terça-feira, maio 10, 2005

Manuel Sergio - Levantei-me e fui-me embora

Tropecei hoje acidentalmente com a apresentação do livro do Fernando Correia intitulado "Espelho d'Água". Creio que fiz o que qualquer pessoa sem nenhum compromisso urgente faria, sentando-me numa das poucas cadeiras vagas, feito nêspera, "a ver o que acontecia".

Falou o editor, depois o Amigo Carlos Pinto Coelho e por fim o simpático jornalista, professor, autor do livro e apresentador da "Bancada Central". Foi nesta altura que o simpático e afável Fernando Correia decidiu dar a palavra a um quarto personagem a quem chamou o seu Mestre, que estava na primeira fila da assistência, estrategicamente incógnito para não afugentar potenciais compradores.

Imaginem o meu assombro quando vejo levantar-se a custo da primeira fila o Professor Dr. Manuel Sérgio, ex-líder do ex-PSN, que eu pensava tão extinto como este. A inércia venceu e, apesar de me parecer que tudo o que não tinha para fazer estava subitamente mais urgente, deixei-me ficar "a ver o que acontecia".

Veio o velho e zás! Desata num discurso sobre o Fernando Correia ser o último Homem da rádio, numa linhagem irrepetível, porque "naqueles tempos" saudosos havia uma elite mais pequena que não cometia os erros gramaticais destes jovens jornalistas de hoje. Eu apenas refiro, em defesa dos jornalistas de hoje, que era mais fácil na altura, já que os textos eram corrigidos e revistos por mais pessoas.

Neste ponto da apresentação do livro levantei-me e fui-me embora. Aprendi que "naqueles tempos" éramos censurados mas gramaticalmente correctos, aprendi sobretudo que para algumas pessoas como o Professor Manuel Sérgio isso era mais que suficiente.

sexta-feira, maio 06, 2005

Swiftly and with style

Com permissão do Monsieur Alphonse de "Allô, Allô" para usar o slogan da sua agência funerária, foi assim que decorreu a General Election na Velha Albion. Apenas 3 semanas após a dissolução do parlamento para o efeito, as eleições estão arrumadas e os ingleses podem seguir com as suas vidas - aliás, uma eleição não é coisa que atrapalhe: apenas mais uma tarefa quotidiana a cumprir. Por cá ainda se deixa o governo cessante uns meses a vegetar em estado de gestão, ou a afundar o que ainda não está afundado.

Tony Blair aproveitou a singularidade do sistema que lhe permite escolher o momento em que o eleitorado está no ponto para pedir a dissolução à rainha e a marcação das eleições. Ganhou, embora com a margem mais reduzida com que um primeiro-ministro alguma vez ganhou umas eleições na Grã-Betanha. O que interessa é que ganhou, e interessa sobretudo para garantir uma margem de projecção ao seu ministro Gordon Brown - assim, Blair pode sair a meio e permitir que o Labour recupere do desgaste que a sua imagem causa.
Mas é curioso ver como a Grã-Bretanha quebra unanimismo bipartidário da maioria das democracias ocidentais com a solidificação do Partido Liberal-Democrata, pelo menos em número de votos.

A vitória de Blair demonstra que não adianta haver uma guerra mentirosa se o povo tem pão para comer e o principal partido da oposição tem um banana como lider. Como diz o outro, «It's the economy, stupid!».

E amodorrados vamos...

São três da manhã de um dia destes e faço zapping na tv em casa de um amigo, conversando sobre qualquer coisa, depois de assistirmos a um documentário qualquer sobre qualquer coisa que se bem me recordo se assemelhava aos esgotos de Nova Iorque. No belo canal RTP Memória, depois de 79 voltas consecutivas aos 18 canais que tem aquela bela televisão, ficamos pasmados a olhar para João Paulo II que fala. "Olha o Papa" - exclama ele. "Ex-Papa" - digo eu. E ficamos a olhar como que maravilhados. Num português abrasileirado o Papa diz qualquer coisa como "aborto", "pecado", "assassinos". Olhamos um para o outro e dizemos sem pensar "Ei", enquanto eu mudo de canal.
E assim se vão passando os dias. Ainda me lembro, era eu jovem, de chorar quando a nova lei do aborto não foi aprovada na AR. Na altura, parece-me a mim, tinha alguma consciência social ou coisa que o valesse. Hoje em dia, o Presidente recusa-se a convocar um referendo porque alega a ida de férias dos portugueses como factor dissuasor do sucesso deste. Reacção: com que dinheiro é que os portugueses vão de férias? Por que motivo ainda não se veio dizer que os referendos em Portugal dão tanta legitimidade a uma alteração legislativa como tomate pelado numa salada de tomate com pimentos? Ainda ninguém entendeu que nenhum português se levanta da poltrona para votar em assuntos sociais, ou mesmo, NADA?
O nosso Primeiro Ministro, homem astuto e silencioso, inflexível e autoritário, não percebeu que esta questão do aborto foi chão que deu uvas? Pois digo-lhe eu: pãozinho para a boca e a malta vota toda.
E assim passo eu os dias, a ver o Benfica jogar.
Se o país continua assim, qualquer dia começo a ver a Cabocla em repetição no GNT.

terça-feira, maio 03, 2005

Bóina Museum of Fine Arts



Faz hoje 204 anos que foi aprovada a constituição polaca, ou melhor, a Constituição da Comunidade Polaco-Lituana, que foi a segunda constituição codificada do mundo (depois da americana de 1787) e a primeira da Europa (por causa da especificidade da constituição inglesa).

Vem isto a propósito de quê?
De nada, mas achei o quadro bonito.Posted by Hello

segunda-feira, maio 02, 2005

Enfim, temos de fazer pela vida...

No dia em que se soube que Paulo Portas vai ser agraciado por Donald Rumfsfeld com uma condecoração dos EUA por serviços prestados ao país (e que, por alguma razão, raramente é atribuída a estrangeiros), Santana Lopes dá uma entrevista à SIC na qual, enquanto mostra algumas das suas obras, dá conta de que já fez planos para a sua vida profissional depois de sair da presidência da Câmara de Lisboa: vai voltar à advocacia, que é a sua profissão (sou só eu que noto a ironia nesta declaração?), e trabalhar como consultor internacional para algumas empresas porque «enfim, nisto de ser primeiro-ministro vão-se conhecendo algumas pessoas em África, na América na Ásia», e tal.

Para a península vem mais um prémio de consolação, depois do que foi atribuído a Aznar o ano passado, embora o distinguido não seja o chefe de governo derrotado - a menos que Donny Rumsfeld saiba algo que nós não saibamos, tipo quem é que mandava no governo.
E afinal parece que não havia tanta gente a querer o mal de Santana. Agora todos o querem. Pode ser que faça de vez as pazes com a vida.

Assim é que é bonito: os amigos são para as ocasiões.

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril Sempre


O dia em que todos fomos umPosted by Hello

domingo, abril 24, 2005

«Ó Sócrates, importas-te de devolver aquela moldura que os rapazecos enviaram para aí?»

O que aconteceu este fim-de semana no congresso do CDS foi bonito.
Telmo Correia quis sentir-se desejado, esperando que as massas estivessem em ponto de rebuçado para conceder a graça de ser presidente.
Enquanto isso, um militante ilustre mas longe do círculo da sucessão fez o trabalho de casa e disse o que pensava. Ser genuíno levou-o a presidente, o que é uma conquista democrática num partido aristocrático e habituado a sebastianismos.
Apesar de estar nos meus antípodas em termos de ideologia, tenho o maior dos respeitos e simpatia por Ribeiro e Castro desde que o vi subir ao pódio numa Assembleia Geral do nosso Benfica para exigir eplicações a Vale e Azevedo. Nessa altura tentou abrir os olhos a uma multidão ensandecida para evitar o desastre que aí vinha, e a única coisa recebeu em troca foi desprezo, humilhação e acusações desonrosas de anti-benfiquismo vindas daqueles para quem só era benfiquista que era a favor do presidente. Depois lá se viu que o presidente era o que era.
Este fim-de-semana Telmo Correia entrou papa e saiu cardeal. Ribeiro e Castro ganhou, como o próprio disse, «sem tropas nem exércitos». Pelo menos nesta semana há uma eleição que não faz temer o pior.

terça-feira, abril 19, 2005

A Implosão da Igreja Católica Apostólica Romana


Bento XVI, o Sinistro Posted by Hello

Perdoem-me os leitores a minha queda para cenários catastrofistas, e a veleidade com que faço este vaticínio.

A Igreja Católica surpreendeu por não ter surpreendido: a instituição que há séculos melhor gere o seu marketing elegeu para monarca absoluto (passe a aparente antítese) alguém que sempre se esperou - e temeu. Ratzinger não é o congregador do rebanho de Deus como o foi Karol Woijtila. Não é alguém que vá à procura do mundo, mas antes alguém que espera que o mundo se renda à Igreja. Não é alguém que estabeleça pontes, mas antes aquele que na sombra do último pontífice mais trabalhou para que a Igreja fosse um monolito de intransigência.
Ratzinger foi a face obscura do Vaticano, provavelmente aquele que efectivamente detinha o poder, concumitantemente com a Opus Dei. Um trabalho destes leva anos a edificar e não se pode perder só porque morre um pontífice. Há, por isso, que cuidar para que o legado não se perca. Foi o que se viu.

A Igreja de Ratzinger deixará de fora todos os que procuram mais a autenticidade da mensagem de amor, solidariedade e fraternidade humana de Jesus de Nazaré do que a doutrina que sobre ela foi erigida pelos doutores da fé ao longo dos séculos.

Uma coisa que nunca percebi no pontificado de João Paulo II foi como pôde ele ser um líder tão respeitado e acarinhado pelas restantes religiões não tendo abdicado do dogma de que só há salvação na Igreja Católica Apostólica Romana. Ou seja: como é que se inicia um diálogo quando se estabelece à partida que só eu é que tenho razão?

A bondade da mensagem de Cristo é universal, válida para crentes e não crentes, desde que expurgada de interpretações doutrinárias e abordagens farisaicas como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Esta é a perspectiva que falta a Ratzinger(o polícia da fé, na expressão de um seu biógrafo), para quem é o mundo que tem de prestar vassalagem a Cristo e à Igreja (embora não necessariamente por esta ordem).

Em abono da fraternidade universal entre os povos, valha-nos o facto de ser um papa de transição. O seu sucessor que apanhe os destroços.

quinta-feira, março 24, 2005

O Pai do Capitão Nemo


O Capitão Nemo levanta a sua bandeira e contempla os amanhãs que cantam Posted by Hello

Júlio Verne morreu há cem anos. Pretexto para falar do Capitão Nemo - uma das personagens mais bem trabalhadas que conheço na literatura.
É curioso dizer isto de um personagem de Júlio Verne, que, apesar de ser um dos mais celebrados romancistas do séc. XIX, privilegia a acção e o conceito da história sobre a densidade dos personagens, embora não se saia propriamente mal neste aspecto.
O Capitão Nemo é um indiano de linhagem real que se devotou à ciência e à causa da libertação dos povos contra a Némesis opressora do Império Britânico. Isto leva-o a aproveitar a tecnologia desprezada por muitos para construir o prodigioso Nautillus, que usa para percorrer o mundo através do fundo do mar, explorando-o, conhecendo-o e amando-o. E pelo caminho aterrorizando as frotas mercantes das potências mundiais. O mar torna-se a sua pátria.
O Capitão Nemo nutre um profundo gosto por tudo o que é belo, acumulando no seu submarino um impressionante acervo de obras de arte, e é dono de uma cultura sólida e despretensiosa, o que o faz uma versão engagé e menos diletante do nosso Fradique Mendes.
Apesar disso, o seu principal propósito na vida é libertar o mundo da opressão, dedicando-se a acções de combate nos mares e financiando movimentos de libertação nacional com recursos que obtém do mar.
O que Nemo faz é pela fraternidade humana, mas a questão que vai passando pela cabeça de quem lê as 20 000 Léguas Submarinas é: este homem não é um terrorista?
Provavelmente, sim. Isso faz-nos gostar de terroristas? Não.
A maravilha da personagem de Nemo está em ser herói e anti-herói, e em nos fazer empatizar com ele sem nos exigir um juízo de moralidade. Um pouco como que a dizer que em todos nós há algo de bem e de mal (se é que existe o bem e o mal).
Júlio Verne era um paladino do progresso científico, mas se não tivesse criado personagens como o capitão Nemo seria apenas um especulador, nunca um visionário.

sexta-feira, março 18, 2005

Tremenda desilusão

A esquerda moderna, progressista, que pugna por valores emancipadores, verdadeira herdeira dos valores laicos e republicanos que tão caros são aos autores deste blog, essa esquerda é fácil de encontrar: está em Espanha. Quanto mais acompanho os primeiros passos deste governo, mais temo que a liderança do PS tenha permanecido imune ao entusiasmo que grassa entre as forças progressistas ibéricas, e que tem as suas raízes na coragem do governo Zapatero em se dedicar aos temas da igualdade de género e dos direitos da comunidade gay.
Só alguns elementos para esclarecer o que acima foi dito (para um resumo fantástico da situação sugere-se a leitura do artigo da revista Visão de hoje, p.65): duas mulheres em 16 ministros; 3 mulheres em 36 secretários de estado. Porquê? Porque, aparentemente, segundo o PM, entre milhares de mulheres militantes socialistas e 5 milhões de portuguesas, não existem cidadãs com o mérito, a capacidade técnica e a visibilidade política necessárias para contribuir para um governo mais representativo.
Trata-se de um retrocesso em relação ao passado, uma distorção da presente realidade social do país, e, acima de tudo, uma oportunidade perdida para o futuro da modernidade portuguesa.

quinta-feira, março 17, 2005

Já não estava habituado

É verdade que depois de 4 meses de Santana Lopes as expectativas em relação à coerência dos governantes atinge níveis inacreditáveis. Talvez venha daí o meu espanto quando li a notícia Programa de Governo mantém principais bandeiras eleitorais do PS.
Então não é que os tipos mantém a mesma opinião passadas tantas horas de terem elaborado o programa eleitoral?! Nem sequer uma contradiçãozinha?!?! Nem sinal de uma proposta tipo esta for old times sake ?!

Portugal Antes de Santana e Depois de Santana


Posted by Hello

quarta-feira, março 16, 2005

And now for something completely different...

Para uma pequena ideia do que é dito nos media do Médio Oriente - especialmente em árabe - sobre assuntos tão diversos como Israel, gays e o 11 de Setembro, vale a pena vir aqui. Bastante edificante.

Lobby da batota


No Público online deparamos com uma informação muito esclarecedora, a respeito de um inquérito sobre a venda de medicamentos em supermercados. A pergunta formulada pelo Público é a seguinte: "Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?"
Num contexto em que apenas a Associação Nacional de Farmácias e a Ordem dos Farmacêuticos se pronunciam contra a medida anunciada pelo Primeiro-Ministro e em que a venda dos fármacos é tida por segura pelo Bastonário da Ordem dos Médicos e por benéfica para os consumidores pela DECO, este episódio vem esclarecer as dúvidas que ainda pudessem subsistir quanto à identificação de lobbies e interesses instalados nesta matéria.

Muito obrigado, sr. ex-Prim... uhm.. Presidente da Câmara!


A Boina Frígia vem por este meio agradecer ao recém-regressado Presidente da Câmara Municipal de Lisboa todo o seu empenho em não deixar a blogosfera sem assunto de conversa, a sua contribuição insubstituível para o florescer de centenas de milhares de linhas de textos humorísticos e satíricos e a sua capacidade para nunca deixar de nos surpreender.

De uma assentada temos direito à existência de novo tabu - a recandidatura - e a uma potencial guerrilha interna despoletada num PSD em clima de pré-Congresso: Aguardam-se certamente declarações de Luís Filipe Menezes para breve - se Rui Rio passou de bête noire a candidato mais indicado para a Câmara do Porto, também Santana estará em condições de recolher um apoio incondicional do autarca de Gaia.
Santana Lopes está determinado em demonstrar que em política se morre muitas vezes. O que é de admirar é a impaciência em recolher a nova certidão de óbito...

terça-feira, março 15, 2005

Nostalgias

Maria José Nogueira Pinto, em entrevista recente, deu mais uma vez provas do desconforto da extrema-direita do nosso espectro político com a democracia portuguesa, tal como ela se instalou em 1974. Ficamos a saber que "Portugal não tem um projecto nacional desde 1974" e que antes da Revolução de Abril "bem ou mal, goste-se ou não se goste, Portugal tinha um projecto nacional." A nostalgia mal contida parece-me pouco menos que obscena, tendo em conta tanto os crimes cometidos pela ditadura antes da Revolução, como os avanços em todas as áreas da vida colectiva do país desde então. Exemplos que MJNP provavelmente considerará boçais, são os números do Human Development Index das Nações Unidas sobre Portugal: em 1970, a taxa de mortalidade infantil (à nascença) era de 62/1000, em 2002 era 6/1000. Isto tem um nome: progresso. Deixe lá estar o 'projecto nacional', cara MJNP: um país que deixa a população doente, pobre e ignorante, e obriga milhões a abandonar as suas aldeias, vilas e cidades à procura de uma vida mais digna pelos quatro cantos do mundo não é um país, é um fracasso.

segunda-feira, março 14, 2005

Torquemada, esse querido

Há muito tempo que a coluna de opinião de João César das Neves no DN ameaça tornar-se um caso sério de humor, ainda que involuntariamente. Aqui na Bóina já temos o hábito de lhe dar um tratamento, embora não queiramos tornar o senhor num previsível ódio de estimação.
Contudo, é inevitável referir algumas passagens inspiradoras da doutrina cesarista, como é o caso do texto desta semana:

"A Igreja é hoje desprezada, insultada, perseguida. Isso é normal e comum. Foi sempre assim ao longo dos séculos, de uma forma ou de outra. Os evangelhos avisam-no, os salmos, profetas, epístolas e a História descrevem-no."

"Nos últimos dois milénios o mundo, que tantas vezes condenou a fé, instituição, política, missionação ou doutrina social da Igreja, concordou em geral com a sua moral sexual. Não era seguida e muita gente fazia o contrário, mas todos, mesmo os que a violavam, sabiam que a visão cristã da sexualidade era equilibrada, sábia, louvável."

E JCN faz mesmo referência às constantes e aborrecidas alusões às Cruzadas e à Inquisição feitas pelos que "censuram por intolerância e obsessão aqueles que apenas formulam a posição cristã", como o bondoso padre Lereno Dias, brutalmente enxovalhado apenas por lido trechos de documentos da Santa Sé no sermão de uma missa transmitida pela rádio.

É que, como se sabe, "a Igreja, aqui como sempre, tem as posições mais elaboradas e fundamentadas de todas".

Só esses malvados é que não vêm: "Voltam as alusões às clássicas cruzadas e Inquisição e apregoa-se o perigo de prisões e fogueiras que só existe em imaginações incendiárias. Os cristãos receberam ordens de combater os erros mas amar sempre os inimigos."

Porque afinal de contas, Torquemada era um sujeito adorável. Só não vê quem não quer ver.

sexta-feira, março 11, 2005

O que se segue?

"Vídeo do Vaticano mostra primeiras palavras do Papa depois da operação" Penso que é apenas justo perguntar: com que imagens nos irá brindar o Vaticano de novas estreias post-op do papa? Será mesmo verdade que as primeiras palavras do Papa no recobro da operação foram uma benção? Será que o papa fala Kiswahili com os "prelados da Tanzânia", nomeadamente com o cardeal Polycarp Pengo e o bispo Severine Niwemugizi? Será que o Cardeal Polycarp Pengo ficou satisfeito com o curto "está bem" do Papa?
Penso que a pergunta mais relevante é: Será que tudo isto tem interesse suficente para ser referido no site de um dos mais lidos diários Portugueses (sem contar com os desportivos)?

Mourinho a Presidente da Junta

"Qualquer dia, em vez de «isto só lá com um Salazar» vai-se ouvir dizer «isto só lá vai com um Mourinho»".
O Luís Delgado já o disse, como se pode ver aqui.

quarta-feira, março 09, 2005

Israel

O conflito Israelo-Árabe e Israel, em particular, são temas que esporadicamente me fazem sentir desconfortável na minha pele de 'esquerdista'. Da menina dos olhos da esquerda europeia, o Estado de Israel foi gradualmente gravitando em direcção a um estatuto de 'bête noire'. O mais tardar depois da Guerra dos Seis Dias em 1967, em que Israel conquistou a Península do Sinai, Gaza e a Cisjordânia, o pequeno país foi lentamente adquirindo as caracterísiticas de tema unificador de uma esquerda saudosa de grandes narrativas, causas, paixões. Esta tendência agravou-se evidentemente a partir do fim da Guerra Fria: o colapso da única alternativa ideológica às formas de organização política e económica europeias e americanas com vocação global, deixou-nos a todos com a horrível sensação que já só se discutem pormenores, detalhes, minudências. A grande narrativa marxista foi - algo injustamente - arrastada para o baú das memórias juntamente com os regimes ditatoriais do Leste da Europa. Tirando a Coreia do Norte e Cuba, há poucos estados que não levem a cabo reformas mais ou menos alinhadas com os consensos globais resultantes do colapso do sistema de Bretton Woods e do Muro de Berlim. Aparentemente, até o Mundo Árabe está a acordar por razões várias para as vantagens aparentes da abertura económica e política. Sem querer embarcar num discurso teleológico e/ou determinista, dá-me a impressão que caminhamos para uma situação em que os consensos vão progressivamente ocupando a maior parte da acção política, fazendo com que os grandes debates sejam empurrados para a esfera da política internacional. No caso português, a participação no projecto europeu, e o Pacto de Estabilidade e Crescimento em particular, são exemplos de compromissos estruturais que reflectem esses tais consensos fundamentais sobre questões tão variadas como política monetária, direitos humanos, ambiente etc. Que saudades, dirão alguns, das grandes lutas, dos tempos em que a política ainda movia multidões! Que saudades de temas verdadeiramente fracturantes! Enfim, que saudades de assuntos em que o zelo emancipador da esquerda pode ser posto à prova! Estamos fartos de discutir banalidades anestesiantes! Iraque: mandamos 120 tipos a cavalo ou 0? Economia: combatemos o desemprego com a melhoria das qualificações e com a diversificação do sector productivo ou com o relaxamento das leis laborais e a simplificação do sistema fiscal, acabando com o princípio redistributivo? Política monetária: não há debate, quem manda é o Ecofin, o Eurogoup e o BCE; Finanças públicas: 3%, 3%, 3%...
Eureka, ouve-se de Braga aos Urais! De Inverness a Palermo! Finalmente encontrámos os 'bons' e os 'maus': tanques contra crianças; um Estado armado até aos dentes contra civis; opressão contra resistência; a testa-de-ponte de Washington contra a encarnação colectiva da injustiça global. Os nossos medias confundem datas, factos, manipulam notícias etc, mas não se trata aqui de má fé. Trata-se, sim, de um grande alívio: finalmente podemos dormir descansados. Somos consumistas, só conhecemos manifestações das histórias dos nossos pais, gravitamos qual aristocracia global acima da miséria que aflige dois terços da humanidade: mas pelo menos chamamos nazis aos israelitas, comparamos Jenin a Auschwitz, dizemos que "eles deviam saber o que isto é; eles sofreram isto na pele", comparamos Sionismo ao Apartheid, sussuramos que "no fundo só deixaram que se fundasse aquela aberração daquele estado porque tinham má consciência", "aquele estado só causa problemas", "o maior perigo para a paz mundial"... Uma pequena novidade para a esquerda entusiasmada pelo conforto deste último conflito entre opressores e oprimidos: o 'problema', meus caros, não é o Estado de Israel, o 'problema' não começa em 1948. O 'problema' já existe há séculos nos ghettos, nos Staedtl, nas ruelas e nas grandes praças de todas as capitais europeias - com especial ênfase para o nosso Rossio. Para os Judeus, Israel não é o 'problema'. É a solução do 'problema' que nunca foi resolvido, que foi sendo arrastado, que foi assumindo diferentes formas, até que em 12 terríveis anos se esclareceram as últimas dúvidas, se ouviu o canto de cisne da experiência singular do judaísmo europeu, que tanto enriqueceu o nosso continente. O 'problema', cara Esquerda, é que a Europa, o Iluminismo, a Modernidade, falharam na assimilação e/ou na aceitação da diferença do Judaísmo no seu seio; o 'problema' é que nunca a Europa conseguiu fazer os Judeus esquecer Jerusalem, Israel.
Israel é a solução. E se os Judeus aprenderam alguma lição com o passado é que só podem confiar neles próprios para sobreviver. Trata-se agora de salvar a alma de Israel e não deixar que a legítima defesa passe a justificar toda uma panóplia de injustiças, violações do direito internacional, e a brutalização da sociedade. Para aqueles que não conhecem Israel só do Público, do telejornal e das conversas com os amigos, há todas as razões do mundo para ser optimista. Numa conferência organizada pela Fundação Friedrich Ebert (julgo que nos finais de 2003), e em que tomou parte, entre outros, Yossi Beilin (agora deputado pelo partido de esquerda - sim, de esquerda -Yahad-Meretz), este afrimava-se convicto, ao contrário da maior parte dos israelitas, que Yasser Arafat "merecia mais uma hipótese", mas apelava áqueles que demonizavam Sharon a dar-lhe igualmente o benefício da dúvida. Trata-se de afirmações corajosas de quem não teve medo de remar contra a maré, numa altura em que Arafat estava completamente desacreditado e Sharon tinha reocupado grande parte dos Territórios.
Hoje a situação é outra. Sharon, por motivos aparentemente oportunistas, tomou uma iniciativa unilateral: abandonar Gaza. Sharon, o "carniceiro", o "assassino" etc, abandonará Gaza. Aprendemos todos uma lição já antiga: no Médio Oriente nada é previsível - o governo de Begin, de direita, faz a paz com o Egipto em 1979, Rabin assina Oslo em 1993, Barak retira do Líbano em 2000, Sharon arrisca a maioria parlamentar, o governo e a vida para retirar de Gaza em 2005.
Para concluir, em nome da defesa dos direitos dos Palestinianos, certos sectores e indivíduos que se dizem de esquerda irrompem regularmente em delírios anti-sionistas, e até anti-semitas. Claro que este fenómeno tem a ver, até certo ponto, com a ignorância dos factos históricos, ao mesmo tempo que revela, no recurso permanente ao simplismo, o saudosismo pelas grandes narrativas. De facto, reflecte acima de tudo, uma tentativa de apresentar Israel como uma mera extensão dos EUA, um capricho da super-potência, criatura dos Poderosos, aberração neo-colonial. Israel, por vezes por culpa própria, liberta os instintos mais xenófobos e obscurantistas da Esquerda. Mas o que se vai sussurando, aquilo que durante a segunda Intifada veio à superfície em conversas e artigos, é que o próprio Estado de Israel é ilegítimo, um erro, um perigo para a paz mundial.
Se isto tudo forem delírios paranóicos, ainda bem. Adoraria estar equivocado. Mas enquanto Israel sentir que a opinião pública mundial, e a europeia em particular, continuam a tratar este tema como um fetiche, um tema sobrecarregado de simbolismos que lhe são alheios, confluência de todas as frustrações, aspirações, ódios e amores daqueles que querem um mundo mais justo, enquanto este for o caso, a sobrevivência continuará a ser a legítima prioridade de Israel.

terça-feira, março 08, 2005

Um pouco de Futebol - Lord Mourinho of Stamford Brigde

O Chelsea ganhou ao Barcelona e Mourinho tem assunto para não se calar por mais algum tempo.
No café onde vi o jogo foi uma festa, com toda a gente que nos últimos anos não podia com a arrogância de Mourinho a celebrar, porque agora que já não é do Porto, é de todos os portugueses.
Os portugueses festejam por causa daquela coisa muito portuguesa que é ficar contente quando os nossos fazem boa figura lá fora.
Assim, para os portugueses Mourinho é o gajo que não tem medo de se atirar com tudo para cima dos adversários e mostrar aos ingleses que o que é português é bom. Os ingleses, esses malandros que tanto mal nos têm feito ao longo da história com a sua arrogância e fleuma que só nos fazem sentir inferiores. Tomem lá para aprenderem, o melhor treinador da terra do futebol é tuga!
Mourinho não conquistou os portugueses pelo mérito que indiscutivelmente tem, mas por que é o modelo do português esperto, que pode dizer o que quer porque ninguém o cala (e sabe-se como Mourinho fica quando as coisas não lhe correm bem, como se viu quando perdeu a taça para o Benfica)
Em Mourinho os portugueses vêm o lider que gostariam de ter, o pai que nos motiva, dá carinho e manda bocas aos outros niúdos que se metem connosco, tal como faz com os seus jogadores.
Pelo que não admira que, qualquer dia, em vez de «isto só lá vai com um Salazar» se ouça «isto só lá vai com um Mourinho».
Isso é preocupante.

A minha primeira vez

Nesta minha primeira contribuição, gostaria de chamar a atenção para o dia que se celebra hoje: o Dia Internacional da Mulher. Enquanto as sociedades modernas em geral, e a portuguesa em particular, não tiverem conseguido criar uma verdadeira igualdade de oportunidades entre sexos em todas as áreas da vida pública, pugnando ao mesmo tempo por um conceito de vida privada, de companheirismo, que se baseie em simetrias, partilha e respeito entre iguais, enquanto, dizíamos, esta luta não estiver concluída, justifica-se a existência desta data.
Espero que esta nossa modesta tentativa de contribuir para o aperfeiçoamento da nossa República seja a primeira de muitas.
Viva a República!
E quando é que convidamos mulheres para o nosso blog, camaradas?

Vamos lá projectar isto

Agora que temos um counter creio que é chegada a altura de projectar este Blog, da blogosfera para o espaço exterior, criando condições para que conste do maior número de pesquisas possível do google ou de qualquer outro motor de busca.

Pensei inicialmente utilizar a estratégia banal de publicação regular de textos rigorosos com conteúdos relevantes até conseguir atenção do público e de forma sustentada aumentar o nosso recente counter. Esta estratégia, ainda que muito válida, não corresponde a um certo espírito progressista que pretendo manter no âmbito do choque tecnológico, pelo que optei pela mais imediatista publicação de palavras-chave que nos irá pôr nos píncaros dos indicadores de relevância em todas as pesquisas.

Prometo para este efeito usar "little or no offensive material, apart from four cunts, one clitoris and a foreskin and as they only occur in this paragraph you are past them now".

Mas deixemo-nos de Monty Python para procurarmos engrossar as fileiras de visitors com as mais altas patentes da "Intelligence" Estadounidense com os clássicos Kill Bush, Osama Rules, God is Alá's bitch, Free Irak, Communism, Michael Jackson sister's boobie e Free donuts. Como temos neste preciso momento algumas das mais brilhantes mentes do mundo a sondar este blog em busca de pecaminosos conteúdos anti-americanos, quero assegurar que vimos em paz e que até gostava de ver o Freitas do Amaral a cantar 'gospel' com a Condoleezza Rice ou o YMCA como o Colin Powel.

Creio que agora é mesmo só sentar-me aqui a olhar para o contador de visitors a subir desalmadamente, enquanto fumo um charuto, bebo um whisky, esboço um esgar de satisfação e leio o Lolita (+30% das pesquisas google) ou o Animal Farm (+10%) porque também nisto dos blogs há uns mais iguais que outros.

P.S. – Para quem quer ter a certeza que a Galiza é Portugal (e desfrutar de um bom filme pelo caminho) vale a pena ver o Mar Adentro e ouvir mais um sotaque Português

Nova Galeria de Presidentes do CDS-PP



Oscar Wilde do Caldas

Certamente incomodados pela impossibilidade de expulsar Diogo Freitas do Amaral do partido, uma vez que este se antecipou uma dezena de anos e saiu pelo próprio pé, o ainda Secretário-Geral do CDS recorrereu aos serviços dos Correios de Portugal (ex-CTT) e decidiu enviar a foto oficial do seu ex-líder para o Largo do Rato. A justificação mais provável deve prender-se com a necessidade de arranjar espaço para o futuro líder do partido na galeria do Caldas.
Esta traquinice deselegante é inconsciente e resultado de ausência de ponderação ou é produto do esforço concertado de dirigentes sedentos por atenção mediática gratuita a qualquer preço (incluindo o do ridículo)?

S. Pedro ligue no Canal 1 que estão a falar de si

A RTP decidiu fazer um directo a partir de uma igreja onde se rezava por chuva. Pergunta a jornalista da televisão pública:
"Sr. Padre, como é que se explica que depois de tantas novenas, tantos pedidos a Deus, continue sem chover?"

Se ela estava a falar a sério e aguardava uma explicação racional, é triste.
Se estava a tentar desmascarar alguém, confrontando o pobre pároco com a contradição entre o científico e o religioso, é do mais anticlerical a que temos vindo a ser habituados.

Apesar de tudo, aposto na primeira hipótese...

segunda-feira, março 07, 2005

Post a partir da Cova da Beira

Escrevo este post a partir da Universidade da Beira Interior, na cidade da Covilhã, uma cidade que se soube reinventar após o declínio da indústria têxtil local: a aposta na Universidade é uma aposta ganha.

Ao nível das instalações, a UBI encontra-se entre as instituições de ensino superior mais bem equipadas - estação de rádio e estúdio de televisão para os cursos de Comunicação Social, grau de informatização notável, antigas fábricas convertidas em anfiteatros e salas de aula com respeito pela traça urbana tradicional. A Faculdade de Ciências Médicas, por seu turno, representa o mais recente progresso da Universidade e vai certamente aumentar o número de alunos que optam pela Covilhã como primeira escolha.
A própria cidade ganhou novo rosto graças ao Programa Pólis: requalificação urbana, despoluição de cursos de água e aposta na proximidade à Serra da Estrela para atrair turismo.
Determinante para todos os desenvolvimentos apontados é a Auto Estrada da Beira Interior, a A23, que ao reduzir as distâncias permite à cidade colocar-se mais próximo do litoral e da fronteira espanhola (criando um potencial e muito interessante eixo universitário com Lisboa, Coimbra e Salamanca).

sexta-feira, março 04, 2005

And now for something completely different

Freitas do Amaral é o novo ministro dos negócios estrangeiros.
Confesso que gosto do Freitas. Até há bem pouco tempo eu era dos que dizia que era das poucas pessoas credíveis à direita, porque até então o via, não como alguém que imigrou para a esquerda, mas apenas como o representante da direita com juízo.

Confesso, no entanto, que me enganei redondamente.
Ele bem pode vir dizer que o faz por superior interesse da nação - mas já não há volta a dar.
Benvindo a bordo, camarada Freitas.

Tinha de ser...

No blog republicano não podia faltar o comentário ao Padre Serras Pereira, descrito pelo DN de quinta-feira como "clérigo obscuro" . Apesar daquele jornal provavelmente se querer referir ao grau de notoriedade do referido cidadão, a qualificação assenta como uma luva se considerarmos os demais sentidos possíveis da palavra (eu acrescentaria um sufixo - obscurantista é ainda mais preciso).

Desautorizado pela hierarquia da Igreja e desacreditado pela esmagadora maioria dos comentários publicados, o Zelota da semana aguarda certamente com expectativa pela próxima segunda-feira, para poder ser defendido e vindicado por João César das Neves na sua coluna semanal.

Apesar de tudo, o que eu mais admiro na opinião expressa pelo referido prelado é a insuperável capacidade para a contradição elementar: se a argumentação contra o aborto, o uso do preservativo e de outros meios contraceptivos assenta na defesa do direito à vida, como é que é possível defender que a inseminação artificial é igualmente pecaminosa? Não se destina a reprodução medicamente assistida a gerar vida humana, auxiliando casais com dificuldades em engravidar?

O DN informa-nos ainda de que o cavalheiro em questão é citado pelo Partido Nacional Renovador no seu site. Diz-me com quem andas...


Não deixa de ter piada...

Tentem explicar esta.

80 cidadãos portugueses residentes no estrangeiro (em ambos os círculos) votaram no PNR. Será que aqueles que residem em França também votam na Front National?


Residentes no Estrangeiro e Proporcionalidade

É urgente repensar a participação dos cidadãos portugueses residentes no estrangeiro na eleição da AR. Contados os votos, o PSD elegeu 3 Deputados (2 Fora da Europa e 1 na Europa) e o PS 1 (Europa). Contudo, em números absolutos de votos nos dois círculos o PS teve aproximadamente mais 1800 votos que o PSD - na soma dos dois círculos contam-se 15883 votos para o PS e 14011 para o PSD.
Os resultados eleitorais revelam ainda que uma ligeira alteração na correlação de forças pode implicar (como já implicou) uma inversão do número de eleitos. Se o PS tivesse retirado cerca de 160 votos ao PSD no círculo da Europa teria conseguido eleger os dois Deputados. No círculo de Fora da Europa, idêntica transferência de votos teria conduzido à eleição de um Deputado por cada partido. Resultado final hipotético: 3-1 a favor dos Socialistas (como em 1999).
Assim sendo, uma reforma minimalista justifica-se desde já: fundir os dois círculos como forma de garantir um melhor aproveitamento dos restos. Num cenário de círculo único, cada Partido teria obtido 2 mandatos, resultado esse verdadeiramente proporcional. Trata-se, aliás, de um medida igualmente urgente nos círculos eleitorais de pequena dimensão, particularmente Évora, Beja ou Portalegre - neste caso o caminho deve passar pela criação de um círculo único para todo o Alentejo.

Penso, contudo, que devemos ir mais longe. No Círculo Eleitoral da Europa estão inscritos 75 803 eleitores e no Círculo Eleitoral de Fora da Europa, 72 575, elegendo cada um 2 Deputados. De momento, o número de deputados a eleger pelos círculos da emigração não apresenta, aparentemente, qualquer desvio em termos de proporcionalidade face aos demais círculos. O círculo de Portalegre (elege 2 Deputados) tem cerca de 100 mil eleitores, não ficando longe do número de inscritos em cada uma daquelas circunscrições. Já o círculo de Bragança (elege 4 Deputados) tem perto de 150 mil eleitores, próximo da soma dos dois círculos de residentes no estrangeiro.

Todavia, se considerarmos que no círculo da Europa apenas votaram 30% dos inscritos e que no círculo Fora da Europa votaram 18%, facilmente constatamos que os números do recenseamento estão longe de representar a participação eleitoral dos residentes no estrangeiro. Por outro lado, se todos os cidadãos portugueses residentes no estrangeiro decidissem recensear-se (não esqueçamos que a Lei da Nacionalidade é bastante generosa em relação aos luso-descendentes), estaríamos perante um gigantesca desproporção - 4 deputados para uns potenciais 4 milhões de eleitores...

Deve, pois, haver lugar a uma reponderação profunda das regras - impondo um número máximo de anos a residir fora do território nacional como critério para o recenseamento (como o fazem o Reino Unido ou a Alemanha) ou acabando com os círculos da emigração através do recenseamento dos residentes no estrangeiro na circunscrição da sua última residência em território nacional.

Sem alterações, o quadro vigente apenas oferece algum charme, desde a expectativa de mais de uma semana até estarem contados todos os votos (particularmente entusiasmante quando uma eventual maioria absoluta depender do resultado) até ao cheirinho a jogo de futebol internacional, do tipo Europa contra o Resto do Mundo...

NOTA - O presente post foi escrito tendo por base os resultados disponibilizados no site do STAPE. Contudo, os números que se encontram nas notícias do Expresso Online e do Diário de Notícias são diferentes. O Expresso noticia mesmo que o PSD apenas elegeu o seu Deputado na Europa por 5 votos. Fica por esclarecer quais os números correctos - esperemos que sejam os do STAPE...

Diários de Referências

Confeso que hoje li o 24 Horas.
Há, contudo, uma boa razão: ao colocar um anúncio no jornal é-nos oferecida uma cópia do DN e outra do 24 Horas (é certo que podia não o ter lido, utilizando-o para embrulhar peixe ou para recortar letras e enviar ameaças anónimas, mas se assim tivesse feito não tinha agora tema para este post...).

Escreve o Director do referido jornal, Pedro Tadeu, o seguinte editorial:

"Vai uma nervoseira nos jornais da concorrência em relação aos nomes do Governo de José Sócrates. E a possibilidade de António Vitorino não ficar no executivo fez palpitar os corações de muitos jornalistas. Também se especula sobre a possibilidade de Manuela Ferreira Leite ir disputar a liderança do PSD a Marques Mendes e Menezes. É tudo, sem dúvida, muito importante para o País mas, desculpem lá o mau jeito, o que impressiona mesmo a opinião pública são os nomes das nossas novas Belas & Perigosas. Isto é que é uma equipa!"
Para quem não é leitor assíduo do 24 Horas, "Belas e Perigosas" é uma secção (que ocupa as páginas 2 e 3 do jornal), em que várias jovens modelos noticiam os pontos altos da vida social portuguesa - jornalismo crítico e acutilante, portanto.
Na óptica do director, a contratação da novos talentos para a referida coluna e a sua apresentação em estilo quasi-Maxmen é seguramente mais relevante que o futuro Governo ou a campanha interna no PSD, notícias claramente menores. Há que dar graças por uma imprensa livre e vigilante. Se assim não fosse, o público seria entediado com notícias sobre o futuro titular das Finanças em vez de ser colocado a par da Campanha "Somos pelos Cães" e da saúde da Juanita, a amiga canina de Cinha Jardim.
Levanto ainda a hipótese académica de se tratar de um sublime exercício de ironia cósmica por parte de Pedro Tadeu. Por favor convençam-me...

O frio que faz lá dentro

Mas que governo é este que se faz sem dar cavaco (está bem, a expressão é infeliz...) a ninguém?
O povo quer é circo, os abutres querem carne, e só nos dão sobriedade. Está tudo escondido com o frio ou quê?

terça-feira, março 01, 2005

Também, com o frio que faz hoje...

Hoje li uma notícia que me surpreendeu um pouco: "Associação de municípios vai processar Saldanha Sanches" . Ao que parece o Dr. Saldanha Sanches (O fiscalista) vai ser processado pelo Dr. Fernando Ruas (O camarário) por ter declarado ao "Diário de Notícias" (O Diário) que um elevado número de autarcas portugueses exigem "luvas". Até parece mentira que um jurista de renome como "O fiscalista" se negue a reconhecer o direito das pessoas se protegerem do frio. Ao menos o delator não foi o Dr. Jorge Miranda (O constitucionalista).

Após algumas breves entrevistas de rua que levei a cabo hoje apurei que José António Silva (O pedreiro), Luís Pedro Santos (O servente) e outros que preferiram manter o anonimato também têm frio e gostariam de contar com “luvas” no exercício da sua profissão, mas não têm, como os nossos autarcas, coragem (A lata) de as exigir.

O que acho estranho é que “O camarário”, suposto protector da classe, ande a exigir a “O Fiscalista” que denuncie publicamente esses corajosos colegas que lutam pelo justo direito às “luvas”, ameaçando inclusive “O Fiscalista” de o considerar “como da outra vez, um aldrabão”. Ao que “A boina” conseguiu apurar, “O fiscalista” não dorme direito desde “a outra vez”.

É neste contexto que eu apelo à sociedade civil para se organizar na oferta das “luvas” aos nossos pobres autarcas para que estes deixem de câmarear de “mani pulite” e de sofrer de frieiras e outros males. Estimo que, se todas as pessoas que já pagaram “luvas” uma vez, contribuírem com um escudo, conseguimos calçar de luvas o equivalente em autarcas a metade de uma pequena província chinesa.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Beethoven, Fidelio, Liberdade, Igualdade, Fraternidade

Assisti hoje a uma versão de concerto da ópera “Fidelio” na Gulbenkian e tenho cada vz mais a certeza que é o programa cultural desta Fundação que nos mantém na lista dos países civilizados apesar do claro falhanço num dos critérios mais vigiado pela OCDE, que é o da diferença de votos entre Trotskistas e Democratas Cristãos.
A determinada altura da ópera, ouvi (e confirmei no libreto) algumas frases que não podia deixar de partilhar convosco. Trata-se de um trecho de um monólogo do ministro dirigindo-se ao povo:
“Não sejais por mais tempo escravos sepultados,
Desapareça a tirania do tirano
O irmão procura os seus irmãos,
E se puder ajudá-los, o fará de bom grado”
Meus caros, eu não percebo nada de alemão, mas sei que naquele momento senti uma necessidade irresistível de olhar para o libreto e li nestas frases toda a força da Revolução Francesa ao som heróico de um Beethoven apaixonado pela liberdade. São momentos...

Espírito democrático

A opinião de Vasco Graça Moura (no DN) é elucidativa quanto ao seu espírito democrático e fair-play eleitoral: "o grande derrotado nestas eleições foi o País. Virou à esquerda e entregou o poder a um sector dela que é manifestamente incapaz de governar de modo a responder às necessidades dos portugueses".

Vasco Graça Moura (VGM) é particularmente coerente quando afirma que o "eleitorado português não apostou na mudança. É conservador, corporativo e retrógrado. Essa é a estabilidade que pretende lhe seja garantida." A não ser que Portugal tenha trocado de eleitorado com algum outro país ao abrigo de um recente programa de intercâmbio, fico com a impressão de que o eleitorado que deu maioria absoluta a José Sócrates foi o mesmo que deu a vitória a Durão Barroso em 2002.
Para rematar, VGM informa-nos de que, a curto prazo, Portugal "terá de enfrentar uma monstruosidade sem pés nem cabeça e tornar-se-á uma aberração irresponsável e ingovernável". Será certamente nessa altura que vamos ter saudades da competência e responsabilidade de Santana Lopes e nos vamos penitenciar colectivamente por termos posto fim à sua formidável carreira política.

A moral da história para Vasco Graça Moura é a seguinte: quando o meu partido ganha, o eleitorado é esclarecido, dinâmico e desejoso de mudança; quando ganham os outros, o eleitorado é analfabeto, apático e retrógrado.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Seguir em frente

No rescaldo eleitoral ainda continuamos a encontrar referências à decisão de Sampaio - ilegítima para os mais radicais, partidária para os mais moderados, inédita para quase todos os que se pronunciam. Quem vai mais longe afirma mesmo que Sampaio é o principal derrotado da noite eleitoral - exercício genial de contorcionismo argumentativo que a todos recomendo.

É um facto indiscutível que Jorge Sampaio foi o primeiro Presidente da República a dissolver uma Assembleia em que existia uma maioria governativa. Contudo, Sampaio não acordou com humores estranhos e decidiu inventar uma norma constitucional. O juízo emitido foi estritamente político e assentou na avaliação feita pelo Presidente. Mas interrogo-me se não é precisamente por isso que elegemos quinquenalmente um Chefe de Estado em regimes republicanos. Não se trata de um órgão político? Se assim não for bastar-nos-ia um notário para as tomadas de posse e um relações públicas para as cerimónias públicas.
O poder de dissolução não é novo - encontramo-lo no texto da Constituição desde a versão originária. Não desaparece pelo facto de não ter sido exercido até ao momento, nem se torna de exercício obrigatório para todos os Presidentes pelo facto de ter sido exercido no passado (um facto que muitos têm de recordar quando "ameaçam" a nova maioria com o fantasma de uma dissolução caso o próximo Presidente da República provenha de uma família política diferente).
Menos convicente ainda parece a afirmação feita por Santana Lopes nos dias finais de campanha e recentemente recuperado por alguns, segundo a qual se estamos perante um poder inédito em sistemas políticos ocidentais. Santana esquece naturalmente que o nosso sistema se caracteriza pela sua natureza semi-presidencial e que a faculdade de dissolver a Assembleia parlamentar é frequente em sistemas políticos em que o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo e universal. Precisamente porque está investido de legitimidade democrática directa, o Presidente pode fazer juízos políticos como o que fez, dissolvendo a Assmbleia.
Pode parecer estranho estar a retomar uma discussão constitucional que já foi travada em Julho e em Dezembro, mas a derrota de dia 20 suscitou uma nova leva de contestação à decisão presidencial, contestação essa que deve ser definitivamente arrumada. O eleitorado confirmou o juízo político do Presidente, demonstrando que este soube ler correctamente a opinião pública maioritária. Para além disso, a decisão de não convocar eleições em Julho fundou-se na continuidade do rumo traçado pelo maioria sufragada em 2002 e não na instalação no poder de um líder errático, inconstante, com falta de sentido de Estado e sem atributos indispensáveis para o exercício de funções governamentais. Mais do que castigado pelo legado de Durão Barroso (como Santana fez deselegantemente questão de frisar nos seus dois últimos discursos) o ainda Primeiro-Ministro perdeu as eleições essencialmente devido às suas características de "guerreiro-menino".

Cata-vento

Como partido cuja bases "mais representam a sociedade portuguesa", integrando desde "pequenos agricultores e comerciantes até médicos e advogados", o PSD "sente melhor que qualquer outro partido as necessidades do país".
Daí que Luís Filipe Menezes defenda "o recentramento do partido na área do centro, centro-esquerda", passe a cacofonia.
Ou seja, Luís Filipe Menezes percebe o que está a dar votos.
Por este andar, a sedes da Jota SD vão passar a afixar cartazes de Che Guevara nas paredes, como acontecia no PREC.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

PSD Madeira - Há sempre uma primeira vez

Tendo ligações muito fortes à Madeira, um dos meus preconceitos de estimação sempre foi a certeza de discordar de qualquer posição assumida pelo PSD local. Este preconceito sempre se revelou de uma eficácia estrondosa, que permitia uma tomada de posição rápida nas muitas matérias sobre as que esta secção do PSD se pronuncia, normalmente na pessoa do seu líder, o Sr.Alberto. Imaginem o meu espanto quando hoje li, "PSD-Madeira rejeita candidatos que apoiem Cavaco Silva para Belém"!! Todo o meu mundo abalou ao quase ver destruído um dos seus pressupostos mais fieis.
Resta-me a consolação de acreditar que eu e o PSD Madeira discordamos em relação à melhor alternativa ao "Sr. Silva", e até recuperei outro animo quando li a frase: "é óbvio que o presidente do PSD-Madeira é sempre uma boa alternativa para salvar o partido a nível nacional". Afinal nem tudo são más notícias.

Porque a coerência é um bem escasso...

Luís Delgado afirma na SIC Notícias que Santana Lopes perdeu as eleições por culpa de Durão Barroso, que fugiu, governou mal e mentiu aos portugueses. Segundo Delgado, Santana mais não podia fazer em quatro meses de governação.

Como qualquer leitor assíduo de Luís Delgado no DN estou muito confuso. A retoma não estava sempre aí? A austeridade imposta por Manuela Ferreira Leite não era indispensável e sábia? Durão não cumpria um desígnio nacional ao partir para Bruxelas?

Nortista, popular e conservador?

Luís Filipe Menezes entrou na corrida à liderança do PSD. Protagonista memorável de episódios como as viagens-fantasma e o Congresso do Coliseu, pilar de coerência e conciliador de facções na Distrital do Porto, Menezes é o líder de sonho de qualquer militante do PS.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Mais vale cair em graça que ser engraçado

Passei pela SIC Notícias e vi Manuel Monteiro a falar. Pela ordem de votação, suponho que antes ouviram Garcia Pereira, não?

Adeus

Santana sai. Com dois dias de atraso, mas sai. Contudo, a sensação que fica é a de que sai por ter consciência de que começa a perder o partido e não porque perdeu o País. O início do descontentamento entre os autarcas e a entrada em cena de vários candidatos ditaram o fim da breve passagem de Santana pela chefia do PSD.

O senhor que se segue mais provável no momento parece ser Marques Mendes. Se assim for, contribui para solidificar uma tradição no partido desde a saída de Cavaco: todos os candidatos à liderança acabam, mais cedo ou mais tarde, por ascender ao topo.

Portugal visto do Espaço



Responsabilidade máxima

O PS assumiu a 20 de Fevereiro de 2005 a maior responsabilidade da sua história em Democracia. A dimensão da vitória implica que acarretará sozinho o lastro negativo das medidas impopulares que seguramente terá de tomar e aumenta também a fasquia ao nível dos resultados da governação.

O novo partido maioritário tem pelo menos a vantagem de conhecer os vícios e defeitos do seu passado recente. A indecisão e vontade de agradar dos anos finais de Guterres ou a tentação de instalar as hostes partidárias na máquina do Estado devem ser acorrentadas. Contudo, o PS tem também de ter presente a existência de um vírus novo ao qual até agora tem sido imune, por força dos anteriores resultados eleitorais. A absolutite cavaquista e a sua tendência para degenerar em poder arrogante e autista é um perigo para todos os partidos investidos no poder maioritário. O PS sofreu na pele a ausência de diálogo e de civismo democrático durante a sua travessia do deserto, pelo que tem a todo o custo de evitar os erros dos outros.

Há que aproveitar, dentro do possível, a pequena vaga de optimismo criada por uma inédita maioria de esquerda. Não se trata de lidar com o Bloco e com o PCP como iguais - o eleitorado foi claro na sua opção e por muito que alguns entendam que independentemente do resultado é o PS que tem de ir ao encontro das "suas" verdades, o PS tem um mandato inequívoco para o seu programa. O PS deve, porém, alcançar uma ampla base de apoio social para as reformas que se impõem, sendo o papel da restante esquerda parlamentar potencialmente importante - as relações do PCP com o mundo sindical ou a influência do Bloco nalguns meios académicos não devem ser ignoradas, antes utilizadas para construir consensos.

Há também que deixar a porta aberta ao diálogo com o PSD, assim que este se libertar do jugo populista que agora o consome em querelas internas. Em matéria de política europeia e de relações externas é ainda ao centro que o equilíbrio se encontra e que a concertação de posições se deve ensaiar.

Os próximos dias são de expectativa quanto à equipa de José Sócrates, mas os sinais dados na noite eleitoral são já bastante positivos: manter o espírito de abertura a toda a sociedade que presidiu às Novas Fronteiras e procurar credibilidade e competência para as novas caras do Governo.

A esquerda não-absoluta

O Bloco alcança com fulgor os seus objectivos, elegendo mais 5 deputados e conquistando cerca de 210 mil votos. Em metade dos círculos eleitorais (Aveiro, Bragança, Faro, Guarda, Leiria, Porto, Viana, Viseu, Açores e Madeira ) chega mesmo a destronar o PCP como segundo partido de esquerda, conseguindo nalguns casos ser a terceira força política (Faro e Coimbra). Contudo, a maioria absoluta do PS priva-o da possibilidade de desempenhar o papel de fiel da balança. Não sei se para tristeza ou contentamento dos seus líderes. Sem ter de se responsabilizar por actos de governação o Bloco pode manter o seu estilo, as suas bandeiras e o seu papel. Pode continuar a ser crítico em relação à política europeia e ao atlantismo. Pode, enfim, salvaguardar a sua radicalidade.

Pela primeira vez (se tudo correr como previsto) o Bloco cumprirá uma legislatura na AR e não beneficiará de uma dissolução parlamentar potenciadora de votos de rejeição e protesto. A dúvida que fica para as próximas eleições é a de saber até onde pode crescer o Bloco de Esquerda e quem será penalizado pelo seu crescimento.
O PCP aguentou. Como tem vindo a aguentar - o declíno é agora lento e, para já, a sangria eleitoral do decano dos partidos portugueses parece estancada. A vitalidade, honestidade e sinceridade simpática de Jerónimo de Sousa são um balão de oxigénio, mas não fazem desaparecer a tendência para a purga da opinião dissonante nem a ameaça do Bloco, que se afirma como a esquerda moderna e que ameaça e aspira ocupar o lugar aos comunistas. A perda do segundo lugar no quadro da esquerda é uma ameaça real, sendo a aproximação em número de votos a nível nacional (cerca de 70 mil de diferença) um indício forte. Os resultados na capital são elucidativos quanto ao perigo - no concelho de Lisboa o BE chega à frente do PCP enquanto no distrito apenas um ponto percentual os separam.

Trotskistas e Democratas Cristãos

Para Paulo Portas a percentagem eleitoral que separa democratas cristãos de trotskistas é um indício do grau civilizacional de um povo. Para Paulo Portas a campanha eleitoral foi uma luta cultural pela conversão de um País perdido. Para Paulo Portas a ausência de referências ao divino no discurso público é um sintoma do politicamente correcto.
O eleitorado discorda esmagadoramente desta visão. O eleitorado exigiu que os partidos da coligação prestassem contas pela sua governação. O eleitorado escolheu outro "modelo cultural", um modelo cultural que assenta precisamente na ausência de dogmatismo quanto aos valores "certos", aos estilos de vida "certos" e às referências filosóficas "certas".
Paulo Portas terá entendido a mensagem e abandona desiludido a liderança. Se desiludido com o grau de perdição dos portugueses ou desiludido com o fracasso da sua própria estratégia eleitoral essa é outra questão. Pode tratar-se de um adeus, de um até sempre companheiros ou de um até breve que marque o início de uma travessia do deserto. Se o anúncio foi a sério e Portas não ceder às vagas de fundo, fica pelo menos o exemplo para o parceiro de coligação de como se devem assumir os efeitos de derrota e sair com alguma dignidade pessoal.

O guerreiro menino e a aldeia dos irredutíveis

Estamos no ano de 2005 depois de Jesus Cristo. Todo o Portugal continental está ocupado pelos socialistas. Todo? Não! Um distrito habitado por irredutíveis santanistas resiste ainda e sempre ao invasor.
Santana Lopes perdeu estrondosamente as eleições legislativas. Não se trata de novidade para ninguém, com possível excepção do próprio. Para Santana Lopes a máxima é win some lose some. Pronto, perdi. Deixa estar. Para a semana há jogo outra vez e ainda falta muito para acabar o campeonato. Certamente trata-se de uma filosofia que adoptou nos seus tempos de Presidente do Sporting ou de comentador do Jogo Falado.
28 % não é assim tão mau argumenta Santana. O primeiro resultado de Cavaco ficou-se pelos 29%. Em 1983 o PSD só obteve 27%. O próprio Sá Carneiro começou a sua caminhada com resultados na casa dos 25%. Má vontade da comunicação social e dos comentadores, certamente. Afinal, parece ser irrelevante que com Cavaco 29% tenha significado uma vitória eleitoral e a formação de Governo, que os 27% de 1983 ocorrem no rescaldo da AD e mesmo assim mantêm o PSD no poder e que os primeiros resultados do partido ocorrem no clima de um país pintado de vermelho.
Santana vai ficar. Ficará até ser convidado a sair (para usar um metafóra da vida das discotecas da capital) ou até ser eleito para outras funções mais apelativas. O seu objectivo parece agora ser Belém, zona bem situada, próxima da 24 de Julho.
Resta-lhe o consolo de não ter perdido Leiria. Provavelmente, Santana até deve estar contente por se ter visto livre do Cavaquistão, exorcizando mais um fantasma do professor à sua liderança. Leiria pode agora ser um admirável mundo novo, um Santanistão irredutível de braço dado à Madeira. É este o legado de Santana ao seu sucessor.
O PSD parte para o seu terceiro congresso em menos de um ano, o vigésimo sétimo em trinta anos de existência, o palco da tragicomédia que ameaça um dos pilares da alternância democrática. Esperemos que soem as campainhas de alarme entre os militantes do PSD. Cavaco em Belém é a única vitória a curto prazo a que podem aspirar...

A impaciência

Manuel Monteiro é um dos derrotados da noite de 20 de Fevereiro. Não só a sua Nova Democracia não se impôs no primeiro lugar da II Liga dos Partidos, perdendo para o eterno vencedor daquele campeonato, o PCTP/MRPP, como o fim do ciclo de Paulo Portas no CDS revela um cálculo político infeliz do seu antecessor. Manuel Monteiro não foi suficientemente paciente para aguardar pelo fim político do "Paulinho das feiras", o que lhe permitiria aspirar a um regresso a médio prazo ao Caldas. Ao partir para a fundação do PND, Manuel Monteiro expurgou o CDS da oposição interna e inviabilizou um eventual retorno.

Os sistemas eleitoral e partidário portugueses são aversos a intrusos. O PRD conseguiu recolher grande parte do descontentamento com o Bloco Central, mas desapareceu por completo dois actos eleitorais depois. Mesmo sendo um história de sucesso, o Bloco de Esquerda assenta numa lógica de concertação de esforços (e votos) de partidos com alguma história e com algum sucesso eleitoral (a UDP elegeu deputados concorrendo sozinha e o PSR falhou a eleição de Louçã em 1991 por uma mera centena de votos).

Com um resultado (muito) fraco num momento de descontentamento à direita, o PND pode ter perdido o direito a uma segunda oportunidade. Ainda assim, cumpre sublinhar a dificuldade em fazer nascer um partido à direita perante o mais avassalador resultado eleitoral da esquerda. O PND entra agora num ciclo difícil, em que dificilmente alcançará a exposição mediática que os recentes actos eleitorais lhe ofereceram. Estará Manuel Monteiro arrependido?

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Votos brancos

Apesar do apelo de muitos ao voto em branco como arma contra o mal-estar instalado na vida pública, não observámos uma explosão dos seus números. Ainda assim, passámos de cerca de 55 mil votos em 2002 para pouco mais de 100 mil em 2005. São números que ficam acima da soma dos dois maiores dos pequenos partidos (cerca de 47 mil do MRPP e 40 mil do PND) e que provavelmente reflectem um dilema de algum eleitorado do PSD, encurralados entre não querer contribuir para a maioria absoluta e rejeitar votar no "menino guerreiro".
Contudo, é cedo demais para analisar este duplicar dos boletins em branco. Em 2009 poderemos constatar se se tratou de um mero episódio do fim nas urnas de Santana Lopes ou se estamos perante uma nova tendência eleitoral.

Não se pode enganar toda a gente o tempo inteiro

Das muitas coisas que se devem saber quando se faz política, destaco duas.

1. Os eleitores não são estúpidos: não é porque alguém afirmar dizer a verdade que toda a gente passa a concordar que a verdade é só o que essa pessoa disse. Quando acredito na minha verdade, apenas me é legítimo persuadir ooutro da sua bondade, não do seu carácter absoluto.

2. O discurso do homem que está fora do sistema, porque o sistema não gosta dele, já não pega. O eleitor sabe, mais tarde ou mais cedo, que um político é sempre alguém do sistema, porque até mesmo alguém (um guerreiro, digamos) que queira mudar o sistema, apenas o quer substituir por outro.

Santana Lopes apresentou um jornal de campanha intitulado «A Verdade», e um "programa de rádio" - o seu tempo de antena radiofónico - chamado «A Voz da Verdade» (que por acaso até é o nome de um boletim informativo da Igreja, distribuido à saída da missa...). Com isto, para além de perder uma oportunidade de passar uma mensagem política (e tentar convencer alguém de que se é uma vítima não é uma mensagem política) o PSD menorizou o eleitorado.

O mesmo fez Paulo Portas quando colou o seu partido à religião e acenou com o Anti-Cristo a aparecer à esquerda, a que se opunha o CDS, «o partido dos valores» - como se para além da direita mais ninguém tivesse valores. Parece que, de repente, os 60 581 que este ano não votaram CDS são almas perdidas.

Estes dois homens fizeram mal aos seus partidos, o que não me rala absolutamente nada.

Ganhar eleições assim é fácil. Enquanto a direita brincou com os eleitores, a esquerda fez o que lhe competia. Fez política, não fez birra.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Azul, branco e laranja

Acabo de ver as imagens do comício do PSD no Pavilhão Atlântico. Para além da retórica vitimizante a com a qual o futuro ex-primeiro-ministro nos tem brindado, fiquei com a imagem das bandeiras azuis e brancas com as armas reais gravada na retina. Aparentemente, não causa espécie alguma ao Chefe de Governo da República Portuguesa associar-se aqueles que negam a legitimidade do regime republicano e descartam os símbolos de identidade da comunidade política.

É certo que não se trata de qualquer novidade - o "negócio da vida" do PPM e do MPT já tem algumas semanas. Ainda assim, ver o ondular do estandarte monárquico no seio da campanha de um dos principais partidos portugueses não deixa de ser decepcionante. Apesar do azul e branco ter um lugar na nossa memória colectiva como as cores do exílio da Terceira, do desembarque no Mindelo e da luta pelo fim do Absolutismo, quem ergue as referidas bandeiras ergue-as contra o verde e vermelho do 5 de Outubro de 1910, contra a igualdade entre todos sem distinções de nascimento e contra a democracia plena e exigente que o regime republicano realiza. Apesar dos seus defeitos iniciais, a República aprofundou a democracia liberal herdada do século XIX e apostou na dignificação de todos os seres humanos como cidadãos esclarecidos e empenhados no melhoramento da coisa pública.

É triste ver o PSD a caucionar esta vontade de retrocesso político e a dar foros de cidade a tendências minoritárias, desprovidas de expressão social e eleitoral.

PS: Ao olhar para projecção de número de deputados nas sondagens da recta final não se esqueçam de subtrair 4 deputados ao PSD...

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Fait Divers

Hoje fui a Santarém. Por causa do Bloco de Esquerda, tive a grata oportunidade de ir vendo nos cartazes colados pelas ruas a cara da Joana Amaral Dias. Santarém está muito mais bonita nesta altura do ano.

Os esquecidos da República

A questão do luto pela morte de Lúcia de Jesus é, no mínimo, discutível, e não respondo sem alguma dúvida. Se me perguntarem se Maria de Lurdes Pintassilgo, Fernando Vale ou muitos outros esquecidos pela República mereciam mais o luto nacional do que a Irmã Lúcia, não tenho dúvidas em responder que sim.
Enquanto homenagem do Estado, o luto nacional não deve ser mistificado, desde que correspondentemete não seja vulgarizado.
Daí que não se deva contrapor a esta situação o - lamentável - esquecimento de Maria de Lurdes Pintassilgo. Acertadíssimo o comentário do Pedro Alves sobre o modelo de mulher que fica celebrado quando uma é homenageada e a outra não.
Mas o problema, recorrente, nesta República, não são os mortos que homenageia - é a memória daqueles que não o são.

A Confissão


Santana Lopes apelou finalmente à lucidez dos portugueses, pedindo "aos que têm pouco, aos que sabem que custa muito ganhar o pouco que têm, que não entreguem a gestão do país a quem já provou não o saber fazer". (Notícia completa no Público de Domingo).

César e Deus (Mateus 22,17)

Não me querendo alongar muito mais sobre o falecimento de Lúcia de Jesus, e sendo insuspeito para tanto, apenas desejo realçar a lucidez de algumas vozes no seio da Igreja que denunciaram o aproveitamento político da situação e garantiram que o tiro do PP e PSD lhes saiu pela culatra - Januário Torgal Ferreira e Manuel Martins.

Penso ainda a respeito desta matéria que não deve haver lugar a luto nacional, discordando respeitosamente do outro condómino deste blog. Não obstante a representatividade de determinada confissão e o relevo de determinada individualidade ligada a essa confissão, o motivo principalmente determinante para decretar o luto nacional neste caso foi de natureza estritamente religosa. Trata-se, pois, de um juízo de identificação com um determinado credo, de todo incompatível com a separação entre o Estado e as Confissões, ainda mais censurável na medida em que procura retirar divendos políticos através da associação de determinadas formações partidárias ao acto.

Mais grave se afigura a medida se atendermos ao facto de a República Portuguesa, ou pelo menos os seus actuais governantes, tenderem a esquecer os seus cidadãos mais ilustres. Em Julho passado o País perdeu uma das suas principais referências democráticas e humanistas. Primeira mulher a chefiar um executivo em Portugal, primeira candidata à Presidência da República, uma das primeiras Eurodeputadas portuguesas, embaixadora de Portugal na UNESCO, defensora ímpar do papel das mulheres na vida pública e destacada activista contra a exclusão social, Maria de Lourdes Pintassilgo dedicou a sua vida ao serviço da res publica. A República, por seu turno, não dedicou a Maria de Lourdes Pintasilgo o reconhecimento que lhe era devido, ficando por decretar o luto nacional na ocasião da sua morte.

A omissão de Julho e o luto de Fevereiro apontam ainda uma outra realidade negligenciada, na medida em que revelam subconscientemente qual a imagem da mulher que é elevada à condição de símbolo e exemplo na sociedade portuguesa.

Últimas notas sobre cartazes

Sob pena de me tornar repetitivo, faço hoje as minhas últimas notas sobre os cartazes da campanha eleitoral.
1 - Apesar de o PSD procurar emendar a mão no que respeita à campanha negativa com o regresso de Santana Lopes aos outdoors, ainda assim José Sócrates continua a ser o político português a quem o PSD dedicou mais cartazes - 3 contra 2 de Santana.

2 - Numa nota bem mais negativa cumpre denunciar o grau inédito de vandalismo de outdoors em campanhas eleitorais desde há muitos anos. Apesar de um início algo irreverente e relativamente inofensivo com os narizes vermelhos nas caras dos líderes políticos (com a suspeita omissão em relação a Jerónimo de Sousa), os ataques tornaram-se sujos e integraram-se na campanha negativa e difamatória. As "adendas" grafitadas em muitos cartazes do Partido Socialista não são, na esmagadora maioria dos casos, casuais nem esporádicas. Trata-se de um facto particularmente notório se verificarmos que em distintos pontos da cidade de Lisboa surge acrescentado ao slogan "O voto que vai mudar Portugal" a expressão "para pior". Apenas podemos fazer votos para que o fim do interlúdio santanista reponha o civismo na actividade política em Portugal.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Liberdade para Lúcia de Jesus

A Irmã Lúcia faleceu e a campanha ressentiu-se. Em sinal de respeito pelas convicções mais íntimas dos portugueses, CDU e Bloco de Esquerda assinalaram a ocorrência, lamentando o falecimento, o que só lhes fica bem - ou seja, a "esquerda radical" usou de ponderado bom senso, para espanto de muitos (até meu, confesso) e marcou pontos.
O PS substituiu um comício por um jantar-debate. Está bem.
Mais longe foi a direita, que, talvez para honrar patrocínios, decidiu suspender a campanha.
Atendendo às devidas proporções, não é desajustado decretar luto nacional: pode-se pensar que sai beliscado o princípio de separação entre a Igreja e o Estado, mas a figura em questão é, para o bem ou para o mal, um caso sério para muitos portugueses. Não se pode comparar esta situação com a recorrente questão do estatuto privilegiado da Igreja Católica no seio da República Portuguesa, em que os defensores desse estatuto invocam a representatividade como justificação de favorecimento. A representatividade deve gerar reconhecimento, mas não pode nunca gerar favorecimento. E este é um desses casos.
Dado o peso social da Irmã Lúcia, o seu falecimento pede uma reacção proporcional. Mas é um acontecimento natural, não uma tragédia. Por isso, porque é que se vai suspender a campanha?
Talvez porque assim se aproveita para fazer boa figura perante um segmento de mercado onde a direita dá algumas cartas, embora não tenha o exclusivo. E também porque Santana pode dar uma folga às cordas vocais, porque a berraria será sempre a sua melhor arma.
A direita apostou no discurso do monopólio dos valores, e com isso conseguiu pôr Louçã fora do sério. À direita interessa misturar a convicção religiosa com a convicção política. À direita interessa acenar com o fantasma do pecado para todo o católico que ouse transgredir.
A direita poderia manter as suas acções de campanha, mantendo a discrição e a sobriedade, evitando o excesso.
Porque não o fez? Santana respondeu a isto: «no dia de hoje, não tenho espírito para festejar.»
Para Santana, a política é uma festa. E pouco mais.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Ainda os cartazes...


Se consultarmos o arquivo de todos os outdoors lançados pelo PSD até ao momento (disponível no respectivo site) poderemos verificar que até aí o PS caminha a passos largos para a maioria absoluta. Até agora, apenas um militante social-democrata conseguiu, contra ventos e marés, aparecer num outdoor do seu partido. Os militantes do PS, por seu turno, dominam de forma esmagadora:
José Socrates - 3 presenças
Edite Estrela, João Cravinho, Pina Moura, Fernando Gomes - 2 presenças
Armando Vara, Ferro Rodrigues, António Guteres e Jorge Coelho - 1 presença
Fica a sugestão para os candidatos a deputados do PSD interessados em aparecer num cartaz do seu partido: filiem-se no Partido Socialista.

Um Hino ao Civismo

A campanha de outdoors do PPD/PSD volta a apostar no debate sério, profundo e franco dos principais problemas que afligem o país. Graças às centenas de cartazes espalhados por todo o País podemos agora conhecer as propostas daquele partido para sanar o défice, fomentar o crescimento económico, reformar a Administração Pública, melhorar a qualidade dos serviços educativo e de saúde entre tantas outras questões essenciais. Evitando a todo o custo cair no potencial esgoto da campanha negativa e ataques pessoais o PSD dá o exemplo a todos os partidos sobre aquilo que deve ser a nova forma de actuar na cena política.

Esclarecer os cidadãos está claramente no topo da agenda da campanha eleitoral do (ainda) maior partido em número de deputados. O PSD afirma com clareza e sinceridade que não denegrirá gratuitamente a imagem dos seus adversários, que não passará mensagens deturpadas e simplistas e que lutará pela dignificação da vida pública portuguesa. Um grande bem haja!




PS: Tendo em conta que o PSD deve querer evitar novo fiasco no que respeita à utilização da imagem de terceiros em violação dos seus direitos, certamente requereu a Pina Moura, João Cravinho, Jorge Coelho, António Guterres, Fernando Gomes, Edite Estrela, Ferro Rodrigues, Armando Vara e José Sócrates autorização para espalhar as suas caras pelo País.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

O Arguido João César das Neves

João César das Neves (JCN) é autor de uma coluna de opinião no Diário de Notícias há uma série de anos. Tendo em conta que a coluna se entitula "Não há almoços grátis" e atendendo às credenciais académicas do docente da Universidade Católica, seria de esperar que a matéria versada atendesse, no essencial, à actualidade económica.
Contudo, desde há vários anos que João César das Neves tem brindado os seus leitores habituais com as suas opiniões ultramontanas a respeito da maior parte dos temas sociais quentes da actualidade. Trata-se de um direito que lhe assiste - expressar livremente a sua opinião através de um dos principais meios de comunicação à sua disposição.
É neste contexto que temos ficado a saber a opinião de JCN quanto ao papel da mulher na sociedade, à eutanásia, à interrupção voluntária da gravidez, aos direitos dos homossexuais e ao papel da religião na vida pública. Recentemente, JCN procurou até demonstrar racionalmente a superioridade do catolicismo sobre as demais confissões (este exercício sublime de intolerância merece a leitura do comentário de Ricardo Araújo Pereira no blog do Gato Fedorento).
Apesar de dificilmente me poder encontrar mais distante das opiniões expressas por JCN, reitero o meu entendimento de que, em relação à maioria das suas colunas semanais, o autor mais não faz do que o exercicío legítimo dos seus direitos fundamentais. A resposta deve surgir na forma de contra-argumentação e de demonstração da natureza retrógrada, intolerante, ultramontana e homofóbica dos conteúdos oferecidos por JCN aos leitores do DN. As cartas de leitores daquele diário, bem como frequentes artigos de opinião de repúdio de outros publicistas são sintoma evidente do carácter minoritário que assumem os textos de JCN e evidenciam a estranheza pela sua inclusão num jornal com a tiragem, circulação e audiência do Diário de Notícias. Mais uma vez, porém, trata-se de uma escolha editorial legítima daquele matutino.
Face ao exposto até aqui, a repulsa pelas opiniões expressas deveria ficar no âmbito da divergência profunda, do debate ideológico e filosófico e da coexistência de concepções de vida distintas numa sociedade democrática. Assim seria se JCN se soubesse manter do lado certo da fronteira que separa o artigo de opinião livre do ilícito criminal.
Um artigo de opinião publicado em 10 de Fevereiro de 2003 e entitulado "Para além do bem e do mal" extravazou claramente o admissível entrando em colisão com os direitos dos visados pela coluna. O repúdio de quem o leu foi evidente (ver algumas das opiniões expressas aqui) e motivou a Opus Gay a apresentar queixa por difamação.
Há menos de uma semana, a 2 de Fevereiro, João César das Neves foi constituído arguido no processo crime que se seguiu. O despacho de acusação é particularmente lúcido quanto aos fundamentos que sustentam o processo: "O arguido não se limitou a dizer, por exemplo, que não concorda com as práticas homossexuais. O arguido equivale os actos homossexuais ao crime de pedofilia, refere que os recentes casos de pedofilia são todos, mesmo todos, homossexuais, equipara os homossexuais com drogados e considera-os doentes" [...e ] "insinua que apenas para se ser politicamente correcto é que se chama de pedofilia à "pedofilia", pois o seu verdadeiro nome é homossexualidade".
Como conlcui a juíza autora do despacho, a associação/confusão entre os conceitos de homossexualidade e pedofilia (conceito este claramente definido na lei penal como actividade criminosa e de acentuado desvalor social) JCN "só pode ter tido como objectivo denegrir a imagem dos homossexuais".

A liberdade de expressão e opinião são bens constitucionais caros a todos os que acreditam na edificação de uma sociedade democrática e tolerante. Se aqueles bens constitucionais conhecem limites eles justificam-se precisamente pela necessidade de preservar a tolerância, a democracia e os direitos do cidadãos. No caso vertente esses limites foram ultrapassados de forma gritante. Vou aguardar com expectativa uma decisão do Tribunal em primeira instância, condenado o arguido João César das Neves. O seu impacto pedagógico na formação para a cidadania será insubstituível e o seu valor para a inclusão do próximo na sociedade contemporânea inestimável.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

A campanha dos mais pequenitos - PNR

O sucessor mortis causa do Partido Renovador Democrático continua a não surpreender, com um tempo de antena xenofóbico e reaccionário. As bandeiras são a luta contra a Europa e contra a imigração - causa directa do crime e do atraso social. Contudo, é de sublinhar o cuidado na linguagem utilizada e a forma como muito cautelosamente se fica dentro dos limites da legalidade. O substrato da mensagem é claramente racista (quando compara os arredores das grandes cidades com os bairros degradados de Bafatá dá o seu passo mais arrojado) mas o esforço de contenção é grande. O slogan de fachada é claro e consiste em colocar os Portugueses primeiro, mas a verdadeira mensagem é também evidente: todos os outros no fim de tudo, de preferência longe daqui.


A campanha dos mais pequenitos - PND

Depois do ponto alto da pré-campanha eleitoral com a incursão meteórica de Manuel Monteiro nos estúdios da RTP-N, o PND regressa com um tempo de antena animado em música de fundo por Dina e repleto de ideias progressistas. No spot que passava hoje na TSF, o líder do partido avança com uma proposta emblemática: salário para as mães que decidem ficar em casa com os filhos. Um dos objectivos anunciados da medida é a possibilidade de aumentar a oferta de emprego, uma vez que as mulheres em causa deixariam de ocupar postos de trabalho. Emanci...quê?