segunda-feira, outubro 10, 2005

Qual República...

Mas afinal que República queremos nós? A ambiguidade, a indefinição serve-nos bem, protege-nos de compromissos e, acima de tudo, evita que fiquemos presos a debates históricos e fetiches ideológicos. Não nos levamos demasiadamente a sério.

À laia de exercício de aproximação podiamos especular como seria o republicano ideal, o Brutus do século XXI: teria o amor pela política directa de um Rousseau; a energia activista de um Durruti; o cepticismo racionalista de um Descartes; a preocupação pela ética como expressão da vida em sociedade de um Hegel; o zelo emancipatório de Marx; a coragem de uma Rosa Luxemburgo; a sobriedade cínica de um Weber; a pureza moral de um Cícero; a oratória de um Péricles; o ódio ao sangue azul de um Robespierre; a moderação de um Mirabeau; o idealismo de um Condorcet; o horror à milenar arrogância eclesiástica de um Garibaldi; mas acima de tudo o amor à Razão de um Kant.

A Razão é o ponto de partida e o destino de qualquer aventura emancipatória.

O caminho é a República.

And isn´t it ironic?

O PSD ganhou as autárquicas em Santarém contra o único Presidente da Câmara que fez alguma coisa que se visse pela cidade, nos últimos dez anos. Moita Flores, escritor e novelista, diz que vai pagar a dívida da Câmara em 100 dias e alega que Santarém está rodeada de "Reboleiras". Entre disparates, o povo vota. Eu cá não elegi nem um nem outro, pelo que até aprecio a mudança, mas talvez gostasse que o Presidente da Câmara, o tal que está perto dos problemas dos munícipes, vivesse em Santarém há mais tempo que o tempo que dura a campanha eleitoral.
Qualquer dia o nosso país é palco de vendas a retalho de cargos políticos. E pela minha cidade, que é tão linda, quem dá mais?

quarta-feira, outubro 05, 2005

terça-feira, outubro 04, 2005

Eu é que sou o presidente da Junta!

Porque é que foi bom fazer a República? Para acabar com bizarrices destas.

segunda-feira, setembro 26, 2005

First things first

A Administração Bush, entusiasmada pelo sucesso da resposta dada ao furacão Katrina, e satisfeita com o sucesso da "Guerra ao Terror" (expressão recentemente substituída no discurso oficial por "Grande Luta Contra o Extremismo") prepara-se para lançar uma nova cruzada, desta vez no campo de batalha dos valores.
O FBI está a recrutar agentes para a constituição de uma Brigada Anti-Obscenidade, que terá como principal objectivo combater a pornografia e a propaganda da prática de bestialidade e sado-masoquismo entre adultos livres. A pedofilia e a pornografia infantil não estão incluídas na delimitação de competências da futura brigada.
Por enquanto, e segundo o Washington Post,os agentes do FBI, vão fazendo piadas sobre o assunto e fugindo como podem das solicitações dos seus superiores hierárquicos para fazerem parte da brigada.
Como qualquer decisor político sabe, é tudo uma questão de prioridades.

domingo, setembro 25, 2005

Não chega metade da verdade

O 'Público' online deu mais um exemplo de parcialidade e manipulação de informação no contexto do conflito israelo-palestiniano.

Este fim-de-semana assistimos a uma deterioração grave da situação. O evento principal a considerar foi uma manifestação organizada pelo Hamas, em que uma explosão causou 15 mortos e dezenas de feridos. O movimento islâmico acusa Israel de ter levado a cabo um ataque. Israel garante que não. Uma pista para entender este aparente mistério são as declarações de porta-vozes da Autoridade Palestiniana, que falam de "irresponsabilidade" do Hamas: é que durante a manifestação - que era mais uma parada militar, uma demonstração de força do movimento - estava a ser transportado material explosivo em várias carrinhas pick-up. Não é a primeira vez que este acidentes acontecem. Para além disso, o modus operandi israelita não inclui raides aleatórios a manifestações... Para todos os efeitos o Hams não ia perder esta oportunidade de mobilizar a opinião palestiniana atrás de si e... fuga para a frente: dezenas de mísseis Qassam foram lançados sobre Sderot, cidade que se encontra a alguns quilómetros de Gaza, solidamente em território israelita. O Público descreve selectivamente alguns acontecimentos que provam que os israelitas gostam é de fazer mal ao pessoal.

Enfim, para saberem a história toda, leiam a BBC - chamo particular atenção à descrição da sequência de eventos:
http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4280262.stm.

Para saberem a versão do órgão oficial da Fatah em Portugal, vão a:
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1233772&idCanal=18

Os tipos do Público percebem tanto do Médio Oriente como eu percebo de física quântica.

quarta-feira, setembro 21, 2005

O Meu Presidente: Jed Bartlet


Na série de televisão Os Homens do Presidente, Jed Bartlet recuperou da situação de outsider para ganhar as primárias do Partido Democrático a um candidato mais popular e com maior orçamento, e tornou-se presidente dos Estados Unidos vencendo no colégio eleitoral um candidato Republicano que obteve mais votos.
Bartlet é um economista brilhante, com um Prémio Nobel no currículo, descendente de um dos signatários da Declaração de Independência, homem de inteligência superior, íntegro mas de carácter não infalível, para quem não importam as derrotas, mas sim perder por não ir à luta. É considerado um liberal no mais estrito sentido do termo, o que nos Estados Unidos equivale a chamar a alguém socialista - e que não é propriamente um elogio.
A série desenvolve-se nos bastidores da Casa Branca e acompanha o quotidiano da equipa do presidente nas tarefas diárias de fazer política e governar. Os membros da equipa são idealistas, e põem um genuíno sentido de missão em tudo o que fazem, mas sabem com que linhas é preciso coser para que o trabalho seja feito.
A genialidade da série está em tratar os habitualmente maçudos assuntos políticos em produto televisivo de qualidade, e está, sobretudo, na forma como um enredo que tem tudo para ser demagógico não o é, bem pelo contrário. É a política enquanto arte do compromisso, actividade nobre mas cheia de podres com os quais é preciso lidar para aspirar à grandeza.
Bartlet é um presidente do outro mundo, pessoa em quem até os defeitos são edificantes, mas é uma personagem credível enquanto projecção na ficção de tudo o que se espera que um político deva ser.
A série passa ou já passou na TVI, que a chutou para o horário impróprio das 3 da madrugada. A melhor forma de acompanhar Os Homens do Presidente é pelo AXN da TV Cabo, quintas-feiras às 21h30. O episódio de amanhã, Two Cathedrals, é absolutamente imperdível para quem queira perceber o que acabo de dizer. Eu não resisti ao suspense dos episódios anteriores e saquei-o da net. É das coisas mais bem feitas que já vi em televisão.
Não há, no mundo real, político algum que possa obter do público a simpatia que tem Josiah Bartlet pelo simples facto de lhe espiolharmos a vida na televisão. Mas também, de certeza que não há ninguém no mundo como Jed Bartlet.
O mundo precisa de mais homens como Jed Bartlet. Que ele exista só na televisão já é um princípio.

Para saber mais: http://en.wikipedia.org/wiki/Jed_bartlet

segunda-feira, setembro 19, 2005

Descarrilamento

Sobre choques de titãs, Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues têm, desde a semana passada, uma palavra a dizer a Mohamed Ali e a George Foreman. De Carrilho não se esperava palavras melosas e brandura, mas de Carmona esperava-se que aguentasse as investidas com estoicismo, e que não se deixasse arrastar na fúria destruidora do adversário. Isso só o beneficiaria: capitalizava a imagem de tranquilidade e deixaria o adversário a falar sozinho - esta é a receita para vencer debates contra adversários dados à diatribe. Mas em vez disso, Carmona foi na conversa e descarrilou: parecia uma briga entre putos na escola, do tipo "Cala a boca, ó palhaço!"; "Palhaço és tu, ó palhaço, tens os olhos tortos".
O que Carrilho ganha em criatividade e capacidade de realização perde em excesso de assertividade e temperamentalismo. Mas isso já se sabe.
Quanto a Carmona, perdeu a aura de tipo porreiro, o técnico impassível que não está para se chatear e só quer fazer um bom trabalho. O seu "Grande Ordinário" fê-lo parecer com aqueles meninos bem, que são educados para manter a aparência de bem comportado, mas que nas costas da mãe partem uma jarra e põem as culpas na copeira.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Alienação e depressão

Já estou farto de ouvir que "a nossa sorte é termos sol e praia"; que "isto nunca há-de andar para a frente"; que 'o português é um gajo que...'; que "eles são todos iguais"...

A desvantagem principal de uma sociedade democrática e aberta é que não há desculpas, não há ninguém que nos impeça de mudar o que está mal. Estão descontentes com o governo - votem no outro; repugna-vos a mediocridade - vão juntar-se às centenas de organizações da sociedade civil que trabalham nas mais diversas áreas; rejeitam o clientelismo - não dêem cunhas a torto e a direito. E se o país fracassou, se ele vos deixou sem opções, se a nação bateu no fundo: peguem nas coisas e façam-se à estrada durante uns tempos: há mundo para além de Portugal ("Ai, eu gostava muito de ir para o estrangeiro, mas a minha mãe ficava tristíssima...").

Aqui é preciso sublinhar uma diferença fundamental. Uma coisa é a pobreza, a miséria, o desemprego e a iliteracia. Quem sofre destas vicissitudes sociais tem todo o direito de apontar o dedo a uma sociedade que continua a ser incapaz de dar oportunidades iguais a todos, que continua a carburar impavidamente enquanto milhares de cidadãos ficam para trás. Aqueles que olham à volta e não conseguem 'ler' a sociedade, que sentem que o que existe, existe contra eles e não para eles, esses têm o direito a insurgir-se.

Quem eu não compreendo são aqueles que têm precisamente as ferramentas nas mãos que são necessárias para viver numa democracia moderna: redes sociais, domínio de línguas, cursos superiores, um mínimo de bem-estar, saber... Mesmo assim quantas dessas pessoas continuam a falar como se o futuro não dependesse delas, como se o presente fosse uma fatalidade, uma força da natureza, um fenómeno inexplicável que eles e elas observam com o olhar neutro de alguém de fora. Especula-se sobre 'porque é que somos assim', constroem-se teorias sobre 'o nosso atraso', encolhem-se os ombros perante a mediocridade da classe política (os famosos "eles").

Em 1974 refundámos Portugal. O que se passou até então influenciou em muito a nossa presente situação e estava fora do nosso controlo. A Mediocridade estava institucionalizada e firmemente ancorada no obscurantismo, na estupidez e na violência - chamavam-lhe 'o regime'.

Mas já tivemos 31 anos para dar a volta por cima. Já chega de fazer de conta que a culpa não é nossa. Chega. Façam filhos e eduquem-nos como cidadãos e cidadãs que não têm medo de assumir as responsabilidades pela sociedade que têm. A República somos nós.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Como diz que disse?

Capa do Correio da Manhã: "Derrota Estúpida" referindo-se à derrota do Porto com o Glasgow Rangers, depois de dominar todo o jogo. Ó meus amigos, como diz o povo, quem marca ganha e quem não marcar arrisca-se a sofrer um golo. Mas por detrás disto subjazem coisas bem mais graves. Se o Benfica perder amanhã, qual vai ser o título? Se o Manuel Alegre fizer greve de fome, qual o mal? Se o telenovelista ganhar as autárquicas na minha terra, vamos todos ser figurantes de uma montagem política? E o barril do crude? E o filho do João Pinto? E os militares podem marchar, marchar? Confesso que quando vejo uma gorda deste calibre, me apetece vomitar alarvidades como se visse o União-Amiais todos os fins-de-semana. Ninguém fale daquilo que se passa no país, naquilo que salta mais à vista. Olhem apenas para o futebol e contentem-se em pensarem que são simplesmente bons naquilo que fazem - o que falta a este país é a concretização, não o domínio. Talvez esteja frustrada com as frequências que leio, com a falta de dinamismo dos meus alunos, com o descontentamento geral, ou com as pesquisas económicas que tenho andado a fazer, mas é urgente ilacionarmos algo com o futebol, já que é a única coisa que nos dá entusiasmo e gana. Que se dane o domínio, venham os tentos de belo efeito.

terça-feira, setembro 06, 2005

O Gigante Caiu

Afirma José Vítor Malheiros, no Público, que "Se as imagens que as televisões nos mostram lembram as de um país do terceiro mundo afectado por uma catástrofe natural é porque nos Estados Unidos existe um enorme país do terceiro mundo acocorado em torno das suas ilhas de sucesso". A incapacidade dos EUA de evacuar e socorrer em tempo útil os sobreviventes de mais uma catástrofe natural revelam realmente as fraquezas de um país com aparente competência para salvar o mundo. Ninguém fica passivo a observar imagens de destruição maciça, mas muito menos ao drama humano de milhares de pessoas dos mais pobres territórios do país que buscam bens essenciais e, bem mais tarde e mais dramaticamente o emprego e as habitações que lhes foram retiradas. Mas se a conclusão lógica a retirar de tudo isto é uma perda de confiança no Governo americano, nomeadamente quando proclama ajuda internacional a todo o tipo de eventos políticos e catastróficos, fazendo-nos crer que se deviam era salvar-se a eles próprios, o que realmente importa é a capacidade que os EUA têm de influenciar o mundo. E o aumento histórico do preço do petróleo assim o indica.
Estamos dependentes deles, não haja dúvida - mas até quando?

Era Uma Vez em Gondomar

Ontem estava a ver mais uma das bonitas figuras que Valentim Loureiro faz na televisão - o que é sempre uma boa ocasião de rir, se não desse ao mesmo tempo vontade de chorar.
O Major Valentão tem ultimamente dedicado a sua campanha eleitoral a chamar todos os nomes a Marques Mendes, o que, como todos sabemos, é a primeira das preocupações dos eleitores de Gondomar. Bem, na verdade não se pode dizer em bom rigor que se trata de chamar todos os nomes - o vocabulário ficou-se por "pequeno líder" (Deng Xiao-Ping rói-te de inveja) e "lider menor", este último o que mais se afastou de uma grosseira alusão à estatura física do presidente do PSD (o que, convenhamos, como subtileza deixa muito a desejar).
Dá-se o caso que, a meio de uma birra, o Major senta-se e começa a falar calmamente para a câmara da RTP. Assim, como se tivesse a olhar Marques Mendes nos olhos e a dizer «Eu não tenho medo de ti, rapazinho». Até aqui tudo bem, era só um bom momento de western à portuguesa. Mas é então que o operador de câmara começa a fazer zoom, e o plano fecha-se num close-up à Sergio Leone, acentuando a carga dramática do momento. Uau. Um repórter de imagem que faz cinema.
A questão que fica é: porque é que a televisão se presta a estas coisas.
Estou À espera de ver Marques Mendes a dar um pontapé nas portas do Saloon e a entrar por aí adentro, feito Xerife. Mas algo me diz que isso não vai acontecer.

quinta-feira, julho 28, 2005

O leão acordou


Houvesse justiça na política e Manuel Alegre seria o candidato da esquerda às eleições presidenciais. O homem que sempre soube em que lado da luta pela liberdade devia estar colocado, que é consensual em para todos os quadrantes da vida portuguesa menos para o seu partido, merecia o lugar de presidente da República. Mais, os portugueses, embora não façam muito por isso, mereciam tê-lo como presidente.
Mas Manuel Alegre não é um pai da pátria: Jorge Sampaio também não o era, mas nessa altura Cavaco ainda não se descosera da imagem de primeiro-ministro antipático.
O tempo fez de Cavaco o homem de Estado, uma reserva moral, e a imagem que ele tão bem cozinhou como uma donzela que se faz difícil aos seus pretendentes faz com que se lhe impute um potencial de carisma que, sinceramente, acho que não tem nem terá.
Compreende-se, por isso, que perante a emergência do novo Cavaco, a esquerda tenha de chamar a artilharia pesada e do lado de lá soa o alarme: o PSD poderia passar a imagem de serenidade, mas em vez disso Dias Loureiro diz esperar que Cavaco Silva não desista, ou seja, que não se assuste.
A escolha de Soares é uma escolha natural, embora imprevista devido à sua provecta idade. Soares tem o peso que Alegre não tem, e a sua energia e atenção ao que se passa estão para lá daquilo em que a sua idade o pode limitar, como ontem se viu no encontro de jovens socialistas, em que o seu entusiasmo parecia querer fazer saltar um monstro para fora do corpo idoso e enrugado que o continha.
A candidtura de Soares é uma solução de recurso para o PS, mas para o próprio é uma oportunidade de garantir a transmissão de uma herança política.
A questão presidencial será semelhante ao que se passou no Chile quando Neruda abdicou a favor de Allende, embora com menos dramatismo, embora Manuel Alegre seja mais parecido com Pablo Neruda do que Mário Soares alguma vez o será com Salvador Allende.
O país precisa de alguém que saiba o que dizer e fazer quando não se está a promulgar leis ou a assinar decretos. E Cavaco, um homem de gabinete, leva neste aspecto desvantagem em relação ao poeta e ao animal político.

quarta-feira, julho 20, 2005

Reforço de Verão


Este é John Roberts Jr., o próximo juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, nomeado pelo presidente Bush para substituir Sandra Day O'Connor, a moderada que era o fiel da balança na equipa capitaneado pelo venerável William J. Renqvist, também ele prestes a arrumar as botas depois de uma carreira a fazer tackles aos civil rights.
No palmarés, Roberts tem decisões contra a legitimidade processual dos cidadãos em accionarem o Estado por violação de legislação ambiental, e manifestou-se contra o acordão Roe vs. Wade, que estabeleceu o direito constitucionalmente garantido da mulher em praticar o aborto, defendendo a sua revogação. Enquanto advogado, defendeu companhias mineiras em casos de poluição e contra os mineiros, aquando de uma greve.
A possibilidade de vir a ser nomeado um juiz ultra-conservador foi um dos argumentos usados por John Kerry ao longo da campanha para as presidenciais do ano passados. Ele aí está. E republicanos (mas também, depois da novela Bolton, nunca se sabe).

terça-feira, julho 19, 2005

O paradigma da educação e o país eternamente adiado


Quando evoco a memória dos tempos de Cavaco Silva, era eu um chavalito, lembro-me distintamente da euforia da auto-estrada, essa maravilha que passava quase à minha porta e nos permitia dar um pulinho a Lisboa e ver os filmes mais recentes ao Cinema, que de outra forma demorariam mais umas semanas ou meses a chegar ao nosso orgulhoso cinema de Aveiras. Sempre me causou algum incómodo e alguma mágoa que uma pequena vila a 50 quilómetros de Lisboa tivesse um tão desmesurada vaidade na "sua" auto-estrada ("para esfregar no nariz a esses invejosos de Azambuja")e menos orgulho no facto de ser a única terra nas redondezas - do Cartaxo a Vila Franca - que tinha esse benefício para o espírito que era um Cinema, em que, por entre zaragatas do Bud Spencer e do Chuck Norris, lá mostrava um ou outro filme digno desse nome.
Era o tempo em que muita gente enchia os bolsos à conta dos fundos da CEE, entornados para dentro de empresas quase-fictícias que iam desde a criação de minhocas à mecanização da agricultura quando o problema era mesmo a agricultura e não a sua falta de mecanização. Os fundos, esses, passeavam pelas ruas na forma de Alfa Romeos e outros carros glamorosos de pato-bravo.
A auto-estrada era, em Aveiras e em todo o Portugal, o paradigma da modernidade, nessa altura em que ficar na escola aborrecia, sobretudo quando, havendo dinheiro para ganhar, já não havia que se cuidar em ganhar a vida.
O Cine-Aveiras morreu, e dos muitos empreendedores que apareceram associados à lógica mais de esperteza do que de trabalho que personificava o professor Cavaco (ou mais precisamente a sua entourage), apenas os que aproveitaram os fundos europeus para algo mais do que passear em grandes carros lograram continuar com uma vida boa, para eles e para os filhos.
Depois cresci e li que a Irlanda não tem auto-estradas de jeito, mas tem uma elevadíssima taxa de literacia (não fossem eles bons repulicanos) e uma população que é das mais altamente qualificadas do mundo, o que deu em taxas de crescimento económico entre os 20 e os 30% ao ano. A conclusão para mim era simples: menos betão, mais educação.
A Irlanda é o país da fome da batata e conseguiu. A Espanha é o país da siesta e tem o que tem. Nós somos o país do fado, e cá nos vamos aguentando - e isso é o que de mais optimista podemos dizer.
Depois vê-se isto na imprensa internacional (obrigado, David). Portugal investiu 90% dos fundos em infra-estruturas, a Espanha 70%. Portugal necessitava, enquanto país periférico, de construir auto-estradas, mas nem isso foi bem feito - basta olhar para o mapa, como observa o International Herald Tribune. "Os economistas portugueses estão de acordo em que os recursos foram utilizados de modo a adiar as decisões".
Este é o retrato de um país que andou muito tempo a ver o filme errado, e agora só lhe resta andar num Alfa Romeo recauchutado.

sexta-feira, julho 15, 2005

Bad Bad Mary

Sondagem do Público (na qual voto religiosamente todó dia) diz que a governação do PSD por Marques Mendes é medíocre ou má. O Jornal cá da minha terra pergunta se gostaríamos de ter assistido ao casamento de Catarina Furtado com João Reis. 88% dos inquiridos diz...que não. Aliás parece-me que se ao inquirido fosse permitido falar diria para os autores da sondagem irem dar uma curva ou pior. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira "Ó meus amigos, mas que é isto?". Preocupa-me o facto do PSD andar enfraquecido, pelo simples facto de até gostar do homem, mas principalmente porque a política portuguesa anda um tédio. Estes não falam, limitam-se a fazer (de quando em vez) alguma coisa. Ninguém chateia o Governo (será porque este é bom?), ninguém vomita indecências contra ninguém. Portugal ameaça tornar-se uma silly season permanente.
Por outro lado, admira-me porque é que o Jornal cá da terra não começa a oferecer rolinhos de papel higiénico para que o possamos ler antes de o utilizar para a única função óbvia para a qual serve. Com umas autárquicas à porta, porque não perguntar ao cidadão se gosta das obras do Centro Histórico, se quer a milésima rotunda, se prefere as estradinhas arranjadas ou os acessozinhos à cidade concluídos?
Para que serve este jornalismo, hein?
Ele há coisas.

quinta-feira, julho 14, 2005

A Bastilha

Prise de la Bastille, by Jean-Pierre-Louis-Laurent Houel

Aparentemente, há 216 anos alguns cidadãos e cidadãs parisienses de cabeça quente tomaram a Bastilha. Encontraram-na praticamente vazia, com alguns prisioneiros de delito comum, e meia dúzia de guardas prisionais que não tiveram um destino agradável.

Mas foi acima de tudo o valor simbólico do acto de revolta que tem, desde então, sido recordado. A tomada da Bastilha foi a faísca que largou fogo vivo a um país que que ainda não era nação, mas que, começando com os debates nos Estado Gerais, gradualmente se refundou como República Francesa.

Em Agosto de 1789 eliminaram-se num dia (se não me engano no dia 2) centenas de anos de privilégios feudais e eclesiásticos.

Num dia.

Muitos dos grandes nomes da Revolução pertenciam à Nobreza: Mirabeau (conde), Condorcet (marquês e republicano da primeira hora e defensor dos direitos das mulheres), Lafayette (marquês) e alguns do clero, como o Abbé Sieyès.

Tudo era possível.

Mas a tomada da Bastilha também nos serve como aviso. Uma Revolução que tão cedo se esquece dos princípios mais elementares da humanidade, é uma Revolução que age num vazio ético. Mais cedo ou mais tarde será uma Revolução que se perde, que não consegue distinguir entre fervor revolucionário e crueldade pura e simples. Robespierre, o Incorruptível, era demasiado incorruptível: nem por sentimentos de empatia, de humanidade, de decência se deixava corromper. Talvez seja essa a lição principal da Revolução: o mais tardar quando estiver a assinar listas de condenados à morte, o indivíduo revolucionário tem que se questionar que tipo de 'progresso', que tipo de futuro está a construir. No fundo, as vontades dos revolucionários costumam pecar por alguma ausência de imperativo categórico.

Mas, convenhamos, 200 anos passados, a Revolução continua a emanar Luz e, mesmo nos seus momentos mais sombrios trata-se de um evento do qual tiramos lições. Ao fim de séculos de obscurantismo, violência e repressão, e ao fim de gerações de treino em fanatismo cristão, era difícil fazer uma Revolução diferente daquela e demasiado dogmatismo ético castra qualquer entusiasmo revolucionário.

Não queremos acabar como Kant, que nunca se conseguiu decidir se a Revolução Francesa era uma coisa boa porque demonstrava a racionalidade dos milhares de cidadãos desinteressados que se dedicaram á causa revolucionária; ou se era uma coisa má porque as revoluções, por princípio, recriam, ainda que por pouco tempo, os horrores da ausência de ordem, do Estado Natural do todos-contra-todos.

Kant, era, como se diz na gíria filosófica, um chato de merda.

Os movimentos revolucionários e emancipatórios que têm e tiveram a sua origem na Grande Revolução, e os seus efeitos sobre a vida de milhões de cidadãos e cidadãs, mais do que compensam os disparates que foram feitos por meia dúzia de imbecis que herdaram as manias autoritárias do Antigo Regime.
Judeus e mulheres foram dois grupos que mais cedo ou mais tarde, com avanços e recuos, colheram os frutos da Revolução em toda a Europa. Mas há outros, claro.

O Liberalismo moderno é ingrato quando esquece as suas raízes francesas. Hegel, muito longe de ser um 'revolucionário', festejou o Dia da Bastilha até morrer, porque sabia que o dia 14 de Julho representa o princípio da Modernidade. E de facto, quando se lê alguns dos discursos que foram feitos nos Estados Gerais, na Assembleia Nacional e na Convenção, fica-se com a distinta impressão que se está a testemunhar a Razão em acção.

Merci la France!

Liberté! Egalité! Fraternité!


Posted by Oppenheimer

domingo, julho 10, 2005

Volta Alberto, estás perdoado...

O facto de ninguém falar em tom de pânico de mais um atentado terrorista significa que ele já faz parte da nossa normalidade. O facto de termos de ouvir as notícias da TVI faz-me pensar em duas coisas: um, o Alberto João é bem mais divertido; dois, será bem mais sério. Mas ninguém salva este país?

segunda-feira, julho 04, 2005

Yankee Doodle to you too!


Não foi para mais tarde ganharem a mania de que dão ao mundo lições de democracia que nos deram a Declaração de Independência. Porque é bom não esquecer isso, parabéns. Posted by Picasa

E se mandássemos passear certos e determinados indivíduos?

Falar das intervenções escabrosas de Alberto João é chover no molhado, e é uma actividade que muitas vezes se presta a constatar o óbvio. Nem é novidade dizer que destra foi foi longe demais.
O PSD habituou-se a ele como um cão se habitua a uma carraça, isto sem querer ser desrespeitoso (para o PSD, não para a carraça).
Mas o que têm estes pequenotes aspirantes a ditador é o serem olhados com benevolente comiseração e riso por toda a gente, enquanto vão urdindo novas formas de ter na mão os habitantes do quintal que governam.
A demagogia é um perigo para a democracia, e é só começar a ver uma quadrilha de delinquentes racistas manifestarem-se no Martim Moniz para que os ALbertos Joões comecem a achar que vale a pena dizer umas coisas assim.
A quem ouve Alberto João sugere-se que sustenha a vontade de rir e que puxe o autoclismo.