sexta-feira, março 27, 2009

Estou pronto para a festa

Foi hoje publicado, no Diário da respectiva, o Programa de Comemorações do Centenário da República.

segunda-feira, março 23, 2009

Normal é explicar a pessoas que se amam que são anormais

Normal é um grupo de sujeitos anuciarem que descodificaram a natureza intemporal do ser humano e que esta é a única que pode ser catalogada de "normal".
Normal é este grupo de sujeitos se arvorar em detentor do monopólio da verdade no que diz respeito ao amor e ao sexo.
Normal é este mesmo grupo considerar que os principais intérpretes da tal verdade são a mesma casta de rapazes e raparigas que juraram abdicar da sexualidade para servir uma superstição religiosa.
Normal é o dito grupo insistir em apresentar a reprodução da espécie como argumento válido para ajuizar da "normalidade" de comportamentos sexuais entre indivíduos adultos, esquecendo-se que o amor, o afecto e o prazer distingue o ser humano do resto da Criação.

Gostem ou não gostem, caros apóstolos da normalidade, a homossexualidade está connosco desde a noite dos tempos, tal como a heterossexualidade. Alexandre o Grande, Ricardo Coração de Leão, Oscar Wilde, Leonardo Da Vinci: geniais, visionários, corajosos, ambiciosos? Talvez. Mas, de acordo com este cidadão, estas figuras históricas eram, para todos os efeitos, anormais.

Mas o que dizer a pessoas que acham que velhas lendas wagnerianas, metáforas futebolísticas, gastronómicas e bíblicas e filmes da Disney servem como barómetros da normalidade, como fontes de inspiração para destilar o padrão-ouro do comportamento humano das centenas de milhares de anos de complexidade humana?

É uma velha máxima do conservadorismo: keep it simple. Um valor fundamental que não dê para articular em 10 linhas e que não seja inteligível para uma criança de 10 anos não vale a pena defender. Nós rapazes gostamos de meninas, portanto somos os bons. Os rapazes que gostam de rapazes são maus (mas temos direito a ter pena deles, coitaditos).
E os rapazes que gostam de rapazes E de meninas? E os rapazes que gostam de meninas até aos 40 anos de idade, mas depois descobrem que afinal preferem rapazes?
Keep it simple.

E depois os Conservadores é que dizem que são realistas, que vêem o mundo como ele é e não como ele devia ser.

Os Conservadores portugueses só sonham com um país que já não existe e com outro que nunca vai existir, sentem-se eternamente desiludidos com o desfazamento entre a Verdade deles e a complexidade da realidade nacional, tristes por haver gay parades, zangados com o aborto, revoltados com a banalidade do bem-estar que a República de Abril nos trouxe malgré eux.

Tenho más notícias para vocês: os vossos filhos e as vossas filhas serão a geração mais tolerante, internacionalizada e cosmopolita da história do país e, em breve, as vossas causas e a vossa amargura serão tão risíveis como é hoje a aspiração de outra geração de manter o país fechado, miserável, isolado e dominado pela mediocridade chauvinista da ditadura autoritária.

O futuro será anormal, previno-vos!

quinta-feira, março 19, 2009

O jornal diário português de referência XI


Eu tinha prometido a mim mesmo deixar o Público sossegado. Parar de chatear. Mas esta é de longe a melhor de todas.
Público de ontem, 18 de Março de 2009, página 15 da versão impressa.
Título: "Luís Amado exige fim da expansão dos colonatos judaicos".

"Jornalista": um senhor chamado Jorge Heitor

"Em Dezembro de 2008, recorda, Lisboa decidiu elevar o nível das relações com Israel, "como forma de alcançar um compromisso mais construtivo" entre a UE e esse país". E agora espera bem que não se continue a assistir à expansão dos colonatos judaicos na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza."

Não há colonatos judaicos na Faixa de Gaza desde 2005. Não há. Foram retirados, não podendo portanto expandir-se. Como duvido que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não esteja ao corrente da retirada israelita de Gaza, julgo que podemos assumir com alguma certeza que o "jornalista" não foi sequer capaz de citar/parafrasear o conteúdo da tal carta.

Mas há mais:

"Amado manifesta o desejo de debater estes assuntos aquando da reunião informal que os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros vão ter no fim da próxima semana no Centro de Congressos de Brdo (Eslovénia), sob a presidência do ministro esloveno dos Negócios Estrangeiros, Dimitrij Rupel, actual presidente do Conselho de Assuntos Gerais e Relações Exteriores da UE."
Como toda a gente sabe, é a República Checa que presentemente (e até fim de Junho) assume a presidência da UE e é o MNE checo (Karel Schwarzenberg) que preside ao Conselho de Assuntos Gerais e Relações Exteriores. De facto, está iminente uma reunião informal dos MNEs europeus (Gymnich)... na República Checa.
De que raio estará então a falar o "jornalista"?
Fui investigar. E está aqui a explicação. Há precisamente um ano, fim de Março de 2008, o Gymnich teve de facto lugar na Eslovénia, no Centro de Congressos de Brdo.
E não há uma alminha caridosa naquele "jornal" que detecte tamanho disparate?

quarta-feira, março 18, 2009

O jornal diário português de referência X



A geografia sempre foi o tendão de Aquiles do Público. Por exemplo aqui. Hoje aparece uma fotografia no Público online com a seguinte legenda.

"18-03-2009 8:27:00
Tanque de guerra
Algumas mulheres iranianas posam para uma fotografia num tanque iraquiano abandonado, durante a visita a um memorial de guerra, situado a 25 quilómetros da fronteira com o Iraque e a pouco mais de 1 quilómetro a sudoeste de Teerão, na província de Khoozestan. Os iranianos visitam os principais campos de batalha durante a última semana do calendário iraniano, para prestar homenagem a todos os que morreram na guerra entre o Irão e o Iraque (1980-88). Fotografia: Morteza Nikoubazl/Reuters
"

A cidade iraquiana mais próxima de Teerão é Sulaymania, no curdistão iraquiano. A distância entre as duas é de 548km... Então como é que o tal memorial de guerra a 25km da fronteira com o Iraque pode estar a "pouco mais de" 1km de Teerão. Qualquer aluno do liceu moderadamente informado sabe que Teerão não está em cima da fronteira do Iraque, senão não tinha ficado pedra sobre pedra na guerra de 1980 a 1988...

Mas pronto, não se pode pedir muito aos "jornalistas" do Público.

sábado, março 14, 2009

E fez-se luz

Assisti hoje na Gulbenkian à “Criação”, de Haydn, com libreto rejeitado por Handel e baseado no Livro do Génesis, não os do Phil Collins que seria bem mais interessante, mas sim no livro da Bíblia (a que não é “A Bola”), sobre a Criação do Mundo em sete dias, acabando sensivelmente antes da prevaricação e consequente expulsão do Paraíso do Adão e da Eva.

Estamos perante uma peça musical brilhante, e uma excelente interpretação, que tem como única falha um libreto que, dado o tema e a inspiração, nunca poderia correr bem. E nunca poderia correr bem porque embora esteja levemente polvilhado de Iluminismo e Humanismo não deixa de louvar a submissão da mulher ao homem como único caminho para a felicidade ou condenar esse pecado mortal de “Querer saber mais que o devido”.

Estas passagens, que podemos encontrar na Bíblia de forma até mais primária, envenenam este texto desde a Criação (pau que nasce torto...) e dispensam qualquer nova exegese a reboque das exigências de uma Humanidade esclarecida pelos valores da Igualdade e do Progresso. Assim, nem pormenor divertido de Haydn ser maçom, nem a referência à não-aceitação, numa fase inicial, desta obra como música sacra por ser demasiado inovadora (típico), me permitiram fruir devidamente desta composição sublime.

Mas fez-se Luz porque nasceu a minha Filha, Clara, na semana passada. Esta Cidadã, espero, virá engrossar as nossas fileiras enquanto Cidadã laica e republicana (razão porque tem ouvido já ler Rousseau Voltaire, Saint Simon, Aquilino e o Ursinho Pooh).

A contrário de Deus aos seus filhos não lhe vou exigir que exista para louvar o meu nome, vou ensinar-lhe a ser Fraterna em vez de caridosa, a ser Igual e a exigir ser Igual aos homens que escolher e Livre de aprender tudo o que quiser.

A prova do meu compromisso com estas palavras fáceis é que estou disposto a que aprenda até a acreditar em Deus, se ela quiser, e a engolir toda “A Criação” por mais que me cheire a m... esturro. Sou capaz apenas de proibir o ingresso nos Escuteiros, também não exageremos na liberdade...

domingo, março 08, 2009

Como é possível?

Tanta memória selectiva e tanto desprezo pelas vítimas: aqui, aqui e aqui. Mas eu pergunto-me: porquê todo este silêncio em relação à sabedoria e à visão de Pol Pot?

sexta-feira, março 06, 2009

Uma opinião

É uma opinião pessoal. Não é a minha. Mas admiro a coragem.

quinta-feira, março 05, 2009

O Público admite que erra - nós já sabíamos

O Público hoje tem todo um artigo na secção P2 sobre as "gralhas e disparates" dos 19 anos da vida do jornal. Será que esta admissão de culpa vai moderar a sanha justiceira e correctiva deste blog? A resposta é um simples: não, não, não, não, não, não, não, não e não.
E mais, o Público acha que um jornal sem "gralhas e disparates é como um jardim sem flores". Pois eu conheço muitos jornais diários com uma flora consideravelmente menos frondosa... E prefiro esses.

quarta-feira, março 04, 2009

Darfur


O jornal diário português de referência IX

Hoje há um grande dossier no Público sobre um portuga que espiava para os alemães durante a II Grande Guerra. Na página 4 o artigo é acompanhado por uma grande fotografia de barcos de desembarque aliados na costa da Normandia.
O artigo trata do desembarque Aliado no Norte de África em 1942 (Operação Torch) e não do desembarque dos mesmos Aliados na Normandia em 1944 (Operação Overlord). Mas pronto, o Público escolheu uma fotografia da guerra certa. Já não é mau.
Mais engraçada é a legenda que acompanha a dita fotografia: "Armada britânica na costa da Normandia, dias antes do dia D".
O Dia D, como se pode ver aqui, é o primeiro dia da invasão da Normandia: 6 de Junho de 1944.
Mas alguém no Público acha que a "armada britânica" chegou às costas da Europa ocupada "dias antes" da invasão começar...

terça-feira, março 03, 2009

O anti-semitismo é o anti-semitismo do século XXI

Como já referi aqui, aqui e aqui, o anti-semitismo em Portugal está omnipresente. Assim mesmo: omnipresente.

Vão por favor ver à secção P2 do Público de hoje. Um artigo sobre "Queijo da Serra", que explica como na Beira se voltou a fazer queijo kasher (isto é, preparado de acordo com os preceitos higiénicos e rituais previstos pela religião judaica). Uma boa oportunidade para reflectir sobre a presença do judaísmo em Portugal, ou para destruir mitos e preconceitos? Não, para isso não se podia ter incumbido da tarefa um "jornalista" do Público.

A páginas tantas, o "jornalista" explica as motivações de um tal de José Agostinho Braz (especula-se no artigo sobre as suas origens cristãs-novas) para produzir queijo da serra kasher no meio da Beira Alta.

"...aquilo que em Israel é visto como o apelo das origens ou a procura do reencontro com as suas raízes ancestrais, para José Braz parece ter surgido apenas como uma oportunidade de incremento da facturação. Será essa, porventura, a mais firme revelação da sua costela judaica, mas a ideia central era, de facto, a expansão do negócio. "

Depois vêm umas considerações totalmente descabidas sobre "religiões semitas", que nem vale a pena corrigir.

Mas enfim, aparentemente a vontade de alguém querer fazer dinheiro é um indicador de uma "costela judaica".

Não, Daniel, a islamofobia não é o anti-semitismo do século XXI. O anti-semitismo ainda é o anti-semitismo do século XXI.

Adenda: depois de mostrar esta passagem a alguém, fiquei com menos certezas sobre o que escrevi. A que é que se refere a palavra "essa"? Ao "apelo das origens" e à "procura do reencontro com as suas raízes ancestrais"? Ou à "oportunidade de incremento de facturação"? Confesso que lendo com atenção fico com dúvidas... Vale a pena ler o artigo para perceber bem o contexto.

segunda-feira, março 02, 2009

Mais milhar de milhão, menos milhar de milhão



Não é novidade para ninguém que os jornais diários portugueses não primam pelo rigor. E não é só o Público a ter dificuldades em lidar com os desafios da exactidão (como demonstrei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui).

Tema: cimeira informal dos líderes da UE para lidar com a crise - pacote de apoio financeiro ao Leste da Europa.

O que é que uma selecção aleatória de jornais portugueses diz hoje sobre este assunto?

1. Diário de Notícias (página 4 do caderno principal): "A Alemanha foi a grande opositora da ideia apresentada pela Hungria, que previa um apoio no valor de 160 mil milhões de euros para a região."
2. Diário Económico (página 12 do caderno principal): "O primeiro-ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany, que denunciou uma reedição da 'cortina de ferro', pediu um fundo especial de solidariedade no total de 190 mil milhões de euros..."
3. Jornal de Negócios (página 18 do caderno principal): "Os líderes europeus, reunidos ontem informalmente em Bruxelas a pedido da República Checa, rejeitaram a aprovação de uma plano..., tal como preconizava a Polónia, que exigia um pacote de até 180 mil milhões de euros para os países de Leste."

O leitor que se amanhe. Ou então que se dê ao trabalho de ir procurar outra fonte que ajude a desempatar. Como o Economist online. Que explca o seguinte:

"EUROPEAN UNION leaders have rejected calls for a special €180 billion ($229 billion) rescue fund for ex-communist countries in east and central Europe. Leaders gathered in Brussels on Sunday March 1st for an emergency summit to discuss the economic crisis dismissed suggestions, led by Hungary, that a single plan was needed to save the region. Without massive help for ex-communist nations, Hungary’s prime minister, Ferenc Gyurcsany, had said, a “new Iron Curtain” risked splitting the continent anew."

Conclusão: nenhum dos jornais portugueses acertou nos factos.
Adenda: Na página 19 do Jornal de Negócios de hoje há um artigo com o título "Regras de adesão ao euro mantêm rigidez apesar da crise global". Depois há um subtítulo a meio da página: "Regras de acesso à UE desajustadas do ciclo económico". Eles querem dizer "regras de acesso ao euro", porque é disso que trata o artigo... Arre, que cada cavadela cada minhoca.