terça-feira, setembro 30, 2008

Afinal a pirataria mais grave não é no e-mule

O regresso da pirataria é sempre simpático, traz um ar romântico aos mares tropicais. A história aventureira desta semana não fica atrás de qualquer relato do capitão Jack Sparrow: cargueiro carregado de tanques ucranianos destinados ao Quénia é tomado por navio pirata, que exige resgate de 20 milhões de dólares. Entretanto, vasos de guerra que por ali passavam (um americano, um russo e um por identificar) cercaram o navio para evitar que a carga caia em mãos erradas. No meio da coisa descobre-se que, aparentemente, os tanquezitos não se destinavam ao Quénia, mas parece que iriam fazer viagem em diante até ao Sudão, zona pacata e desprovida de tensão militar - seguramente serviriam para acções de policiamento e nada mais.

Enredo manhoso de série B, à espera de Chuck Norris ou Steven Segall? Nada disso, apenas o produto de muitos e bons anos de alimentação de conflitos em África por comerciantes de armas e mercenários, salpicado do desinteresse pela situação dramática na Somália.


Gilbert & Sullivan - "I am the Pirate King" from The Pirates of Penzance

Nunca é tarde

Na sequência da Lei da Memória Histórica aprovada o ano passado, o governo espanhol prepara-se para alterar a legislação sobre nacionalidade para permitir aos descendentes dos exilados da Guerra Civil aceder à cidadania espanhola. Uma outra iniciativa preve ainda a possibilidade, hoje quase meramente simbólica, dos combatentes nas Brigadas Internacionais poderem também aceder à nacionalidade do país pela liberdade do qual estiveram dispostos a dar as suas vidas.


E por cá, o condomínio privado na António Maria Cardoso continua lindo...

A modos que me lembrei desta melodia recentemente


Milú - A minha casinha

segunda-feira, setembro 29, 2008

Machado de Assis (1839-1908)


CÍRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Ouch....

How to be elected president - Kennedy 1960

O clássico.

How to be elected president - Carter 1976

Nem só de política externa e de economia se alimenta um debate...

How to be elected president - Clinton 1992


É, de facto, a economia....

Eleições em alemão (do Sul) - II


Um pouco mais a sul, o resultado eleitoral foi um pouco mais deprimente. Para quem pensava que a extrema-direita austríaca tinha chegado ao seu pico em 1999, com os 26% de Haider, os resultados das eleições de ontem são um significativo balde de água fria.

Os social-democratas do SPÖ, com liderança refrescada com Werner Faymann e com um ensaio eurocéptico soft, conseguiram manter o primeiro lugar conquistado surpreendentente há um ano e meio. Contudo, com 29%, registam o pior resultado da sua história. Os conservadores do ÖVP, com 25,6%, conseguem também o seu pior resultado de sempre, ganham distância para os social-democratas e preparam-se para uma provável nova liderança.

Perante este cenário de castigo à grande coligação, as vencedoras da noite são as formações de extrema-direita: em primeiro lugar, o FPÖ, o "clássico" partido de extrema-direita, que sobe 7 pontos e chega aos 18%; logo de seguida, a BZÖ, a cisão organizada pelo antigo patrão da FPÖ, Jörg Haider, que chegou aos 11%, subindo também 7 pontos percentuais e roubando o quarto lugar aos Verdes, que se ficaram pelos 9%. Dividida, marcada por questiúnculas pessoais herdadas do tempo da cisão no rescaldo dos governos de coligação com a ÖVP de Schüssel, e caracterizada pelo discurso xenófobo e eurocéptico do costume, a extrema-direita austríaca chega aos 29% e ultrapassa a sua melhor marca, a de 1999, em que ainda unificada com FPÖ chegou aos 26%.

Mas há mais. Em Viena, a maior circunscrição eleitoral e maior centro urbano, a FPÖ foi a segunda força mais votada. E entre os jovens, a votação na extrema-direita foi percentualmente mais elevada do que no cômputo geral. Dois resultados que não auguram nada de bom. (Mais resultados, por região, aqui)

E o que se segue? O SPÖ anunciou que vai começar a preparar Governo. Ou se coliga outra vez com os conservadores, reeditando a coligação que foi sancionada nas urnas, esperando uma nova liderança do ÖVP menos revanchista, capaz de engolir a derrota de 2006, ou apenas lhe resta tentar um governo minoritário: com FPÖ já disse que não quer conversa (apesar de formar maioria aritmética), com os Verdes não há votos suficientes. Uma alternativa "à la 1999" seria a formação de um tripartido de direita, com conservadores e os dois partidos extremistas. O líder da FPÖ, Heinz-Christian Strache, não só acha a ideia interessante como até acha que tem potencial para ser o seu líder, invocando precisamente o precedente de 1999 em que foi Schüssel, o líder do terceiro partido mais votado, a chegar a chanceler...

Tudo somado e dividido, o mais provável será mais uma grande coligação. Contudo, se alguma coisa fica claro depois deste domingo é o efeito potencialmente nefasto destas soluções de centrão para as democracias. Lições a aprender a norte, na Alemanha, e por outros locais, à beira-mar plantados...

domingo, setembro 28, 2008

Eleições em alemão (do Sul) - I


Na Baviera, confirmando os cenários mais dantescos, a CSU regista uma queda histórica, perdendo 17% e a maioria absoluta, aterrando nos 43%. (O sr. Stoiber está seguramente a rir...) Conforme as sondagens o indicavam, os beneficiários são os Liberais, que regressam ao parlamento de Munique com 8,1 % (subindo 5,5%) e particularmente os eleitores livres que chegam aos 10% (crescendo 6%). O SPD não só não capitaliza, como ainda perde 1% globalmente. Contudo, os 4,7% da Linke vêm provavelmente em grande parte do eleitorado do SPD, pelo que os social-democratas podem ter compensado ao centro o que perderam à esquerda. E ainda é cedo para apurar os efeitos da nova liderança do SPD nos resultados.


Mais interessantes estão as coisas mais a Sul, mas já lá vamos...

Paul Newman (1925-2008)

sexta-feira, setembro 26, 2008

Por falar em temíveis lobbys judaicos...

... sinistros sindicatos de voto e esforços de mobilização da base eleitoral num dos mais badalados e polémicos battleground states:



The Great Schlep from The Great Schlep on Vimeo.

O "lóbi judaico de direita nos EUA"

Se tudo dependesse deste temível lóbi teríamos tido Democratas no poder desde 1945...

quinta-feira, setembro 25, 2008

Gravíssimo

Infelizmente são Liberais...

... mas neste caso têm razão...



E juntem-se à campanha, por favor.

Those were the days...



Não sei o que me choca mais neste artigo aterrador: será o vocabulário marxista-leninista completamente anacrónico (e em particular a insistência risível no determinismo do materialismo histórico)? Será a incapacidade de aceitar a derrota material e intelectual do 'socialismo científico' como modelo alternativo de sociedade? Será o ódio figadal (e, aliás, clássico) à "ideologia social-democrata", elencada como uma das razões para o colapso da União Soviética, juntamente com "o abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo ... a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, [e] a traição de altos responsáveis do partido e do Estado"? Será a referência elogiosa a países como Cuba, China, Vietname, Laos e RDP da Coreia, pelo "seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista"? Ou será o facto de estas teses terem sido aprovadas por unanimidade no Comité Central do PC?

Não, a mim o que me choca mais é que o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética que teve lugar em 1956 demonstrou uma maior capacidade de auto-crítica em relação aos crimes do estalinismo do que o XVIII Congresso do Partido Comunista Português, que terá lugar este ano.

O PC já foi um partido que, para além do seu papel na política nacional, agregava forças intelectualmente interessantes e albergava elementos progressistas em várias áreas, como o da emancipação das mulheres, por exemplo.

Neste momento não passa de um partido político amargurado, vazio de conteúdo, desfazado da realidade, intelectualmente estéril e preso na nostalgia de um passado dourado que nunca existiu.
Um bocadinho como o movimento monárquico.

À consideração do Spin Doctor que há em nós


John McCain decidiu suspender a campanha, pedindo igualmente o adiamento do primeiro debate presidencial previsto para amanhã, até que o Congresso delibere sobre o plano da administração Bush para fazer face à crise económica. Como é que eleitor americano reagirá?

Hipótese A: McCain é um verdadeiro patriota que põe o país à frente da política, reconhecendo que o sofrimento do povo americano é mais importante do que a sua campanha eleitoral. Demonstra que está apostado em retirar a política de Washington [seja lá isso o que fôr, mas tem sido o seu mantra na últimas semanas] o que só lhe fica bem, porque os politicos são todos iguais, menos ele. Estou comovido, vou entregar-lhe o meu voto e pedir um beijinho à Sarah Palin.

Hipótese B: Are you kidding me? É só uma jogada, quem é que ele pensa que engana?

Hipótese C: Como ele próprio reconheceu que não pesca nada de economia, deve ser para ter explicações durante o fim-de-semana, antes de se atrapalhar em frente ao Obama. Está apresentado.

A acompanhar o dsenvolvimento nas próximas sondagens.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Até Jason Bourne está com medo

... e não é para menos.


Série "Tom, the token gay friend" III

"Daqui a pouco ele ainda vai querer que a gente vá com ele à gay parade..."


Série "Tom, the token gay friend" II

O quê?! Gay e ainda por cima sério?!

Série "Tom, the token gay friend" I

Lá ser gay está bem. Mas agora militâncias é que não.

A selecção de documentários de Sarah Palin

Ora Zuma na caneca!



Para que não restem dúvidas, Jacob Zuma veio para ficar. Conquistado o ANC e ilibado das acusações que lhe eram imputadas, a saída de cena de Mbeki coroa o percurso imparável do provável futuro presidente da África do Sul. Longe de uma saída graciosa, pacífica e institucionalmente impecável como a de Mandela, a segunda mudança de poder no pós-apartheid traz consigo um potencial de instabilidade que pode ser preocupante. Contudo, poderá também servir para clarificar as águas no amplo bloco político que o ANC representa e permitir o aparecimento de uma formação política alterantiva, com possibilidade de disputar eleições - o que poderá ser uma refrescante novidade para a jovem democracia sul-africana. Veremos.


(Já agora, desculpem o trocadilho, mas há muito que aguardava uma oportunidade para homenagear a Tonicha de forma totalmente despropositada.)

My president


A partir do 31 da Armada descobri isto: Bartlet aconselha Obama. Deixo o meu bocadinho favorito.


OBAMA The problem is we can’t appear angry. Bush called us the angry left. Did you see anyone in Denver who was angry?

BARTLET Well ... let me think. ...We went to war against the wrong country, Osama bin Laden just celebrated his seventh anniversary of not being caught either dead or alive, my family’s less safe than it was eight years ago, we’ve lost trillions of dollars, millions of jobs, thousands of lives and we lost an entire city due to bad weather. So, you know ... I’m a little angry.

OBAMA What would you do?
BARTLET GET ANGRIER! Call them liars, because that’s what they are. Sarah Palin didn’t say “thanks but no thanks” to the Bridge to Nowhere. She just said “Thanks.” You were raised by a single mother on food stamps — where does a guy with eight houses who was legacied into Annapolis get off calling you an elitist? And by the way, if you do nothing else, take that word back. Elite is a good word, it means well above average. I’d ask them what their problem is with excellence. While you’re at it, I want the word “patriot” back. McCain can say that the transcendent issue of our time is the spread of Islamic fanaticism or he can choose a running mate who doesn’t know the Bush doctrine from the Monroe Doctrine, but he can’t do both at the same time and call it patriotic. They have to lie — the truth isn’t their friend right now. Get angry. Mock them mercilessly; they’ve earned it. McCain decried agents of intolerance, then chose a running mate who had to ask if she was allowed to ban books from a public library. It’s not bad enough she thinks the planet Earth was created in six days 6,000 years ago complete with a man, a woman and a talking snake, she wants schools to teach the rest of our kids to deny geology, anthropology, archaeology and common sense too? It’s not bad enough she’s forcing her own daughter into a loveless marriage to a teenage hood, she wants the rest of us to guide our daughters in that direction too? It’s not enough that a woman shouldn’t have the right to choose, it should be the law of the land that she has to carry and deliver her rapist’s baby too? I don’t know whether or not Governor Palin has the tenacity of a pit bull, but I know for sure she’s got the qualifications of one. And you’re worried about seeming angry? You could eat their lunch, make them cry and tell their mamas about it and God himself would call it restrained. There are times when you are simply required to be impolite. There are times when condescension is called for!

segunda-feira, setembro 22, 2008

Não há pachorra.

O David começa a investir contra o Público e eu penso para comigo "bora lá dar uma oportunidade ao DN". Começa-se a ler a coisa, abre-se na página do JCN às segundas-feiras e parece que estamos a ler o boletim paroquial de S. Lucrécia de Algeriz. Esta semana parece que "Deve ser horrível ser Deus".
Deve é ser horrível ser o revisor do DN...
Alguém quer fundar um jornal?

sexta-feira, setembro 19, 2008

E eu a pensar que nesta legislatura não havia mais...

Se eu percebi bem a história, parece que vai um grande sururu na bancada parlamentar socialista a propósito dos projectos de lei possibilitando o casamento entre pessoas do mesmo sexo a ser apresentados pelos "Verdes" e pelo BE no dia 10 de Outubro.

As opiniões dividem-se. Uns querem que se vote contra os dois projectos e defendem a imposição de disciplina de voto nesse sentido ao grupo parlamentar. Outros querem liberdade de voto.

Parece-me que este debate no PS está a assumir contornos fracturantes.

Novidades do Sul da Alemanha

Da Alemanha, mais precisamente da Baviera, notícias menos simpáticas para os conservadores: a CSU pode estar à beira de ficar abaixo dos 50% (pela primeira vez desde 1970) e ainda não está excluída a hipótese de não conseguir renovar a maioria absoluta e ter de se coligar com outro partido (pela primeira vez desde 1962). Segundo a mesma sondagem, apenas 38% dos eleitores preferiria um governo maioritário da CSU.



E o SPD? Ainda pior. O SPD anda pelos 21%. O mais deprimente nem é o facto de isso representar uma subida de dois pontos em relação às ultimas eleições, mas sim o facto de continuar a perder votos para a esquerda (neste caso os Verdes, mais do que a Linke) e para o centro, onde a sensação da última sondagem é representada pela possibilidade de entrada no parlamento bávaro da coligação de grupos de cidadãos eleitores (Freie Wähler) que apresentam entre 7 e 8% nas sondagens. Para já, a estratégia de viragem ao centro não parece colher frutos...

quinta-feira, setembro 18, 2008

O jornal diário português de referência V

Eu vou parar de ler o Público de hoje, porque senão não paro de escrever posts.
Página 16. Título do artigo: "Tzipi Livni reclama vitória na eleição do Kadima, o partido no poder em Israel." Primeiro parágrafo:

"Sondagens feitas pelas estações de televisão israelitas davam ontem à noite a vitória nas eleições do Kadima à ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni, com resultados entre os 43 e os 47 por cento, contra 37-38 para o seu rival, o ministro da defesa, Shaul Mofaz."

Shaul Mofaz é Ministro dos Transportes desde Maio de 2006. Ehud Barak é Ministro da Defesa desde Junho de 2007. Sem palavras.


[O título deste mesmo artigo na versão online do Público de hoje é "Projecções dão vitória a Livni nas eleições do Kadima", portanto diferente do título da versão impressa. Não percebo porquê. Não excluo portanto que algum do conteúdo do artigo também seja diferente na versão impressa. Com muita sorte, só a versão online é que tem o erro.]

O jornal diário português de referência IV

Depois de isto, isto e isto, o Público volta a fazer das suas. Edição de hoje. Página 13 (segunda página da secção "Mundo", o verdadeiro tendão de Aquiles deste jornal). Título do artigo: "Novo ataque americano faz cinco mortos no Paquistão".

O artigo explica:

"No Afeganistão, a violência continua em crescendo. Ontem morreram quatro soldados estrangeiros, mas foram as mortes de civis provocadas nos últimos meses por ataques dos EUA e da NATO que motivaram uma visita do secretário de Estado americano. "Amplio as minhas condolências sinceras e desculpas pessoais sobre a recente perda de vidas inocentes como resultado de ataques da coligação", disse Robert Gates depois de um encontro com o Presidente afegão, Hamid Karzai."

Robert Gates é Secretário da Defesa. Condi Rice é Secretária de Estado. Um detalhe, dirão. Um lapso, talvez. Mas eles são tantos e tão frequentes...

Pontos nos is



Se a intenção é criticar o Partido Socialista por uma posição errada e contrária ao seu próprio ideário, nada tenho a apontar. Agora penso que o Daniel sabe que está ser injusto ao dirigir a crítica a quem dentro do Partido Socialista a não merece, a quem dentro do Partido Socialista e junto da sociedade civil tem vindo a acompanhar a questão e a bater-se por ela, com convicção e não apenas como um flirt ideológico para mostrar modernidade.


O cartaz e a iniciativa que ilustram o post são, aliás, exemplos de eventos de discussão da temática do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com académicos e activistas nacionais e estrangeiros e com representantes do movimento LGBT, precisamente com o intuito de alterar a lei e eliminar a discriminação. Ilustram ainda uma linha de orientação programática já por duas vezes sufragada pelo Congresso Nacional da JS e pelos seus dirigentes nacionais, quase sempre contra a vontade do próprio partido em manter o assunto adormecido até momento a definir.
Críticas ao PS? Força, todas merecidas. Agora ignorar e desconsiderar o que se tem feito de positivo para assegurar igualdade de direitos a todo é que me parece deselegante e manipulador.

Livni


Com 47 a 49 % dos votos, Tzipi Livni é a nova líder do Kadima. Sem manchas de corrupção que a enfraqueçam politicamente e determinada a chegar a um acordo que viabilize a co-existência de dois Estados, poderá ser que represente a mudança necessária para relançar o processo de paz.
Admito algum wishful thinking da minha parte, mas mesmo para isso é que haja algo de novo e isso, pelo menos, Livni consegue representar.

Dias melhores virão

Joan Baez - We shall overcome

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ao cuidado de João Miranda

Para quem acha que mais regulação é o novo socialismo, eis o que diz Joseph Stiglitz (perigoso redactor de planos quinquenais) sobre como melhorar a regulação e evitar o caminho que levou à crise. (toda a história aqui)

1. We need first to correct incentives for executives, reducing the scope for conflicts of interest and improving shareholder information about dilution in share value as a result of stock options. We should mitigate the incentives for excessive risk-taking and the short-term focus that has so long prevailed, for instance, by requiring bonuses to be paid on the basis of, say, five-year returns, rather than annual returns.

2. Secondly, we need to create a financial product safety commission, to make sure that products bought and sold by banks, pension funds, etc. are safe for "human consumption." Consenting adults should be given great freedom to do whatever they want, but that does not mean they should gamble with other people's money. Some may worry that this may stifle innovation. But that may be a good thing considering the kind of innovation we had -- attempting to subvert accounting and regulations. What we need is more innovation addressing the needs of ordinary Americans, so they can stay in their homes when economic conditions change.

3. We need to create a financial systems stability commission to take an overview of the entire financial system, recognizing the interrelations among the various parts, and to prevent the excessive systemic leveraging that we have just experienced.

4. We need to impose other regulations to improve the safety and soundness of our financial system, such as "speed bumps" to limit borrowing. Historically, rapid expansion of lending has been responsible for a large fraction of crises and this crisis is no exception.
5. We need better consumer protection laws, including laws that prevent predatory lending.

6. We need better competition laws. The financial institutions have been able to prey on consumers through credit cards partly because of the absence of competition. But even more importantly, we should not be in situations where a firm is "too big to fail." If it is that big, it should be broken up.


Claramente estamos a um passinho do kolkhoze...

Le meilleur des mondes possibles



... não, caro Henrique-Pangloss, decididamente não vivemos no melhor dos mundos possíveis. E o mundo acabou para muita gente em 1929, sim senhor. Em '29, em '33, em '39 e em muitos anos entre 1929 e 1945. E a implosão do capitalismo ajudou. E não foi pouco. Portanto, vamos a tentar construir um capitalismo sustentável? Vamos? Então vá.

Nunca pensei dizer isto...

...mas o Público tem um excelente artigo sobre Israel.

terça-feira, setembro 16, 2008

Silva Carvalho e os 175 anos do STJ

Aproveitando os 175 anos da instalação do Supremo Tribunal de Justiça, aproveito para deixar uma notazinha sobre o seu primeiro presidente, provavelmente o mais esquecido dos principais estadistas da fase inicial do liberalismo português, José da Silva Carvalho.
Da aura revolucionária de fundador do Sinédrio e membro da Junta Provisória de Supremo Governo do Reino depois da Revolução de 1820, a ministro da Fazenda e Justiça por diversas vezes (Regência de 1821, D. João VI, Regência de Isabel Maria, Governos do Devorismo), passando pela participação nas principais operações militares das guerras liberais (incluindo a expedição naval ao Algarve que, partindo do Porto, inverteu o curso da guerra civil), ao seu papel como Grão-Mestre do GOL, por largos anos (e depois da cisão, do Grande Oriente do Rito Escocês), a pouca exposição dada à figura de Silva Carvalho é, acima de tudo, difícil de explicar face ao seu influente papel no período crítico da consolidação do liberalismo entre nós.

Longe de estar a defender que o seu legado seja consensual ou que mereça particular homenagem pública associada ao dia de hoje, apenas realço a necessidade de a historiografia portuguesa continuar a apostar ainda mais na tarefa de construção de estudos biográficos dos actores decisivos da história contemporânea.

Quizz

4 pistas:

Um avolumar de tensão no governo.
Um chefe de executivo contestado.
Uma demissão que fragiliza a coesão governativa.
Não é a Ucrânia.


Resposta aqui.

Só não vê quem não quer

Isilda Pegado veio-nos recordar hoje no Público aquilo que parece escapar às evidências dos Portugueses: o claro nexo causal entre assaltos a bombas de gasolina e o número de divórcios. Bem-hajam estes faróis da sociedade. Fica um excerto:

A destruição sistemática da família e do seu papel constitui mais um factor para a insegurança e criminalidade que vivenciamos.

[...]

Ora, lei como a do divórcio (recentemente vetada) são o sinal político dado à sociedade da precariedade das relações da família (casamento) e do desprezo pelo seu papel de interesse público.

[...]

Persisitir numa política que elege a irresponsabilidade, a precariedade e a insegurança na família é negar a realidade, esquecer o cidadão comum e fomentar franjas de delinquência.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Onde andas?


Consta que o da imagem anda mais enérgico que o original...

Fingers crossed

Não estou lá muito optimista, mas...
Benefício da dúvida, pelo menos.

Um cheirinho de Weimar


A esquecida turbulência eleitoral no Estado do Hesse promete regressar em Outubro e dar uma primeira dor de cabeça à provável liderança bicéfala do SPD (Steinmeyer e Müntefering). Quando se mostra desejoso de voltar ao centro, eis que o SPD se depara com a possibilidade de uma coligação com os Verdes, tolerada pelo Partido da Esquerda (Die Linke). Ainda pode tudo naufragar, perante a necessidade de conferências partidárias de homologação das decisões e negociações quer da coligação, quer dos termos em que o executivo minoritário seria "tolerado" pela Linke, mas que a liderança nacional não vai ter dias felizes tão cedo disso podemos ficar certos...



O endereço postal de um indivíduo por vezes explica-se assim

José Saramago iniciou um blog associado ao site da sua Fundação (que aproveito para juntar aos links). Para além de uma notícia no site da Agência Lusa, quantos órgãos de comunicação social o noticiaram até agora? Que eu tenha dado conta, só o El País...

Ó Henrique! Estás-te a meter num 31...

Já sei que gostas do McCain, mas chega de defender a Palin. Ela acredita que o mundo foi feito em seis dias. E isso é ridículo. Até o Vacas sabe que essa historieta é uma metáfora. Vá, juizínho e menos entusiasmo forçado, senão, um dia, quando o McCain tiver caído da tripeça e a Palin decidir bombardear um país "cause they are, like, such atheists and communists and stuff", vais-te arrepender. Conselho de amigo.

O que me vai faltar mais depois de dia 4 de Novembro...

...são os momentos de comédia associados às eleições americanas. Mas não faz mal. Talvez aconteça como nos últimos oito anos, em que depois das noites eleitorais eu continuei com a impressão de que estava perante uma espécie de piada de mau gosto sem fim. Literalmente. Sem punch line.

(As minhas desculpas pela publicidade a produtos de beleza que precede o vídeo...)

domingo, setembro 14, 2008

Sarah Palin: "We will not repeat a Cold War"

In fact, this time we're skipping a Cold War altogether and moving directly to the hot version.
Tirem-lhe o microfone da mão, por favor, senão antes de acabar a campanha eleitoral americana já os russos chegaram aos Pirinéus.

sexta-feira, setembro 12, 2008

O melhor jornalismo do mundo III

Mais uma vez, o NYT a dar cartas. Impressionante este artigo sobre Jenin. Impressionante também a capacidade das pessoas em Israel/Palestina acreditarem na paz, nem que seja à escala local, apesar de Ocupação, terrorismo e ódios viscerais.

A passagem mais interessante parece ser esta, de um líder de uma estrutura do poder local israelita:

“There are two kinds of peace,” Mr. Atar said one recent afternoon in his office with Mr. Salem at his side. “There is the one on a piece of paper that doesn’t stand up to any test and there is the one built from the bottom up. That is the one we are hoping to build. It is increasingly clear that if Israeli Jews cannot figure out how to have good relations with Israeli Arabs, there won’t be peace beyond the borders, either. We have a choice in Israel of making peace or living in a bunker.”

O que é mais triste é que os pontos de contacto entre israelitas e palestinianos, isto é, os alicerces dessa paz 'bottom up' começaram a escassear depois da Primeira Intifada, para desaparecerem quase completamente depois da Segunda. Ironicamente, entre 1967 e o fim dos anos 80, a Palestina ocupada assistiu a um boom económico, oleado pelo consumo israelita e pelos salários ganhos em Israel. A Palestina tinha uma classe média próspera, um nível de educação formal invejável na região, mulheres emancipadas, um debate político e uma imprensa pujantes etc. Também ironicamente, a Ocupação e a tutela israelita impediram que se instalasse no poder uma daquelas ditaduras autoritárias que dominam na região e que eternizam a mediocridade no Mundo Árabe.

Mas o que a Primeira Intifada demonstrou é que não há prosperidade que compense a falta de liberdade, e a incapacidade de decidir o próprio destino. Era uma prosperidade constantemente relativizada pelos rituais administrativos e repressivos da Ocupação. E o rebentar da Primeira Intifada é uma lição muito útil: ter um estômago cheio, ter um salário e saber ler e escrever não chega. É preciso ser livre.

O que é triste é que olhando à volta na região, para sítios onde soldados israelitas nunca puseram os pés, a liberdade não é propriamente um dado adquirido. Quando Arafat voltou à Palestina no contexto do processo de Oslo, instaurou uma ditadurazinha paternalista e corrupta, e mostrou que o relaxamento da Ocupação não restaurava automática e miraculosamente um utópico passado de liberdade e felicidade na Palestina.

Mas isso na verdade não diz respeito a Israel. Cabe aos palestinianos escolherem o seu próprio destino, mesmo se isso incluir enfiar o mesmo barrete que os vizinhos egípcios ou jordanos. E talvez um dia, quando os israelitas retirarem os colonatos e houver fronteiras claras entre estes dois povos que têm que ser separados de uma vez por todas, talvez um dia, quando as feridas tiverem começado a sarar, os israelitas possam a voltar a ir fazer as compras de fim-de-semana à Palestina (parece que o houmous de Tulkarm é particularmente delicioso) e os palestinianos possam vir ganhar a vida em Israel.

Anseio por ler um artigo do NYT sobre este novo mundo.

quarta-feira, setembro 10, 2008

segunda-feira, setembro 08, 2008

Restabelecendo a verdade

Aparentemente esta foto é falsa. Mea culpa e muitas desculpas. Muito obrigado ao nosso leitor Miguel Lopes por ter chamado a atenção para este artigo, e por ter estragado a brincadeira a toda a gente. Isto é claramente um daqueles exemplos em que não se devia deixar a "verdade" interferir com a folgança.

The good news: agora já podemos questionar o patriotismo da Sarah Palin!

Reunião informal de MNEs europeus em Avignon (5/6 Setembro)

Digam lá que o projecto europeu não produz imagens bonitas.

O melhor jornalismo do mundo II

Mais excelência no jornalismo: impressionante este artigo do New York Times sobre um incidente em que aparentemente dezenas de civis foram mortos pela força aérea americana. Independentemente do debate sobre a exactidão do relatório das Nações Unidas e dos testemunhos dos aldeãos afegãos, continua a ser absolutamente incompreensível o uso de meios aéreos em aglomerados habitacionais por parte das forças americanas e da NATO (das missões Enduring Freedom e ISAF) no Afeganistão.

Recentemente, após uma série de incidentes parecidos, oficiais americanos e da NATO reduziram drasticamente o uso de meios aéreos e o resultado foi uma queda das vítimas civis. O problema é que com a rotação de oficiais do teatro de guerra afegão, aparentemente desaparece a "memória de doutrina" que devia ser acumulada com o passar do tempo. Mesmo se deixássemos de lado o respeito pelo Direito Internacional e considerações éticas básicas, a aplicação (de utilidade sempre limitada) de uma pura lógica militar devia chegar para se pôr fim a este tipo de acções: bem sei que é do mais banal senso comum dizer isto, mas num caso clássico de contra-insurgência em que, mais decisivo do que destruir militarmente o inimigo, importa isolá-lo nas comunidades que o sustentam, cada erro destes representa uma vitória estrondosa para os Taliban.

É verdade que o novo manual americano de contra-insurgência elaborado pelo General Petraeus (que se baseia nas lições do Iraque) já exprime esta preocupação de mudar o ênfase das acções militares da destruição material do inimigo para a criação de espaços seguros para a população civil onde reconstrução económica e estabilidade política permitam a redução da presença militar estrangeira.

O que eu não percebo é o tempo que leva esta gente a aplicar lições - que não são novas.

Parece que mesmo depois da Argélia, da Malásia, da Palestina, do Iraque e de outros exemplos de confrontos entre forças convencionais por um lado e forças irregulares mergulhadas na população civil por outro, de cada vez se tem que reaprender as mesmas lições...


Adenda

Últimos desenvolvimentos.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O melhor jornal do mundo

Um episódio da vida no Iraque. A importância de um aperto de mão em público. Um retrato de relações humanas a reflectir a complexidade do país. A importância da informalidade, dos rituais (masculinos) e das armas. Enfim, uma reportagem que, mais do que descrever um momento na vida política iraquiana, é um verdadeiro exercício de jornalismo antropológico.

New York Times.

Sarah Palin: Pelo menos não podem acusá-la de falta de patriotismo


terça-feira, setembro 02, 2008

Acho que vale a pena ler na íntegra...

... as conclusões do Conselho Europeu extraordinário que teve lugar ontem em Bruxelas (sobre a guerra entre a Geórgia e a Rússia). Em três palavras: tough on Russia.

Boas notícias

A confirmar-se esta notícia, é uma decisão extraordinária. Se se confirmar, demonstra mais uma vez que a Síria é liderada por uma regime com muito poucos escrúpulos - e extremamente pragmático. Parece confirmar que o apoio ao Hamas é pura e simplesmente um meio para exercer pressão sobre Israel.
E que tem sido um erro dos EUA tentar isolar a Síria nos últimos oito anos (nomeadamente pressionando Israel para não reencetar negociações com Damasco).
O regime da Bashar Assad não quer justiça para os palestinianos, nem promover o fanatismo islâmico, nem apoiar a criação de uma hegemonia iraniana: tudo isto são apenas meios para um fim - a sobrevivência de um regime podre, autoritário e violento.
E nada daria um novo fôlego a este regime como a recuperação dos Golã. Pois dêem-lhes o raio dos Golã. Mesmo se isso aparentemente legitimar o regime.
É que sem a guerra com Israel, sem o fantasma da ameaça sionista a justificar a permanente histeria colectiva promovida pelas autoridades, sem a militarização da sociedade e sem o isolamento do regime na cena internacional, os sírios certamente sacudirão aquele regime. Com muita sorte, a recuperação dos Golã será a última - e a mais pírrica - vitória do regime dos Assad.