segunda-feira, maio 30, 2005

Oh la la

E aquilo que se receava, pelos vistos, aconteceu. A França votou "Não" no referendo de ratificação do Tratado de Constituição Europeia. Há que entender várias coisas. Ponto número 1, os franceses, tal como nós, estão descontentes com as taxas de desemprego e com o défice. Basicamente, desta vez, a culpa é mesmo do Governo. Ponto número 2, os franceses usaram o referendo contra o Governo, querendo bem saber da União Europeia.
Isto é sintomático de um grave afastamento da sociedade civil europeia face aos assuntos europeus. O tal afastamento que foi combatido (de forma muito fraquinha, muito pobrezinha, como diria Ricardo Araújo Pereira) no processo de elaboração do texto (na Convenção da qual ninguém ouviu falar, com representantes que apresentam um consenso político, depois das dificuldades de aprovação do texto de Nice?Hum...) e que não provocou alteração nenhuma no marasmo da sociedade europeia.
Neste momento, ninguém avalia muito bem o impacto, mas quando o país fundador da CECA rejeita a ratificação de um Tratado, o impacto é muito maior do que as voltas na tumba que deve estar a dar o Jean Monnet, esse grande homem. A construção da Europa a 25, as relações internas e o efeito que externamente provoca esta rejeição são incomensuráveis.
Para aqueles que acreditam na balela federalista que lhes impingiram, este "Não" é uma vitória das soberanias europeias. Para os que, como eu, tinham este novo Tratado como um mal necessário, existe alguma apreensão. Para a massa inominada dos que nada sabem, a rejeição francesa tem tanto interesse como o aumento do IVA. O seja, enquanto não acontecer nada, nenhuma.
Quanto a mim, estarei triste. Vamos lá ver os holandeses, mas desde já prevejo um "Sim" rotundo (os franceses disseram tudo).
Europa Go.

terça-feira, maio 24, 2005

Lavar a alma

Perdoem o desabafo de mais um testemunho benfiquista.

Pronto. Só agora caí em mim e interiorizei completamente que o Benfica é campeão. Até agora tenho estado estupidificado de alegria e incredulidade. Desde que vi o Nuno Assis a invadir o campo de braços abertos (porque à minha volta o barulho dos festejos, ensurdecedor, impedia-me de ouvir o que fosse) que me custa acreditar. Durante anos chorei só de pensar na alegria do momento, e o momento apanhou-me a chorar de alegria no Domingo.
Não interessa que tenha sido um sofrimento ver o Benfica jogar: merecemos como mais ninguém ganhar este campeonato porque não nos armámos em cromos da bola que jogam bem quando lhes apetece, nem nos encostámos à sombra dos títulos do ano passado, como aconteceu com a concorrência mais directa (e como aconteceu connosco durante os últimos onze anos).

Merecemos este campeonato porque soubemos fazer uma omoleta sem ovos e ir mais além do que permitiam as nossas pernas.
Merecemos os parabéns porque quisemos mais que os outros ganhar o campeonato.
Merecemos todas as manifestações de ódio e de mau perder que se seguiram, porque elas apenas nos engrandecem, na mesma medida em diminuem os que as fazem.
Não somos melhores, não somos piores, não somos diferentes, não somos moralmente superiores, não somos uma ideologia nem uma forma de estar na vida.
Somos o Benfica, e isso é mais do que tudo o resto junto.

segunda-feira, maio 23, 2005

O Relatório Vieira

SLB - 1 . Défice - 0. O país parou. Ondas de choque encarnadas encheram o país. Cachecóis varrem as ruas. As pessoas choram. O Benfica é o maior.
Quis o destino ser irónico e trazer-nos o défice nesta gloriosa segunda-feira. Fico chateada, concerteza fico chateada. Então dão-me estas notícias assim de chofre, num dia em que ninguém e sublinhe-se ninguém, quer saber? Daqui a nada andamos só de cachecol enrolado porque ninguém tem tanga, faltam dois mil milhões de euros para a saúde e para a educação, o défice é de de quase 7%, o país está à beira da ruptura e eu pergunto: mas o que é que isso interessa?
Fico entretando deprimida. Oiço as "Papoilas" mas daqui a pouco fico sem emprego, pois isto de trabalhar a prazo para o Estado foi chão que deu patacas e tenho de viver à custa do mesmo Estado que não tem dinheiro para a abrir uma vala no chão, quanto mais para a mim...
Viva o Benfica. Como dizia o outro, foi bonita a festa pá...

A última vez

6,83% de défice orçamental. É o Banco Central que o diz.

Geralmente, um défice das contas públicas desta dimensão não é grave para um país em desenvolvimento como Portugal que tem que aproveitar os fundos europeus para recuperar décadas de tempo perdido. Sabemos que sem comparticipação do estado em centenas ou milhares de projectos co-financiados pela UE, o bolo dos fundos europeus à nossa disposição fica por consumir. Um défice não tem nada de grave. Um país não é uma mercearia.

Mas estamos no PEC. O que o PEC revisto diz é que os países que passaram do 3% têm que demonstrar de forma credível que, num período de tempo razoável, conseguem aproximar as contas públicas do tal défice orçamental de 3% do PIB. Resta saber se este governo tem à sua disposição as condições para escapar a punições da Comissão. Para todos os efeitos Bruxelas não está interessada em aplicar castigos pró-cíclicos, que acentuem a crise das contas públicas. A Comissão não é nem estúpida, nem o papão que a direita andou a vender.

Independentemente do desenlace: se a direita volta a falar da "irresponsabilidade" do PS nos próximos 50 anos, eu fico, tipo, género, chateado.

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1223975&idCanal=63

segunda-feira, maio 16, 2005

E de repente, vindo do nada

Numa praia de Inglaterra um homem apareceu a vaguear, vestido de fato de cerimónia e ensopado. Recolhido por assistentes sociais, recusou-se a falar. Apenas desenhou um grande piano num papel que lhe deram. Chegado ao hospital psiquiátrico tocou horas a fio um repertório clássico de primeira qualidade, e por enquanto é só isto que tem a dizer.

História
de um homem perdido no mundo.

sexta-feira, maio 13, 2005

Quem ganhar que ganhe por bem...

Não posso deixar este dia em branco. É sexta-feira treze e dia de aniversário de aparições. Duas forças cósmicas em confronto, pelo que considero a conjuntura ideal para falar do meu (e nosso Benfica). Num blog sério como este, oportuno e inteligente, não posso deixar de expressar o meu oportunismo e boçalidade dizendo: O Benfica é o maior. Toda a gente sabe disto, mas ainda ninguém conseguiu admitir que a vitória do Glorioso é um gigantesco passo em frente para a evolução deste nosso país que anda tão triste. Reparem: 6 milhões de pessoas felizes (parte delas a acender velas em tudo o que é Igrejas e Capelas deste nosso país, incluindo em Fátima), trabalhando durante um ano com o papo cheio (sim, porque a Taça também é nossa) e a gozar com tudo o que é gentalha de outras cores desportivas. Há lá melhor cenário que este? Pensem nos litros de cerveja e leitões e presuntos e coisas assim que se venderão após esta histórica vitória. Pensem nos milhões de Bolas e Records e Jogos e afins que irão entrar em circulação. Pensem bem nos sectores económicos que por trás disto estão. Aquando da gloriosa Taça do ano transacto, já o ministro dissera o mesmo que eu, por isso entendam que é melhor para o país que o Benfica cilindre o Sporting e o Boavista.
Perdoem-me o desabafo, mas não consigo, como fanática da bola que sou, pensar noutra coisa. Desta vez não cumpri os rituais a que me proponho sempre que é jogo grande, mas não sou supersticiosa (Sexta-Feira 13 - 0 Fátima - 1). Nem consigo comentar a moção de censura que querem aprovar ao Durão Barroso, nem nada que se passe neste país e no Mundo. O Benfica vai ser campeão e amanhã vamos ganhar. Isto é uma certeza, para mim e para seis milhões. Havendo fé, tudo se consegue (lembrete: aplicar esta fé para coisas realmente produtivas, como a evolução e crescimento do nosso país).
Até domingo, estamos fechados para balanço.

quinta-feira, maio 12, 2005

Memória: D. António Ferreira Gomes

Há 99 anos nascia D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que Salazar quis pôr na ordem. Exemplo de cidadania, D. António ousou pedir, apenas, "o respeito, a liberdade e a não descriminação devidos aos cidadãos honestos em qualquer sociedade civil".
D. António foi perseguido pelo regime por se recusar a fazer da Igreja instrumento político, quando Salazar queria que a Igreja alinhasse na unidade do regime. O bispo do Porto recusou-se a debater política, o que, para altura, não podia ser maior afirmação política.
Mas ainda assim abordou temas como a condição social dos traalhadores, e é que é apontado como um teórico da democracia em Portugal, defensor da separação da Igreja do Estado, dos direitos humanos. "O famoso bispo do Porto"(tratamento com o qual João Paulo II se lhe dirigiu) apenas queria que o Estado cumprisse o seu dever, e que deixasse a Igreja cumprir o seu.
D. António foi um homem da Igreja que não voltou as costas ao mundo, o que é mais do que se pode dizer da maior parte do clero de hoje.

Isso não era para aqui chamado, acho eu...

Público: Padre considera aborto mais violento do que matar uma criança.

Sabe-se agora que na missa de 7.º dia da menina de 5 anos que apareceu morta no Porto, vítimas de inenarráveis maus tratos, o padre proferiu estas declarações na homilia: uma criança no ventre da mãe "não se pode defender", enquanto que "uma criança de cinco anos pode reagir, pode chorar, queixar-se". De onde concluiu o que acima se citou.

Nem sendo preciso entrar pelo aproveitamento que se faz da situação para apregoar uma posição política, parece-me ser forma pouco feliz de confortar dizer: "Deixem lá, há mortes piores".

57 anos de Israel

Façam de conta que estão a ler isto no dia 14 de Maio.

Parabéns a Israel pelo 57º aniversário. Que conte muitos mais.

A Declaração de Independência, para quem estiver interessado:

http://www.yale.edu/lawweb/avalon/mideast/israel.htm

quarta-feira, maio 11, 2005

O Parlamento Europeu

Quero partilhar com todos os leitores da Bóina um facto verdadeiramente edificante.

O Parlamento Europeu é constituído por dois edifícios principais: Altiero Spinneli e Paul-Henri Spaak. Estes estão por sua vez unidos por um corredor ao qual se tem acesso no 3º andar. O corredor de que falamos é a aorta do parlamento, a artérea vital da instituição. Ora ao aproximarmo-nos do tal corredor somos confrontados com inúmeros artefactos (suponho que 25) oferecidos pelos parlamentos dos Estados Membros ao Parlamento Europeu. Numa mistura bastante heterogénea de documentos antigos, arte moderna e quinquilharia, que simboliza de forma exemplar a diversidade estonteante de uma Europa de Tallinn a Roma, de Dublin a Atenas, qual não foi o espanto deste cidadão quando se viu perante o busto austero de uma República. Clássica. E sim: com a Bóina. Presenteada ao Parlamento Europeu pela Assembleia da República Portuguesa.

E tenho que admitir - e digo-o porque sei que vocês (sic) não vão espalhar por aí - que senti uma espécie de orgulho patriótico.

Não acho piada a um Rei fundador sanguinário, repugna-me um conceito de nacionalidade que parece não conseguir emancipar-se da mitologia dos Descobrimentos, verdadeiro desastre cultural, demográfico e ambiental para grande parte da Humanidade e muito menos me revejo no imperialismo marcadamente obscurantista que marcou a história portuguesa até '74.

Mas a República Portuguesa, essa sim, é uma criação com a qual me identifico e em cujo destino quero participar. Parabéns à nossa República por se ver representada no Parlamento Europeu, não por uma nau, um aventureiro ou um mapa de 500 anos, mas sim por um busto que simboliza valores eternos.

terça-feira, maio 10, 2005

Manuel Sergio - Levantei-me e fui-me embora

Tropecei hoje acidentalmente com a apresentação do livro do Fernando Correia intitulado "Espelho d'Água". Creio que fiz o que qualquer pessoa sem nenhum compromisso urgente faria, sentando-me numa das poucas cadeiras vagas, feito nêspera, "a ver o que acontecia".

Falou o editor, depois o Amigo Carlos Pinto Coelho e por fim o simpático jornalista, professor, autor do livro e apresentador da "Bancada Central". Foi nesta altura que o simpático e afável Fernando Correia decidiu dar a palavra a um quarto personagem a quem chamou o seu Mestre, que estava na primeira fila da assistência, estrategicamente incógnito para não afugentar potenciais compradores.

Imaginem o meu assombro quando vejo levantar-se a custo da primeira fila o Professor Dr. Manuel Sérgio, ex-líder do ex-PSN, que eu pensava tão extinto como este. A inércia venceu e, apesar de me parecer que tudo o que não tinha para fazer estava subitamente mais urgente, deixei-me ficar "a ver o que acontecia".

Veio o velho e zás! Desata num discurso sobre o Fernando Correia ser o último Homem da rádio, numa linhagem irrepetível, porque "naqueles tempos" saudosos havia uma elite mais pequena que não cometia os erros gramaticais destes jovens jornalistas de hoje. Eu apenas refiro, em defesa dos jornalistas de hoje, que era mais fácil na altura, já que os textos eram corrigidos e revistos por mais pessoas.

Neste ponto da apresentação do livro levantei-me e fui-me embora. Aprendi que "naqueles tempos" éramos censurados mas gramaticalmente correctos, aprendi sobretudo que para algumas pessoas como o Professor Manuel Sérgio isso era mais que suficiente.

sexta-feira, maio 06, 2005

Swiftly and with style

Com permissão do Monsieur Alphonse de "Allô, Allô" para usar o slogan da sua agência funerária, foi assim que decorreu a General Election na Velha Albion. Apenas 3 semanas após a dissolução do parlamento para o efeito, as eleições estão arrumadas e os ingleses podem seguir com as suas vidas - aliás, uma eleição não é coisa que atrapalhe: apenas mais uma tarefa quotidiana a cumprir. Por cá ainda se deixa o governo cessante uns meses a vegetar em estado de gestão, ou a afundar o que ainda não está afundado.

Tony Blair aproveitou a singularidade do sistema que lhe permite escolher o momento em que o eleitorado está no ponto para pedir a dissolução à rainha e a marcação das eleições. Ganhou, embora com a margem mais reduzida com que um primeiro-ministro alguma vez ganhou umas eleições na Grã-Betanha. O que interessa é que ganhou, e interessa sobretudo para garantir uma margem de projecção ao seu ministro Gordon Brown - assim, Blair pode sair a meio e permitir que o Labour recupere do desgaste que a sua imagem causa.
Mas é curioso ver como a Grã-Bretanha quebra unanimismo bipartidário da maioria das democracias ocidentais com a solidificação do Partido Liberal-Democrata, pelo menos em número de votos.

A vitória de Blair demonstra que não adianta haver uma guerra mentirosa se o povo tem pão para comer e o principal partido da oposição tem um banana como lider. Como diz o outro, «It's the economy, stupid!».

E amodorrados vamos...

São três da manhã de um dia destes e faço zapping na tv em casa de um amigo, conversando sobre qualquer coisa, depois de assistirmos a um documentário qualquer sobre qualquer coisa que se bem me recordo se assemelhava aos esgotos de Nova Iorque. No belo canal RTP Memória, depois de 79 voltas consecutivas aos 18 canais que tem aquela bela televisão, ficamos pasmados a olhar para João Paulo II que fala. "Olha o Papa" - exclama ele. "Ex-Papa" - digo eu. E ficamos a olhar como que maravilhados. Num português abrasileirado o Papa diz qualquer coisa como "aborto", "pecado", "assassinos". Olhamos um para o outro e dizemos sem pensar "Ei", enquanto eu mudo de canal.
E assim se vão passando os dias. Ainda me lembro, era eu jovem, de chorar quando a nova lei do aborto não foi aprovada na AR. Na altura, parece-me a mim, tinha alguma consciência social ou coisa que o valesse. Hoje em dia, o Presidente recusa-se a convocar um referendo porque alega a ida de férias dos portugueses como factor dissuasor do sucesso deste. Reacção: com que dinheiro é que os portugueses vão de férias? Por que motivo ainda não se veio dizer que os referendos em Portugal dão tanta legitimidade a uma alteração legislativa como tomate pelado numa salada de tomate com pimentos? Ainda ninguém entendeu que nenhum português se levanta da poltrona para votar em assuntos sociais, ou mesmo, NADA?
O nosso Primeiro Ministro, homem astuto e silencioso, inflexível e autoritário, não percebeu que esta questão do aborto foi chão que deu uvas? Pois digo-lhe eu: pãozinho para a boca e a malta vota toda.
E assim passo eu os dias, a ver o Benfica jogar.
Se o país continua assim, qualquer dia começo a ver a Cabocla em repetição no GNT.

terça-feira, maio 03, 2005

Bóina Museum of Fine Arts



Faz hoje 204 anos que foi aprovada a constituição polaca, ou melhor, a Constituição da Comunidade Polaco-Lituana, que foi a segunda constituição codificada do mundo (depois da americana de 1787) e a primeira da Europa (por causa da especificidade da constituição inglesa).

Vem isto a propósito de quê?
De nada, mas achei o quadro bonito.Posted by Hello

segunda-feira, maio 02, 2005

Enfim, temos de fazer pela vida...

No dia em que se soube que Paulo Portas vai ser agraciado por Donald Rumfsfeld com uma condecoração dos EUA por serviços prestados ao país (e que, por alguma razão, raramente é atribuída a estrangeiros), Santana Lopes dá uma entrevista à SIC na qual, enquanto mostra algumas das suas obras, dá conta de que já fez planos para a sua vida profissional depois de sair da presidência da Câmara de Lisboa: vai voltar à advocacia, que é a sua profissão (sou só eu que noto a ironia nesta declaração?), e trabalhar como consultor internacional para algumas empresas porque «enfim, nisto de ser primeiro-ministro vão-se conhecendo algumas pessoas em África, na América na Ásia», e tal.

Para a península vem mais um prémio de consolação, depois do que foi atribuído a Aznar o ano passado, embora o distinguido não seja o chefe de governo derrotado - a menos que Donny Rumsfeld saiba algo que nós não saibamos, tipo quem é que mandava no governo.
E afinal parece que não havia tanta gente a querer o mal de Santana. Agora todos o querem. Pode ser que faça de vez as pazes com a vida.

Assim é que é bonito: os amigos são para as ocasiões.

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril Sempre


O dia em que todos fomos umPosted by Hello

domingo, abril 24, 2005

«Ó Sócrates, importas-te de devolver aquela moldura que os rapazecos enviaram para aí?»

O que aconteceu este fim-de semana no congresso do CDS foi bonito.
Telmo Correia quis sentir-se desejado, esperando que as massas estivessem em ponto de rebuçado para conceder a graça de ser presidente.
Enquanto isso, um militante ilustre mas longe do círculo da sucessão fez o trabalho de casa e disse o que pensava. Ser genuíno levou-o a presidente, o que é uma conquista democrática num partido aristocrático e habituado a sebastianismos.
Apesar de estar nos meus antípodas em termos de ideologia, tenho o maior dos respeitos e simpatia por Ribeiro e Castro desde que o vi subir ao pódio numa Assembleia Geral do nosso Benfica para exigir eplicações a Vale e Azevedo. Nessa altura tentou abrir os olhos a uma multidão ensandecida para evitar o desastre que aí vinha, e a única coisa recebeu em troca foi desprezo, humilhação e acusações desonrosas de anti-benfiquismo vindas daqueles para quem só era benfiquista que era a favor do presidente. Depois lá se viu que o presidente era o que era.
Este fim-de-semana Telmo Correia entrou papa e saiu cardeal. Ribeiro e Castro ganhou, como o próprio disse, «sem tropas nem exércitos». Pelo menos nesta semana há uma eleição que não faz temer o pior.

terça-feira, abril 19, 2005

A Implosão da Igreja Católica Apostólica Romana


Bento XVI, o Sinistro Posted by Hello

Perdoem-me os leitores a minha queda para cenários catastrofistas, e a veleidade com que faço este vaticínio.

A Igreja Católica surpreendeu por não ter surpreendido: a instituição que há séculos melhor gere o seu marketing elegeu para monarca absoluto (passe a aparente antítese) alguém que sempre se esperou - e temeu. Ratzinger não é o congregador do rebanho de Deus como o foi Karol Woijtila. Não é alguém que vá à procura do mundo, mas antes alguém que espera que o mundo se renda à Igreja. Não é alguém que estabeleça pontes, mas antes aquele que na sombra do último pontífice mais trabalhou para que a Igreja fosse um monolito de intransigência.
Ratzinger foi a face obscura do Vaticano, provavelmente aquele que efectivamente detinha o poder, concumitantemente com a Opus Dei. Um trabalho destes leva anos a edificar e não se pode perder só porque morre um pontífice. Há, por isso, que cuidar para que o legado não se perca. Foi o que se viu.

A Igreja de Ratzinger deixará de fora todos os que procuram mais a autenticidade da mensagem de amor, solidariedade e fraternidade humana de Jesus de Nazaré do que a doutrina que sobre ela foi erigida pelos doutores da fé ao longo dos séculos.

Uma coisa que nunca percebi no pontificado de João Paulo II foi como pôde ele ser um líder tão respeitado e acarinhado pelas restantes religiões não tendo abdicado do dogma de que só há salvação na Igreja Católica Apostólica Romana. Ou seja: como é que se inicia um diálogo quando se estabelece à partida que só eu é que tenho razão?

A bondade da mensagem de Cristo é universal, válida para crentes e não crentes, desde que expurgada de interpretações doutrinárias e abordagens farisaicas como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Esta é a perspectiva que falta a Ratzinger(o polícia da fé, na expressão de um seu biógrafo), para quem é o mundo que tem de prestar vassalagem a Cristo e à Igreja (embora não necessariamente por esta ordem).

Em abono da fraternidade universal entre os povos, valha-nos o facto de ser um papa de transição. O seu sucessor que apanhe os destroços.

quinta-feira, março 24, 2005

O Pai do Capitão Nemo


O Capitão Nemo levanta a sua bandeira e contempla os amanhãs que cantam Posted by Hello

Júlio Verne morreu há cem anos. Pretexto para falar do Capitão Nemo - uma das personagens mais bem trabalhadas que conheço na literatura.
É curioso dizer isto de um personagem de Júlio Verne, que, apesar de ser um dos mais celebrados romancistas do séc. XIX, privilegia a acção e o conceito da história sobre a densidade dos personagens, embora não se saia propriamente mal neste aspecto.
O Capitão Nemo é um indiano de linhagem real que se devotou à ciência e à causa da libertação dos povos contra a Némesis opressora do Império Britânico. Isto leva-o a aproveitar a tecnologia desprezada por muitos para construir o prodigioso Nautillus, que usa para percorrer o mundo através do fundo do mar, explorando-o, conhecendo-o e amando-o. E pelo caminho aterrorizando as frotas mercantes das potências mundiais. O mar torna-se a sua pátria.
O Capitão Nemo nutre um profundo gosto por tudo o que é belo, acumulando no seu submarino um impressionante acervo de obras de arte, e é dono de uma cultura sólida e despretensiosa, o que o faz uma versão engagé e menos diletante do nosso Fradique Mendes.
Apesar disso, o seu principal propósito na vida é libertar o mundo da opressão, dedicando-se a acções de combate nos mares e financiando movimentos de libertação nacional com recursos que obtém do mar.
O que Nemo faz é pela fraternidade humana, mas a questão que vai passando pela cabeça de quem lê as 20 000 Léguas Submarinas é: este homem não é um terrorista?
Provavelmente, sim. Isso faz-nos gostar de terroristas? Não.
A maravilha da personagem de Nemo está em ser herói e anti-herói, e em nos fazer empatizar com ele sem nos exigir um juízo de moralidade. Um pouco como que a dizer que em todos nós há algo de bem e de mal (se é que existe o bem e o mal).
Júlio Verne era um paladino do progresso científico, mas se não tivesse criado personagens como o capitão Nemo seria apenas um especulador, nunca um visionário.

sexta-feira, março 18, 2005

Tremenda desilusão

A esquerda moderna, progressista, que pugna por valores emancipadores, verdadeira herdeira dos valores laicos e republicanos que tão caros são aos autores deste blog, essa esquerda é fácil de encontrar: está em Espanha. Quanto mais acompanho os primeiros passos deste governo, mais temo que a liderança do PS tenha permanecido imune ao entusiasmo que grassa entre as forças progressistas ibéricas, e que tem as suas raízes na coragem do governo Zapatero em se dedicar aos temas da igualdade de género e dos direitos da comunidade gay.
Só alguns elementos para esclarecer o que acima foi dito (para um resumo fantástico da situação sugere-se a leitura do artigo da revista Visão de hoje, p.65): duas mulheres em 16 ministros; 3 mulheres em 36 secretários de estado. Porquê? Porque, aparentemente, segundo o PM, entre milhares de mulheres militantes socialistas e 5 milhões de portuguesas, não existem cidadãs com o mérito, a capacidade técnica e a visibilidade política necessárias para contribuir para um governo mais representativo.
Trata-se de um retrocesso em relação ao passado, uma distorção da presente realidade social do país, e, acima de tudo, uma oportunidade perdida para o futuro da modernidade portuguesa.