quinta-feira, julho 28, 2005

O leão acordou


Houvesse justiça na política e Manuel Alegre seria o candidato da esquerda às eleições presidenciais. O homem que sempre soube em que lado da luta pela liberdade devia estar colocado, que é consensual em para todos os quadrantes da vida portuguesa menos para o seu partido, merecia o lugar de presidente da República. Mais, os portugueses, embora não façam muito por isso, mereciam tê-lo como presidente.
Mas Manuel Alegre não é um pai da pátria: Jorge Sampaio também não o era, mas nessa altura Cavaco ainda não se descosera da imagem de primeiro-ministro antipático.
O tempo fez de Cavaco o homem de Estado, uma reserva moral, e a imagem que ele tão bem cozinhou como uma donzela que se faz difícil aos seus pretendentes faz com que se lhe impute um potencial de carisma que, sinceramente, acho que não tem nem terá.
Compreende-se, por isso, que perante a emergência do novo Cavaco, a esquerda tenha de chamar a artilharia pesada e do lado de lá soa o alarme: o PSD poderia passar a imagem de serenidade, mas em vez disso Dias Loureiro diz esperar que Cavaco Silva não desista, ou seja, que não se assuste.
A escolha de Soares é uma escolha natural, embora imprevista devido à sua provecta idade. Soares tem o peso que Alegre não tem, e a sua energia e atenção ao que se passa estão para lá daquilo em que a sua idade o pode limitar, como ontem se viu no encontro de jovens socialistas, em que o seu entusiasmo parecia querer fazer saltar um monstro para fora do corpo idoso e enrugado que o continha.
A candidtura de Soares é uma solução de recurso para o PS, mas para o próprio é uma oportunidade de garantir a transmissão de uma herança política.
A questão presidencial será semelhante ao que se passou no Chile quando Neruda abdicou a favor de Allende, embora com menos dramatismo, embora Manuel Alegre seja mais parecido com Pablo Neruda do que Mário Soares alguma vez o será com Salvador Allende.
O país precisa de alguém que saiba o que dizer e fazer quando não se está a promulgar leis ou a assinar decretos. E Cavaco, um homem de gabinete, leva neste aspecto desvantagem em relação ao poeta e ao animal político.

quarta-feira, julho 20, 2005

Reforço de Verão


Este é John Roberts Jr., o próximo juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, nomeado pelo presidente Bush para substituir Sandra Day O'Connor, a moderada que era o fiel da balança na equipa capitaneado pelo venerável William J. Renqvist, também ele prestes a arrumar as botas depois de uma carreira a fazer tackles aos civil rights.
No palmarés, Roberts tem decisões contra a legitimidade processual dos cidadãos em accionarem o Estado por violação de legislação ambiental, e manifestou-se contra o acordão Roe vs. Wade, que estabeleceu o direito constitucionalmente garantido da mulher em praticar o aborto, defendendo a sua revogação. Enquanto advogado, defendeu companhias mineiras em casos de poluição e contra os mineiros, aquando de uma greve.
A possibilidade de vir a ser nomeado um juiz ultra-conservador foi um dos argumentos usados por John Kerry ao longo da campanha para as presidenciais do ano passados. Ele aí está. E republicanos (mas também, depois da novela Bolton, nunca se sabe).

terça-feira, julho 19, 2005

O paradigma da educação e o país eternamente adiado


Quando evoco a memória dos tempos de Cavaco Silva, era eu um chavalito, lembro-me distintamente da euforia da auto-estrada, essa maravilha que passava quase à minha porta e nos permitia dar um pulinho a Lisboa e ver os filmes mais recentes ao Cinema, que de outra forma demorariam mais umas semanas ou meses a chegar ao nosso orgulhoso cinema de Aveiras. Sempre me causou algum incómodo e alguma mágoa que uma pequena vila a 50 quilómetros de Lisboa tivesse um tão desmesurada vaidade na "sua" auto-estrada ("para esfregar no nariz a esses invejosos de Azambuja")e menos orgulho no facto de ser a única terra nas redondezas - do Cartaxo a Vila Franca - que tinha esse benefício para o espírito que era um Cinema, em que, por entre zaragatas do Bud Spencer e do Chuck Norris, lá mostrava um ou outro filme digno desse nome.
Era o tempo em que muita gente enchia os bolsos à conta dos fundos da CEE, entornados para dentro de empresas quase-fictícias que iam desde a criação de minhocas à mecanização da agricultura quando o problema era mesmo a agricultura e não a sua falta de mecanização. Os fundos, esses, passeavam pelas ruas na forma de Alfa Romeos e outros carros glamorosos de pato-bravo.
A auto-estrada era, em Aveiras e em todo o Portugal, o paradigma da modernidade, nessa altura em que ficar na escola aborrecia, sobretudo quando, havendo dinheiro para ganhar, já não havia que se cuidar em ganhar a vida.
O Cine-Aveiras morreu, e dos muitos empreendedores que apareceram associados à lógica mais de esperteza do que de trabalho que personificava o professor Cavaco (ou mais precisamente a sua entourage), apenas os que aproveitaram os fundos europeus para algo mais do que passear em grandes carros lograram continuar com uma vida boa, para eles e para os filhos.
Depois cresci e li que a Irlanda não tem auto-estradas de jeito, mas tem uma elevadíssima taxa de literacia (não fossem eles bons repulicanos) e uma população que é das mais altamente qualificadas do mundo, o que deu em taxas de crescimento económico entre os 20 e os 30% ao ano. A conclusão para mim era simples: menos betão, mais educação.
A Irlanda é o país da fome da batata e conseguiu. A Espanha é o país da siesta e tem o que tem. Nós somos o país do fado, e cá nos vamos aguentando - e isso é o que de mais optimista podemos dizer.
Depois vê-se isto na imprensa internacional (obrigado, David). Portugal investiu 90% dos fundos em infra-estruturas, a Espanha 70%. Portugal necessitava, enquanto país periférico, de construir auto-estradas, mas nem isso foi bem feito - basta olhar para o mapa, como observa o International Herald Tribune. "Os economistas portugueses estão de acordo em que os recursos foram utilizados de modo a adiar as decisões".
Este é o retrato de um país que andou muito tempo a ver o filme errado, e agora só lhe resta andar num Alfa Romeo recauchutado.

sexta-feira, julho 15, 2005

Bad Bad Mary

Sondagem do Público (na qual voto religiosamente todó dia) diz que a governação do PSD por Marques Mendes é medíocre ou má. O Jornal cá da minha terra pergunta se gostaríamos de ter assistido ao casamento de Catarina Furtado com João Reis. 88% dos inquiridos diz...que não. Aliás parece-me que se ao inquirido fosse permitido falar diria para os autores da sondagem irem dar uma curva ou pior. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira "Ó meus amigos, mas que é isto?". Preocupa-me o facto do PSD andar enfraquecido, pelo simples facto de até gostar do homem, mas principalmente porque a política portuguesa anda um tédio. Estes não falam, limitam-se a fazer (de quando em vez) alguma coisa. Ninguém chateia o Governo (será porque este é bom?), ninguém vomita indecências contra ninguém. Portugal ameaça tornar-se uma silly season permanente.
Por outro lado, admira-me porque é que o Jornal cá da terra não começa a oferecer rolinhos de papel higiénico para que o possamos ler antes de o utilizar para a única função óbvia para a qual serve. Com umas autárquicas à porta, porque não perguntar ao cidadão se gosta das obras do Centro Histórico, se quer a milésima rotunda, se prefere as estradinhas arranjadas ou os acessozinhos à cidade concluídos?
Para que serve este jornalismo, hein?
Ele há coisas.

quinta-feira, julho 14, 2005

A Bastilha

Prise de la Bastille, by Jean-Pierre-Louis-Laurent Houel

Aparentemente, há 216 anos alguns cidadãos e cidadãs parisienses de cabeça quente tomaram a Bastilha. Encontraram-na praticamente vazia, com alguns prisioneiros de delito comum, e meia dúzia de guardas prisionais que não tiveram um destino agradável.

Mas foi acima de tudo o valor simbólico do acto de revolta que tem, desde então, sido recordado. A tomada da Bastilha foi a faísca que largou fogo vivo a um país que que ainda não era nação, mas que, começando com os debates nos Estado Gerais, gradualmente se refundou como República Francesa.

Em Agosto de 1789 eliminaram-se num dia (se não me engano no dia 2) centenas de anos de privilégios feudais e eclesiásticos.

Num dia.

Muitos dos grandes nomes da Revolução pertenciam à Nobreza: Mirabeau (conde), Condorcet (marquês e republicano da primeira hora e defensor dos direitos das mulheres), Lafayette (marquês) e alguns do clero, como o Abbé Sieyès.

Tudo era possível.

Mas a tomada da Bastilha também nos serve como aviso. Uma Revolução que tão cedo se esquece dos princípios mais elementares da humanidade, é uma Revolução que age num vazio ético. Mais cedo ou mais tarde será uma Revolução que se perde, que não consegue distinguir entre fervor revolucionário e crueldade pura e simples. Robespierre, o Incorruptível, era demasiado incorruptível: nem por sentimentos de empatia, de humanidade, de decência se deixava corromper. Talvez seja essa a lição principal da Revolução: o mais tardar quando estiver a assinar listas de condenados à morte, o indivíduo revolucionário tem que se questionar que tipo de 'progresso', que tipo de futuro está a construir. No fundo, as vontades dos revolucionários costumam pecar por alguma ausência de imperativo categórico.

Mas, convenhamos, 200 anos passados, a Revolução continua a emanar Luz e, mesmo nos seus momentos mais sombrios trata-se de um evento do qual tiramos lições. Ao fim de séculos de obscurantismo, violência e repressão, e ao fim de gerações de treino em fanatismo cristão, era difícil fazer uma Revolução diferente daquela e demasiado dogmatismo ético castra qualquer entusiasmo revolucionário.

Não queremos acabar como Kant, que nunca se conseguiu decidir se a Revolução Francesa era uma coisa boa porque demonstrava a racionalidade dos milhares de cidadãos desinteressados que se dedicaram á causa revolucionária; ou se era uma coisa má porque as revoluções, por princípio, recriam, ainda que por pouco tempo, os horrores da ausência de ordem, do Estado Natural do todos-contra-todos.

Kant, era, como se diz na gíria filosófica, um chato de merda.

Os movimentos revolucionários e emancipatórios que têm e tiveram a sua origem na Grande Revolução, e os seus efeitos sobre a vida de milhões de cidadãos e cidadãs, mais do que compensam os disparates que foram feitos por meia dúzia de imbecis que herdaram as manias autoritárias do Antigo Regime.
Judeus e mulheres foram dois grupos que mais cedo ou mais tarde, com avanços e recuos, colheram os frutos da Revolução em toda a Europa. Mas há outros, claro.

O Liberalismo moderno é ingrato quando esquece as suas raízes francesas. Hegel, muito longe de ser um 'revolucionário', festejou o Dia da Bastilha até morrer, porque sabia que o dia 14 de Julho representa o princípio da Modernidade. E de facto, quando se lê alguns dos discursos que foram feitos nos Estados Gerais, na Assembleia Nacional e na Convenção, fica-se com a distinta impressão que se está a testemunhar a Razão em acção.

Merci la France!

Liberté! Egalité! Fraternité!


Posted by Oppenheimer

domingo, julho 10, 2005

Volta Alberto, estás perdoado...

O facto de ninguém falar em tom de pânico de mais um atentado terrorista significa que ele já faz parte da nossa normalidade. O facto de termos de ouvir as notícias da TVI faz-me pensar em duas coisas: um, o Alberto João é bem mais divertido; dois, será bem mais sério. Mas ninguém salva este país?

segunda-feira, julho 04, 2005

Yankee Doodle to you too!


Não foi para mais tarde ganharem a mania de que dão ao mundo lições de democracia que nos deram a Declaração de Independência. Porque é bom não esquecer isso, parabéns. Posted by Picasa

E se mandássemos passear certos e determinados indivíduos?

Falar das intervenções escabrosas de Alberto João é chover no molhado, e é uma actividade que muitas vezes se presta a constatar o óbvio. Nem é novidade dizer que destra foi foi longe demais.
O PSD habituou-se a ele como um cão se habitua a uma carraça, isto sem querer ser desrespeitoso (para o PSD, não para a carraça).
Mas o que têm estes pequenotes aspirantes a ditador é o serem olhados com benevolente comiseração e riso por toda a gente, enquanto vão urdindo novas formas de ter na mão os habitantes do quintal que governam.
A demagogia é um perigo para a democracia, e é só começar a ver uma quadrilha de delinquentes racistas manifestarem-se no Martim Moniz para que os ALbertos Joões comecem a achar que vale a pena dizer umas coisas assim.
A quem ouve Alberto João sugere-se que sustenha a vontade de rir e que puxe o autoclismo.

domingo, julho 03, 2005

Vão caindo aos poucos as folhas da árvore da Liberdade


 Posted by Picasa


Já vai com atraso este adeus - mais atrasado em relação ao segundo que ao primeiro.
A esta altura está Emidío Guerreiro a conversar com Fernando Vale no Oriente Eterno, olhando cá para baixo, rindo ou chorando.
A Utopia fica-nos tão bem.

quinta-feira, junho 30, 2005

Ai Portugal, Portugal...

Dois grandes amigos regressaram esta semana daquela boa benesse da União Europeia (coitadinha) chamada Programa Erasmus: um enfermeiro na Bélgica, um arquitecto em Barcelona. Na bagagem trazem as boas condições de estudo, as boas condições de trabalho e tecnológicas, a pacatez e educação dos belgas, o baixo custo de vida numa metrópole como Barcelona, a movida e a aparente inexistência de crise. Trazem os olhos cheios de cosmopolitismo, de uma vida melhor, da proximidade com a riqueza. Conto-lhes do arrastão, do défice, das greves, da contenção do governo, do boçalismo de Alberto João Jardim - nada de novo portanto. Mas ambos trazem saudades do povo português, do pacifismo, trazem saudades da crise, da falta de dinheiro, das suas próprias vidas. É verdade que na Bélgica há enfermeiros em quantidade suficiente, mas lá trabalha-se mais, com um trabalho nem sempre reconhecido pela comunidade, é verdade que em Espanha se vive mais e melhor, mas nenhum hesita em escolher Portugal para viver. Diz o pai de um deles, recém-promovido aos cinquenta anos, a quem aumentaram as responsabilidades e o horário de trabalho: Do que este país precisa é de produtividade, de quarenta e cinco horas semanais se for preciso. Um homem que trabalhou a vida inteira e que agora começou a trabalhar, como director, por objectivos, por mérito. Será pelo facto do empregador se ter tornado inglês?
Bebo as palavras dos meus amigos viajantes, que regressaram em paz. Quando é que aumenta o IVA? - pergunta um deles, e recosta-se no sofá vidrado na novela da Globo. Pareceu ver-lhe uma lágrima ao canto do olho - e não seria de tristeza.

segunda-feira, junho 20, 2005

Elogio ao Desespero

Desculpem-me o desabafo, mas eu tenho de perguntar: o que querem os professores deste país?
Alguém me explica a insatisfação permanente de uma classe? Alguém compreende a elegia do pessimismo que esta gente faz assim que nasce? Abro o Público e só vejo desgraças:incêndios, alertas amarelos, processos comunitários contra o défice, burlas no IVA, arrastões, fim das reformas antecipadas, listas de espera da saúde e urjo parar que já me dói muito o coração.
E depois os professores. Os alunos prejudicados, os pais que protestam, o Governo com pulso de ferro, a Ministra, a Fenprof, os sindicatos. Ca ganda nóia é sempre a mesma cantilena! Mas esta gente protesta sobre o quê? Não consideram que a educação já anda suficientemente nas ruas da amargura para se calarem um bocadinho? Até me dão ganas de fazer não sei quê quando ouço falar de um protesto dos professores. E os desgraçados que não ficam colocados? E os alunos que acabam o secundário sem saber ler nem contar (coisa que dantes dava direito a umas belas reguadas)? E as escolas a cairem de podres? Hein?
Que seca, os professores!!!!

O aniversário

O governo faz cem dias numa altura em que a situação do país vai fervendo - não adianta apagar as velas porque o lume continua a arder.
Como é que se avalia um governo que tem uma batata quente em cada mão e outra no ar, e que tem de ser malabarista para não se queimar?
Podia ser melhor, pois podia. Mas não esperava que se começasse a demolir algumas torres de marfim, como a quela em que se instalaram os políticos, ou aquelas belezas que se vêem no Algarve, porque finalmente se concluiu que é melhor não brincar com a natureza.
Espero ainda pela altura em que o Estado decida acertar contas com a banca - aí sim, daríamos o primeiro passo para acabamos com as muitas capelinhas onde o país vai definhando.
É cedo para aprovar este governo, mas, por enquanto, já vou ficando satisfeito por ter um governo que sabe fazer política. Já é reconfortante não estar sempre à espera da próxima patacoada - torna a vida mais monótona, mas é reconfortante, e o país respira de alívio, apesar da austeridade. É que a austeridade aguenta-se melhor se o exemplo vier de cima.
Com tudo isto o governo vai-se aguentando bem em cima da bicicleta, e uma prova disso é que o Bloco de Esquerda ouve-se menos com oito do que com três.

quinta-feira, junho 16, 2005

La lámpara marina

Para encerrar a efeméride, aqui vai um poema que Pablo Neruda escreveu para Álvaro Cunhal, quando este era prisioneiro.

quarta-feira, junho 15, 2005

O Patriarca Vermelho

O que fica da passagem de Álvaro Cunhal pela vida é uma herança ambígua na sua apreciação.
Apesar de ser uma personagem cujos feitos e traços de personalidade foram carregados de simbologia revolucionária pela hagiografia comunista (e pelo próprio), é certo que passou pela prisão e sofreu o que a ditadura lhe inflingiu sem perder de vista o objectivo final.
Apesar de ter tentado instaurar em Portugal um regime soviético, dou-lhe o benefício de achar que o fazia com a benigna intenção de defender o seu povo, mesmo que se tenha recusado a acreditar na preversão que aquilo que defendia se tornou na Coreia do Norte ou na China (embora fosse crítico do maoísmo), ou na Europa de Leste.
Cunhal é idolatrado de um lado e enxovalhado do outro. Por mim, vejo-o como a mãe do protagonista de "Adeus Lenine", cuja fé inabalável no regime era a razão da sua vida: não sei se se pode pedir a alguém que deu tanto por uma causa que tenha cabeça fria para concluir sossegadamente que afinal não é bem assim.
Apesr de tudo, Cunhal foi um resistente e um combatente pela liberdade, aquele a quem o povo acolheu em êxtase em Santa Apolónia e depois no 1º de Maio, mais até do que a Mário Soares, que pululava de um lado para o outro a apanhar apanhar as sobras do seu magnetismo e da sua aclamação.
A história deu razão a Soares. Mas por tudo o que Cunhal representou para a luta do seu povo, inclino-me perante a sua memória.

segunda-feira, junho 13, 2005

Adeus Camaradas

É com pesar que escrevo esta missiva, pelo elogio que se presta a figuras nacionais que se destacam pelo amor ao seu povo e aos seus ideais. Numa época em que tanto se fala em crise e em perda de identidade nacional, depois do 10 de Junho e dos manjericos (Lisboa menina e moça, engalanada no seu esplendor popular, que grande orgulho) falecereram Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. Os dois primeiros, ariscos e orgulhosos, convictos e imponentes, legaram aos portugueses a lealdade para com o povo e deram-nos a todos uma lição de coragem: um militar e um exilado, uma guerra civil e um poeta político, deixam-nos órfãos. Cada vez mais o 25 de Abril foi lá longe, com ele se perdendo a garra de um povo e mergulhando-nos numa profunda depressão de identidade.
Quanto a Eugénio de Andrade, a sua palavra é intemporal :

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

E basta. Que repouse em paz.

quinta-feira, junho 02, 2005

A Nega - 2 Actos

A imagem que associo à Constituição Europeia é a de um grupo de gente arvorada em pais fundadores, de pé, no encerramento da "Convenção", a escutar o hino à alegria da 9ª de Beethoven, feito hino da União Europeia e repescado para dar ao momento a solenidade e importância de um acto fundador, tipo Convenção de Filadélfia dos Estados Unidos da Europa.
Parecia a equipa do Brasil quando entra em campo e canta o seu interminável hino do Brasil - mas sem a parte de cantar.
À cabeça desta artificial e ridiculamente pomposa cerimónia, um caquético Giscard d'Estaing fazia de capitão de equipa dos "convencionistas" habilitados por uma muito em voga legitimidade derivada, nos quais se incluiam os dois deputados portugueses do PSD que eu não escolhi, nem qualquer outro português. Podia ser como aqueles jogos da selecção da Europa contra a selecção do Resto do Mundo, para homenagear um grande jogador que se reforma, mas não: era uma sessão para celebrar a conclusão do Tratado Constitucional Europeu.
A construção europeia faz-se assim, às escondidas, e depois pergunta-se ao europeu comum se acha bem. Só que o europeu comum não sabe do que se fala, e aproveita para puxar as orelhas ao seu governo.
Isto de a classe política se lembrar de fazer um referendo tem destas coisas: a Espanha aprovou a Constituição com uma votação inexpressiva, a França e a Holanda chumbaram-na, e quem é esperto decide submeter a Constituição a ratificação parlamentar.
Tony Blair parece querer pôr o rabo de fora e pensa desistir de fazer o referendo (não sei porquê, mas isto não me surpreende).
Eu por mim não sei como vou votar. Não sou eurocéptico nem eurofórico; não gosto que me convidem para a festa de véspera, mas também não tenho medo de papões. E o meio termo, esse, anda perdido no meio da história.

quarta-feira, junho 01, 2005

França

Segunda-feira foi um dia cinzento em Bruxelas. Em todos os sentidos. Quase que se ouviam os travões a fundo do comboio da integração europeia a parar. Por um lado, o Tratado de Nice não é assim tão mau. Tem funcionado a 25 há um ano. Por outro, lá se vai o MNE europeu, cooperação estruturada na área da defesa e personalidade jurídica para a União, alguns exemplos.

Não me interessa se os franceses estão desempregados, não me interessa se o presidente deles é impopular, passa-me ao lado o debate da 'délocalisation', não sinto qualquer nostalgia em relação à soberania de antigamente, não me assustam nada as 'hordas de estrangeiros' no mercado de trabalho, já aprendi a viver com a falta de escrúpulos do neo-liberalismo e com a eterna dança de compromissos que representa o projecto europeu. Problemas temos todos. Problemas tem o nosso país. O que é que a Constituição tem a ver com o desemprego em França? E com o paternalismo gaullista de Chirac? E com os defeitos da 5a República? E com as forças nefastas da globalização? E com a perda de influência da França na União? Nada. Mas foi contra a Constituição que decidiram votar.Na democracia não há respostas 'erradas'. Temos que viver com o facto de que a França se sente insatisfeita com o rumo que o continente leva.Mas este resultado revela que as elites políticas em França andaram a brincar com o fogo durante muito tempo. Convenceram os seus concidadãos que a Europa estava a ser moldada à imagem da França e que a União era uma espécie de caixa de ressonância para as aspirações de grandeza gaulesas. Por outras palavras, a retórica em relação à Europa em França nunca passou pelo doloroso processo de emancipação de paradigmas soberanistas e nacional-chauvinistas. Enquanto que as políticas iam sendo aplicadas, a retórica recusava-se a render-se verdadeiramente à ideia da partilha da soberania. A França esquizofrénica participava na integração dos processos de decisão nas instituições da União, ao mesmo tempo que apresentava essas mesmas instituições como meios para o fim da glória e da grandeza nacionais. Já a Alemanha acompanhou a integração europeia com uma genuína recalibragem do discurso sobre o poder, a nação, a política. As nações pequenas também. Para estas tratava-se de um preço baixo a pagar em relação à segurança e à estabilidade que o projecto europeu lhes concedia.

A França neste momento parece um adolescente birrento que está zangado porque "ser adulto é muito mais difícil do que eu pensava", e "não foi nada disto que me prometeram", "não me avisaram que ia ser duro", "pensava que ia ser giro e tal."

Quanto ao PSF, este está, como se diz na gíria da ciência política 'entregue à bicharada'. Hollande ferido de morte, Fabius legitimado mas sem qualquer hipótese de levar a cabo uma liderança consensual depois de ter apunhalado o partido nas costas - possibilidade de cisão?

Depois das eleições indescritíveis de 2002, estes últimos desenvolvimentos demonstram que a França (ou talvez a 5a República, se preferirem) se encontra em plena crise ideológica, demasiado ocupada consigo mesma para sequer ter tempo para a Europa. A França neste momento não passa de um país banal, medíocre, um líder europeu falhado. Não contem com ela para nada. Jefferson dizia que "cada homem [ele devia ter dito 'pessoa', mil desculpas caras cidadãs] tem duas pátrias e uma delas é a França". Sinto-me mais órfão.

segunda-feira, maio 30, 2005

Oh la la

E aquilo que se receava, pelos vistos, aconteceu. A França votou "Não" no referendo de ratificação do Tratado de Constituição Europeia. Há que entender várias coisas. Ponto número 1, os franceses, tal como nós, estão descontentes com as taxas de desemprego e com o défice. Basicamente, desta vez, a culpa é mesmo do Governo. Ponto número 2, os franceses usaram o referendo contra o Governo, querendo bem saber da União Europeia.
Isto é sintomático de um grave afastamento da sociedade civil europeia face aos assuntos europeus. O tal afastamento que foi combatido (de forma muito fraquinha, muito pobrezinha, como diria Ricardo Araújo Pereira) no processo de elaboração do texto (na Convenção da qual ninguém ouviu falar, com representantes que apresentam um consenso político, depois das dificuldades de aprovação do texto de Nice?Hum...) e que não provocou alteração nenhuma no marasmo da sociedade europeia.
Neste momento, ninguém avalia muito bem o impacto, mas quando o país fundador da CECA rejeita a ratificação de um Tratado, o impacto é muito maior do que as voltas na tumba que deve estar a dar o Jean Monnet, esse grande homem. A construção da Europa a 25, as relações internas e o efeito que externamente provoca esta rejeição são incomensuráveis.
Para aqueles que acreditam na balela federalista que lhes impingiram, este "Não" é uma vitória das soberanias europeias. Para os que, como eu, tinham este novo Tratado como um mal necessário, existe alguma apreensão. Para a massa inominada dos que nada sabem, a rejeição francesa tem tanto interesse como o aumento do IVA. O seja, enquanto não acontecer nada, nenhuma.
Quanto a mim, estarei triste. Vamos lá ver os holandeses, mas desde já prevejo um "Sim" rotundo (os franceses disseram tudo).
Europa Go.

terça-feira, maio 24, 2005

Lavar a alma

Perdoem o desabafo de mais um testemunho benfiquista.

Pronto. Só agora caí em mim e interiorizei completamente que o Benfica é campeão. Até agora tenho estado estupidificado de alegria e incredulidade. Desde que vi o Nuno Assis a invadir o campo de braços abertos (porque à minha volta o barulho dos festejos, ensurdecedor, impedia-me de ouvir o que fosse) que me custa acreditar. Durante anos chorei só de pensar na alegria do momento, e o momento apanhou-me a chorar de alegria no Domingo.
Não interessa que tenha sido um sofrimento ver o Benfica jogar: merecemos como mais ninguém ganhar este campeonato porque não nos armámos em cromos da bola que jogam bem quando lhes apetece, nem nos encostámos à sombra dos títulos do ano passado, como aconteceu com a concorrência mais directa (e como aconteceu connosco durante os últimos onze anos).

Merecemos este campeonato porque soubemos fazer uma omoleta sem ovos e ir mais além do que permitiam as nossas pernas.
Merecemos os parabéns porque quisemos mais que os outros ganhar o campeonato.
Merecemos todas as manifestações de ódio e de mau perder que se seguiram, porque elas apenas nos engrandecem, na mesma medida em diminuem os que as fazem.
Não somos melhores, não somos piores, não somos diferentes, não somos moralmente superiores, não somos uma ideologia nem uma forma de estar na vida.
Somos o Benfica, e isso é mais do que tudo o resto junto.

segunda-feira, maio 23, 2005

O Relatório Vieira

SLB - 1 . Défice - 0. O país parou. Ondas de choque encarnadas encheram o país. Cachecóis varrem as ruas. As pessoas choram. O Benfica é o maior.
Quis o destino ser irónico e trazer-nos o défice nesta gloriosa segunda-feira. Fico chateada, concerteza fico chateada. Então dão-me estas notícias assim de chofre, num dia em que ninguém e sublinhe-se ninguém, quer saber? Daqui a nada andamos só de cachecol enrolado porque ninguém tem tanga, faltam dois mil milhões de euros para a saúde e para a educação, o défice é de de quase 7%, o país está à beira da ruptura e eu pergunto: mas o que é que isso interessa?
Fico entretando deprimida. Oiço as "Papoilas" mas daqui a pouco fico sem emprego, pois isto de trabalhar a prazo para o Estado foi chão que deu patacas e tenho de viver à custa do mesmo Estado que não tem dinheiro para a abrir uma vala no chão, quanto mais para a mim...
Viva o Benfica. Como dizia o outro, foi bonita a festa pá...

A última vez

6,83% de défice orçamental. É o Banco Central que o diz.

Geralmente, um défice das contas públicas desta dimensão não é grave para um país em desenvolvimento como Portugal que tem que aproveitar os fundos europeus para recuperar décadas de tempo perdido. Sabemos que sem comparticipação do estado em centenas ou milhares de projectos co-financiados pela UE, o bolo dos fundos europeus à nossa disposição fica por consumir. Um défice não tem nada de grave. Um país não é uma mercearia.

Mas estamos no PEC. O que o PEC revisto diz é que os países que passaram do 3% têm que demonstrar de forma credível que, num período de tempo razoável, conseguem aproximar as contas públicas do tal défice orçamental de 3% do PIB. Resta saber se este governo tem à sua disposição as condições para escapar a punições da Comissão. Para todos os efeitos Bruxelas não está interessada em aplicar castigos pró-cíclicos, que acentuem a crise das contas públicas. A Comissão não é nem estúpida, nem o papão que a direita andou a vender.

Independentemente do desenlace: se a direita volta a falar da "irresponsabilidade" do PS nos próximos 50 anos, eu fico, tipo, género, chateado.

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1223975&idCanal=63

segunda-feira, maio 16, 2005

E de repente, vindo do nada

Numa praia de Inglaterra um homem apareceu a vaguear, vestido de fato de cerimónia e ensopado. Recolhido por assistentes sociais, recusou-se a falar. Apenas desenhou um grande piano num papel que lhe deram. Chegado ao hospital psiquiátrico tocou horas a fio um repertório clássico de primeira qualidade, e por enquanto é só isto que tem a dizer.

História
de um homem perdido no mundo.

sexta-feira, maio 13, 2005

Quem ganhar que ganhe por bem...

Não posso deixar este dia em branco. É sexta-feira treze e dia de aniversário de aparições. Duas forças cósmicas em confronto, pelo que considero a conjuntura ideal para falar do meu (e nosso Benfica). Num blog sério como este, oportuno e inteligente, não posso deixar de expressar o meu oportunismo e boçalidade dizendo: O Benfica é o maior. Toda a gente sabe disto, mas ainda ninguém conseguiu admitir que a vitória do Glorioso é um gigantesco passo em frente para a evolução deste nosso país que anda tão triste. Reparem: 6 milhões de pessoas felizes (parte delas a acender velas em tudo o que é Igrejas e Capelas deste nosso país, incluindo em Fátima), trabalhando durante um ano com o papo cheio (sim, porque a Taça também é nossa) e a gozar com tudo o que é gentalha de outras cores desportivas. Há lá melhor cenário que este? Pensem nos litros de cerveja e leitões e presuntos e coisas assim que se venderão após esta histórica vitória. Pensem nos milhões de Bolas e Records e Jogos e afins que irão entrar em circulação. Pensem bem nos sectores económicos que por trás disto estão. Aquando da gloriosa Taça do ano transacto, já o ministro dissera o mesmo que eu, por isso entendam que é melhor para o país que o Benfica cilindre o Sporting e o Boavista.
Perdoem-me o desabafo, mas não consigo, como fanática da bola que sou, pensar noutra coisa. Desta vez não cumpri os rituais a que me proponho sempre que é jogo grande, mas não sou supersticiosa (Sexta-Feira 13 - 0 Fátima - 1). Nem consigo comentar a moção de censura que querem aprovar ao Durão Barroso, nem nada que se passe neste país e no Mundo. O Benfica vai ser campeão e amanhã vamos ganhar. Isto é uma certeza, para mim e para seis milhões. Havendo fé, tudo se consegue (lembrete: aplicar esta fé para coisas realmente produtivas, como a evolução e crescimento do nosso país).
Até domingo, estamos fechados para balanço.

quinta-feira, maio 12, 2005

Memória: D. António Ferreira Gomes

Há 99 anos nascia D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que Salazar quis pôr na ordem. Exemplo de cidadania, D. António ousou pedir, apenas, "o respeito, a liberdade e a não descriminação devidos aos cidadãos honestos em qualquer sociedade civil".
D. António foi perseguido pelo regime por se recusar a fazer da Igreja instrumento político, quando Salazar queria que a Igreja alinhasse na unidade do regime. O bispo do Porto recusou-se a debater política, o que, para altura, não podia ser maior afirmação política.
Mas ainda assim abordou temas como a condição social dos traalhadores, e é que é apontado como um teórico da democracia em Portugal, defensor da separação da Igreja do Estado, dos direitos humanos. "O famoso bispo do Porto"(tratamento com o qual João Paulo II se lhe dirigiu) apenas queria que o Estado cumprisse o seu dever, e que deixasse a Igreja cumprir o seu.
D. António foi um homem da Igreja que não voltou as costas ao mundo, o que é mais do que se pode dizer da maior parte do clero de hoje.

Isso não era para aqui chamado, acho eu...

Público: Padre considera aborto mais violento do que matar uma criança.

Sabe-se agora que na missa de 7.º dia da menina de 5 anos que apareceu morta no Porto, vítimas de inenarráveis maus tratos, o padre proferiu estas declarações na homilia: uma criança no ventre da mãe "não se pode defender", enquanto que "uma criança de cinco anos pode reagir, pode chorar, queixar-se". De onde concluiu o que acima se citou.

Nem sendo preciso entrar pelo aproveitamento que se faz da situação para apregoar uma posição política, parece-me ser forma pouco feliz de confortar dizer: "Deixem lá, há mortes piores".

57 anos de Israel

Façam de conta que estão a ler isto no dia 14 de Maio.

Parabéns a Israel pelo 57º aniversário. Que conte muitos mais.

A Declaração de Independência, para quem estiver interessado:

http://www.yale.edu/lawweb/avalon/mideast/israel.htm

quarta-feira, maio 11, 2005

O Parlamento Europeu

Quero partilhar com todos os leitores da Bóina um facto verdadeiramente edificante.

O Parlamento Europeu é constituído por dois edifícios principais: Altiero Spinneli e Paul-Henri Spaak. Estes estão por sua vez unidos por um corredor ao qual se tem acesso no 3º andar. O corredor de que falamos é a aorta do parlamento, a artérea vital da instituição. Ora ao aproximarmo-nos do tal corredor somos confrontados com inúmeros artefactos (suponho que 25) oferecidos pelos parlamentos dos Estados Membros ao Parlamento Europeu. Numa mistura bastante heterogénea de documentos antigos, arte moderna e quinquilharia, que simboliza de forma exemplar a diversidade estonteante de uma Europa de Tallinn a Roma, de Dublin a Atenas, qual não foi o espanto deste cidadão quando se viu perante o busto austero de uma República. Clássica. E sim: com a Bóina. Presenteada ao Parlamento Europeu pela Assembleia da República Portuguesa.

E tenho que admitir - e digo-o porque sei que vocês (sic) não vão espalhar por aí - que senti uma espécie de orgulho patriótico.

Não acho piada a um Rei fundador sanguinário, repugna-me um conceito de nacionalidade que parece não conseguir emancipar-se da mitologia dos Descobrimentos, verdadeiro desastre cultural, demográfico e ambiental para grande parte da Humanidade e muito menos me revejo no imperialismo marcadamente obscurantista que marcou a história portuguesa até '74.

Mas a República Portuguesa, essa sim, é uma criação com a qual me identifico e em cujo destino quero participar. Parabéns à nossa República por se ver representada no Parlamento Europeu, não por uma nau, um aventureiro ou um mapa de 500 anos, mas sim por um busto que simboliza valores eternos.

terça-feira, maio 10, 2005

Manuel Sergio - Levantei-me e fui-me embora

Tropecei hoje acidentalmente com a apresentação do livro do Fernando Correia intitulado "Espelho d'Água". Creio que fiz o que qualquer pessoa sem nenhum compromisso urgente faria, sentando-me numa das poucas cadeiras vagas, feito nêspera, "a ver o que acontecia".

Falou o editor, depois o Amigo Carlos Pinto Coelho e por fim o simpático jornalista, professor, autor do livro e apresentador da "Bancada Central". Foi nesta altura que o simpático e afável Fernando Correia decidiu dar a palavra a um quarto personagem a quem chamou o seu Mestre, que estava na primeira fila da assistência, estrategicamente incógnito para não afugentar potenciais compradores.

Imaginem o meu assombro quando vejo levantar-se a custo da primeira fila o Professor Dr. Manuel Sérgio, ex-líder do ex-PSN, que eu pensava tão extinto como este. A inércia venceu e, apesar de me parecer que tudo o que não tinha para fazer estava subitamente mais urgente, deixei-me ficar "a ver o que acontecia".

Veio o velho e zás! Desata num discurso sobre o Fernando Correia ser o último Homem da rádio, numa linhagem irrepetível, porque "naqueles tempos" saudosos havia uma elite mais pequena que não cometia os erros gramaticais destes jovens jornalistas de hoje. Eu apenas refiro, em defesa dos jornalistas de hoje, que era mais fácil na altura, já que os textos eram corrigidos e revistos por mais pessoas.

Neste ponto da apresentação do livro levantei-me e fui-me embora. Aprendi que "naqueles tempos" éramos censurados mas gramaticalmente correctos, aprendi sobretudo que para algumas pessoas como o Professor Manuel Sérgio isso era mais que suficiente.

sexta-feira, maio 06, 2005

Swiftly and with style

Com permissão do Monsieur Alphonse de "Allô, Allô" para usar o slogan da sua agência funerária, foi assim que decorreu a General Election na Velha Albion. Apenas 3 semanas após a dissolução do parlamento para o efeito, as eleições estão arrumadas e os ingleses podem seguir com as suas vidas - aliás, uma eleição não é coisa que atrapalhe: apenas mais uma tarefa quotidiana a cumprir. Por cá ainda se deixa o governo cessante uns meses a vegetar em estado de gestão, ou a afundar o que ainda não está afundado.

Tony Blair aproveitou a singularidade do sistema que lhe permite escolher o momento em que o eleitorado está no ponto para pedir a dissolução à rainha e a marcação das eleições. Ganhou, embora com a margem mais reduzida com que um primeiro-ministro alguma vez ganhou umas eleições na Grã-Betanha. O que interessa é que ganhou, e interessa sobretudo para garantir uma margem de projecção ao seu ministro Gordon Brown - assim, Blair pode sair a meio e permitir que o Labour recupere do desgaste que a sua imagem causa.
Mas é curioso ver como a Grã-Bretanha quebra unanimismo bipartidário da maioria das democracias ocidentais com a solidificação do Partido Liberal-Democrata, pelo menos em número de votos.

A vitória de Blair demonstra que não adianta haver uma guerra mentirosa se o povo tem pão para comer e o principal partido da oposição tem um banana como lider. Como diz o outro, «It's the economy, stupid!».

E amodorrados vamos...

São três da manhã de um dia destes e faço zapping na tv em casa de um amigo, conversando sobre qualquer coisa, depois de assistirmos a um documentário qualquer sobre qualquer coisa que se bem me recordo se assemelhava aos esgotos de Nova Iorque. No belo canal RTP Memória, depois de 79 voltas consecutivas aos 18 canais que tem aquela bela televisão, ficamos pasmados a olhar para João Paulo II que fala. "Olha o Papa" - exclama ele. "Ex-Papa" - digo eu. E ficamos a olhar como que maravilhados. Num português abrasileirado o Papa diz qualquer coisa como "aborto", "pecado", "assassinos". Olhamos um para o outro e dizemos sem pensar "Ei", enquanto eu mudo de canal.
E assim se vão passando os dias. Ainda me lembro, era eu jovem, de chorar quando a nova lei do aborto não foi aprovada na AR. Na altura, parece-me a mim, tinha alguma consciência social ou coisa que o valesse. Hoje em dia, o Presidente recusa-se a convocar um referendo porque alega a ida de férias dos portugueses como factor dissuasor do sucesso deste. Reacção: com que dinheiro é que os portugueses vão de férias? Por que motivo ainda não se veio dizer que os referendos em Portugal dão tanta legitimidade a uma alteração legislativa como tomate pelado numa salada de tomate com pimentos? Ainda ninguém entendeu que nenhum português se levanta da poltrona para votar em assuntos sociais, ou mesmo, NADA?
O nosso Primeiro Ministro, homem astuto e silencioso, inflexível e autoritário, não percebeu que esta questão do aborto foi chão que deu uvas? Pois digo-lhe eu: pãozinho para a boca e a malta vota toda.
E assim passo eu os dias, a ver o Benfica jogar.
Se o país continua assim, qualquer dia começo a ver a Cabocla em repetição no GNT.

terça-feira, maio 03, 2005

Bóina Museum of Fine Arts



Faz hoje 204 anos que foi aprovada a constituição polaca, ou melhor, a Constituição da Comunidade Polaco-Lituana, que foi a segunda constituição codificada do mundo (depois da americana de 1787) e a primeira da Europa (por causa da especificidade da constituição inglesa).

Vem isto a propósito de quê?
De nada, mas achei o quadro bonito.Posted by Hello

segunda-feira, maio 02, 2005

Enfim, temos de fazer pela vida...

No dia em que se soube que Paulo Portas vai ser agraciado por Donald Rumfsfeld com uma condecoração dos EUA por serviços prestados ao país (e que, por alguma razão, raramente é atribuída a estrangeiros), Santana Lopes dá uma entrevista à SIC na qual, enquanto mostra algumas das suas obras, dá conta de que já fez planos para a sua vida profissional depois de sair da presidência da Câmara de Lisboa: vai voltar à advocacia, que é a sua profissão (sou só eu que noto a ironia nesta declaração?), e trabalhar como consultor internacional para algumas empresas porque «enfim, nisto de ser primeiro-ministro vão-se conhecendo algumas pessoas em África, na América na Ásia», e tal.

Para a península vem mais um prémio de consolação, depois do que foi atribuído a Aznar o ano passado, embora o distinguido não seja o chefe de governo derrotado - a menos que Donny Rumsfeld saiba algo que nós não saibamos, tipo quem é que mandava no governo.
E afinal parece que não havia tanta gente a querer o mal de Santana. Agora todos o querem. Pode ser que faça de vez as pazes com a vida.

Assim é que é bonito: os amigos são para as ocasiões.

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril Sempre


O dia em que todos fomos umPosted by Hello

domingo, abril 24, 2005

«Ó Sócrates, importas-te de devolver aquela moldura que os rapazecos enviaram para aí?»

O que aconteceu este fim-de semana no congresso do CDS foi bonito.
Telmo Correia quis sentir-se desejado, esperando que as massas estivessem em ponto de rebuçado para conceder a graça de ser presidente.
Enquanto isso, um militante ilustre mas longe do círculo da sucessão fez o trabalho de casa e disse o que pensava. Ser genuíno levou-o a presidente, o que é uma conquista democrática num partido aristocrático e habituado a sebastianismos.
Apesar de estar nos meus antípodas em termos de ideologia, tenho o maior dos respeitos e simpatia por Ribeiro e Castro desde que o vi subir ao pódio numa Assembleia Geral do nosso Benfica para exigir eplicações a Vale e Azevedo. Nessa altura tentou abrir os olhos a uma multidão ensandecida para evitar o desastre que aí vinha, e a única coisa recebeu em troca foi desprezo, humilhação e acusações desonrosas de anti-benfiquismo vindas daqueles para quem só era benfiquista que era a favor do presidente. Depois lá se viu que o presidente era o que era.
Este fim-de-semana Telmo Correia entrou papa e saiu cardeal. Ribeiro e Castro ganhou, como o próprio disse, «sem tropas nem exércitos». Pelo menos nesta semana há uma eleição que não faz temer o pior.

terça-feira, abril 19, 2005

A Implosão da Igreja Católica Apostólica Romana


Bento XVI, o Sinistro Posted by Hello

Perdoem-me os leitores a minha queda para cenários catastrofistas, e a veleidade com que faço este vaticínio.

A Igreja Católica surpreendeu por não ter surpreendido: a instituição que há séculos melhor gere o seu marketing elegeu para monarca absoluto (passe a aparente antítese) alguém que sempre se esperou - e temeu. Ratzinger não é o congregador do rebanho de Deus como o foi Karol Woijtila. Não é alguém que vá à procura do mundo, mas antes alguém que espera que o mundo se renda à Igreja. Não é alguém que estabeleça pontes, mas antes aquele que na sombra do último pontífice mais trabalhou para que a Igreja fosse um monolito de intransigência.
Ratzinger foi a face obscura do Vaticano, provavelmente aquele que efectivamente detinha o poder, concumitantemente com a Opus Dei. Um trabalho destes leva anos a edificar e não se pode perder só porque morre um pontífice. Há, por isso, que cuidar para que o legado não se perca. Foi o que se viu.

A Igreja de Ratzinger deixará de fora todos os que procuram mais a autenticidade da mensagem de amor, solidariedade e fraternidade humana de Jesus de Nazaré do que a doutrina que sobre ela foi erigida pelos doutores da fé ao longo dos séculos.

Uma coisa que nunca percebi no pontificado de João Paulo II foi como pôde ele ser um líder tão respeitado e acarinhado pelas restantes religiões não tendo abdicado do dogma de que só há salvação na Igreja Católica Apostólica Romana. Ou seja: como é que se inicia um diálogo quando se estabelece à partida que só eu é que tenho razão?

A bondade da mensagem de Cristo é universal, válida para crentes e não crentes, desde que expurgada de interpretações doutrinárias e abordagens farisaicas como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Esta é a perspectiva que falta a Ratzinger(o polícia da fé, na expressão de um seu biógrafo), para quem é o mundo que tem de prestar vassalagem a Cristo e à Igreja (embora não necessariamente por esta ordem).

Em abono da fraternidade universal entre os povos, valha-nos o facto de ser um papa de transição. O seu sucessor que apanhe os destroços.

quinta-feira, março 24, 2005

O Pai do Capitão Nemo


O Capitão Nemo levanta a sua bandeira e contempla os amanhãs que cantam Posted by Hello

Júlio Verne morreu há cem anos. Pretexto para falar do Capitão Nemo - uma das personagens mais bem trabalhadas que conheço na literatura.
É curioso dizer isto de um personagem de Júlio Verne, que, apesar de ser um dos mais celebrados romancistas do séc. XIX, privilegia a acção e o conceito da história sobre a densidade dos personagens, embora não se saia propriamente mal neste aspecto.
O Capitão Nemo é um indiano de linhagem real que se devotou à ciência e à causa da libertação dos povos contra a Némesis opressora do Império Britânico. Isto leva-o a aproveitar a tecnologia desprezada por muitos para construir o prodigioso Nautillus, que usa para percorrer o mundo através do fundo do mar, explorando-o, conhecendo-o e amando-o. E pelo caminho aterrorizando as frotas mercantes das potências mundiais. O mar torna-se a sua pátria.
O Capitão Nemo nutre um profundo gosto por tudo o que é belo, acumulando no seu submarino um impressionante acervo de obras de arte, e é dono de uma cultura sólida e despretensiosa, o que o faz uma versão engagé e menos diletante do nosso Fradique Mendes.
Apesar disso, o seu principal propósito na vida é libertar o mundo da opressão, dedicando-se a acções de combate nos mares e financiando movimentos de libertação nacional com recursos que obtém do mar.
O que Nemo faz é pela fraternidade humana, mas a questão que vai passando pela cabeça de quem lê as 20 000 Léguas Submarinas é: este homem não é um terrorista?
Provavelmente, sim. Isso faz-nos gostar de terroristas? Não.
A maravilha da personagem de Nemo está em ser herói e anti-herói, e em nos fazer empatizar com ele sem nos exigir um juízo de moralidade. Um pouco como que a dizer que em todos nós há algo de bem e de mal (se é que existe o bem e o mal).
Júlio Verne era um paladino do progresso científico, mas se não tivesse criado personagens como o capitão Nemo seria apenas um especulador, nunca um visionário.

sexta-feira, março 18, 2005

Tremenda desilusão

A esquerda moderna, progressista, que pugna por valores emancipadores, verdadeira herdeira dos valores laicos e republicanos que tão caros são aos autores deste blog, essa esquerda é fácil de encontrar: está em Espanha. Quanto mais acompanho os primeiros passos deste governo, mais temo que a liderança do PS tenha permanecido imune ao entusiasmo que grassa entre as forças progressistas ibéricas, e que tem as suas raízes na coragem do governo Zapatero em se dedicar aos temas da igualdade de género e dos direitos da comunidade gay.
Só alguns elementos para esclarecer o que acima foi dito (para um resumo fantástico da situação sugere-se a leitura do artigo da revista Visão de hoje, p.65): duas mulheres em 16 ministros; 3 mulheres em 36 secretários de estado. Porquê? Porque, aparentemente, segundo o PM, entre milhares de mulheres militantes socialistas e 5 milhões de portuguesas, não existem cidadãs com o mérito, a capacidade técnica e a visibilidade política necessárias para contribuir para um governo mais representativo.
Trata-se de um retrocesso em relação ao passado, uma distorção da presente realidade social do país, e, acima de tudo, uma oportunidade perdida para o futuro da modernidade portuguesa.

quinta-feira, março 17, 2005

Já não estava habituado

É verdade que depois de 4 meses de Santana Lopes as expectativas em relação à coerência dos governantes atinge níveis inacreditáveis. Talvez venha daí o meu espanto quando li a notícia Programa de Governo mantém principais bandeiras eleitorais do PS.
Então não é que os tipos mantém a mesma opinião passadas tantas horas de terem elaborado o programa eleitoral?! Nem sequer uma contradiçãozinha?!?! Nem sinal de uma proposta tipo esta for old times sake ?!

Portugal Antes de Santana e Depois de Santana


Posted by Hello

quarta-feira, março 16, 2005

And now for something completely different...

Para uma pequena ideia do que é dito nos media do Médio Oriente - especialmente em árabe - sobre assuntos tão diversos como Israel, gays e o 11 de Setembro, vale a pena vir aqui. Bastante edificante.

Lobby da batota


No Público online deparamos com uma informação muito esclarecedora, a respeito de um inquérito sobre a venda de medicamentos em supermercados. A pergunta formulada pelo Público é a seguinte: "Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?"
Num contexto em que apenas a Associação Nacional de Farmácias e a Ordem dos Farmacêuticos se pronunciam contra a medida anunciada pelo Primeiro-Ministro e em que a venda dos fármacos é tida por segura pelo Bastonário da Ordem dos Médicos e por benéfica para os consumidores pela DECO, este episódio vem esclarecer as dúvidas que ainda pudessem subsistir quanto à identificação de lobbies e interesses instalados nesta matéria.

Muito obrigado, sr. ex-Prim... uhm.. Presidente da Câmara!


A Boina Frígia vem por este meio agradecer ao recém-regressado Presidente da Câmara Municipal de Lisboa todo o seu empenho em não deixar a blogosfera sem assunto de conversa, a sua contribuição insubstituível para o florescer de centenas de milhares de linhas de textos humorísticos e satíricos e a sua capacidade para nunca deixar de nos surpreender.

De uma assentada temos direito à existência de novo tabu - a recandidatura - e a uma potencial guerrilha interna despoletada num PSD em clima de pré-Congresso: Aguardam-se certamente declarações de Luís Filipe Menezes para breve - se Rui Rio passou de bête noire a candidato mais indicado para a Câmara do Porto, também Santana estará em condições de recolher um apoio incondicional do autarca de Gaia.
Santana Lopes está determinado em demonstrar que em política se morre muitas vezes. O que é de admirar é a impaciência em recolher a nova certidão de óbito...

terça-feira, março 15, 2005

Nostalgias

Maria José Nogueira Pinto, em entrevista recente, deu mais uma vez provas do desconforto da extrema-direita do nosso espectro político com a democracia portuguesa, tal como ela se instalou em 1974. Ficamos a saber que "Portugal não tem um projecto nacional desde 1974" e que antes da Revolução de Abril "bem ou mal, goste-se ou não se goste, Portugal tinha um projecto nacional." A nostalgia mal contida parece-me pouco menos que obscena, tendo em conta tanto os crimes cometidos pela ditadura antes da Revolução, como os avanços em todas as áreas da vida colectiva do país desde então. Exemplos que MJNP provavelmente considerará boçais, são os números do Human Development Index das Nações Unidas sobre Portugal: em 1970, a taxa de mortalidade infantil (à nascença) era de 62/1000, em 2002 era 6/1000. Isto tem um nome: progresso. Deixe lá estar o 'projecto nacional', cara MJNP: um país que deixa a população doente, pobre e ignorante, e obriga milhões a abandonar as suas aldeias, vilas e cidades à procura de uma vida mais digna pelos quatro cantos do mundo não é um país, é um fracasso.

segunda-feira, março 14, 2005

Torquemada, esse querido

Há muito tempo que a coluna de opinião de João César das Neves no DN ameaça tornar-se um caso sério de humor, ainda que involuntariamente. Aqui na Bóina já temos o hábito de lhe dar um tratamento, embora não queiramos tornar o senhor num previsível ódio de estimação.
Contudo, é inevitável referir algumas passagens inspiradoras da doutrina cesarista, como é o caso do texto desta semana:

"A Igreja é hoje desprezada, insultada, perseguida. Isso é normal e comum. Foi sempre assim ao longo dos séculos, de uma forma ou de outra. Os evangelhos avisam-no, os salmos, profetas, epístolas e a História descrevem-no."

"Nos últimos dois milénios o mundo, que tantas vezes condenou a fé, instituição, política, missionação ou doutrina social da Igreja, concordou em geral com a sua moral sexual. Não era seguida e muita gente fazia o contrário, mas todos, mesmo os que a violavam, sabiam que a visão cristã da sexualidade era equilibrada, sábia, louvável."

E JCN faz mesmo referência às constantes e aborrecidas alusões às Cruzadas e à Inquisição feitas pelos que "censuram por intolerância e obsessão aqueles que apenas formulam a posição cristã", como o bondoso padre Lereno Dias, brutalmente enxovalhado apenas por lido trechos de documentos da Santa Sé no sermão de uma missa transmitida pela rádio.

É que, como se sabe, "a Igreja, aqui como sempre, tem as posições mais elaboradas e fundamentadas de todas".

Só esses malvados é que não vêm: "Voltam as alusões às clássicas cruzadas e Inquisição e apregoa-se o perigo de prisões e fogueiras que só existe em imaginações incendiárias. Os cristãos receberam ordens de combater os erros mas amar sempre os inimigos."

Porque afinal de contas, Torquemada era um sujeito adorável. Só não vê quem não quer ver.

sexta-feira, março 11, 2005

O que se segue?

"Vídeo do Vaticano mostra primeiras palavras do Papa depois da operação" Penso que é apenas justo perguntar: com que imagens nos irá brindar o Vaticano de novas estreias post-op do papa? Será mesmo verdade que as primeiras palavras do Papa no recobro da operação foram uma benção? Será que o papa fala Kiswahili com os "prelados da Tanzânia", nomeadamente com o cardeal Polycarp Pengo e o bispo Severine Niwemugizi? Será que o Cardeal Polycarp Pengo ficou satisfeito com o curto "está bem" do Papa?
Penso que a pergunta mais relevante é: Será que tudo isto tem interesse suficente para ser referido no site de um dos mais lidos diários Portugueses (sem contar com os desportivos)?

Mourinho a Presidente da Junta

"Qualquer dia, em vez de «isto só lá com um Salazar» vai-se ouvir dizer «isto só lá vai com um Mourinho»".
O Luís Delgado já o disse, como se pode ver aqui.

quarta-feira, março 09, 2005

Israel

O conflito Israelo-Árabe e Israel, em particular, são temas que esporadicamente me fazem sentir desconfortável na minha pele de 'esquerdista'. Da menina dos olhos da esquerda europeia, o Estado de Israel foi gradualmente gravitando em direcção a um estatuto de 'bête noire'. O mais tardar depois da Guerra dos Seis Dias em 1967, em que Israel conquistou a Península do Sinai, Gaza e a Cisjordânia, o pequeno país foi lentamente adquirindo as caracterísiticas de tema unificador de uma esquerda saudosa de grandes narrativas, causas, paixões. Esta tendência agravou-se evidentemente a partir do fim da Guerra Fria: o colapso da única alternativa ideológica às formas de organização política e económica europeias e americanas com vocação global, deixou-nos a todos com a horrível sensação que já só se discutem pormenores, detalhes, minudências. A grande narrativa marxista foi - algo injustamente - arrastada para o baú das memórias juntamente com os regimes ditatoriais do Leste da Europa. Tirando a Coreia do Norte e Cuba, há poucos estados que não levem a cabo reformas mais ou menos alinhadas com os consensos globais resultantes do colapso do sistema de Bretton Woods e do Muro de Berlim. Aparentemente, até o Mundo Árabe está a acordar por razões várias para as vantagens aparentes da abertura económica e política. Sem querer embarcar num discurso teleológico e/ou determinista, dá-me a impressão que caminhamos para uma situação em que os consensos vão progressivamente ocupando a maior parte da acção política, fazendo com que os grandes debates sejam empurrados para a esfera da política internacional. No caso português, a participação no projecto europeu, e o Pacto de Estabilidade e Crescimento em particular, são exemplos de compromissos estruturais que reflectem esses tais consensos fundamentais sobre questões tão variadas como política monetária, direitos humanos, ambiente etc. Que saudades, dirão alguns, das grandes lutas, dos tempos em que a política ainda movia multidões! Que saudades de temas verdadeiramente fracturantes! Enfim, que saudades de assuntos em que o zelo emancipador da esquerda pode ser posto à prova! Estamos fartos de discutir banalidades anestesiantes! Iraque: mandamos 120 tipos a cavalo ou 0? Economia: combatemos o desemprego com a melhoria das qualificações e com a diversificação do sector productivo ou com o relaxamento das leis laborais e a simplificação do sistema fiscal, acabando com o princípio redistributivo? Política monetária: não há debate, quem manda é o Ecofin, o Eurogoup e o BCE; Finanças públicas: 3%, 3%, 3%...
Eureka, ouve-se de Braga aos Urais! De Inverness a Palermo! Finalmente encontrámos os 'bons' e os 'maus': tanques contra crianças; um Estado armado até aos dentes contra civis; opressão contra resistência; a testa-de-ponte de Washington contra a encarnação colectiva da injustiça global. Os nossos medias confundem datas, factos, manipulam notícias etc, mas não se trata aqui de má fé. Trata-se, sim, de um grande alívio: finalmente podemos dormir descansados. Somos consumistas, só conhecemos manifestações das histórias dos nossos pais, gravitamos qual aristocracia global acima da miséria que aflige dois terços da humanidade: mas pelo menos chamamos nazis aos israelitas, comparamos Jenin a Auschwitz, dizemos que "eles deviam saber o que isto é; eles sofreram isto na pele", comparamos Sionismo ao Apartheid, sussuramos que "no fundo só deixaram que se fundasse aquela aberração daquele estado porque tinham má consciência", "aquele estado só causa problemas", "o maior perigo para a paz mundial"... Uma pequena novidade para a esquerda entusiasmada pelo conforto deste último conflito entre opressores e oprimidos: o 'problema', meus caros, não é o Estado de Israel, o 'problema' não começa em 1948. O 'problema' já existe há séculos nos ghettos, nos Staedtl, nas ruelas e nas grandes praças de todas as capitais europeias - com especial ênfase para o nosso Rossio. Para os Judeus, Israel não é o 'problema'. É a solução do 'problema' que nunca foi resolvido, que foi sendo arrastado, que foi assumindo diferentes formas, até que em 12 terríveis anos se esclareceram as últimas dúvidas, se ouviu o canto de cisne da experiência singular do judaísmo europeu, que tanto enriqueceu o nosso continente. O 'problema', cara Esquerda, é que a Europa, o Iluminismo, a Modernidade, falharam na assimilação e/ou na aceitação da diferença do Judaísmo no seu seio; o 'problema' é que nunca a Europa conseguiu fazer os Judeus esquecer Jerusalem, Israel.
Israel é a solução. E se os Judeus aprenderam alguma lição com o passado é que só podem confiar neles próprios para sobreviver. Trata-se agora de salvar a alma de Israel e não deixar que a legítima defesa passe a justificar toda uma panóplia de injustiças, violações do direito internacional, e a brutalização da sociedade. Para aqueles que não conhecem Israel só do Público, do telejornal e das conversas com os amigos, há todas as razões do mundo para ser optimista. Numa conferência organizada pela Fundação Friedrich Ebert (julgo que nos finais de 2003), e em que tomou parte, entre outros, Yossi Beilin (agora deputado pelo partido de esquerda - sim, de esquerda -Yahad-Meretz), este afrimava-se convicto, ao contrário da maior parte dos israelitas, que Yasser Arafat "merecia mais uma hipótese", mas apelava áqueles que demonizavam Sharon a dar-lhe igualmente o benefício da dúvida. Trata-se de afirmações corajosas de quem não teve medo de remar contra a maré, numa altura em que Arafat estava completamente desacreditado e Sharon tinha reocupado grande parte dos Territórios.
Hoje a situação é outra. Sharon, por motivos aparentemente oportunistas, tomou uma iniciativa unilateral: abandonar Gaza. Sharon, o "carniceiro", o "assassino" etc, abandonará Gaza. Aprendemos todos uma lição já antiga: no Médio Oriente nada é previsível - o governo de Begin, de direita, faz a paz com o Egipto em 1979, Rabin assina Oslo em 1993, Barak retira do Líbano em 2000, Sharon arrisca a maioria parlamentar, o governo e a vida para retirar de Gaza em 2005.
Para concluir, em nome da defesa dos direitos dos Palestinianos, certos sectores e indivíduos que se dizem de esquerda irrompem regularmente em delírios anti-sionistas, e até anti-semitas. Claro que este fenómeno tem a ver, até certo ponto, com a ignorância dos factos históricos, ao mesmo tempo que revela, no recurso permanente ao simplismo, o saudosismo pelas grandes narrativas. De facto, reflecte acima de tudo, uma tentativa de apresentar Israel como uma mera extensão dos EUA, um capricho da super-potência, criatura dos Poderosos, aberração neo-colonial. Israel, por vezes por culpa própria, liberta os instintos mais xenófobos e obscurantistas da Esquerda. Mas o que se vai sussurando, aquilo que durante a segunda Intifada veio à superfície em conversas e artigos, é que o próprio Estado de Israel é ilegítimo, um erro, um perigo para a paz mundial.
Se isto tudo forem delírios paranóicos, ainda bem. Adoraria estar equivocado. Mas enquanto Israel sentir que a opinião pública mundial, e a europeia em particular, continuam a tratar este tema como um fetiche, um tema sobrecarregado de simbolismos que lhe são alheios, confluência de todas as frustrações, aspirações, ódios e amores daqueles que querem um mundo mais justo, enquanto este for o caso, a sobrevivência continuará a ser a legítima prioridade de Israel.

terça-feira, março 08, 2005

Um pouco de Futebol - Lord Mourinho of Stamford Brigde

O Chelsea ganhou ao Barcelona e Mourinho tem assunto para não se calar por mais algum tempo.
No café onde vi o jogo foi uma festa, com toda a gente que nos últimos anos não podia com a arrogância de Mourinho a celebrar, porque agora que já não é do Porto, é de todos os portugueses.
Os portugueses festejam por causa daquela coisa muito portuguesa que é ficar contente quando os nossos fazem boa figura lá fora.
Assim, para os portugueses Mourinho é o gajo que não tem medo de se atirar com tudo para cima dos adversários e mostrar aos ingleses que o que é português é bom. Os ingleses, esses malandros que tanto mal nos têm feito ao longo da história com a sua arrogância e fleuma que só nos fazem sentir inferiores. Tomem lá para aprenderem, o melhor treinador da terra do futebol é tuga!
Mourinho não conquistou os portugueses pelo mérito que indiscutivelmente tem, mas por que é o modelo do português esperto, que pode dizer o que quer porque ninguém o cala (e sabe-se como Mourinho fica quando as coisas não lhe correm bem, como se viu quando perdeu a taça para o Benfica)
Em Mourinho os portugueses vêm o lider que gostariam de ter, o pai que nos motiva, dá carinho e manda bocas aos outros niúdos que se metem connosco, tal como faz com os seus jogadores.
Pelo que não admira que, qualquer dia, em vez de «isto só lá vai com um Salazar» se ouça «isto só lá vai com um Mourinho».
Isso é preocupante.

A minha primeira vez

Nesta minha primeira contribuição, gostaria de chamar a atenção para o dia que se celebra hoje: o Dia Internacional da Mulher. Enquanto as sociedades modernas em geral, e a portuguesa em particular, não tiverem conseguido criar uma verdadeira igualdade de oportunidades entre sexos em todas as áreas da vida pública, pugnando ao mesmo tempo por um conceito de vida privada, de companheirismo, que se baseie em simetrias, partilha e respeito entre iguais, enquanto, dizíamos, esta luta não estiver concluída, justifica-se a existência desta data.
Espero que esta nossa modesta tentativa de contribuir para o aperfeiçoamento da nossa República seja a primeira de muitas.
Viva a República!
E quando é que convidamos mulheres para o nosso blog, camaradas?

Vamos lá projectar isto

Agora que temos um counter creio que é chegada a altura de projectar este Blog, da blogosfera para o espaço exterior, criando condições para que conste do maior número de pesquisas possível do google ou de qualquer outro motor de busca.

Pensei inicialmente utilizar a estratégia banal de publicação regular de textos rigorosos com conteúdos relevantes até conseguir atenção do público e de forma sustentada aumentar o nosso recente counter. Esta estratégia, ainda que muito válida, não corresponde a um certo espírito progressista que pretendo manter no âmbito do choque tecnológico, pelo que optei pela mais imediatista publicação de palavras-chave que nos irá pôr nos píncaros dos indicadores de relevância em todas as pesquisas.

Prometo para este efeito usar "little or no offensive material, apart from four cunts, one clitoris and a foreskin and as they only occur in this paragraph you are past them now".

Mas deixemo-nos de Monty Python para procurarmos engrossar as fileiras de visitors com as mais altas patentes da "Intelligence" Estadounidense com os clássicos Kill Bush, Osama Rules, God is Alá's bitch, Free Irak, Communism, Michael Jackson sister's boobie e Free donuts. Como temos neste preciso momento algumas das mais brilhantes mentes do mundo a sondar este blog em busca de pecaminosos conteúdos anti-americanos, quero assegurar que vimos em paz e que até gostava de ver o Freitas do Amaral a cantar 'gospel' com a Condoleezza Rice ou o YMCA como o Colin Powel.

Creio que agora é mesmo só sentar-me aqui a olhar para o contador de visitors a subir desalmadamente, enquanto fumo um charuto, bebo um whisky, esboço um esgar de satisfação e leio o Lolita (+30% das pesquisas google) ou o Animal Farm (+10%) porque também nisto dos blogs há uns mais iguais que outros.

P.S. – Para quem quer ter a certeza que a Galiza é Portugal (e desfrutar de um bom filme pelo caminho) vale a pena ver o Mar Adentro e ouvir mais um sotaque Português

Nova Galeria de Presidentes do CDS-PP



Oscar Wilde do Caldas

Certamente incomodados pela impossibilidade de expulsar Diogo Freitas do Amaral do partido, uma vez que este se antecipou uma dezena de anos e saiu pelo próprio pé, o ainda Secretário-Geral do CDS recorrereu aos serviços dos Correios de Portugal (ex-CTT) e decidiu enviar a foto oficial do seu ex-líder para o Largo do Rato. A justificação mais provável deve prender-se com a necessidade de arranjar espaço para o futuro líder do partido na galeria do Caldas.
Esta traquinice deselegante é inconsciente e resultado de ausência de ponderação ou é produto do esforço concertado de dirigentes sedentos por atenção mediática gratuita a qualquer preço (incluindo o do ridículo)?

S. Pedro ligue no Canal 1 que estão a falar de si

A RTP decidiu fazer um directo a partir de uma igreja onde se rezava por chuva. Pergunta a jornalista da televisão pública:
"Sr. Padre, como é que se explica que depois de tantas novenas, tantos pedidos a Deus, continue sem chover?"

Se ela estava a falar a sério e aguardava uma explicação racional, é triste.
Se estava a tentar desmascarar alguém, confrontando o pobre pároco com a contradição entre o científico e o religioso, é do mais anticlerical a que temos vindo a ser habituados.

Apesar de tudo, aposto na primeira hipótese...

segunda-feira, março 07, 2005

Post a partir da Cova da Beira

Escrevo este post a partir da Universidade da Beira Interior, na cidade da Covilhã, uma cidade que se soube reinventar após o declínio da indústria têxtil local: a aposta na Universidade é uma aposta ganha.

Ao nível das instalações, a UBI encontra-se entre as instituições de ensino superior mais bem equipadas - estação de rádio e estúdio de televisão para os cursos de Comunicação Social, grau de informatização notável, antigas fábricas convertidas em anfiteatros e salas de aula com respeito pela traça urbana tradicional. A Faculdade de Ciências Médicas, por seu turno, representa o mais recente progresso da Universidade e vai certamente aumentar o número de alunos que optam pela Covilhã como primeira escolha.
A própria cidade ganhou novo rosto graças ao Programa Pólis: requalificação urbana, despoluição de cursos de água e aposta na proximidade à Serra da Estrela para atrair turismo.
Determinante para todos os desenvolvimentos apontados é a Auto Estrada da Beira Interior, a A23, que ao reduzir as distâncias permite à cidade colocar-se mais próximo do litoral e da fronteira espanhola (criando um potencial e muito interessante eixo universitário com Lisboa, Coimbra e Salamanca).

sexta-feira, março 04, 2005

And now for something completely different

Freitas do Amaral é o novo ministro dos negócios estrangeiros.
Confesso que gosto do Freitas. Até há bem pouco tempo eu era dos que dizia que era das poucas pessoas credíveis à direita, porque até então o via, não como alguém que imigrou para a esquerda, mas apenas como o representante da direita com juízo.

Confesso, no entanto, que me enganei redondamente.
Ele bem pode vir dizer que o faz por superior interesse da nação - mas já não há volta a dar.
Benvindo a bordo, camarada Freitas.

Tinha de ser...

No blog republicano não podia faltar o comentário ao Padre Serras Pereira, descrito pelo DN de quinta-feira como "clérigo obscuro" . Apesar daquele jornal provavelmente se querer referir ao grau de notoriedade do referido cidadão, a qualificação assenta como uma luva se considerarmos os demais sentidos possíveis da palavra (eu acrescentaria um sufixo - obscurantista é ainda mais preciso).

Desautorizado pela hierarquia da Igreja e desacreditado pela esmagadora maioria dos comentários publicados, o Zelota da semana aguarda certamente com expectativa pela próxima segunda-feira, para poder ser defendido e vindicado por João César das Neves na sua coluna semanal.

Apesar de tudo, o que eu mais admiro na opinião expressa pelo referido prelado é a insuperável capacidade para a contradição elementar: se a argumentação contra o aborto, o uso do preservativo e de outros meios contraceptivos assenta na defesa do direito à vida, como é que é possível defender que a inseminação artificial é igualmente pecaminosa? Não se destina a reprodução medicamente assistida a gerar vida humana, auxiliando casais com dificuldades em engravidar?

O DN informa-nos ainda de que o cavalheiro em questão é citado pelo Partido Nacional Renovador no seu site. Diz-me com quem andas...


Não deixa de ter piada...

Tentem explicar esta.

80 cidadãos portugueses residentes no estrangeiro (em ambos os círculos) votaram no PNR. Será que aqueles que residem em França também votam na Front National?


Residentes no Estrangeiro e Proporcionalidade

É urgente repensar a participação dos cidadãos portugueses residentes no estrangeiro na eleição da AR. Contados os votos, o PSD elegeu 3 Deputados (2 Fora da Europa e 1 na Europa) e o PS 1 (Europa). Contudo, em números absolutos de votos nos dois círculos o PS teve aproximadamente mais 1800 votos que o PSD - na soma dos dois círculos contam-se 15883 votos para o PS e 14011 para o PSD.
Os resultados eleitorais revelam ainda que uma ligeira alteração na correlação de forças pode implicar (como já implicou) uma inversão do número de eleitos. Se o PS tivesse retirado cerca de 160 votos ao PSD no círculo da Europa teria conseguido eleger os dois Deputados. No círculo de Fora da Europa, idêntica transferência de votos teria conduzido à eleição de um Deputado por cada partido. Resultado final hipotético: 3-1 a favor dos Socialistas (como em 1999).
Assim sendo, uma reforma minimalista justifica-se desde já: fundir os dois círculos como forma de garantir um melhor aproveitamento dos restos. Num cenário de círculo único, cada Partido teria obtido 2 mandatos, resultado esse verdadeiramente proporcional. Trata-se, aliás, de um medida igualmente urgente nos círculos eleitorais de pequena dimensão, particularmente Évora, Beja ou Portalegre - neste caso o caminho deve passar pela criação de um círculo único para todo o Alentejo.

Penso, contudo, que devemos ir mais longe. No Círculo Eleitoral da Europa estão inscritos 75 803 eleitores e no Círculo Eleitoral de Fora da Europa, 72 575, elegendo cada um 2 Deputados. De momento, o número de deputados a eleger pelos círculos da emigração não apresenta, aparentemente, qualquer desvio em termos de proporcionalidade face aos demais círculos. O círculo de Portalegre (elege 2 Deputados) tem cerca de 100 mil eleitores, não ficando longe do número de inscritos em cada uma daquelas circunscrições. Já o círculo de Bragança (elege 4 Deputados) tem perto de 150 mil eleitores, próximo da soma dos dois círculos de residentes no estrangeiro.

Todavia, se considerarmos que no círculo da Europa apenas votaram 30% dos inscritos e que no círculo Fora da Europa votaram 18%, facilmente constatamos que os números do recenseamento estão longe de representar a participação eleitoral dos residentes no estrangeiro. Por outro lado, se todos os cidadãos portugueses residentes no estrangeiro decidissem recensear-se (não esqueçamos que a Lei da Nacionalidade é bastante generosa em relação aos luso-descendentes), estaríamos perante um gigantesca desproporção - 4 deputados para uns potenciais 4 milhões de eleitores...

Deve, pois, haver lugar a uma reponderação profunda das regras - impondo um número máximo de anos a residir fora do território nacional como critério para o recenseamento (como o fazem o Reino Unido ou a Alemanha) ou acabando com os círculos da emigração através do recenseamento dos residentes no estrangeiro na circunscrição da sua última residência em território nacional.

Sem alterações, o quadro vigente apenas oferece algum charme, desde a expectativa de mais de uma semana até estarem contados todos os votos (particularmente entusiasmante quando uma eventual maioria absoluta depender do resultado) até ao cheirinho a jogo de futebol internacional, do tipo Europa contra o Resto do Mundo...

NOTA - O presente post foi escrito tendo por base os resultados disponibilizados no site do STAPE. Contudo, os números que se encontram nas notícias do Expresso Online e do Diário de Notícias são diferentes. O Expresso noticia mesmo que o PSD apenas elegeu o seu Deputado na Europa por 5 votos. Fica por esclarecer quais os números correctos - esperemos que sejam os do STAPE...

Diários de Referências

Confeso que hoje li o 24 Horas.
Há, contudo, uma boa razão: ao colocar um anúncio no jornal é-nos oferecida uma cópia do DN e outra do 24 Horas (é certo que podia não o ter lido, utilizando-o para embrulhar peixe ou para recortar letras e enviar ameaças anónimas, mas se assim tivesse feito não tinha agora tema para este post...).

Escreve o Director do referido jornal, Pedro Tadeu, o seguinte editorial:

"Vai uma nervoseira nos jornais da concorrência em relação aos nomes do Governo de José Sócrates. E a possibilidade de António Vitorino não ficar no executivo fez palpitar os corações de muitos jornalistas. Também se especula sobre a possibilidade de Manuela Ferreira Leite ir disputar a liderança do PSD a Marques Mendes e Menezes. É tudo, sem dúvida, muito importante para o País mas, desculpem lá o mau jeito, o que impressiona mesmo a opinião pública são os nomes das nossas novas Belas & Perigosas. Isto é que é uma equipa!"
Para quem não é leitor assíduo do 24 Horas, "Belas e Perigosas" é uma secção (que ocupa as páginas 2 e 3 do jornal), em que várias jovens modelos noticiam os pontos altos da vida social portuguesa - jornalismo crítico e acutilante, portanto.
Na óptica do director, a contratação da novos talentos para a referida coluna e a sua apresentação em estilo quasi-Maxmen é seguramente mais relevante que o futuro Governo ou a campanha interna no PSD, notícias claramente menores. Há que dar graças por uma imprensa livre e vigilante. Se assim não fosse, o público seria entediado com notícias sobre o futuro titular das Finanças em vez de ser colocado a par da Campanha "Somos pelos Cães" e da saúde da Juanita, a amiga canina de Cinha Jardim.
Levanto ainda a hipótese académica de se tratar de um sublime exercício de ironia cósmica por parte de Pedro Tadeu. Por favor convençam-me...

O frio que faz lá dentro

Mas que governo é este que se faz sem dar cavaco (está bem, a expressão é infeliz...) a ninguém?
O povo quer é circo, os abutres querem carne, e só nos dão sobriedade. Está tudo escondido com o frio ou quê?

terça-feira, março 01, 2005

Também, com o frio que faz hoje...

Hoje li uma notícia que me surpreendeu um pouco: "Associação de municípios vai processar Saldanha Sanches" . Ao que parece o Dr. Saldanha Sanches (O fiscalista) vai ser processado pelo Dr. Fernando Ruas (O camarário) por ter declarado ao "Diário de Notícias" (O Diário) que um elevado número de autarcas portugueses exigem "luvas". Até parece mentira que um jurista de renome como "O fiscalista" se negue a reconhecer o direito das pessoas se protegerem do frio. Ao menos o delator não foi o Dr. Jorge Miranda (O constitucionalista).

Após algumas breves entrevistas de rua que levei a cabo hoje apurei que José António Silva (O pedreiro), Luís Pedro Santos (O servente) e outros que preferiram manter o anonimato também têm frio e gostariam de contar com “luvas” no exercício da sua profissão, mas não têm, como os nossos autarcas, coragem (A lata) de as exigir.

O que acho estranho é que “O camarário”, suposto protector da classe, ande a exigir a “O Fiscalista” que denuncie publicamente esses corajosos colegas que lutam pelo justo direito às “luvas”, ameaçando inclusive “O Fiscalista” de o considerar “como da outra vez, um aldrabão”. Ao que “A boina” conseguiu apurar, “O fiscalista” não dorme direito desde “a outra vez”.

É neste contexto que eu apelo à sociedade civil para se organizar na oferta das “luvas” aos nossos pobres autarcas para que estes deixem de câmarear de “mani pulite” e de sofrer de frieiras e outros males. Estimo que, se todas as pessoas que já pagaram “luvas” uma vez, contribuírem com um escudo, conseguimos calçar de luvas o equivalente em autarcas a metade de uma pequena província chinesa.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Beethoven, Fidelio, Liberdade, Igualdade, Fraternidade

Assisti hoje a uma versão de concerto da ópera “Fidelio” na Gulbenkian e tenho cada vz mais a certeza que é o programa cultural desta Fundação que nos mantém na lista dos países civilizados apesar do claro falhanço num dos critérios mais vigiado pela OCDE, que é o da diferença de votos entre Trotskistas e Democratas Cristãos.
A determinada altura da ópera, ouvi (e confirmei no libreto) algumas frases que não podia deixar de partilhar convosco. Trata-se de um trecho de um monólogo do ministro dirigindo-se ao povo:
“Não sejais por mais tempo escravos sepultados,
Desapareça a tirania do tirano
O irmão procura os seus irmãos,
E se puder ajudá-los, o fará de bom grado”
Meus caros, eu não percebo nada de alemão, mas sei que naquele momento senti uma necessidade irresistível de olhar para o libreto e li nestas frases toda a força da Revolução Francesa ao som heróico de um Beethoven apaixonado pela liberdade. São momentos...

Espírito democrático

A opinião de Vasco Graça Moura (no DN) é elucidativa quanto ao seu espírito democrático e fair-play eleitoral: "o grande derrotado nestas eleições foi o País. Virou à esquerda e entregou o poder a um sector dela que é manifestamente incapaz de governar de modo a responder às necessidades dos portugueses".

Vasco Graça Moura (VGM) é particularmente coerente quando afirma que o "eleitorado português não apostou na mudança. É conservador, corporativo e retrógrado. Essa é a estabilidade que pretende lhe seja garantida." A não ser que Portugal tenha trocado de eleitorado com algum outro país ao abrigo de um recente programa de intercâmbio, fico com a impressão de que o eleitorado que deu maioria absoluta a José Sócrates foi o mesmo que deu a vitória a Durão Barroso em 2002.
Para rematar, VGM informa-nos de que, a curto prazo, Portugal "terá de enfrentar uma monstruosidade sem pés nem cabeça e tornar-se-á uma aberração irresponsável e ingovernável". Será certamente nessa altura que vamos ter saudades da competência e responsabilidade de Santana Lopes e nos vamos penitenciar colectivamente por termos posto fim à sua formidável carreira política.

A moral da história para Vasco Graça Moura é a seguinte: quando o meu partido ganha, o eleitorado é esclarecido, dinâmico e desejoso de mudança; quando ganham os outros, o eleitorado é analfabeto, apático e retrógrado.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Seguir em frente

No rescaldo eleitoral ainda continuamos a encontrar referências à decisão de Sampaio - ilegítima para os mais radicais, partidária para os mais moderados, inédita para quase todos os que se pronunciam. Quem vai mais longe afirma mesmo que Sampaio é o principal derrotado da noite eleitoral - exercício genial de contorcionismo argumentativo que a todos recomendo.

É um facto indiscutível que Jorge Sampaio foi o primeiro Presidente da República a dissolver uma Assembleia em que existia uma maioria governativa. Contudo, Sampaio não acordou com humores estranhos e decidiu inventar uma norma constitucional. O juízo emitido foi estritamente político e assentou na avaliação feita pelo Presidente. Mas interrogo-me se não é precisamente por isso que elegemos quinquenalmente um Chefe de Estado em regimes republicanos. Não se trata de um órgão político? Se assim não for bastar-nos-ia um notário para as tomadas de posse e um relações públicas para as cerimónias públicas.
O poder de dissolução não é novo - encontramo-lo no texto da Constituição desde a versão originária. Não desaparece pelo facto de não ter sido exercido até ao momento, nem se torna de exercício obrigatório para todos os Presidentes pelo facto de ter sido exercido no passado (um facto que muitos têm de recordar quando "ameaçam" a nova maioria com o fantasma de uma dissolução caso o próximo Presidente da República provenha de uma família política diferente).
Menos convicente ainda parece a afirmação feita por Santana Lopes nos dias finais de campanha e recentemente recuperado por alguns, segundo a qual se estamos perante um poder inédito em sistemas políticos ocidentais. Santana esquece naturalmente que o nosso sistema se caracteriza pela sua natureza semi-presidencial e que a faculdade de dissolver a Assembleia parlamentar é frequente em sistemas políticos em que o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo e universal. Precisamente porque está investido de legitimidade democrática directa, o Presidente pode fazer juízos políticos como o que fez, dissolvendo a Assmbleia.
Pode parecer estranho estar a retomar uma discussão constitucional que já foi travada em Julho e em Dezembro, mas a derrota de dia 20 suscitou uma nova leva de contestação à decisão presidencial, contestação essa que deve ser definitivamente arrumada. O eleitorado confirmou o juízo político do Presidente, demonstrando que este soube ler correctamente a opinião pública maioritária. Para além disso, a decisão de não convocar eleições em Julho fundou-se na continuidade do rumo traçado pelo maioria sufragada em 2002 e não na instalação no poder de um líder errático, inconstante, com falta de sentido de Estado e sem atributos indispensáveis para o exercício de funções governamentais. Mais do que castigado pelo legado de Durão Barroso (como Santana fez deselegantemente questão de frisar nos seus dois últimos discursos) o ainda Primeiro-Ministro perdeu as eleições essencialmente devido às suas características de "guerreiro-menino".

Cata-vento

Como partido cuja bases "mais representam a sociedade portuguesa", integrando desde "pequenos agricultores e comerciantes até médicos e advogados", o PSD "sente melhor que qualquer outro partido as necessidades do país".
Daí que Luís Filipe Menezes defenda "o recentramento do partido na área do centro, centro-esquerda", passe a cacofonia.
Ou seja, Luís Filipe Menezes percebe o que está a dar votos.
Por este andar, a sedes da Jota SD vão passar a afixar cartazes de Che Guevara nas paredes, como acontecia no PREC.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

PSD Madeira - Há sempre uma primeira vez

Tendo ligações muito fortes à Madeira, um dos meus preconceitos de estimação sempre foi a certeza de discordar de qualquer posição assumida pelo PSD local. Este preconceito sempre se revelou de uma eficácia estrondosa, que permitia uma tomada de posição rápida nas muitas matérias sobre as que esta secção do PSD se pronuncia, normalmente na pessoa do seu líder, o Sr.Alberto. Imaginem o meu espanto quando hoje li, "PSD-Madeira rejeita candidatos que apoiem Cavaco Silva para Belém"!! Todo o meu mundo abalou ao quase ver destruído um dos seus pressupostos mais fieis.
Resta-me a consolação de acreditar que eu e o PSD Madeira discordamos em relação à melhor alternativa ao "Sr. Silva", e até recuperei outro animo quando li a frase: "é óbvio que o presidente do PSD-Madeira é sempre uma boa alternativa para salvar o partido a nível nacional". Afinal nem tudo são más notícias.

Porque a coerência é um bem escasso...

Luís Delgado afirma na SIC Notícias que Santana Lopes perdeu as eleições por culpa de Durão Barroso, que fugiu, governou mal e mentiu aos portugueses. Segundo Delgado, Santana mais não podia fazer em quatro meses de governação.

Como qualquer leitor assíduo de Luís Delgado no DN estou muito confuso. A retoma não estava sempre aí? A austeridade imposta por Manuela Ferreira Leite não era indispensável e sábia? Durão não cumpria um desígnio nacional ao partir para Bruxelas?

Nortista, popular e conservador?

Luís Filipe Menezes entrou na corrida à liderança do PSD. Protagonista memorável de episódios como as viagens-fantasma e o Congresso do Coliseu, pilar de coerência e conciliador de facções na Distrital do Porto, Menezes é o líder de sonho de qualquer militante do PS.