quinta-feira, maio 31, 2007

By the way...

Antes que me esqueça. Acusaram aqui este blog de ser culpado de "lealdade orgânica" ao governo, porque não nos pronunciámos contra a boçalidade gritante do Ministro Mário Lino e o rasgo de autoritarismo irresponsável e excesso de zelo daquela cidadã que suspendeu não sei quem por dizer que a mãe do PM não sei quê. Aqui vai:

Acho mal as afirmações do Ministro Mário Lino depois do almoço. Por acaso vi-as e achei genuinamente bizarras. Especialmente a analogia de mau gosto entre a OTA e o corpo humano, que achei digna de escola primária. E acho que ninguém devia ser suspenso e/ou despedido por pôr em causa as opções de carreira da mãe de seja quem for, incluíndo do PM - mesmo se este pertencer ao Partido Socialista.

Finalmente, gostava que ficasse aqui registado que às vezes até discordo do PS e tal. Muitas vezes até nem me levanto quando cantamos a Internacional lá em casa e uma vez a minha mãe apanhou-me a conversar com um amigo que não era filiado no PS. E mais (agora é que vou perder a cabeça): aquela história do curso do PM cheira-me a marosca. Pronto.

Podemos voltar ao que interessa?

Acho que falo em nome de todos os membros deste blog ao dizer que só dedicamos a nossa "lealdade orgânica" à Razão, à República e àquilo que se chama no estrangeiro "the liberal-progressive agenda". Lá está o chato do liberalismo.

Agora eu, agora eu...

O post em questão parece andar ali à volta de muita coisa, para chegar não se percebe bem a quê. O que irrita verdadeiramente Filipe Melo Sousa?
O Estado promove o progresso e isso implica «a imposição aos demais de uma elite dirigente “iluminada”, que ensine à população leiga aquilo que se deve moralmente entender por progresso»? Mas então o que é a legitimidade democrática para governar decorrente do sufrágio de um programa de governo em eleições democráticas?
«O próprio conceito de progresso é algo com significado diferente para diferentes pessoas». Obrigadinho, não estava sensibilizado para o facto.
«Quem se considere liberal não vai de certeza consentir num estado que dê lições de moral». Concordo. Aliás, a candura da afirmação não podia suscitar-me outra opinião, e a Boina é um blog laico. Mas promover a não-discriminação e a liberdade de professar uma opção de vida, é moralismo?
O cartaz é da JS, não do Estado, e invocar a relação de sucessivos financiamentos que vêm do Estado para o PS e daí para a JS parece-me tão rebuscado como pedir de volta o dinheiro dos impostos com os quais o Estado subsidia a construção de pavilhões desportivos onde se praticam desportos de que não gosto.
Tornou-se moda rebaixar qualquer coisa qualificando-a de "politicamente correcto". Ou seja, tornou-se politicamente correcto atacar o politicamente correcto. E um pouco de argumentação, não?
Há quem aos 15 anos se considere anarquista. Não que se tenha presente qualquer noção de propriedade ou de poder do Estado que urja eliminar, mas porque aos 15 anos sente-se a necessidade de afirmar a nossa individualidade contra qualquer imposição externa vinda de qualquer poder, institucional ou familiar, e a chamarmos a isso qualquer coisa, chamamos anarquia. Depois crescemos, apanhamos umas patacoadas do ar e somos liberais. Ou seja, basicamente, "eu sou liberal porque gosto da liberdade e acho que o Estado não me deve dizer o que fazer, nem, já agora, insultar-me ao dar cabimento à expressão de modos de vida com os quais não me identifico nem quero ter nada a ver, eles que paguem para isso, e também se devia acabar com essa coisa de eleições que custa balúrdios e não leva a lado nenhum".

Fracturantes são vocês, liberal sou eu...

Este 'liberal' e este não gostam de lições de liberalismo. Eu só me pergunto isto: os nossos 'liberais' seguem os debates entre liberais fora de Portugal? Observam atentamente o progresso, sim, o progresso, ético, social e legislativo a que se tem assistido em países com tradições liberais infinitamente mais enraizadas do que em Portugal, como o Reino Unido? Ou acham que lá porque usam à exaustão a etiqueta vazia do "totalitarismo do politicamente correcto" para insultar aqueles que não partilham da sua fobia do Estado e da legislação, se podem agora arvorar em campeões do 'individuo'... É que os liberais que leio (no Economist, por exemplo) e oiço (no Parlameno Europeu) já nem tratam temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, como "fracturantes". Entre liberais esse debate acabou.

It's all about perspective. Eu acho que a descriminação na legislação é que é fracturante. Enfim... Sabem quem é que inventou o 'politicamente correcto'? Foram os americanos, esse perigosos totalitaristas. Liberais...

Aditamento: Esqueci-me de dizer uma coisa. A minha 'identidade política' no Facebook é 'very liberal'. Se este cidadão, ou mesmo este, se inscrevessem no Facebook (deviam, que aquilo é giro, mesmo melhor do que ter amigos verdadeiros), eu gostava de ver em que categoria se inseriam. Tinha que se inventar uma nova, tipo: "thinks-the-State-sucks-and-believes-it-should-get-out-of-people's-lives-except-when-people's-
-lives-include-decisions-on-their-reproductive-system-and-on-who-they-should-get-married-to"

O liberalismo soft e a propaganda reaccionária

Partindo deste post de Filipe Melo Sousa, indicado via Insurgente, desencadeou-se uma troca de impressões em posts e comentários que podem acompanhar aqui, aqui, aqui, aqui e aqui e que me parece reveladora da grande desorientação ideológica de algum auto-proclamado liberalismo, muito em voga nalgumas áreas da blogosfera.

A dada altura escrevi num comentário que "o cartaz em causa promove o respeito pela diversidade, a não discriminação e o combate à homofobia, valores acolhidos pela sociedade democrática como fundamentais - seja na Constituição, na Declaração Universal dos Direitos do Homem ou na Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Um cartaz de um partido que promovesse uma mensagem racista ou homofóbica, para além de violar a lei penal, negaria os valores de inclusão e de respeito pela igualdade que caracterizam a democracia. Eis a relevância dos quadros axiológicos das ordens jurídicas democráticas - permitem distinguir o lícito do ilícito."



Volto a tentar colocar a tónica no que está em causa: campanhas de combate à discriminação e protecção de direitos fundamentais. Mas penso que é uma tentativa inglória - André Azevedo Alves e Filipe Melo Sousa recusam aceitar como premissas da discussão elementos que eu considero pressupostos da sociedade democrática e do consenso axiológico que a estrutura: existem valores fundamentais, cuja protecção e promoção cumpre ao Estado assegurar. Que tais ideias causem arrepios a alguns cidadãos e cidadãs, é uma questão de convicções. Convicções essas, aliás, que República respeita (daí que aludir a thought-crimes seja despropositado e falacioso) e defende através dos tais mecanismos totalitários kim-il-sunguistas que vos fazem confusão.

Contudo, diria ainda que aquilo que é descrito como um desolador pântano de politicamente correcto, assolando as sociedades ocidentais, não é na verdade contraditório com o ideário liberal. Releiam (ou leiam...) John Stuart Mill e provavelmente ficarão surpreendidos em encontrar a afirmação de que existem limites às liberdades individuais e que o poder pode ser exercido contra a vontade dos próprios quando estes invadem a esfera de terceiros. Mais surpreendidos ficarão ainda se forem ler o que este perigoso progressista escreveu sobre a emancipação das mulheres em On the Subjection of Women. Pois é, Stuart Mill é mesmo apontado como o fundador do feminismo científico, outra das muitas manifestações do totalitarismo do politicamente correcto na linha dos meus interlocutores.

Aqui ficam uns cheirinhos:

"That principle is, that the sole end for which mankind are warranted, individually or collectively in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection. That the only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilized community, against his will, is to prevent harm to others.
[...]

The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign."

— John Stuart Mill,
On Liberty

"The moral regeneration of mankind will only really commence, when the most fundamental of the social relations is placed under the rule of equal justice, and when human beings learn to cultivate their strongest sympathy with an equal in nights and in cultivation."

— John Stuart Mill,
On the Subjection of Women

quarta-feira, maio 30, 2007

Alto Minho em rede

Um abraço ao Germano e as boas vindas aos links da Bóina.

Lágrimas de crocodilo

Cá está a direita CDSiana a verter lágrimas de crocodilo pela ausência de liberalismo alheio. Coitados, estes inimigos figadais da IVG, ferozes opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, cépticos do 25 de Abril e adeptos de todo o tipo de 'valores cristãos' conservadores querem convencer-nos de que são liberais. São tão liberais como eu sou Prémio Nobel da Paz.

Não há nada pior do que o liberalismo Thatcheriano, amputado que é dos elementos emancipatórios do liberalismo - selvagem economicamente, reaccionário nos valores. Para isso prefiro os miguelistas. Sempre é gente com piada.

Pequenos detalhes

Sobre este cartaz. Retirado do Small Brother, via Insurgente:
Com o devido respeito, Filipe Melo Sousa não percebeu quase nada do que está em causa.
Em primeiro lugar, a luta contra a discriminação não visa obrigar ninguém a relacionar-se com quem não quer. Visa sim impedir o tratamento diferenciado de cidadãos e cidadãs portadores dos mesmos direitos e dotados da mesma igualdade perante a lei.
Em segundo lugar, o cenário não é catastrófico aos olhos de Filipe Melo Sousa porque Filipe Melo Sousa não vive na pele a discriminação provocada pelo facto de se ter um orientação sexual específica e porque não se terá informado do que significa viver na sociedade portuguesa assumindo abertamente a sua sexualidade.
Em terceiro lugar, o cartaz em causa, apesar de financiado indirectamente por fundos públicos (o financiamento dos partidos é parcialmente público, decorrendo o financiamento da Juventude Socialista dos fundos que lhe são alocados pelo Partido Socialista), não se insere numa campanha de uma instituição pública, mas sim a defesa de um programa político (no caso, o da Juventude Socialista, sufragado democraticamente em Congresso realizado em Julho do ano passado). Contudo, isto não significa que as instituições públicas não tenham precisamente o dever de promover a não discriminação e assegurar o respeito por todos e todas. Ou será que Filipe Melo Sousa também discorda de inicativas como a campanha Todos Diferentes, Todos Iguais?
Em quarto lugar, o contrato social que nos rege, a Constituição da República, é o local onde vamos retirar os valores fundamentais da nossa comunidade política. Caso Filipe Melo Sousa o desconheça, desde 2004 que o artigo 13.º da dita Constituição assinala expressamente a proibição da discriminação em função da orientação sexual.
Em quinto lugar, a pobre da "população leiga" já terá experimentado outras imposições de concepções de progresso "iluminadas" como o sufrágio universal, a recusa do racismo e da xenofobia, a proibição da discriminação das mulheres, entre outras. Que me recorde, acolheu-as no seu código de valores e não se sentiu violentada.
Finalmente, já que são tantas as referências ao liberalismo como padrão de actuação, recomendo dois exemplos de leituras alternativas do conceito: o manifesto dos Liberal Democrats britânicos para a comunidade LGBT e parte do site do Aliança dos Democratas e Liberais para a Europa, relativa a esta matéria. Afinal, parece que liberalismo e promoção da não discriminação e dos direitos das pessoas LGBT não são incompatíveis.

De mal a pior

Muitas foram já vozes que criticaram o absurdo da fundamentação do acórdão do STJ que reduziu a pena de um condenado por abuso sexual de menores com fundamento na idade do menor, implicitamente afirmando a menor censurabilidade se o crime for praticado contra um menor de 13 anos. Aliás, pedopsiquiatras, pedopsicólogos e sexólogos (veja-se, a título de exemplo, Júlio Machado Vaz, no Murcon) já vieram afirmar o total disparate científico da asserção do acórdão, confirmando o que já se suspeitava - a decisão partiu das concepções originais dos ilustres conselheiros e não de qualquer estudo ou facto fornecido por peritos.

Agora, vem o juiz relator defender a decisão e dizer mais ainda:


Ou seja, para além da falta de sustentação científica da decisão no que respeita ao impacto dos abusos sexuais em função da idade, juridicamente a decisão é também um pavor. A ter assentado em parte naquilo que resulta desta declaração, o acórdão do Supremo parte de uma reavaliação da matéria de facto, ultrapassando os limites da sua decisão que se tem de cingir ao conhecimento da matéria de direito. Ao sustentar a "colaboração" do menor, o Supremo afasta a conclusão de que este agira motivado por medo, matéria em relação à qual não se podia pronunciar.

Poderia restar (pouco) conforto na ideia que, apesar de motivados pelos disparates, preconceitos e ideias originais que têm na cabeça, os magistrados no STJ os compensassem com elevado mérito jurídico nas suas decisões. Parece que assim não é...

Small is beautiful

O novo líder da JP promete. Primeira medida que reivindica: revogar (sim, sim, revogar) a Constituição. E aprovar uma coisa mais pequena em seu lugar, com a qual todos se identifiquem. Sabem, é que ler 296 artigos é trabalhoso, porque são muitas as palavaras e não tem bonecos.

Actualização II

O resultado final, que dita o fim de 18 meses de Peretz na liderança do partido trabalhista (ficou com 22%), acabou por colocar Ehud Barak na dianteira para a segudna volta com 35%, ficando Ayalon na casa dos 33%. Dia 12 de Junho voltamos para mais.

Os verdadeiros opressores


O dia da greve deu em parte o resultado que se esperaria: guerra de números entre governo e sindicatos quanto às adesões. Também deixa algumas preocupações suscitadas pela CGTP que, a serem verdadeiras, representam uma necessidade de estar alerta quanto à garantia do direito fundamental à greve: intervenções da GNR para impedir piquetes, recolha do nome dos grevistas apesar da posição em contrário assumida ontem pela CNPD.

Contudo, no contexto do dia de greve, destaca-se uma análise em particular. Pelo meio de um chorrilho de disparates, João Miranda no Blasfémias descobriu que os sindicatos são os verdadeiros opressores da classe operária, não passando de um grupo de privilegiados corporativos a defender os seus apenas.
Segundo a sua argumentação, os funcionários públicos e das empresas públicas parecem ser os únicos que estão sindicalizados. De facto, ao criticar os sindicatos por todos os males do país, a argumentação que dispende assenta na sua identificação com os sindicatos da função pública.
Depois, parece que estes funcionários públicos malandros são receptores líquidos dos impostos, ao passo que os demais trabalhadores (construção civil, cafés e restaurantes e empregadas de limpeza) são os pagadores líquidos desses impostos. Aparentemente, não são os funcionários públicos aqueles cujo rendimento até já vem pré-preenchido na declaração electrónica de IRS e em relação aos quais a fuga ao fisco é mais difícil. E aparentemente os funcionários públicos também só servem para receber dinheiro dos contribuintes, sem mais. Eu tinha a ideia, absurda por certo, de que prestavam serviços à colectividade e em função disso eram remunerados (não de forma muito espectacular, até consta). Enfim...
A conclusão final é a de que, sendo os trabalhadores da construção civil, dos restaurante e cafés que menos fazem greve, apesar de serem os mais desfavorecidos, a greve geral não é convocada para os defender, antes serve a finalidade do sindicalismo que é a exploração destes trabalhadores. Este raciocínio quer convencer-nos que a culpa da não adesão à greve destes trabalhadores é dos sindicatos. Não decorre nem das condições mais precárias e da pressão patronal que estes trabalhadores enfrentam e que dificultam o exercício do direito à greve, nem resulta do facto de serem áreas em que muitas vezes não há adequada formalização dos contratos de trabalho.
Não contesto que os sindicatos não sejam organizações perfeitas, que a sua estratégia de defesa dos direitos dos trabalhadores nem sempre é a mais acertada e que não cedam à pressão dos grupos que defendem ou de organizações partidárias às quais possam estar mais ligados. Nem sequer concordo com a esmagadora maioria dos fundamentos para a convocação da greve de hoje e, sendo um dos malvados funcionários do Estado, não fiz greve. Partir daí para distorcer a natureza do movimento sindical e o seu papel incontornável na defesa dos trabalhadores, questionando subrepticiamente o recurso ao direito fundamental à greve, só mesmo na argumentação retorcida e simplista como a que se transcreveu.

Com afirmações com as que se seguem, o Prof. César das Neves que se ponha a pau porque já há quem, escrevendo no DN, esteja a tentar competir com o rei do disparate: "Esta é mais uma das características do sindicalismo. Cria grupos de privilégios que graças a um poder negocial acima da média conseguem viver à custa dos excluidos."




PS: Pelo meio adiciona-se mais uma declaração assertiva e que fica por demonstrar: os sindicatos nunca defendem os desempregados. E isto e isto, por exemplo, são o quê? Bastava googlar ou ir directamente ao site da CGPT e da UGT para ficar a saber. Já agora, até bastava olhar para o cartaz que convoca a greve de hoje para perceber que não é assim...

As lições da história

Lembro-me de estar sentado na Real Fábrica no Largo do Rato a conversar sobre o Iraque, o 11 de Setembro, a legitimidade da tortura etc com o cidadão Delgado Alves e alguns convidados dos EUA e do Reino Unido. Corria o longínquo ano de 2002. É interessante olhar para atrás e lembrar a fúria de alguns em alterar completamente os paradigmas legais e morais que nos têm guiado há 60 anos. Porquê? Por causa do 11 de Setembro.

Em 2002, zénite do reino intelectual neo-conservador e da 'guerra contra o terrorismo' (expressão entretanto oficialmente abandonada pelo Pentágono), alguns dos nossos convidados estavam preparados para invadir o Iraque com ou sem "segunda resolução"; achavam que as Convenções de Genebra eram na melhor das hipóteses uma relíquia do passado, mas mais provavelmente um perigoso obstáculo no caminho da luta eficaz contra o Mal; e, em geral, não conseguiam pronunciar as palavras Nações Unidas sem um esgar de desprezo: em todas as questões que os preocupavam - as armas de destruição maciça iraquianas apontadas às capitais do mundo livre e a necessidade de evitar mais ataques terroristas - as Nações Unidas não passavam de um 'talking shop' inútil e anacrónico, uma força de bloqueio nas mãos de países (França e Rússia, sobretudo) que sacrificavam os imperativos da luta contra o Mal (Iraque, terrorismo, tudo misturado...) em nome da mesquinhez do anti-americanismo e dos negócios do esquema oil-for-food. Era simples: os EUA e o Reino Unido estavam preparados a defender o mundo livre; Paris e Moscovo queriam defender os seus próprios interesses e a sua própria carteira. Ergo, quem quer que não alinhasse com as posições de Londres e Washington nos debate sobre Guantanamo e Iraque ... era acusado de ser porta-voz do Kremlin e do Eliseu...

Agora tudo mudou, e os apologistas da necessidade de desmontar a arquitectura legal e institucional globais estão ou mudos ou na defensiva. É bom ter razão. É bom ver recompensada pelos factos a decisão, nos anos difíceis de 2002/3/4, de não se deixar arrastar pelo ódio, pelo medo e pelo discurso do "este perigo é mais perigoso do que os outros perigos e justifica ignorar tudo o que a história nos ensinou."

Escrevo isto por causa deste artigo do New York Times. São artigos como estes que me levam a perdoar o NYT por não ter resistido à tentação, em 2002/3, de repetir a linha oficial da Casa Branca sobre as iminentes armas de destruição maciça iraquianas. Entretanto, o NYT desculpou-se e fez um tremendo mea culpa. Artigos como este demonstram que este jornal voltou a ser, senão o melhor do mundo, então o segundo melhor logo a seguir ao Público.
Uma passagenzinha para dar uma ideia:

"But some of the experts involved in the interrogation review, called “Educing Information,” say that during World War II, German and Japanese prisoners were effectively questioned without coercion.
“It far outclassed what we’ve done,” said Steven M. Kleinman, a former Air Force interrogator and trainer, who has studied the World War II program of interrogating Germans. The questioners at Fort Hunt, Va., “had graduate degrees in law and philosophy, spoke the language flawlessly,” and prepared for four to six hours for each hour of questioning, said Mr. Kleinman, who wrote two chapters for the December report.
Mr. Kleinman, who worked as an interrogator in Iraq in 2003, called the post-Sept. 11 efforts “amateurish” by comparison to the World War II program, with inexperienced interrogators who worked through interpreters and had little familiarity with the prisoners’ culture. "


terça-feira, maio 29, 2007

Um favorito pessoal



Dave Brubeck Quartet - Take Five

Actualização

Com 73% dos votos contados, Peretz continua em terceiro, mas a margem entre Barak e Ayalon diminui, mantendo-se este último à frente por apenas uma décima com 33,8%. Ao amanhecer veremos quem parte para a segunda volta como líder.

Elevação


A JSD optou por navegar a onda das declarações de Mário Lino, dignificando ainda mais o tema e credibilizando a discussão. Continuem assim que é mesmo deste tipo de dignificação do debate público que a República precisa...

segunda-feira, maio 28, 2007

O primeiro a cair

A primeira cabeça já começou a rolar em Israel. Peretz, Ministro da Defesa e um dos alvos do relatório Winograd sobre a condução da guerra no Líbano, ficou em terceiro lugar na corrida à reeleição no partido trabalhista, segundo as primeiras sondagens. A disputa irá agora para segunda volta entre Ehud Barak (33% nas previsões) e Ami Ayalon, antigo chefe do Shin Bet, que deverá ficar em primeiro lugar no escrutínio (39% nas previsões).
Palavra chave: Accountability.

Pelo menos um...

Parabéns ao Sporting e ao João, o único dos membros da Bóina que consegue ganhar alguma coisa este ano...



Empate


PP tem mais votos e fica o,6% à frente. PSOE tem mais mandatos e conquista algumas cidades. Resultado final: as eleições de ontem em Espanha não servem para previsões para legislativas.

domingo, maio 27, 2007

Obscurantismo

Isto põe-me doente. A foto é do ano passado.

quinta-feira, maio 24, 2007

Humor burocrata

Alguém na Imprensa Nacional Casa da Moeda meteu o pé na argola. Acabei de descobrir que existem dois Decretos-Lei n.º 50-A/2007: este e este.

quarta-feira, maio 23, 2007

E agora chegou mais este


Algumas propostas de Gonçalo da Câmara Pereira, candidato do PPM à Câmara de Lisboa:

Um barco à vela em cada escola.
Um festival de fado.
Uma Broadway nos Restauradores.
Hastear a bandeira do partido no Castelo de S. João no dia 16 de Julho.
O segredo para que tudo funcione: «filantropia».

Depois disto, Manuel João Vieira só pode pensar em apresentar uma candidatura a sério.

A verdadeira religião II - Catolicismo

Se repararem há dois argumentos importantes no arsenal reaccionário da direita católica:
1. Não acreditamos no progresso humano, já que este é um conceito que assenta num perigoso antropocentrismo em que não há lugar para aquilo que é imutável, permanente e infinitiamente bondoso e que se encontra num plano superior: Deus etc.; a Humanidade avança aos soluços, há avanços e retrocessos, e, como diria Giertych, o eurodeputado polaco citando João Paulo II: "se as mulheres andam aí a matar as suas próprias crianças [isto é, a fazer abortos] não admira que haja guerras"; quer dizer, vivemos numa época tão má ou pior do que outras em que o pessoal não fazia abortos;
2. A Inquisição e as Cruzadas: pois, foi desagradável, mas temos que compreender que nessa altura os valores eram outros, vivíamos noutros tempos.
Ora a segunda tese parece-me estar em manifesta contradição com a primeira. Houve progresso à brava entre a altura da Inquisição e agora (o mesmo se aplica às Cruzadas). Progresso. Objectivamente. Por isso é que podemos agora dizer que os tempos são diferentes e que seria inimaginável voltar a repetir tais crimes. Diferentes, porque melhores. Mas não admira que a direita católica tenha dificuldades em reconhecer este progresso, já que este aconteceu não por causa da Igreja, mas apesar dela, contra ela. Agora a resposta de alguém podia ser: "Mas como se pode falar de progresso depois do século de Auschwitz, da 2a Guerra Mundial, dos gulags etc. Não terá a Humanidade batido no fundo no século passado?"

E com este dilema todos temos que lidar.

A verdadeira religião?

Nunca percebi aquela abordagem ao terrorismo de inspiração islâmica que é dizer "aquilo não é o verdadeiro Islão; o verdadeiro Islão é uma religião de paz." Tenho para mim que é preciso um pouco mais de modéstia agnóstica quando se explica a um tipo que é muçulmano - e que quer limpar o sebo a alguém em nome do Islão - que ele não percebeu bem a religião dele. Da mesma forma, quando oiço dizer que aquilo das Cruzadas e da Inquisição foi um pequeno percalço desagradável, mas que não faz mal "porque aquilo não é o verdadeiro Cristianismo", a mim também me cheira a marosca.

As religiões são aquilo que as pessoas fazem delas. Não existem religiões violentas e outras pacíficas. As religiões, tal como qualquer paradigma ideológico, servem para justificar aquilo que nós quisermos. E, acima de tudo, o único 'fundo de bondade' que as religiões têm não é o 'fundo de bondade' da Religião, mas sim o do género humano.

Dude, where's my car?



Acabei de ver um senhor chamado Zoltan no elevador.

segunda-feira, maio 21, 2007

Perdi um amigo




Tenho uma grande simpatia pela esquerda latino-americana. Não se trata apenas de admirar o pedigree impecável da luta contra as ditaduras militares, ou da coragem de ter defendido um socialismo flexível e não-alinhado durante a guerra fria, ou do discurso pan-americano e universalista, ou da capacidade de evitar que décadas de torturas, desaparecimentos e assassinatos conspurcassem as jovens democracias com o espírito venenoso da vingança. Admiro acima de tudo a generosidade dos afectos, o heroísmo pessoal e a abnegação que transformaram os heróis da luta contra as ditaduras latino-americanas em heróis universais. Como as ditaduras latino-americanas - da mesma cepa que as ditaduras ibéricas - representaram acima de tudo o triunfo da mediocridade, da estupidez mesquinha e da brutalidade chauvinista, a esquerda latino-americana distingue-se por um dinamismo intelectual humanista e uma vitalidade cultural que imortalizou o destino do continente, e que nos põe todos em dívida para com ela.

Luís Sepúlveda é um dos representantes desta esquerda. Os romances dele que cheguei a ler (Patagonia Express, Mundo do fim do mundo, O velho que lia romances de amor e O Nome do Toureiro) marcaram-me. Ensinaram-me o radicalismo dos afectos, a importância política da empatia, o potencial revolucionário da generosidade. Ao fim de cada uma das suas obras, sentia a fasquia invisível da minha consciência moral e social elevar-se.

Já não lia Sepúlveda há muitos anos e recentemente ofereceram-me um livrinho de crónicas, chamado O Poder dos Sonhos. Ainda está lá tudo: a dor dos anos negros da ditadura, o ódio à injustiça, a generosidade dos afectos e o amor pelo género humano.

Mas neste livro também passei a conhecer um outro Sepúlveda. Por exemplo, um Sepúlveda de um anti-americanismo pré-histórico a cuspir veneno a torto e a direito. Nunca aparecem os EUA progressistas, berço de todo o tipo de movimentos emancipatórios, movimentos feministas, a esquerda dos Democratas etc.. O único fenómeno virtuoso da Grande Babilónia mencionado por Sepúlveda é o movimento cívico dos anos '60 e isso só para acusar Condi Rice e Colin Powell de serem (cito) "traidores da sua raça" por não estarem do lado dos 'bons'. Só existem Bush, Reagan e Kissinger. Como se o Chile de 1973 a 1990 fosse só Pinochet. Ou Portugal de 1932 a 1968 só Salazar. Sepúlveda repete todos os lugares-comuns da esquerda alter-mundista, sem aprofundar nenhum. Slogans. Elogia o poder dos sonhos, mas descreve o mundo como um único pesadelo milenar de opressores a esmagar oprimidos. Cai até na mais estéril das nostalgias da esquerda reaccionária que acha que "antes é que havia valores, hoje estão todos sentados no sofá a ver programas alienantes." E, claro, não podia deixar de fazer a referência ritual, icónica, previsível a Israel, "estado terrorista que assassina sistemática e selectivamente crianças e anciãos" (se não for uma citação exacta, as minhas desculpas, mas anda lá perto).

Estou triste, porque sinto que Sepúlveda e eu temos olhares idênticos sobre o passado, mas discordamos sobre o presente e sobre o futuro e eu quero muito concordar com Sepúlveda. Sem Sepúlveda sinto-me mais só.

Iluminismo? Que é isso? Ainda se te metesses na droga, pronto, que é de homem...!


[...]


Não é a religião que fica mal. Anselmo Borges escreve semanalmente sobre temas religiosos no mesmo DN e dá-me gosto lê-lo, ainda que por vezes não concorde com o conteúdo. Frei Bento Domingos escreve sobre religião no Público e também é leitura interessante e motivadora de debate. O que fica mal é o fanatismo de JCN e o facto de, numa coluna supostamente dedicada à temática económica, praticamente se falar de religião.

E quanto ao estudo de Jesus Cristo, meu caro João César das Neves, cuidado com a heresia que nem eu vou tão longe: não acho que o Jesus histórico seja um louco (já agora, é interessante o uso da expressão entre aspas, como se a palavra "histórico" e a perigosa carga de ciência que transporta tenha um conteúdo pejorativo). Claro que também não acho que seja filho de Deus, o próprio Deus ou uma qualquer parcela de uma eventual tríplice natureza de Deus. Contudo, isso não significa que não tenha interesse estudar a figura histórica, o seu papel no aparecimento da maior religião monoteísta do presente ou a sua mensagem filosófica, cuja raiz de não violência e de compaixão tantas vezes foi deturpada pelos seus supostos sucessores. Outras vez cientificismos meus, decorrentes de más influências dos malandros que escreveram a Enciclopédia, seguramente.

Já agora, não será que tentar culpar Diderot ou Voltaire pela guilhotina e pelos gulags é como, sei lá, culpar o tal Jesus "histórico" pela Inquisição ou pelo anti-semitismo de raiz católica?

domingo, maio 20, 2007

Descubra o Sarkozy que há em si

O corpo balanceado sobre o púlpito, dedicado à audiência, em vez da pose hirta de líder confiante. A voz modulada em vários tons, para fugir ao monocórdico, em vez de frases que culminam num arranhado de cana rachada, a sublinhar a ideia. E a rejeição da Turquia na União Europeia.

Está descoberto o novo ídolo de Paulo Portas.

Aquele que faltava e aquele que talvez volte

Ao contrário do que se esperava, o quadro final de candidatos para Lisboa volta a ficar em aberto. Telmo Correia é a aposta de Portas e pode ser que melhore o score da única sondagem conhecida até agora. De qualquer forma, há que não esquecer que a última vez que Portas escolheu Telmo Correia foi para disputar a liderança do CDS-PP e a coisa não foi famosa...

A baralhação resulta da decisão do Tribunal Constitucional quanto à data das eleições. Remetido agora para 15 de Julho o acto eleitoral, Carmona volta a pensar na candidatura, particularmente depois do que prometem as sondagens. As sucessão de eventos coisas é de tal forma rápida (ou eu estou de tal forma lento) que o último post que escrevi sobre o assunto dava Carmona como candidato garantido. Desde então, deixou de o ser e agora já está a pensar em voltar. Continuamos a aguardar.

sexta-feira, maio 18, 2007

Who knows?

Wolfowitz vai demitir-se.


Talvez se queira agora candidatar como independente à Câmara de Lisboa?

Goodbye Mr. Falwell



Tinky Winky já vai dormir mais descansado hoje, uma vez que não estará na lista de alvos a abater de um zelota homófobo e reaccionário.

quinta-feira, maio 17, 2007

Nem mais


17 de Maio - Dia Mundial da Luta contra a Homofobia



Duas notas sobre o dia de hoje:

1 - Pela primeira vez na história portuguesa uma entidade pública (a Estrutura de Missão para o Ano Europeu de Igualdade de Oportunidades para Todos, associada à Presidência do Conselho de Ministros e ao Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social) organizou um evento dedicado à discriminação em função da orientação sexual (foi na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o programa está aqui).

2- Num local até há pouco ocupado por uma mensagem de ódio e discriminação, a Rotunda do Marquês de Pombal, a Juventude Socialiasta assinalou a mensagem de igualdade que deve passar para todos. A intervenção do Secretário-Geral na Assembleia, aqui.
Ainda falta muito até conseguirmos assegurar a igualdade plena de todos e todas perante a lei(desde logo, não esquecer o banner no canto deste blog), mas cada dia que passa se dá mais um passo determinado nesse sentido.

Esquizofrenia alfacinha

José Miguel Júdice mandatário de António Costa.
Bloco de Esquerda propõe acordo a Helena Roseta.
CDU lança candidatura no Hotel Altis.

Só estou à espera de ver quem o CDS anuncia que vai candidatar para ver se começo a acreditar em sinais do fim dos tempos...

E agora Jacques?



Admira-me que não estivesse um carro da polícia à espera de Chirac hoje no Eliseu para finalmente começar a investigar os múltiplos casos em que o ex-presidente tem sido referido, mas dos quais tem sido poupado graças ao estatuto penal do chefe de Estado.

O "Roseta à direita"


Carmona avança mesmo.

E apesar de representar o independente à direita, confesso que não consigo conceber quem é que no seu juízo perfeito lhe daria o seu voto, depois da catástrofe dos últimos dois anos. Ao contrário de Helena Roseta, que invoca um exercício de cidadania e a vontade de reformar a cidade, Carmona oferece um exercício de falta de desprendimento e de vontade de continuar (?!?!?) o seu mandato. Cada vez mais interessante este acto eleitoral.

Bom senso

O exército britânico chegou finalmente à mesma conclusão a que todos os seres dotados de massa encefálica já tinham chegado: enviar Henry Windsor para o Iraque é um risco de segurança inaceitável. Invocando a vontade de demonstrar que o filho mais novo do herdeiro da coroa presta serviço militar de forma idêntica aos demais soldados, a hierarquia militar e a casa real preparavam-se para sujeitar os companheiros de armas do princípe a riscos acrescidos, a criar um foco de preocupação permanente para as forças da coligação e a abrir a porta a uma catástrofe desmoralizante caso algo corresse mal ou muito mal (por exemplo, se porventura Henry fosse capturado e mantido refém). O esforço para se demonstrar uma igualdade que verdadeiramente não existe num sistema monárquico que constitui a sua negação, leva a flops de relações públicas deste nível.

Ceci n'est pas un post sur l'Ecosse

Ia começar a escrever que não há novidades da Escócia e que os meus leitores iriam agradecer a folga. Contudo, fui ao site da BBC e lá me estragaram os planos - Alex Salmond, líder do SNP, foi eleito first minister escocês pelo parlamento, com a abstenção dos conservadores e liberais, votos a favor dos verdes e votos contra do partido trabalhista, e vai liderar um governo minoritário. History in the making? Ou instabilidade para breve? Veremos.

quarta-feira, maio 16, 2007

Hollywood e a antiguidade

Quando escrevi isto, nunca pensei que fosse dar nisto. Então querem ver que já não há espadas em Esparta?

Lembra-se?

Paulo Portas disse ontem que a saída de António Costa do Governo representa a colocação dos interesses do partido acima dos interesses nacionais, acusando Sócrates de calculismo partidário.
E já agora, sair do Parlamento Europeu e da Câmara de Lisboa deixando mandatos a meio para ir fazer outra coisa onde o CDS-PP estava sem candidato, does it a ring a bell?

terça-feira, maio 15, 2007

Futebol estrutural


Segundo o Público de hoje, Hermínio Loureiro defende que o Governo deve permitir aos clubes o acesso aos fundos comunitários, porque estes «são promotores do serviço público no que diz respeito à actividade física». Mais: «o futebol é um dos poucos sectores em que Portugal é competitivo no mundo».

Criação de postos de trabalho, investigação e desenvolvimento para quê? O que faz falta é um Cristiano Ronaldo em cada clube.

Outro Fergusson (sem Ronaldo)

O parlamento escocês elegeu o seu novo Speaker, o conservador Alex Fergusson. Uma vez que o Speaker tem de assumir uma posição de estrita neutralidade, não participando nas votações, os dois maiores partidos abdicaram de apresentar candidatos, uma vez que apenas os separa um deputado de diferença. Ou seja, tudo na mesma, sem coligações à vista, com os Tories a aproveitarem para assumirem a presidência do parlamento. Continua-se à espera de um Cristiano Ronaldo da política escosesa que remate para golo...

Betão

Ferreira do Amaral é apontado como possível candidato do PSD a Lisboa. Apesar da máxima de que à terceira é que é de vez poder ser um incentivo, será que o candidato que o PSD quer apresentar é mesmo o daquele militante que está sempre pronto para fazer os fretes eleitorais do partido, perdendo com dignidade? Acrescendo a isto o facto de um "homem do betão" ser a última coisa que os lisboetas querem aturar depois de seis anos de novelas do túnel.

Primeiro cônjuge


Uma investigação jornalística parece ter confirmado o que já se suspeitava depois da sua ausência no momento da votação: Cécile Sarkozy, futura primeira-dama da República Francesa, não depositou o seu voto na segunda volta das presidenciais. Sem prejuízo de isto poder ser um sinal interessante quanto ao juízo que os mais próximos fazem de Sarkozy, não pode ser mais do que uma mera trivialidade.

Levanto a questão porque no meio desta controvérsia, que já se arrasta parcialmente desde que surgiram dados na imprensa sobre o estado da relação conjugal, se questiona a vontade de Cécile em desempenhar cabalmente as funções de primeira-dama. Saber o que são estas funções de primeira-dama e se a sua existência faz sentido em Repúblicas da modernidade é que me parece ser a questão central (e digo isto num contexto em que, no caso português, se referir um gabinete de apoio ao cônjuge do presidente na lei relativa aos serviços da Presidência da República).

segunda-feira, maio 14, 2007

Igreja à antiga

Depois da relativa moderação de João Paulo II, este Papa reintroduz a adrenalina no debate sobre o papel da Igreja na sociedade e na história.

Por exemplo - a evangelização do 'Novo Mundo' pelos portugueses e pelos espanhóis? Um harmonioso encontro de culturas.

Parabéns!


Mensagem política subliminar da eurovisão 2007




A Turquia deu os seus 12 votos à Arménia.

domingo, maio 13, 2007

Aquilino ao Panteão. Já

Um grupo de Monárquicos do Fórum Democracia Real (um claro oximoro) pretende impedir, com esta petição, que Aquilino Ribeiro seja transladado para o Panteão Nacional.

Para além de se tratar de um dos escritores mais profícuos do princípio do século XX, Aquilino ajudou a fazer tombar um regime Monarquico que se provou incapaz de trazer o progresso e reduzir a desigualdade social, que se sentia com especial intensidade até ao 5 de Outubro de 1910, e que perdurou com a ajuda das divisões entre Republicanos, da Igreja e de Fátima, de Salazar e do Estado Novo até ao 25 de Abril de 1974.

Ainda assim, e a propósito de Aquilino Ribeiro, disse Salazar: "É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.". Isto apenas para dar uma referência de um totalitarista com que a maioria dos potenciais subscritores desta petição simpatizará.

É óbvio que, pessoalmente, nunca desconsideraria um regicida para honras de Panteão Nacional, mas a verdade é que nem os próprios autores desta petição ousaram relacionar directamente Aquilino com o regicídio, nem conseguem claramente provar a sua participação em actos de “terrorismo”.

Esta petição pretende apenas lançar uma dúvida mal fundamentada, no registo actual de culpados até prova em contrário, num processo merecido de “panteonização" de uma incontornável personalidade da literatura Portuguesa.

sábado, maio 12, 2007

o ppl n kurte bento16, lolol

João Paulo II promovia a Igreja pop fenómeno de massas. Não interessava que quem aparecesse conhecesse o dogma de fé da imaculada concepção de Maria ou outras admiráveis elaborações teológicas de séculos de actividade doutrinária sem as quais um católico não se pode considerar verdadeiramente como tal. Interessava é que aparecesse muita gente, porque multidão atrai multidão, e quantos mais forem melhor corre o negócio. O bem-estar espiritual da mensagem simples de Jesus Cristo é muito bonito, mas não vale de nada se não for complementado com o acolhimento amoroso no seio da Santa Madre Igreja. Assim é que Fátima é cada vez mais um hipermercado da fé, assim é que aumentam as pessoas que vão a Fátima a pé em busca da tripe suprema.

Bento XVI anda a pregar a sobriedade litúrgica no Brasil, um país onde ou se monta um show monumental ou os fiéis vão a correr para o teatro evangélico mais próximo. Desejo-lhe boa sorte porque acho que faz bem.

Apesar de em última análise os seus esforços se dirigirem a uma Igreja Católica cada vez mais moralmente conservadora, fechada sobre si mesma e pesada na vida de cada fiel, a verdade é que já é tempo de alguém pôr ordem na rebaldaria que João Paulo II trouxe. Mas a vida não lhe vai correr bem. Bento XVI já é a figura antipática que é. Se faz da missa uma celebração sóbria, mais concentrada na palavra do que na emoção, quem é que vai gostar do que vai ouvir?

sexta-feira, maio 11, 2007

Se ainda não fez, podia ter feito

Segundo uma testemunha anónima, Marques Mendes adjudicou hoje o desenvolvimento de uma aplicação para interligar a base de dados do Ministério Público com o sistema de gestão de militantes e detentores de cargos políticos do PSD.

Com o nome de código “Expulsão na hora”, este sistema informático procurará reduzir o tempo entre a constituição como arguido de um militante ou detentor de cargo e a respectiva expulsão ou exoneração. Segundo a mesma testemunha anónima, Marques Mendes terá subido a um pequeno banco e dito em êxtase: “É mesmo isto que precisamos! Poupa-se uma tgabalheiga e consegue-se expulsag logo os gajos, sem toda a chatice de uma análise política caso a caso”.

O projecto foi adjudicado a um sobrinho de um conhecido futuro ex-militante do PSD e perspectiva-se, logo no arranque desta aplicação, um elevado nível de transacções de expulsão e exoneração, bem como a realização de novas eleições antecipadas na Madeira.

O legado de Alegre

A decisão de Helena Roseta em avançar para a Câmara Municipal de Lisboa é claramente uma manifestação do legado da candidatura de Manuel Alegre à presidência da república, mas baseia-se no frágil mito da "intervenção cidadã" que surgiu com o aparecimento do Bloco de Esquerda e continuou com Alegre.

A obstinação de Manuel Alegre em seguir em frente nas eleições presidenciais, contra o PS, foi uma coisa boa que aconteceu à democracia portuguesa, porque permitiu libertar a acção política da lógica partidária. Muitos cidadãos mobilizaram-se em torno de uma candidatura e de um projecto político de uma forma como nunca sucederia em relação a um candidato apoiado por um partido. Mas a presidência da república é um cargo singular que se presta a uma pessoa como Alegre, que pode atrapalhar-se nas entrevistas e debates, mas que consegue ler e perceber o sentimento do país, e que sabe o que tem de ser dito em cada momento, ao contrário do actual incumbente, que não consegue passar das generalidades inócuas e das banalidades paternalistas. Nesse quadro, e na ausência de um candidato consensual de esquerda, a obstinação de Alegre fez sentido, e a sua candidatura acabou por ter muitos dos elementos característicos da democracia americana. Outra coisa é concorrer a eleições autárquicas.

Ao contrário do que sucede em Portugal, nos Estados Unidos não existe um direito dos partidos, enquanto associações públicas, de apresentarem candidatos a cargos públicos. As candidaturas são pessoais, não são partidárias. O partido apoia o candidato, o candidato adopta a referência ao partido (embora muito discretamente), mas a candidatura é apresentada em nome individual, não em nome do partido. Isto não se deve só ao facto de a quase totalidade dos cargos públicos serem de provimento uninominal e de não haver listas; deve-se também ao carácter individualista da sociedade americana e à tónica que é colocada na responsabilidade do indivíduo perante a sociedade. Nos Estados Unidos também não é o programa do partido ou as orientações do aparelho que ditam a escolha do candidato, mas sim a capacidade do cidadão de mobilizar apoios para uma plataforma, um conjunto de princípios e medidas que constituem a base programática do candidato. Daí que seja natural em cada eleição haver mais do que um candidato de cada partido.
Este sistema permite que os cidadãos se envolvam mais à vontade na política, porque, ao apoiarem uma candidatura, aderem ao candidato e à sua plataforma, não ao partido. Seria bom que em Portugal se evoluísse para uma forma semelhante de acção política, conhecido que é o descrédito que os portugueses têm em relação aos partidos políticos.

A candidatura de Manuel Alegre deu indicações de que há receptividade para evoluir nesse sentido, mas criou a ilusão de que as candidaturas independentes é que são boas e as dos partidos só representam a podridão do sistema, e esse é um erro crucial para a democracia que Helena Roseta se arrisca a cometer. Porque a sua candidatura, a acontecer, não tem no momento presente o mesmo cabimento que teve a candidatura de Manuel Alegre, e porque uma eleição presidencial não é igual a uma eleição autárquica, desde já porque para esta é preciso reunir uma equipa, e nesse caso a estrutura partidária é uma vantagem inestimável.

O que faz mais falta à democracia não é demonizar os partidos políticos, mas lutar por dentro para que estes sejam verdadeiras organizações pluralistas de intervenção cívica e política, e não meros clubes recreativos em que a acção política é feita pelo aparelho, enquanto que às bases resta fazer claque nas eleições e caravana na noite da vitória eleitoral.
O que faz mais falta à democracia portuguesa é criar o hábito de mobilização dos cidadãos para causas bem determinadas, para plataformas de entendimento, sem que a isso tenha que se seguir a criação de um movimento como o Movimento de Intervenção e Cidadania, que se dedica a várias causas que não têm outra relação para além da de integrarem a mesma visão de conjunto sobre a sociedade. Ou seja, o que o MIC faz é o mesmo que faz um partido, mas sem lhe dar esse nome, para não assustar os cidadãos. O MIC é agora para a democracia portuguesa o que o Bloco de Esquerda foi quando apareceu, com o resultado que se viu, e que não poderia ser outro - e a meu ver bem, embora eu já tivesse dado para esse peditório.

Helena Roseta seria uma boa candidata do PS à Câmara, e o PS faz mal em não a querer, se é verdade que foi isso que se passou. Mas, apesar de ganhar, para já, em ser a única figura motivada para gerir uma Câmara sobre-endividada e sem margem para executar um programa político, ao colocar-se de fora da maneira como se colocou Helena Roseta põe em risco qualquer possibilidade de um entendimento à esquerda que é já de si difícil, e contribui para aumentar a confusão do eleitorado quanto à existência de uma alternativa credível para a Câmara da capital.

quarta-feira, maio 09, 2007

Blair e a História


A cerimónia histórica de ontem em Belfast representa um dos maiores êxitos de Tony Blair. Não deixa de ser de assinalar que os únicos protestos que mancharam o evento no exterior tenham sido de opositores da guerra no Iraque, que aproveitaram a ocasião para se fazerem ouvir, deixando um irónico sumário do legado ambivalente de Tony Blair enquanto figura histórica...

Introdução à luta de classes

Assim que soube que tinha saído o DVD, corri a comprá-lo. Novecento, de Bernardo Bertolucci é um catecismo socialista. É tipo "Os Dez Mandamentos" de Cecil B. de Mille, ou qualquer épico bíblico, mas artisticamente muito mais bem conseguido. Não é só um filme grande (5 horas), é um grande filme.

terça-feira, maio 08, 2007

Arre, que é ruim II

Proponho um exercício mental para quem ainda não tenha visto SM 3: chama-se "detecte a simbologia cristã de um filme aparentemente tontinho".

Uma pista: libertação do 'mal' numa torre de igreja. E mais não digo.

Outra, "spot the Stars & Stripes".

Arre, que é ruim.

Só se safam os soberbos efeitos especiais: 30 minutos em 180. De resto, uma xaropada de primeira apanha. Quase tão mau como o Maria Antonieta da Sofia Coppola (também com Kirsten Dunst). Com a diferença de que no caso do SM 3 não há uma misericordiosa guilhotina a pôr fim ao despautério.

segunda-feira, maio 07, 2007

Laicidade qb

Os membros deste blog costumam ser ferozes defensores da laicidade, da laicização do espaço público português e de uma visão particular da história, em que a separação entre Estado e religião institucional é vista como um sintoma de modernidade e progresso.

O que se passa neste momento na Turquia serve de chamada de atenção para a importância do contexto (cultural e histórico) em que se analisam causas aparentemente universais, tais como a laicidade. Na Turquia, os guardiões da laicidade são os militares. Estes têm revelado tremendas dificuldades em se habituar à ‘normalização’ da vida institucional turca, que inclui, naturalmente, a aceitação da supremacia das instituições civis e democraticamente eleitas.

Ora, no passado dia 27 de Abril, o exército levou a cabo aquilo que o Economist chamou um “e-coup”, um “golpe militar electrónico”: colocou na website do CEMGFA uma ameaça velada de “intervir”, caso a “deriva islamista” das instituições civis não parasse. Já.

Sem entrar em descrições detalhadas dos aspectos mais recentes e enfadonhos desta suposta “deriva islâmica”, importa esclarecer que desde que o partido do Primeiro-ministro Erdogan (o AKP), chegou ao poder em 2002, a Turquia – um país cuja Constituição é quase tão laica como este blog – tem assistido a uma gradual (e saudável!) separação não entre Estado e Igreja, mas antes entre Estado e Forças Armadas. A Turquia abriu-se política e economicamente mais nestes 5 anos do que nos 20 anteriores. A este processo de modernização e emancipação da democracia turca da asfixiante tutela militar não foi alheia a (legítima) aspiração a entrar na União Europeia.

Muitos entres nós (o “crowd” laico) sentimos por vezes alguma indecisão entre dedicar a nossa empatia aos militares (laicos, ‘ocidentalizados’), ou aos adeptos do partido islâmico. Essa indecisão é agravada, no meu caso, por conversas que tenho com amigos turcos que exprimem angústia em relação à possibilidade de uma subversão lenta e intra-sistémica do Estado laico turco por parte dos ‘islamistas’. Também não é difícil encontrar declarações de Erdogan (dos seus tempos rebeldes, ainda bem longe do poder) bem venenosas em relação a uma certa minoria religiosa que recentemente fundou um certo Estado na região…

Mas no contexto turco, a alternativa ao islamismo moderado e virado para a Europa é o nacionalismo chauvinista, defensivo e autoritário dos militares e do partido fundado por Atatürk (Partido Popular Republicano…). Há que resistir à tentação de analisar o que se passa na Turquia fazendo uso de categorizações simplistas (laicos vs. anti-laicos). Seria infinitamente mais útil ver as coisas nos termos em que Olli Rehn, Comissário europeu para o alargamento, as descreveu hoje no Parlamento Europeu: a escolha da Turquia é entre “democratic secularism” e “authoritarian secularism”. São estas as opções na mesa, e não França vs. Taliban, ou Alemanha vs. Arábia Saudita.

Cabe à Europa ajudar a Turquia a cimentar a democracia e a laicidade e demonstrar que ambas são inseparáveis. A primeira sem a segunda fica incompleta; a segunda sem a primeira chama-se ditadura militar.

E todo o conhecedor da história de Portugal sabe no que dão ditaduras militares: regimes fascistas seguidos de guerras seguidas de revoluções populares seguidas de democracia
seguida de blogs revanchistas de miúdos queques com saudades dos tempos em que toda a gente sabia o seu lugar e usava chapéu. E nós não queremos isso para a Turquia, que é boa gente.

Números

Já que tanta gente está impressionadíssima com a força dos números da vitória de Jardim, que tal colocá-los em perspectiva matemática.

- Alberto João Jardim, vencedor das eleições regionais na Madeira com 90 339 votos.

- Lei das Finanças Regionais, aprovada por 121 deputados do PS, eleitos por 2 588 312 votos.

Get it?

Aspirina católica

Em Espanha teme-se o recuo dos valores católicos essenciais face ao avanço da epidemia de homossexualidade e do "revisionismo" de alguns movimentos da Igreja em voga na época da transição constitucional - Cristãos pelo Socialismo, Teologia da Libertação. O arcebispo de Pamplona dá a receita para tratar a doença de que enferma o país: «Comunión Tradicionalista Católica, Alternativa Española, Tercio Católico de Acción Política, Falange Española de las JONS têm um valor testemunhal que pode valer um voto, e poderiam constituir alianças importantes se conseguissem o apoio suficiente dos cidadãos católicos».

Não se morre do mal, morre-se da cura.

Mais sobre a lei do tabaco

Aquela que me parece ser a verdadeira questão sobre a lei do tabaco.

The Queens

Helen Mirren foi convidada para jantar com a rainha no Palácio de Buckingham. O discurso na noite dos Óscares caiu bem junto da monarca, que manifestou o desejo de conhecer a actriz. Encontrando-se a filmar nos EUA, Helen Mirren agradeceu o convite e pediu desculpa por não o poder aceitar na data proposta, uma vez que atrasaria as filmagens, demonstrando profissionalismo e respeito pelos compromissos assumidos.

Fontes próximas do palácio não tardaram em transmitir à imprensa notícias da "afronta" e passaram uma mensagem de insulto que não me parece corresponder de todo à atitude da actriz. Talvez fosse ocasião para os assessores da soberana se recordarem das qualidades da rainha que Mirren elogiou e que motivaram o convite: responsabilidade e sentido de dever.

Valem para todos sabem? Mas, enfim, talvez não saibam. Essa é já uma dimensão excessivamente republicana para ser apreendida por todos nos corredores do palácio...

Open race

Republicanos desiludidos aproximam-se de Obama. Hillary, watch out.

Mais escoceses

Já começa a parecer obsessão, mas eis que mais um escocês está nas notícias. Jack Reid, ministro do Interior britânico, anunciou que não continuará num governo com Gordon Brown, permitindo-lhe renovar o executivo e começar um novo ciclo. Rival de longa data de Brown, por vezes apontado como possível candidato alternativo à sucessão de Blair, Jack Reid sai num contexto em que não são claros os efeitos para o provável futuro PM. Reforça-o, desaparecendo um foco de oposição interna e com quem tinha um relacionamento difícil? Ou enfraquece-o, uma vez que perde um peso-pesado que sai da esfera mais controlado do Governo e regressa ao parlamento?
Time will tell.

Back to Scotland

Já perceberam que estou vidrado na Escócia. Novidades dos últimos dias adensam as incertezas. Primeiro, e depois de dizerem que, em princiípio, não se coligam com o Labour, os Liberais Democratas confirmam que se o referendo sobre a independência não sair da agenda dos nacionalistas, não há coligação possível (para o tripartido maioritário só os verdes deram, para já, assentimento). Governo minoritário do SNP com os Verdes é, pois, uma séria probabilidade.

De seguida, um possível efeito-Flórida pode avizinhar-se. Numa eleição em que o SNP apenas ficou à frente por um mandato, um trabalhista derrotado pondera uma impugnação judicial motivada pelo caos na votação e escrutínio que se verificou em vários locais. Caso avance, reabre-se a incerteza quanto ao maior partido.
Ainda a acrescer, temos a deputada independente Margo MacDonald, que poderá ser o fiel da balança no parlamento de Holyrood, a ponderar uma candidatura a Speaker do Parlamento. Como ninguém a quererá hostilizar, arrisca-se a poder ser eleita.
Finalmente, a espada de Dâmocles - ou há governo até finais de Maio, ou regressa-se às urnas. E regressar às urnas depois de Maio significaria regressar às urnas com outro inquilino em Downing Street, muito provavelmente um escocês...
SNP - 47 mandatos
Trabalhistas - 46 mandatos
Conservadores - 17 mandatos
Liberais Democratas - 16 mandatos
Verdes - 2 mandatos
Independente - 1 mandatos

Provocaçãozinha


Costumo ser pouco radical e provocador por estas bandas, aquilo que na gíria normalmente se descreve como um chato. Mas há pouco vi citada uma das frases de Sarkozy e só me lembrava da divisa do Estado Francês de Pétain, que arrumou na gaveta a trilogia republicana que encabeça, entre outros, este blog. Sarkozy prometeu: "Je vais réhabiliter le travail, le respect et la morale". A divisa do estado pétainista era: "Travail, Familie et Patrie".
Venham daí esses comentários indignados, que também tenho direito!

domingo, maio 06, 2007

As duas surpresas

PND e MPT elegeram, cada um, um deputado à Assembleia Legislativa Regional da Madeira. Confesso que esperava um bom score do PND, tendo em conta a campanha desenvolvida pelo líder regional através da técnica de stalker das inaugurações de Jardim, tendo até imaginado este cenário de eleição de um deputado. O MPT é que me apanha totalmente na curva - escapam-me provavelmente factos locais relevantes para a eleição de um deputado e até para a o resultado à frente do PND.





Uma explicação possível pode passar pelo score muito elevado do PSD e pelo score baixo do PS e os seus efeitos no método d'Hondt num cenário de círculo único. O PSD capitaliza claramente o estatuto de maior partido para efeitos de apuramento, mas é um efeito potenciador que tem limites a partir de uma determinada fasquia percentual. O PS, por seu turno, não beneficia do efeito potenciador do método d'Hondt para os segundos partidos uma vez que tem um score que, em sistemas de dois grandes partidos é, usualmente, de terceira força política. Neste cenário, não se dispersam votos, beneficiando todos os pequeneos partidos candidatos. De facto, coisa inédita, todos os partidos concorrentes estão representados. Pelo menos desta perspectiva, a mudança da lei eleitoral foi positiva e contribui para o maior pluralismo do parlamento madeirense (bem necessário nesta legislatura regional que se inicia).