
Ha alguns dias, assisti a um concerto numa igreja anglicana em Haifa, uma cidade conhecida em Israel pela sua importante populacao arabe. Grande parte desta populacao e' crista. Deambulando pelas ruas da cidade, o turista depara-se com um exemplo nao raro de coexistencia pacifica entre judeus, cristaos e muculmanos em Israel. Neste bairro em particular, profusamente iluminado por decoracoes natalicias, o incauto turista deve ser perdoado pela estupefaccao dificil de conter perante o 'Jingle Bells' em arabe que emana de uma qualquer loja...
Mas voltando a' igreja. Trata-se, como dizia, de uma igreja anglicana. Simples. So os vitrais dao alguma cor ao edificio. Mas o que mais surpreende quem nao e' destas paragens sao os escritos em arabe que decoram a biblia num desses vitrais...
O concerto consistia de varias obras de musica renascentista inglesa e francesa, tocada por quatro musicos, em instrumentos da altura.
E eu dei por mim a rir sozinho a pensar na beleza do momento: uma biblia escrita em arabe a decorar um vitral de uma igreja crista anglicana, numa cidade onde judeus, muculmanos e cristaos (e Bahais!) vivem lado a lado. E tudo isto a servir de enquadramento para ouvir musica europeia com mais de 400 anos. Mas acima de tudo senti o prazer acolhedor de tudo isto ser possivel no Estado Judeu.
Lembro-me de um atentado suicida na Universidade de Haifa, onde a diversidade religiosa da cidade permitiu ao terroista uma colheita igualmente diversa de estudantes de varios grupos etnicos e religiosos.
Aprendi ha pouco tempo que em 1970 (a 22 de Maio, para ser preciso), terroristas palestinianos atacaram um autocarro escolar na Galileia, numa aldeia comunal chamada Moshav Avivim (em portugues, 'Comunidade das Primaveras'). O condutor, 9 criancas e dois outros adultos foram mortos. Houve 19 feridos, entre os quais muitas criancas.
O Ministro da Defesa Moshe Dayan tinha introduzido em 1968 uma politica liberal em relacao aos Territorios Ocupados: livre circulacao de bens e pessoas com a Jordania e outros paises arabes; alguma autonomia do poder local; autorizacoes para trabalhar em Israel (que evidentemente nao existiam antes da Ocupacao).
Ocupacao e' ocupacao, dir-me-ao. Esmolas nao legitimam a ocupacao. Talvez. Mas nao me digam que e' a humilhacao do 'muro da Vergonha' e dos checkpoints que "provoca os atentados dos palestinianos desesperados". Em 1970, os israelitas que me acolhem iam aos Sabados ao mercado de Tul Karm fazer compras e empregavam toda uma familia de palestinianos para trabalhar durante as colheitas. As criancas de ambos os lados da fronteira aberta brincavam juntas.
A negacao estrutural do direito dos judeus a existir e a viver no seu Estado (reconhecido internacionalmente) por parte de sectores consideraveis da populacao palestiniana, e arabe em geral, constitui um elemento tao - eu diria ate mais - importante para compreender este conflito, como factores conjunturais: a Ocupacao de 1967 e as medidas repressivas israelitas.
















