quinta-feira, março 24, 2005

O Pai do Capitão Nemo


O Capitão Nemo levanta a sua bandeira e contempla os amanhãs que cantam Posted by Hello

Júlio Verne morreu há cem anos. Pretexto para falar do Capitão Nemo - uma das personagens mais bem trabalhadas que conheço na literatura.
É curioso dizer isto de um personagem de Júlio Verne, que, apesar de ser um dos mais celebrados romancistas do séc. XIX, privilegia a acção e o conceito da história sobre a densidade dos personagens, embora não se saia propriamente mal neste aspecto.
O Capitão Nemo é um indiano de linhagem real que se devotou à ciência e à causa da libertação dos povos contra a Némesis opressora do Império Britânico. Isto leva-o a aproveitar a tecnologia desprezada por muitos para construir o prodigioso Nautillus, que usa para percorrer o mundo através do fundo do mar, explorando-o, conhecendo-o e amando-o. E pelo caminho aterrorizando as frotas mercantes das potências mundiais. O mar torna-se a sua pátria.
O Capitão Nemo nutre um profundo gosto por tudo o que é belo, acumulando no seu submarino um impressionante acervo de obras de arte, e é dono de uma cultura sólida e despretensiosa, o que o faz uma versão engagé e menos diletante do nosso Fradique Mendes.
Apesar disso, o seu principal propósito na vida é libertar o mundo da opressão, dedicando-se a acções de combate nos mares e financiando movimentos de libertação nacional com recursos que obtém do mar.
O que Nemo faz é pela fraternidade humana, mas a questão que vai passando pela cabeça de quem lê as 20 000 Léguas Submarinas é: este homem não é um terrorista?
Provavelmente, sim. Isso faz-nos gostar de terroristas? Não.
A maravilha da personagem de Nemo está em ser herói e anti-herói, e em nos fazer empatizar com ele sem nos exigir um juízo de moralidade. Um pouco como que a dizer que em todos nós há algo de bem e de mal (se é que existe o bem e o mal).
Júlio Verne era um paladino do progresso científico, mas se não tivesse criado personagens como o capitão Nemo seria apenas um especulador, nunca um visionário.

sexta-feira, março 18, 2005

Tremenda desilusão

A esquerda moderna, progressista, que pugna por valores emancipadores, verdadeira herdeira dos valores laicos e republicanos que tão caros são aos autores deste blog, essa esquerda é fácil de encontrar: está em Espanha. Quanto mais acompanho os primeiros passos deste governo, mais temo que a liderança do PS tenha permanecido imune ao entusiasmo que grassa entre as forças progressistas ibéricas, e que tem as suas raízes na coragem do governo Zapatero em se dedicar aos temas da igualdade de género e dos direitos da comunidade gay.
Só alguns elementos para esclarecer o que acima foi dito (para um resumo fantástico da situação sugere-se a leitura do artigo da revista Visão de hoje, p.65): duas mulheres em 16 ministros; 3 mulheres em 36 secretários de estado. Porquê? Porque, aparentemente, segundo o PM, entre milhares de mulheres militantes socialistas e 5 milhões de portuguesas, não existem cidadãs com o mérito, a capacidade técnica e a visibilidade política necessárias para contribuir para um governo mais representativo.
Trata-se de um retrocesso em relação ao passado, uma distorção da presente realidade social do país, e, acima de tudo, uma oportunidade perdida para o futuro da modernidade portuguesa.

quinta-feira, março 17, 2005

Já não estava habituado

É verdade que depois de 4 meses de Santana Lopes as expectativas em relação à coerência dos governantes atinge níveis inacreditáveis. Talvez venha daí o meu espanto quando li a notícia Programa de Governo mantém principais bandeiras eleitorais do PS.
Então não é que os tipos mantém a mesma opinião passadas tantas horas de terem elaborado o programa eleitoral?! Nem sequer uma contradiçãozinha?!?! Nem sinal de uma proposta tipo esta for old times sake ?!

Portugal Antes de Santana e Depois de Santana


Posted by Hello

quarta-feira, março 16, 2005

And now for something completely different...

Para uma pequena ideia do que é dito nos media do Médio Oriente - especialmente em árabe - sobre assuntos tão diversos como Israel, gays e o 11 de Setembro, vale a pena vir aqui. Bastante edificante.

Lobby da batota


No Público online deparamos com uma informação muito esclarecedora, a respeito de um inquérito sobre a venda de medicamentos em supermercados. A pergunta formulada pelo Público é a seguinte: "Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?"
Num contexto em que apenas a Associação Nacional de Farmácias e a Ordem dos Farmacêuticos se pronunciam contra a medida anunciada pelo Primeiro-Ministro e em que a venda dos fármacos é tida por segura pelo Bastonário da Ordem dos Médicos e por benéfica para os consumidores pela DECO, este episódio vem esclarecer as dúvidas que ainda pudessem subsistir quanto à identificação de lobbies e interesses instalados nesta matéria.

Muito obrigado, sr. ex-Prim... uhm.. Presidente da Câmara!


A Boina Frígia vem por este meio agradecer ao recém-regressado Presidente da Câmara Municipal de Lisboa todo o seu empenho em não deixar a blogosfera sem assunto de conversa, a sua contribuição insubstituível para o florescer de centenas de milhares de linhas de textos humorísticos e satíricos e a sua capacidade para nunca deixar de nos surpreender.

De uma assentada temos direito à existência de novo tabu - a recandidatura - e a uma potencial guerrilha interna despoletada num PSD em clima de pré-Congresso: Aguardam-se certamente declarações de Luís Filipe Menezes para breve - se Rui Rio passou de bête noire a candidato mais indicado para a Câmara do Porto, também Santana estará em condições de recolher um apoio incondicional do autarca de Gaia.
Santana Lopes está determinado em demonstrar que em política se morre muitas vezes. O que é de admirar é a impaciência em recolher a nova certidão de óbito...

terça-feira, março 15, 2005

Nostalgias

Maria José Nogueira Pinto, em entrevista recente, deu mais uma vez provas do desconforto da extrema-direita do nosso espectro político com a democracia portuguesa, tal como ela se instalou em 1974. Ficamos a saber que "Portugal não tem um projecto nacional desde 1974" e que antes da Revolução de Abril "bem ou mal, goste-se ou não se goste, Portugal tinha um projecto nacional." A nostalgia mal contida parece-me pouco menos que obscena, tendo em conta tanto os crimes cometidos pela ditadura antes da Revolução, como os avanços em todas as áreas da vida colectiva do país desde então. Exemplos que MJNP provavelmente considerará boçais, são os números do Human Development Index das Nações Unidas sobre Portugal: em 1970, a taxa de mortalidade infantil (à nascença) era de 62/1000, em 2002 era 6/1000. Isto tem um nome: progresso. Deixe lá estar o 'projecto nacional', cara MJNP: um país que deixa a população doente, pobre e ignorante, e obriga milhões a abandonar as suas aldeias, vilas e cidades à procura de uma vida mais digna pelos quatro cantos do mundo não é um país, é um fracasso.

segunda-feira, março 14, 2005

Torquemada, esse querido

Há muito tempo que a coluna de opinião de João César das Neves no DN ameaça tornar-se um caso sério de humor, ainda que involuntariamente. Aqui na Bóina já temos o hábito de lhe dar um tratamento, embora não queiramos tornar o senhor num previsível ódio de estimação.
Contudo, é inevitável referir algumas passagens inspiradoras da doutrina cesarista, como é o caso do texto desta semana:

"A Igreja é hoje desprezada, insultada, perseguida. Isso é normal e comum. Foi sempre assim ao longo dos séculos, de uma forma ou de outra. Os evangelhos avisam-no, os salmos, profetas, epístolas e a História descrevem-no."

"Nos últimos dois milénios o mundo, que tantas vezes condenou a fé, instituição, política, missionação ou doutrina social da Igreja, concordou em geral com a sua moral sexual. Não era seguida e muita gente fazia o contrário, mas todos, mesmo os que a violavam, sabiam que a visão cristã da sexualidade era equilibrada, sábia, louvável."

E JCN faz mesmo referência às constantes e aborrecidas alusões às Cruzadas e à Inquisição feitas pelos que "censuram por intolerância e obsessão aqueles que apenas formulam a posição cristã", como o bondoso padre Lereno Dias, brutalmente enxovalhado apenas por lido trechos de documentos da Santa Sé no sermão de uma missa transmitida pela rádio.

É que, como se sabe, "a Igreja, aqui como sempre, tem as posições mais elaboradas e fundamentadas de todas".

Só esses malvados é que não vêm: "Voltam as alusões às clássicas cruzadas e Inquisição e apregoa-se o perigo de prisões e fogueiras que só existe em imaginações incendiárias. Os cristãos receberam ordens de combater os erros mas amar sempre os inimigos."

Porque afinal de contas, Torquemada era um sujeito adorável. Só não vê quem não quer ver.

sexta-feira, março 11, 2005

O que se segue?

"Vídeo do Vaticano mostra primeiras palavras do Papa depois da operação" Penso que é apenas justo perguntar: com que imagens nos irá brindar o Vaticano de novas estreias post-op do papa? Será mesmo verdade que as primeiras palavras do Papa no recobro da operação foram uma benção? Será que o papa fala Kiswahili com os "prelados da Tanzânia", nomeadamente com o cardeal Polycarp Pengo e o bispo Severine Niwemugizi? Será que o Cardeal Polycarp Pengo ficou satisfeito com o curto "está bem" do Papa?
Penso que a pergunta mais relevante é: Será que tudo isto tem interesse suficente para ser referido no site de um dos mais lidos diários Portugueses (sem contar com os desportivos)?

Mourinho a Presidente da Junta

"Qualquer dia, em vez de «isto só lá com um Salazar» vai-se ouvir dizer «isto só lá vai com um Mourinho»".
O Luís Delgado já o disse, como se pode ver aqui.

quarta-feira, março 09, 2005

Israel

O conflito Israelo-Árabe e Israel, em particular, são temas que esporadicamente me fazem sentir desconfortável na minha pele de 'esquerdista'. Da menina dos olhos da esquerda europeia, o Estado de Israel foi gradualmente gravitando em direcção a um estatuto de 'bête noire'. O mais tardar depois da Guerra dos Seis Dias em 1967, em que Israel conquistou a Península do Sinai, Gaza e a Cisjordânia, o pequeno país foi lentamente adquirindo as caracterísiticas de tema unificador de uma esquerda saudosa de grandes narrativas, causas, paixões. Esta tendência agravou-se evidentemente a partir do fim da Guerra Fria: o colapso da única alternativa ideológica às formas de organização política e económica europeias e americanas com vocação global, deixou-nos a todos com a horrível sensação que já só se discutem pormenores, detalhes, minudências. A grande narrativa marxista foi - algo injustamente - arrastada para o baú das memórias juntamente com os regimes ditatoriais do Leste da Europa. Tirando a Coreia do Norte e Cuba, há poucos estados que não levem a cabo reformas mais ou menos alinhadas com os consensos globais resultantes do colapso do sistema de Bretton Woods e do Muro de Berlim. Aparentemente, até o Mundo Árabe está a acordar por razões várias para as vantagens aparentes da abertura económica e política. Sem querer embarcar num discurso teleológico e/ou determinista, dá-me a impressão que caminhamos para uma situação em que os consensos vão progressivamente ocupando a maior parte da acção política, fazendo com que os grandes debates sejam empurrados para a esfera da política internacional. No caso português, a participação no projecto europeu, e o Pacto de Estabilidade e Crescimento em particular, são exemplos de compromissos estruturais que reflectem esses tais consensos fundamentais sobre questões tão variadas como política monetária, direitos humanos, ambiente etc. Que saudades, dirão alguns, das grandes lutas, dos tempos em que a política ainda movia multidões! Que saudades de temas verdadeiramente fracturantes! Enfim, que saudades de assuntos em que o zelo emancipador da esquerda pode ser posto à prova! Estamos fartos de discutir banalidades anestesiantes! Iraque: mandamos 120 tipos a cavalo ou 0? Economia: combatemos o desemprego com a melhoria das qualificações e com a diversificação do sector productivo ou com o relaxamento das leis laborais e a simplificação do sistema fiscal, acabando com o princípio redistributivo? Política monetária: não há debate, quem manda é o Ecofin, o Eurogoup e o BCE; Finanças públicas: 3%, 3%, 3%...
Eureka, ouve-se de Braga aos Urais! De Inverness a Palermo! Finalmente encontrámos os 'bons' e os 'maus': tanques contra crianças; um Estado armado até aos dentes contra civis; opressão contra resistência; a testa-de-ponte de Washington contra a encarnação colectiva da injustiça global. Os nossos medias confundem datas, factos, manipulam notícias etc, mas não se trata aqui de má fé. Trata-se, sim, de um grande alívio: finalmente podemos dormir descansados. Somos consumistas, só conhecemos manifestações das histórias dos nossos pais, gravitamos qual aristocracia global acima da miséria que aflige dois terços da humanidade: mas pelo menos chamamos nazis aos israelitas, comparamos Jenin a Auschwitz, dizemos que "eles deviam saber o que isto é; eles sofreram isto na pele", comparamos Sionismo ao Apartheid, sussuramos que "no fundo só deixaram que se fundasse aquela aberração daquele estado porque tinham má consciência", "aquele estado só causa problemas", "o maior perigo para a paz mundial"... Uma pequena novidade para a esquerda entusiasmada pelo conforto deste último conflito entre opressores e oprimidos: o 'problema', meus caros, não é o Estado de Israel, o 'problema' não começa em 1948. O 'problema' já existe há séculos nos ghettos, nos Staedtl, nas ruelas e nas grandes praças de todas as capitais europeias - com especial ênfase para o nosso Rossio. Para os Judeus, Israel não é o 'problema'. É a solução do 'problema' que nunca foi resolvido, que foi sendo arrastado, que foi assumindo diferentes formas, até que em 12 terríveis anos se esclareceram as últimas dúvidas, se ouviu o canto de cisne da experiência singular do judaísmo europeu, que tanto enriqueceu o nosso continente. O 'problema', cara Esquerda, é que a Europa, o Iluminismo, a Modernidade, falharam na assimilação e/ou na aceitação da diferença do Judaísmo no seu seio; o 'problema' é que nunca a Europa conseguiu fazer os Judeus esquecer Jerusalem, Israel.
Israel é a solução. E se os Judeus aprenderam alguma lição com o passado é que só podem confiar neles próprios para sobreviver. Trata-se agora de salvar a alma de Israel e não deixar que a legítima defesa passe a justificar toda uma panóplia de injustiças, violações do direito internacional, e a brutalização da sociedade. Para aqueles que não conhecem Israel só do Público, do telejornal e das conversas com os amigos, há todas as razões do mundo para ser optimista. Numa conferência organizada pela Fundação Friedrich Ebert (julgo que nos finais de 2003), e em que tomou parte, entre outros, Yossi Beilin (agora deputado pelo partido de esquerda - sim, de esquerda -Yahad-Meretz), este afrimava-se convicto, ao contrário da maior parte dos israelitas, que Yasser Arafat "merecia mais uma hipótese", mas apelava áqueles que demonizavam Sharon a dar-lhe igualmente o benefício da dúvida. Trata-se de afirmações corajosas de quem não teve medo de remar contra a maré, numa altura em que Arafat estava completamente desacreditado e Sharon tinha reocupado grande parte dos Territórios.
Hoje a situação é outra. Sharon, por motivos aparentemente oportunistas, tomou uma iniciativa unilateral: abandonar Gaza. Sharon, o "carniceiro", o "assassino" etc, abandonará Gaza. Aprendemos todos uma lição já antiga: no Médio Oriente nada é previsível - o governo de Begin, de direita, faz a paz com o Egipto em 1979, Rabin assina Oslo em 1993, Barak retira do Líbano em 2000, Sharon arrisca a maioria parlamentar, o governo e a vida para retirar de Gaza em 2005.
Para concluir, em nome da defesa dos direitos dos Palestinianos, certos sectores e indivíduos que se dizem de esquerda irrompem regularmente em delírios anti-sionistas, e até anti-semitas. Claro que este fenómeno tem a ver, até certo ponto, com a ignorância dos factos históricos, ao mesmo tempo que revela, no recurso permanente ao simplismo, o saudosismo pelas grandes narrativas. De facto, reflecte acima de tudo, uma tentativa de apresentar Israel como uma mera extensão dos EUA, um capricho da super-potência, criatura dos Poderosos, aberração neo-colonial. Israel, por vezes por culpa própria, liberta os instintos mais xenófobos e obscurantistas da Esquerda. Mas o que se vai sussurando, aquilo que durante a segunda Intifada veio à superfície em conversas e artigos, é que o próprio Estado de Israel é ilegítimo, um erro, um perigo para a paz mundial.
Se isto tudo forem delírios paranóicos, ainda bem. Adoraria estar equivocado. Mas enquanto Israel sentir que a opinião pública mundial, e a europeia em particular, continuam a tratar este tema como um fetiche, um tema sobrecarregado de simbolismos que lhe são alheios, confluência de todas as frustrações, aspirações, ódios e amores daqueles que querem um mundo mais justo, enquanto este for o caso, a sobrevivência continuará a ser a legítima prioridade de Israel.

terça-feira, março 08, 2005

Um pouco de Futebol - Lord Mourinho of Stamford Brigde

O Chelsea ganhou ao Barcelona e Mourinho tem assunto para não se calar por mais algum tempo.
No café onde vi o jogo foi uma festa, com toda a gente que nos últimos anos não podia com a arrogância de Mourinho a celebrar, porque agora que já não é do Porto, é de todos os portugueses.
Os portugueses festejam por causa daquela coisa muito portuguesa que é ficar contente quando os nossos fazem boa figura lá fora.
Assim, para os portugueses Mourinho é o gajo que não tem medo de se atirar com tudo para cima dos adversários e mostrar aos ingleses que o que é português é bom. Os ingleses, esses malandros que tanto mal nos têm feito ao longo da história com a sua arrogância e fleuma que só nos fazem sentir inferiores. Tomem lá para aprenderem, o melhor treinador da terra do futebol é tuga!
Mourinho não conquistou os portugueses pelo mérito que indiscutivelmente tem, mas por que é o modelo do português esperto, que pode dizer o que quer porque ninguém o cala (e sabe-se como Mourinho fica quando as coisas não lhe correm bem, como se viu quando perdeu a taça para o Benfica)
Em Mourinho os portugueses vêm o lider que gostariam de ter, o pai que nos motiva, dá carinho e manda bocas aos outros niúdos que se metem connosco, tal como faz com os seus jogadores.
Pelo que não admira que, qualquer dia, em vez de «isto só lá vai com um Salazar» se ouça «isto só lá vai com um Mourinho».
Isso é preocupante.

A minha primeira vez

Nesta minha primeira contribuição, gostaria de chamar a atenção para o dia que se celebra hoje: o Dia Internacional da Mulher. Enquanto as sociedades modernas em geral, e a portuguesa em particular, não tiverem conseguido criar uma verdadeira igualdade de oportunidades entre sexos em todas as áreas da vida pública, pugnando ao mesmo tempo por um conceito de vida privada, de companheirismo, que se baseie em simetrias, partilha e respeito entre iguais, enquanto, dizíamos, esta luta não estiver concluída, justifica-se a existência desta data.
Espero que esta nossa modesta tentativa de contribuir para o aperfeiçoamento da nossa República seja a primeira de muitas.
Viva a República!
E quando é que convidamos mulheres para o nosso blog, camaradas?

Vamos lá projectar isto

Agora que temos um counter creio que é chegada a altura de projectar este Blog, da blogosfera para o espaço exterior, criando condições para que conste do maior número de pesquisas possível do google ou de qualquer outro motor de busca.

Pensei inicialmente utilizar a estratégia banal de publicação regular de textos rigorosos com conteúdos relevantes até conseguir atenção do público e de forma sustentada aumentar o nosso recente counter. Esta estratégia, ainda que muito válida, não corresponde a um certo espírito progressista que pretendo manter no âmbito do choque tecnológico, pelo que optei pela mais imediatista publicação de palavras-chave que nos irá pôr nos píncaros dos indicadores de relevância em todas as pesquisas.

Prometo para este efeito usar "little or no offensive material, apart from four cunts, one clitoris and a foreskin and as they only occur in this paragraph you are past them now".

Mas deixemo-nos de Monty Python para procurarmos engrossar as fileiras de visitors com as mais altas patentes da "Intelligence" Estadounidense com os clássicos Kill Bush, Osama Rules, God is Alá's bitch, Free Irak, Communism, Michael Jackson sister's boobie e Free donuts. Como temos neste preciso momento algumas das mais brilhantes mentes do mundo a sondar este blog em busca de pecaminosos conteúdos anti-americanos, quero assegurar que vimos em paz e que até gostava de ver o Freitas do Amaral a cantar 'gospel' com a Condoleezza Rice ou o YMCA como o Colin Powel.

Creio que agora é mesmo só sentar-me aqui a olhar para o contador de visitors a subir desalmadamente, enquanto fumo um charuto, bebo um whisky, esboço um esgar de satisfação e leio o Lolita (+30% das pesquisas google) ou o Animal Farm (+10%) porque também nisto dos blogs há uns mais iguais que outros.

P.S. – Para quem quer ter a certeza que a Galiza é Portugal (e desfrutar de um bom filme pelo caminho) vale a pena ver o Mar Adentro e ouvir mais um sotaque Português

Nova Galeria de Presidentes do CDS-PP



Oscar Wilde do Caldas

Certamente incomodados pela impossibilidade de expulsar Diogo Freitas do Amaral do partido, uma vez que este se antecipou uma dezena de anos e saiu pelo próprio pé, o ainda Secretário-Geral do CDS recorrereu aos serviços dos Correios de Portugal (ex-CTT) e decidiu enviar a foto oficial do seu ex-líder para o Largo do Rato. A justificação mais provável deve prender-se com a necessidade de arranjar espaço para o futuro líder do partido na galeria do Caldas.
Esta traquinice deselegante é inconsciente e resultado de ausência de ponderação ou é produto do esforço concertado de dirigentes sedentos por atenção mediática gratuita a qualquer preço (incluindo o do ridículo)?

S. Pedro ligue no Canal 1 que estão a falar de si

A RTP decidiu fazer um directo a partir de uma igreja onde se rezava por chuva. Pergunta a jornalista da televisão pública:
"Sr. Padre, como é que se explica que depois de tantas novenas, tantos pedidos a Deus, continue sem chover?"

Se ela estava a falar a sério e aguardava uma explicação racional, é triste.
Se estava a tentar desmascarar alguém, confrontando o pobre pároco com a contradição entre o científico e o religioso, é do mais anticlerical a que temos vindo a ser habituados.

Apesar de tudo, aposto na primeira hipótese...

segunda-feira, março 07, 2005

Post a partir da Cova da Beira

Escrevo este post a partir da Universidade da Beira Interior, na cidade da Covilhã, uma cidade que se soube reinventar após o declínio da indústria têxtil local: a aposta na Universidade é uma aposta ganha.

Ao nível das instalações, a UBI encontra-se entre as instituições de ensino superior mais bem equipadas - estação de rádio e estúdio de televisão para os cursos de Comunicação Social, grau de informatização notável, antigas fábricas convertidas em anfiteatros e salas de aula com respeito pela traça urbana tradicional. A Faculdade de Ciências Médicas, por seu turno, representa o mais recente progresso da Universidade e vai certamente aumentar o número de alunos que optam pela Covilhã como primeira escolha.
A própria cidade ganhou novo rosto graças ao Programa Pólis: requalificação urbana, despoluição de cursos de água e aposta na proximidade à Serra da Estrela para atrair turismo.
Determinante para todos os desenvolvimentos apontados é a Auto Estrada da Beira Interior, a A23, que ao reduzir as distâncias permite à cidade colocar-se mais próximo do litoral e da fronteira espanhola (criando um potencial e muito interessante eixo universitário com Lisboa, Coimbra e Salamanca).

sexta-feira, março 04, 2005

And now for something completely different

Freitas do Amaral é o novo ministro dos negócios estrangeiros.
Confesso que gosto do Freitas. Até há bem pouco tempo eu era dos que dizia que era das poucas pessoas credíveis à direita, porque até então o via, não como alguém que imigrou para a esquerda, mas apenas como o representante da direita com juízo.

Confesso, no entanto, que me enganei redondamente.
Ele bem pode vir dizer que o faz por superior interesse da nação - mas já não há volta a dar.
Benvindo a bordo, camarada Freitas.

Tinha de ser...

No blog republicano não podia faltar o comentário ao Padre Serras Pereira, descrito pelo DN de quinta-feira como "clérigo obscuro" . Apesar daquele jornal provavelmente se querer referir ao grau de notoriedade do referido cidadão, a qualificação assenta como uma luva se considerarmos os demais sentidos possíveis da palavra (eu acrescentaria um sufixo - obscurantista é ainda mais preciso).

Desautorizado pela hierarquia da Igreja e desacreditado pela esmagadora maioria dos comentários publicados, o Zelota da semana aguarda certamente com expectativa pela próxima segunda-feira, para poder ser defendido e vindicado por João César das Neves na sua coluna semanal.

Apesar de tudo, o que eu mais admiro na opinião expressa pelo referido prelado é a insuperável capacidade para a contradição elementar: se a argumentação contra o aborto, o uso do preservativo e de outros meios contraceptivos assenta na defesa do direito à vida, como é que é possível defender que a inseminação artificial é igualmente pecaminosa? Não se destina a reprodução medicamente assistida a gerar vida humana, auxiliando casais com dificuldades em engravidar?

O DN informa-nos ainda de que o cavalheiro em questão é citado pelo Partido Nacional Renovador no seu site. Diz-me com quem andas...


Não deixa de ter piada...

Tentem explicar esta.

80 cidadãos portugueses residentes no estrangeiro (em ambos os círculos) votaram no PNR. Será que aqueles que residem em França também votam na Front National?


Residentes no Estrangeiro e Proporcionalidade

É urgente repensar a participação dos cidadãos portugueses residentes no estrangeiro na eleição da AR. Contados os votos, o PSD elegeu 3 Deputados (2 Fora da Europa e 1 na Europa) e o PS 1 (Europa). Contudo, em números absolutos de votos nos dois círculos o PS teve aproximadamente mais 1800 votos que o PSD - na soma dos dois círculos contam-se 15883 votos para o PS e 14011 para o PSD.
Os resultados eleitorais revelam ainda que uma ligeira alteração na correlação de forças pode implicar (como já implicou) uma inversão do número de eleitos. Se o PS tivesse retirado cerca de 160 votos ao PSD no círculo da Europa teria conseguido eleger os dois Deputados. No círculo de Fora da Europa, idêntica transferência de votos teria conduzido à eleição de um Deputado por cada partido. Resultado final hipotético: 3-1 a favor dos Socialistas (como em 1999).
Assim sendo, uma reforma minimalista justifica-se desde já: fundir os dois círculos como forma de garantir um melhor aproveitamento dos restos. Num cenário de círculo único, cada Partido teria obtido 2 mandatos, resultado esse verdadeiramente proporcional. Trata-se, aliás, de um medida igualmente urgente nos círculos eleitorais de pequena dimensão, particularmente Évora, Beja ou Portalegre - neste caso o caminho deve passar pela criação de um círculo único para todo o Alentejo.

Penso, contudo, que devemos ir mais longe. No Círculo Eleitoral da Europa estão inscritos 75 803 eleitores e no Círculo Eleitoral de Fora da Europa, 72 575, elegendo cada um 2 Deputados. De momento, o número de deputados a eleger pelos círculos da emigração não apresenta, aparentemente, qualquer desvio em termos de proporcionalidade face aos demais círculos. O círculo de Portalegre (elege 2 Deputados) tem cerca de 100 mil eleitores, não ficando longe do número de inscritos em cada uma daquelas circunscrições. Já o círculo de Bragança (elege 4 Deputados) tem perto de 150 mil eleitores, próximo da soma dos dois círculos de residentes no estrangeiro.

Todavia, se considerarmos que no círculo da Europa apenas votaram 30% dos inscritos e que no círculo Fora da Europa votaram 18%, facilmente constatamos que os números do recenseamento estão longe de representar a participação eleitoral dos residentes no estrangeiro. Por outro lado, se todos os cidadãos portugueses residentes no estrangeiro decidissem recensear-se (não esqueçamos que a Lei da Nacionalidade é bastante generosa em relação aos luso-descendentes), estaríamos perante um gigantesca desproporção - 4 deputados para uns potenciais 4 milhões de eleitores...

Deve, pois, haver lugar a uma reponderação profunda das regras - impondo um número máximo de anos a residir fora do território nacional como critério para o recenseamento (como o fazem o Reino Unido ou a Alemanha) ou acabando com os círculos da emigração através do recenseamento dos residentes no estrangeiro na circunscrição da sua última residência em território nacional.

Sem alterações, o quadro vigente apenas oferece algum charme, desde a expectativa de mais de uma semana até estarem contados todos os votos (particularmente entusiasmante quando uma eventual maioria absoluta depender do resultado) até ao cheirinho a jogo de futebol internacional, do tipo Europa contra o Resto do Mundo...

NOTA - O presente post foi escrito tendo por base os resultados disponibilizados no site do STAPE. Contudo, os números que se encontram nas notícias do Expresso Online e do Diário de Notícias são diferentes. O Expresso noticia mesmo que o PSD apenas elegeu o seu Deputado na Europa por 5 votos. Fica por esclarecer quais os números correctos - esperemos que sejam os do STAPE...

Diários de Referências

Confeso que hoje li o 24 Horas.
Há, contudo, uma boa razão: ao colocar um anúncio no jornal é-nos oferecida uma cópia do DN e outra do 24 Horas (é certo que podia não o ter lido, utilizando-o para embrulhar peixe ou para recortar letras e enviar ameaças anónimas, mas se assim tivesse feito não tinha agora tema para este post...).

Escreve o Director do referido jornal, Pedro Tadeu, o seguinte editorial:

"Vai uma nervoseira nos jornais da concorrência em relação aos nomes do Governo de José Sócrates. E a possibilidade de António Vitorino não ficar no executivo fez palpitar os corações de muitos jornalistas. Também se especula sobre a possibilidade de Manuela Ferreira Leite ir disputar a liderança do PSD a Marques Mendes e Menezes. É tudo, sem dúvida, muito importante para o País mas, desculpem lá o mau jeito, o que impressiona mesmo a opinião pública são os nomes das nossas novas Belas & Perigosas. Isto é que é uma equipa!"
Para quem não é leitor assíduo do 24 Horas, "Belas e Perigosas" é uma secção (que ocupa as páginas 2 e 3 do jornal), em que várias jovens modelos noticiam os pontos altos da vida social portuguesa - jornalismo crítico e acutilante, portanto.
Na óptica do director, a contratação da novos talentos para a referida coluna e a sua apresentação em estilo quasi-Maxmen é seguramente mais relevante que o futuro Governo ou a campanha interna no PSD, notícias claramente menores. Há que dar graças por uma imprensa livre e vigilante. Se assim não fosse, o público seria entediado com notícias sobre o futuro titular das Finanças em vez de ser colocado a par da Campanha "Somos pelos Cães" e da saúde da Juanita, a amiga canina de Cinha Jardim.
Levanto ainda a hipótese académica de se tratar de um sublime exercício de ironia cósmica por parte de Pedro Tadeu. Por favor convençam-me...

O frio que faz lá dentro

Mas que governo é este que se faz sem dar cavaco (está bem, a expressão é infeliz...) a ninguém?
O povo quer é circo, os abutres querem carne, e só nos dão sobriedade. Está tudo escondido com o frio ou quê?

terça-feira, março 01, 2005

Também, com o frio que faz hoje...

Hoje li uma notícia que me surpreendeu um pouco: "Associação de municípios vai processar Saldanha Sanches" . Ao que parece o Dr. Saldanha Sanches (O fiscalista) vai ser processado pelo Dr. Fernando Ruas (O camarário) por ter declarado ao "Diário de Notícias" (O Diário) que um elevado número de autarcas portugueses exigem "luvas". Até parece mentira que um jurista de renome como "O fiscalista" se negue a reconhecer o direito das pessoas se protegerem do frio. Ao menos o delator não foi o Dr. Jorge Miranda (O constitucionalista).

Após algumas breves entrevistas de rua que levei a cabo hoje apurei que José António Silva (O pedreiro), Luís Pedro Santos (O servente) e outros que preferiram manter o anonimato também têm frio e gostariam de contar com “luvas” no exercício da sua profissão, mas não têm, como os nossos autarcas, coragem (A lata) de as exigir.

O que acho estranho é que “O camarário”, suposto protector da classe, ande a exigir a “O Fiscalista” que denuncie publicamente esses corajosos colegas que lutam pelo justo direito às “luvas”, ameaçando inclusive “O Fiscalista” de o considerar “como da outra vez, um aldrabão”. Ao que “A boina” conseguiu apurar, “O fiscalista” não dorme direito desde “a outra vez”.

É neste contexto que eu apelo à sociedade civil para se organizar na oferta das “luvas” aos nossos pobres autarcas para que estes deixem de câmarear de “mani pulite” e de sofrer de frieiras e outros males. Estimo que, se todas as pessoas que já pagaram “luvas” uma vez, contribuírem com um escudo, conseguimos calçar de luvas o equivalente em autarcas a metade de uma pequena província chinesa.