quinta-feira, junho 30, 2005

Ai Portugal, Portugal...

Dois grandes amigos regressaram esta semana daquela boa benesse da União Europeia (coitadinha) chamada Programa Erasmus: um enfermeiro na Bélgica, um arquitecto em Barcelona. Na bagagem trazem as boas condições de estudo, as boas condições de trabalho e tecnológicas, a pacatez e educação dos belgas, o baixo custo de vida numa metrópole como Barcelona, a movida e a aparente inexistência de crise. Trazem os olhos cheios de cosmopolitismo, de uma vida melhor, da proximidade com a riqueza. Conto-lhes do arrastão, do défice, das greves, da contenção do governo, do boçalismo de Alberto João Jardim - nada de novo portanto. Mas ambos trazem saudades do povo português, do pacifismo, trazem saudades da crise, da falta de dinheiro, das suas próprias vidas. É verdade que na Bélgica há enfermeiros em quantidade suficiente, mas lá trabalha-se mais, com um trabalho nem sempre reconhecido pela comunidade, é verdade que em Espanha se vive mais e melhor, mas nenhum hesita em escolher Portugal para viver. Diz o pai de um deles, recém-promovido aos cinquenta anos, a quem aumentaram as responsabilidades e o horário de trabalho: Do que este país precisa é de produtividade, de quarenta e cinco horas semanais se for preciso. Um homem que trabalhou a vida inteira e que agora começou a trabalhar, como director, por objectivos, por mérito. Será pelo facto do empregador se ter tornado inglês?
Bebo as palavras dos meus amigos viajantes, que regressaram em paz. Quando é que aumenta o IVA? - pergunta um deles, e recosta-se no sofá vidrado na novela da Globo. Pareceu ver-lhe uma lágrima ao canto do olho - e não seria de tristeza.

segunda-feira, junho 20, 2005

Elogio ao Desespero

Desculpem-me o desabafo, mas eu tenho de perguntar: o que querem os professores deste país?
Alguém me explica a insatisfação permanente de uma classe? Alguém compreende a elegia do pessimismo que esta gente faz assim que nasce? Abro o Público e só vejo desgraças:incêndios, alertas amarelos, processos comunitários contra o défice, burlas no IVA, arrastões, fim das reformas antecipadas, listas de espera da saúde e urjo parar que já me dói muito o coração.
E depois os professores. Os alunos prejudicados, os pais que protestam, o Governo com pulso de ferro, a Ministra, a Fenprof, os sindicatos. Ca ganda nóia é sempre a mesma cantilena! Mas esta gente protesta sobre o quê? Não consideram que a educação já anda suficientemente nas ruas da amargura para se calarem um bocadinho? Até me dão ganas de fazer não sei quê quando ouço falar de um protesto dos professores. E os desgraçados que não ficam colocados? E os alunos que acabam o secundário sem saber ler nem contar (coisa que dantes dava direito a umas belas reguadas)? E as escolas a cairem de podres? Hein?
Que seca, os professores!!!!

O aniversário

O governo faz cem dias numa altura em que a situação do país vai fervendo - não adianta apagar as velas porque o lume continua a arder.
Como é que se avalia um governo que tem uma batata quente em cada mão e outra no ar, e que tem de ser malabarista para não se queimar?
Podia ser melhor, pois podia. Mas não esperava que se começasse a demolir algumas torres de marfim, como a quela em que se instalaram os políticos, ou aquelas belezas que se vêem no Algarve, porque finalmente se concluiu que é melhor não brincar com a natureza.
Espero ainda pela altura em que o Estado decida acertar contas com a banca - aí sim, daríamos o primeiro passo para acabamos com as muitas capelinhas onde o país vai definhando.
É cedo para aprovar este governo, mas, por enquanto, já vou ficando satisfeito por ter um governo que sabe fazer política. Já é reconfortante não estar sempre à espera da próxima patacoada - torna a vida mais monótona, mas é reconfortante, e o país respira de alívio, apesar da austeridade. É que a austeridade aguenta-se melhor se o exemplo vier de cima.
Com tudo isto o governo vai-se aguentando bem em cima da bicicleta, e uma prova disso é que o Bloco de Esquerda ouve-se menos com oito do que com três.

quinta-feira, junho 16, 2005

La lámpara marina

Para encerrar a efeméride, aqui vai um poema que Pablo Neruda escreveu para Álvaro Cunhal, quando este era prisioneiro.

quarta-feira, junho 15, 2005

O Patriarca Vermelho

O que fica da passagem de Álvaro Cunhal pela vida é uma herança ambígua na sua apreciação.
Apesar de ser uma personagem cujos feitos e traços de personalidade foram carregados de simbologia revolucionária pela hagiografia comunista (e pelo próprio), é certo que passou pela prisão e sofreu o que a ditadura lhe inflingiu sem perder de vista o objectivo final.
Apesar de ter tentado instaurar em Portugal um regime soviético, dou-lhe o benefício de achar que o fazia com a benigna intenção de defender o seu povo, mesmo que se tenha recusado a acreditar na preversão que aquilo que defendia se tornou na Coreia do Norte ou na China (embora fosse crítico do maoísmo), ou na Europa de Leste.
Cunhal é idolatrado de um lado e enxovalhado do outro. Por mim, vejo-o como a mãe do protagonista de "Adeus Lenine", cuja fé inabalável no regime era a razão da sua vida: não sei se se pode pedir a alguém que deu tanto por uma causa que tenha cabeça fria para concluir sossegadamente que afinal não é bem assim.
Apesr de tudo, Cunhal foi um resistente e um combatente pela liberdade, aquele a quem o povo acolheu em êxtase em Santa Apolónia e depois no 1º de Maio, mais até do que a Mário Soares, que pululava de um lado para o outro a apanhar apanhar as sobras do seu magnetismo e da sua aclamação.
A história deu razão a Soares. Mas por tudo o que Cunhal representou para a luta do seu povo, inclino-me perante a sua memória.

segunda-feira, junho 13, 2005

Adeus Camaradas

É com pesar que escrevo esta missiva, pelo elogio que se presta a figuras nacionais que se destacam pelo amor ao seu povo e aos seus ideais. Numa época em que tanto se fala em crise e em perda de identidade nacional, depois do 10 de Junho e dos manjericos (Lisboa menina e moça, engalanada no seu esplendor popular, que grande orgulho) falecereram Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. Os dois primeiros, ariscos e orgulhosos, convictos e imponentes, legaram aos portugueses a lealdade para com o povo e deram-nos a todos uma lição de coragem: um militar e um exilado, uma guerra civil e um poeta político, deixam-nos órfãos. Cada vez mais o 25 de Abril foi lá longe, com ele se perdendo a garra de um povo e mergulhando-nos numa profunda depressão de identidade.
Quanto a Eugénio de Andrade, a sua palavra é intemporal :

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

E basta. Que repouse em paz.

quinta-feira, junho 02, 2005

A Nega - 2 Actos

A imagem que associo à Constituição Europeia é a de um grupo de gente arvorada em pais fundadores, de pé, no encerramento da "Convenção", a escutar o hino à alegria da 9ª de Beethoven, feito hino da União Europeia e repescado para dar ao momento a solenidade e importância de um acto fundador, tipo Convenção de Filadélfia dos Estados Unidos da Europa.
Parecia a equipa do Brasil quando entra em campo e canta o seu interminável hino do Brasil - mas sem a parte de cantar.
À cabeça desta artificial e ridiculamente pomposa cerimónia, um caquético Giscard d'Estaing fazia de capitão de equipa dos "convencionistas" habilitados por uma muito em voga legitimidade derivada, nos quais se incluiam os dois deputados portugueses do PSD que eu não escolhi, nem qualquer outro português. Podia ser como aqueles jogos da selecção da Europa contra a selecção do Resto do Mundo, para homenagear um grande jogador que se reforma, mas não: era uma sessão para celebrar a conclusão do Tratado Constitucional Europeu.
A construção europeia faz-se assim, às escondidas, e depois pergunta-se ao europeu comum se acha bem. Só que o europeu comum não sabe do que se fala, e aproveita para puxar as orelhas ao seu governo.
Isto de a classe política se lembrar de fazer um referendo tem destas coisas: a Espanha aprovou a Constituição com uma votação inexpressiva, a França e a Holanda chumbaram-na, e quem é esperto decide submeter a Constituição a ratificação parlamentar.
Tony Blair parece querer pôr o rabo de fora e pensa desistir de fazer o referendo (não sei porquê, mas isto não me surpreende).
Eu por mim não sei como vou votar. Não sou eurocéptico nem eurofórico; não gosto que me convidem para a festa de véspera, mas também não tenho medo de papões. E o meio termo, esse, anda perdido no meio da história.

quarta-feira, junho 01, 2005

França

Segunda-feira foi um dia cinzento em Bruxelas. Em todos os sentidos. Quase que se ouviam os travões a fundo do comboio da integração europeia a parar. Por um lado, o Tratado de Nice não é assim tão mau. Tem funcionado a 25 há um ano. Por outro, lá se vai o MNE europeu, cooperação estruturada na área da defesa e personalidade jurídica para a União, alguns exemplos.

Não me interessa se os franceses estão desempregados, não me interessa se o presidente deles é impopular, passa-me ao lado o debate da 'délocalisation', não sinto qualquer nostalgia em relação à soberania de antigamente, não me assustam nada as 'hordas de estrangeiros' no mercado de trabalho, já aprendi a viver com a falta de escrúpulos do neo-liberalismo e com a eterna dança de compromissos que representa o projecto europeu. Problemas temos todos. Problemas tem o nosso país. O que é que a Constituição tem a ver com o desemprego em França? E com o paternalismo gaullista de Chirac? E com os defeitos da 5a República? E com as forças nefastas da globalização? E com a perda de influência da França na União? Nada. Mas foi contra a Constituição que decidiram votar.Na democracia não há respostas 'erradas'. Temos que viver com o facto de que a França se sente insatisfeita com o rumo que o continente leva.Mas este resultado revela que as elites políticas em França andaram a brincar com o fogo durante muito tempo. Convenceram os seus concidadãos que a Europa estava a ser moldada à imagem da França e que a União era uma espécie de caixa de ressonância para as aspirações de grandeza gaulesas. Por outras palavras, a retórica em relação à Europa em França nunca passou pelo doloroso processo de emancipação de paradigmas soberanistas e nacional-chauvinistas. Enquanto que as políticas iam sendo aplicadas, a retórica recusava-se a render-se verdadeiramente à ideia da partilha da soberania. A França esquizofrénica participava na integração dos processos de decisão nas instituições da União, ao mesmo tempo que apresentava essas mesmas instituições como meios para o fim da glória e da grandeza nacionais. Já a Alemanha acompanhou a integração europeia com uma genuína recalibragem do discurso sobre o poder, a nação, a política. As nações pequenas também. Para estas tratava-se de um preço baixo a pagar em relação à segurança e à estabilidade que o projecto europeu lhes concedia.

A França neste momento parece um adolescente birrento que está zangado porque "ser adulto é muito mais difícil do que eu pensava", e "não foi nada disto que me prometeram", "não me avisaram que ia ser duro", "pensava que ia ser giro e tal."

Quanto ao PSF, este está, como se diz na gíria da ciência política 'entregue à bicharada'. Hollande ferido de morte, Fabius legitimado mas sem qualquer hipótese de levar a cabo uma liderança consensual depois de ter apunhalado o partido nas costas - possibilidade de cisão?

Depois das eleições indescritíveis de 2002, estes últimos desenvolvimentos demonstram que a França (ou talvez a 5a República, se preferirem) se encontra em plena crise ideológica, demasiado ocupada consigo mesma para sequer ter tempo para a Europa. A França neste momento não passa de um país banal, medíocre, um líder europeu falhado. Não contem com ela para nada. Jefferson dizia que "cada homem [ele devia ter dito 'pessoa', mil desculpas caras cidadãs] tem duas pátrias e uma delas é a França". Sinto-me mais órfão.

segunda-feira, maio 30, 2005

Oh la la

E aquilo que se receava, pelos vistos, aconteceu. A França votou "Não" no referendo de ratificação do Tratado de Constituição Europeia. Há que entender várias coisas. Ponto número 1, os franceses, tal como nós, estão descontentes com as taxas de desemprego e com o défice. Basicamente, desta vez, a culpa é mesmo do Governo. Ponto número 2, os franceses usaram o referendo contra o Governo, querendo bem saber da União Europeia.
Isto é sintomático de um grave afastamento da sociedade civil europeia face aos assuntos europeus. O tal afastamento que foi combatido (de forma muito fraquinha, muito pobrezinha, como diria Ricardo Araújo Pereira) no processo de elaboração do texto (na Convenção da qual ninguém ouviu falar, com representantes que apresentam um consenso político, depois das dificuldades de aprovação do texto de Nice?Hum...) e que não provocou alteração nenhuma no marasmo da sociedade europeia.
Neste momento, ninguém avalia muito bem o impacto, mas quando o país fundador da CECA rejeita a ratificação de um Tratado, o impacto é muito maior do que as voltas na tumba que deve estar a dar o Jean Monnet, esse grande homem. A construção da Europa a 25, as relações internas e o efeito que externamente provoca esta rejeição são incomensuráveis.
Para aqueles que acreditam na balela federalista que lhes impingiram, este "Não" é uma vitória das soberanias europeias. Para os que, como eu, tinham este novo Tratado como um mal necessário, existe alguma apreensão. Para a massa inominada dos que nada sabem, a rejeição francesa tem tanto interesse como o aumento do IVA. O seja, enquanto não acontecer nada, nenhuma.
Quanto a mim, estarei triste. Vamos lá ver os holandeses, mas desde já prevejo um "Sim" rotundo (os franceses disseram tudo).
Europa Go.

terça-feira, maio 24, 2005

Lavar a alma

Perdoem o desabafo de mais um testemunho benfiquista.

Pronto. Só agora caí em mim e interiorizei completamente que o Benfica é campeão. Até agora tenho estado estupidificado de alegria e incredulidade. Desde que vi o Nuno Assis a invadir o campo de braços abertos (porque à minha volta o barulho dos festejos, ensurdecedor, impedia-me de ouvir o que fosse) que me custa acreditar. Durante anos chorei só de pensar na alegria do momento, e o momento apanhou-me a chorar de alegria no Domingo.
Não interessa que tenha sido um sofrimento ver o Benfica jogar: merecemos como mais ninguém ganhar este campeonato porque não nos armámos em cromos da bola que jogam bem quando lhes apetece, nem nos encostámos à sombra dos títulos do ano passado, como aconteceu com a concorrência mais directa (e como aconteceu connosco durante os últimos onze anos).

Merecemos este campeonato porque soubemos fazer uma omoleta sem ovos e ir mais além do que permitiam as nossas pernas.
Merecemos os parabéns porque quisemos mais que os outros ganhar o campeonato.
Merecemos todas as manifestações de ódio e de mau perder que se seguiram, porque elas apenas nos engrandecem, na mesma medida em diminuem os que as fazem.
Não somos melhores, não somos piores, não somos diferentes, não somos moralmente superiores, não somos uma ideologia nem uma forma de estar na vida.
Somos o Benfica, e isso é mais do que tudo o resto junto.

segunda-feira, maio 23, 2005

O Relatório Vieira

SLB - 1 . Défice - 0. O país parou. Ondas de choque encarnadas encheram o país. Cachecóis varrem as ruas. As pessoas choram. O Benfica é o maior.
Quis o destino ser irónico e trazer-nos o défice nesta gloriosa segunda-feira. Fico chateada, concerteza fico chateada. Então dão-me estas notícias assim de chofre, num dia em que ninguém e sublinhe-se ninguém, quer saber? Daqui a nada andamos só de cachecol enrolado porque ninguém tem tanga, faltam dois mil milhões de euros para a saúde e para a educação, o défice é de de quase 7%, o país está à beira da ruptura e eu pergunto: mas o que é que isso interessa?
Fico entretando deprimida. Oiço as "Papoilas" mas daqui a pouco fico sem emprego, pois isto de trabalhar a prazo para o Estado foi chão que deu patacas e tenho de viver à custa do mesmo Estado que não tem dinheiro para a abrir uma vala no chão, quanto mais para a mim...
Viva o Benfica. Como dizia o outro, foi bonita a festa pá...

A última vez

6,83% de défice orçamental. É o Banco Central que o diz.

Geralmente, um défice das contas públicas desta dimensão não é grave para um país em desenvolvimento como Portugal que tem que aproveitar os fundos europeus para recuperar décadas de tempo perdido. Sabemos que sem comparticipação do estado em centenas ou milhares de projectos co-financiados pela UE, o bolo dos fundos europeus à nossa disposição fica por consumir. Um défice não tem nada de grave. Um país não é uma mercearia.

Mas estamos no PEC. O que o PEC revisto diz é que os países que passaram do 3% têm que demonstrar de forma credível que, num período de tempo razoável, conseguem aproximar as contas públicas do tal défice orçamental de 3% do PIB. Resta saber se este governo tem à sua disposição as condições para escapar a punições da Comissão. Para todos os efeitos Bruxelas não está interessada em aplicar castigos pró-cíclicos, que acentuem a crise das contas públicas. A Comissão não é nem estúpida, nem o papão que a direita andou a vender.

Independentemente do desenlace: se a direita volta a falar da "irresponsabilidade" do PS nos próximos 50 anos, eu fico, tipo, género, chateado.

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1223975&idCanal=63

segunda-feira, maio 16, 2005

E de repente, vindo do nada

Numa praia de Inglaterra um homem apareceu a vaguear, vestido de fato de cerimónia e ensopado. Recolhido por assistentes sociais, recusou-se a falar. Apenas desenhou um grande piano num papel que lhe deram. Chegado ao hospital psiquiátrico tocou horas a fio um repertório clássico de primeira qualidade, e por enquanto é só isto que tem a dizer.

História
de um homem perdido no mundo.

sexta-feira, maio 13, 2005

Quem ganhar que ganhe por bem...

Não posso deixar este dia em branco. É sexta-feira treze e dia de aniversário de aparições. Duas forças cósmicas em confronto, pelo que considero a conjuntura ideal para falar do meu (e nosso Benfica). Num blog sério como este, oportuno e inteligente, não posso deixar de expressar o meu oportunismo e boçalidade dizendo: O Benfica é o maior. Toda a gente sabe disto, mas ainda ninguém conseguiu admitir que a vitória do Glorioso é um gigantesco passo em frente para a evolução deste nosso país que anda tão triste. Reparem: 6 milhões de pessoas felizes (parte delas a acender velas em tudo o que é Igrejas e Capelas deste nosso país, incluindo em Fátima), trabalhando durante um ano com o papo cheio (sim, porque a Taça também é nossa) e a gozar com tudo o que é gentalha de outras cores desportivas. Há lá melhor cenário que este? Pensem nos litros de cerveja e leitões e presuntos e coisas assim que se venderão após esta histórica vitória. Pensem nos milhões de Bolas e Records e Jogos e afins que irão entrar em circulação. Pensem bem nos sectores económicos que por trás disto estão. Aquando da gloriosa Taça do ano transacto, já o ministro dissera o mesmo que eu, por isso entendam que é melhor para o país que o Benfica cilindre o Sporting e o Boavista.
Perdoem-me o desabafo, mas não consigo, como fanática da bola que sou, pensar noutra coisa. Desta vez não cumpri os rituais a que me proponho sempre que é jogo grande, mas não sou supersticiosa (Sexta-Feira 13 - 0 Fátima - 1). Nem consigo comentar a moção de censura que querem aprovar ao Durão Barroso, nem nada que se passe neste país e no Mundo. O Benfica vai ser campeão e amanhã vamos ganhar. Isto é uma certeza, para mim e para seis milhões. Havendo fé, tudo se consegue (lembrete: aplicar esta fé para coisas realmente produtivas, como a evolução e crescimento do nosso país).
Até domingo, estamos fechados para balanço.

quinta-feira, maio 12, 2005

Memória: D. António Ferreira Gomes

Há 99 anos nascia D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que Salazar quis pôr na ordem. Exemplo de cidadania, D. António ousou pedir, apenas, "o respeito, a liberdade e a não descriminação devidos aos cidadãos honestos em qualquer sociedade civil".
D. António foi perseguido pelo regime por se recusar a fazer da Igreja instrumento político, quando Salazar queria que a Igreja alinhasse na unidade do regime. O bispo do Porto recusou-se a debater política, o que, para altura, não podia ser maior afirmação política.
Mas ainda assim abordou temas como a condição social dos traalhadores, e é que é apontado como um teórico da democracia em Portugal, defensor da separação da Igreja do Estado, dos direitos humanos. "O famoso bispo do Porto"(tratamento com o qual João Paulo II se lhe dirigiu) apenas queria que o Estado cumprisse o seu dever, e que deixasse a Igreja cumprir o seu.
D. António foi um homem da Igreja que não voltou as costas ao mundo, o que é mais do que se pode dizer da maior parte do clero de hoje.

Isso não era para aqui chamado, acho eu...

Público: Padre considera aborto mais violento do que matar uma criança.

Sabe-se agora que na missa de 7.º dia da menina de 5 anos que apareceu morta no Porto, vítimas de inenarráveis maus tratos, o padre proferiu estas declarações na homilia: uma criança no ventre da mãe "não se pode defender", enquanto que "uma criança de cinco anos pode reagir, pode chorar, queixar-se". De onde concluiu o que acima se citou.

Nem sendo preciso entrar pelo aproveitamento que se faz da situação para apregoar uma posição política, parece-me ser forma pouco feliz de confortar dizer: "Deixem lá, há mortes piores".

57 anos de Israel

Façam de conta que estão a ler isto no dia 14 de Maio.

Parabéns a Israel pelo 57º aniversário. Que conte muitos mais.

A Declaração de Independência, para quem estiver interessado:

http://www.yale.edu/lawweb/avalon/mideast/israel.htm

quarta-feira, maio 11, 2005

O Parlamento Europeu

Quero partilhar com todos os leitores da Bóina um facto verdadeiramente edificante.

O Parlamento Europeu é constituído por dois edifícios principais: Altiero Spinneli e Paul-Henri Spaak. Estes estão por sua vez unidos por um corredor ao qual se tem acesso no 3º andar. O corredor de que falamos é a aorta do parlamento, a artérea vital da instituição. Ora ao aproximarmo-nos do tal corredor somos confrontados com inúmeros artefactos (suponho que 25) oferecidos pelos parlamentos dos Estados Membros ao Parlamento Europeu. Numa mistura bastante heterogénea de documentos antigos, arte moderna e quinquilharia, que simboliza de forma exemplar a diversidade estonteante de uma Europa de Tallinn a Roma, de Dublin a Atenas, qual não foi o espanto deste cidadão quando se viu perante o busto austero de uma República. Clássica. E sim: com a Bóina. Presenteada ao Parlamento Europeu pela Assembleia da República Portuguesa.

E tenho que admitir - e digo-o porque sei que vocês (sic) não vão espalhar por aí - que senti uma espécie de orgulho patriótico.

Não acho piada a um Rei fundador sanguinário, repugna-me um conceito de nacionalidade que parece não conseguir emancipar-se da mitologia dos Descobrimentos, verdadeiro desastre cultural, demográfico e ambiental para grande parte da Humanidade e muito menos me revejo no imperialismo marcadamente obscurantista que marcou a história portuguesa até '74.

Mas a República Portuguesa, essa sim, é uma criação com a qual me identifico e em cujo destino quero participar. Parabéns à nossa República por se ver representada no Parlamento Europeu, não por uma nau, um aventureiro ou um mapa de 500 anos, mas sim por um busto que simboliza valores eternos.

terça-feira, maio 10, 2005

Manuel Sergio - Levantei-me e fui-me embora

Tropecei hoje acidentalmente com a apresentação do livro do Fernando Correia intitulado "Espelho d'Água". Creio que fiz o que qualquer pessoa sem nenhum compromisso urgente faria, sentando-me numa das poucas cadeiras vagas, feito nêspera, "a ver o que acontecia".

Falou o editor, depois o Amigo Carlos Pinto Coelho e por fim o simpático jornalista, professor, autor do livro e apresentador da "Bancada Central". Foi nesta altura que o simpático e afável Fernando Correia decidiu dar a palavra a um quarto personagem a quem chamou o seu Mestre, que estava na primeira fila da assistência, estrategicamente incógnito para não afugentar potenciais compradores.

Imaginem o meu assombro quando vejo levantar-se a custo da primeira fila o Professor Dr. Manuel Sérgio, ex-líder do ex-PSN, que eu pensava tão extinto como este. A inércia venceu e, apesar de me parecer que tudo o que não tinha para fazer estava subitamente mais urgente, deixei-me ficar "a ver o que acontecia".

Veio o velho e zás! Desata num discurso sobre o Fernando Correia ser o último Homem da rádio, numa linhagem irrepetível, porque "naqueles tempos" saudosos havia uma elite mais pequena que não cometia os erros gramaticais destes jovens jornalistas de hoje. Eu apenas refiro, em defesa dos jornalistas de hoje, que era mais fácil na altura, já que os textos eram corrigidos e revistos por mais pessoas.

Neste ponto da apresentação do livro levantei-me e fui-me embora. Aprendi que "naqueles tempos" éramos censurados mas gramaticalmente correctos, aprendi sobretudo que para algumas pessoas como o Professor Manuel Sérgio isso era mais que suficiente.

sexta-feira, maio 06, 2005

Swiftly and with style

Com permissão do Monsieur Alphonse de "Allô, Allô" para usar o slogan da sua agência funerária, foi assim que decorreu a General Election na Velha Albion. Apenas 3 semanas após a dissolução do parlamento para o efeito, as eleições estão arrumadas e os ingleses podem seguir com as suas vidas - aliás, uma eleição não é coisa que atrapalhe: apenas mais uma tarefa quotidiana a cumprir. Por cá ainda se deixa o governo cessante uns meses a vegetar em estado de gestão, ou a afundar o que ainda não está afundado.

Tony Blair aproveitou a singularidade do sistema que lhe permite escolher o momento em que o eleitorado está no ponto para pedir a dissolução à rainha e a marcação das eleições. Ganhou, embora com a margem mais reduzida com que um primeiro-ministro alguma vez ganhou umas eleições na Grã-Betanha. O que interessa é que ganhou, e interessa sobretudo para garantir uma margem de projecção ao seu ministro Gordon Brown - assim, Blair pode sair a meio e permitir que o Labour recupere do desgaste que a sua imagem causa.
Mas é curioso ver como a Grã-Bretanha quebra unanimismo bipartidário da maioria das democracias ocidentais com a solidificação do Partido Liberal-Democrata, pelo menos em número de votos.

A vitória de Blair demonstra que não adianta haver uma guerra mentirosa se o povo tem pão para comer e o principal partido da oposição tem um banana como lider. Como diz o outro, «It's the economy, stupid!».