quarta-feira, setembro 14, 2005

Como diz que disse?

Capa do Correio da Manhã: "Derrota Estúpida" referindo-se à derrota do Porto com o Glasgow Rangers, depois de dominar todo o jogo. Ó meus amigos, como diz o povo, quem marca ganha e quem não marcar arrisca-se a sofrer um golo. Mas por detrás disto subjazem coisas bem mais graves. Se o Benfica perder amanhã, qual vai ser o título? Se o Manuel Alegre fizer greve de fome, qual o mal? Se o telenovelista ganhar as autárquicas na minha terra, vamos todos ser figurantes de uma montagem política? E o barril do crude? E o filho do João Pinto? E os militares podem marchar, marchar? Confesso que quando vejo uma gorda deste calibre, me apetece vomitar alarvidades como se visse o União-Amiais todos os fins-de-semana. Ninguém fale daquilo que se passa no país, naquilo que salta mais à vista. Olhem apenas para o futebol e contentem-se em pensarem que são simplesmente bons naquilo que fazem - o que falta a este país é a concretização, não o domínio. Talvez esteja frustrada com as frequências que leio, com a falta de dinamismo dos meus alunos, com o descontentamento geral, ou com as pesquisas económicas que tenho andado a fazer, mas é urgente ilacionarmos algo com o futebol, já que é a única coisa que nos dá entusiasmo e gana. Que se dane o domínio, venham os tentos de belo efeito.

terça-feira, setembro 06, 2005

O Gigante Caiu

Afirma José Vítor Malheiros, no Público, que "Se as imagens que as televisões nos mostram lembram as de um país do terceiro mundo afectado por uma catástrofe natural é porque nos Estados Unidos existe um enorme país do terceiro mundo acocorado em torno das suas ilhas de sucesso". A incapacidade dos EUA de evacuar e socorrer em tempo útil os sobreviventes de mais uma catástrofe natural revelam realmente as fraquezas de um país com aparente competência para salvar o mundo. Ninguém fica passivo a observar imagens de destruição maciça, mas muito menos ao drama humano de milhares de pessoas dos mais pobres territórios do país que buscam bens essenciais e, bem mais tarde e mais dramaticamente o emprego e as habitações que lhes foram retiradas. Mas se a conclusão lógica a retirar de tudo isto é uma perda de confiança no Governo americano, nomeadamente quando proclama ajuda internacional a todo o tipo de eventos políticos e catastróficos, fazendo-nos crer que se deviam era salvar-se a eles próprios, o que realmente importa é a capacidade que os EUA têm de influenciar o mundo. E o aumento histórico do preço do petróleo assim o indica.
Estamos dependentes deles, não haja dúvida - mas até quando?

Era Uma Vez em Gondomar

Ontem estava a ver mais uma das bonitas figuras que Valentim Loureiro faz na televisão - o que é sempre uma boa ocasião de rir, se não desse ao mesmo tempo vontade de chorar.
O Major Valentão tem ultimamente dedicado a sua campanha eleitoral a chamar todos os nomes a Marques Mendes, o que, como todos sabemos, é a primeira das preocupações dos eleitores de Gondomar. Bem, na verdade não se pode dizer em bom rigor que se trata de chamar todos os nomes - o vocabulário ficou-se por "pequeno líder" (Deng Xiao-Ping rói-te de inveja) e "lider menor", este último o que mais se afastou de uma grosseira alusão à estatura física do presidente do PSD (o que, convenhamos, como subtileza deixa muito a desejar).
Dá-se o caso que, a meio de uma birra, o Major senta-se e começa a falar calmamente para a câmara da RTP. Assim, como se tivesse a olhar Marques Mendes nos olhos e a dizer «Eu não tenho medo de ti, rapazinho». Até aqui tudo bem, era só um bom momento de western à portuguesa. Mas é então que o operador de câmara começa a fazer zoom, e o plano fecha-se num close-up à Sergio Leone, acentuando a carga dramática do momento. Uau. Um repórter de imagem que faz cinema.
A questão que fica é: porque é que a televisão se presta a estas coisas.
Estou À espera de ver Marques Mendes a dar um pontapé nas portas do Saloon e a entrar por aí adentro, feito Xerife. Mas algo me diz que isso não vai acontecer.

quinta-feira, julho 28, 2005

O leão acordou


Houvesse justiça na política e Manuel Alegre seria o candidato da esquerda às eleições presidenciais. O homem que sempre soube em que lado da luta pela liberdade devia estar colocado, que é consensual em para todos os quadrantes da vida portuguesa menos para o seu partido, merecia o lugar de presidente da República. Mais, os portugueses, embora não façam muito por isso, mereciam tê-lo como presidente.
Mas Manuel Alegre não é um pai da pátria: Jorge Sampaio também não o era, mas nessa altura Cavaco ainda não se descosera da imagem de primeiro-ministro antipático.
O tempo fez de Cavaco o homem de Estado, uma reserva moral, e a imagem que ele tão bem cozinhou como uma donzela que se faz difícil aos seus pretendentes faz com que se lhe impute um potencial de carisma que, sinceramente, acho que não tem nem terá.
Compreende-se, por isso, que perante a emergência do novo Cavaco, a esquerda tenha de chamar a artilharia pesada e do lado de lá soa o alarme: o PSD poderia passar a imagem de serenidade, mas em vez disso Dias Loureiro diz esperar que Cavaco Silva não desista, ou seja, que não se assuste.
A escolha de Soares é uma escolha natural, embora imprevista devido à sua provecta idade. Soares tem o peso que Alegre não tem, e a sua energia e atenção ao que se passa estão para lá daquilo em que a sua idade o pode limitar, como ontem se viu no encontro de jovens socialistas, em que o seu entusiasmo parecia querer fazer saltar um monstro para fora do corpo idoso e enrugado que o continha.
A candidtura de Soares é uma solução de recurso para o PS, mas para o próprio é uma oportunidade de garantir a transmissão de uma herança política.
A questão presidencial será semelhante ao que se passou no Chile quando Neruda abdicou a favor de Allende, embora com menos dramatismo, embora Manuel Alegre seja mais parecido com Pablo Neruda do que Mário Soares alguma vez o será com Salvador Allende.
O país precisa de alguém que saiba o que dizer e fazer quando não se está a promulgar leis ou a assinar decretos. E Cavaco, um homem de gabinete, leva neste aspecto desvantagem em relação ao poeta e ao animal político.

quarta-feira, julho 20, 2005

Reforço de Verão


Este é John Roberts Jr., o próximo juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, nomeado pelo presidente Bush para substituir Sandra Day O'Connor, a moderada que era o fiel da balança na equipa capitaneado pelo venerável William J. Renqvist, também ele prestes a arrumar as botas depois de uma carreira a fazer tackles aos civil rights.
No palmarés, Roberts tem decisões contra a legitimidade processual dos cidadãos em accionarem o Estado por violação de legislação ambiental, e manifestou-se contra o acordão Roe vs. Wade, que estabeleceu o direito constitucionalmente garantido da mulher em praticar o aborto, defendendo a sua revogação. Enquanto advogado, defendeu companhias mineiras em casos de poluição e contra os mineiros, aquando de uma greve.
A possibilidade de vir a ser nomeado um juiz ultra-conservador foi um dos argumentos usados por John Kerry ao longo da campanha para as presidenciais do ano passados. Ele aí está. E republicanos (mas também, depois da novela Bolton, nunca se sabe).

terça-feira, julho 19, 2005

O paradigma da educação e o país eternamente adiado


Quando evoco a memória dos tempos de Cavaco Silva, era eu um chavalito, lembro-me distintamente da euforia da auto-estrada, essa maravilha que passava quase à minha porta e nos permitia dar um pulinho a Lisboa e ver os filmes mais recentes ao Cinema, que de outra forma demorariam mais umas semanas ou meses a chegar ao nosso orgulhoso cinema de Aveiras. Sempre me causou algum incómodo e alguma mágoa que uma pequena vila a 50 quilómetros de Lisboa tivesse um tão desmesurada vaidade na "sua" auto-estrada ("para esfregar no nariz a esses invejosos de Azambuja")e menos orgulho no facto de ser a única terra nas redondezas - do Cartaxo a Vila Franca - que tinha esse benefício para o espírito que era um Cinema, em que, por entre zaragatas do Bud Spencer e do Chuck Norris, lá mostrava um ou outro filme digno desse nome.
Era o tempo em que muita gente enchia os bolsos à conta dos fundos da CEE, entornados para dentro de empresas quase-fictícias que iam desde a criação de minhocas à mecanização da agricultura quando o problema era mesmo a agricultura e não a sua falta de mecanização. Os fundos, esses, passeavam pelas ruas na forma de Alfa Romeos e outros carros glamorosos de pato-bravo.
A auto-estrada era, em Aveiras e em todo o Portugal, o paradigma da modernidade, nessa altura em que ficar na escola aborrecia, sobretudo quando, havendo dinheiro para ganhar, já não havia que se cuidar em ganhar a vida.
O Cine-Aveiras morreu, e dos muitos empreendedores que apareceram associados à lógica mais de esperteza do que de trabalho que personificava o professor Cavaco (ou mais precisamente a sua entourage), apenas os que aproveitaram os fundos europeus para algo mais do que passear em grandes carros lograram continuar com uma vida boa, para eles e para os filhos.
Depois cresci e li que a Irlanda não tem auto-estradas de jeito, mas tem uma elevadíssima taxa de literacia (não fossem eles bons repulicanos) e uma população que é das mais altamente qualificadas do mundo, o que deu em taxas de crescimento económico entre os 20 e os 30% ao ano. A conclusão para mim era simples: menos betão, mais educação.
A Irlanda é o país da fome da batata e conseguiu. A Espanha é o país da siesta e tem o que tem. Nós somos o país do fado, e cá nos vamos aguentando - e isso é o que de mais optimista podemos dizer.
Depois vê-se isto na imprensa internacional (obrigado, David). Portugal investiu 90% dos fundos em infra-estruturas, a Espanha 70%. Portugal necessitava, enquanto país periférico, de construir auto-estradas, mas nem isso foi bem feito - basta olhar para o mapa, como observa o International Herald Tribune. "Os economistas portugueses estão de acordo em que os recursos foram utilizados de modo a adiar as decisões".
Este é o retrato de um país que andou muito tempo a ver o filme errado, e agora só lhe resta andar num Alfa Romeo recauchutado.

sexta-feira, julho 15, 2005

Bad Bad Mary

Sondagem do Público (na qual voto religiosamente todó dia) diz que a governação do PSD por Marques Mendes é medíocre ou má. O Jornal cá da minha terra pergunta se gostaríamos de ter assistido ao casamento de Catarina Furtado com João Reis. 88% dos inquiridos diz...que não. Aliás parece-me que se ao inquirido fosse permitido falar diria para os autores da sondagem irem dar uma curva ou pior. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira "Ó meus amigos, mas que é isto?". Preocupa-me o facto do PSD andar enfraquecido, pelo simples facto de até gostar do homem, mas principalmente porque a política portuguesa anda um tédio. Estes não falam, limitam-se a fazer (de quando em vez) alguma coisa. Ninguém chateia o Governo (será porque este é bom?), ninguém vomita indecências contra ninguém. Portugal ameaça tornar-se uma silly season permanente.
Por outro lado, admira-me porque é que o Jornal cá da terra não começa a oferecer rolinhos de papel higiénico para que o possamos ler antes de o utilizar para a única função óbvia para a qual serve. Com umas autárquicas à porta, porque não perguntar ao cidadão se gosta das obras do Centro Histórico, se quer a milésima rotunda, se prefere as estradinhas arranjadas ou os acessozinhos à cidade concluídos?
Para que serve este jornalismo, hein?
Ele há coisas.

quinta-feira, julho 14, 2005

A Bastilha

Prise de la Bastille, by Jean-Pierre-Louis-Laurent Houel

Aparentemente, há 216 anos alguns cidadãos e cidadãs parisienses de cabeça quente tomaram a Bastilha. Encontraram-na praticamente vazia, com alguns prisioneiros de delito comum, e meia dúzia de guardas prisionais que não tiveram um destino agradável.

Mas foi acima de tudo o valor simbólico do acto de revolta que tem, desde então, sido recordado. A tomada da Bastilha foi a faísca que largou fogo vivo a um país que que ainda não era nação, mas que, começando com os debates nos Estado Gerais, gradualmente se refundou como República Francesa.

Em Agosto de 1789 eliminaram-se num dia (se não me engano no dia 2) centenas de anos de privilégios feudais e eclesiásticos.

Num dia.

Muitos dos grandes nomes da Revolução pertenciam à Nobreza: Mirabeau (conde), Condorcet (marquês e republicano da primeira hora e defensor dos direitos das mulheres), Lafayette (marquês) e alguns do clero, como o Abbé Sieyès.

Tudo era possível.

Mas a tomada da Bastilha também nos serve como aviso. Uma Revolução que tão cedo se esquece dos princípios mais elementares da humanidade, é uma Revolução que age num vazio ético. Mais cedo ou mais tarde será uma Revolução que se perde, que não consegue distinguir entre fervor revolucionário e crueldade pura e simples. Robespierre, o Incorruptível, era demasiado incorruptível: nem por sentimentos de empatia, de humanidade, de decência se deixava corromper. Talvez seja essa a lição principal da Revolução: o mais tardar quando estiver a assinar listas de condenados à morte, o indivíduo revolucionário tem que se questionar que tipo de 'progresso', que tipo de futuro está a construir. No fundo, as vontades dos revolucionários costumam pecar por alguma ausência de imperativo categórico.

Mas, convenhamos, 200 anos passados, a Revolução continua a emanar Luz e, mesmo nos seus momentos mais sombrios trata-se de um evento do qual tiramos lições. Ao fim de séculos de obscurantismo, violência e repressão, e ao fim de gerações de treino em fanatismo cristão, era difícil fazer uma Revolução diferente daquela e demasiado dogmatismo ético castra qualquer entusiasmo revolucionário.

Não queremos acabar como Kant, que nunca se conseguiu decidir se a Revolução Francesa era uma coisa boa porque demonstrava a racionalidade dos milhares de cidadãos desinteressados que se dedicaram á causa revolucionária; ou se era uma coisa má porque as revoluções, por princípio, recriam, ainda que por pouco tempo, os horrores da ausência de ordem, do Estado Natural do todos-contra-todos.

Kant, era, como se diz na gíria filosófica, um chato de merda.

Os movimentos revolucionários e emancipatórios que têm e tiveram a sua origem na Grande Revolução, e os seus efeitos sobre a vida de milhões de cidadãos e cidadãs, mais do que compensam os disparates que foram feitos por meia dúzia de imbecis que herdaram as manias autoritárias do Antigo Regime.
Judeus e mulheres foram dois grupos que mais cedo ou mais tarde, com avanços e recuos, colheram os frutos da Revolução em toda a Europa. Mas há outros, claro.

O Liberalismo moderno é ingrato quando esquece as suas raízes francesas. Hegel, muito longe de ser um 'revolucionário', festejou o Dia da Bastilha até morrer, porque sabia que o dia 14 de Julho representa o princípio da Modernidade. E de facto, quando se lê alguns dos discursos que foram feitos nos Estados Gerais, na Assembleia Nacional e na Convenção, fica-se com a distinta impressão que se está a testemunhar a Razão em acção.

Merci la France!

Liberté! Egalité! Fraternité!


Posted by Oppenheimer

domingo, julho 10, 2005

Volta Alberto, estás perdoado...

O facto de ninguém falar em tom de pânico de mais um atentado terrorista significa que ele já faz parte da nossa normalidade. O facto de termos de ouvir as notícias da TVI faz-me pensar em duas coisas: um, o Alberto João é bem mais divertido; dois, será bem mais sério. Mas ninguém salva este país?

segunda-feira, julho 04, 2005

Yankee Doodle to you too!


Não foi para mais tarde ganharem a mania de que dão ao mundo lições de democracia que nos deram a Declaração de Independência. Porque é bom não esquecer isso, parabéns. Posted by Picasa

E se mandássemos passear certos e determinados indivíduos?

Falar das intervenções escabrosas de Alberto João é chover no molhado, e é uma actividade que muitas vezes se presta a constatar o óbvio. Nem é novidade dizer que destra foi foi longe demais.
O PSD habituou-se a ele como um cão se habitua a uma carraça, isto sem querer ser desrespeitoso (para o PSD, não para a carraça).
Mas o que têm estes pequenotes aspirantes a ditador é o serem olhados com benevolente comiseração e riso por toda a gente, enquanto vão urdindo novas formas de ter na mão os habitantes do quintal que governam.
A demagogia é um perigo para a democracia, e é só começar a ver uma quadrilha de delinquentes racistas manifestarem-se no Martim Moniz para que os ALbertos Joões comecem a achar que vale a pena dizer umas coisas assim.
A quem ouve Alberto João sugere-se que sustenha a vontade de rir e que puxe o autoclismo.

domingo, julho 03, 2005

Vão caindo aos poucos as folhas da árvore da Liberdade


 Posted by Picasa


Já vai com atraso este adeus - mais atrasado em relação ao segundo que ao primeiro.
A esta altura está Emidío Guerreiro a conversar com Fernando Vale no Oriente Eterno, olhando cá para baixo, rindo ou chorando.
A Utopia fica-nos tão bem.

quinta-feira, junho 30, 2005

Ai Portugal, Portugal...

Dois grandes amigos regressaram esta semana daquela boa benesse da União Europeia (coitadinha) chamada Programa Erasmus: um enfermeiro na Bélgica, um arquitecto em Barcelona. Na bagagem trazem as boas condições de estudo, as boas condições de trabalho e tecnológicas, a pacatez e educação dos belgas, o baixo custo de vida numa metrópole como Barcelona, a movida e a aparente inexistência de crise. Trazem os olhos cheios de cosmopolitismo, de uma vida melhor, da proximidade com a riqueza. Conto-lhes do arrastão, do défice, das greves, da contenção do governo, do boçalismo de Alberto João Jardim - nada de novo portanto. Mas ambos trazem saudades do povo português, do pacifismo, trazem saudades da crise, da falta de dinheiro, das suas próprias vidas. É verdade que na Bélgica há enfermeiros em quantidade suficiente, mas lá trabalha-se mais, com um trabalho nem sempre reconhecido pela comunidade, é verdade que em Espanha se vive mais e melhor, mas nenhum hesita em escolher Portugal para viver. Diz o pai de um deles, recém-promovido aos cinquenta anos, a quem aumentaram as responsabilidades e o horário de trabalho: Do que este país precisa é de produtividade, de quarenta e cinco horas semanais se for preciso. Um homem que trabalhou a vida inteira e que agora começou a trabalhar, como director, por objectivos, por mérito. Será pelo facto do empregador se ter tornado inglês?
Bebo as palavras dos meus amigos viajantes, que regressaram em paz. Quando é que aumenta o IVA? - pergunta um deles, e recosta-se no sofá vidrado na novela da Globo. Pareceu ver-lhe uma lágrima ao canto do olho - e não seria de tristeza.

segunda-feira, junho 20, 2005

Elogio ao Desespero

Desculpem-me o desabafo, mas eu tenho de perguntar: o que querem os professores deste país?
Alguém me explica a insatisfação permanente de uma classe? Alguém compreende a elegia do pessimismo que esta gente faz assim que nasce? Abro o Público e só vejo desgraças:incêndios, alertas amarelos, processos comunitários contra o défice, burlas no IVA, arrastões, fim das reformas antecipadas, listas de espera da saúde e urjo parar que já me dói muito o coração.
E depois os professores. Os alunos prejudicados, os pais que protestam, o Governo com pulso de ferro, a Ministra, a Fenprof, os sindicatos. Ca ganda nóia é sempre a mesma cantilena! Mas esta gente protesta sobre o quê? Não consideram que a educação já anda suficientemente nas ruas da amargura para se calarem um bocadinho? Até me dão ganas de fazer não sei quê quando ouço falar de um protesto dos professores. E os desgraçados que não ficam colocados? E os alunos que acabam o secundário sem saber ler nem contar (coisa que dantes dava direito a umas belas reguadas)? E as escolas a cairem de podres? Hein?
Que seca, os professores!!!!

O aniversário

O governo faz cem dias numa altura em que a situação do país vai fervendo - não adianta apagar as velas porque o lume continua a arder.
Como é que se avalia um governo que tem uma batata quente em cada mão e outra no ar, e que tem de ser malabarista para não se queimar?
Podia ser melhor, pois podia. Mas não esperava que se começasse a demolir algumas torres de marfim, como a quela em que se instalaram os políticos, ou aquelas belezas que se vêem no Algarve, porque finalmente se concluiu que é melhor não brincar com a natureza.
Espero ainda pela altura em que o Estado decida acertar contas com a banca - aí sim, daríamos o primeiro passo para acabamos com as muitas capelinhas onde o país vai definhando.
É cedo para aprovar este governo, mas, por enquanto, já vou ficando satisfeito por ter um governo que sabe fazer política. Já é reconfortante não estar sempre à espera da próxima patacoada - torna a vida mais monótona, mas é reconfortante, e o país respira de alívio, apesar da austeridade. É que a austeridade aguenta-se melhor se o exemplo vier de cima.
Com tudo isto o governo vai-se aguentando bem em cima da bicicleta, e uma prova disso é que o Bloco de Esquerda ouve-se menos com oito do que com três.

quinta-feira, junho 16, 2005

La lámpara marina

Para encerrar a efeméride, aqui vai um poema que Pablo Neruda escreveu para Álvaro Cunhal, quando este era prisioneiro.

quarta-feira, junho 15, 2005

O Patriarca Vermelho

O que fica da passagem de Álvaro Cunhal pela vida é uma herança ambígua na sua apreciação.
Apesar de ser uma personagem cujos feitos e traços de personalidade foram carregados de simbologia revolucionária pela hagiografia comunista (e pelo próprio), é certo que passou pela prisão e sofreu o que a ditadura lhe inflingiu sem perder de vista o objectivo final.
Apesar de ter tentado instaurar em Portugal um regime soviético, dou-lhe o benefício de achar que o fazia com a benigna intenção de defender o seu povo, mesmo que se tenha recusado a acreditar na preversão que aquilo que defendia se tornou na Coreia do Norte ou na China (embora fosse crítico do maoísmo), ou na Europa de Leste.
Cunhal é idolatrado de um lado e enxovalhado do outro. Por mim, vejo-o como a mãe do protagonista de "Adeus Lenine", cuja fé inabalável no regime era a razão da sua vida: não sei se se pode pedir a alguém que deu tanto por uma causa que tenha cabeça fria para concluir sossegadamente que afinal não é bem assim.
Apesr de tudo, Cunhal foi um resistente e um combatente pela liberdade, aquele a quem o povo acolheu em êxtase em Santa Apolónia e depois no 1º de Maio, mais até do que a Mário Soares, que pululava de um lado para o outro a apanhar apanhar as sobras do seu magnetismo e da sua aclamação.
A história deu razão a Soares. Mas por tudo o que Cunhal representou para a luta do seu povo, inclino-me perante a sua memória.

segunda-feira, junho 13, 2005

Adeus Camaradas

É com pesar que escrevo esta missiva, pelo elogio que se presta a figuras nacionais que se destacam pelo amor ao seu povo e aos seus ideais. Numa época em que tanto se fala em crise e em perda de identidade nacional, depois do 10 de Junho e dos manjericos (Lisboa menina e moça, engalanada no seu esplendor popular, que grande orgulho) falecereram Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. Os dois primeiros, ariscos e orgulhosos, convictos e imponentes, legaram aos portugueses a lealdade para com o povo e deram-nos a todos uma lição de coragem: um militar e um exilado, uma guerra civil e um poeta político, deixam-nos órfãos. Cada vez mais o 25 de Abril foi lá longe, com ele se perdendo a garra de um povo e mergulhando-nos numa profunda depressão de identidade.
Quanto a Eugénio de Andrade, a sua palavra é intemporal :

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

E basta. Que repouse em paz.

quinta-feira, junho 02, 2005

A Nega - 2 Actos

A imagem que associo à Constituição Europeia é a de um grupo de gente arvorada em pais fundadores, de pé, no encerramento da "Convenção", a escutar o hino à alegria da 9ª de Beethoven, feito hino da União Europeia e repescado para dar ao momento a solenidade e importância de um acto fundador, tipo Convenção de Filadélfia dos Estados Unidos da Europa.
Parecia a equipa do Brasil quando entra em campo e canta o seu interminável hino do Brasil - mas sem a parte de cantar.
À cabeça desta artificial e ridiculamente pomposa cerimónia, um caquético Giscard d'Estaing fazia de capitão de equipa dos "convencionistas" habilitados por uma muito em voga legitimidade derivada, nos quais se incluiam os dois deputados portugueses do PSD que eu não escolhi, nem qualquer outro português. Podia ser como aqueles jogos da selecção da Europa contra a selecção do Resto do Mundo, para homenagear um grande jogador que se reforma, mas não: era uma sessão para celebrar a conclusão do Tratado Constitucional Europeu.
A construção europeia faz-se assim, às escondidas, e depois pergunta-se ao europeu comum se acha bem. Só que o europeu comum não sabe do que se fala, e aproveita para puxar as orelhas ao seu governo.
Isto de a classe política se lembrar de fazer um referendo tem destas coisas: a Espanha aprovou a Constituição com uma votação inexpressiva, a França e a Holanda chumbaram-na, e quem é esperto decide submeter a Constituição a ratificação parlamentar.
Tony Blair parece querer pôr o rabo de fora e pensa desistir de fazer o referendo (não sei porquê, mas isto não me surpreende).
Eu por mim não sei como vou votar. Não sou eurocéptico nem eurofórico; não gosto que me convidem para a festa de véspera, mas também não tenho medo de papões. E o meio termo, esse, anda perdido no meio da história.

quarta-feira, junho 01, 2005

França

Segunda-feira foi um dia cinzento em Bruxelas. Em todos os sentidos. Quase que se ouviam os travões a fundo do comboio da integração europeia a parar. Por um lado, o Tratado de Nice não é assim tão mau. Tem funcionado a 25 há um ano. Por outro, lá se vai o MNE europeu, cooperação estruturada na área da defesa e personalidade jurídica para a União, alguns exemplos.

Não me interessa se os franceses estão desempregados, não me interessa se o presidente deles é impopular, passa-me ao lado o debate da 'délocalisation', não sinto qualquer nostalgia em relação à soberania de antigamente, não me assustam nada as 'hordas de estrangeiros' no mercado de trabalho, já aprendi a viver com a falta de escrúpulos do neo-liberalismo e com a eterna dança de compromissos que representa o projecto europeu. Problemas temos todos. Problemas tem o nosso país. O que é que a Constituição tem a ver com o desemprego em França? E com o paternalismo gaullista de Chirac? E com os defeitos da 5a República? E com as forças nefastas da globalização? E com a perda de influência da França na União? Nada. Mas foi contra a Constituição que decidiram votar.Na democracia não há respostas 'erradas'. Temos que viver com o facto de que a França se sente insatisfeita com o rumo que o continente leva.Mas este resultado revela que as elites políticas em França andaram a brincar com o fogo durante muito tempo. Convenceram os seus concidadãos que a Europa estava a ser moldada à imagem da França e que a União era uma espécie de caixa de ressonância para as aspirações de grandeza gaulesas. Por outras palavras, a retórica em relação à Europa em França nunca passou pelo doloroso processo de emancipação de paradigmas soberanistas e nacional-chauvinistas. Enquanto que as políticas iam sendo aplicadas, a retórica recusava-se a render-se verdadeiramente à ideia da partilha da soberania. A França esquizofrénica participava na integração dos processos de decisão nas instituições da União, ao mesmo tempo que apresentava essas mesmas instituições como meios para o fim da glória e da grandeza nacionais. Já a Alemanha acompanhou a integração europeia com uma genuína recalibragem do discurso sobre o poder, a nação, a política. As nações pequenas também. Para estas tratava-se de um preço baixo a pagar em relação à segurança e à estabilidade que o projecto europeu lhes concedia.

A França neste momento parece um adolescente birrento que está zangado porque "ser adulto é muito mais difícil do que eu pensava", e "não foi nada disto que me prometeram", "não me avisaram que ia ser duro", "pensava que ia ser giro e tal."

Quanto ao PSF, este está, como se diz na gíria da ciência política 'entregue à bicharada'. Hollande ferido de morte, Fabius legitimado mas sem qualquer hipótese de levar a cabo uma liderança consensual depois de ter apunhalado o partido nas costas - possibilidade de cisão?

Depois das eleições indescritíveis de 2002, estes últimos desenvolvimentos demonstram que a França (ou talvez a 5a República, se preferirem) se encontra em plena crise ideológica, demasiado ocupada consigo mesma para sequer ter tempo para a Europa. A França neste momento não passa de um país banal, medíocre, um líder europeu falhado. Não contem com ela para nada. Jefferson dizia que "cada homem [ele devia ter dito 'pessoa', mil desculpas caras cidadãs] tem duas pátrias e uma delas é a França". Sinto-me mais órfão.