguém ouviu falar, com representantes que apresentam um consenso político, depois das dificuldades de aprovação do texto de Nice?Hum...) e que não provocou alteração nenhuma no marasmo da sociedade europeia.
Neste momento, ninguém avalia muito bem o impacto, mas quando o país fundador da CECA rejeita a ratificação de um Tratado, o impacto é muito maior do que as voltas na tumba que deve estar a dar o Jean Monnet, esse grande homem. A construção da Europa a 25, as relações internas e o efeito que externamente provoca esta rejeição são incomensuráveis.
Para aqueles que acreditam na balela federalista que lhes impingiram, este "Não" é uma vitória das soberanias europeias. Para os que, como eu, tinham este novo Tratado como um mal necessário, existe alguma apreensão. Para a massa inominada dos que nada sabem, a rejeição francesa tem tanto interesse como o aumento do IVA. O seja, enquanto não acontecer nada, nenhuma.
Quanto a mim, estarei triste. Vamos lá ver os holandeses, mas desde já prevejo um "Sim" rotundo (os franceses disseram tudo).
Europa Go.

terça-feira, maio 24, 2005

Lavar a alma

Perdoem o desabafo de mais um testemunho benfiquista.

Pronto. Só agora caí em mim e interiorizei completamente que o Benfica é campeão. Até agora tenho estado estupidificado de alegria e incredulidade. Desde que vi o Nuno Assis a invadir o campo de braços abertos (porque à minha volta o barulho dos festejos, ensurdecedor, impedia-me de ouvir o que fosse) que me custa acreditar. Durante anos chorei só de pensar na alegria do momento, e o momento apanhou-me a chorar de alegria no Domingo.
Não interessa que tenha sido um sofrimento ver o Benfica jogar: merecemos como mais ninguém ganhar este campeonato porque não nos armámos em cromos da bola que jogam bem quando lhes apetece, nem nos encostámos à sombra dos títulos do ano passado, como aconteceu com a concorrência mais directa (e como aconteceu connosco durante os últimos onze anos).

Merecemos este campeonato porque soubemos fazer uma omoleta sem ovos e ir mais além do que permitiam as nossas pernas.
Merecemos os parabéns porque quisemos mais que os outros ganhar o campeonato.
Merecemos todas as manifestações de ódio e de mau perder que se seguiram, porque elas apenas nos engrandecem, na mesma medida em diminuem os que as fazem.
Não somos melhores, não somos piores, não somos diferentes, não somos moralmente superiores, não somos uma ideologia nem uma forma de estar na vida.
Somos o Benfica, e isso é mais do que tudo o resto junto.

segunda-feira, maio 23, 2005

O Relatório Vieira

SLB - 1 . Défice - 0. O país parou. Ondas de choque encarnadas encheram o país. Cachecóis varrem as ruas. As pessoas choram. O Benfica é o maior.
Quis o destino ser irónico e trazer-nos o défice nesta gloriosa segunda-feira. Fico chateada, concerteza fico chateada. Então dão-me estas notícias assim de chofre, num dia em que ninguém e sublinhe-se ninguém, quer saber? Daqui a nada andamos só de cachecol enrolado porque ninguém tem tanga, faltam dois mil milhões de euros para a saúde e para a educação, o défice é de de quase 7%, o país está à beira da ruptura e eu pergunto: mas o que é que isso interessa?
Fico entretando deprimida. Oiço as "Papoilas" mas daqui a pouco fico sem emprego, pois isto de trabalhar a prazo para o Estado foi chão que deu patacas e tenho de viver à custa do mesmo Estado que não tem dinheiro para a abrir uma vala no chão, quanto mais para a mim...
Viva o Benfica. Como dizia o outro, foi bonita a festa pá...

A última vez

6,83% de défice orçamental. É o Banco Central que o diz.

Geralmente, um défice das contas públicas desta dimensão não é grave para um país em desenvolvimento como Portugal que tem que aproveitar os fundos europeus para recuperar décadas de tempo perdido. Sabemos que sem comparticipação do estado em centenas ou milhares de projectos co-financiados pela UE, o bolo dos fundos europeus à nossa disposição fica por consumir. Um défice não tem nada de grave. Um país não é uma mercearia.

Mas estamos no PEC. O que o PEC revisto diz é que os países que passaram do 3% têm que demonstrar de forma credível que, num período de tempo razoável, conseguem aproximar as contas públicas do tal défice orçamental de 3% do PIB. Resta saber se este governo tem à sua disposição as condições para escapar a punições da Comissão. Para todos os efeitos Bruxelas não está interessada em aplicar castigos pró-cíclicos, que acentuem a crise das contas públicas. A Comissão não é nem estúpida, nem o papão que a direita andou a vender.

Independentemente do desenlace: se a direita volta a falar da "irresponsabilidade" do PS nos próximos 50 anos, eu fico, tipo, género, chateado.

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1223975&idCanal=63

segunda-feira, maio 16, 2005

E de repente, vindo do nada

Numa praia de Inglaterra um homem apareceu a vaguear, vestido de fato de cerimónia e ensopado. Recolhido por assistentes sociais, recusou-se a falar. Apenas desenhou um grande piano num papel que lhe deram. Chegado ao hospital psiquiátrico tocou horas a fio um repertório clássico de primeira qualidade, e por enquanto é só isto que tem a dizer.

História
de um homem perdido no mundo.

sexta-feira, maio 13, 2005

Quem ganhar que ganhe por bem...

Não posso deixar este dia em branco. É sexta-feira treze e dia de aniversário de aparições. Duas forças cósmicas em confronto, pelo que considero a conjuntura ideal para falar do meu (e nosso Benfica). Num blog sério como este, oportuno e inteligente, não posso deixar de expressar o meu oportunismo e boçalidade dizendo: O Benfica é o maior. Toda a gente sabe disto, mas ainda ninguém conseguiu admitir que a vitória do Glorioso é um gigantesco passo em frente para a evolução deste nosso país que anda tão triste. Reparem: 6 milhões de pessoas felizes (parte delas a acender velas em tudo o que é Igrejas e Capelas deste nosso país, incluindo em Fátima), trabalhando durante um ano com o papo cheio (sim, porque a Taça também é nossa) e a gozar com tudo o que é gentalha de outras cores desportivas. Há lá melhor cenário que este? Pensem nos litros de cerveja e leitões e presuntos e coisas assim que se venderão após esta histórica vitória. Pensem nos milhões de Bolas e Records e Jogos e afins que irão entrar em circulação. Pensem bem nos sectores económicos que por trás disto estão. Aquando da gloriosa Taça do ano transacto, já o ministro dissera o mesmo que eu, por isso entendam que é melhor para o país que o Benfica cilindre o Sporting e o Boavista.
Perdoem-me o desabafo, mas não consigo, como fanática da bola que sou, pensar noutra coisa. Desta vez não cumpri os rituais a que me proponho sempre que é jogo grande, mas não sou supersticiosa (Sexta-Feira 13 - 0 Fátima - 1). Nem consigo comentar a moção de censura que querem aprovar ao Durão Barroso, nem nada que se passe neste país e no Mundo. O Benfica vai ser campeão e amanhã vamos ganhar. Isto é uma certeza, para mim e para seis milhões. Havendo fé, tudo se consegue (lembrete: aplicar esta fé para coisas realmente produtivas, como a evolução e crescimento do nosso país).
Até domingo, estamos fechados para balanço.